Depois de mais de 30 anos de história, o grupo é eternizado em documentário produzido por uma das maiores plataformas de streaming do mundo
por
Dayres Vitoria
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24/11/2022 - 12h

Em 1988, surgia um dos maiores grupos de rap no Brasil. Mano Brown,  Ice Blue, KL Jay e Edi Rock, quatro amigos pretos, com vivências de periferias, que queriam levar as reflexões a respeito do país através de suas letras autorais para as próprias quebradas. Hoje, com mais de 30 anos de carreira, eles não deixam de fazer história. 

Inspirados pelo disco Tim Maia Racional, o síndico do Brasil, definiram juntos um nome para o grupo: “Racionais”. Já na década de 80, gravaram as primeiras músicas que entrariam para a coletânea Consciência Black - Vol. I, Tempos Difíceis e Pânico Na Zona Sul.  

Em 1990, lançam o primeiro EP, Holocausto Urbano e em seguida Escolha O Seu Caminho. Em ambas primeiras obras escritas pelo grupo, eles já abordavam os principais problemas que até hoje mais atingem as comunidades: a desigualdade social,  o racismo escancarado e a violência policial exacerbada direcionada às pessoas periféricas. 

Diretamente de São Paulo, os quatro integrantes são considerados por muitos os pais do hip hop no Brasil. Respeitados dentro e fora das periferias, são referências para aqueles com as mesmas origens, que possuem consciência de quem são e principalmente daqueles que almejam por mudanças significativas para si e para os semelhantes das favelas.

Agora, o legado de luta é eternizado também em formato documentário. "Racionais: Das Ruas de São Paulo pro Mundo", lançado em 16 de novembro pela plataforma Netflix, mostra as origens e ascensão do grupo.  No longa, os quatro mc’s “passam a visão” sobre a realidade do Brasil que tanto difundiram ao longo dos anos através do rap. A produção se trata de uma espécie de testamento para o estilo que acima de tudo é político. 

Hoje, com todos acima dos 50 anos e no auge, seguem fazendo shows pelo país e esgotando as bilheterias.

Entre os mais velhos e inclusive entre a nova geração, os prediletos do rap continuam sendo uma das referências máximas quando o assunto é “mandar a real” sobre Brasil.

A resistência do Brasil é sinônimo de existências com muita luta.
por
Luísa Ayres Dias de Oliveira
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03/11/2022 - 12h

Resistência no Brasil sempre foi pauta de quem luta para existir. Para existir além das estatísticas, além dos números de vítimas do feminicídio, do ódio, do racismo, da homofobia, da intolerância. Para existir em vida, e não em lembrança.

Resistiram aqueles que sobreviveram à Covid-19. Mas não respiram mais aqueles que dependiam do oxigênio até seu último suspiro. Antes fosse todo esse luto da extrema direita, luto por essas vidas.

Resistiram aqueles que levantaram bandeiras coloridas, que brilhavam na Avenida Paulista. Infelizmente, muitos desses agora só brilham como estrelas de gente que se foi - e que não estará aqui para ver que o arco íris aparece depois da chuva.

Resistiram os de pele preta, de cabelo armado. Ora que ironia, quantos negros foram vistos armados sem arma na periferia? Foram acertados como alvos perfeitos por balas supostamente perdidas?

Resistiram os estudantes, aqueles que comiam merenda de menos de um real por dia. Aqueles que não sabiam mais se a educação ainda podia ser a saída. Eis aqui os que tinham medo de faculdades serem invadidas.

Resistiram também aqueles que desde que Brasil significa “vermelho como uma brasa”  assistem as florestas queimarem. Infelizmente, nem todos estarão aqui para um dia ver a mata poder respirar.

Enfim, resistiu o jornalismo. E mostrou que sempre existiu para esse fim. Que a caneta ainda é a arma mais poderosa e que a voz de um povo em meio a tanto silêncio pode incomodar.

Re – existir. Prefixo, aquilo que antecede.

Exist - ência – sufixo, aquilo que sucede.

E aqui estão sucessões daqueles que nos antecederam, que lutaram antes, que re (exisitiram) antes disso – que ficaram para a história depois de tudo isso.

Só quem viu as ruas com corpos nas valas e a fila do osso cheia, sabe o que significa, ao mínimo, ainda existir nesse país.  Só quem perdeu alguém para a Covid-19 sabe o prazer de respirar. Só quem espera 30 de outubro há 4 anos, sabe a importância de ir para a rua e gritar: Fora Bolsonaro! Só quem conhece bem o vermelho de sangue, sabe como ver os espaços públicos vermelhos – agora de esperança,  gratificante.

Foram 4 anos que reavivaram o que existe de pior na história do Brasil há mais de 500. E serão mais 4 em que, apesar da derrota nas urnas, o bolsonarismo ainda assombrará a democracia como uma alma penada – um espírito de alguém falecido, mas que não se conforma com tal condição. Uma figura que tem o poder de assustar e estar em todos os lugares.

E é por isso que se anseia que os tambores ainda toquem, que os chocalhos ainda evoquem, que os livros ainda contem e que o povo ainda provoque.

Que continuemos sendo resistência. Que o Brasil re (exista) nessa nova vigência.

A atual situação social do país é o próprio roteiro da não reeleição de Bolsonaro
por
Gabriela Figueiredo Rios
Victoria Leal
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30/10/2022 - 12h

O Brasil de Bolsonaro (Foto: Sergio Lima/ AFP)

            Ninguém aguenta mais ouvir, do Ipiranga às margens plácidas, que 688 mil mortes por covid-19 não foram suficientes. Jair Bolsonaro continua com 44% das intenções de votos, segundo a última pesquisa do DataFolha (28). Apesar do ex-presidente Lula estar à frente, com 49% das intenções, as eleições de 2022 para presidência se sustentam em um clima acirrado, mesmo que as opções existentes sejam o completo desastre ou a oportunidade de mudança.

            O presidente vem dando vislumbres do que será seu governo caso seja reeleito. O governo federal anunciou, na última sexta-feira de setembro (30), às vésperas do primeiro turno, um bloqueio de mais de 1 bilhão nas verbas de custeio para educação superior do país, por meio do Decreto 11.216. O contingenciamento na educação chega a 2,4 bilhões, somando com os bloqueios de 1,34 bilhão, anunciados entre julho e agosto. 

            Ainda, na última sexta-feira (14), a Polícia Federal prendeu os primeiros investigados por crimes relacionados ao orçamento secreto, este que o governo Bolsonaro usa para destinar verbas públicas a fim de atender deputados e senadores sem que sejam identificados. Em janeiro, o Diário Oficial divulgou a sanção do Orçamento anual contendo o fundo eleitoral - o qual Bolsonaro sempre criticou o uso, por ser dinheiro público, e hoje gasta milhões deste para se promover - e, ao mesmo tempo, cortes de 3,2 bilhões nos ministérios do Trabalho e da Educação.

 

Na investigação feita pela revista Piauí no caso das prisões, as prefeituras de municípios do Maranhão registravam atendimentos médicos que nunca existiram e enchiam o cofre com dinheiro advindo das emendas parlamentares do orçamento secreto, confira clicando aqui.

            No governo Bolsonaro, 33 milhões de pessoas passam fome, segundo a rede PENSSAN, mas para o Presidente, a fome é por desinformação, quem usa auxílio emergencial não passa fome. 

O claro interesse de Jair Bolsonaro em desmontar e inviabilizar por completo a educação pública - que sempre demonstrou resistência a governos autoritários - colocar sob sigilo de 100 anos um cartão de vacina, distribuir o dinheiro público por debaixo dos panos, beneficiando sigilosamente senadores e deputados, incitar a violência entre os eleitores e os responsabilizar pela situação de miséria instaurada no país, demonstram que seu objetivo é, e sempre foi, se blindar contra qualquer responsabilização criminal ou de negligência com a população brasileira, que é, em sua maioria, dependentes dos serviços públicos básicos do Estado, ou seja, a prioridade.

 

O QUE É, O QUE É, DEMOCRACIA ?   

 

A “democracia” de Bolsonaro não é democracia, e, além de se blindar e blindar sua família, o Presidente trabalhou quatro anos para destruí-la. Em entrevista, a historiadora e professora da PUC de São Paulo, Heloisa de Faria Cruz, aponta que “ela [a democracia] é um regime que respeita e dá lugar para as minorias, então, desde que ele [Bolsonaro] concorreu em 2018, teve como adversários políticos as minorias que pensam ou fazem diferente dele, logo essas pessoas deveriam ser abolidas”.

            “Bolsonaro tem um profundo desrespeito pelas instituições, ele diz que vai governar nas quatro linhas da Constituição, entretanto já fez diversas Pacs alterando a Constituição de 1988, para que ela seja moldada à sua maneira. Nós temos um congresso extremamente conservador hoje e se ele for reeleito, sem dúvidas, agora  com o orçamento secreto, grande parte do congresso vai estar com ele - Bolsonaro tem propostas de aumento de vagas no TSE para ter mais pessoas alinhadas com ele - servindo para manobras como o procurador geral da República, que ao invés de defender o povo contra os poderes defende os malfeitos do presidente”, completa a professora. 

            Quanto à um cenário de reeleição e a completa instauração de um governo autoritário, o cientista social e atuante da área de ciências políticas, Eduardo Viveiros de Freitas, afirma que “não se trataria, no caso desse desastre se concretizar [a reeleição], do golpe tradicional com articulação militar-civil e apoio externo, violência explícita contra opositores políticos etc. Mas do aprofundamento, com táticas de guerra híbrida, aprofundamento da "guerra cultural" e da instalação de um arremedo de democracia, uma fachada que não se sustentaria num mundo onde a informação e o debate políticos fluem na velocidade das plataformas digitais. Como diz o candidato a autocrata, o jogo seria jogado dentro das "quatro linhas" de uma Constituição descaracterizada, principalmente em seus fundamentos democráticos, mas em nome do que podemos chamar de “fakedemocracia”. O Poder Judiciário seria ocupado, no todo ou parcialmente, por esbirros do autocrata, e uma "vitrine" democrática seria mantida com eleições manipuladas e um Congresso servil, corrupto, submisso.”

            Eduardo ainda explica que “hoje uma ditadura se instala, ironicamente, apelando para valores que outrora sustentavam a própria democracia, como liberdade de expressão, de culto, de organização política, testando os limites democráticos - como aquele que viola o princípio básico, muitas vezes nem escrito nas Constituições, de que não se pode tolerar aqueles que não toleram nem respeitam a própria democracia, que pregam a destruição dos valores e das instituições democráticas”.

Ao se colocar como “Messias”, o Presidente firma sua imagem como dono da verdade e leva consigo seu público carente de uma personalidade para adorar. A estruturação dessa imagem se deu e dá, principalmente, entre os fiéis cristãos e ainda mais evangélicos, o que apenas explicita a desonestidade de Jair, que, enquanto compra apoio com políticas de endividamento populacional, canetadas que diminuem o preço da gasolina e se articula para continuar com o poder nas mãos, usa da fé do eleitorado como uma dessas ferramentas. 

A família Bolsonaro, não só colabora com a construção do que é Bolsonaro, usando do apelo aos valores e liberdade de expressão como justificativa para afirmações que ferem todos direitos humanos e fomentos que terminam em tragédias, como o caso Marcelo Arruda, mas entram nos esquemas, no mínimo, duvidosos e cheios de sigilo do Presidente, como a compra de 51 imóveis em dinheiro vivo. Novamente, os rastros para debaixo do tapete. 

tuites de Carlos Bolsonaro sobre "democracia" e liberdade de expressão
tuites de Carlos Bolsonaro sobre "democracia" e liberdade de expressão

            Sobre os perigos de reeleger Jair Bolsonaro, a professora coloca que “se ao longo de quatro anos ele veio desconstruindo e minando as instituições e as políticas públicas - políticas para saúde, educação, meio ambiente, direitos e liberdades civis - levará adiante esse processo de desconstrução do país e tornar isso institucional. A reeleição não significa mais quatro anos, mas sim a instauração de uma visão extremamente elitista, embora não apareça nas propagandas políticas. Sem dúvidas é um dos momentos mais perigosos que o Brasil já viveu em sua história”.

            Não que o eleitorado base de Jair esteja preocupado com quem passa fome ou espera na fila do SUS, ou não consegue respirar porque o Presidente negligencia e destrói a saúde pública enquanto faz piadinha com os internados da Covid. Enquanto se pode pagar para gritar “globolixo” de cima de um prédio em bairro nobre, o que dorme na calçada não é problema, mas só enquanto se pode pagar. O classe média que se ilude de empresariado, descansa no sofá com a arma na mão até o Presidente gritar que tá na hora de dar tiro de feijão. Até os 49% gritar, que tá na hora da boiada pastar.

Enquanto parte da população se orgulha de ir votar com a camiseta verde e amarela da seleção, outros temem serem agredidos caso saiam de casa usando vermelho
por
Dayres Vitoria
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27/10/2022 - 12h

Autorizado pelo próprio Tribunal Supremo Eleitoral (TSE), eleitores, tanto no primeiro quanto no segundo turno, têm total liberdade, segundo o órgão, de fazerem uso de bandeiras, adesivos, broches, acessórios, camisetas ou qualquer outro tipo de adereço ou peças de roupas que espelhe e demonstre suas preferências políticas. Votantes são livres no país para se manifestarem, desde que individualmente e silenciosamente, suas escolhas em dias de eleições. Contudo, mesmo sendo autorizado pelo Supremo, de modo individual, muitos eleitores se previnem cautelosamente ao saírem de suas casas para votarem no grande dia. Buscando amenizarem qualquer chance de uma possível confusão com eleitores da oposição que possam encontrar pelo caminho até o local de votação, parte dos brasileiros checam se estão, visualmente, considerados como neutros e imparciais.

Sarah Vicente, estudante de arquitetura e urbanismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), teve muito cuidado ao escolher as cores de sua vestimenta com a qual sairia de casa para votar. Procurando não ir com cores de nenhum partido, justamente para não chamar a atenção de ninguém, o grande medo dela era sofrer algum tipo de ataque por conta de ideologias políticas: “Eu fui de camiseta cinza e calça jeans, uma roupa mais neutra, não estava a fim de chamar atenção de bolsonarista”.

Mardio Souza, que trabalha com construção civil e cursa atualmente engenharia na área, seguiu a mesma lógica de Sarah. Escolheu ir com "roupas apartidárias" no primeiro turno: “Fui com roupa básica, levei em consideração não usar cores com expressão política: nem vermelho, nem verde, nem amarelo. As cores e vestimenta são um gesto de protesto, é muito perigoso. (...) Você vê cara com roupa vermelha brigando com caras com roupas do Brasil, sendo que ninguém vai mudar a opinião do outro brigando. É perigoso".

Devido a tamanha polarização política que o país enfrenta, sair de casa com as cores do partido que o cidadão defende e acredita é se colocar altamente em risco. Apenas no primeiro semestre de 2022, segundo um levantamento feito pela UniRio, ocorreram 214 casos de violência política no país. O tipo de agressão cresceu 335% somente nos últimos três anos. A radicalização extrema entre eleitores, maximizados pelo enfrentamento físico e por constantes ameaças contra a vida do próximo, tem levado brasileiros à morte por defenderem quem acreditam ser o melhor representante de seus ideais.

Entre um dos casos ocorridos este ano, um homem entrou em um bar no município de Cascavel, no Ceará perguntou ‘quem vota em Lula’ e matou um eleitor que se manifestou.  Em outro episódio parecido, no Rio do Sul, no Vale do Itajaí, Santa Catarina, um bolsonarista foi esfaqueado até a morte por um petista após também brigarem em um bar por conta de divergências políticas. De acordo com uma pesquisa feita pela Rede de Ação Política pela Sustentabilidade em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 67,5% dos brasileiros têm medo de sofrerem alguma espécie de violência política. Principalmente as parecidas com os eventos citados.

Logo, mesmo sob a garantia do TSE de que nos dias de votação não exista um padrão de roupa determinado, para se manter salvo e seguro durante as atuais eleições, o melhor a se fazer é se resguardar para garantir a própria integridade física e a do outro e, com isso, fazer uso da mais forte ferramenta que o Estado Democrático de Direito nos estabelece como a nossa maior manifestação política, o voto.

No dia 23 de setembro, comemoramos oficialmente o mês do orgulho bi e salientamos a importância de discutir o “b” de LGBTQIA+
por
Ana Carolina Coelho
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12/09/2022 - 12h

Bissexuais são pessoas que sentem atração por gente de mais de um gênero. Apesar de ser muito pouco discutida dentro da sigla LGBTQIA +, trata-se de uma orientação sexual bem comum. E por isso, setembro é considerado o mês da visibilidade bissexual, para trazer informação acerca do assunto e ajudar no combate contra o preconceito que essas pessoas encaram no dia a dia. 

A bissexualidade é uma orientação sexual assolada por estigmas, como se as pessoas bissexuais estão predestinadas a viver relações superficiais, cometer traição dentro de um relacionamento monogâmico ou ser uma pessoa indecisa dentro de suas relações afetivas.

Nós, que nos identificamos assim, lutamos, entre outras coisas, para quebrar os preconceitos de uma sociedade baseada na monossexualidade - ideia que impõe às pessoas que se relacionem sexual e/ou romanticamente exclusivamente com pessoas de um determinado gênero. 

Dentro de todas as ofensas, existe a ideia de que pessoas bissexuais, não precisam sair do armário, a não ser quando se relacionam com pessoas do mesmo gênero e, que dentro do mundo, nós poderíamos existir sem precisar falar da nossa sexualidade e se beneficiar da “leitura hétero” que a sociedade faz de nós. De forma equivocada, existe, inclusive, a impressão de que essa leitura seria um privilégio, por sermos capazes de nos esconder em plena luz do dia.

Eu digo que é bem pelo contrário, primeiro que não existe aceitação social da bissexualidade, logo, para gozarmos desse suposto privilégio, teríamos que mentir sobre quem somos e isso todos os integrantes da sigla LGBTQIA+ também podem fazer, dizendo que são heterossexuais. Independente da sua orientação sexual, deveríamos já ter concluído que mentir sobre si para obter aceitação, deveria ser um absurdo. 

Caro leitor, tenho a impressão que o armário bissexual é um tanto quanto peculiar. Enquanto homossexuais narram a saída do armário como um grande evento e definidor de suas vidas, nós bissexuais temos que sair do armário o tempo todo, confesso que é exaustivo. Não existe uma narrativa linear que nos permite resolver isso de uma vez por todas. 

A sociedade não tende a acolher a multiplicidade de afetos e desejos sexuais que podem existir em uma só pessoa, mas, pelo contrário, enxerga a orientação sexual das pessoas a partir do dado “com quem aquela pessoa se relaciona”. 

Para simplificar, vamos imaginar uma cena do dia a dia e a forma como ela provavelmente é lida por você.  Quando olhamos para um casal andando de mãos dadas na rua, imaginamos que, se forem dois homens, são gays; se forem duas mulheres, são lésbicas; se forem um homem e uma mulher, são heterossexuais. Mas você já parou pra pensar que todas essas pessoas podem ser bissexuais, assexuais, pansexuais, por exemplo?

As orientações não-monossexuais existem independentemente da aparência das relações e de como a sociedade as interpreta. No entanto, assumir isso enquanto sociedade, portanto, estruturalmente, seria ameaçar a estabilidade dos conceitos heterossexuais ou homossexuais. 

Isso porque, a partir do momento que a sociedade admite a existência de bissexuais e pansexuais, é como colocasse em xeque todas as orientações monossexuais. Afinal de contas, se namorar homens não comprova que Maria é heterossexual, o que comprova? E não tem nada que incomode mais pessoas heterossexuais do que serem confundidas com pessoas não heterossexuais.

E, se você que está lendo esse texto, for bissexual, sinto muito em te contar, mas irá ter sua bissexualidade questionada o tempo todo, com base nessas premissas. Outra estratégia comum para nos apagar é associar a bissexualidade à promiscuidade. É classificar a bissexualidade como aquilo que está na doença, no fetiche, na indecisão, na hipersexualização. 

23 de setembro é o dia de pedirmos por visibilidade e respeito. 
 

No aniversário do bicentenário do independência brasileira, Bolsonaro rouba a data para se autoproclamar o "rei dos antipatriotas"
por
Henrique Alexandre
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07/09/2022 - 12h

Como tudo está desajeitado e desbalanceado no Brasil, não era difícil imaginar que haveria um show de horrores na celebração dos 200 anos de independência do Brasil. O esquenta da data já tinha acontecido com a vinda do coração do Imperador Dom Pedro I, que foi recepcionado como um chefe de estado. A ação promovida pelo governo Bolsonaro já tinha dado mostra que a data seria um diferente do normal.

Eis que chega o 07 de setembro. Historicamente, essa data tem como objetivo de, além de ser uma celebração pacifica sobre a história do Brasil e sua saída das amarras da colonização portuguesa, ser uma oportunidade do chefe de estado mandar uma mensagem esperançosa para os brasileiros, aproveitando todo o miticismo que a efeméride traz. Porém, como desde 2018 os valores nacionalistas estão virados de ponta cabeça, Jair Bolsonaro usou o o dia da Independência para se autocelebrar, ter um palanque eleitoral e falar com os seus apoiadores do cercadinho. 

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Bolsonaro usa o dia da Independência Brasileira para vangloriar como "imbrochável" - reprodução

A atitude do presidente da República era até esperada. Isso porque o candidato está em desvantagem contra o seu principal oponente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em sete pesquisas eleitorais, sendo elas: 

  • PoderData (divulgada em 7 de setembro): Lula 43% x Bolsonaro 37%
  • Quaest (divulgada em 7 de setembro): Lula 44% x Bolsonaro 34%
  • Ipec (divulgada em 5 de setembro): Lula 44% x Bolsonaro 31%.
  • BTG/FSB (divulgada em 5 de setembro): Lula 42% x Bolsonaro 34%
  • DataFolha (divulgada em 01 de setembro): Lula 45% x Bolsonaro 32% 
  • Ipespe (divulgada em 31 de agosto): Lula 43% x Bolsonaro 35%
  • CNT/MDA (divulgada em 30 de agosto): Lula 42,3% x Bolsonaro 34,1%

Bolsonaro, que de nada é ingênuo, aproveitou a oportunidade e a carta branca que recebe das instituições fiscalizadoras para dar um show eleitoral e se promover. E com isso, o atual presidente pode ter cometido crimes de responsabilidade.

 

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Nada de novo no recinto: Bolsonaro usa sua condição de chefe de Estado para se autopromover

Segundo especialistas ouvido pelo jornal Folha de São Paulo, o presidente pode ter utilizado de verbas públicas para fazer campanha política pessoal e escancarada, sendo que o artigo 37 da Constituição brasileira diz que "A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência". Ou seja, em uma comemoração onde Bolsonaro apareceu como chefe de estado, não poderia haver qualquer menção eleitoral, segundo a carta magna brasileira. 

 

Porém, quando se trata de Jair, qualquer coisa pode, mesmo com as mais das absurdas ações. 

Entretanto, mais do que o crime, o ato de hoje mostrou como Bolsonaro está em desespero com sua posição eleitoral. Com alto índice de rejeição - segundo o último Datafolha, 52% do eleitorado não votariam de jeito nenhum no atual presidente -,  e a possibilidade de perder para o seu maior pesadelo, o candidato do PL fala até de sua capacidade sexual, o que, aliás, não interessa a ninguém, menos do que o Brasil tem a melhorar.

Hoje foi mais um dia em que se mostrou que Bolsonaro não tem a menor capacidade de gerir o Brasil. Tudo que toca em sua mão, vira ruína. E não foi diferente com o 7 de setembro.

Mesmo com o aumento percentual para cargos públicos de destaque, a representatividade é falha e não acontece da maneira esperada
por
Melissa Mariano Joanini
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07/09/2022 - 12h

Desde 2018, as mulheres contam com uma reserva de 30% do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, popularmente conhecido como Fundo Eleitoral, para aquelas que desejam lançar sua campanha para cargos públicos no Executivo ou no Legislativo. Essa porcentagem deve ser destinada obrigatoriamente a essas campanhas.

A questão era: esperava-se um aumento de candidaturas femininas, o que de fato ocorreu, mas não como o esperado.

 Quatro anos após a aprovação da medida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE),  52% das chapas que estão disputando governos estaduais contam com a participação de mulheres.

A lei que possibilita o acesso monetário para a realização das campanhas possui uma brecha: ao distribuir os recursos da cota, os partidos podem aplicar essa verba em chapas que tenham mulheres como vice majoritariamente – verba que totalizará R$ 4,9 bilhões em 2022.

Ao analisar os postulantes aos governos estaduais, a maioria das mulheres está posicionada como vice. Das 217 campanhas lançadas até agosto que estão concorrendo aos governos dos 26 estados e do Distrito Federal, apenas 37 tem mulheres à frente, que significa 17% do total de candidatos para o cargo. Já o número de mulheres como vice chega a 85%, que representam 39% do total. Sendo assim, mesmo com o incentivo para aumentar a representatividade feminina na política brasileira, os homens ainda são uma expressiva maioria – 8 entre 10 encabeçando as disputas pelo poder executivo estadual.

O ‘pulo do gato’ entra exatamente nesta parte, a verba vai para candidaturas em que normalmente homens são cabeças de chapa.

É preciso analisar como essa articulação influencia a participação da mulher na política e, por consequência, na sociedade. Uma vez que o eleitorado é 53% feminino e 46% dos filiados aos partidos políticos, hoje, são mulheres, o predomínio masculino entre as chapas é desigual e até desproporcional.

Também é válido ressaltar que as mulheres votam há apenas 90 anos no Brasil, direito concedido pelo então presidente Getúlio Vargas, o que reforça uma participação tradicionalmente inexpressiva na vida política. A ausência de mulheres nos cargos políticos simboliza o quão a margem elas estão e como a sociedade brasileira é desigual e como exercem a sua cidadania – que não é plena.

Como a ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, disse: “quando uma mulher entra na política, muda a mulher; quando muitas mulheres entram na política, muda a política”, e é preciso que no Brasil entrem cada vez mais.

Quase 30% dos deputados estaduais e distritais que disputam atualmente as eleições como negros, se denominavam brancos em 2018
por
Por Dayres Vitoria
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05/09/2022 - 12h

Recentemente, constatou-se que as atuais eleições  de 2022 será a primeira na história do país  em que pretos e pardos serão maioria nas disputas por cargos eleitorais. Para aqueles autodeclarados negros, a conquista foi considerada uma vitória. Contudo, novas apurações apontam que talvez a porcentagem de 49,57% esteja até certo ponto equivocada, o motivo? Contradição e incoerência por parte de alguns candidatos. 

De acordo com um levantamento realizado pela agência JOTA, veículo de imprensa especializado no acompanhamento jurídico e institucional, quase 30% dos 241 deputados estaduais e distritais de 2018 - antes autodeclarados  brancos -  e  que concorrem à reeleição, mudaram suas autodeclarações e atualmente se identificam como negros. Dos 26 estados analisados pelo veículo, em 21 deles foram identificados casos assim. Dos 101 candidatos à reeleição à Câmara dos Deputados, 41 deles, que na última eleição se denominavam como brancos,  agora se intitulam como pardos.  Atual presidente da Câmara, Arthur Lira, também se identifica agora como negro. Até o pleito de 2014, o deputado se declarava “branco”.

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Deputada Aline Gurgel  (Republicanos - AP). Alterou sua declaração de cor de branca para preta neste ano.

  

  A mudança, em um período de apenas quatro anos, pode apontar vários  desdobramentos  que vem transformando  a política  brasileira. Uma delas é o debate crescente em relação à identidade racial no Brasil. Sendo mais pautada nos últimos anos e tendo um olhar mais atencioso da mídia para a questão, candidatos podem usar da condição da cor para conveniência política  própria. Como a maioria do eleitorado brasileiro se identifica como negro, tal feito não  seria nenhuma surpresa. 

 

 

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Deputado Daniel Coelho (Cidadania-PE).  Também alterou sua declaração de branco para negro neste ano.

Em 2020, o Tribunal Superior Eleitoral teve a iniciativa de estabelecer que candidatos negros recebessem verbas  proporcionais aos brancos para suas campanhas. Além  disso, seus tempos em propaganda eleitoral gratuita nos meios de  comunicação também  deveria seguir a mesma linha da equiparação.

O grande dilema está na falta  de critérios,  além da autodeclaração, não  criados pelo Tribunal Eleitoral para identificar  quem pode ser considerado ou não negro. Traços fenotípicos poderia ser um dos métodos a ser recorrido.  Frente às análises levantadas, se faz necessário que haja mecanismos de fiscalização sobre a questão  racial no país. Logo, cabe à Justiça  Eleitoral tomar iniciativas eficientes para combater possíveis  fraudes.

por
Luan Leão
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18/06/2022 - 12h

Ao considerarmos o que seria ideal para o trabalho da imprensa, temos na liberdade de expressão e editorial como ponto chave para assegurar o trabalho de um jornalista ou de um jornal. Quando passamos a considerar a produção jornalística como produto comercializado seja diário, semanal, quinzenal ou mensalmente, entendemos que a liberdade da atividade jornalística é apenas um texto de prefácio de um livro, que quando contextualizado desmente suas primeiras considerações. 

Um jornalista, por essência, é um ser curioso, perguntador, com um olhar diferente para os fatos cotidianos, há quem credite aos jornalistas o papel de "voz do povo", mas que povo e que voz ? Nesse sentido, não aponto que a imprensa que conhecemos não represente a população de massa, de mais baixa renda, mas quais são os enquadramentos dados as pautas que interessam a essas classes (C, D e E) ?

Quando observamos os veículos de imprensa é possível ver interesses e a defesa deles em algumas de suas produções. Há quem possa contraditar apontando serviços da chamada "grande imprensa" para a população, mas isso apenas se concretiza porque vivemos na mesma realidade, ou seja, a imprensa não pode inventar uma realidade paralela que melhor atenda seus desejos para noticiar ao público. Assim sendo, é preciso que, mesmo a contragosto, alguns temas sejam pautados e mostrados em maior ou menor escala, a depender do comprometimento do veículo.

Para que essa teoria se torne prática, relembro o caso Pandora Papers, milhões de documentos vazados em 2021 por um consórcio internacional de jornalistas investigativos, com participação de 91 meios de comunicação. Na América-Latina esse vazamento teve ruídos para os órgãos governamentais citados, no Brasil, a imprensa, por interesses, fez uma cobertura tímida em seus grandes jornais, seja no impresso, rádio, televisão ou internet. O resultado disso foi simples, enquanto agentes públicos prestavam contas em outros países, no Brasil, o chefe da Economia foi apenas convidados para explicar seus envolvimentos no escândalo em uma sessão pouco divulgada no Congresso. 

Nessa mesma linha de interesses colocados acima da informação, nós temos um caso muito específico no Brasil: a Jovem Pan. Tradicional canal de rádio de São Paulo, a Jovem Pan nos últimos anos tem atuado quase como um partido político, por vezes, abrigando políticos filiados a partidos e atuantes como comentaristas de seus noticiosos. Em um fatídico caso, uma parlamentar paulista alinhada ao governo Jair Bolsonaro, com mandato em exercício, foi vista segurando o microfone e pedindo para fazer pergunta ao presidente em uma visita do presidente ao interior paulista. Curiosamente, este mesmo canal, é voz ativa na defesa de uma liberdade de expressão quase que irrestrita e sem responsabilização pelas informações dadas, tendo difundido notícias mentirosas ou descontextualizadas durante quase toda a Pandemia. 

Em um terceiro ponto, podemos observar jornais mais independentes, alinhados com a esquerda, atuando quase como cabos eleitorais de partidos desse segmento. A independência soa quase como um salvo-conduto para ignorar fatos que possam atrapalhar interesses desses potenciais aliados.

Apesar de desejosos e propagadores de tal discurso, a imprensa livre, na prática, é quase apenas um prefácio de um livro muito maior, cercado por conflitos de interesses, conversas a portas fechadas, jogos de cena e hipocrisia. 

A imprensa é sim fundamental e vital para o funcionamento da democracia, mas por vezes, a imprensa também é ou toma partido.

Como as novas ferramentas de engajamento impactam os pequenos empreendedores nesse período pós pandemia?
por
Nathalia Teixeira
Ana Caroline Andrade
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12/05/2022 - 12h

A pandemia do Covid-19 acelerou uma tendência que já vinha acontecendo: a popularização do aplicativo TikTok e dos vídeos curtos. Mas afinal, esse processo foi positivo ou negativo para os microempreendedores?

Com a quarentena, a mudança nos formatos de criação de conteúdo foi repentina. Sai na frente quem estuda e procura entender mais as mudanças dos algoritmos e o alcance dos vídeos vira uma disputa que, muitas vezes, pode se tornar maçante. Como estão os donos de pequenos negócios com esse cenário? Será que eles estão sobrecarregados? Conversamos com Viviane Oliveira sobre o assunto, dona das contas do Instagram @medonza.vinhos e @vivianemakeup.

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