“Diferente do diretor, profissional da voz fica sabendo o que vai dublar apenas na hora”, diz Cassius Romero
por
Guilherme Timpanaro Gastaldi
Felipe Oliveira
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10/11/2022 - 12h

"99% das vezes que somos chamados, não fazemos ideia do que vamos dublar", diz Cassius Romero, (56), dublador, ator e cartunista brasileiro que fala sobre os bastidores e como funciona um estúdio de dublagem. O contato foi feito via WhatsApp, e mesmo saindo de São Paulo, na volta para casa no interior, dentro de um ônibus de viagem, o artista ainda disponibilizou um tempo para a entrevista.

Cassius é um dos grandes nomes entre os dubladores brasileiros, com 30 anos de carreira, é ele quem fornece a voz para diversos personagens no universo cinematográfico, como os de John Rambo e Exterminador. Mas ganhou maior destaque com o vilão Negan, da série de terror americana "The Walking Dead".

O ator descreve como funciona o processo de chamada de um dublador: "O coordenador artístico ou diretor em dublagem indica um talento. Daí a empresa manda mensagem para o dublador no WhatsApp para escalá-lo, a produção é quem faz esse trâmite. Após o artista dar o ok que aceitou a escala em determinado horário, seu nome é incluído numa famosa 'pedra' ou 'tabela' com outros tantos dubladores, e preenchem o dia do estúdio em si".

Para trabalhar profissionalmente e exercer a função de dublador, é necessário dar entrada ao DRT, documento a partir do qual a pessoa está capacitada e tem autorização legal para trabalhar como ator/atriz profissional, essencial e obrigatório para exercer a função. Além das obrigatoriedades, Cassius cita como essencial para um bom profissional "ter uma boa comunicabilidade, boa desenvoltura de fala, entendimento de texto, boa leitura, conhecimento da gramática portuguesa, ter noções em outros idiomas e ter ciência de cultura".

Contudo, uma das habilidades imprescindíveis e que não é ensinada em nenhum curso de dublagem é a de adaptação. O dublador necessita pegar com rapidez o entendimento da ideia que lhe foi passada em minutos e dublar, pois de acordo com Romero: "Somente quando o dublador adentra o estúdio que o diretor conta a história do personagem que ele fará ali naquele instante. Já o diretor, deve e precisa saber com antecedência do projeto para dirigir e indicar o caminho para o dublador. Chamamos isso de 'ter o filme na mão'".

Além de sua vida cotidiana, Cassius também fala como foi trabalhar na pandemia: "No começo, alguns links foram disponíveis para gravação, logo, o diretor dirigia da casa dele, o técnico operava de casa e o dublador dublava na casa dele". Além disso, as dificuldades eram diversas. Muitos dubladores criaram em casa verdadeiras cabanas com lençóis e edredons para diminuir o som externo.

O investimento foi necessário por parte dos atores, com equipamentos como computadores, microfones, fones, tablets e mesinhas de som. Em muitos casos, houve um atraso nas produções de dublagem devido aos problemas com a internet que retardam o processo - Netflix e outras plataformas, avisaram o público que as dublagens de diversas séries demorariam para ser entregues. Com o tempo, os técnicos em dublagem começaram a ajudar os atores para poderem gravar de casa, os auxiliando com cabines de áudio, acústica seca e equipamentos em geral.

Além das dificuldades na pandemia, no presencial, Cassius relata que o deslocamento de um estúdio para outro sempre foi um problema em sua rotina, muitas vezes inclusive, tendo que atravessar a cidade para chegar ao local. "O diretor em dublagem geralmente fica em estúdio fixo, mas os dubladores, de um modo geral, circulam em quase todos os estúdios. Quando eu comecei na dublagem havia seis estúdios em São Paulo e quatro no Rio de Janeiro. Atualmente temos aproximadamente 30 em São Paulo e mais 16 no Rio", comentou.

No ramo da dublagem, Edeli Cremonese é a empresária e fundadora da empresa Lexx Filmes e Produções. A companhia é especializada em Dublagem e Legendagem para a indústria cinematográfica, televisão mundial, plataformas de videogames e outros meio audiovisuais. Estabelecida desde 2010 em São Paulo.

Edeli disseca o procedimento que percorre um filme até o estúdio de gravação. "Antes que um script entre em produção, ele percorre um longo caminho dentro da empresa, desde o atendimento ao cliente, orçamento, aprovação de valores e prazo de entrega e recebimento. Tudo concordado, inicia-se a produção da peça", conta a empresária.

Logo após, segundo ela: "chegam vídeos e script originais em sua língua oficial, ambos são enviados para a tradução; já com as falas traduzidas, passa para o 'marcador de anéis, essa pessoa é responsável, por fazer uma marcação no script de 20 e 20 segundos, numerando-os de 01 no início da primeira fala até o último número no final da última fala, existe um cronômetro na tela para que isso seja feito", assim o dublador saberá a hora exata em que sua fala aparecerá, e os anéis ajudam também a contabilizar quantas horas de escala é preciso para cada ator, que vai determinar quanto será pago. Cada grupo de 20 anéis representa uma hora de dublagem (o dublador recebe por hora).

Outro ponto importante citador por Cassius é o tal do "boneco", que é determinado por dublar inúmeras vezes o mesmo ator ou atriz. "Por exemplo, quando pensamos no personagem Nick Fury dos Vingadores, logo lembramos da voz do dublador. Assim é com o Homem de Ferro. Isso é Boneco".

Cassius passa por situações de apego em relação a um personagem, o que pode colaborar com a sua performance: "Eu mesmo me conectei ao Negan; só não podemos agir como tal, mas ter um apego no bom sentido, ajuda muito também na integração e interpretação com o personagem".

O IEM Rio Major 2022, mundial do FPS (First Person Shooting), enfrenta preconceito com torcidas brasileiras
por
Davi Garcia
Ian Valente
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10/11/2022 - 12h

No dia 31 de outubro, começou no Rio de Janeiro o campeonato mundial de Counter Strike: Global Offensive, reunindo as melhores equipes e jogadores do cenário de um dos jogos mais tradicionais do mundo. O torneio vem ao Brasil pela primeira vez em sua história, com 24 equipes participantes do mundo inteiro. Entre elas, as brasileiras Imperial, 00Nation e FURIA, além da sul-americana 9Z.

Também estreia no IEM Rio Major 2022 a presença de público nas duas primeiras fases do campeonato, inédito na história dos mundiais. Normalmente, esses jogos são realizados em hotéis ou arenas menores, enquanto no campeonato atual, serão divididos entre com ou sem público. A “Challengers  Stage” e “Legends Stage” ocorrem no Riocentro, com capacidade para 10.000 pessoas. Essas fases são formadas pelo Formato Suíço, em que o time que consegue três vitórias, ou três derrotas, será classificado, ou eliminado. Apenas as equipes com o mesmo recorde podem se enfrentar.

 

 O evento conta com lojas da organizadora e patrocinadora ESL, anteriormente conhecida como Electronic Sports League, que vende uniformes, acessórios e merchs das equipes com preços de R$150 a R$280 e um fácil acesso à comidas e banheiros no Riocentro.

 Para a próxima fase, onde ocorrerá o mata-mata, será jogado na Jeunesse Arena, com um público previsto de 20.000 torcedores. A premiação do campeonato é avaliada em 1 milhão de dólares, aproximadamente R$5.000.000;

 A narração e coordenação da torcida no evento conta com o streamer Alexandre Borba, mais conhecido como Gaules. O brasileiro é o mais seguido do mundo na plataforma Twitch, com mais de 15 milhões de seguidores e transmite os jogos em seu canal para uma média de 200 mil pessoas. Além de Gaules, a “Tribo”, grupo de outros streamers e influenciadores organizados por ele, participa da transmissão, seja com reportagens, entrevistas ou comentários.

Outro ponto a se destacar é o público brasileiro, mais conhecido como “La Tribonera”, apelido dado por Gaules, sendo elogiado por grande parte dos jogadores pelo barulho excessivo e paixão pelo jogo, como Oleksandr "s1mple" Kostyliev, ucraniano eleito o melhor do mundo em 2021, descrevendo a torcida brasileira em seu twitter como “A melhor do mundo, eu amo vocês”, além do russo Dzhami "Jame" Ali, que comparou com a plateia europeia “Sempre fui tratado na Europa como vilão, e diziam pra mim ‘Vá se foder’, enquanto aqui, gritam e comemoram meu nome, me sinto muito bem”, à Liminha, em live de Gaules.

Porém, a torcida brasileira também têm sido alvo de polêmicas e sanções da ESL. No Counter-Strike, há a opção de ver a silhueta do personagem para facilitar ao telespectador entender a partida, como um raio-x. Contudo, muitas vezes o público gritava aos jogadores, que não possuem acesso ao sistema, a posição e estratégia dos adversários, fazendo a organizadora retirar o xray e o mapa do jogo na transmissão do Gaules.

Explicação do Sistema Suíco. Foto: Reprodução / GOAL