Entenda as acusações e quem são os envolvidos na investigação feita pela Polícia Federal
por
Lara Manasseh
Maria Eduarda Cepeda
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21/05/2026 - 12h

 

Na última quarta-feira (13), o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, retirou o sigilo de sua decisão contra a organização criminosa ligada à gestão do Banco Master e à família Vorcaro. A instituição está sendo investigada por uma fraude financeira que resultou no desvio de R$ 47 bilhões. Em entrevista a jornalistas na entrada do ministério da fazenda, o ex-ministro Fernando Haddad classificou o escândalo como “a maior fraude bancária da história do Brasil”.  

O caso veio à tona após a Operação Compliance Zero, feita pela Polícia Federal, revelando a fraude de R$ 12 milhões na fabricação de carteiras falsas de crédito consignado. O que resultou na liquidação do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro do ano passado.

A postura da instituição no mercado financeiro era caracterizada por sua agressividade, variando entre o patrocínio de times de futebol e a compra de instituições menores. A empresa já vinha sendo monitorada por fornecer taxas acima da média do mercado e investimentos considerados arriscados para pessoas físicas. 

Decisão Judicial

Após o desdobramento da operação, foi iniciada a investigação contra Daniel Vorcaro, dono do banco Master e  seu pai, Henrique Moura Vorcaro, expondo que a organização criminosa estava dividida em grupos, todos gerenciados por Luiz Phillipi Mourão, conhecido como "Sicário".  

O apelido ligado a “assassino de aluguel” e “crueldade”, não é por acaso. Mourão tinha contato direto com Vorcaro e era responsável por práticas violentas, monitorando e intimidando possíveis vítimas escolhidas pelo investigado. 

Na decisão do ministro Mendonça, os envolvidos foram organizados em grupos. “A Turma”, liderada por Daniel, foi responsável por coagir jornalistas, intimar adversários, realizar levantamentos clandestinos e obter dados através de ameaças e intimidações físicas. O demais integrantes são:

  • Marilson Roseno da Silva, ex-policial federal e líder do núcleo;

  • Manoel Mendes Rodrigues, “bicheiro”;

  • Anderson Wander da Silva Lima, policial federal;

  • Sebastião Monteiro Júnior, ex-policial federal.

Já “Os meninos”, braço tecnológico, atuavam como hackers, realizando invasões digitais, monitoramento telemático e desativação de perfis nas redes, com o objetivo de derrubar conteúdos negativos e promover publicações favoráveis. São eles:

  • David Henrique Alves, líder do núcleo e responsável por liderar os ataques cibernéticos;

  • Victor Lima Sedlmaier, operador auxiliar,

  • Rodrigo Pimenta Franco, “Rodriguinho”, colaborador aquisitor de domínios da internet para hacking.

A PF aponta que o empresário Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel, teve um papel fundamental no financiamento dos grupos, além de solicitar, recorrentemente, os serviços ilegais. Conversas analisadas indicaram pagamentos mensais para manter os núcleos ativos, mesmo após o início das investigações. Enquanto David Henrique Alves era encarregado de coordenar ataques cibernéticos e monitorar ações para proteger os interesses do grupo. 

A investigação afirmou que houve a tentativa de ocultação dos equipamentos eletrônicos e provas e que policiais suspeitos acessaram sistemas internos com o objetivo de repassar informações sigilosas sobre o andamento do inquérito. 

A imagem mostra a fachada da polícia federal à luz do dia
Superintendência da Polícia federal em Brasília, onde Daniel Vorcaro está preso. Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

Após o ministro André Mendonça recolher os pedidos da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, foi determinada a prisão preventiva de Henrique Vorcaro, dos três integrantes responsáveis pelos ataques cibernéticos, e de três integrantes da “turma”, Manoel Mendes Rodrigues, Anderson Wander da Silva Lima e Sebastião Monteiro Júnior. Mourão também foi preso, mas morreu enquanto estava sob custódia da PF. A versão oficial é de suicídio. 

No despacho, Mendonça aponta a existência de uma organização criminosa robusta e ativa, responsável por diversos crimes graves e estruturados como lavagem de dinheiro; emissão de notas fiscais frias; ameaça; extorsão e intimidação; invasão de dispositivo informático e crimes cibernéticos; violação de sigilo funcional; corrupção; infiltração na polícia federal; realização de consultas indevidas no sistema e-Pol; falsidade ideológica e ocultação de provas.

Esfera política 

O cientista político, Eduardo Viveiros, apontou a fragilidade dentro das instituições estatais. “O que chama a atenção é como um banco de dimensão pequena do sistema bancário foi capaz de capturar toda a estrutura do poder político, chegando até o judiciário, passando pelo legislativo e agora a evidente relação com a família Bolsonaro”. 

O inquérito também teve como objetivo analisar o envolvimento de políticos e membros do STF (Supremo Tribunal Federal). Um deles foi o vazamento dos áudios do senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL) com Vorcaro, em que o parlamentar cobrava 134 milhões de reais para o financiamento de uma produção cinematográfica sobre o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro não foi o único envolvido. O senador Ciro Nogueira (PP) também foi alvo da investigação, sob suspeita de receber repasses mensais ilegais de 300 mil reais de Vorcaro. Em troca, o político usou seu mandato para defender interesses do Master. O político apresentou uma emenda parlamentar, redigida pela assessoria do Banco Master, que visava aumentar o teto de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Essa medida faria com que o banco multiplicasse suas captações. 

Segundo Viveiros, a relação entre política e crimes está institucionalizada, a ponto de parlamentares usarem a prerrogativa de emendas ao orçamento federal para atividades paralelas. “É uma grave ameaça à democracia; é um sintoma da captura do poder político pelo crime organizado, ou seja, a estrutura do crime está a serviço de uma parte do sistema político”, acusa o cientista. 

Em janeiro, o bilionário Nelson Tanure foi alvo de busca e apreensão durante a segunda fase da Operação Compliance Zero. Ele está sendo investigado por ameaça, perseguição e intimidação contra o fundador da Esh Capital, Vladimir Timerman. 

“Esse escândalo do Banco Master joga luz sobre a relação entre crime financeiro e a sustentação do poder político no Brasil”, afirma Viveiros. Para ele, a proteção da democracia depende do cuidado de aplicar a lei e promover a perseguição dos criminosos antes que o Estado seja capturado por um sistema infrator. 





 

Gravação revela relação próxima entre senador e banqueiro investigado no maior escândalo financeiro do país
por
Carolina Zaterka
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19/05/2026 - 12h

 

A divulgação de um áudio atribuído ao senador, Flávio Bolsonaro, e ao banqueiro, Daniel Vorcaro, abriu uma nova frente de desgaste político para o bolsonarismo e reposicionou o escândalo do Banco Master no centro da disputa presidencial de 2026. O material, revelado pelo The Intercept Brasil, mostra Flávio pressionando Vorcaro pela retomada de repasses destinados ao filme Dark Horse, produção internacional sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.

Mais do que um simples pedido de patrocínio, o episódio expôs a proximidade entre um dos principais nomes da extrema direita brasileira e um empresário que, naquela altura, já estava no epicentro de investigações sobre gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e organização criminosa no sistema financeiro. 

Segundo a investigação, o áudio teria sido enviado em setembro de 2025, momento em que a produção do filme enfrentava dificuldades financeiras. Na gravação, Flávio afirma que a obra estava em um “momento decisivo”, menciona parcelas atrasadas e alerta para o risco de “dar calote” em integrantes internacionais da produção, entre eles o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. O senador pede uma definição urgente sobre os pagamentos e afirma que o projeto corria risco de colapso caso o fluxo de recursos não fosse retomado.

Horas após a publicação da reportagem, Flávio Bolsonaro deixou de negar o contato com Vorcaro e passou a admitir que buscou financiamento privado para o longa-metragem. A sua defesa sustentou que se tratava apenas de um “filme privado”, financiado por “patrocínio privado”, sem qualquer irregularidade. Ainda assim, a mudança de discurso teve impacto imediato. Inicialmente, o parlamentar classificou as informações como “mentira”; depois, reconheceu a existência do contrato e das cobranças relacionadas aos repasses.

A cronologia do caso reforça a dimensão financeira da operação. Documentos citados pela investigação indicam reuniões realizadas em Brasília entre aliados de Flávio e representantes de Vorcaro desde dezembro de 2024. Em fevereiro de 2025, um comprovante apontaria a transferência de US$2 milhões para o fundo Havengate Development Fund LP, ligado ao projeto cinematográfico. Planilhas mencionadas na apuração indicam previsão total de investimento entre US$23,9 milhões e US$24 milhões, cerca de R$134 milhões na cotação da época. Parte desse montante, segundo os documentos analisados pelos jornalistas, já teria sido efetivamente transferida até maio de 2025.

Em novembro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, que investigava crimes financeiros envolvendo o conglomerado Master. Dias depois, o Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial de instituições ligadas ao grupo. Vorcaro passou, então, a simbolizar um dos maiores escândalos financeiros recentes do país.

Flávio Bolsonaro em campanha à pré-candidatura da presidência | Foto: Vitor Souza - Reprodução: Brasil de Fato
Senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República. Foto: Vitor Souza - Reprodução: Brasil de Fato

É justamente essa conexão que elevou a gravidade do áudio. Embora a gravação, isoladamente, não prove corrupção, ela fortalece suspeitas sobre a relação financeira entre o senador da República e o banqueiro investigado criminalmente. Juristas ouvidos por veículos nacionais apontam que o conteúdo pode abrir caminho para apurações sobre eventual lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial, organização criminosa e até implicações eleitorais, caso o filme tenha sido utilizado como instrumento indireto de pré-campanha presidencial.

Do ponto de vista técnico, ainda existe uma lacuna importante, não há, até o momento, laudo pericial público completo sobre o áudio vazado. Não foram divulgados hash do arquivo original, metadados, análise formal de edição nem exame oficial de comparação de voz. Ou seja, há forte corroboração jornalística e contextual, mas ainda não existe autenticação forense pública integral do material.

Isso não significa que o conteúdo seja falso. Pelo contrário, a própria admissão posterior de Flávio, somada à existência de cronogramas financeiros, mensagens, transferências e relatos de fontes da Polícia Federal, reforça a plausibilidade da gravação. Ainda assim, especialistas em perícia digital lembram que autenticidade jornalística e autenticação pericial não são sinônimos, distinção especialmente relevante em uma era marcada por deepfakes, manipulações digitais e vazamentos seletivos.

No campo político, a repercussão foi imediata. Integrantes do Partido dos Trabalhadores e do PSOL anunciaram medidas junto à Polícia Federal e ao Ministério Público. O deputado Guilherme Boulos afirmou que o caso poderia justificar cassação caso a autenticidade do áudio fosse confirmada integralmente. Dentro da própria direita, a reação foi fragmentada; o governador Romeu Zema criticou duramente Flávio, enquanto Ronaldo Caiado e Tarcísio de Freitas adotaram tom mais cauteloso, tentando conter o impacto eleitoral do episódio.

A dimensão simbólica do filme também pesa. Dark Horse não era tratado apenas como um produto audiovisual, mas como uma peça estratégica de construção narrativa do bolsonarismo para 2026. O projeto tinha elenco internacional, ambição global e previsão de lançamento próxima ao calendário eleitoral brasileiro, nesse contexto, o financiamento da obra deixa de ser apenas uma questão cultural e passa a ocupar espaço no cenário eleitoral.

O caso também evidencia uma contradição delicada para o discurso anticorrupção que sustentou parte da ascensão bolsonarista. A revelação de um senador da família Bolsonaro cobrando recursos milionários de um banqueiro posteriormente preso e investigado atinge diretamente a imagem de outsider político construída pelo grupo desde 2018. Ainda que nenhuma condenação exista até agora, o desgaste já se tornou concreto.

O ato ocorreu dois dias após a retirada de manifestantes da reitoria da USP pela Polícia Militar
por
Gustavo Tonini
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13/05/2026 - 12h

 

Na tarde desta segunda-feira (11), estudantes das universidades públicas do estado de São Paulo realizaram uma manifestação que foi do bairro da República até a Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), no bairro Cerqueira César. O ato também contou com representantes dos funcionários das universidades trazendo a  pauta das reivindicações propostas nas greves vigentes.

Banner manifestando a falta de ação e comunicação em relação às reivindicações dos estudantes. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT
Banner manifestando a falta de ação e comunicação em relação às reivindicações dos estudantes. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT

Segundo os manifestantes, o ato  surgiu como uma resposta à retirada de alunos que ocupavam o prédio da reitoria da USP pela Polícia Militar de São Paulo na madrugada do Dia das Mães. Essa expulsão ocorreu por meio da utilização de cassetetes, gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral, o que gerou diversas denúncias de violência por parte dos alunos.

A expulsão  ocorreu poucos dias após o cancelamento da reunião do reitor da USP, Aloisio Segurado, com representantes dos alunos. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT
A expulsão  ocorreu poucos dias após o cancelamento da reunião do reitor da USP, Aloisio Segurado, com representantes dos alunos. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT

A manifestação começou na Praça da República, em frente ao prédio onde ocorreria uma reunião entre os reitores das universidades estaduais de São Paulo, mas devido ao ocorrido, a reunião foi cancelada. Ainda no início do ato, aconteceu uma confusão entre estudantes e os vereadores Rubinho Nunes e Adrilles Jorge, ambos do União Brasil, começando com bate-bocas e partindo para o confronto físico mais direto. Estudantes relataram ter sido lançado gás lacrimogêneo em direção aos manifestantes, não sendo confirmado quem lançou. 

Os estudantes continuaram a marcha em direção à Rua da Consolação, ocupando-a por inteiro. A partir desse momento, estudantes formaram uma corrente humana atrás da manifestação, em frente a carros da polícia militar que acompanhavam o ato.

Na Rua da Consolação foi o momento em que a manifestação mais inflamou com cantos em prol da melhoria da alimentação, das cotas trans, entre outros. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT
Na Rua da Consolação, estudantes pedem melhoria da alimentação, cotas trans, entre outras reivindicações. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT

Os estudantes seguiram marchando até o FMUSP, onde formaram uma grande roda na praça de entrada. Representantes de diferentes entidades discursaram e durante um desses discursos, uma representante do DCEUSP (Diretório Central dos Estudantes da USP) relatou a realização de uma manifestação que ocorrerá no dia 20 de Maio em frente ao Palácio do governador.

Projeto modifica critérios de cálculo de penas e pode reduzir condenações de Bolsonaro e dos golpistas do 8 de janeiro
por
Isabela Sallum
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01/05/2026 - 12h

O Congresso Nacional derrubou, nesta quinta-feira (30), o veto presidencial ao chamado PL da Dosimetria, projeto que altera regras do Código Penal e pode impactar as penas aplicadas a condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado por tentativa de golpe de Estado, associação criminosa armada, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, dano qualificado contra o patrimônio da união e deterioração de patrimônio tombado.

A votação teve início no Senado, onde eram necessários 41 votos para rejeitar o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ao todo, 49 senadores votaram pela derrubada, enquanto 24 foram favoráveis à manutenção do veto e cinco se abstiveram. Na Câmara dos Deputados, eram exigidos 251 votos, e o veto foi rejeitado por 318 parlamentares, com 144 votos contrários.

Sessão do congresso que está discutindo o veto integral ao projeto de lei da dosimetria de penas. Foto: Lula Marques/ Agência Brasil
Sessão do congresso que está discutindo o veto integral ao projeto de lei da dosimetria de penas. Foto: Lula Marques/ Agência Brasil

O Projeto de Lei 2.162/2023, também conhecido como PL da Dosimetria, foi aprovado em dezembro do ano passado com autoria de Marcelo Crivella (Republicanos-RJ) e  relatoria de Paulinho da Força (Solidariedade-SP) na Câmara dos Deputados, e  Esperidião Amin (PP-SC) no Senado. O mesmo foi vetado integralmente em 8 de janeiro de 2026, durante cerimônia oficial no Salão Nobre do Palácio do Planalto que marcou os três anos dos ataques às sedes dos Três Poderes, em ato em defesa da democracia, por Lula.

O Congresso Nacional aprovou o Projeto de Lei em 2025, às vésperas do recesso parlamentar. Durante a tramitação, a proposta foi alvo de críticas de parlamentares de oposição ao projeto,  que apontaram possíveis impactos sobre a responsabilização de envolvidos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. Entre os principais pontos levantados, estava o risco de redução de penas em casos relacionados a crimes contra o Estado democrático de direito. Desde então, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia sinalizado que vetaria o texto, argumento que foi posteriormente confirmado com base na avaliação de que a medida poderia alterar critérios de punição e produzir efeitos sobre processos e condenações ligados aos ataques às sedes dos Três Poderes.

No dia 30, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), fatiou a votação do veto ao PL da Dosimetria, o dividindo em partes menores para votação separada. Isso permitiu aprovar trechos específicos, em vez de aceitar ou rejeitar todo o conjunto com a justificativa que alguns trechos do projeto, se revistos, poderiam anular parte da Lei Antifacção sancionada em março.

Hoje, o Supremo Tribunal Federal (STF) entende que as penas pelas condenações por tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, que tem pena entre quatro e oito anos de prisão, e a de tentativa de golpe de Estado, que tem pena de quatro a 12 anos, podem ser somadas. A partir da promulgação desse Projeto de Lei, as penas dos 179 condenados pelos atos golpistas de Bolsonaro e dos que articularam a tentativa de golpe de Estado podem ser reduzidas, já que as punições pelos diferentes crimes não podem mais ser somadas.

 Sessão do congresso que derrubou o veto do projeto de lei da dosimetria de penas. Foto: Lula Marques/ Agência Brasil
Sessão do congresso que derrubou o veto do projeto de lei da dosimetria de penas. Foto: Lula Marques/ Agência Brasil

Ao restringir a possibilidade de soma de penas, a medida tende a reduzir o tempo total de condenação em casos envolvendo múltiplos crimes, o que pode levar à revisão de sentenças já aplicadas.

Pela primeira vez desde 1894, indicação presidencial ao STF é barrada pelo Legislativo; governo precisa escolher novo nome para vaga aberta desde outubro
por
Felipe Assis Pereira da Silva
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01/05/2026 - 12h

 

O Senado Federal rejeitou, na quarta-feira (29), a indicação de Jorge Rodrigo Araújo Messias para ministro do Supremo Tribunal Fdereal (STF). Foram 42 votos contrários e 34 favoráveis , em sessão com 79 dos 81 senadores presentes. A derrota representa um acachapante revés pólitico para Lula em ano eleitoral e expõe a dificuldade de articulação  política do governo no Congresso, até mesmo em uma indicação considerada prioritária pelo Palácio do Planalto.

O resultado é inédito na história recente do país. Há 132 anos o Senado não rejeitava uma indicação presidencial para o STF. A última vez em que isso aconteceu foi em 1894, no governo de Floriano Peixoto, nos primeiros anos da República.  Foram rejeitados, naquele momento, Cândido Barata Ribeiro, Inocêncio Galvão de Queiroz, Francisoco Raymundo Ewerton Quadros, Antônio Caetano Sève Navarro e Demosthenes da Silveira Lobo. Messias se torna o sexto nome barrado em toda a história do tribunal e o primeiro após a redemocratização.

A derrota foi contruída ao longo de cinco meses de desgaste político. Lula anunciou sua escolha em novembro de 2025, mas a mensagem formal só chegou ao Senado em abril de 2026. A demora expôs  a dificuldade do governo em organizar  apoio suficiente e revelou uma crise na relação com o comando da Casa. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), defendia abertamente o nome do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco para a vaga e reclamou publicamente de não ter sido consultado sobre a escolha de Messias. Em retaliação, o chefe do Legislativo colocou em votação uma "pauta-bomba" para o governo. Diante da resistência, Lula driblou Alcolumbre e decidiu não enviar  a mensagem oficial com o nome de Messias ao Senado. O senador cancelou a sabatina, acusando o governo de "greve omissão".

A oposição, por sua vez, tratou a indicação como escolha política desde o início. Partidos como PL e Novo associaram Messias à tentativa de ampliar a influência de Lula sobre o Supremo. Sob o comando de Messias, a AGU, criou a Procuradoria Nacional da União de Defesa da Democracia, chamada pela oposição de "Ministério da Verdade", criticada por sua atuação na remoção de conteúdos digitais. O episódio reforçou a resistência dos senadores contrários à  indicação. 

Na sabatina que durou cerca de oito horas na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), Messias foi confrontado sobre temas como aborto e liberdade de expressão. Fez acenos ao Congresso, defendeu a separação dos poderes e a prerrogativa do Legislativo. Também disse que o STF não pode atuar como uma espécie  de "Procon da política", mas também "não pode ser omisso". Os acenos não foram suficientes. A CCJ  aprovou o nome por 16 votos a 11, mas o Plenário reverteu o resultado com folga.

O voto secreto foi decisivo para aumentar o risco da indicação. Como a escolha de ministros do Supremo é feita sem registro nominal no Plenário, senadores da base governista puderam votar contra sem romper publicamente com o Planalto. A rejeição mostrou que o governo não conseguiu converter apoios declarados em votos efetivos. A reação da oposição foi imediata. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, classificou  o resultado como uma vitória política. O líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), foi mais direto: "Hoje acaba o Lula 3. Perde credibilidade, perde capacidade de articulação", afirmou após a sessão. Já o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), minimizou o impacto e atribuiu a derrota à polarização do ano eleitoral.

Jorge Messias, em entrevista coletiva após ser rejeitado pelo Senado
Jorge Messias, em entrevista coletiva após ser rejeitado pelo Senado. Foto: Ton Molina/Agência Senado.

Com a rejeição, a mensagem indicando Messias foi arqueivada. Lula terá de buscar um nome capaz de reunir confiança pessoal, currículo jurídico e viabilidade real no Senado. A constituição não estabelece prazo para a nova escolha e não proíbe expressamente que o presidente indique novamente o mesmo nome, mas uma nova tentativa com Messias  seria politicamente improvável após a derrota em Plenário. Até a aprovação de um novo ministro, o STF seguirá com uma cadeira vaga. A votação também reforça que a sabatina para o Supremo deixou de ser um rito previsível e passou a funcionar como arena de disputa entre Executivo, oposição e comando do Congresso.

Comercialização representa disputa entre EUA e China e motiva ação do STF
por
Sofia Martins
Isabella Damião
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29/04/2026 - 12h

 

Na segunda-feira (13), foi anunciada a venda da mineradora Serra Verde em Minaçu, Goiás, para a empresa americana USA Rare Earth, no valor de 2,8 bilhões de dólares. A conclusão da operação ainda está condicionada a aprovação de órgãos reguladores e deve ser divulgada até o fim de 2026, a operação gerou debates políticos sobre a inconstitucionalidade da venda e chegou ao STF. 

A mineradora Serra Verde é a única em funcionamento atualmente que explora terras raras no Brasil e uma das poucas que possui produção em larga escala fora do continente asiático. Operando desde 2024, exportava minerais raros destinados para China antes de sua venda para USA Rare Earth. A mineradora é responsável por extrair elementos raros leves e pesados de alto valor como neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, fundamentais para a fabricação de ímãs permanentes de alta potência que são essenciais dentro da indústria tecnológica, automobilística e militar.

O acordo teve participação direta do governo estadunidense e representa uma disputa tecnológica e econômica dos Estados Unidos com a China. Como as limitações e impedimentos do governo chinês sobre a exportação no ano passado foram um fator ameaçador aos olhos do governo norte-americano, a compra da mineradora pela USA Rare Earth foi considerada crucial para a segurança nacional e econômica daquele país. O intuito da compra é deter o controle de uma fonte estratégica de terras raras fora da Ásia, principalmente pelo destaque da mineradora brasileira em possuir altos números de produção por ano. 

Mineradora Serra Verde
Planta da mineradora em Minaçu-GO. Foto: Divulgação/Serra Verde

A negociação das terras raras goianas gerou debates na comunidade por seu caráter contrário à Constituição de 1988. Os artigos 20 e 176 garantem que “os recursos minerais, inclusive os do subsolo” são bens nacionais e que jazidas brasileiras, minerais ou não, devem ser exploradas e aproveitadas pelo Estado, que detém todo produto das terras. 

Por esses e outros artigos o partido Rede Sustentabilidade acionou o Supremo Tribunal Federal na sexta-feira (24) com uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), alegando a inconstitucionalidade da negociação e o prejuízo do controle estatal nos recursos nacionais. O ministro Kassio Nunes Marques, relator do caso, irá solicitar a suspensão das operações de venda realizadas até o momento. 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se pronunciou com relação à operação, criticando a venda das terras raras e questionando a ação do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), que não consultou a união. “O Caiado fez um acordo com empresas americanas, fazendo concessão de coisa que ele não pode fazer, porque é da União. Se a gente não tomar cuidado, essa gente vai vender o Brasil, e nós não podemos permitir", afirmou o presidente em entrevista concedida ao portal ICL. O pré-candidato à presidência, Ronaldo Caiado, respondeu à crítica de Lula. Sem mencionar a regra constitucional, Caiado apenas se limitou a devolver a acusação, dizendo que quem está vendendo o Brasil é Lula: “Ele está entregando tudo, não está desenvolvendo nenhuma tecnologia no Brasil, e nós continuamos a vender pau-brasil, como na época da colônia, ao vender nióbio, terras raras pesadas”, declarou.

Sentenciado a cumprimento em regime aberto, José Maria de Almeida, fez um discurso considerado racista contra judeus
por
Gabriel Thomé
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29/04/2026 - 12h

 

Na última terça-feira (28), a Justiça Federal de São Paulo sentenciou Zé Maria, fundador e presidente do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), a dois anos de prisão em regime aberto. A causa para tal foi a propagação de discursos de ódio contra o povo israelense no contexto da guerra com a Palestina. As falas do presidente foram consideradas racistas.

Em ato realizado em 22 de outubro de 2023, integrantes do PSTU declararam apoio ao povo Palestino. Em uma live para o Instagram, transmitida pelo partido, Zé Maria proferiu palavras sugerindo a aceitação de qualquer tipo de violência contra o estado “sionista”. Além disso, o partido defendia o fim do Estado Judeu no Oriente Médio. Bandeiras de Israel e Estados Unidos foram queimadas em meio ao ato.

Ato do PSTU na Paulista contra Israel. Reprodução Instagram/ @pstu_oficial
Ato do PSTU na Paulista contra Israel , que contou com cerca de 2 mil pessoas e levaria à prisão de Zé Maria anos 3 anos depois . Reprodução Instagram/ @pstu_oficial

 

“Todo ato de força, todo ato de violência do povo palestino, contra o sionismo é legítimo, e nós temos que apoiar aqui na palestina e em todo o mundo. Mas não só pra isso, é pra também colocar, de uma vez por todas, um ponto final no estado sionista de Israel. Para que possa florescer o estado palestino, laico, democrático, do Rio Jordão ao mar”, defendeu o militante.

A Confederação Israelita do Brasil (Conib) e a Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) acionaram o Ministério Público exigindo prisão ao presidente do PSTU pelos discursos de ódio propagados.

A condenação de Zé Maria foi determinada pelo juiz Massimo Palazzolo, da 4ª Vara Criminal Federal. O juiz considerou as declarações como “degradantes”. As críticas realizadas pelo presidente do PSTU, segundo Palazzolo, extrapolaram os limites políticos e éticos.

“A Lei n.º 7.716/89 (Lei dos crimes raciais) criminalizou os comportamentos discriminatórios por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, estabelecendo regime penal para condutas que disseminam o ódio e estigmatizam grupos humanos; e, como instrumento contra o comportamento discriminatório”, afirmou, na sentença, o juiz.

O magistrado reforçou que criticar o Estado de Israel não se configura como prática antissemita e não levaria o militante à condenação. Entretanto, o teor das aspas de Zé Maria, segundo o juiz, configura preconceito tanto contra a comunidade judaica quanto contra o movimento sionista. 

Discussões sobre discursos antissionistas vem ganhando força no Congresso. Recentemente, a deputada federal Tabata Amaral apresentou o Projeto de Lei nº 1424/2026, que consiste em equiparar determinadas manifestações antissionistas ao antissemitismo, dependendo do contexto e da forma como são feitas. Críticos argumentam que esse projeto é um ataque à liberdade de expressão. O episódio envolvendo Zé Maria é um exemplo de caso que o PL da deputada pretende regular. O ponto principal desta discussão é estabelecer o limite entre críticas políticas e discursos considerados antissemitas.

José Maria, em declaração para o portal “Opinião Socialista” declarou que a condenação é injusta e não tem qualquer sustentação histórica, política ou legal. “O sionismo nada tem a ver com religião ou um grupo étnico, é uma ideologia de extrema direita que não representa o povo judeu”, ressaltou o presidente do PSTU. 

O militante também explicou que não defende, diretamente, a morte do povo israelense. “Dizer que o Estado de Israel tem que acabar não tem nada a ver com fazer pregação contra o povo judeu, é o mesmo que dizer que o Estado de Apartheid da África do Sul tinha que terminar, e isso não significava pregar a morte dos brancos sul-africanos, mas a defesa do fim de um Estado de segregação racial”,  ponderou.

O PSTU, por sua vez, em nota, afirmou que vai recorrer da decisão da Justiça Federal. “Diante de uma decisão sem qualquer base legal, o PSTU vai recorrer no Tribunal Federal de São Paulo (TRF3). Mais do que isso, o partido não vai retroceder um milímetro de sua denúncia do Estado de Israel e dos sucessivos crimes contra a humanidade que vem praticando sob os olhos do mundo. O PSTU reafirma sua defesa incondicional do povo palestino, contra o genocídio e pelo fim do Estado sionista, racista e colonialista de Israel, por uma Palestina laica, democrática e não racista, onde todos os povos, judeus, árabes e de todas as etnias e religiões possam conviver pacificamente".

Via Instagram, alguns políticos consolidados da esquerda brasileira demonstraram apoio a Zé Maria. A deputada Luiza Erundina, por exemplo, afirmou: “Minha solidariedade ao companheiro e militante histórico, Zé Maria, presidente do PSTU, condenado a dois anos de prisão em razão de manifestações políticas e críticas à respeito da tragédia humanitária em curso no Oriente Médio contra o povo palestino. É inaceitável! Meu apoio ao Zé Maria e a todos que seguem na defesa intransigente dos direitos humanos, da justiça e da livre manifestação do pensamento”.

O atual presidente do PSTU possui uma extensa trajetória política, tendo sido candidato à Presidência da República quatro vezes:  em 1998, 2002, 2010 e 2014. Seu melhor desempenho foi em 2014, quando obteve 91.200 votos, aproximadamente 0,09% dos votos válidos. 

 

“Pessoas foram executadas em estádios” afirma Renata Beltrão, guia do Museu do Futebol
por
Malu Malaquias
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28/04/2026 - 12h

O esporte foi utilizado como instrumento político por ditaduras militares na América Latina, especialmente no Brasil, na Argentina e no Chile, entre as décadas de 1960 e 1980, período marcado por golpes de Estado e repressão. Governos autoritários desses países exploraram o enorme alcance popular do esporte para promover propaganda oficial, estimular o nacionalismo e desviar a atenção da população das violações de direitos humanos, seja por meio de grandes eventos como Copas do Mundo ou do controle sobre clubes, federações e estádios. Essa estratégia ocorreu porque o futebol, enquanto fenômeno de massa, possui alto poder de mobilização emocional, tornando-se uma ferramenta eficaz de legitimação política e controle social em contextos autoritários.

Durante esse período, os países afetados por regimes militares sofreram controle não apenas as instituições políticas, mas também as manifestações culturais. Nesse cenário, a modalidade esportiva, já consolidada como o principal fenômeno de massa do continente, passou a ocupar um lugar estratégico nas ações do Estado. Capaz de mobilizar sentimentos coletivos, reunir multidões e produzir símbolos nacionais, o esporte foi apropriado pelos governos como instrumento para sustentar discursos oficiais de ordem, progresso e unidade. Essa instrumentalização envolveu diferentes dimensões, como a propaganda governamental, o controle social por meio do entretenimento e a construção de um sentimento patriótico artificial em meio à repressão. 

No Brasil, após o golpe civil-militar de 1964, o novo governo passou a intervir diretamente no universo esportivo. Os militares compreenderam que o futebol, não poderia permanecer distante das disputas de poder. A suspensão de competições logo após a ruptura democrática indicou que o Estado via o esporte como um espaço sensível à instabilidade política. Com o Ato Institucional nº 5, decretado em 1968, aprofundou o autoritarismo da ditadura militar ao suspender direitos civis, ampliar a censura e intensificar a repressão política, criando o contexto ideal para o uso do futebol como instrumento de propaganda e controle social. A aproximação entre o governo, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e dirigentes como João Havelange consolidou uma aliança que permitiu maior controle sobre a organização esportiva e sobre a imagem da Seleção Brasileira.

A conquista da Copa do Mundo de 1970, no México, tornou-se o maior símbolo do uso político desse fenômeno esportivo em nosso país. O tricampeonato mundial foi apropriado pelo regime do general Emílio Garrastazu Médici como prova da suposta grandeza nacional. Campanhas publicitárias e slogans, como “Pra Frente, Brasil” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”, associaram o sucesso esportivo ao chamado “milagre econômico”, promovendo a ideia de um país próspero e em ascensão. Enquanto a população celebrava nomes como Pelé, Tostão e Jairzinho, a repressão se intensificava nos bastidores, com censura, tortura e desaparecimentos políticos. Tornando a modalidade uma poderosa ferramenta para encobrir a violência do Estado e legitimar o regime interna e externamente.

Na Argentina, a ditadura instaurada em 1976 pela junta militar liderada por Jorge Rafael Videla encontrou na Copa do Mundo de 1978 uma oportunidade estratégica de autopromoção internacional. O evento foi cuidadosamente planejado para apresentar o país como moderno, organizado e pacificado, apesar da existência de centros de detenção clandestinos e da prática sistemática de violações dos direitos humanos. O torneio ficou marcado por denúncias de censura à imprensa, perseguição política, desaparecimentos forçados e suspeitas de interferência nos resultados esportivos, como a polêmica goleada da Argentina sobre o Peru por 6 a 0.  Historiadores como José Paulo Florenzano, apontam que o título mundial simboliza uma profunda contradição entre a euforia popular e o terror imposto pela autoridade estatal.

No Chile, o golpe de 11 de setembro de 1973, liderado por Augusto Pinochet, estabeleceu uma relação ainda mais brutal entre futebol e repressão. O Estádio Nacional de Santiago, principal palco esportivo do país, foi convertido em centro de detenção, tortura e execução, por onde, segundo levantamentos históricos e instituições de memória, estima-se que cerca de 40 mil prisioneiros políticos nos primeiros meses da ditadura. O espaço, tradicionalmente associado à celebração esportiva, transformou-se em símbolo do terror estatal. Um episódio emblemático desse período foi o boicote da União Soviética à partida contra o Chile, válida pela repescagem da Copa do Mundo de 1974, em protesto contra a realização do jogo em um estádio recentemente utilizado como campo de concentração.

​ Painel exposto no Museu do Futebol relembra a ditadura militar no Chile, destacando a pergunta “¿Dónde está?” (“Onde está?”), símbolo da luta por memória e justiça diante dos desaparecimentos forçados ocorridos após o golpe de 1973. Foto: Malu Malaquias  Click e arraste para mover ​
Painel exposto no Museu do Futebol relembra a ditadura militar no Chile, destacando a pergunta “¿Dónde está?” (“Onde está?”), símbolo da luta por memória e justiça diante dos desaparecimentos forçados ocorridos após o golpe de 1973. Foto: Malu Malaquias

Apesar do forte controle estatal, o futebol não se restringiu ao papel de instrumento da repressão. Em diferentes momentos, tornou-se também espaço de resistência política. No Brasil, a Democracia Corinthiana destacou-se como um dos movimentos mais significativos, ao defender a gestão democrática do clube e apoiar publicamente a campanha das Diretas Já no início dos anos 1980.

“Houve atuação direta de alguns jogadores contra a ditadura”, constatou a guia Renata

Liderados por jogadores como Sócrates, Casagrande e Wladimir, os atletas utilizaram sua visibilidade para questionar o autoritarismo. Além disso, torcidas organizadas, jornalistas esportivos e intelectuais passaram a empregar o futebol como linguagem simbólica para driblar a censura e ampliar o debate público.

Com o fim das ditaduras, a preservação da memória tornou-se fundamental para compreender o papel do futebol nesses regimes. Instituições como o Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), ligado ao Museu do Futebol, dedicam-se à pesquisa, documentação e divulgação das relações entre esporte, política e direitos humanos. Em parceria com centros acadêmicos, como o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas, essas iniciativas contribuem para combater o apagamento histórico e aprofundar o debate sobre o passado autoritário do continente. Reconhecer que futebol e política sempre estiveram interligados é essencial para que o esporte deixe de ser instrumento de dominação e se consolide como espaço de cidadania, reflexão crítica e memória coletiva.

Avanço dos deepfakes transforma a percepção das imagens nas redes sociais e levanta questionamentos sobre verdade e cultura digital
por
Carolina Nader
|
28/04/2026 - 12h

Vídeos capazes de simular discursos e expressões que nunca aconteceram deixaram de ser experimentos tecnológicos para se tornarem uma preocupação crescente no ambiente digital. Produzidos com o uso de Inteligência Artificial (IA), os chamados deepfakes ampliam desafios para a informação pública e acendem alertas sobre a disseminação da desinformação, especialmente em períodos eleitorais.

Mais do que uma inovação técnica, esses materiais circulam em um ambiente digital marcado pela velocidade do compartilhamento e pelo peso das emoções na propagação de informações. Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), publicado em 2018 na revista Science, mostrou que informações falsas podem se espalhar até seis vezes mais rápido do que conteúdos verdadeiros nas redes sociais, ampliando desafios para jornalistas, pesquisadores e usuários diante da desinformação online.

Em períodos eleitorais, essa dinâmica torna-se ainda mais relevante. Ao navegar pelas redes, eleitores são expostos a publicações virais que, antes mesmo de serem verificadas ou desmentidas, alcançam grande circulação e passam a influenciar percepções sobre candidatos e acontecimentos políticos. Houve casos como o da deputada Tabata Amaral, que teve suas imagens adulteradas com montagens pornográficas em 2024.

De acordo com João Henrique Martins, advogado especialista em Direito Digital e mestre em IA pela PUC-SP, o principal desafio está na diferença de ritmo entre tecnologia e instituições. “Há um problema diagnosticado de que o processo legislativo não acompanha a mesma velocidade com que a tecnologia evolui. Enquanto a desinformação circula em um ritmo exponencial, a lógica processual possui ritmo muito menor.”

Segundo o especialista, a expansão dos deepfakes também está ligada à democratização das ferramentas de inteligência artificial. O que antes exigia conhecimento técnico avançado passou a estar acessível a qualquer pessoa capaz de utilizar plataformas digitais, ampliando significativamente o potencial de criação e disseminação de materiais manipulados durante campanhas eleitorais.

Martins destaca ainda que a legislação eleitoral brasileira já prevê responsabilização para casos de desinformação. De acordo com ele, a punição pode atingir tanto quem produz quanto quem compartilha conteúdos sabidamente falsos, já que o foco da lei está no ato de divulgar informações inverídicas capazes de influenciar o eleitorado. Ainda assim, a velocidade da circulação digital impõe dificuldades práticas para a aplicação das normas existentes.

A rapidez das redes sociais também contribui para o impacto dos deepfakes ao se conectar diretamente às emoções humanas. As plataformas digitais são estruturadas para priorizar publicações que geram reação imediata nos indivíduos. Para o psicanalista João Bosco, “a racionalidade exige tempo e o ambiente digital valoriza a velocidade.”

Além disso, o especialista afirma que conteúdos extremos rompem a sensação de normalidade. Para ele, o ser humano não está apto a viver em um ambiente onde imagens podem mentir. Durante a maior parte da evolução humana, “ver” era sinônimo de acreditar, e a confiança na percepção visual foi fundamental para a sobrevivência. Agora, com a possibilidade de manipulação total das imagens, esse princípio é abalado, gerando um conflito psicológico. “Esse desalinhamento pode causar ansiedade, insegurança e até uma sensação constante de dúvida em relação à realidade”, afirma.

As consequências ultrapassam o campo individual e passam a afetar diretamente as relações sociais e a confiança coletiva, especialmente em contextos eleitorais. O relatório do World Economic Forum de 2024 apontou a desinformação impulsionada por IA como um dos principais riscos globais de curto prazo, destacando o potencial impacto sobre processos democráticos. Segundo João Bosco, quando as pessoas passam a duvidar sistematicamente do que veem, ocorre uma “erosão da confiança perceptiva”. Isso pode levar a dois extremos: acreditar em tudo pela emoção ou não acreditar em nada pelo ceticismo excessivo. No longo prazo, o impacto atinge não apenas a informação, mas a própria construção de sentidos sobre o mundo.

Diante do avanço dos deepfakes, plataformas digitais e autoridades eleitorais têm ampliado medidas de identificação, por meio da exigência de rotulagem de conteúdos gerados artificialmente, monitoramento, remoção de conteúdo irregular e multas eleitorais. Especialistas alertam, porém, que o desafio não é apenas tecnológico. A dificuldade em distinguir o que é real pode gerar cansaço informacional e afastamento do debate público - fenômeno associado ao aumento da apatia política.

Em um cenário em que imagens já não garantem automaticamente a verdade, o pensamento crítico passa a ocupar papel central na construção da confiança pública e no funcionamento da democracia.

O ato gerou reações dos alunos e tinha como principal intuito propagar o combate ao aborto
por
Hudy Ferreira
Gustavo Tonini
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24/04/2026 - 12h

 

Na manhã desta quarta-feira (22), integrantes do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira  (IPCO) realizaram uma manifestação contra o aborto em frente ao Edifício Reitor Bandeira de Melo da PUC-SP, na rua Ministro de Godói. Com placas escritas  “buzine se você odeia o socialismo”, oferecimento de panfletos anti-aborto e uma fanfarra acompanhada dos gritos da associação. 

 

Parte dos integrantes na manifestação eram jovens que buscavam mobilizar quem passava pela rua. Foto: Gustavo Tonini/Agemt
Parte dos integrantes na manifestação eram jovens que buscavam mobilizar quem passava pela rua. Foto: Gustavo Tonini/Agemt

 

O IPCO é uma organização ideológico-privada dos seguidores de Plínio Corrêa de Oliveira, líder católico tradicionalista, ex-deputado federal e fundador da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), a qual defende o combate ao comunismo, socialismo e modernismo da igreja, além de pautas como a pena de morte e o pró-vida.  

 

Em entrevista, Paulo Américo, um dos encarregados do IPCO na campanha contra o aborto, afirmou que a iniciativa tem como objetivo “alertar a população dos perigos do aborto e encorajar as pessoas que são contra a prática”, ressaltando o caráter mobilizador da ação. 

 

Sem presença feminina do IPCO, Paulo afirma que o debate central é de ordem moral e independe de gênero, “o aborto é legítimo ou não? Você pode matar ou não uma criança no ventre da sua mãe? Não importa se sou homem ou mulher”,enfatizou.

 

Luiza Passos, estudante de jornalismo da PUC-SP, critica a abordagem adotada pelos grupos presentes. Para ela, "a criminalização do aborto não impede que ele aconteça, ela apenas o torna mais perigoso", afirmou. Para a universitária, existe também destaque  da vulnerabilidade de mulheres jovens, negras e de baixa renda, que têm menos acesso a condições seguras de saúde e que recorrem a procedimentos clandestinos.

 

O ato gerou reações nos estudantes contrários às ideias propostas, os quais vaiaram e jogaram ovos e latas das escadarias do prédio como gesto de oposição. Américo recorreu ao artigo 5º, inciso XVI da Constituição Federal, destacando o direito à livre manifestação e a proibição de impedimentos a atos pacíficos em resposta aos ataques. 

 

Durante a campanha, a associação distribuiu um panfleto, “10 razões para rejeitar o aborto”, o qual traz argumentos divididos em tópicos de cunho moral, religioso e político contra a prática. 

 

Luiza também questiona o uso de argumentos religiosos em um Estado laico, "os panfletos distribuídos traziam argumentos religiosos, que não deveriam orientar leis que valem para toda a sociedade", ressalta. Segundo ela, o debate não pode ser reduzido a uma pergunta, pois "simplifica um tema complexo, que envolve saúde pública, desigualdade social e direitos reprodutivos", enfatiza.

 

Exemplar do folheto distribuído em frente à PUC-SP. Foto: Gustavo Tonini/Agemt
Exemplar do folheto distribuído em frente à PUC-SP. Foto: Gustavo Tonini/Agemt

 

No tópico “As destruições mais trágicas”, é relatado que 73 milhões de abortos voluntários ocorrem a cada ano e assemelhando esse número ao de mortes por catástrofes e na Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, a OMS inclui o aborto na lista de serviços essenciais de saúde, publicada em 2020 e sugere um método adequado de fazer o procedimento do aborto para que seja uma intervenção segura para a saúde da mulher. 

 

O panfleto também apresenta um paralelo com o Projeto TAMAR para contrapor a proteção de tartarugas à interrupção da gravidez humana, evocando um imaginário “Projeto Matar” e afirmando tratar-se de “a desvalorização máxima do ser humano”. 

 

Em outro trecho, intitulado “Um abismo atrai outros abismos”, o texto projeta um cenário futuro questionando: “E amanhã? Impor ideologia de gênero às crianças ou a eutanásia a nossos doentes e idosos? Legalizar o amor livre ou a pedofilia? Implantar leis de condenação aos cristãos preconceituosos?”.
 

Em entrevista à AGEMT, Bernardo Iacomo, estudante de Direito na PUC-SP, avaliou que o discurso apresentado busca “tirar o poder de decisão das mulheres”, sem propor medidas concretas para melhorar a qualidade de vida da mãe e da criança após o nascimento. Para Iacomo, o debate ignora questões práticas, além de inibir a responsabilidade paterna, destacando o abandono frequente de pais.

 

Favorável à legalização do aborto, Bernardo critica a moralidade na argumentação dos manifestantes, apontando contradições internas. Ele questiona o fato de defenderem princípios religiosos ligados à preservação da vida enquanto apoiam a pena de morte. Em sua visão “se a vida é um princípio, ela deve ser absoluta”, afirma.

 

A Polícia Militar foi acionada, mas segundo o Comando Geral da PM, não houve registros de operação. A manifestação se encerrou no início da tarde.