Na segunda-feira (5), a deputada estadual de São Paulo Sofia Favero (PSOL) acionou o Ministério Público contra a deputada Eduarda Campopiano (PL). Eleitas deputadas do estado no domingo (4). Eduarda foi a deputada estadual mais votada de São Paulo, com 1,9 milhão de votos, enquanto Sofia ficou em terceiro lugar, com 407 mil votos.
A publicação que motivou a denúncia foi feita no perfil do X de Campopiano na madrugada do dia 5 e atacou diretamente a deputada federal mais votada da história, Erika Hilton (PSOL), que teve mais de 1,5 milhão de votos. No texto, Erika Hilton, uma mulher trans, é chamada de “homem biológico”.
Em 2019, o Supremo Tribunal Federal enquadrou os crimes de homofobia e transfobia na Lei do Racismo (nº 7.716/1989). Desde então, a pena para quem comete esses crimes pode chegar a cinco anos de reclusão caso envolva divulgação massiva nas redes sociais, além do pagamento de uma indenização à vítima.
A publicação de Eduarda Campopiano acumulou 7.6 milhões de visualizações no X.
“Esse tipo de discurso mata e não é liberdade de expressão”, afirmou Sofia Favero (PSOL) em seu perfil no X. “Transfobia é crime, e quem comete vai ser responsabilizado”.
O presidente Luis Inácio Lula da Silva abriu a 81ª Assembleia Geral da ONU que ocorreu na terça-feira, 22, reafirmando a soberania nacional: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. O discurso abordou os momentos mais críticos da história das Nações Unidas e reforçou que a organização está falhando em evitar guerras.
O presidente criticou o imobilismo do Conselho de Segurança, afirmando que a comunidade internacional é refém da paralisia de uma organização que falha em cumprir seu papel de livrar a comunidade da guerra e de proteger os mais vulneráveis. Além de defender a reforma da comissão.
Ele criticou o Direito de Veto, capacidade dos cinco membros permanentes (China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia), e relembrou que desde a primeira sessão da Assembleia, ocorrida em 1946, o Brasil já alertava do alto preço da medida. Lula classificou essa prerrogativa como “Vício de Origem” da Carta da ONU, que garantiu que grandes potências tivessem o “privilégio da insensatez”, segundo ele.
O presidente também mencionou conquistas nacionais como o sistema Pix e a queda de 50% no desmatamento da Amazônia, que marcou o menor patamar em 11 anos.
A reunião integrou a agenda de Lula com a abertura da Assembleia Geral da ONU. O secretário-geral, António Guterres, afirmou ao atual presidente que conta com o Brasil para avançar na agenda multilateral e abordar temas, pautados no discurso de abertura, como a reforma do Conselho de Segurança, a equidade de gênero e uma possível solução para o conflito palestino.
Nos Estados Unidos, o presidente Lula também se encontrou com o prefeito nova-iorquino, Zohran Mamdani. Os líderes políticos debateram sobre a importância da democracia e conversaram sobre o custo de vida em ambos os países, o combate à pobreza e o fim da escala 6x1, tema que tem gerado diversos debates no Brasil.
Mamdani, o primeiro prefeito muçulmano a governar a metrópole estadunidense, elogiou Lula, afirmando que ele era uma grande “fonte de inspiração”, dada a sua relevância na defesa dos trabalhadores. O presidente também presenteou o prefeito com uma camiseta do Corinthians e formulou um convite oficial para que ele visitasse o Brasil em breve.
No mesmo encontro, Lula se reuniu com o senador norte-americano, Bernie Sanders, político independente com mais tempo de mandato na história do Congresso. Segundo o governo brasileiro, eles conversaram sobre a defesa do multilateralismo, sistema em que diversos países cooperam, com regras e instituições compartilhadas, além de negociações coletivas visando à solução de problemas globais.
Na reunião, os políticos pautaram o combate ao extremismo presente no pleito brasileiro e nas eleições de meio de mandato (midterms) nos Estados Unidos. Conforme relatado por veículos de imprensa, Sanders e outros legisladores norte-americanos enviaram uma carta ao Secretário de Estado, Marco Rubio, na qual expressaram preocupações com pressões da administração americana sobre a política brasileira.
Lula também se encontrou com o Presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, na segunda-feira, 21, na residência oficial do embaixador do Brasil em Nova York. A reunião durou, aproximadamente, 50 minutos e foram pautadas durante a conversa a integração da América Latina e do Caribe, o fortalecimento do Mercosul e o combate ao extremismo político e à desinformação.
Lula manifestou interesse em conhecer a experiência e a regulação uruguaia em relação às bets (mercado de apostas digital) e ampliar o comércio, a segurança nas fronteiras, a cooperação sanitária e o intercâmbio cultural.
Antes e depois da viagem internacional, Lula cumpriu agenda oficial pelo país. No Rio de Janeiro, participou da apresentação conjunta das forças de segurança. O evento aconteceu na sexta-feira, 18, no pátio do Complexo da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Irajá, no Rio de Janeiro, e reuniu representantes, como o prefeito do Rio de Janeiro, desembargadores, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima, e o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues.
Foram anunciadas na cerimônia ações integradas de combate ao crime organizado, além do debate sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, que busca alterar as competências dos estados e dos municípios na área de segurança.
Na quinta-feira, 24, o presidente vistoriou as obras de ampliação e modernização da Rodovia Presidente Dutra (BR-116), em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. As melhorias no trecho somam cerca de R$ 997 milhões. A construção já atingiu 70% de sua conclusão e tem como objetivo reduzir o tempo de percurso entre o Trevo das Margaridas e a Avenida Brasil, visando ampliar a capacidade de tráfego e a segurança para os moradores da região.
O governo federal anunciou na sexta-feira, 25, diversos tipos de medidas econômicas voltadas para a proteção da economia popular e o combate ao endividamento das famílias.
O presidente assinou uma Medida Provisória (MP nº 1394) que proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas e cassinos virtuais, as chamadas bets. Os sites e aplicativos serão bloqueados e sairão do ar a partir do dia 06 de outubro, e os apostadores terão até o dia 05 para realizar o resgate de saldos depositados nas plataformas. Contratos de publicidade e marcas de patrocínio também deverão ser removidos do ar e foi enviado ao Congresso um Projeto de Lei para tipificar crimes associados à exploração ilegal e fraudes no setor de apostas.
Lula também anunciou o lançamento do programa Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas focado na recuperação financeira dos cidadãos. O mecanismo vai funcionar a partir do Tesouro Nacional, que comprará diretamente os débitos com descontos substanciais, permitindo que os endividados paguem o valor renegociado diretamente à União.
O governo oficializou a manutenção do subsídio ao óleo diesel em R$ 2,12 por litro, além de prorrogar por 120 dias o Desenrola Adimplentes, programa voltado para a renegociação de trabalhadores informais que estão com as contas em dia.
Ainda na sexta-feira, 25, o Presidente se reuniu com empresários e figuras econômicas centrais no Hotel Tivoli Mofarrej, localizado na região do Jardins em São Paulo. Estiveram presentes no evento representantes de diversos bancos, economistas, advogados e ministros.
O principal foco foi na responsabilidade fiscal e na trajetória da dívida pública em relação ao PIB e no patamar elevado dos juros. Lula e seus apoiadores prometeram segurança jurídica e previsibilidade econômica para atrair investimentos privados caso ele seja eleito. Além de defender a necessidade de ajustar as contas públicas sem prejudicar os trabalhadores nem precarizar os programas sociais.
Na segunda-feira, 28, o presidente sancionou a Lei nº 15.522/2026, que estabelece diretrizes nacionais permanentes para transformar o futebol feminino em prioridade nas políticas públicas esportivas.
A legislação estabelece a obrigatoriedade dos clubes de manter equipes femininas equivalentes aos times masculinos e assegura medidas específicas de proteção à gravidez e à maternidade das atletas, além de estabelecer protocolos contra a violência e o preconceito.
Na última semana da corrida eleitoral, os candidatos à Presidência da República com menor porcentagem buscam inovar em suas estratégias de campanha. A reta final traz debates entre os concorrentes e a intensificação das participações em suas plataformas.
Clariana Barão, Hertz Dias, Rui Costa Pimenta, Samara Martins e Wilson Grassi no dia 26, participaram do Podcast 3 Irmãos, do Kritikê e do Canal MyNews para debater sobre suas propostas de governo. Todos os presidenciáveis foram chamados ao evento, no entanto, o programa foi apenas acolhido pelos candidatos com menor potencial de voto.
Mário Speziano, apresentador do debate, afirmou em entrevista ao Canal MyNews que: “É o fim da superficialidade e do espetáculo de ataques a que estamos acostumados, em favor de um debate profundo sobre propostas reais”. , Segundo o MyNews, o debate teve a proposta de oferecer ao público contato com diferentes projetos, ideias e visões sobre o futuro do Brasil, abordando temas ligados ao cotidiano dos brasileiros e questões fora dos formatos convencionais.
Clariana Barão (DC)
Nesta segunda-feira (28), a candidata fez uma visita ao Mercadão de São Paulo para a captação de imagens para sua campanha. Na terça-feira (29), Clariana participou de um evento social em São Paulo, na capital, que ocorreu em uma clínica. O evento teve como um dos objetivos a captação de imagens para a divulgação de sua campanha eleitoral nas redes sociais e mídias eletrônicas.
Quarta-feira (30), concedeu entrevista para a Rádio Cultura de Cuiabá (MT). Clariana reforçou sua ligação com o Mato Grosso e defendeu a necessidade de maior protagonismo feminino para a consolidação da democracia. Além disso, também abordou propostas de combate à violência doméstica, defendeu valores de direita com rejeição ao extremismo e criticou o atual cenário das contas públicas.
Edmilson Costa (PCB)
O candidato publicou em seu Instagram seu apoio à proibição das BETS, informando que a medida já estava prevista em seu plano de governo. "Sempre foi claro que as casas de apostas e cassino online nunca trouxeram qualquer elemento positivo para a economia nacional ou para a sociedade", afirma.
Na segunda-feira (28), Edmilson participou de uma conversa no Instagram com a jornalista Renata Regina. O foco da entrevista foi nas propostas do partido voltadas às transformações sociais e econômicas, como a construção do Poder popular, jornal oficial vinculado ao PCB e a defesa dos trabalhadores. Além disso, o candidato reforçou sua oposição às altas taxas de juros e à inflação, defendendo reformas na tributação.
Na terça-feira (29), participou de uma roda de conversa para apresentação do programa anticapitalista e anti-imperialista do PCB a Presidência do Brasil, em Taguatinga (DF).
Na quarta-feira (30), ainda no Distrito Federal, o presidenciável fez panfletagem na feira do Guará e no terminal de metrô. Ainda nesse dia, almoçou com o deputado distrital Max Maciel (PSOL) na feira da Ceilândia.
Hertz Dias (PSTU)
O candidato se manifestou em suas redes sociais sobre a proibição das Bets, anunciada pelo presidente Lula na sexta-feira (25). Hertz enfatizou que a proibição das casas de apostas online já estava presente em seu plano de governo, e se posicionou a favor da medida de Lula.
No sábado (26), Dias participou do debate organizado pelo Podcast 3 Irmãos. O candidato se destacou ao lado de Wilson Grassi na dinâmica “Brasil em números”, que buscava testar o conhecimento sobre estatísticas dos concorrentes por meio de um quiz.
Questionado sobre pautas trabalhistas e escala 6x1, Hertz afirmou: “Nós defendemos o fim dessa escala de trabalho, sem redução de nenhum direito, sem redução salarial”. O candidato propõe como alternativa à escala 6x1, a jornada de trabalho 4x3.
Dias também frisou sua oposição quanto à exploração das terras raras brasileiras pelos Estados Unidos. O candidato tem como proposta a criação de uma empresa estatal com o objetivo de manter os recursos na indústria brasileira. “Soberania nacional significa o povo brasileiro controlar suas próprias riquezas”, declara.
Rui Costa Pimenta (PCO)
Na terça-feira (29), às 13h, o candidato participou do programa Análise da Terça na Rádio Causa Operária. Na Quarta-feira (30), em Recife (PE), esteve presente em um ato de encerramento de campanha no Sinttel.
Nesta sexta-feira (02), a dois dias do Primeiro Turno, Rui Costa Pimenta fecha a campanha do PCO com um jantar em São Paulo com militantes e apoiadores do partido.
Samara Martins (UP)
A candidata segue com a publicação de sua série nas redes sociais “Propostas da UP para mudar o Brasil”. Nesta semana, foram publicados conteúdos sobre a soberania nacional, fim das privatizações, transporte público, mobilidade urbana e a garantia do livre acesso do povo ao esporte.
No debate do Podcast 3 irmãos, Samara focou suas respostas no viés socialista de sua candidatura. “É possível não só mudar a política, mas mudar o sistema”, afirmou.
No dia sábado (26), a Unidade Popular realizou um comício pelo centro da capital paulista, do qual a candidata fez parte.
No dia 28, Martins esteve no Vão do MASP, em conjunto com a UP e o Movimento de Mulheres Olga Benário para celebrar o dia Latino-americano e Caribenho de Luta Pela Descriminalização e Legalização do aborto. A candidata afirma “Seguimos lutando pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito garantido pelo SUS e, portanto, pelo direito de mulheres, meninas e crianças viverem com dignidade e autonomia sobre seu próprio corpo”.
Wilson Grassi (Democrata)
O candidato levou, na quarta-feira (01), uma denúncia à Organização dos Estados Americanos (OEA). A reunião tratou do que que Grassi caracterizou como “a completa manipulação da eleição brasileira”, dada a falta de espaço dos candidatos nanicos na grande mídia. Wilson também presente no debatedo Podcast 3 Irmãos, o concorrente afirmou: “Esse foi o único debate democrático desse ano. Foi o único que convidou todo mundo e veio quem quis”.
Cinco amigos, cerca de R$ 10 de cada um e uma múltipla de futebol. Foi assim que Leandro Moreno fez sua primeira aposta, quando ainda tinha 17 anos. O grupo perdeu os aproximadamente R$ 50 colocados naquela aposta e, para quase todos, a experiência terminou ali. Mas Leandro decidiu continuar.
"Nois colocou uns 10 reais, perdeu e os caras largaram. Mas eu fiquei maluco. Aí fui e coloquei 50 conto pra recuperar tudo que o pessoal tinha perdido”, conta.
O caso de Leandro ajuda a colocar uma história por trás de um número divulgado no dia 10 de setembro pela Frente Parlamentar Mista da Educação. Um levantamento feito em parceria com o Equidade.info ouviu 1.912 estudantes de 191 escolas e mostrou que 20,4% dos alunos dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio já fizeram apostas online. Aos 17 anos, idade em que Leandro começou, esse número chega a 32,3%. Entre os meninos do 3º ano do Ensino Médio, 49,7% afirmaram já ter apostado.
Mas existe uma contradição nesses números. A utilização de plataformas de apostas por menores de 18 anos é proibida no Brasil. A regulamentação prevê punições para os operadores e determina que as empresas autorizadas façam identificação dos apostadores, inclusive com reconhecimento facial e prova de vida.
Antes da aposta, vieram as lives
Leandro já conhecia esse universo antes de colocar dinheiro pela primeira vez. Ele acompanhava streamers e influenciadores que faziam conteúdos relacionados a cassino e apostas, principalmente junto com os próprios amigos.
"Eu sempre vi muita live e o Yuri começou a fazer live de cassino, muito mais do que de gameplay. Então eu gostava de assistir e eu ficava assistindo as lives do Yuri junto com os moleques. Então a gente começou junto, a gente decidiu ali junto, naquele dia, que a gente ia fazer uma, porque o Yuri tinha mostrado na live uma múltipla que ele fez e nois copiou.”
Apesar de ser menor de idade, Leandro conta que sabia que aquele conteúdo não era destinado para ele. Segundo ele, os próprios streamers repetiam os avisos para maiores de 18 anos. A proibição, porém, não era vista pelo grupo como uma grande dificuldade.
“Os caras falam toda hora que é pra maiores de 18. Só que não é muito difícil de jogar, sabe? No chat mesmo todo mundo conversava sobre, pedia o CPF da mãe, do pai e fazia o login e criava a conta. Era muito fácil.”
Hoje, para operar legalmente no Brasil, as plataformas precisam exigir dados do usuário e mecanismos de identificação. O apostador também deve cadastrar uma conta bancária ou de pagamento em seu próprio nome, e as empresas não podem aceitar depósitos feitos por contas de terceiros.
A experiência relatada por Leandro aconteceu antes do modelo atual de regulamentação estar totalmente estabelecido, mas o levantamento da Frente Parlamentar mostra que o problema não desapareceu. Crianças e adolescentes continuam relatando contato com as apostas mesmo depois do endurecimento das regras.
O próprio Guilherme Lichand, professor da Universidade Stanford e responsável pela supervisão da pesquisa, levantou essa dúvida ao divulgar os resultados: “Como crianças e adolescentes descobrem essas plataformas? Como contornar as restrições de idade?”
Quando perder vira motivo para continuar
No caso de Leandro, a primeira derrota não serviu para afastá-lo. Depois que os amigos perderam os R$ 10 de cada um, ele colocou sozinho aproximadamente o que todos haviam apostado juntos para tentar recuperar o prejuízo.
A psicóloga Vivian Bandeira explica que o círculo social pode ter um peso importante nesse tipo de comportamento, principalmente entre os jovens.
“Quando uma prática é constantemente apresentada por pessoas com as quais o jovem se identifica, seja por amigos ou por figuras que ele acompanha nas redes, existe uma tendência de normalização daquele comportamento. Ele deixa de enxergar aquilo como algo distante ou excepcional”, explica.
No caso de Leandro, não existia apenas a influência das pessoas que acompanhava pela internet. Os próprios amigos consumiam aquele conteúdo e decidiram começar a apostar juntos.
Vivian também destaca que o comportamento da pessoa dentro de um ambiente de aposta pode ser diferente daquele apresentado normalmente no dia a dia.
“Existe uma expectativa de recompensa muito intensa. Mesmo uma pessoa que não demonstra uma busca exagerada por dinheiro no cotidiano pode, dentro daquele ambiente, entrar em uma lógica de querer ganhar mais ou recuperar imediatamente aquilo que perdeu.”
A tentativa de buscar o dinheiro de volta é um comportamento também apontado por outros profissionais. A psiquiatra Giovanna Quinet afirmou à Agência Brasil que uma pessoa pode começar a perder mais dinheiro e aumentar o valor das apostas justamente tentando recuperar o prejuízo anterior.
Das apostas esportivas para o pôquer
Com o tempo, a forma como Leandro jogava também mudou. As apostas esportivas perderam espaço e o pôquer passou a ser a principal atividade. Hoje, ele joga tanto online quanto presencialmente e já participou de torneios.
“Poker é o que eu jogo hoje. Já fui até jogar presencial. Às vezes eu jogo online também pra treinar. Mas cassino hoje eu uso mais como treino de mentalidade. Aposta esportiva eu larguei.”
Leandro se define atualmente como uma pessoa viciada em pôquer. Mesmo assim, existe uma diferença entre essa prática e as apostas esportivas quando se fala especificamente da regulamentação das bets. O pôquer, por envolver habilidade entre os participantes, não entra da mesma maneira na modalidade de aposta de quota fixa regulamentada pelo governo.
Mas a relação de Leandro com apostas não ficou marcada apenas pela mudança do tipo de jogo. Ao longo dos anos, ele teve períodos de ganhos e perdas e conta que chegou a perder valores maiores do que pretendia e um desses momentos aconteceu quando colocou R$ 3 mil em uma aposta.
“Eu já não tava aguentando mais. Eu tava perdendo muito dinheiro naquela época. Aí teve um dia que eu coloquei 3 mil e eu perdi. Aí eu fui falar com a minha mãe, contei sobre todos os meus vícios em aposta e prometi pra ela que eu não ia mais jogar.”
O valor não foi necessariamente a maior perda que Leandro já teve, mas marcou um momento em que ele decidiu mudar sua relação com as apostas esportivas. Desde a conversa com a mãe, ele afirma que deixou de apostar da mesma maneira que fazia anteriormente.
As apostas também mudaram o futebol
O futebol foi a porta de entrada para a primeira aposta de Leandro, mas também acabou sendo afetado pela relação que ele criou com o dinheiro.
Corintiano, ele percebeu principalmente isso quando começou a colocar dinheiro em jogos do próprio clube.
“Eu nunca gostei muito de apostar no Corinthians. Porque quando o Corinthians perdia e eu tinha apostado, ficava mais puto ainda, dobrava a raiva e me afastava um pouco até do time. Eu ficava com raiva do time a semana inteira. Então acabou misturando muito e eu parei de apostar no Corinthians.”
A experiência de Leandro começou antes dos 18 anos, idade em que ele legalmente ainda não poderia utilizar uma plataforma de apostas. Mas o caso dele está longe de ser isolado. O levantamento divulgado pela Frente Parlamentar da Educação mostra que um em cada cinco estudantes entrevistados já teve algum contato com apostas online.
As regras atuais aumentaram as exigências para identificar quem está apostando e também endureceram restrições de publicidade para crianças e adolescentes. Mesmo assim, os números mostram que o acesso de menores continua sendo um problema.
Por isso, a principal questão levantada pela pesquisa não é apenas quantos jovens estão apostando, mas como eles chegam até esse ambiente tão cedo. No caso de Leandro, o caminho passou por lives, amigos, futebol e uma primeira aposta de R$ 10. Depois vieram valores maiores, outros tipos de jogo e uma relação com as apostas que começou ainda antes da idade permitida.
Na última sexta-feira (25), o Presidente Lula assinou a Medida Provisória (MP) que proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas no país, as chamadas bets.
Com a decisão, as casas de apostas, até então legalizadas, não poderão mais disponibilizar apostas ou fazer qualquer tipo de publicidade. Além disso, não serão permitidos novos depósitos nas contas, e os sites ficarão disponíveis para os apostadores resgatarem seus saldos até às 23h59 de 5 de outubro.
A partir do dia seguinte, 6 de outubro, os sites e aplicativos de apostas sairão do ar e as bets deverão informar às instituições financeiras os saldos remanescentes, discriminados por CPF, e realizar a devolução desses valores através dos bancos.
Foto: Rafael Nascimento/Agência Brasil
A MP prevê sanções administrativas para pessoas físicas e jurídicas que desrespeitarem as novas regras. As punições podem incluir advertência, multas de até R$2 bilhões, suspensão parcial das atividades ou suspensão total das atividades, no caso de empresas.
O Governo Federal justificou que a extinção ocorreu por motivo de interesse público, principalmente por questões de saúde e impacto financeiro. O transtorno do jogo está associado a fatores como ansiedade, depressão, alterações no sono e humor, e prejuízos às relações pessoais e profissionais.
Além da Medida Provisória, o governo elaborou um Projeto de Lei (PL) para tipificar crimes relativos às apostas de quota fixa. O PL criminaliza cinco condutas: exploração de apostas de quota fixa, ainda que autorizado por autoridade estrangeira; a divulgação de apostas ou captação de apostadores; o uso de dados pessoais para captação de apostadores; facilitação financeira da exploração de apostas de quota fixa e o fornecimento de aplicação de internet para apostas de quota fixa. As penas variam entre 2 a 6 anos de reclusão.
A MP produz efeitos imediatos a partir da publicação, mas o processo legislativo continua no Congresso Nacional. O Parlamento tem até 120 dias para votar o texto, sob pena de perda da eficácia da Medida Provisória.