Jeff e Lucas cultivam expressões culturais nacionais para dar forma a uma espiritualidade ainda muito espelhada em padrões eurocêntricos
por
Ligia de Toledo Saicali
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20/12/2021 - 12h

 A crença em forças ou entidades metafísicas que expliquem a origem e a organização do mundo sempre se mostrou presente no curso da humanidade. Ainda anteriores às grandes religiões monoteístas (cristianismo, judaísmo e islamismo), as mitologias politeístas foram as pioneiras na construção da fé de diversos povos, como gregos, romanos, egípcios, nórdicos, entre outros. Além disso, o hinduísmo, as espiritualidades indígenas, bem como as de matriz africana, são práticas que perduram e resistem ao apagamento cultural, principalmente pela ocidentalização cristã.

 

  Contudo, a bruxaria, paganismo, ou “antiga arte”, é uma das espiritualidades mais duradouras e exploradas no sentido cultural (e, até mesmo, comercial). Com o passar do tempo, as práticas bruxas foram se reinventando e sendo interpretadas de diversas maneiras, fosse de modo ritualístico e sagrado, ou preconceituoso, como uma “ameaça” à ordem social, principalmente durante a Idade Média. Inúmeros “subversores”, em especial, mulheres curandeiras e cientistas, foram acusados de bruxaria; estima-se que 50 mil pessoas foram condenadas à morte até o século XVIII por essa justificativa.

 

  Na contemporaneidade, a bruxaria ganha uma nova roupagem. O escritor, antropólogo amador e bruxo ocultista Gerald Gardner (1884-1964) foi um dos grandes responsáveis pela retomada das práticas bruxas de maneira popular e um dos pioneiros da principal vertente moderna, a Wicca. Em 1986, Raymond Buckland (1934-2017) foi o primeiro bruxo a se considerar como wiccano publicamente, e escreveu “O Livro Completo de Bruxaria de Raymond Buckland” baseado em seus estudos com Gardner, uma das maiores obras do neopaganismo, sendo a líder de vendas na Amazon dentro da categoria “Wicca, Bruxaria, Religião e Espiritualidade”.

 

  No Brasil, um país predominante cristão, com um notável histórico de intolerância religiosa (principalmente com crenças de matriz africana), a discussão acerca da bruxaria cresce, mas ainda com pouco espaço. A banalização dos ensinamentos bruxos também ocorre e se mescla com a construção do “jovem místico”, perdendo seu valor político e social, tão evidente em épocas mais remotas. A positividade tóxica com ausência de recortes sociais e o falso transcendentalismo buscam esvaziar ainda mais os princípios da antiga arte e incorporá-la ao atual mundo capitalista.

 

  Na contramão dessa tendência, Jefferson Paixão e Lucas Souza trabalham para desconstruir (e reconstruir) concepções sociais em torno da bruxaria e informar de modo responsável e acessível através do perfil conjunto no Instagram @_bruxedo. Jeff e Lucas - como são conhecidos na plataforma -, estão juntos há dez anos e trazem ao público um neopaganismo que considera questões sociopolíticas sob a perspectiva de um casal gay, interracial e periférico. Além do perfil, o Bruxedo (como a dupla também é nomeada) oferece consultas de tarot, produzem música com temáticas místicas para as plataformas digitais e recentemente fizeram uma parceria com a editora de livros “DarkSide Books”.

 

AGÊNCIA MAURÍCIO TRAGTENBERG - Vocês podem contar um pouco da trajetória de vocês, sobre os caminhos que os levaram até aqui?

 

JEFF E LUCAS - Nessa nossa jornada, a gente tem muito de arte, ela sempre fez parte da nossa vida. E em uma questão de espiritualidade, a gente se encontrou na bruxaria, que entendemos como uma forma alternativa, porque no passado ela foi conhecida como a “antiga arte”, a grande arte. A bruxaria fala sobre o cuidado com a terra, sobre a manipulação de ervas, sobre muitas coisas que, no passado, foram conhecidas como arte. Nem sempre essa foi a forma de expressarmos nossa espiritualidade. Nós éramos cristãos no começo, missionários da Igreja Protestante, que foi onde a gente se conheceu enquanto melhores amigos, e fazíamos parte de uma companhia de artes que realizava projetos sociais. Desse diálogo, desse aprofundamento da nossa relação, começamos a descobrir a nossa sexualidade e, dentro da religião que a gente tinha, não fomos abraçados. Então, começamos a buscar formas de conhecer e construir nossa própria identidade e isso foi levando a gente para outros caminhos e outras possibilidades de ser, enquanto ser humano, enquanto pessoa e na nossa espiritualidade. Nessa busca, a gente se deparou com a bruxaria, e o que chamou muito a nossa atenção é que existe um texto sagrado chamado “Carta da Deusa”e em um trechinho é dito que “todas as formas de amor e prazer são iguais à Ela”. E aí a gente se sentiu abraçado, acolhidos, realmente representados. Nós somos um casal LGBT, interracial, periférico e dentro de todos esses recortes, a gente encontrou na bruxaria o reflexo de quem somos.

 

AGE - Vocês lançaram um álbum de músicas recentemente, em meio à pandemia. Como foi a produção, desde o financiamento até as composições?

 

J&L - Há processos para criar uma bruxaria brasileira, sem ser o reflexo de uma bruxaria europeia, eurocentrada. Ela é um movimento que acontece em todo mundo. O Brasil  ainda é muito carente nessa questão de músicas, conteúdos literários, bebemos muito de fora para construir aqui dentro. Aí a gente entendeu que havia a possibilidade de contribuir e criar algo para a bruxaria, que nos abraçou. A forma de retribuição foi entregar a nossa arte. Então, eu, enquanto cantor, e o Lucas, enquanto músico e produtor, a gente se uniu, mais uma vez, para construir esse álbum. Tem uma sonoridade bem moderna, a gente traz ritmos e instrumentos que façam com que a gente enxergue essa espiritualidade no dia a dia, não só em um momento ritualístico e litúrgico. Todo processo de criação, composição, melodia, masterização, captação vocal, foi o Lucas quem fez, e eu tive minha contribuição vocal e escrita das letras, tudo isso dentro de casa. Então foi um processo bastante desafiador, a gente não podia usar recursos de estúdio. Tivemos que nos reinventar, se profissionalizar e criar esse álbum do zero, materializar o projeto quase como uma mágica.  

 

AGE - Existem muitas diferenças entre a bruxaria antiga e a sua releitura moderna?

 

J&L - Falando de práticas, a gente tem a bruxaria moderna enquanto uma referências do paganismo antigo, resgatando esses caminhos ancestrais, mas ressignificando para o nosso tempo. Então esses saberes rompem com a ideia de religião e espiritualidade patriarcal, ainda muito fortalecidos hoje em dia, enquanto retomamos a herança ancestral. A gente tem, por exemplo, a ideia de bruxaria como respeito aos ciclos da natureza. O paganismo vem do povo do campo, um povo que vivia longe da sociedade que estava sendo criada e desenvolvida em tempos passados. Eles tinham esses saberes, a conexão com a terra, na questão do plantio, colheita, na observação do Sol, da natureza, desses ciclos que eram a totalidade da vida. Aí temos essa transição de feudalismo para capitalismo, com uma sociedade no avanço científico, com maiores poderes do Estado e o fortalecimento da Igreja enquanto religião dominante. A bruxaria é o rompimento desses padrões e a busca desses saberes para muito antes desses processos, com uma observação de como era a vida daquele povo, sua organização social, o cuidado ambiental, que a gente traz para esse momento. Em relação às práticas, há mudanças, mas a gente mantém a simbologia. Naquele tempo, a rotina de vida era outra. Hoje, temos pautas emergenciais que são diferentes daquela época. Estamos ressignificando tudo isso.

 

AGE - Diante do processo de urbanização e o afastamento humano da natureza, como fica o exercício da bruxaria, em que a conexão com a Terra é prejudicada?

 

J&L - Não temos essa separação entre eu, bruxa e espiritualista, e eu, cidadão e pessoa. A gente vive nesse mundo capitalista que realmente não enxerga a natureza como sagrada, divina, e o ser humano não se enxerga como parte dessa natureza. Existe um Ocidente muito fundamentado numa estrutura religiosa que diz que o homem deve dominar a natureza, que ele é superior a ela. Nesse estado de superioridade, ela é colocada como nossa serva, sendo que é totalmente o contrário. A bruxaria entende o planeta como a “Mãe Terra”, sendo o próprio corpo da Deusa. Então, quanto mais eu vou utilizando esses recursos, explorando, eu estou ferindo o corpo da divindade que eu cultuo, o que acaba sendo contraditório. A gente traz, como criadores de conteúdo, a espiritualidade dentro de recortes sociais, movimentos políticos, e, dentro dessa militância, trazemos pautas como essa. Se a bruxa se conecta com o poder da Terra, tem a conexão com os cristais, com as ervas, incensos, então ela também tem que cuidar, ser uma zeladora, sabendo ser uma extensão dela. Porque é o nosso lar, que nos comporta, nossa referência de sagrado. Ninguém joga lixo dentro da Igreja, por exemplo, porque é um lugar considerado sagrado. Então, se entendemos que o planeta é sagrado, a gente não vai jogar lixo na rua.

 

AGE - Como é a relação da bruxaria com a ciência?

 

J&L - Em um contexto geral de espiritualidade, essa questão científica é bastante problemática. Quando falamos de caça às bruxas, a gente tem um movimento de inquisição em que, como falamos antes, o Estado comanda, o cristianismo é a religião dominante e a ciência, principalmente a medicina, se fortalece. E esses pilares se unem para minar qualquer outra forma de poder, qualquer outra alternativa a esses poderes patriarcais. A gente tem a bruxa que é a curandeira, que faz os remédios, mas que também sabe fazer o veneno, ou  a parteira, que dá a vida, mas que também exerce as práticas abortivas. Então, é óbvio que existe uma ciência patriarcal, baseada no homem e em todos os processos de controle do corpo da mulher. É uma ciência que desacredita nessas práticas porque elas também refletem a sabedoria feminina, sua independência. Hoje, a gente tem uma ciência que é cética, com uma veia eurocentrada, desacreditada nesses saberes. Porém, a bruxaria não é inimiga da ciência, muito pelo contrário. Quem entende os fundamentos da magia sabe que um bebe da essência do outro, como a Alquimia, conhecimentos relacionados à Química, o aproveitamento de inúmeros pensadores e cientistas. Só que também temos problemas relacionados ao ser humano, de caráter, muitas vezes. Há um charlatanismo que usa do esoterismo, da mística, para se beneficiar, então não dá para falar em um contexto geral. Ainda não há um diálogo, infelizmente. Mas, no nosso caso, a gente mergulha muito na ciência para não se perder no meio do fanatismo, no meio da alienação. Por isso temos nossos estudos, a busca pela formação acadêmica, para podermos conciliar tudo isso.   

 

AGE - A bruxaria tem alguma explicação ou palpite para fenômenos como a Covid-19?

 

J&L - Quando a gente olha para a pandemia, precisamos levar isso sob um viés político, científico, realmente de crise sanitária. Houve uma grande problemática no começo, de discursos elitistas e negacionistas baseados numa posição de privilégio, com muitos dizendo que era uma transição planetária, uma limpeza da própria Terra, respondendo ao mal que o ser humano fazia. Só que o problema de tudo isso é que a maior parte das pessoas que foram afetadas pela pandemia são as marginalizadas, em lugares de vulnerabilidade, periféricas. A gente tem aí um problema estrutural que não deve ser respondido com espiritualidade. A espiritualidade pode se responsabilizar em uma questão humanitária, de comprometimento no âmbito social, com suporte, auxílio a quem precisa. Se a espiritualidade quiser responder a isso, que seja em movimentos de oferecer abrigo, alimentação, cuidados que se movam nesse sentido.

 

AGE - Existe atualmente uma banalização das práticas bruxas, uma leitura de modo superficial?

 

J&L - A gente teve com os "millennials" um movimento que começa a romper com a religião, de entender a espiritualidade fora dela. Tem um desligamento da necessidade religiosa, de nascer dentro de uma religião e entender que ela é a resposta para todas as coisas. Dentro da geração Z, principalmente, existe essa emancipação e ocorre a busca por uma espiritualidade mais objetiva, mais individualizada, baseada no autoconhecimento, dentro de recortes sociais. Porém, o que existe de falha nesse processo é não respeitar as bases, os fundamentos. Então, nós utilizamos os pilares das espiritualidades passadas para conseguir um legado que contribua para as próximas gerações de maneira mais consciente, desconstruído daquilo que é tóxico, daquilo que é destrutivo. Existem, sim, algumas problemáticas. Por exemplo, círculos de sagrado feminino que são totalmente elitizados, voltados para mulheres brancas, cis, heterossexuais, que excluem outras mulheres. Há também os eventos ritualísticos que acontecem em regiões de cenários paradisíacos extremamente caros, com uma falta de acesso a pessoas que estão na periferia, que não tem recursos e batalham no seu dia a dia para conseguir um alimento ou pagar um aluguel. Tem o charlatanismo de pessoas que se auto proclamam terapeutas, sacerdotisas, que acabam tirando o cuidado profissional, ficando apenas com a questão do dinheiro e do poder. Quando a gente fala de esotérico e místico, já vem junto essa ideia de charlatanismo. A gente olha com desconfiança. Se você vai passar por uma consulta de tarô, a primeira coisa que pensa é “vamos ver se vai dar certo”, por conta dessa falta de base, profissionais, estrutura e pesquisa. Temos, sim, uma grande problemática de negacionismo, de pessoas dentro dos seus privilégios acharem que, com boas vibrações e positividade, todos os problemas do mundo vão se resolver. E isso tá muito além.

 

AGE - Como alguém que se interessa pela iniciação na bruxaria pode buscar fontes seguras de conhecimento?

 

J&L - Eu acho que, como em qualquer religião, a gente começa olhando para a vida de quem se propõe a estar na frente de tudo isso. Não é só sobre o fato de eu falar da minha espiritualidade, mas de quem eu sou no meu dia a dia, quais são os meus posicionamentos, quais são as minhas ideologias, o que eu defendo e acredito. Precisamos observar de forma humana, e não como super-herói. A gente só conhece o padre naquele momento religioso, olhamos para pastores somente durante o culto. Mas eles não são somente aquilo, é apenas uma fração. Em primeiro lugar, a gente vai olhar para a questão de caráter. Em segundo lugar, precisamos sempre pesquisar, fazer a busca, ter materiais de referência. Quando falamos de internet, precisamos observar os conteúdos, ver quem são esses criadores, os influenciadores que falam sobre isso. Quanto aos livros, a gente vai para as bases, a bibliografia, as fontes, autores e autoras. A bruxaria, assim como nas outras espiritualidades, envolve o processo de sermos eternos aprendizes. Nós temos dez anos de prática e todos os dias descobrimos como não sabemos de nada, que ainda temos muito o que aprender. A gente tem, sim, a internet, somos uma geração muito informatizada, mas é preciso ter esses cuidados com a profundidade. Entender primeiro a história, quem são as bruxas, as questões básicas, para depois se aprofundar em feitiços, rituais e etc.

 

AGE - Como vocês enxergam a percepção da bruxaria no Brasil em relação a outros países?

 

J&L - O Brasil é um país que foi colonizado, então trazemos muitas referências de fora, que são supervalorizadas. Temos um histórico de bruxaria, de caça às bruxas, mas a gente sempre se recorda somente da Inquisição ou do caso em Salém. Temos o olhar voltado para fora. Eu, enquanto pessoa negra, escolhi a bruxaria justamente por uma questão de representatividade. Existe um lugar de marginalização e exclusão da pessoa negra, em que ela obrigatoriamente precisa ser da umbanda ou do candomblé, alguma religião de matriz africana. Mas não, a pessoa negra deveria escolher qualquer espaço que ela deseja ocupar, assim como uma pessoa branca. Você não coloca a pessoa branca dentro de uma religião específica porque ela tem esse direito de transitar por qualquer lugar que ela deseja, inclusive dentro da própria umbanda, do próprio candomblé. Eu escolhi a bruxaria para ampliar essas possibilidades, para que as pessoas olhassem para mim e percebessem que ali elas estão refletidas, representadas e seguras. No Brasil, sendo um lugar fundamentalista cristão, a bruxa é o outro, o desconhecido, tudo aquilo que faz parte do ser humano e que ele tenta reprimir. Ela é lasciva, pecaminosa, tudo que o ser humano tem enquanto instinto e natureza, mas que precisa ser anulado. Então, ela é taxada como inimiga. Ainda temos muita discriminação, uma grande intolerância religiosa, um fundamento de livros religiosos que fomentam esse tipo de violência. Não temos praças com fogueiras em que se queimam pessoas, mas temos adeptos de religiões africanas que são apedrejados em público. Não temos os mesmos direitos. Ainda é um cenário em construção, engatinhando.

 

AGE - Quais realizações vocês ainda querem alcançar? Como casal, criadores de conteúdo, músicos…

 

J&L - A gente não tem muito uma separação entre a nossa vida pessoal, do nosso trabalho ou tudo que a gente faz juntos. Então, criamos o Bruxedo como uma identidade que pudesse abraçar todas as nossas possibilidades de ser e nossas manifestações de identidade. A cada momento a gente tá incumbido dentro de um projeto totalmente distinto um do outro. Em um momento estamos focados na produção de um álbum musical, depois a gente tá criando um evento, uma produção de cursos e workshops, depois a gente se envolve com a arte em um sentido artesanal. Atendemos às necessidades da comunidade mística brasileira e nos dedicamos, dentro das nossas limitações, a contribuir com uma iniciativa de fácil acesso à informação, com bases sérias, sólidas, com referências. O que a gente realmente deseja, de todo coração, é a inclusão, essa representatividade. Que a gente continue sendo útil para trazer esse direcionamento para a comunidade que nos abraçou no momento em que precisávamos. E que possamos retribuir abraçando outras pessoas também. 

 

Foto destaque: Patrícia Montrase 

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Em um gênero musical dominado por homens, a goiana inovou ao inserir o ponto de vista feminino em suas letras
por
Esther Ursulino e Gabrielly Mendes
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06/12/2021 - 12h

Conhecida por sucessos como “Infiel”, “Ciumeira” e “Todo mundo vai sofrer”, Marília Mendonça se destacou entre as vozes do sertanejo. Em 2019 e 2020, a goiana foi a cantora brasileira mais ouvida nas plataformas de streaming musical. Segundo a Rolling Stone, sua live feita durante a pandemia foi a mais assistida da história do YouTube, somando 3,3 milhões de visualizações simultâneas. Esses recordes se devem, dentre outros fatores, às suas composições, que inseriram o ponto de vista das mulheres em um gênero musical predominantemente masculino.   

Em suas letras, Marília deu voz à ex, à atual, à traída, à que trai e à amante. Esta última personagem, geralmente censurada, esquecida ou vista como um troféu em outras composições sertanejas, foi humanizada pela cantora. Em "Amante Não Tem Lar", a artista descreve as desvantagens de ser "a outra". 

Além disso, ela  criou uma nova forma de se comunicar com o público ao incluir ensinamentos às suas canções. Isso se expressa em músicas como “A Culpa é Dele”, que conta com a participação da dupla Maiara e Maraisa. A faixa critica a forma como algumas mulheres responsabilizam outras pela traição cometida por um homem. Na letra elas dizem: “se quem tava comigo era ele a culpa é dele”, desestimulando, assim, a rivalidade feminina.   

Adriana de Barros, que atualmente é apresentadora do programa Mistura Cultural, da TV Cultura, acompanhou a ascensão da cantora. Presente na gravação de Realidade - Ao vivo em Manaus, DVD de estreia da rainha da sofrência, Adriana conta que se impressionou com o talento e a proposta de Marília. Segundo ela, muitos ativistas buscam impor suas concepções, e a sertaneja vai na contramão disso. “Ela vai entreter e a cada música vai lançar uma frase importante que muitas pessoas vão assimilar.”. 

Para além do sertanejo, Mendonça conquistou a simpatia e a admiração de artistas ligados a outros gêneros musicais. Sua parceria com Gal Costa resultou em “Cuidando de Longe”, faixa presente no álbum A Pele do Futuro (2018), da cantora baiana. Recentemente, fez parceria com Luísa Sonza no remix de "Melhor Sozinha :-)-:”, música do álbum Doce 22 (2021). A goiana também foi citada em “Sem Samba Não Dá", de Caetano Veloso, presente no disco Meu Coco, lançado em outubro deste ano. Na canção, a artista é chamada de “Mar(av)ília Mendonça”, e foi a única citada duas vezes ao longo das estrofes.

A jornalista musical Adriana de Barros diz que até quem não gostava do ritmo se rendia à sertaneja, que para ela era uma artista universal. “Eu acho que ela sabia descrever o que a gente sente (...). Esses sentimentos que ela colocava nas letras dela são os mais simples. As pessoas se identificam porque na verdade todos têm os mesmos medos, as mesmas angústias, as mesmas vontades. Por isso é uma música que ultrapassa gênero.” 

Quando a identificação não vinha através das canções, o carisma e a humildade da goiana conquistavam até os mais resistentes. Em 2018, Marília deu início ao projeto “Te Vejo em Todos os Cantos'', passando por todas as capitais do Brasil. O intuito da cantora era organizar shows gratuitos em patrimônios históricos e grandes praças. Como uma maneira de surpreender os fãs, as informações do evento eram divulgadas apenas horas antes do início de sua performance. 

Em entrevista para o jornal Extra em 2019, a rainha da "sofrência" disse que a iniciativa nasceu da vontade de cantar para o povo. Sem luxos, ela ia às ruas distribuir panfletos de divulgação, convocando o público para os shows. As gravações dos eventos foram compiladas em um DVD e três álbuns homônimos. Segundo o site Terra, o álbum Todos Os Cantos, Vol. 1 (ao Vivo) alcançou a marca de 1 bilhão de streamings no Spotify em novembro deste ano.  

Mesmo batendo recordes, acumulando milhares de fãs e sendo reconhecida por artistas prestigiados, as obras e a trajetória de Marília só repercutiram na grande imprensa após a tragédia ocorrida no dia 5 deste mês, que tirou sua vida e de outras quatro pessoas em Caratinga (MG). Entretanto, a goiana será lembrada para além do acidente, pois atrás de cada visualização em seus trabalhos há uma pessoa que foi atingida positivamente por suas canções. 

Tainá é uma mulher branca de olhos claros, tem o cabelo preso e sorri.
Tainá (25) - Foto por Esther Ursulino 

"As músicas dela (Marília) parecem conselhos. Quando escuto ela parece que estou conversando com uma amiga íntima."

Marlene é uma idosa de cabelos grisalhos. Está de máscara laranja, camiseta verde e tem os braços cruzados.
Marlene Alves (62) - Foto por Esther Ursulino 

"Marília transformava a tristeza em alegria. As outras sofrências deixam quem escuta mais triste ainda. As dela levantam o astral." 

Vando é um homem negro sentado em uma mesa de bar. Ele usa uma regata azul e um boné preto.
Vando (33) - Foto por Esther Ursulino 

"Ela (Marília) tinha letra, não era só refrão"

Rosa é uma idosa negra. Ela usa máscara e uma blusa azul. Nilsa é uma idosa branca de cabelos castanhos. Ela usa máscara e está com uma blusa estampada. Ambas estão sentadas em uma mesa de bar.
Rosa (66) e Nilsa (66) - Foto por Esther Ursulino 

"Marília tinha um timbre diferente. Aquela voz dela vai ser infinita.", concordam Rosa e Nilsa 

Em um meio dominado por homens, Marília Mendonça mostrou que a mulher também sente, pensa e é capaz de falar por si mesma. Ela trouxe as conversas dos banheiros femininos para a mesa de bar, sem medo de ser censurada, como disse Adriana de Barros: “Eu acho que ela deixa o legado de mostrar que a mulher pode ser o que ela quiser, onde ela quiser, e conquistar o espaço que ela quiser (...). Uma mulher cantando sobre isso liberta outras”.

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As dificuldades enfrentadas pelos profissionais da dança no Brasil
por
Beatriz Camargo Vasconcelos
Maria Luiza Costa
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17/11/2021 - 12h

De acordo com relatos jesuítas, a dança no Brasil teve início com os povos indígenas, que tinham propósitos religiosos e ritualísticos, como o toré no Nordeste e o kuarup no Mato Grosso. Já as danças eruditas, foram introduzidas de forma tardia pelos europeus, mais especificamente por Luis Lacombe que produziu o primeiro espetáculo de ballet no ano de 1813, na cidade do Rio de Janeiro. 

            As escolas de dança só chegaram no território brasileiro um século depois do primeiro espetáculo, até então para a elite carioca, assim estabelecendo a desigualdade que vemos na arte até os dias atuais. Porém pouco se sabe sobre a história da dança brasileira "Outro dia uma professora minha falou assim: 'Bartira traz os materiais aí sobre as danças regionais do Brasil’, a gente não acha, não existe, não tem a valorização nesse sentido", contou a professora de dança Bartira Mercês, 43 anos, formada pela escola nacional de ballet do Canadá, que hoje permanece no país por uma melhor oportunidade no ramo.

"Registro de um processo intenso e cheio de emoção e aprendizado” (@quadrelacia)
"Registro de um processo intenso e cheio de emoção e aprendizado” (@quadrelacia)

 “A diferença do investimento feito na arte no Brasil e no Canadá é gritante. Aqui as crianças no Canadá, desde novas, nas escolas, têm acesso a arte. A arte como disciplina, o conhecimento da arte, música é vivo na vida das crianças.” disse Bartira. Essa falta de investimento faz com que poucas pessoas tenham acesso a modalidade no Brasil, visto que é preciso ir atrás de companhias, normalmente privadas, para conseguir ter um futuro na área, mais uma vez elitizando a dança no país, assim afastando cada vez mais pessoas que vivem em comunidades desfavorecidas. 

Tentar uma carreira no exterior nem sempre é uma opção, por isso muitos acabam ficando no Brasil e enfrentam diversas dificuldades pela falta de investimento e pela desvalorização da dança como profissão. Roberto dos Santos, 59 anos, trabalha no ramo desde seus 16 anos e atualmente tem sua própria companhia diz que "o currículo não é muito valorizado e as condições de trabalho, muitas vezes também não são muito favoráveis", o mesmo também destaca que para se tornar um profissional credenciado são necessários 8 anos de estudos, o que normalmente não ocorre assim banalizando e desprestigiando a profissão.  

Coreografia: "Meus gestos clamam" (@quadrelacia)
Coreografia: "Meus gestos clamam" (@quadrelacia)

A pandemia do coronavírus prejudicou o setor da cultura, que apresentou uma perda de cerca de 240 mil postos de trabalho, de acordo com o Painel de Dados Observatório Itaú Cultural. Com isso, a falta de investimento de forma adequada nesse campo, faz com que viver da arte se torne algo mais difícil do que antes, levando diversos profissionais a buscarem outras alternativas para sobreviverem. Essa situação ocorreu de forma diferente para Bartira, que mesmo tendo que parar de trabalhar para cuidar de seus filhos não passou por muitas dificuldades dado que recebeu auxílio do governo canadense, assim como outros artistas, desde professores até músicos, bailarinos e profissionais da arte de forma geral. 

 

 

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Artistas e estudantes contam sobre as dificuldades coletivas e individuais que a pandemia trouxe para o desenvolvimento de peças teatrais.
por
Julia Silva Tavares e Vitória Nunes de Jesus
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17/11/2021 - 12h

É de conhecimento da população que setores da saúde e comércios sofreram com a chegada da pandemia, porém há outro setor com grande importância para a sociedade, que foi bastante afetado, o Teatro.

Espetáculos foram cancelados e muitos que trabalham na área ficaram desempregados. A atriz e cantora Elisabete Almeida relata a realidade de um colega e menciona o descaso dos governos com os artistas: “Recentemente, fiquei sabendo que um grande amigo e colega que conheci na época em que eu morava na Alemanha, estava trabalhando de carregador de mudança. Apesar de ser um trabalho digno, o que revolta é saber que situações como essas são frutos da desvalorização da arte pelos governos, pois as pessoas acham que o artista tem de trabalhar de graça. Muitas pessoas que eu conheço que trabalharam em musicais grandes como O Fantasma da Ópera, no qual também fiz parte, estão vendendo doces na rua ou sendo motoristas de aplicativo. A atriz ainda lembra que muitos de seus colegas, além de sofrerem com o desemprego, lidam com a falta de um plano de saúde, que durante a pandemia, se torna algo essencial: “o artista brasileiro vive em uma situação vulnerável. Muitos dos meus colegas não têm plano de saúde, e isso dificulta ainda mais a situação”.

Elisabete Almeida. Foto: arquivo pessoal.
Elisabete Almeida. Foto: arquivo pessoal.

            Além dos artistas, o teatro envolve outros profissionais que ficam nos bastidores e que são de igual importância e também enfrentam dificuldades causadas pela pandemia. O cantor e ator Thiago Arancam lembra: “na pandemia, as dificuldades foram enormes. A principal foi a parte econômica, porque não é só o artista que depende da carreira, é uma equipe inteira”.

As formas de obter conhecimento são diversas. Elisabete menciona que ao assistir uma peça, se aprende sem perceber: “É necessário ressignificar o papel que a cultura possui de mudar o pensamento das pessoas. A Arte tem a capacidade de educar sem a pessoa perceber”.

Elenco O Fantasma da Ópera no Brasil, 2019. Elisabete Almeida (mulher ruiva com coroa, ao fundo da foto). Thiago Arancam (primeiro homem à esquerda). https://images.app.goo.gl/Jr45Tqau8i5Lh8tm9
Elenco O Fantasma da Ópera no Brasil, 2019. Elisabete Almeida (mulher ruiva com coroa, ao fundo da foto). Thiago Arancam (primeiro homem à esquerda). https://images.app.goo.gl/Jr45Tqau8i5Lh8tm9

Além de ajudar no aprendizado, o teatro amplia as percepções de oportunidades profissionais, ajuda a se expressar e se relacionar, fazendo pessoas vencerem a timidez. O artista musical Roberto Srgentelli Filho, mais conhecido como Beto Sargentelli, é um exemplo de como vencer a timidez: “cresci em uma família de músicos e atores, porém eu era muito tímido. Fiz meu primeiro trabalho aos 12 anos, em uma propaganda, mas eu negava o acontecimento para os meus colegas na escola porque eu era tímido. Minha mãe insistiu muito para eu começar a fazer aulas de teatro para diminuir a timidez. Depois que iniciei as aulas, me apaixonei perdidamente pelo Teatro, nunca mais saí ou me imaginei fazendo outra coisa”.

O principal para um artista em uma apresentação, é o público e o ambiente. Beto Sargentelli lembra: “as apresentações presenciais são especiais pela troca entre a plateia e o palco. O ator consegue sentir o ritmo do espetáculo de acordo com a energia e as reações da plateia”. Bete Almeida frisa no espaço teatral: “Depois do público, o mais importante é o ambiente do teatro, que é lindo e vivo. Um palco teatral tem um tipo de luz e atmosfera que um estúdio ou uma sala não tem”.

Beto Sargentelli em The Last 5 Years Brazil. Foto: arquivo pessoal.
Beto Sargentelli em The Last 5 Years Brazil. Foto: arquivo pessoal.

É necessário mencionar os estudantes que teriam suas primeiras oportunidades de pisar em um palco e se apresentarem, mas esta experiência precisou ser adiada por conta do isolamento social. O estudante de Artes Cênicas, Gustavo Brait chama a atenção para este ponto de vista: “Eu sabia que as apresentações iam ser canceladas e isso deixou uma tristeza muito grande, em relação às minhas apresentações, fiquei muito triste também, principalmente porque seria a primeira vez que eu ia pisar no palco depois de dois anos”.

Muitos artistas migraram para o online e logo de cara já enfrentaram a primeira dificuldade, como conta Brait: “No espetáculo online o ator faz não só o trabalho dele, mas também o de diretor, cenógrafo, figurinista, maquiador, técnico de luz e microfone. O ator tem que assumir todas essas funções e ficar muito mais atento, coisa que no espetáculo presencial não acontece”.

As apresentações virtuais requerem exigências, como boa internet, câmeras de qualidade, microfones que possam captar todo o som, requer também aprofundamento nos conhecimentos das áreas da tecnologia, como aponta a estudante de dança, Letícia Almeida: “começar a entender e se aprofundar nos aspectos da tecnologia foi fundamental para entender as ferramentas que seriam usadas nos espetáculos dali para frente” e mostra que o online tem particularidades “o palco é tridimensional, a tela é bidimensional, essa diferença foi uma das mais difíceis de se adaptar. Tem que tomar cuidado com o que as pessoas estão vendo, o recorte da câmera. Antes do olho que vê o espetáculo tem o olho da câmera, é possível usar isso como ferramenta, colocar fitas que mudam o vídeo de cor, ou que fecham a amplitude da câmera.”

Peça Chicago: O Musical, exclusivamente online, personagem Billy Flynn, por Gustavo Brait. Foto: arquivo pessoal.
Peça Chicago: O Musical, exclusivamente online, personagem Billy Flynn, por Gustavo Brait. Foto: arquivo pessoal.

          Diante desses apontamentos, é possível concluir que assim como outros setores, o teatro enfrentou dificuldades durante a pandemia. Mas como a maioria das áreas, é possível se recuperar. Vale ressaltar a importância desta arte para a formação da personalidade. Não é só o ator que se prejudicou nos tempos do coronavírus, a equipe por trás dos palcos também. Assim como grande parte da população, os artistas se adaptaram as telas, mas este recurso não traz toda a beleza de uma peça teatral.

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As contradições na busca por inclusão
por
Catharina Morais, Juliana Sousa, Letícia Alcântara, Sophia Razel
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22/10/2021 - 12h

Neste episódio do podcast Estação Cultural, as alunas Catharina Morais, Juliana Souza, Letícia Alcântara e Sophia Razel retratam o tema da  diversidade e representatividade nas exposições artísticas e os desafios e contradições ainda presentes nesse ambiente.

Ouça em: https://anchor.fm/leticia-andrade41/episodes/Diversidade-e-representatividade-no-circuito-das-exposies-de-arte-e1960d9 

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As denúncias e implicações da Covid-19 na carreira dos músicos brasileiros
por
Catharina Morais, Juliana Sousa, Letícia Alcântara, Sophia Razel
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24/09/2021 - 12h

Na estreia do Podcast Estação Cultural, as apresentadoras Catharina Morais, Juliana Souza, Leticia Alcântara e Sophia Razel conversam com os músicos André Mota e Louise Woolley, que contam os inúmeros desafios enfrentados pela classe artística, durante o delicado período de crise e caos sanitário durante a pandemia de Covid-19. Abordam ainda o fechamento e a  reabertura gradual  das casas de shows em São Paulo,  além dos efeitos causados na carreira dos artistas dependentes desses espaços. Pontua-se também, como o governo em curso é conivente com a perpetuação de ideais preconceituosos, que atingem diretamente todas as formas de cultura, não valorizando e deixando à margem todos aqueles que dependem e tiram da arte sua subsistência. 

Ouça em: https://open.spotify.com/show/6WTEW9Sd47ewFa7qHDfGD3 

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Digitalização de filmes antigos é garantia para preservação da história
por
Paula Moraes
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21/09/2021 - 12h

Por Paula Moraes

 

Durante o incêndio da Cinemateca em 29 de julho, que resultou na queima de arquivos surgiu a questão sobre a importância da preservação da memória audiovisual histórica do País. Dessa maneira, questiona-se qual seria a melhor maneira de se preservar as produções digitalizando-as para um formato que pode se tornar datado ou guardando os originais e, consequentemente, perdendo a chance de apresentá-los como parte da história da produção audiovisual.

As produções de audiovisual tiveram seu início em 1887, com a criação de câmeras com cartuchos de filme com bitola de 8mm feito de celuloide, criadas por Hannibal Goodwin. Em 1888, as bitolas foram patenteadas pela empresa Kodak. Futuramente foram criados outros formatos de bitola, como a 35mm em 1889, que é o principal formato utilizado até hoje, inclusive para os filmes em IMAX, ou a 16mm em 1923, que era usado especialmente em documentários, filmes experimentais, filmes de treinamento e por cineastas independentes, e parou de ser utilizada nos anos 80. Com a patente da Kodak, a câmera passou a ser acessível para todos. A bitola com celuloide parou de ser usado por ser considerado altamente explosivo, e em 1950 foi trocado pelo de poliéster. Ele manteve o formato original de 8mm, mas passou a ser chamado de Super-8.

A digitalização do cinema começou a ser feita nos anos 80. Ela começou nas áreas sonoras dos filmes, e logo se estendeu para a pós produção, nas áreas de efeitos especiais e edição. E depois disso, foram criadas as câmeras digitais. Em 1995 foi lançada a filmadora Digital Video (DV), que apresentava uma qualidade superior há imagem e não desgastava está ao longo do tempo, como acontecia com o filme de poliéster. A DV também proporcionava um baixo custo de equipamento para as produtoras, e permitia que os atores e diretores tivessem mais liberdade durante as filmagens, além de permitir o registro de cenas mais longas. Em 1998 foi gravado o distribuído o primeiro filme gravado com uma câmera MiniDV, “A Festa” de Thomas Vinterberg Festen.

            Com o início das câmeras digitais, as câmeras de filme passaram a ser cada vez menos utilizadas. Em 2011 três grandes empresas do setor deixaram de produzir câmeras analógicas, a Arri, a Panavision e a Aanton, substituindo-as por modelos digitais, como a Kaufman. Essa troca fez com que os filmes passassem a serem feitos com câmeras digitais. Por conta disso, pararam de ser produzidos projetores de filmes, e os cinemas passaram a ter que se modernizar e comprar projetores digitais. À vista disso, para que fosse possível passar filmes antigos considerados clássicos, os estúdios de cinema passam a digitalizar seus filmes antigos.

            Existem duas maneiras de digitalizar filmes. A primeira é a “Digitalização” que proporciona qualidade Full HD, mas só consegue ser feito com bitolas 8 mm, Super 8 e 16mm em bom estado. Neste processo, o filme é digitalizado quadro a quadro com um scanner, permitindo corrigir erros de edição, restauração de cores e sonorização. A segunda maneira é a “Telecinagem”, que é usada como recuperação e restauração de bitolas 8mm, Super 8 e 16mm, que estão em mau estado de conservação. O resultado da qualidade da imagem é inferior ao da digitalização, apenas resolução 720×480. 

Para a técnica de conservação de acervo, Antônia Silva, as maiores dificuldades que um acervo de filmes podem passar é a luz, que queima os filmes, o calor, a umidade, a poeira, a gordura, a poluição e técnicas incorretas de limpeza. Para Silva, a digitalização de filmes é essencial para a preservação da história do audiovisual de cada país. “O risco de que filmes importantes da história do cinema desapareçam para sempre em algumas décadas é grande. Há muito se fala que o celuloide não resiste ao tempo”, explica.

Entretanto, escolher o formato de digitalização não é tão fácil. Os dados digitais são legíveis apenas por um certo tempo. À medida que software e hardware avançam, tornam o formato rapidamente ultrapassado, fazendo com que estes precisem ser convertidos novamente para formatos cada vez mais atuais.

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Um dos eventos de moda mais esperados do ano chocou ao trazer conceitos, críticas e elegância
por
Cecília Mayrink O’Kuinghttons e Clara Maia de Castro
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16/09/2021 - 12h

Após o cancelamento do Met Gala de 2020 em decorrência da pandemia da Covid-19, todos os holofotes estavam voltados para um dos eventos de moda mais famosos e esperados que ocorreu nesta segunda-feira (13/09) em Nova York, o Met Gala 2021. Com uma lista extensa e diversa de celebridades, a edição deste ano foi dividida em dois temas: "Na América: Um Léxico da Moda", que ocorreu esta semana, e "Na América: Uma Antologia da Moda", que estreará no dia 5 de maio de 2022. 

A lista de convidados é feita pela editora-chefe da Vogue USA, Anna Wintour, e as celebridades devem se vestir de acordo com o tema escolhido para a edição em questão.  Envolvendo temas estilo estadunidense, foram vistas muitas roupas que carregavam importantes símbolos da cultura local e da história do país, bem como o fez a poetisa Amanda Gorman, ao fazer referências à Estátua da Liberdade no seu visual.  

A moda em si é um ciclo que contempla as necessidades e movimentos culturais, sociais e políticos de cada época. Para a melhor análise histórica, uma linha do tempo do estilo estadunidense pode ser traçada:

A identidade de moda do país se iniciou a partir do meio do século 19 até o início do século 20, com o surgimento do estilo cowboy: chapéu country, peças de couro, franjas, botas, colete e camurça. Algumas das celebridades que trouxeram essa leitura para o evento foram Jennifer Lopez, Maluma e Leon Bridges.

Jennifer Lopez no Met Gala 2021 (Foto Mike Coppola/Getty Images)
Jennifer Lopez no Met Gala 2021 (Foto: Mike Coppola/Getty Images)

Sendo um dos símbolos da moda dos anos de 1920, o clássico vestido preto básico ganhou espaço durante o evento. Criado por Coco Chanel em 1919, o “black dress” - vestido feito no tecido crepe com mangas compridas e justas - causou certa estranheza quando a peça foi lançada, uma vez que na época, a cor preta era símbolo de luto e portanto, não era usada no cotidiano pelas pessoas. Entretanto, essa visão passou a ser contestada por volta de 1926, quando a Vogue dos EUA apelidou o modelo de “a Ford da estilista” e afirmando que dentro de pouco tempo, o vestido seria uma nova tendência.  

O “pretinho básico” tornou-se ainda mais popular ao ter sido referência para os clássicos figurinos de Audrey Hepburn, no filme “Bonequinha de Luxo” (1961). Adaptando-se ao Met Gala, Troye Sivan se inspirou em tal peça para a sua composição no evento, utilizando um decote arredondado, baixo e com recortes na cintura. Além disso, Sivan acrescentou à referência um colar de prata, que lembra a gargantilha de diamantes usada por Hepburn no filme. 

Troye Sivan no Met Gala 2021 (Foto: Taylor Hill)
Troye Sivan no Met Gala 2021 (Foto: Taylor Hill)

Em relação à década de 1950, outras referências foram observadas, principalmente na escolha dos tecidos para compor os vestuários. É importante ressaltar que após o período das grandes guerras, a moda enfrentou uma considerável revolução. Com tecidos mais leves e maleáveis e a adoção do corte, até então masculino, como calças, foi apropriado pela moda feminina. Vale destacar a influência crescente do jeans, tecido adotado por Lupita Nyong'o em seu vestido para o evento, que reconheceu a importância e impacto que ele trouxe na história dos EUA.

Lupita Nyong'o no Met Gala 2021 (Foto: Mike Coppola)
Lupita Nyong'o no Met Gala 2021 (Foto: Mike Coppola)

Outro estilo que ganhou destaque na noite foi o hippie, que se categoriza pelos tecidos leves e coloridos. Esse movimento se tornou ainda mais popular com o Festival Woodstock, que teve a sua primeira edição em 1969, recebendo artistas como Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jefferson Airplane. Lourdes Maria Ciccone Leon, filha da cantora Madonna, fez referência ao famoso estilo de Cher no evento, com cabelo longo preto, vestido com cores vibrantes e recortes ao longo da cintura, busto e costas.

Lourdes Maria no Met Gala 2021 - Getty Images
Lourdes Maria no Met Gala 2021 - Getty Images

O período de 1970 foi marcado também pelos vestidos floridos, muitos acessórios e houve uma série de referências nas peças usadas pelas celebridades presentes. Nos EUA, estilistas como Roy Halston Frowick e Calvin Klein se destacaram por buscar fazer roupas sofisticadas e ao mesmo tempo concisas. No Met Gala 2021, a atriz Lili Reinhart utilizou um vestido rosa claro e com diversas flores coloridas originárias de cada estado do país.  

Lili Reinhart no Met Gala 2021 (Foto: Getty Images)
Lili Reinhart no Met Gala 2021 (Foto: Getty Images)

A década de 1980 se destacou pela popularização dos ternos, saias e  vestidos longos. A ostentação de dinheiro se tornou parte do vestuário, bem como se viam nos filmes em que as atrizes usavam acessórios caros e bolsas de coleção. Em contraposição a esse novo estilo, nasceu o movimento Punk, que se opunha à sociedade de consumo. Tachas, roupas pretas de couro, coturnos e alfinetes se tornaram populares e foram usadas por celebridades no evento, como  Evan Mock. 

Evan Mock no Met Gala 2021 (Foto: Taylor Hill)
Evan Mock no Met Gala 2021 (Foto: Taylor Hill)

Já os anos de 1990, foram marcados pela diversidade de estilos, uma vez que variam entre jeans coloridos e blusas básicas de malha fina. Calças despojadas, bermudas e camisas xadrez foram marco também dessa década a partir das coleções feitas por Perry Ellis e Marc Jacobs. Entre outros visuais, está a calça de cintura alta e o jeans rasgado. O cinema também teve grande influência na moda desse período, como o filme Matrix (1999) que inspirou a atriz Maisie Williams em sua composição para o evento. 

Maisie Willians (Foto: Matt Baron/Shutterstock)
Maisie Willians no Met Gala 2021 (Foto: Matt Baron/Shutterstock)

Mais inspirações Hollywoodianas ocorreram no Met Gala deste ano. Releituras de trajes clássicos do cinema como o de Emily Blunt, inspirado no vestido atemporal usado por Hedy Lamarr no filme “Ziegfeld Girl”, de 1941 e também o de Kendall Jenner, inspirado na atriz Audrey Hepburn no filme  “My fair lady“, de 1964. 

Kendall Jenner no Met Gala 2021 (Foto: Getty Images)
Audrey Hepburn no filme "My fair lady" e Kendall Jenner no Met Gala 2021 (Foto: Getty Images)

O protesto por meio da moda também foi visto. O mais comentado foi o de Jeremy Pope, cantor, ator e ativista no movimento negro. Pope apresentou uma composição que fazia alusão a escravidão nos Estados Unidos. Com roupa branca e uma grande capa, que relembra os grandes sacos de algodão carregados nas costas dos escravos. O ator postou em seu instagram uma foto de seu traje, juntamente com um registro da época; na legenda um discurso emocionante: “Eles plantaram sementes de beleza. Serviram em campos com força indescritível, e colheram uma espécie de excelência que iria ser relembrada por eles durante séculos. Para que pudéssemos um dia nos levantar, nos alongarmos em direção ao sol, e contar a história deles”.

Jeremy Pope no Met Gala 2021 (Via Instagram)
Jeremy Pope no Met Gala 2021 (Via Instagram)

Este evento mostra o quanto a moda em si é volátil e que se baseia em desejos momentâneos de mercado, que com o tempo, saem de uso. A indústria têxtil adotou a forma de produção capitalista e se deixou influenciar pela dinâmica de superprodução: fazer muitas peças de acordo com as principais tendências do momento, com o objetivo de vender a maior quantidade possível - e, consequentemente, lucrar ainda mais. Esse método ganhou considerável incentivo nos EUA no período em que houve a chamada “crise do petróleo”. Nesse sentido, procura-se no meio a mão de obra barata, de modo criar um ciclo análogo à escravidão. Dentro do contexto mencionado, nasceu o termo “fast fashion”, junto às atuais lojas de departamento. 

Ao não ter a qualidade das peças como prioridade, o meio ambiente é uma das principais vítimas desse processo. De acordo com um relatório feito pela McKinsey & Company e Global Fashion Agenda, essas roupas fast fashion são utilizadas menos de cinco vezes pelos consumidores e geram 400% mais emissões de carbono do que peças comuns - que são utilizadas 50 vezes. Vale lembrar que esse tipo de produção não polui apenas por conta da emissão de carbono, - uma vez que a fibra têxtil mais empregada na produção é o poliéster, um plástico - que demora cerca de 200 anos para se decompor. Além disso, para produzir fibras têxteis, é preciso desmatar, utilizar fertilizantes, agrotóxicos, extrair petróleo e transportar, entre outras formas de poluição.

Sendo assim, o Met Gala 2021 reforça a importância de se consumir uma moda consciente e que não esteja apegada apenas às tendências; mas também ao registro sociocultural que envolve toda a história milenar da produção de tecidos e de peças em si.        

 

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Longe do público e com oportunidades reduzidas, profissionais comemoram prorrogação de auxílio da Lei Aldir Blanc
por
Bruna Janz
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26/06/2021 - 12h

Em março de 2020, quando foi declarada a pandemia do novo coronavírus pela OMS, as aglomerações e os eventos sociais foram suspensos. Em meio ao cenário da crise de saúde brasileira, os profissionais da cultura foram duramente prejudicados, com 458 mil postos de trabalho, tanto formais quanto informais, perdidos ao final do ano passado, em comparação com o último trimestre de 2019, segundo informações do Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural.

Antes da pandemia, o segmento cultural, junto com o setor criativo, movimentava cerca de R$ 171,5 bilhões por ano, correspondente a quase 3% da riqueza nacional. A previsão era de que esses segmentos gerassem R$ 43,7 bilhões para o PIB brasileiro até 2021, porem 35% desse valor deixou de ser gerado devido às paralisações causadas pela crise do novo coronavírus, como foi apresentado nos resultados preliminares da pesquisa Percepção dos Impactos da Covid-19 nos Setores Culturais e Criativos do Brasil, divulgados em 29 de abril e feita pela Universidade de São Paulo (USP).

No terceiro trimestre de 2020 que a Lei Aldir Blanc entrou em vigor, prevendo uma renda emergencial de três parcelas de R$ 600 para profissionais da cultura, além de um subsídio mensal de R$ 3 mil a R$10 mil para a manutenção de pequenas empresas, organizações culturais e espaços artísticos que ficaram paralisados.

Também foi disponibilizado um montante de R$ 3 bilhões, repassado pelo governo federal para o pagamento desse auxílio. Porém, segundo o Ministério do Turismo em abril de 2021, 25% desse valor, que corresponde a R$ 773,9 milhões, não foram utilizados nos 120 dias do prazo inicial, permanecendo, assim, nas contas dos Executivos locais.

Esse atraso na utilização da verba destinada aos profissionais da cultura ocorreu devido a irregularidade de diversas regulamentações que deveriam ser feitas por prefeitos e governadores dentro do prazo inicial. Assim, em 21 de abril de 2021, foi aprovado um projeto de lei que reformulou a Lei Aldir Blanc, permitindo aos Estados e Municípios a utilização do saldo remanescente do montante até dia 31 de dezembro.

A prorrogação da lei foi vista como uma vitória por muitos do setor cultural, já que ainda não existe um meio viável para criar ambientes presenciais seguros para muitos segmentos artísticos, e o auxílio permite que muitos profissionais mantenham seus trabalhos. 

O ator, pesquisador e estudante Pitágoras Lemos ressalta que a Lei Aldir Blanc foi sancionada em um momento altamente necessário, porém nada é perfeito. “Para muitas pessoas pode parecer só um ‘legal, ganhei 600 reais’, mas nós (artistas) precisamos continuar trabalhando, e pra isso eu preciso apresentar uma peça, uma dança, uma performance. E eu, que faço teatro, sei lidar com o público, mas não sei lidar com edição de imagem, então eu vou ter que contratar alguém que saiba, e aí esses 600 reais já se transformaram em 500, em 400... Isso é o suficiente para uma compra do mês?”

Compartilhando a mesma visão acerca do auxílio, a dançarina, professora e estudante Deborah Lugli também ressalta que continuar trabalhando não precisa significar um trabalho contínuo ou automático, e sim de forma que seja possível e acessível para cada profissional no meio virtual. “É preciso olhar para o todo, e não apenas para o individual. Então, esses coletivos que se juntaram para repensar o setor cultural devem continuar a se fortalecer, é preciso olhar para o todo”, adiciona.

Porém, os impactos no meio cultural vão muito além das questões financeiras e do auxílio emergencial. A vida longe dos palcos físicos e sem a possibilidade de trocar experiências e sensações com o público dificultam muito o trabalho dos artistas, assim como a diminuição das oportunidades no mercado de trabalho  e a maneira com que o governo tem tratado as questões referentes ao setor. 

“Quando a gente está finalizando a graduação, é um momento complicado, é um momento de caminharmos com as próprias pernas, mas descobrir isso no meio de uma crise sanitária, em um momento que tudo se transformou, é bastante difícil de lidar, porque a cena mudou, e ter estudado a cena presencial e me formar na cena digital nesse período da crise é algo difícil de entender”, aponta Deborah.

Já para Pitágoras, a falta de contato com os espectadores é o principal desafio: “Há a perda da troca, da crítica. O que é apresentar para uma tela? Como é para o público receber isso? Nós não sabemos mais, tudo é mediado pelo computador, não há mais troca física”.

Sem mais a possibilidade de juntar um público, as peças via Zoom, lives no Instagram, exposições virtuais e até ensaios fotográficos via FaceTime explodiram por todo o país, e mesmo entre tantas dificuldades, os artistas ainda veem no cenário digital, uma premissa para o futuro, afirmando que dificilmente haverá o rompimento com o virtual, por já ter se tornado uma camada incorporada à arte, capaz de conectar pessoas de todo o Brasil e do mundo em um único lugar.

Ainda assim, as soluções à distância não são o bastante para manter economicamente os mais de 6 milhões de profissionais que trabalham no segmento cultural, tornando um subsídio do Estado uma necessidade para todo o setor, que deverá ser o último a retomar as atividades presenciais, em razão das medidas sanitárias necessárias para tal acontecimento.

Foto da capa: O ator Luis Carlos Shinoda, fundador do Cangaias Coletivo Teatral. Imagem de divulgação da peça "Na colônia penal", transmitida pelo YouTube. 

 

Cantora revela abusos em depoimento inédito
por
Jorge Nagib Koike
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24/06/2021 - 12h

No ano de 2019, em um podcast que analisa as postagens de Britney Spears no Instagram, um áudio de um advogado anônimo foi revelado onde o mesmo expressava suas dúvidas e críticas sobre como o pai e equipe da cantora lidava com a tutela e a vida pessoal de Spears. Após a disseminação do áudio, os fãs da cantora ressurgiram com o movimento #FreeBritney, pedindo a liberdade total da artista da tutela que vive sob desde 2008. No dia 23 de Junho de 2021, a cantora norte-americana finalmente quebrou seu silêncio e deu veracidade às suspeitas que seus fãs tinham. Em uma audiência pública transmitida online por áudio, a artista revelou que em 2018, foi obrigada a performar em sua turnê em Vegas após ser ameaçada por sua equipe. Mais tarde, depois de se recusar a incluir um passo de dança em uma de suas performances, foi forçada a se registrar em uma casa de reabilitação em Beverly Hills, na Califórnia. 

 

Seguindo o ocorrido, seus medicamentos foram trocados sem seu consentimento e Britney revelou se sentir bêbada com os efeitos do lítio, sua nova pílula. Em uma de suas falas mais chocantes e repercutidas, a cantora revelou que quer se casar e ter novos filhos, mas a equipe da tutela não a deixa, inclusive proibindo Spears de retirar seu DIU, método contraceptivo que é forçada a utilizar. Spears também sinalizou abusos cometidos por seu pai e o resto de sua família; em um momento afirmou que todos merecem estar na prisão e que pretende processá-los. 

 

Após a audiência, alguns artistas publicaram em suas redes sociais mensagens em apoio a Britney. A cantora Mariah Carey escreveu em seu twitter: "Te amamos Britney! Continue forte"; a atriz Keke Palmer postou em seu Instagram um texto apoiando Spears; o ator, cantor e ex-namorado de Britney, Justin Timberlake afirmou em uma de suas redes sociais: "Nenhuma mulher deve ser restringida de fazer decisões sobre seu próprio corpo." A próxima audiência está marcada para 14 de Julho de 2021.

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