
Quando Gordon Parks escolheu a fotografia como linguagem, não foi por acaso, foi por urgência. Afro-americano em um país que institucionalizava a exclusão, ele transformou a câmera em meio de combate, compreensão e memória. A partir deste mês de outubro, o público brasileiro tem a chance inédita de conhecer esse legado de perto.
A exposição "Gordon Parks: A América sou eu", em cartaz no Instituto Moreira Salles, na Avenida Paulista, entre os dias 4 de outubro de 2025 e 1º de março de 2026, reúne cerca de 200 obras que atravessam décadas da história dos Estados Unidos, e revelam como a arte pode ser um testemunho radical do seu tempo.
Entre fotografias, vídeos, publicações e documentos raros, a mostra percorre os anos de 1940 a 1970 com um foco preciso: revelar as marcas da desigualdade racial, os bastidores da luta por direitos civis e os pequenos gestos cotidianos que resistem à opressão. Através de sua lente, Parks não só documentou uma era, ele nos desafia a revê-la sob outra perspectiva.

Quem foi Gordon Parks
Nascido em 1912, no Kansas, Gordon Parks enfrentou a pobreza e o racismo desde muito jovem. Sem formação formal em fotografia, aprendeu por conta própria e, com uma mistura de talento, persistência e urgência política, se tornou o primeiro fotógrafo negro a trabalhar para revistas como Life e Vogue.
Seu trabalho ultrapassou as páginas editoriais e assumiu contornos de manifesto. Parks não registrava apenas o que via, ele buscava o que precisava ser visto. Sua lente alcançou desde os bastidores da luta pelos direitos civis até os lares da população marginalizada, revelando a vida com rara empatia e senso de justiça.
Mas Gordon Parks não era apenas fotógrafo. Dirigiu filmes (como o cultuado Shaft, de 1971), compôs trilhas sonoras, escreveu romances e memórias. Essa multiplicidade criativa se reflete na exposição, que apresenta não só sua obra visual, mas o pensamento e o ativismo que moldaram sua trajetória.
A exposição:
· Escopo e curadoria
A curadoria, assinada por Janaina Damaceno (curadora‑chefe) e Iliriana Fontoura Rodrigues (assistente) do IMS, foi organizada em parceria com a The Gordon Parks Foundation, que detém e preserva o acervo do fotógrafo.
A mostra ocupa os 7º e 8º andares da sede paulista do IMS, com entrada gratuita, de terça-feira a domingo (10h às 20h), exceto às segundas-feiras.
· Conteúdo e destaques
Cerca de 200 obras entre fotografias, filmes, matérias de revistas e livros;
Imagens de grandes personalidades do movimento pelos direitos civis dos EUA, como Martin Luther King Jr., Malcolm X e Muhammad Ali.
Séries que documentam a segregação racial e o cotidiano das comunidades negras, sobretudo no sul dos EUA.
Surpresa brasileira: imagens de Parks no Brasil, em 1961, onde ele fotografou em favelas cariocas a convite da revista Life.
· Por que visitar
Porque a mostra combina excelência estética com peso histórico e político. É uma oportunidade não apenas de ver belas fotografias, mas de se inserir em narrativas cruciais da modernidade, racismo, dignidade, arte e memória.
A exposição assume uma relevância atual enorme: registrando o olhar de um fotógrafo negro sobre o próprio povo negro, em tempos de segregação e resistência, Gordon Parks coloca‑se na linha de frente da arte comprometida.
A presença de imagens no Brasil, que muitas vezes não são tão conhecidas, amplia o alcance da narrativa: mostra que o fotógrafo não se limitou aos EUA, mas teve também diálogo com o Brasil e sua própria complexidade social.
Para o público contemporâneo, a mostra questiona: como lidamos hoje com as desigualdades raciais, que formas de visibilidade permitimos e quais vozes continuamos a silenciar? A arte de Parks nos convida a olhar de frente.

Como aproveitar sua visita
Verifique o horário de funcionamento: terças a domingos e feriados, 10h às 20h. Última admissão 30 minutos antes do fechamento.
Local: IMS Paulista, Av. Paulista 2424, São Paulo (SP).
A entrada é gratuita.
Dica: dedique tempo para observar não só o “clique” famoso, mas as legendas, contexto histórico, objetos de revista ou filme que complementam as imagens.
Leve algum espaço para reflexão pessoal, ao ver uma fotografia de segregação, de infância, de cotidiano, vale pensar: “O que essa imagem me provoca? Qual história ela conta ou esconde?”
“A América sou eu” é muito mais do que uma exposição de fotografias: é um convite ao encontro com uma das vozes visuais mais poderosas do século XX, que articulou arte, denúncia, beleza e humanidade. Ver Gordon Parks é ver, e reconhecer a complexidade da vida negra, e a força de quem escolheu empunhar a câmera como arma de luz e de memória.
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Em "Banzeiro Òkòtó: Uma Viagem à Amazônia Centro do Mundo", Eliane Brum mergulha fundo na complexa realidade da Amazônia brasileira, em um livro-reportagem intenso e transformador.
Desde o início, "Banzeiro Òkòtó" surpreende ao reforçar uma perspectiva decolonial, inclusive através do uso do pronome neutro, uma escolha pensada para dar voz a uma nova forma de narrativa, que se afasta das opressões sistemáticas, em que a lei é ditada por uma minoria mais “forte”, majoritariamente comporta por homens brancos cisgêneros.
A história começa quando, em 2017, Eliane Brum decide mudar-se para Altamira, uma cidade paraense situada próxima ao Rio Xingu e à Floresta Amazônica. Ela abandona uma vida confortável em São Paulo para enfrentar os desafios de viver em uma das cidades mais violentas do Brasil desde que a hidrelétrica de Belo Monte foi implantada.
Ela relata que já havia visitado a floresta inúmeras vezes em outros trabalhos, mas após conhecer diversos países ao redor do mundo, concluiu que a floresta era seu verdadeiro lar.
Brum escreve a partir de sua perspectiva de mulher branca - sempre enfatizando sua posição social -, mas enaltece a população da região, reconhecendo a importância de sua cultura e vivência dos “povos-floresta” - indígenas, ribeirinhos, beiradeiros e quilombolas. Ela trata o ecossistema da Amazônia como uma união entre os seres que ali habitam, enfatizando a conexão entre natureza, a cultura, e os residentes locais.
Um dos aspectos mais envolventes de "Banzeiro Òkòtó" é a personificação da natureza. Há uma descrição dos exploradores brancos como violadores sádicos de um corpo feminino, e a Amazônia como uma mulher constantemente violentada por estes desde os tempos da ditadura militar, particularmente sob o governo de Emílio Garrastazu Médici, quando “em nome do progresso” foi construída a Transamazônica, uma rodovia federal transversal de grande porte que não foi finalizada “por sua megalomania” - como descreve a autora.
A narrativa nos atrai para dentro da história. A autora perpassa por questões políticas, econômicas e sociais de forma e apresenta o contexto como uma “quase-ficção” apoiada na realidade. Com uma linguagem de simples compreensão, mas carregada de significados profundos, Eliane Brum conta fatos de uma maneira pessoal, cativante, muitas vezes triste e impactante, que torna tangíveis e acessíveis as questões abordadas.
Está presente também na obra uma crítica ao conservadorismo e ao neoliberalismo crescentes, exemplificados através das eleições de Donald Trump e Jair Messias Bolsonaro em 2018, com destaque para como a inclinação política pode contribuir na devastação da floresta e das populações locais.
Como um diário, Eliane Brum transmite as sensações e reflexões que teve durante o período em que morou em Altamira, escancarando os preconceitos e o impacto devastador do desmatamento e da exploração ilegal de recursos naturais na Amazônia.
Brum não apenas informa, mas também provoca uma reflexão intensa sobre a relação do ser humano com a natureza e com os outros seres humanos. A autora discute como a destruição da Amazônia afeta o clima global e a importância da floresta para o equilíbrio ambiental do planeta.
A reflexão que traz o livro é sobre a responsabilidade coletiva na preservação da floresta e no respeito aos direitos dos povos indígenas. Sua obra é um chamado para a conscientização, ao mesmo tempo em que faz crescer dentro de nós um incômodo e impotência diante de uma problemática que vai muito além de qualquer ação individual.
A explicação para o título vem ao final da leitura: Banzeiro, como Eliane explica no início, é a região onde um rio é mais bravo, segundo os povos do Xingu. “É onde com sorte se pode passar, com azar não. É um lugar de perigo entre o ‘de onde se veio e o aonde se quer chegar’”.
Já o termo Òkòtó, na língua iorubá, é “um caracol, uma concha cônica que contém uma história ossificada que se move em espiral a partir de uma base de pilão… Amazônia Centro do Mundo é banzeiro em transfiguração para òkòtó”.
Assim, "Banzeiro Òkòtó" não é apenas uma leitura, mas uma experiência transformadora. Nele, Eliane Brum revela as ligações diretas entre as desigualdades estruturais enraizadas no gênero, na raça, na classe e até na espécie, além do sofrimento que o capitalismo e o colapso climático causam para aqueles que são menos responsáveis por eles.
Dirigida por Kim Won-seok e escrita por Lim Sang-choon, a produção sul-coreana “Se a vida te der tangerinas” não traz muita novidade em relação aos dramas sobre a inconstância da vida, mas é exatamente isso que a faz tão comovente. No tempo em que a racionalidade suprime as emoções, a obra é construída a partir de cenas que nos estimulam a sentir, antes de pensar. Estrelada por IU e Park Bo-gum, a série explora as experiências e os sentimentos que são frequentemente sufocados pelas circunstâncias de um contexto social menos favorecido.
A protagonista, “Ae-sun” (IU), é filha de Jeon Gwang-rye (Yeom Hye-ran), que trabalha como haenyeo, uma mergulhadora tradicional da Ilha de Jeju. Um trabalho árduo, cansativo e mal remunerado. De início, cria-se uma expectativa de que o drama venha a se desenvolver a partir de uma história de superação, mas não é em cima disso que a obra é estruturada. O amor chega à porta de Ae-sun ainda criança e, na adolescência, ela é obrigada a escolher entre se casar com um homem mais velho, rico e sem empatia, ou permanecer na ilha com seu companheiro de vida por quem é apaixonada, Gwan-sik, interpretado por Bo-gum.
Bo-gum tem carisma e uma grande facilidade de expressar sentimentos através do olhar e das expressões faciais, o que contribui para as cenas românticas do casal. IU, por sua vez, expressa bem a astúcia e a ambição de uma personagem que é sufocada pelas limitações impostas pela sua condição social. A amante de livros que sonha em ser poetisa, mas que precisa vender repolhos para sobreviver, funciona como denúncia de uma sociedade que privilegia poucos e exclui os desfavorecidos.
O clichê acaba quando uma grande tragédia atravessa a vida da família. É neste momento que um dos assuntos mais importantes da trama entra em cena: o luto. Em grande parte dos filmes e séries, essa experiência tão complexa e particular é tratada como um período único de tristeza e falta de propósito quando, na verdade, precisa ser vivida ao mesmo tempo em que todas as outras coisas da vida continuam a acontecer.
No drama, é possível perceber como cada parte do casal protagonista vive o luto. A dificuldade em olhar para outras famílias nas ruas, a culpa e o vazio deixado pela falta de um integrante da família; todos esses detalhes são experimentados por ambos os personagens durante anos. O silêncio, no entanto, fica no centro dessa experiência tão difícil. E essa angústia reprimida é muito bem retratada na sucessão de episódios.
Um salto cronológico coloca Geum-myeong, a filha mais velha de Ae-sun, e seu irmão Eun-myeong, no foco da narrativa. Essa transição acontece quase que naturalmente no enredo e apresenta uma reflexão sobre o peso que traz a hierarquia familiar. Ver a filha alcançar objetivos que pareciam tão distantes da sua realidade é tão gratificante que os contratempos parecem ser mais leves para Ae-sun. A jovem, por sua vez, sente uma profunda culpa por saber das situações que seus pais precisam passar para mantê-la. Em meio ao caos da relação entre os pais e a filha mais velha, Eun-myeong cresce na sombra da irmã, sempre em busca da atenção dos pais.
Geum-myeong que, assim como Ae-sun na fase da adolescência, também é interpretada por IU, têm a essência da mãe, mas lida com desafios completamente diferentes. O diferencial da obra é traduzir como isso acontece na prática, deixando claro as perspectivas de ambas as personagens. “Se a Vida Te Der Tangerinas” ensina que a grande maioria dos problemas não podem ser resolvidos por meio de soluções pré-estabelecidas por experiências individuais.
O irmão mais novo, Eun-myeong, não consegue resolver todos os problemas e assumir as responsabilidades que batem à porta. O filho que sempre foi deixado em segundo plano - não por falta de atenção, mas por uma rivalidade silenciosa, constante e internalizada - acaba tendo dificuldades em lidar com a vida adulta. A sensação de insuficiência aparece com as atitudes do personagem, que busca na ambição inconsequente uma saída para a tentativa salvar a família da pobreza.
A linha do tempo muito bem definida é um dos principais pilares do drama. Enquanto os filhos vão crescendo, os pais vão envelhecendo. A filha, que agora é mãe, ainda precisa ser a preferida dos pais quando as coisas se tornam difíceis. O mais novo, apesar de não ser representado com a devida importância, tem parte de sua identidade pessoal construída e consolidada na narrativa. “Se a Vida te der Tangerinas” mostra que ser pai, mãe, filho, filha, companheiro e companheira são tarefas conjuntas e que podem ser destinadas aos mesmos personagens.
A direção não poupa o enredo de grandes tragédias, o que traz uma maior veracidade e aproxima a ficção da vida real. Nenhum personagem é intocável. O recomeço é representado inúmeras vezes como uma saída para os obstáculos vividos pelos personagens durante as cenas, mais uma característica de uma narrativa ficcional que imita a realidade.
Nenhuma das ideias iniciadas fica em aberto na obra e o sonho de Ae-sun de se tornar poetisa é um exemplo disso. Se há uma lição que essa obra nos ensina, é que apesar de qualquer acontecimento, a vida continua, e para seguir, é preciso se reinventar.
No dia 29 de agosto de 2025, Sabrina Carpenter lançou “Man’s Best Friend”, seu sétimo álbum de estúdio, já disponível em todas as plataformas. Com versões físicas em pré-venda, o disco tem até quatro capas alternativas, uma delas apelidada de “aprovada por Deus” após a primeira versão gerar polêmica.
Construído em parceria com Jack Antonoff, John Ryan e Amy Allen, os mesmos colaboradores de “Short n’ Sweet” (2024), o álbum explora uma pegada pop refinada, satírica e cheia de atitude. Contendo 12 faixas e cerca de 38 minutos, ele mistura elementos de disco, country-pop e grooves retrô, com influências que vão de ABBA e Fleetwood Mac a Dolly Parton e Donna Summer.
O single de abertura, “Manchild”, foi lançado em junho de 2025 e logo se tornou um fenômeno global, chegando ao topo das paradas nos Estados Unidos, Reino Unido e Irlanda, e se consagrando como o segundo número 1 de Carpenter na Billboard Hot 100.
O álbum trilha uma narrativa irreverente sobre relacionamentos modernos, Carpenter combina críticas aos homens imaturos com letras repletas de duplo sentido e frases afiadíssimas. A faixa-título “Manchild” já anuncia o tom: com country-pop animado, a faixa satiriza ex-amantes desengonçados.
Em “Tears”, a cantora se arrisca em uma faixa disco-pop sensual inspirada por Donna Summer, em que comportamentos aparentemente gentis de um homem provocam desejo. Já “House Tour” e “When Did You Get Hot?” seguem o clima provocador com letras que brincam com metáforas sexuais e chamam atenção por sua leveza e sagacidade.
Conforme a narrativa evolui, Sabrina transita entre o humor e o emocional, com “My Man On Willpower” e “Nobody’s Son” trazendo nuances mais reflexivas e vulneráveis, até chegar ao final com “Goodbye” — uma despedida que mescla melancolia com autoafirmação, acompanhada de piano honky-tonk, saxofone e camadas vocais quase lúdicas.
A recepção ao álbum tem sido majoritariamente positiva, com média de 76 no Metacritic e tom de “críticas geralmente favoráveis”. Publicações como Harpers Bazaar elogiam a versatilidade musical e a inteligência lírica da artista, que transita com naturalidade entre humor, empoderamento e sensualidade. A The Australian aplaude sua evolução e ousadia dentro do pop contemporâneo. A Financial Times destaca a mistura de satírico e emocional, notando que nem todas as experimentações funcionam, mas a produção se destaca.
Outros meios, como El País e a imprensa norueguesa (Aftenposten), veem na provocação visual uma forma irônica e competente de subversão das expectativas sobre o comportamento feminino. A cantora tem defendido a imagem da capa controversa em entrevistas, afirmando que se trata de humor, poder e provocação consciente.
Já críticos mais reservados, como The Times (UK), apontam que o conteúdo musical não justifica a imagem polêmica e definem o álbum como “surpreendentemente sem complexidade”, com algumas letras que soam frouxas. De forma similar, Slant Magazine e The Independent destacam que as letras, embora espirituosas, podem pecar pela falta de profundidade.
“Man’s Best Friend” reafirma Sabrina Carpenter como uma artista que domina o arsenal do pop moderno: carisma, humor sagaz, lirismo provocador e produção caprichada. É um disco confiante, pessoal e cheio de personalidade, ainda que soe como uma brincadeira que só funciona até ser repetida várias vezes.
Para quem espera canções radiofônicas semelhantes às de “Short n’ Sweet”, talvez faltem hits explosivos, mas para quem valoriza a narrativa sonora com atitude, charme e ironia, o álbum tem muito a oferecer.
Quem quiser conhecer de perto “Man’s Best Friend”, o álbum está disponível no Spotify. Ouça aqui!
“Pecadores”, a nova aposta do diretor, roteirista e co-produtor Ryan Coogler - a mente por trás dos sucessos “Creed” e “Pantera Negra” - estreou em abril de 2025. O longa acompanha uma história de liberdade e conflitos raciais com muito Blues e dança, sem perder o terror e o suspense de sua atmosfera surrealista.
O filme, situado em 1932, acompanha em seu elenco principal os gêmeos Fumaça e Fuligem, ambos interpretados por Michael B. Jordan. Tudo se centraliza no clube de Blues criado pelos gêmeos, o terreno que foi comprado de um senhor envolvido na Ku Klux Klan, com dinheiro roubado em Chicago com a ajuda do gangster norte americano, Al Capone, além do vinho e a cerveja importados que serviram como atrativo para a comunidade cansada da região. Mas claro, nada disso importa para os gêmeos, até o fim da noite todos os envolvidos no clube serão pecadores. Como dito pelo pastor e pai do personagem Sammie, “Se você continuar a dançar com o diabo, um dia ele vai te seguir até em casa".
Durante o desenrolar do longa, surgem outros personagens relacionados ao passado da dupla e o conflito central, como Sammie (Miles Caton), primo e filho do pastor local, Mary (Hailee Steinfeld), irmã de criação e Annie (Wunmi Mosaku), curandeira local. Todos têm seu lugar naquela sociedade, que situa de forma aguçada seu papel historicamente bem pensado.
Destaque especial para Sammie, que demonstra a dualidade entre a religião e o conformismo, na qual, para ele, a música representa liberdade e salvação, o que fica ainda mais evidente após a chegada do personagem Remmick (Jack O'Connell). O roteiro utiliza diversos contextos históricos, que o torna um prato culturalmente cheio.
Por exemplo, o passado de Remmick demonstra ter relação com a opressão irlandesa, durante colonização dos ingleses no século XII, além das implicações a um proselitismo forçado, por conta das citações do personagem sobre ter sido obrigado a aprender hinos e cânticos religiosos no passado pelo homem que roubou as terras de sua família.
A ideia do vampiro, em uma narrativa banhada de elementos religiosos é uma escolha pensada e calculada aos mínimos detalhes, seja no batismo feito em Sammie ou na visão tida por Fumaça no ato final. O movimento do afro-surrealismo tem muita influência nessa decisão, em que os elementos do sobrenatural servem como analogia direta ao período de apagamento histórico e cultural que aconteceu com a população negra, o que torna ainda mais simbólica a representação do Blues na trama.
Outro elemento que vale a pena destacar é a posição da trilha sonora na narrativa. O mérito vem da parceria entre Ludwig Göransson e Coogler que entraram em sintonia em todos os seus projetos. Mesmo não sendo um musical, a trilha sonora e seus números musicais fazem parte do âmago da história, principalmente nas músicas tocadas durante a sequência do clube, como “Lie to You” e “Rocky Road to Dublin”, performadas pelos atores.
A recepção da crítica e público foi representativa, fazendo história além da tela, estando com 84% de aclamação no Metacritic. Além de ter conquistado uma das maiores bilheterias do ano, totalizando 230 milhões arrecadados por todo o mundo.
O diretor Ryan Coogler conseguiu deixar um legado na indústria cinematográfica, com o contrato histórico feito para a produção do filme, no qual em vinte e cinco anos, todos os direitos relacionados a sua obra serão retornados para o diretor.
Veja abaixo o trailer da produção:
Título original: Sinners
Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler
Trilha sonora original: Ludwig Göransson
Produção: Ryan Coogler, Zinzi Coogler, Kevin Feige
Elenco principal: Michael B. Jordan, Miles Caton, Hailee Steinfeld, Wunmi Mosaku e Jack O’Connell.