O terceiro dia da Rio Fashion Week, realizado na última quinta-feira (16), reuniu marcas que transitam entre tradição e inovação. Com o Píer Mauá como palco principal, a programação se expande para diferentes cenários emblemáticos da cidade, reforçando a conexão entre moda e território.
Abrindo o terceiro dia, Patricia Viera apresentou uma coleção carregada de afetos e referências pessoais. Em homenagem à sua cidade natal, ao artesanato brasileiro e à sua mãe, Vera Magalhães, a estilista construiu uma narrativa que celebra as relações femininas em sua trajetória. O inverno surge leve, com elementos visuais inspirados no Rio de Janeiro, de mosaicos e paisagens a ícones como a Igreja da Penha, o calçadão de Copacabana e os jardins de Burle Marx. A riqueza de técnicas destacou-se no desfile. A coleção celebra cinco décadas de carreira de Patricia Viera.
Na sequência, a Handred, comandada por André Namitala, apresentou a coleção Akáshica. Inspirada na ideia de memória universal, a coleção trouxe peças com caimento fluido, sobreposições e uma paleta que transita entre tons sóbrios e nuances etéreas. A presença da Companhia de Ópera da Lapa, sob regência do maestro Felipe Prazeres, ligado ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro, potencializou a atmosfera do desfile, transformando a passarela em um espaço imersivo onde moda e música dialogaram em tempo real.
O retorno da Blue Man às passarelas veio acompanhado de uma coleção que reafirma sua identidade tropical, ao mesmo tempo em que atualiza códigos clássicos da moda praia. Sob o comando de Sharon Azulay e Thomaz Azulay, a marca apostou em estampas vibrantes, com referências à fauna e à flora brasileiras, além de padrões gráficos que remetem ao imaginário solar e praiano do Rio de Janeiro. A coleção chamou a atenção ao equilibrar sensualidade e frescor, características históricas da marca, com uma leitura atualizada do estilo de vida carioca. O desfile ganhou ainda mais destaque com a presença de Helô Pinheiro, a eterna Garota de Ipanema, que, aos 82 anos, assumiu o posto de musa nesse retorno vibrante da marca. Ao mesmo tempo, a proposta mais performática da apresentação, com participação de influenciadores na passarela, alimentou debates fora do evento sobre a crescente valorização do espetáculo e do engajamento digital em relação ao rigor técnico tradicional da moda.
Encerrando, a Hisha marcou sua estreia na passarela da Rio Fashion Week, trazendo uma proposta que une memória, técnica e identidade regional. Sob direção criativa de Giovanna Resende, inspirada nas referências de São João del Rei e no barroco mineiro, onde o bordado assume protagonismo, estruturando as peças por meio de linhas, relevos e desenhos que criam superfícies densas e sofisticadas.
Apesar dos destaques criativos ao longo do dia, a programação voltou a enfrentar atrasos, repetindo um ponto já observado na abertura do evento. As mudanças no cronograma impactaram a sequência dos desfiles e exigiram ajustes por parte de convidados e profissionais, destacando um aspecto de organização que ainda pode evoluir nas próximas edições da Rio Fashion Week, especialmente diante da proposta ampla e dinâmica do evento.
Na sexta-feira (17), a Rio Fashion Week promoveu desfiles de marcas como Adidas, Helô Rocha e Misci, no Rio de Janeiro, com a apresentação de coleções autorais na passarela por meio de propostas que unem sustentabilidade e identidade, com o objetivo de fortalecer a moda como forma de expressão.
Angela Brito começou o dia de desfiles com uma coleção marcada pela representação do Rio, “Entropia”. Conhecida por sua ligação com a cultura africana, a estilista trouxe recortes e sobreposições diferentes em comparação à sua coleção anterior, “Pangeia”. Tecidos leves, recortes assimétricos e acessórios dominaram o ambiente. O auge foi a transição de tons que dialogam com o caos e a beleza do Rio de Janeiro.
Logo após, Karoline Vitto ocupou a passarela. A marca evoluiu de um discurso de inclusão para um de protagonismo. Os looks vieram mais ousados, com recortes que valorizam com uma paleta entre preto, branco, marrom, cinza, laranja e rosa, e a junção de detalhes em metais. A coleção foi pensada para corpos diversos e na beleza singular que deve ser valorizada em cada peça.
Em sequência, Apartamento 03 trouxe sua já conhecida linguagem experimental, mas com mais equilíbrio. Luiz Claudio Silva, diretor criativo e fundador da marca, acostumado a transformar o cotidiano em arte, inspirou-se na personagem Macabéa de “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector. O destaque foi a construção em camadas e fluidez que pareciam se adaptar naturalmente ao corpo. Os detalhes sutis em cada peça, seja em frases ou brilhos escondidos resgataram a alma da personagem, ingênua, invisível no mundo.
Helô Rocha apresentou uma coleção mística e repleta de poder feminino. Mantendo o trabalho artesanal como base, a estilista combinou bordados detalhados com cortes modernos. O contraste entre a fantasia e a passagem do tempo, com tecidos de segunda mão e materiais incomuns, como colheres para serem ressignificadas, gritaram autenticidade.
Em seguida, a Adidas trouxe a cultura periférica para a passarela. Com a abertura de Tasha e Tracie, a marca apostou na nostalgia pelo tênis Megaride, dos anos 2000. Peças streetwear dialogaram com bordados e macramê. As camisas da Copa do Mundo e do Time Brasil, em parceria com o COB (Comitê Olímpico do Brasil) ganharam destaque destque ao lado das bolsas em formatos de apitos de juízes.
Encerrando o evento na área externa, a Misci trouxe a identidade brasileira de forma única. O azul se espalhou pela locação junto com a bateria da Beija-Flor que ecoou pelo desfile. Brasil em foco. Gal Costa em 1970 serviu de inspiração para o conjunto apresentado. Peças de couro de pirarucu ou de origem vegetal fizeram do desfile um lugar surreal.
A consagração de Frankenstein no Oscar 2026 ganhou forma pela minúcia da produção: o filme levou a estatueta de Melhor Figurino pelo trabalho da figurinista Kate Hawley, o que reconhece uma construção visual que extrapola a recriação de época. Em uma categoria marcada pela diversidade estética, a vitória reafirma o peso das escolhas visuais na narrativa e consolida o longa de Guillermo del Toro como um dos grandes destaques técnicos da premiação. Além de despertar olhares ao estilo norteador do filme, o gótico.
Porque na indústria cinematográfica atual, se engana aquele que acredita nas decisões editoriais realizadas ao acaso. A produção não se trata apenas de um bom processo na confecção de roupas, mas de decisões que fazem parte de um projeto: voltar os holofotes culturais para o estilo gótico novamente.
A parceria entre Guillermo del Toro e Kate Hawley não é de hoje, os dois trabalham juntos desde “Círculo de Fogo”, filme lançado em 2013. O diretor conta que fazia reuniões periódicas com Kate meses antes da produção se iniciar. Nelas, del Toro apresentava diversas convicções sobre os figurinos: havia uma necessidade de peças modernas, a produção não poderia se basear em uma simples recriação de época. Por outro lado, Hawley apresentava a estética do romantismo gótico para os figurinos, proposta determinante para que o filme adquirisse a estética de “sonho melancólico”.
O filme dirigido por Guillermo del Toro adapta o clássico de Mary Shelley, de 1818, para uma nova linguagem. A obra original é considerada pelo imortal da Academia Brasileira de Letras, Ruy Castro, como o primeiro grande exemplar das histórias de horror modernas, além de ser o grande precursor do gênero de ficção científica.
“O clássico conta a história de um horrendo ser, que ao despertar para o mundo, torna-se consciente de que é um monstro, rejeitado por todos” - Ruy Castro
A definição de Ruy também serve de modelo para a ótica gótica de se ler o mundo, já que essa estética se propõe a representar os rejeitados. A produção monumental proporcionada pela Netflix sugere um novo ritmo para a modernidade, assim como todo o estilo gótico.
É óbvio traçar o paralelo, a história original questiona a ambição humana ao criar seres que não se encaixam nos seus contextos. Assim como eram os edifícios que se mostravam gigantes derretendo em uma época de erudição regrada. Assim como, uma criatura de Victor Frankenstein decide se revoltar contra uma “elite do saber”. Ou, então, um trabalho de figurinos que decide inovar em meio ao clássico ao invés de uma simples recriação de uma época.
Talvez seja esse último que fez com que o trabalho de Hawley se destacasse em meio aos indicados ao prêmio de melhor figurino no Oscar. Uma vez que as propostas de Hamnet: A vida antes de Hamlet, Marty Supreme e Pecadores possuíam a recriação de períodos históricos como princípio norteador. A exceção entre os indicados é Avatar, por se tratar de uma produção com estética fantasiosa.
O gótico sempre foi uma forma cultural de lidar com os medos de uma época. No século XIX, ele refletia angústias ligadas ao avanço científico e à ruptura com antigas tradições religiosas, temáticas que são ainda mais atuais hoje do que no período de publicação do livro.
Nesse sentido, o sucesso de Frankenstein (2025) revela também uma mudança no próprio cinema de horror. Se recentemente o gênero foi associado a necessidade de sustos rápidos e entretenimento descartável, produções como a de Del Toro reafirmam o potencial artístico e filosófico dessas narrativas. O gênero do terror volta a ser tratado como espaço de reflexão estética e existencial.
Na irregularidade formal das peças do filme, se vê um contraste claro. A obra acompanha um cenário de rigor anatômico, porém, nos trajes mais impactantes do longa, é perceptível um objetivo de perversão desse tecnicismo através dos excessos.
Tal lógica de excesso e simbolismo se estende às joias, assinadas pela Tiffany & Co., que empresta ao filme peças raríssimas de seu acervo. Colares como o “The Wade” e o “The Beetle” não funcionam apenas como ornamento, mas como extensão da própria construção estética do longa. Foi a primeira vez que a casa de joias novaiorquina reuniu obras de arquivo e peças contemporâneas em uma produção cinematográfica.
A peça mais emblemática da obra, o vestido de apresentação da personagem Elizabeth, interpretada por Mia Goth, é a prova disso. Elizabeth é o ideal de Lady europeia do Século XVIII, é guiada pelo cuidado e empatia. É, portanto, a grande antítese do protagonista.
O vestido é volumoso e ganha transparência em contato com a luz, mas o que chama atenção mesmo é o adereço de cabeça feito de penas, que aparenta orbitar a cabeça da personagem, elemento que transmite a sensação onírica proposta por Kate Hawley.
Mas além dele, o filme é recheado por outros vestidos com silhuetas dramáticas e exageradas, tecidos pesados e volumes acentuados. Mas além disso, na maioria das cenas, a direção de del Toro propõe a escuridão como elemento transformador dos figurinos de Hawley. Todos se engrandecem no escuro, ganham novas formas nas cenas de contraluz e assim, a escuridão ganha protagonismo na obra.
Por fim, a vitória de Frankenstein no Oscar de figurino não representa apenas um prêmio técnico. Ela simboliza a necessidade de questionar o universo cultural em que estamos inseridos. Ao pautar o retorno do gótico, estamos remodelando a forma de se observar os comportamentos sociais por meio das manifestações artísticas. É notável que a estética gótica propõe uma nova forma de se observar um mesmo mundo.
No último domingo (8), em Paris, Jean Paul Gaultier e McQueen marcaram o sétimo dia da Semana de Moda parisiense, com coleções que revisitaram a história de suas casas.
Desde a aposentadoria de Jean-Paul Gaultier das passarelas em 2021, a maison adotou um modelo rotativo para a direção criativa: toda temporada um designer diferente é convidado para reinterpretar os códigos deixados por Gaultier. Para a coleção de Outono/Inverno 2026, Duran Lantink foi convidado para assumir brevemente a direção de criação pela segunda vez. O legado da marca foi revisitado por Lantink através da subversão de gêneros e de peças provocadoras e irônicas.
O designer apresentou um equilíbrio entre o novo e as homenagens. Sua experiência na criação de volumes resultou na reinterpretação de clássicos da casa, como o corset, as silhuetas estruturadas e os jogos de trompe-l’œil - técnica artística que utiliza perspectivas e ilusionismo para criar a ilusão de ótica - que marcaram a carreira de Jean-Paul Gaultier.
O fundador da marca homônima é notório por misturar elegância e teatralidade. Em seus desfiles, a passarela transformava-se em um espetáculo performático com personagens, humor e apresentações visuais que iam além das peças. Lantink, dialoga com esse universo lúdico ao apresentar personagens western, esportistas e que evocam vilões de cinema.
Foto: Divulgação/Jean Paul Gaultier
Foto: Divulgação/Jean Paul Gaultier
“Explorar a tensão psicológica entre a interioridade e a exterioridade; performance e paranoia…” explica Seán McGirr, no release, o que ele quis retratar nessa temporada. Assim como McQueen, McGirr usa filmes como inspiração. “Safe” de 1995 influenciou a coleção à explorar temas como ansiedade, identidade e tensão psicológica.
Com uma trilha sonora inquietante assinada por Ag Cook - colaborador frequente da cantora Charli XCX - o designer apresentou sobretudos usados como vestidos curtos, botas que chegavam até os joelhos e mini saias que evocavam a moda dos anos 60 de Mary Quant.
Por baixo dos blazers acetinados, surgiam blusas com flores bordadas à mão e outras aplicações que remeteram a escamas. Alguns dos looks apresentaram peças de crochê feitas com material metálico.
A herança de Alexander McQueen foi resgatada por meio de calças de cintura baixa com aprofundamento na parte de trás, conhecida como “bumsters”. A clássica bolsa Knuckle Clutch também teve uma releitura, enquanto um cachecol estampado com caveiras retomou um dos símbolos mais reconhecíveis da Alexander McQueen.
Ao final do desfile, são introduzidos vestidos esvoaçantes feitos de organza, rendas e cetim. McGuirr deixa claro que a renda não surge apenas como ornamento, mas como um elemento íntimo que revela o interior. A coleção encerra com uma noiva com um vestido e um gorro inteiramente brancos e bordados com flores.
No último sábado (7), em Paris, Celine, Ann Demeulemeester e Balenciaga estiveram entre os principais desfiles do dia. As coleções apresentaram diferentes leituras dos códigos de cada maison, combinando referências a seus arquivos com as interpretações de seus atuais diretores criativos.
“Eu acredito que a Celine é o lugar que você vai encontrar peças lindamente cortadas e uma silhueta mais fina” disse Michael Rider, o diretor criativo da Celine, em entrevista para Vogue. Para Rider, a tendência do oversized presente na última década está começando a sair de cena e por isso, nessa nova coleção, ele volta a enfatizar silhuetas mais ajustadas e uma alfaiataria precisa.
Em suas duas últimas coleções para a marca, o designer trouxe a estética preppy para as passarelas. Porém, nessa coleção ele apresenta um estilo diferente, focado na alfaiataria: casacos e ternos com ombros estruturados e calças flare encurtadas.
Os acessórios causam dissonância no styling: chapéus em formato de sino e cachecóis aparecem cobrindo o rosto das modelos; alguns homens aparecem usando coroas de penas; colares ou brincos maximalistas compõem alguns dos looks.
O desfile foi ambientado em um salão inteiramente branco, com grandes amplificadores de som de aparência vintage espalhadas pelo espaço. Nas caixas de som, músicas do norte-americano Prince se misturavam a um mix de rock que reforçava a atmosfera de banda de garagem da coleção.
Na Ann Demeulemeester, a coleção foi exibida na Couvent des Cordeliers de Paris e foi chamada de “Dear Night Thoughts”, expressão que o diretor criativo da marca, Stefano Gallici, usava quando criança ao começar a escrever uma nova página em seu diário.
A locação do desfile já foi usada anteriormente pela marca por possuir uma arquitetura medieval e sombria que complementa a atmosfera poética e melancólica característica da maison.
Nessa temporada, o DNA da marca foi resgatado por looks monocromáticos pretos, saias com camadas fluidas e silhuetas andróginas e alongadas. A coleção foi composta por peças de estética colegial, blazers com brasões, jaquetas militares, capas de ombro com golas que remetiam a era vitoriana, punhos e colarinhos com rufo (babados ou pregas franzidas, geralmente aplicado em golas ou punhos), camisetas por cima de camisas, vestidos de renda, cadarços longos que saíam das camisas e balançavam ao caminhar, além de peças de couro com franjas.
Em meio a um casting diverso, o cantor inglês de rock, Billy Idol, fez uma participação surpresa e desfilou vestindo uma capa de couro preta com franjas, colete preto, camisa branca com gola rufo, calças pretas e botas de couro.
Foto: Divulgação/Ann Demeulemeester
Em sua segunda temporada na Balenciaga, Pierpaolo Piccioli dialoga tanto com o legado do fundador da casa, Cristóbal Balenciaga, quanto com a estética de seu antecessor, Demna Gvsalia.
A coleção foi chamada “ClairObscur” (claro e obscuro) e explorou a ideia de luz e escuridão, inspirada na pintura barroca de Caravaggio. A intenção de Piccioli era criar um “fresco de humanidade”, refletindo emoções e contrastes da vida contemporânea.
O desfile também teve uma colaboração inusitada com o diretor Sam Levinson, criador da série Euphoria, que criou um vídeo imersivo com imagens de paisagens naturais mescladas a rostos humanos. A trilha sonora, também feita por Levinson, foi uma mistura de música clássica, com canções de Rosalia e de Labrinth.
Dessa vez, Piccioli faz referência a Balenciaga dos anos 1950 e 1960 em peças como: casacos longos, cocoon coats (silhueta arredondada e volumosa, que envolvem o corpo como um casulo), vestidos drapeados e casacos com silhueta balloon (formato em que a peça cria volume curvo para fora do corpo, lembrando um balão). O streetwear da era Demna aparece em: estampas inspiradas na série "Euphoria”, moletons, leggings, jaquetas utilitárias, botas até o joelho, tênis robustos e óculos futuristas.