Estudantes das principais universidades do estado se juntam para lutar contra a homofobia e reafirmar suas posições na sociedade
por
Lucas Allabi
Artur dos Santos
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08/09/2022 - 12h

“Queremos nos tornar referência em questões LGBTQIAP+ e estudantis dentro e fora da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH). ” Afirmou o perfil do Instagram do Coletivo Madame Satã, da EFLCH da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O coletivo se organizou em torno das pautas LGBTQIA + em novembro de 2021. Os alunos não heteronormativos sentiam a necessidade de se reunir para defender seus direitos, pois recentemente o clima de preconceito vêm se aprofundando nas universidades. Um exemplo é o caso dos ataques na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) contra alunos homossexuais por serem supostos portadores da varíola do macaco.

“A comunidade é afetada como um todo e individualmente. O fato de existir uma rede de apoio presente e ativa torna a existência mais segura e proporciona um sentimento de pertencimento extremamente precário hoje em dia”, segue o perfil na rede social. Essa rede de apoio não pertence apenas à Unifesp.

Os coletivos que reivindicam direitos dos LGBTQIA + existem em quase todas as grandes universidades de São Paulo. Na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, por exemplo, existe o coletivo Glamour que também luta pelos direitos LGBTQIA + e ajuda na integração de alunos e alunas desses gêneros dentro das faculdades, visando criar uma conexão entre eles.

Além de garantir direitos, os coletivos desse gênero buscam criar uma ação política ativa, como um partido que luta pelos seus ideais. Essa ação se cristaliza no estatuto do Madame Satã.

Nele, a organização fica clara e prevê conselho, comissões variadas, assembleias gerais e eleições anuais, além de mecanismos para expulsão de membros que descumpram o estatuto.

Para os membros do coletivo, essa ligação com a política é feita em prol da democracia dentro e fora da universidade, e da movimentação LGBTQIA + dentro dela: “Qualquer entidade estudantil é de suma importância para o funcionamento pleno de uma universidade, sobretudo no ensino público. A presença de minorias organizadas com um propósito em comum é o que mostra nossa democracia em movimento e possibilita que a mudança necessária aconteça. ”

O coletivo, entretanto, não chegou a esse nível organizacional e ideológico logo de cara, pois encontrou alguns percalços no seu início. Sobre eles, os membros do coletivo afirmaram que tiveram muitas: “Além de toda a estrutura administrativa e elaboração do Estatuto, levamos muito tempo para estabelecer nosso papel, nossa atuação e nossas diretrizes. Outro fator importante que levou algum tempo para se concretizar foi o engajamento dos estudantes. ”

A mobilização em torno desse tema se dá principalmente em eventos. Alguns deles são feitos pelo próprio coletivo, como uma palestra ocorrida no dia

13 de junho que discutia a importância da diversidade, da cidadania e das políticas públicas em torno da população LGBTQIA+.

“Promovemos eventos, ações de acolhimento, debates políticos e culturais. Também trabalhamos muito para criar ferramentas e conteúdos relevantes para a comunidade. ”

No lado de fora da universidade a preocupação também é grande. No dia 7 de agosto, os membros do coletivo Madame Satã e de outras organizações estudantis da EFLCH da Unifesp se uniram para debater os atos antidemocráticos que iriam acontecer no dia 11 do mesmo mês.

Em um espaço considerado homofóbico e excludente, fâs lutam por diversidade no futebol brasileiro
por
Helena Cardoso
Yasmin Solon
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01/09/2022 - 12h

As torcidas LGBTQIAP + aumentaram a presença nos estádios, com o apoio ou não dos clubes que representam. Ultrapassando a LGBTfobia, esses coletivos lutam por mais visibilidade, além do suporte dos outros torcedores. Nos anos 70, foram criadas as primeiras torcidas LGBTs, a Coligay (Grêmio) e a FlaGay (Flamengo), que não estão mais em atividade. Depois disso, só em 2013 outro coletivo foi criado, a Galo Queer (Atlético-MG), e inspirados por eles, muitos outros surgiram após esse ano. Eles surgem em contexto de afastamento dos LGBTs do esporte, por não se sentirem seguros em torcer para os seus times

A diretora da torcida LGBTricolor, Tainá Sena defende a importância da existência de coletivos e espaços diversificados.  Criada em 2019, a torcida LGBT do EC Bahia surgiu como “um movimento para tentar trazer e inserir mais o público LGBTQIAP + para dentro dos estádios de forma mais segura, fazendo-os se sentir abraçados”. Além da inclusão, Tainá explica que é relevante ter um espaço que aborde e dê voz ao público não normativo no esporte: “As pautas que muitas vezes não são pensadas pelo clube e outras torcidas, nós trazemos.” Ela acrescenta que o Bahia apoia a LGBTricolor e que “em algumas pautas, o time chega junto”, além de ter o acolhimento de outras torcidas, como a Triloucas, a Bamor e o Movimento Tricolor.

            Por mais que hoje seja natural, a diretora da torcida conta como era “muito difícil ver pessoas LGBTQIAP + se movimentando nos estádios, ainda mais juntas ou em grupos para frequentar os jogos”. Porque infelizmente “é uma coisa universal, a gente sabe que o ambiente esportivo ainda é muito hostil com o público LGBT. É uma luta constante contra alguns comportamentos que foram impregnados dentro dos estádios e que nossa torcida sempre tenta conscientizar de que é errado”. Tainá ainda conta que as pessoas estão entendendo que cânticos e piadas homofóbicas não têm mais espaço dentro dos estádios, e não só porque a torcida está presente, “mas também por entenderem que é um espaço de todos.” 

O Vasco da Gama é um exemplo desse apoio. O time lançou um uniforme em homenagem ao movimento LGBTQIAP + e pediu por mais respeito e diversidade no esporte brasileiro em carta contra a homofobia e transfobia. “Depois disso passamos a ver mais torcedores cobrando posicionamento dos seus times e vimos a própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ser pressionada por mudanças e mais ações de combatividade nesse sentido”, disse Beatriz França, uma das fundadoras da Vasco LGBTQIAP +. Para o coletivo, Beatriz afirma que a importância vai além do lançamento, já que foram questionados e consultados durante todo o processo de criação e campanha de divulgação da camisa. “Ficamos orgulhosos de saber que a nossa luta se tornou a luta do Vasco”, completou a administradora.

Em contrapartida, ainda existem times que não contribuem com a luta. “Temos apoio de várias torcidas do Ceará e de outros times, mas não temos apoio oficial do clube”, disse Ana Beatriz Monteiro, administradora das redes sociais e cofundadora da Vozão Pride, torcida do Ceará Sporting Clube. “Recebemos vários comentários negativos da torcida e faltou apoio do clube”, complementa Ana.

O PorcoÍris, torcida LGBTQIAP + do Palmeiras, também sofre com a falta de apoio do clube. Carlos, que não quis ter seu sobrenome divulgado, membro responsável pelas redes sociais da torcida, disse: “temos um apoio relativamente grande de torcedores e de outros coletivos, mas com a diretoria nós não temos nenhum vínculo, por serem conservadores e reacionários, ainda mais após as eleições de 2018”, em razão dos posicionamentos do atual presidente, Jair Bolsonaro, torcedor do Palmeiras, que possui um discurso homofóbico. 

Mesmo com diferentes experiências, entrevistas mostram que a conexão é comum em grande parte dessa comunidade.
por
Lorrane de Santana Cruz
Marina Gonçalez de Figueiredo
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01/09/2022 - 12h

Pessoas trans que se identificam fora do espectro binário relatam como sua atração por todos os gêneros foi importante durante seu processo de descoberta da não-binariedade. Em entrevista para a Agência de Notícias Maurício Tragtenberg, a Agemt, três pessoas desse grupo contam sobre suas vivências. 

A. T., de 21 anos, foi designado para o gênero feminino quando nasceu, e sempre teve problemas para expressar feminilidade: “Sempre acharam que eu era lésbica, e como isso nunca me incomodou, eu achei que era mesmo”. Foi só quando descobriu que não era uma mulher que T. desatrelou sua sexualidade da forma como se portava, e começou a reparar na sua atração por pessoas do gênero masculino.

Já E. F., também de 21 anos, já se identificava como bissexual antes de se assumir pessoa não-binária. A reflexão em relação ao seu gênero só começou anos depois de se assumir bissexual, e, segundo ela, sua experiência prévia em relação à sexualidade lhe proporcionou um olhar mais atento às identidades de gênero que fogem do apenas masculino ou feminino. 

Por fim, M. L., de mesma idade, disse que sua percepção de gênero não mudou por quem ela se sentia atraída, mas sim como essa atração funcionava. Por mais que M. L. se sinta mais próxima do feminino do que do masculino, ela se considera uma pessoa não-binária, o que fez com que ela se sentisse mais confortável com a pansexualidade, e não com a bissexualidade, como antes pensava. 

Dados mostram como a população LGBTQIA + em geral representa uma parcela significativa da população. Em 2019, o IBGE divulgou que 1,1 milhão de pessoas, cerca de 0,7% da população, se afirmaram bissexuais. A FMB (Faculdade de Medicina Botucatu), divulgou um levantamento onde 2%, cerca de 3 milhões de da população adulta, são transgênero, binárias ou não. 

 

 

Após se assumir no podcast No Armário dos Vestiários, ex-jogador de futebol e atual comentarista se torna o primeiro não hétero na seleção brasileira
por
José Pedro M. dos Santos
Lucas Tomaz Lopes
Francisco Vecchia
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07/09/2022 - 12h

 
Fonte: Reprodução instagram/Richarlyson  Richarlyson jogando com a camisa da seleção
Fonte: Reprodução instagram/Richarlyson   Richarlyson jogando com a camisa da seleção brasileira

Richarlyson, ex-jogador, que jogou na série A do Brasileiro pelo São Paulo, Atlético Mineiro e na seleção brasileira, declarou no segundo episódio do podcast Nos Armários dos Vestiários, que é bissexual, se tornando o primeiro jogador masculino não hétero a atuar na primeira divisão do campeonato brasileiro e na seleção.

Além dele outros jogadores de outras ligas e do futebol feminino já se assumiram, como Jake Daniels, jogador do Blackpool, time que atualmente joga pela segunda divisão inglesa, que assumiu ser homossexual aos 17 anos em 1990, Marta, que já conquistou seis vezes o título de melhor futebolista do mundo seis vezes, sendo cinco consecutivas, Justin Fashanu, jogador inglês que é considerado o primeiro jogador a se assumir dentro do futebol, sendo capa do jornal The Sun após sua declaração. Fashanu jogou em diversos clubes da primeira divisão inglesa como West Ham e Manchester City, o jogador de futebol americano, Carl Nassib, que o primeiro atleta da NFL abertamente homossexual, além do ex-jogador da NBB (Novo Basquete Brasil), principal liga de basquete no país, Jefferson Campos, que falou sobre seu relacionamento com o humorista Joaquim Chicó em suas redes.

Um tempo depois Walter Casagrande, ex-jogador do Corinthians e comentarista esportivo para a Folha e UOL, comentou no podcast Café da Manhã, da Folha, sobre o caso, afirmando que Richarlyson é único e se assumiu por conta de não conseguir mais sem ser verdadeiro consigo mesmo e por isso se assumiu, mas que ele desacredita que outros jogadores farão o mesmo a curto prazo, pois o ambiente do futebol é muito conservador, machista, homofóbico e racista e que na opinião dele um jogador que se entende como membro da comunidade LGBTQIA+ será constrangido, dentro e fora de campo, além de esses jogadores não quererem ser “vidraças para levarem pedradas”.

Segundo Gabriel Cordeiro, de 17 anos, estudante de jornalismo e corintiano, a importância do ato do comentarista está em inspirar outros jogadores e pessoas a também conseguirem se abrir sobre si mesmas e mostrar para o torcedor que o esporte é para todos e que outros jogadores possam se sentir a vontade de se abrirem neste meio machista. Giulia Cicirelli, também de 17 anos estudante de jornalismo e torcedora do Palmeiras, comentou que acredita que “o meio do esporte é um ambiente hostil para atletas que possuem opiniões, características ou posicionamentos que são considerados fora dos "padrões tradicionais”. Para ela, o medo e a insegurança do que pode acontecer após se assumirem cria um paralelo com a ideia de Casagrande sobre os atletas não querem se colocar como vidraças, visto que o ambiente fora do campo, tanto dentro do time como a torcida fazem os jogadores se retraíram e não se abrirem sobre o assunto. 

Apesar do padrão conservador, homofóbico, machista e racista no cenário do futebol brasileiro apresentado por Walter Casagrande, tanto Cordeiro como Cicirelli acreditam que a representação de figuras do esporte na comunidade LGBTQIA+ são de extrema importância para quebrar os preconceitos e avançar a luta pelos direitos desses grupos, pois sem essa representação tanto os jogadores quanto os torcedores são prejudicados, os primeiros por não poderem ser verdadeiros consigo mesmo, por medo de se prejudicarem e aos torcedores destas comunidades, que sentem que não pertencem aquele espaço e acabam cedendo para quem mantem essa estrutura conservadora dentro do esporte.

Com maior aparição de figuras do grupo, cresce o debate sobre a necessidade da presença nos desenhos animados e filmes
por
Davi Garcia
Pedro Lima
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07/09/2022 - 12h

A inclusão de personagens LGBTQIA+ nos desenhos animados é cada vez mais presente nas telas. Animações como She-Ra e as Princesas do Poder e Steven Universe fazem questão de abordar a situação de escolha de gênero com naturalidade e respeito, possibilitando que jovens se identifiquem com situações não heteronormativas. No primeiro exemplo, a Netflix, produtora do desenho, fez questão de modernizar na animação, roteiro, e, principalmente, na inclusão de personagens LGBTQIA+, incluindo a She-Ra, protagonizando um romance com a vilã do desenho. 

Além disso, a animação da Netflix é um reboot do desenho dos anos 80, em que She-Ra é a irmã gêmea de He-Man, e foi feita para ampliar o universo dos brinquedos da Mattel para as meninas.  

Por ser de fácil acesso e ter um visual atrativo, comparado aos desenhos da atualidade, o seriado teve altos índices de audiência, além de boas notas em sites de reviews, como a de Camila Sousa, do site Omelete, em que avaliou She-Ra e as Princesas do Poder como uma “uma encantadora história de amadurecimento, cheia de lições importantes e que combina muito bem com as novas gerações.” Com isso, jovens conseguiram se identificar com a representatividade racial, além da questão de gênero, caso de Mell Mengui (18), estudante de Relações Internacionais na FURG. 

Mengui comenta a importância do seriado para a escolha de gênero: “She-Ra para mim foi o primeiro desenho que eu assisti que eu realmente me vi representada em questão de sexualidade nos personagens, o desenho trata com a naturalidade que o assunto deve ser tratado, e não como um tabu”. Além disso, a universitária reafirma a necessidade do tratamento do assunto, “São personagens assim que colaboram para a criação de outros e assim vai ganhando mais espaço nas telas e ajuda que as próximas gerações não sejam tomadas por um preconceito que muitas pessoas se sintam representadas ao ponto de verem que sua sexualidade ou gênero não é algo errado” 

Porém, a abordagem nem sempre foi a mais adequada para a situação. Alguns desenhos estereotipavam os personagens de maneira que, sua única característica fosse sua sexualidade e nada mais, além de usar roupas completamente diferentes e ter uma voz na maioria das vezes engraçada e chamativa de maneira negativa, além de não terem relevância o suficiente e serem tratados como o alívio cômico da animação, esse tipo de "representatividade" na verdade apenas desfavorecia e prejudicava aquilo que deveria ser a verdadeira mensagem, felizmente, é algo que não acontece mais hoje em dia ou pelo menos acontece com baixa frequência. 

É curioso perceber a reação de algumas pessoas e usuários na internet em relação a representatividade LGBTQIA+ em desenhos e filmes animados. Apesar de ser algo que ajuda e influência as crianças e adolescentes de maneira positiva, muitas pessoas repudiam as cenas e personagens que fazem parte da comunidade.   Além do mais, qualquer demonstração de inclusão por parte de Hollywood é repudiada por aqueles que preferem o mais próximo à definição estereotipada do que é certo e moral. Como o filho de Clark Kent, o Superman, ser bissexual, um alarme na comunidade que se diz fã da empresa. Contudo, o cenário vem permitindo cada vez menos esses discursos, e abraçando a presença de todos, com cada vez menos intolerância e mais respeito. 

Para Gabriel Lodi, o "transfake" e o imaginário social cis são os principais desafios enfrentados pela comunidade
por
Beatriz Yamamoto
Marina Jonas
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07/09/2022 - 12h

“Precisamos representar personagens contando nossas histórias através de nossos próprios corpos”, afirma Gabriel Lodi, ator e dublador trans. Existem muitos desafios se tratando da identidade de gênero dissidente em um país transfóbico como o Brasil. E, ao contrário do que muitos pensam, o mundo das artes não é diferente. “O cinema não é só transfóbico, ele é misógino, branco, racista, elitista; ser transfóbico é só mais uma questão dentro do universo hierárquico que é o universo do cinema.” Desse modo, não só Lodi, mas todos os atores e atrizes trans encontram diversas questões relacionadas aos seus corpos e suas identidades durante suas trajetórias como artistas. 

A representatividade trans no mundo artístico ainda é bastante escassa e, muitas vezes, mesmo que existente, é realizada por pessoas cisgêneras. Em diversas narrativas trans, ocorre o que se conhece como transfake, termo usado para se referir à prática de pessoas cis representando pessoas trans no audiovisual. Essa é uma prática bastante utilizada e gera um apagamento sistemático da comunidade trans, explica Lodi, afinal há representatividade trans se não são essas próprias pessoas representando suas histórias? 

O transfake é reflexo do imaginário social que a cisgeneridade tem sobre a vivência da transgeneridade, trazendo uma falsa representatividade nas produções. São ideias muitas vezes deturpadas ou até mesmo distorcidas sobre a realidade trans, que costuma ser representada como miserável, baseada em situações de vulnerabilidade emocional, social e econômica, sempre às margens da sociedade. Assim, o ponto de vista cis sobre o tema reforça estigmas que já se tem sobre a comunidade trans, sendo limitante quanto às suas vivências que, na verdade, são diversas e pertencentes à múltiplas realidades.  

A perspectiva cisgênera sobre narrativas trans também inibe a possibilidade que muitas pessoas teriam de se identificar e ganhar potência através da arte. Além disso, impede com que a própria comunidade se expresse através dela e exponha seu desejo de avanço em relação à sua qualidade de vida e à sua integração na sociedade. O uso de narrativas que envolvem positivamente a transgeneridade pode dar mais força às vozes do movimento. 

Surge então a importância da interpretação de papéis trans por parte de pessoas que tenham, de fato, vivências identitárias em sua bagagem. A interpretação de outros tipos de papéis por parte de atores e atrizes trans também se faz importante no cinema, pois é uma forma de inclusão desses artistas, que permite com que falem de suas experiências como parte de uma minoria, mas não sendo o único contexto em que personagens trans apareçam nas produções. E, a inclusão envolve os próprios conteúdos cinematográficos e a participação na direção da construção de narrativas e execução de filmes, inclusive em cargos importantes e proeminentes. 

No cenário atual, avanço não seria a palavra mais adequada para definir a realidade dos artistas trans. Gabriel explica: "Tivemos pequenas conquistas e eu comemoro cada uma delas. De tanto a gente lutar, dar nossa cara a tapa e fazer manifestações para falar da nossa existência, surgiram mais oportunidades de trabalho, mas ainda não pertencemos a esse espaço”. Para o ator não há um avanço social ainda e, ele completa, “Acredito que quando a gente avançar socialmente tudo vem junto.” Discutir o tema é essencial para gerar conscientização e mobilização por parte da sociedade como um todo. 

A utilização do termo não-binário no mundo digital causa divergências de opinião
por
Rodolfo Soares Dias
Ian Valente
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01/09/2022 - 12h

O uso do pronome Neutro vem sendo disseminado pela comunidade LGBTQIA+ e se popularizando, porém, seu uso nas mídias sociais acaba causando polêmicas sobre a necessidade e importância da norma verbal culta. "A reinvindicação é importante e certa, é o direito das pessoas, ela sente a necessidade de se expressar dessa forma através da linguagem", comenta Bruno Sangiorgio professor de línguas formado pela universidade de São Paulo (USP). 

De modo geral, os pronomes são um conjunto de palavras que tem a função de substituir ou nomear um substantivo ou adjetivo, então, esse conjunto é classificado por gênero masculino ou feminino. O neutro surge como uma categoria gramatical que incluí diferentes gêneros que não se identificam nem com o masculino, nem com o feminino.  

Os embates ocorrem a partir do momento em que o uso do pronome neutro começa a se difundir e se torna uma base de mudanças. Para o professor, o problema começa na falta de informação: “As pessoas têm muito preciosismo com a língua portuguesa, mesmo sem estudá-la, é um assunto muito complexo”, e complementa “a língua é viva e acontecem mudanças nela conforme a sociedade a utiliza”. 

No ano passado, o Museu da Língua Portuguesa fez uma postagem de boas vindas pós pandemia em suas redes sociais, utilizando além de "todas" e "todos" o "todes" como representação do pronome neutro, gerando uma repercussão tanto negativa como positiva, sobre o questionamento de uma possível inserção na norma ortográfica padrão.

Os apoiadores da utilização do pronome acreditam que ele possa ser necessário para uma mudança positiva de inclusão de minorias na sociedade e já o utilizam, porém em muitos casos a “transformação” na forma de fala e escrita, incomoda conservadores e estudiosos. No Latim o artigo neutro existia, porém sua terminação coincidia com as terminações masculinas e com o passar do tempo elas foram se unindo e se formou uma só. Por isso, a inexistência de um pronome neutro nos dias atuais é possível, mas para Sangiorgio isso não se justifica: “Usar o masculino plural como neutro só por ser uma herança do patriarcalismo é errôneo, existem sociedades que o neutro é o feminino plural e não significa que a sociedade seja matriarcal”. 

“Mas apesar do preciosismo que eu disse anteriormente, vemos uma presença forte da cultura norte-americana na nossa língua que é tratada com normalidade, palavras como ‘Break’ ou ‘brainstorming’ já estão inseridas na nossa sociedade” cita o professor, como um processo de afastamento e marginalização da sociedade LGBTQIA+, sendo um dos fatores que mais contribui para desvalidar este discurso. 

Ainda assim, seus adeptos lutam para uma maior aderência ao discurso, porém em um ambiente pouco propicio, a internet. Em média, o brasileiro passa quatro dias inteiros por semana conectado na internet, mas ainda sim, existe uma falta de aprofundamento de questões tão importantes como a do pronome neutro, um assunto recente e profundo que é tratado de maneira vaga e acelerada. 

Sangiorgio porém, acredita que a implementação do pronome neutro como norma ortográfica é possível, mesmo em um processo lento e gradual “A partir do momento que a palavra é colocada no dicionário quem é mais afetado é a criança que está na escola, não o adulto que tenta combater seu uso. A mudança só é positiva a partir do momento que se consolide a ponto de ser ensinada nos níveis mais básicos da educação”. Ele finaliza: “A mudança na língua é apenas uma parte do necessário para ter um convívio social saudável para todos.”

 

Faltando menos de dois meses para as eleições, eleitores LGBTQIA + reafirmam a importância de votar a favor de suas causas
por
Guilherme Timpanaro Gastaldi
Caio Flückiger
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01/09/2022 - 12h

Na medida em que chegam as eleições, começam a surgir as propagandas e os debates televisivos, além é claro, da incessante busca pelo candidato ideal por parte do eleitor, que tem em suas mãos a responsabilidade de exercer seu papel como cidadão e fazer a escolha certa. Maike Alves, 28, é tatuador e membro da comunidade LGBTQIA + e acredita que a possibilidade de escolher um representante político é um direito de grande importância. Em suas próprias palavras, “garante não só a possibilidade de participar da vida em sociedade como também é uma oportunidade de eleger alguém que garanta melhorias para mim e para as comunidades que pertenço”.

Dentre as propostas avaliadas pelos eleitores, a agenda atual da sociedade exige demandas, explicações, projetos e atenção extrema para pautas de inclusão de minorias e uma cada vez mais emergente preocupação com a questão da diversidade, de um modo geral. Alves acredita que na hora de selecionar o candidato, além de levar em consideração propostas relacionadas à saúde e educação, ter projetos que priorizem causas sociais e defender direito de minorias é essencial. Porém, quando se trata de pautas relacionadas à comunidade LGBTQIA +, Alves observa que políticos que representam uma porcentagem maior da sociedade não costumam falar sobre os direitos do movimento e dentre aqueles que de fato abordam tal temática, "a grande maioria das propostas são vazias, não se concretizam em ações”, disse. 

A pauta LGBTQIA + vem sendo cada vez mais abordada e discutida entre a população e a busca por mudanças é notória, refletindo no aumento de candidatos LGBTQIA + em relação a 2018. De acordo com levantamento realizado pela organização VoteLGBT, para as eleições de 2022, 214 candidaturas LGBTQIA+, de 20 partidos diferentes, foram registradas na Justiça Eleitoral, para disputar a eleição deste ano. O número é maior que em 2018, quando foram registradas 157 candidaturas, mas ainda é pouco, sendo apenas 0,76% do total de candidaturas destas eleições. Para Alves, por mais que dentre os 99% vários sejam simpáticos à causa, por não viverem sua realidade, eles não entendem perfeitamente o que a comunidade passa, dificultando a realização de mudanças reais. Essas que na visão do tatuador, só virão com o aumento no número de candidatos que se identificam como LGBTQIA +.

Pedro Mazziero, 23, é ator e modelo, homem cisgênero e bissexual. Ele não “bota fé” nos planos de governo, mesmo dos candidatos aos grandes cargos, como Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, candidatos à presidência da República. Frisa sua desilusão e desesperança com a política em geral, apesar de reforçar seu desejo de extirpar a direita “louca e fascista”.

Ele destaca sua motivação por causa das poucas medidas públicas sistemáticas tomadas de 2018 para cá, além de dizer que “pelo nosso histórico, pode ser muito provável que os candidatos estejam mentindo. Estou bem neutro em relação ao que os políticos estão propondo”.

Pedro ressalta ainda que não enxerga possibilidade de haver medidas focadas na comunidade LGBTQIA +, justamente pelo fato de a representatividade da comunidade nas candidaturas ser baixíssima - menos de 1%. Para haver qualquer mudança significativa, seria necessária maior representatividade. “A classe política é, pelo menos abertamente, maioria esmagadora hétero. Não acho que o sistema vá mudar. Todo mundo fala e fala. Minha amiga, que é modelo trans, apanhou em um 99”, desabafa.

Com mais de 260 atletas, a Taça da Diversidade reúne times de todo o Brasil em prol do futebol inclusivo
por
Jalile Elias
Sophia Pietá Milhorim
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01/09/2022 - 12h

A Taça da Diversidade é um campeonato de futebol que reúne pessoas LGBTQIA+ apaixonadas pelo esporte, mas que se viram afastadas devido ao preconceito. ‘’Muitos homens gays ouviram na infância que eram muito afeminados para jogar futebol e eram excluídos das aulas, como aconteceu comigo’’ declara William dos Anjos, jogador do time Unicorns Brazil.

Fundado em 2019, a Taça da Diversidade conta atualmente com mais de 260 atletas, ocorrendo sempre no mesmo final de semana da maior parada LGBTQIA+ do mundo. Neste ano, o campeonato ocorreu dia 18 de junho, no bairro Barra Funda, e contou com a presença de 13 times, cada um contendo 16 jogadores e quatro integrantes da comissão técnica. O evento é dividido em duas categorias, a cis – pessoas que se identificam com o gênero de nascimento- e a trans -pessoas que não se identificam o gênero imposto ao nascer-.

Existem equipes compostas somente por homens gays (Unicorns e Bulls), outras somente por mulheres lésbicas (Fugitivas da Lei Seca e Jogamiga A), existem equipes mistas (Guarani e Jogamiga B) e de jogadores heterossexuais (Nenê de Vila Matilde e Reggae Boys). Além dos cinco times de homens trans, Manda Buscá, Meninos Bons de Bola, Pogonas, Trans United e T Mosqueteiros, não existindo times de mulheres trans no campeonato. Os times são dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Ceará.

Segundo dos Anjos, a melhor parte de participar do campeonato é que ele está jogando com pessoas que tiveram experiências parecidas com a dele, de ridicularização e exclusão, e agora todos estão tendo oportunidade de jogar e se divertir, sem sofrer preconceito.

A Taça da Diversidade é um evento aberto para o público e para a entrada foi necessário somente a doação de um produto de higiene pessoal, que foram doados para o Instituto Casa Florescer que acolhe mulheres transexuais necessitadas de ajuda social e psicológica.

 O objetivo de todos que produzem o campeonato é celebrar a diversidade LGBTQIA+ e driblar a homofobia e transfobia, que diversos atletas sofreram durante a vida e encontraram no evento uma oportunidade de se divertir e praticar o esporte que ainda possui muito preconceito enraizado. ‘’O futebol é para todos, todas e todes’’ afirma Renan Dias, presidente do time Bulls que participou do evento.

 Além da Taça da Diversidade, existem outras competições destinadas ao público LGBTQIA+, existindo inclusive uma agenda completa de campeonatos. “É um calendário de competições bem preenchido, a pandemia deu uma interrompida nisso, mas agora a gente está voltando. Nós tivemos a Copa São Paulo em novembro, o Campeonato Mineiro em dezembro, vamos ter agora a Taça Maravilha inclusive já contando com o apoio do poder público aqui no Rio, a Champions League já conseguindo apoio inclusive da CBF, patrocínio da CBF, são conquistas importantíssimas para o nosso segmento", declarou Flávio Amaral, jornalista e gerador de conteúdo sobre o movimento do esporte LGBTQIA+. 

    Especialmente no futebol, a questão da homofobia sempre foi muito presente, tanto dentro quanto fora das quatro linhas. A forte presença desse tipo de preconceito faz com que muitos jogadores e jogadoras tenham grande receio em revelar sua opção sexual para o público. Dessa forma, tornam-se fundamentais os movimentos de apoio à comunidade LGBTQIA+ no âmbito esportivo, para que todos os atletas, independente da modalidade, possam se sentir incluídos sendo simplesmente quem eles são.

Flávio Amaral acredita que essas competições tem grande importância nos âmbitos social e popular, em que diversas transformações são feitas na vida das pessoas que decidem ingressar nessas equipes, que elas servem como verdadeiras “curas” até mesmo para pessoas que, por exemplo, são diagnosticadas com depressão. "A gente percebe com muito orgulho realmente o impacto que essas equipes têm e ainda vão ter com certeza. Essas pessoas encontram nessas equipes um acolhimento, um pertencimento que elas nunca tiveram em âmbito esportivo. Isso é altamente importante e enriquecedor para o nosso movimento”.

“Tem partidos que de sete candidaturas LGBTs em 2020, cinco deles não receberam investimentos, nenhum tostão”, aponta Gui Mohallem em entrevista para a AGEMT
por
Felipe Oliveira
Guilherme Nazareth
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31/08/2022 - 12h

“A maior dificuldade para a candidatura LGBTQIA+ é o partido”, afirma Gui Mohallem; fotógrafo, artista plástico e executivo da organização VoteLGBT. Em contato via WhatsApp, ele diz que o investimento é quase nulo, além da existência de violência, sabotagem, homofobia e negligência nos partidos com os candidatos LGBTs.

O #VoteLGBT surgiu em 2014 como uma campanha para viabilizar candidaturas pró LGBTs, sendo uma das organizações pioneiras na luta pela causa. A entidade entende que só existe democracia quando há diversidade.

Em 2016 a instituição começou a realizar pesquisas de perfil político nas paradas LGBT, e assim produziram dados sobre a comunidade na população, já que essas informações estatisticamente não existiam na época.

Mohallem fala sobre as dificuldades e LGBTfobias que os candidatos sofrem ao tentarem se filiar a um partido político: “LGBTs não escolhem o partido, vão no que aceitam”. Ele alega que é um “luxo” um LGBT escolher o partido que deseja pela posição política, e também diz que muitos partidos abandonam seus eleitorados, sem investir devidamente neles.

O artista diz ser comum os partidos investirem pouco ou até mesmo nada nas candidaturas: “Tem partido, que de sete candidaturas LGBTs em 2020, cinco deles não receberam investimento, nenhum tostão”, declara o fotógrafo.

Logo após, Mohallem fala sobre o confinamento que os grupos políticos impõem para os candidatos: “Os partidos tendem a confinar os LGBTs a pautarem apenas nas questões identitárias, e ao contrário disso, vemos muitos mandatos LGBTQIA+ com propostas interessantes para toda população”.

De acordo com as pesquisas do VoteLBGT, representantes LGBTs eleitos, somando todos os cargos, ocupam apenas 0,16% na política. Ainda assim, as denúncias de violência política e ameaças de morte, atendidas pelo Ministério Público, mostram que 50% são contra mulheres trans.

Expectativas nas eleições de 2022

Nas eleições de 2018, segundo a Associação Brasileira LGBT(ABLGBT), houve 180 candidaturas LGBTQIA+. Até o momento, chegou-se ao número de 242 nesse período eleitoral, divulgado abertamente no site do VoteLGBT+. Candidaturas não pertencentes à sigla em questão, mas que apoiam abertamente a causa, também ecoam cada vez mais nos espaços políticos.

O presidente da Aliança Nacional LGBTI+, Toni Reis, também projetou um alcance em torno de 250 do dado exposto acima. Disse também sobre a expectativa de ter, no mínimo, 8 candidaturas da comunidade eleitas no Congresso Nacional, o que seria o dobro das pessoas assumidamente LGBTQIA+ entre deputados e senadores.

 Para chegar a essa conquista o envolvimento da organização na política não é pequeno. Conta com um programa chamado Voto Com Orgulho, trazendo apoio no âmbito jurídico e na questão da publicidade nas campanhas políticas. Atualmente são 34 candidaturas espalhadas pelas 5 regiões do Brasil e todos para os três cargos do Poder Legislativo.

 Ao contar com essa assistência, é necessário assinar um termo de comprometimento com propostas específicas de cada setor que vai concorrer, almejando o combate a LGBTfobia e promoção dos direitos da sigla. Há três eleições em funcionamento, Toni declarou que a plataforma “tem o intuito de incentivar as pessoas a se orgulharem de serem o que são e também votarem com orgulho, ter dignidade para isso.’’

Toni deseja com essas eleições atingir uma bancada forte LGBTQIA+, e assim, lutar para positivar no congresso nacional todas as ações a favor conquistadas no Poder Judiciário brasileiro, como a criminalização da LGBTfobia, casamento homoafetivo, nome social e mudança de gênero.