Nos últimos 10 anos, os casos de feminicídio no Brasil dispararam. Juntamente com o aumento dos crimes, se têm a proliferação de discursos de ódio online. Nas redes sociais, os movimentos misóginos, conhecidos como "manosfera", vão influenciando cada vez mais homens a serem mais másculos, ao mesmo tempo que incita o ódio ao feminino, contribuindo com a violência contra as mulheres. O feminicídio é um conceito criado por Diana Russel, em 1976, com o objetivo de nomear o assassinato de mulher por questões de gênero, assim diferenciando de um homicídio comum. No Brasil, se tornou um crime em 2015 pela Lei 13.104/2015. Mesmo sendo um crime hediondo, e com a maior pena para crimes autônomos no código penal, os casos vem aumentando vertiginosamente.
De acordo com dados disponibilizados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2025 foram registradas 1.568 vítimas de feminicídio, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Estima-se que pelo menos 13 mil mulheres perderam suas vidas em decorrência desse crime desde a criação da lei. É necessário analisar o número e entender motivos de seu crescimento.
A "manosfera" é uma comunidade online focada no desenvolvimento pessoal masculino com frequentes críticas ao feminismo e incitação ao ódio contra mulheres. Surgiu na década de 1990 na internet, porém ainda estava muito difuso. O movimento ganhou força a partir de 2010. Foi dentro da "manosfera" que surgiu o movimento atualmente chamamos de red pill. Começou com grupos online com ideologias misóginas para disseminar a ideia de que as mulheres estariam tomando o espaço social dos homens, criando uma narrativa de homens contra as mulheres.
Angelita Herrmann, consultora do Instituto ProMundo, explicou a adesão do discurso entre os homens. “Colocar uns contra os outros é muito mais fácil. Então, vai se criando um movimento de que homens são vitimizados. É um terreno fértil para o ódio. É a ideia de estar perdendo as oportunidades por causa de uma mulher", explica Herman e acrescenta: "a sociedade moldada pelo patriarcado está em crise".
As mulheres sempre foram obrigadas a serem submissas aos homens, enquanto o gênero oposto foi ensinado a prover e não sofrer em nenhuma ocasião, só sendo possível canalizar seus sentimentos a partir da raiva. Ao passo que os coletivos feministas foi reivindicando seus direitos nas últimas décadas, a mudança da ocupação social das mulheres se tornou uma insegurança para homens. Muitos se veem sozinhos, em crise de identificação com o ideal masculino da sociedade. “Nós nunca tivemos uma sociedade tão solitária. Não tem mais esse tecido social, ela é individualista, é solitária, e aí você pega uma pessoa solitária, que não consegue se relacionar e cria-se um ambiente favorável para (se eu não consigo me relacionar) para culpar a mulher. Então, tem essa dificuldade inconsciente, subjetiva, em relação à masculinidade”, explica Herrmann.
O meio de disseminação do ódio começou e continua sendo, principalmente, nas redes sociais, que não regulamentadas permitem a produção desse conteúdo. O ECA Digital, vigente desde março de 2026, é uma tentativa de regulamentá-las. Assim como o PL 6396/2025 proposto por Érika Hilton (PSOL/SP), onde o conteúdo misógino propagado nas redes sociais teria sua monetização proibida. Os influenciadores que participam e disseminam a ideia do red pill têm milhões de seguidores. .
Para combater o movimento red pill, que de forma indireta influencia nos casos de feminicídio, a regulamentação das redes é um caminho possível. A ressignificação de masculinidade na sociedade atual é outro. Pensando e analisando a situação, a ONG ProMundo vem trabalhando com a ressignificação da masculinidade e da paternidade. São 28 anos trabalhando nesse objetivo, transformando homens e famílias.
O jeito com que os homens vivem a sua própria masculinidade tem matado os próprios homens. A presença no debate sobre o feminicídio e sobre a masculinidade é extremamente necessária. “A melhor forma que os homens têm de se engajar é por si próprio. Se engajar mesmo, dizer, gente, não está dando mais, eu não aguento ser este homem que a sociedade está me impondo que eu seja. Então, de que nova masculinidade nós estamos falando? É importante ressignificar”, diz Herrmann.
Os aumentos de casos de feminicídio não aconteceram de forma isolada. Existe uma sociedade que cria mecanismos que facilitam os crimes e o preconceito contra as mulheres e o debate qualificado e o engajamento de todos é um dos caminhos para uma sociedade mais justa.
Em Embu das Artes, a festa de aniversário da cidade foi também a data em que Elisa Dias viu seu destino traçado pela música.
Mulher preta e periférica, a cantora nascida na Terra das Artes conta à Agemt sua trajetória de amor e dedicação à música em um contexto de dificuldades financeiras, preconceitos e bullying.
Nascida em uma família musical onde o pai e, principalmente, o irmão, Elcio Dias, cantor, compositor e instrumentista, passavam horas ouvindo e estudando Elis Regina, Tom Jobim, Chico Buarque e Milton Nascimento, que hoje são suas maiores referências. A partir desses momentos com o irmão, Elisa desenvolveu seu gosto musical e pensamento crítico: “Ele me explicava as mensagens subliminares nas letras das músicas do Chico”, relembra.
A artista conta que o casamento entre sua vida e a música se deu logo na primeira infância. Graças à figura do irmão músico que logo cedo percebeu o potencial da irmã mais nova, que já “cantava afinadinho”, começaram a ensaiar um repertório de músicas sertanejas, muito tradicional em sua cidade, para cantarem às quintas-feiras em um palco aberto de música folclórica de Embu das Artes.
Apesar da vergonha de cantar sozinha neste palco, Elisa se esforçava nos ensaios com o irmão para cantar junto com ele, no palco dos adultos. Aos 9 anos, participou da festa de aniversário da cidade, onde cantou “Cuitelinho” de Pena Branca & Xavantinho para mais de 5 mil pessoas. Foi ali que teve certeza de que deveria fazer aquilo pelo resto da vida.
“Eu achava que todo mundo vivia daquele jeito. Que a música era o centro da vida das outras pessoas, como era o centro da vida da minha família”, comenta.
Com a sua infância tecida pela arte, Elisa sabia que seguiria o caminho da música, o caminho que sempre foi o seu: “Quando eu era criança, eu não falava que eu ia ser cantora quando crescer. Eu falava ‘eu sou cantora’”.
O PRECONCEITO
Desde sua infância, Elisa foi atravessada pelo olhar do outro; olhar esse que a desencorajava a seguir cantando. A artista conta que sempre se sentiu fora dos padrões físicos, era rechaçada por colegas e figuras de autoridade, como professores.
Entretanto, a música era vista por Elisa como uma ferramenta para se conectar com o outro que a recusava, além de ser sua fonte de acolhimento e, principalmente, sua companhia. “Todo artista no fundo só quer ser amado”, ela analisa sua relação com expor seu talento em busca de aceitação e reconhecimento.
Elisa conta que, ao expor seu talento pela primeira vez no sarau da escola, com seus colegas e professora a plateia, finalmente se sentiu pertencente.
A artista, após cantar “Coração de Estudante” de Milton Nascimento, se deparou com uma nova realidade, “foi a primeira vez na vida que ninguém riu de mim”. Ela relata que mesmo as crianças que faziam bullying com ela a receberam com abraços e que sua professora, que não havia acreditado que ela subiria no palco para cantar, chorou de emoção.
Ao longo de sua trajetória, Elisa seguiu se encontrando com os efeitos do julgamento do outro quanto às suas habilidades.
Entrou muito nova na faculdade de música, onde as dificuldades se intensificaram por também ser uma das únicas mulheres em um grupo majoritariamente masculino que não a levavam a sério: “Alguns me acolhiam como filha; achavam tudo que eu fazia era fofinho. Outros, nitidamente deixavam bem claro que não entendiam o que eu estava fazendo ali”, declara.
A cantora menciona, inclusive, um colega específico que a quase fez desistir de sua graduação devido às suas falas: “Me gerou traumas e bloqueios que até pouco tempo atrás eu tinha”, confessa. Ela também diz que, no geral, se sente mais cobrada que os homens dentro da música.
O fato de ser mulher trouxe muitos desafios à sua carreira. Apesar de hoje trabalhar com homens mais desconstruídos, que a respeitam mais do que na época da faculdade, Elisa afirma que ainda enfrenta discriminação por ser negra: “Eu também sou professora (...) e por eu ser uma mulher negra, primeiro que tudo o que eu falo soa como agressão, e as pessoas duvidam muito da minha metodologia, do meu conhecimento. Todo semestre eu tenho um aluno que duvida do meu conhecimento, que não aceita que uma mulher negra tenha aquilo o que ele busca”, relata.
O preconceito que sofre também se intensifica pelo meio musical que a cantora participa: A MPB.
A MPB
“Infelizmente a MPB é um estilo de música elitizado”, aponta Elisa ao refletir sobre a falta de espaço que encontra nesse âmbito por sua raça e gênero.
A cantora direciona sua crítica à indústria que, dentro de um país com uma riqueza grandiosa de gêneros musicais, favorece uns em detrimento de outros: “Eu acho que tem que existir mesmo, música para falar de amor, de relacionamento, de término, de bebida, de balada. A minha grande questão é que a indústria cultural pega um determinado gênero musical e faz ele ser muito popular, e os outros gêneros musicais ficam completamente esquecidos”, explica.
Dentro de suas maiores referências musicais estão: Tatiana Parra, Lívia Nestrovski, Vanessa Moreno, Mônica Salmaso, Helene Fisher, Nana Caymmi, Zizi Possi, Gal Costa, Milton Nascimento.
“A primeira vez que eu ouvi uma música do Milton Nascimento, com uns 7,8 anos, eu chorei da hora que eu ouvi a música até eu ir dormir. O nome da música é Fazenda. Eu tenho inclusive a capa desse disco tatuada no meu braço”.
Além da música, Elisa também é atriz e, menciona Aline Cunha como uma grande referência dentro do Teatro Musical, que inclusive foi sua aluna, e possui uma trajetória semelhante à sua.
Quando era pequena, Elisa sonhava em ser uma verdadeira popstar. Esse sonho foi sendo moldado conforme foi crescendo e se vendo fora dos padrões que são aceitos na sociedade para alcançar o estrelato.
Entretanto, no decorrer de sua carreira, foi realizando muitos outros sonhos. Alguns já desejados, como cantar no Raul Gil, participar de um programa musical da TV Cultura e cantar ao lado de Márcio Borges, outros que nunca imaginou ser possível, como lançar um disco. “Eu sou uma mulher negra de periferia. Eu acessei lugares que pessoas como eu jamais acessariam, e eu sei que foi através da música”, declara.
Hoje, Elisa sonha em ter mais estabilidade em sua carreira, conseguir levar sua banda para tocar fora, trabalhando um pouco menos e ganhando mais.
NOVO ALBUM
Elisa confessa que nunca havia sonhado em ter um álbum, pois nunca se viu sendo compositora, apesar de sempre escrever.
A artista diz que seu bloqueio era advindo da pessoalidade e da intimidade do seu trabalho, vinda do quanto ela se coloca em suas músicas, “É um pedaço da minha alma que eu coloco para fora”.
Ela conta que a transição veio após mostrar seus projetos para sua banda que, então, passou a interpretá-las em seus shows. Assim, a artista ganhou, em 2024, o financiamento de metade de seu álbum pela Lei Aldir Blanc, política de fomento à cultura brasileira, o que a possibilitou embarcar nesse novo sonho.
Em seu disco, os arranjos e a direção musical são feitos pelo Dino Barioni, os músicos que participam são os que a acompanham há mais de cinco anos. O seu caminho musical se encontrou com o de Danilo Caymmi, instrumentista, cantor e compositor, em o que Dias caracteriza como uma “feliz surpresa”. A partir de uma performance juntos, Elisa recebeu um convite para participar da turnê de Caymmi que ocorrerá ainda neste ano e, posteriormente, o convidou para realizar uma participação em seu disco. Elisa Dias conta sobre o que essa participação significa para sua história: “Eu cresci ouvindo a família Caymmi”.
A participação acontece no single “Curumim do Mato”, disponível já para pré-save, que retrata a história de migração dos pais de Elisa, enredo universal para os brasileiros do norte e do nordeste que se deparam com a precarização do sudeste. Danilo surge na faixa com seu próprio repertório, também sendo, assim como Elisa, filho de pais que passaram pelo mesmo processo.
“Esse é um sonho que eu nunca ousei sonhar”, Elisa encerra ao pintar a realidade a sua frente, produto de tantos obstáculos vencidos.
Neste domingo (8), manifestantes lideradas pelo Levante Mulheres Vivas, ato orgânico criado pelas atrizes Rachel Ripani e Livia La Gatto, concentraram-se na Avenida Paulista e seguiram do Masp até a Praça Roosevelt, na Consolação. O trajeto foi marcado pela presença de representantes de diversas organizações, partidos políticos, coletivos feministas e militantes independentes.
O aumento de crimes brutais lembra à população o que os números indicam há anos: o Brasil não é um lugar seguro para as mulheres. Cartazes denunciavam um estado de emergência por feminicídio, exibiram pedidos por mulheres vivas, o fim do discurso "red pill” (movimento misógino online), liberdade e reafirmam que criança não é mãe. Mulheres recentemente assassinadas foram lembradas por um pequeno cemitério de bonecas e um longo pano vermelho, que reunia sapatos, representando as vítimas.
Em 2025, o Brasil registrou recorde de feminicídios, foram 1.568 vítimas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Só em janeiro deste ano, 27 mulheres foram mortas no estado paulista. “Em um país que registra milhares de casos de violência doméstica, estupros e uma epidemia de feminicídios, no dia 8 de março é para se estar nas ruas”, publicou o movimento no perfil @levantemulheresvivas, no Instagram.
Um dos casos mais marcantes lembrados no ato é o de Thainara Souza dos Santos, de 31 anos, que foi atropelada e arrastada por um quilômetro, presa ao carro pelo próprio companheiro, na zona norte de São Paulo, em novembro do ano passado. Ela morreu após um ano internada.
Rosana, de 40 anos, manifestava pelas que se foram, pelas que virão e por ela mesma. “Nós nos queremos vivas e livres. Por isso estamos aqui desconstruindo, derrubando e combatendo o que nos impede: a misoginia e a violência.”, diz à AGEMT. “Não é só indignação, é luta”, completa.
As reivindicações reuniram diferentes movimentos sociais, organizações políticas e militantes independentes que pautavam não apenas o combate à violência contra mulher, mas também o fim da escala 6x1 e do imperialismo, além da defesa da democracia e da soberania nacional.
A alta nos índices de feminicídio indica que o problema não é apenas estatístico, mas é fruto de uma cultura patriarcal presente desde a formação do Brasil. Essa realidade também se reflete na falta de políticas públicas voltadas à proteção das mulheres. Em dezembro de 2025, o Portal da Transparência publicou o planejamento orçamentário do estado de São Paulo para o enfrentamento da violência contra a mulher, que previa apenas R$0,18 por mulher na faixa de 15 a 59 anos.
Como consequência, o estado lidera os rankings nacionais de feminicídio, registrando um aumento de 96,4%, o segundo maior do país, atrás apenas do Amapá, segundo o Fórum de Segurança Pública de 2025.
“O governo do Estado colocou à frente apenas 15% do orçamento público no combate ao feminicídio. Por isso, é papel do ativismo feminino ir para as ruas pelo combate às violências contra a mulher, à precarização do trabalho e aos ataques do imperialismo contemporâneo. Querendo, ou não, os assuntos se entrelaçam”, afirma Júlia Cardoso, de 23 anos, estudante e militante da Faísca Revolucionária.
As mulheres enfrentam jornadas duplas ou triplas de trabalho, pois ainda são, em grande parte, responsáveis pelos afazeres domésticos e cuidados familiares. São elas, também, as principais vítimas da escalada de ataques norte-americanos contra outras nações. “Trump bombardeou uma escola de meninas iranianas, durante a guerra vigente entre Estados Unidos, Israel e Irã”, lembra Júlia.
Em meio a exigências por direitos femininos básicos, Joyce, de 27 anos, militante do Levante Popular da Juventude, lembra o significado histórico do Dia Internacional da Mulher. “Não se trata de homenagem, e sim de mobilização social.”, afirma.
A jovem relembra a mobilização das mulheres socialistas russas contra o regime czarista, com a organização de atos e protestos no movimento operário. “Pelo fim do patriarcado, contra o machismo e a violência contra a mulher. Hoje o que me traz aqui nas ruas é contar e fazer história para transformar radicalmente a sociedade", conclui Joyce.
Isabel Marques, de 61 anos, é artista e pioneira no estudo do ensino de dança no Brasil. É doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Caleidos Cia. de Dança desde 1996. Sua trajetória na dança começou ainda criança, nas clássicas aulas de balé, mas na adolescência começou a questionar as metodologias e práticas de ensino. “A repetição, imitação, controle e a busca do corpo ideal das bailarinas não cabiam mais em mim. Tudo isso estava em oposição à possibilidade de criação”.
Com 16 anos, ganhou uma bolsa de estudos do United World Colleges (UWC) para estudar no Canadá. Isabel conta que a experiência em um colégio internacional abriu seus horizontes, fez amizades com jovens de todo o mundo e cursou o ensino médio longe da censura da Ditadura Militar. Decidiu fazer pedagogia após ler “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire. “Encontrei o livro em inglês na mesa dos alunos de filosofia, fiquei curiosa por ser um autor brasileiro e me encantei por ele e pela a educação”, conta.
Ao voltar para o Brasil, ingressou na USP e retomou as aulas de dança – agora com foco na improvisação – onde conheceu os princípios e processos de criação de Rudolf Laban, um dos precursores da dança moderna. Isabel conta que Laban foi crucial para sua trajetória, uma vez que ele foi responsável pelo primeiro currículo escolar que inclui dança, criado em 1958 na Inglaterra.
A carreira de Isabel Marques é permeada pelas interfaces entre dança e educação, entre a vivência acadêmica e o fazer artístico. Em 1991, após terminar seu mestrado em Londres, começou a dar aula na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) como professora convidada. Na universidade, criou um grupo de pesquisa voltado à integração entre arte e educação, que mais tarde se transformou na companhia de dança contemporânea Caleidos.
Na mesma época, foi convidada por Ana Mae Barbosa para fazer parte da equipe de Paulo Freire na Secretaria da Educação da prefeitura de Luiza Erundina em São Paulo. “A ideia era abrir o leque de possibilidades do ensino de arte nas escolas, porque antes só tinham artes visuais e música. Em 1993, nós lançamos um novo currículo, desenhado a muitas mãos, que incluía o teatro e a dança e aprofundava as outras linguagens”, conta Isabel.
Em 1997, foi responsável por elaborar os currículos nacionais de dança do Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Isabel acredita que a importância da dança na escola em um país que dança é a possibilidade de compreendê-la como linguagem e como arte. “A escola trata a dança como área do conhecimento, não só como entretenimento, lazer, diversão, religião – todas muito importantes e muito significativas e cruciais para o Brasil. Mas, ao estudar a linguagem da dança é possível atribuir significado aos movimentos, você tem a possibilidade de questionar, de perguntar, de recriar e de ser co-criador do mundo mesmo, da arte”.
Ao longo das últimas décadas, Isabel lecionou diversos cursos de formação de professores para a rede de escolas públicas de São Paulo. “É importante que as professoras entendam que esse corpo delas, que muitas vezes não é o corpo ideal, que não é o corpo da bailarina, esbelto e flexível, também dança. É a volta ao corpo, ao movimento e à vida que as torna professoras diferenciadas”. Isabel destaca o direito à dança e ao movimento nas escolas. “A escola tradicional supervaloriza a mente, o corpo é morto na escola. Quando a gente trabalha com a dança na escola pública, a gente introduz a importância da diversidade corporal”.
O trabalho com as escolas públicas é central em sua trajetória.“É na escola que a gente trabalha em prol da transformação social, da conscientização e da visão crítica do mundo”. Para ela, é a partir de um diálogo estabelecido com o mundo que é possível transformá-lo. Afirma que as redes de relação que criamos com o mundo podem partir de uma elaboração mental ou da experiência não verbal, de percepção através do movimento. “Você percebe o mundo através do movimento, você conhece as pessoas… Uma coisa é você falar eu te amo, outra coisa é você abraçar e beijar. São complementares”.
Em seu livro “Ensino de Dança Hoje”, publicado em 1999, Isabel Marques propõe o conceito de “dança no contexto”. Para ela, é preciso relacionar as suas aulas de dança aos contextos sociais, afetivos, culturais e políticos, o objetivo não é simplesmente aprender uma sequência de passos, mas criar dança a partir de um contexto. “Eu conheço praticamente todos os estados do Brasil ensinando dança e dançando, sempre com um cuidado de não impor a cultura paulistana, sempre estabelecendo um diálogo com o local”.
Em suas peregrinações pelo país, Isabel lançou seis livros sobre dança e educação e ministrou cursos de especialização, incluindo aulas inaugurais em faculdades de dança. Ela conta que, no início de sua carreira, havia somente três graduações em dança no Brasil. Hoje, após o programa Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), de 2008, existem mais de 40.
Este ano, o Caleidos, companhia de dança dirigida por Isabel Marques e Fábio Brazil, completa 30 anos. “A gente brinca que 30 anos de dança no Brasil equivalem a 200 na Europa”, comenta Isabel frente às dificuldades de viver enquanto artista no Brasil. O Caleidos já produziu 35 espetáculos de dança e ganhou 16 prêmios de fomento à dança, em nível municipal, estadual e federal. Uma das marcas da companhia é a interatividade com o público, chamar as pessoas para participar do espetáculo, dançar com os bailarinos.
Os espetáculos do Caleidos nascem de imperativos sociais, explica Isabel, “é quase um chamamento”. Destaca a importância de experienciar o mundo como parte do processo criativo, muitas cenas surgem da experiência do cotidiano, com um olhar artístico apurado. O processo de construção dos espetáculos costuma envolver muita pesquisa, “eu sou pesquisadora então eu valorizo muito as pesquisas acadêmicas, é a partir dessas discussões que conseguimos ir além da experiência pessoal. O artista é um interlocutor da sociedade em que vive, do seu contexto, propõe diálogos que abrangem algo além de si mesmo”.
Em 2025, Isabel Marques foi homenageada no XI Congresso Internacional SESC de Arte/Educação, produzido em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco. Durante o evento, estreiou seu primeiro solo de dança: ‘Outonos’. Para ela, o espetáculo surgiu da necessidade de falar sobre o envelhecimento, “envelhecer não é uma sensação, você é avisado que está mais velha pelo diálogo com as novas gerações”. “É o comportamento dos outros em relação a você que faz você se sentir mais velha. Eu adoro o assento reservado para idosos no metrô, mas alguém levantar para você sentar causa um estranhamento”. O espetáculo volta em cartaz no segundo semestre de 2026.
O Brasil registrou, em 2025, média de 42 julgamentos de feminicídio por dia, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), aumento de 17% em relação ao ano anterior. O dado reacende o debate sobre a efetividade das políticas públicas de proteção às mulheres e os fatores sociais associados à permanência da violência no país.
Tipificado como crime hediondo desde 2015, o feminicídio é caracterizado pelo assassinato de mulheres em razão do gênero. Especialistas apontam que o crime raramente ocorre de forma repentina, sendo resultado de uma série de agressões ao longo do tempo.
Em entrevista à AGEMT, a delegada da Polícia Civil de Arujá (SP), Fernanda Pastor de Morais, afirmou que casos de feminicídio costumam ser precedidos por ameaças, perseguições e violência psicológica. “O feminicídio é o ápice de um cotidiano de violência”, disse. Segundo ela, comportamentos controladores tendem a se intensificar quando o agressor não aceita a autonomia da vítima ou o fim do relacionamento. “O crime também ocorre em maior escala no âmbito doméstico e familiar, em que o parceiro não “aceita” a autonomia da mulher ou o rompimento da relação”, afirma.
Nos últimos anos, comunidades virtuais associadas à chamada “machosfera”, como o movimento red pill — ideologia online contra mulheres — ganharam visibilidade nas redes sociais, difundindo conteúdos que reforçam estereótipos machistas e discursos de hostilidade. Esse cenário, em alguns casos, aparece associado a episódios de violência ao reforçar e naturalizar a desigualdade de gênero.
Na prática investigativa, o ambiente digital aparece frequentemente como extensão da violência doméstica. De acordo com a delegada, redes sociais são utilizadas por agressores para monitorar, intimidar e expor vítimas, funcionando como instrumento de controle psicológico que pode anteceder agressões físicas.
A repercussão dos casos nas plataformas digitais também produz efeitos ambíguos. Se, por um lado, amplia a conscientização pública, por outro pode gerar desinformação, pressão sobre investigações e revitimização das mulheres envolvidas. Comentários que culpabilizam as vítimas, segundo Morais, reforçam a cultura de violência ao deslocarem a responsabilidade do agressor.
Apesar do Brasil possuir uma legislação considerada avançada no enfrentamento à violência de gênero, alguns desafios ainda persistem na aplicação das normas e na investigação de crimes digitais, especialmente diante do anonimato online e da rápida disseminação de conteúdos.
Para a delegada, a prevenção passa pela combinação entre educação para igualdade de gênero, fortalecimento das investigações e maior responsabilidade das plataformas digitais na moderação de conteúdos violentos. “A internet não é uma terra sem lei. O que muda é apenas o meio; a responsabilidade continua existindo”, afirma. O aumento dos registros indica que a violência contra mulheres é resultado de estruturas históricas que seguem sendo reproduzidas e amplificadas no ambiente digital.