Mulheres enfrentam desigualdades estruturais que alteram sua rotina e sua identidade, de acordo com padrões femininos impostos pela sociedade
por
Carolina Machado
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07/05/2026 - 12h

Segundo relatório do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizado em 2025, as mulheres dedicam cerca de 21 horas semanais aos cuidados da casa e dos filhos, praticamente o dobro do tempo gasto pelos homens. Na escala 6x1, por exemplo, o único dia de folga para essas mães é dedicado à limpeza, alimentação e cuidados com os filhos; são 65 horas semanais, contando trabalho formal e informal invisibilizado. Essa jornada dupla, realizada por mais de 90% das brasileiras, altera a rotina e identidade feminina de acordo com cada realidade, a partir de exigências sociais e construções culturais relacionadas à mulher. 

Mesmo fazendo parte de um recorte privilegiado dessas brasileiras, Estéfi Machado, de 48 anos, não romantiza a rotina como mãe nas redes sociais. Ela trabalha de casa e, com a chegada de seu filho Teo, hoje aos 18 anos, tudo se tornou mais caótico. “Eu fazia meus freelas em um quartinho e, quando ele nasceu, não tinha mais tempo para terminar minhas coisas”, relata em entrevista. 

“Mesmo com o apoio do meu marido e da minha família, as tarefas sempre ficaram para mim. Eu me desdobrei, me sacrifiquei e desejo ser vista. Afinal, tanto eu, quanto outras mulheres criamos novos cidadãos para o mundo”, conta. Ela ressalta que, como qualquer mãe, adora presentes e cartinhas, mas reconhece que isso não é suficiente no Dia das Mães, o reconhecimento precisa vir acompanhado de uma mudança real do comportamento dos filhos e dos maridos dentro de casa. 

Estéfi Machado e seu filho Teo, de 18 anos. Reprodução: vInstagram/@blog.estefi.machado
Estéfi Machado e seu filho Teo, de 18 anos. Reprodução: vInstagram/@blog.estefi.machado

Adriana Machado, psicóloga clínica formada pelo Mackenzie, descreve a maternidade como uma construção subjetiva e sociopolítica profunda, marcada pela reestruturação feminina. “É uma complexa transição de vida que exige escolhas e adaptação aos desafios impostos ao novo papel”, esclarece. Ela acrescenta que, apesar de ser uma vivência individual e única para cada mulher, todas são atravessadas por imposições sociais e culturais, provenientes da estrutura de uma sociedade patriarcal, que acarretam mudanças de rotina e na própria identidade feminina.

No caso de Estéfi, sua formação como designer se fundiu com a maternidade e, assim, começou a dividir com o público suas invenções criativas que mãe e filho projetavam enquanto cuidava de Teo em casa. “Essa é uma realidade que não faz parte da maioria das brasileiras”, reconhece. Mesmo assim, a criação de conteúdo surgiu em sua vida como um desabafo, assim como qualquer outra mãe gostaria: enxergar-se e ser enxergada por outras mulheres que exercem a mesma função. “Não é blogueiragem, não. Ele brincava com tecido, papel e papelão, e criávamos juntos invenções com os meus materiais de design”, explica. 

Colagem com amor de mãe, feito por Estéfi Machado Reprodução: Instagram: @blog.estefi.machado
Colagem "com amor de mãe", feito por Estéfi Machado Reprodução: Instagram: @blog.estefi.machado

A designer completa sobre a importância de desconstruir estereótipos e papéis de gênero sendo mãe de um menino. “Isso é importante para mim, estou toda hora falando para ele prestar atenção no jeito com o qual trata as amigas, as primas, as tias, a avó e, futuramente, a parceira”, relata. Estéfi  acrescenta, dizendo que Teo reconhece o esforço da mãe em orientá-lo ao apontar situações, dentro e fora de sua rotina, que diminuem as mulheres e o trabalho realizado por elas nas jornadas de cuidado.

Já Adriana complementa, declarando que o ato de cuidar não se refere apenas ao aspecto prático: “faz parte da estrutura para a constituição do psiquismo e da identidade de outro ser humano”. A psicóloga complementa, dizendo que a experiência materna é um encontro entre o desejo, as responsabilidades e um novo modo de ser e criar no mundo. Ainda assim, é um trabalho informal que não é reconhecido, independentemente da posição social em que a mãe ocupa.

Estéfi Machado em ensaio fotográfico. Reprodução:Instagram/ @blog.estefi.machado
Estéfi Machado em ensaio fotográfico. Reprodução:Instagram/ @blog.estefi.machado

Estéfi e Adriana concordam que até  mesmo as mães feministas lidam com uma relação desigual dentro de casa, fruto de uma estrutura patriarcal que incentiva mulheres a assumirem todas essas responsabilidades. “Se nem mesmo quem tem voz consegue se libertar dessas estruturas, o que dizer daquelas muitas que sofrem com a sobrecarga caladas e solitárias, sem tempo de questionar e repensar sua própria realidade”, conclui a psicóloga. 
 

Papel da imprensa na consolidação feminina no esporte e a importância dos registros para a construção de uma identidade nacional
por
Carolina Nader
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28/04/2026 - 12h

Localizado no Estádio do Pacaembu, o Museu do Futebol foi inaugurado na capital paulista em setembro de 2008. A experiência é interativa e está repleta de curiosidades, incluindo um extenso acervo histórico e atrações sobre ídolos, como Pelé e Marta. Em 2024, passou por reformas para atender questões contemporâneas, como a naturalização da participação feminina no esporte.

Suas exposições narram para além do mundo esportivo. Algumas são baseadas nos trabalhos da imprensa: manchetes estão por toda parte e as fotografias contam histórias. A popularização dessa prática esportiva se desenvolve no Brasil especialmente pela influência do rádio. Por volta de 1920, os jornais passaram a investir na veiculação das notícias e incentivaram a promoção dos jogos ao perceberem a lucratividade, criando uma dinâmica econômica que passou a se sustentar de maneira circular.

Durante a década de 1940, houve a proibição das mulheres no futebol. Nesse período, existiam impressos, como o “Jornal dos Esportes”, que apoiavam e defendiam a participação feminina e a cobriam positivamente. Em contrapartida, jornais mais conservadores, como o “A Batalha”, se posicionavam de forma contrária e evitavam noticiar sobre as jogadoras.

Segundo Renata Beltrão, guia do Museu do Futebol, “a imprensa não é uma coisa única, cada veículo defende seus pontos de vista.” Para ela o futebol feminino, por muito tempo, foi retratado como algo exótico. “As perguntas nunca fogem do padrão. Querem saber quanto calçam, como se maquiam e se querem casar”, afirma.

Time feminino de futebol do Rio Grande do Norte, década de 1920. Foto: Carolina Nader (@nadercaroll)
Time feminino de futebol do Rio Grande do Norte, década de 1920. Foto: Carolina Nader (@nadercaroll)

A partir da liberação dos jogos femininos, na década de 1980, a primeira seleção feminina foi formada para o Mundial experimental da China em 1988. A cobertura midiática era praticamente inexistente. Uma única repórter, Claudia Jacobs, acompanhou a equipe brasileira, registrando sozinha os acontecimentos. As imagens que existem desse momento são de autoria da própria jornalista e das jogadoras.

Renata conta que houve um período considerável na linha do tempo do Brasil no qual a imprensa silenciou. De acordo com ela, não tratar os arquivos feitos caseiramente e de forma amadora como fontes históricas leva a perda identidária da nação. “Isso é muito importante. Saber de que ponto de vista você conta essa história, que memórias você valoriza, o que você considera como um registro digno de ser guardado, preservado e mostrado,” relata Beltrão.

Após a reforma, algumas salas passaram a enfatizar a ideia da nação brasileira a partir das coberturas jornalísticas e pela fotojornalismo. O museu trata em paralelo os acontecimentos do futebol e os do Brasil, mostrando como o esporte influencia o desenvolvimento da identidade social.

“O que queremos mostrar é o que é o Brasil e como o futebol vem junto, a forma como caminham lado a lado”, a guia finaliza.

Ações de governos como Rússia e França tentam tratar “sintoma” ao invés da causa da queda na natalidade
por
Daniela Cid
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09/04/2026 - 12h

 

Medidas controversas vêm sendo adotadas por países onde a crise demográfica já é um risco para a manutenção do sistema. Vladimir Putin, na Rússia, já vinha se preocupando com a queda da fertilidade desde que chegou ao poder, e recentemente aprovou medida para que mulheres que não queiram engravidar sejam direcionadas a um psicólogo para que mudem de ideiaDesde 2024, o presidente da França Emmanuel Macron, desenvolve política chamada de “rearmamento demográfico” contra a infertilidade. Na época, o anúncio gerou forte controvérsia com a Federação Nacional dos Centros de Informação sobre os Diretos das mulheres e das Famílias, e desde fevereiro de 2026 o governo passou a enviar cartas a todos os jovens franceses de 29 anos com orientações sobre fertilidade e o risco de não congelamento de óvulos.  Na mesma linha, Japão e Coreia do Sul têm adotado outras medidas isoladas devido à queda populacional, como a gratuidade de creches e aumento da licença paternidade.    

Em entrevista para a AGEMT, a antropóloga Mariana Maiara Soares Silva afirma que tais medidas, diante do empoderamento feminino, podem ser vistas como uma tentativa de se tratar um “sintoma” ao invés da causa da queda na gravidez, que reside nas condições sociais nas quais mulheres não se sentem seguras para gerar e criar um filho. “Em certa medida, podemos considerar uma violação de direitos quando, no caso da Rússia, mulheres são coagidas a consultar profissionais de saúde mental por não quererem filhos, como se não fossem conscientes ou capazes de suas escolhas”, argumenta. No caso da França, Mariana comenta ser uma ameaça à autonomia já conquistada, pois instrumentaliza o corpo de mulheres que não querem engravidar e reforça estigma conservador que sofrem devido a essa escolha, tendo seus direitos e sexualidade questionados.  

De acordo com Beatriz Rodriguez Sanchez, doutora em ciência política pela USP e pesquisadora da Rede de Pesquisas em Feminismos, dentre os vários motivos pelos quais cada vez mais mulheres escolhem não engravidar estão: a dificuldade de conciliar trabalho remunerado com ascensão profissional e maternidade, e a divisão desigual do cuidado dos filhos, que sempre recai sobre a mulher.  

A consciência da escolha 

Vitória Lemos Amaro, 37 anos, brasileira autônoma vivendo em Paris há quase 7 anos, tomou a decisão de não ter filhos após compreender que tinha muitos sonhos a realizar. Foi percebendo, com o tempo, que engravidar não era exatamente um desejo, mas sim uma construção social, algo que era esperado dela como mulher: “Eu sempre dizia ‘se eu tiver filhos’ ou ‘quando eu tiver filhos’, mas no momento em que pude olhar com os meus olhos para a minha vida e entender que isso de fato não cabia, foi quando eu parei de falar ‘se eu tiver filho’, ‘quando eu tiver filhos’ e passei a dizer ‘eu não quero ter filhos’, ‘eu não vou ter filhos’, e passei a construir a minha vida a partir dessa escolha”, explica. Ela também comenta que enxerga a ação do governo francês de enviar uma carta aos jovens falando sobre os riscos da infertilidade como uma tentativa de solucionar os motivos errados. “Eu não sei de onde eles tiraram que isso vai fazer com que aumente o número de mulheres grávidas, como se o problema fosse a falta de informação, e não é” 

Beatriz Rodriguez pondera que incentivos aliados a agendas conservadoras podem tensionar os direitos reprodutivos, reforçando expectativas tradicionais sobre a maternidade ao invés de ampliar a autonomia da mulher, mas que os impactos demográficos também servem para pressionar o Estado e o mercado a repensarem políticas de cuidado e de trabalho. “Políticas públicas devem garantir condições para que as mulheres possam escolher livremente se querem ou não ter filhos”declara.  

 

Mulheres participam de uma marcha para marcar o Dia Internacional da Mulher em São Paulo, Brasil, em 8 de março de 2025. Foto: Amanda Perobelli/REUTERS
Mulheres participam de marcha do Dia Internacional da Mulher em São Paulo, Brasil, em 8 de março de 2025. Foto: Amanda Perobelli/REUTERS

 

Escolha individual em sociedade individualista  

Um outro argumento em comum dado pelas entrevistadas para optarem por não terem filhos tem a ver com o aumento do consumo de telas, da violência e de conflitos bélicos e discursos de ódio. Mariana Maiara também traz seu ponto de vista como mulher que repensa a maternidade: “existe o custo físico e psíquico de gerar um filho em uma sociedade que não está minimamente preocupada com questões climáticas e sociais; uma sociedade em que os direitos humanos e o bem-estar social não são vistos como prioridade, mas sim uma política de guerra e armamentista. Isso sem contar os casos alarmantes de violência de gênero”.  

Vitória Lemos comenta que sempre conversa com amigas que também não desejam ter filhos sobre o ideal de uma sociedade mais colaborativa: “Pensar em projetos de como criar uma sociedade que vive como uma comunidade e que se ajuda. Já falei com muitas amigas minhas que se existisse uma comunidade de várias mulheres e elas pudessem se ajudar a cuidar dos filhos e criar de fato uma comunidade. Se a gente visse mais além dessa instituição do casal apenas”, argumenta.  

De acordo com Beatriz Rodrigues, esse tema é cada vez mais relevante considerando que o Brasil também passa por um envelhecimento populacional, e que com a queda da natalidade, haverá cada vez mais mulheres idosas sem filhos, representando uma possível fragilidade em suas redes de apoio. Através da recente aprovação da Política Nacional de Cuidados, existe o reconhecimento do Estado de que o cuidado é uma responsabilidade coletiva, não só para crianças, mas também para idosos. E a partir dela, mais ações públicas deverão ser geradas para que as mulheres se sintam seguras para terem filhos, ou não.  

Repercussões vão além das vítimas diretas e influenciam relações, hábitos e a formação social de jovens
por
Catarina Lafetá
Gabriela Dias
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09/04/2026 - 12h

O crescimento dos casos de violência contra a mulher no Brasil tem acendido um alerta não apenas para a segurança feminina, mas também para os efeitos diretos na vida de adolescentes. Jovens expostos a esse cenário, seja como vítimas indiretas ou diretas, enfrentam consequências emocionais, sociais e educacionais a longo prazo.

Em 2025, a pesquisa DataSenado detectou que cerca de 3,7 milhões de mulheres brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar. Dados do estudo “Elas Vivem: a urgência da vida”, da Rede Observatórios da Segurança indicam que casos de agressão contra mulheres são registrados diariamente em todo o país. No seu auge, 1.568 casos de feminicídio, o maior número da última década, sendo que a maioria ocorreu dentro de casa, cometida por parceiros ou ex-companheiros. Em ​​relação aos crimes sexuais, pesquisa do IPEA conduzida em 2023 aponta cerca de 822 mil casos de estupro por ano no Brasil. 

“Quando a gente tem esse nível de violência crescendo bruscamente, tem impactos em todas as áreas, saúde, comportamento e hipervigilância, por exemplo” afirma a psicóloga colaboradora da FMUSP, Monik Pauli Augusto, discutindo o impacto direto desse cenário na vida de adolescentes. Os efeitos da violência vão além do momento do crime, a exposição constante a notícias de violência, somada a experiências cotidianas de assédio, tem alterado comportamentos desde cedo. Entre meninas, é cada vez mais comum evitar sair sozinhas, mudar rotas, deixar de frequentar determinados espaços e até modificar a forma de se vestir por medo, impactando sua autonomia. 

Reprodução/CEDM
Campanha contra a agressão da mulher. Foto: Reprodução/Conselho Estadual dos Direitos da Mulher

O medo e a insegurança interferem na forma como os jovens se relacionam, dificultando a criação de vínculos de confiança. Para a psicóloga, “[...] as meninas têm medo e acabam evitando [certas relações sociais] e eles [meninos adolescentes] acabam tendo a reação de ir ao extremo, que é o red pill [...]”. Este movimento está se tornando cada vez mais popular entre adolescentes, disseminando e normalizando ideais misóginos e regressivos sobre o papel da mulher. Uma pesquisa conduzida pela King's College de Londres que engloba 29 países, incluindo o Brasil, mostra que homens da geração z, os nascidos entre 1997 e 2012, são duas vezes mais propensos a acreditar que mulheres devem se submeter a seus maridos do que os Baby Boomers (1946-1964), assim, relacionamentos amorosos podem se tornar marcados por ciúmes excessivos, controle e comportamentos abusivos.

Além dos espaços físicos, a violência também se expande no ambiente digital. Casos de exposição íntima sem consentimento, chantagem, cyberbullying e controle em relacionamentos têm se tornado frequentes entre jovens. Esse cenário reforça a importância de legislações como o Estatuto da Criança e do Adolescente e os princípios do chamado ECA Digital, que reconhecem a necessidade de proteção integral também nas redes sociais.

O Brasil possui legislações no enfrentamento à violência de gênero, como a Lei Maria da Penha, que estabelece mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica contra a mulher, incluindo medidas protetivas de urgência, a Lei do Feminicídio, que  tipifica o assassinato de mulheres por razões de gênero como crime hediondo. No entanto, o aumento dos casos indica que a existência das leis, por si só, não tem sido suficiente. Especialistas defendem que o enfrentamento do problema exige mais do que punição, sendo necessário investir em educação, prevenção e conscientização desde cedo, “Nós mulheres precisamos nos unir, formar redes de apoio”, diz Pauli.

Reprodução/CEDM
Cartazes de conscientização na Central de Atendimento à Mulher. Foto: Conselho Estadual dos Direitos da Mulher

A educação, tanto em escolas quanto dentro de casa, políticas públicas e o fortalecimento de canais de denúncia têm papel fundamental na remediação desse problema. “Esse papel pode ser compreendido em três níveis: repressivo, protetivo e preventivo” , diz a socióloga Julia Garcia, a respeito do encargo dessas instituições. 

Para Garcia, o repressivo é composto por mecanismos de segurança e leis, que precisam ser aplicadas de forma eficaz, enquanto o protetivo consiste no acolhimento de vítimas. Mas a prevenção é onde a escola tem papel central, “por meio da educação é possível transformar a socialização”, diz Garcia. Dessa forma é possível olhar para a raiz do problema e tentar encerrar um ciclo de violência milenar. 

Grupos misóginos online disseminam ódio contra as mulheres e a violência dispara
por
Pedro Timm
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24/03/2026 - 12h

Nos últimos 10 anos, os casos de feminicídio no Brasil dispararam. Juntamente com o aumento dos crimes, se têm a proliferação de discursos de ódio online. Nas redes sociais, os movimentos misóginos, conhecidos como "manosfera", vão influenciando cada vez mais homens a serem mais másculos, ao mesmo tempo que incita o ódio ao feminino, contribuindo com a violência contra as mulheres. O feminicídio é um conceito criado por Diana Russel, em 1976, com o objetivo de nomear o assassinato de mulher por questões de gênero, assim diferenciando de um homicídio comum. No Brasil, se tornou um crime em 2015 pela Lei 13.104/2015. Mesmo sendo um crime hediondo, e com a maior pena para crimes autônomos no código penal, os casos vem aumentando vertiginosamente.

De acordo com dados disponibilizados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2025 foram registradas 1.568 vítimas de feminicídio, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Estima-se que pelo menos 13 mil mulheres perderam suas vidas em decorrência desse crime desde a criação da lei. É necessário analisar o número e entender motivos de seu crescimento.

Gráfico em linha dos casos de feminicídio no Brasil entre 2015 a 2025
Gráfico disponibilizado pelo Fórum de Segurança Pública sobre os casos de feminicídio. Disponível em https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/03/nota-tecnica-dia-mulher-2026.pdf 

A "manosfera" é uma comunidade online focada no desenvolvimento pessoal masculino com frequentes críticas ao feminismo e incitação ao ódio contra mulheres. Surgiu na década de 1990 na internet, porém ainda estava muito difuso. O movimento ganhou força a partir de 2010. Foi dentro da "manosfera" que surgiu o movimento atualmente chamamos de red pill. Começou com grupos online com ideologias misóginas para disseminar a ideia de que as mulheres estariam tomando o espaço social dos homens, criando uma narrativa de homens contra as mulheres.

Angelita Herrmann, consultora do Instituto ProMundo, explicou a adesão do discurso entre os homens. “Colocar uns contra os outros é muito mais fácil. Então, vai se criando um movimento de que homens são vitimizados. É um terreno fértil para o ódio. É a ideia de estar perdendo as oportunidades por causa de uma mulher", explica Herman e acrescenta: "a sociedade moldada pelo patriarcado está em crise".

As mulheres sempre foram obrigadas a serem submissas aos homens, enquanto o gênero oposto foi ensinado a prover e não sofrer em nenhuma ocasião, só sendo possível canalizar seus sentimentos a partir da raiva.  Ao passo que os coletivos feministas foi reivindicando seus direitos nas últimas décadas, a mudança da ocupação social das mulheres se tornou uma insegurança para homens. Muitos se veem sozinhos, em crise de identificação com o ideal masculino da sociedade. “Nós nunca tivemos uma sociedade tão solitária. Não tem mais esse tecido social, ela é individualista, é solitária, e aí você pega uma pessoa solitária, que não consegue se relacionar e cria-se um ambiente favorável para (se eu não consigo me relacionar) para culpar a mulher. Então, tem essa dificuldade inconsciente, subjetiva, em relação à masculinidade”, explica Herrmann.

O meio de disseminação do ódio começou e continua sendo, principalmente, nas redes sociais, que não regulamentadas permitem a produção desse conteúdo. O ECA Digital, vigente desde março de 2026, é uma tentativa de regulamentá-las. Assim como o PL 6396/2025 proposto por Érika Hilton (PSOL/SP), onde o conteúdo misógino propagado nas redes sociais teria sua monetização proibida. Os influenciadores que participam e disseminam a ideia do red pill têm milhões de seguidores. .

Para combater o movimento red pill, que de forma indireta influencia nos casos de feminicídio, a regulamentação das redes é um caminho possível. A ressignificação de masculinidade na sociedade atual é outro. Pensando e analisando a situação, a ONG ProMundo vem trabalhando com a ressignificação da masculinidade e da paternidade. São 28 anos trabalhando nesse objetivo, transformando homens e famílias.

O jeito com que os homens vivem a sua própria masculinidade tem matado os próprios homens.  A presença no debate sobre o feminicídio e sobre a masculinidade é extremamente necessária. “A melhor forma que os homens têm de se engajar é por si próprio. Se engajar mesmo, dizer, gente, não está dando mais, eu não aguento ser este homem que a sociedade está me impondo que eu seja. Então, de que nova masculinidade nós estamos falando? É importante ressignificar”, diz Herrmann.

Os aumentos de casos de feminicídio não aconteceram de forma isolada. Existe uma sociedade que cria mecanismos que facilitam os crimes e o preconceito contra as mulheres e o debate qualificado e o engajamento de todos é um dos caminhos para uma sociedade mais justa.

Cantora lança seu primeiro disco com single em parceria com Danilo Caymmi
por
Daniela Cid
Manuela Abbate
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24/03/2026 - 12h

Em Embu das Artes, a festa de aniversário da cidade foi também a data em que Elisa Dias viu seu destino traçado pela música.   

Mulher preta e periférica, a cantora nascida na Terra das Artes conta à Agemt sua trajetória de amor e dedicação à música em um contexto de dificuldades financeiras, preconceitos e bullying.  

Nascida em uma família musical onde o pai e, principalmente, o irmão, Elcio Dias, cantor, compositor e instrumentista, passavam horas ouvindo e estudando Elis Regina, Tom Jobim, Chico Buarque e Milton Nascimento, que hoje são suas maiores referências. A partir desses momentos com o irmão, Elisa desenvolveu seu gosto musical e pensamento crítico: “Ele me explicava as mensagens subliminares nas letras das músicas do Chico”, relembra.  

A artista conta que o casamento entre sua vida e a música se deu logo na primeira infância. Graças à figura do irmão músico que logo cedo percebeu o potencial da irmã mais nova, que já “cantava afinadinho”, começaram a ensaiar um repertório de músicas sertanejas, muito tradicional em sua cidade, para cantarem às quintas-feiras em um palco aberto de música folclórica de Embu das Artes.  

Apesar da vergonha de cantar sozinha neste palco, Elisa se esforçava nos ensaios com o irmão para cantar junto com ele, no palco dos adultos. Aos 9 anos, participou da festa de aniversário da cidade, onde cantou “Cuitelinho” de Pena Branca & Xavantinho para mais de 5 mil pessoas. Foi ali que teve certeza de que deveria fazer aquilo pelo resto da vida.

“Eu achava que todo mundo vivia daquele jeito. Que a música era o centro da vida das outras pessoas, como era o centro da vida da minha família”, comenta. 

Cartaz de divulgação de Festival de Inverno de Embu das Artes em que Elisa cantou com grandes nomes da música popular brasileira. Fonte: Instagram @elisadiass
Cartaz de divulgação de Festival de Inverno de Embu das Artes em que Elisa cantou com grandes nomes da música popular brasileira. Fonte: Instagram @elisadiass 

 

Com a sua infância tecida pela arte, Elisa sabia que seguiria o caminho da música, o caminho que sempre foi o seu: “Quando eu era criança, eu não falava que eu ia ser cantora quando crescer. Eu falava ‘eu sou cantora’”.

O PRECONCEITO 

Desde sua infância, Elisa foi atravessada pelo olhar do outro; olhar esse que a desencorajava a seguir cantando. A artista conta que sempre se sentiu fora dos padrões físicos, era rechaçada por colegas e figuras de autoridade, como professores. 

Entretanto, a música era vista por Elisa como uma ferramenta para se conectar com o outro que a recusava, além de ser sua fonte de acolhimento e, principalmente, sua companhia. “Todo artista no fundo só quer ser amado”, ela analisa sua relação com expor seu talento em busca de aceitação e reconhecimento.  

Elisa conta que, ao expor seu talento pela primeira vez no sarau da escola, com seus colegas e professora a plateia, finalmente se sentiu pertencente. 

Elisa em sua primeira apresentação na escola, em que, pela primeira vez, foi recebida com adoração por seus colegas. Reprodução: Acervo pessoal/Elisa Dias
Elisa em sua primeira apresentação na escola, em que, pela primeira vez, foi recebida com adoração por seus colegas. Reprodução: Acervo pessoal/Elisa Dias 

A artista, após cantar “Coração de Estudante” de Milton Nascimento, se deparou com uma nova realidade, “foi a primeira vez na vida que ninguém riu de mim”. Ela relata que mesmo as crianças que faziam bullying com ela a receberam com abraços e que sua professora, que não havia acreditado que ela subiria no palco para cantar, chorou de emoção.   

Ao longo de sua trajetória, Elisa seguiu se encontrando com os efeitos do julgamento do outro quanto às suas habilidades.  

 

Entrou muito nova na faculdade de música, onde as dificuldades se intensificaram por também ser uma das únicas mulheres em um grupo majoritariamente masculino que não a levavam a sério: “Alguns me acolhiam como filha; achavam tudo que eu fazia era fofinho. Outros, nitidamente deixavam bem claro que não entendiam o que eu estava fazendo ali”, declara.  

A cantora menciona, inclusive, um colega específico que a quase fez desistir de sua graduação devido às suas falas: “Me gerou traumas e bloqueios que até pouco tempo atrás eu tinha”, confessa. Ela também diz que, no geral, se sente mais cobrada que os homens dentro da música.  

O fato de ser mulher trouxe muitos desafios à sua carreira. Apesar de hoje  trabalhar com homens mais desconstruídos, que a respeitam mais do que na época da faculdade, Elisa afirma que ainda enfrenta discriminação por ser negra: “Eu também sou professora (...) e por eu ser uma mulher negra, primeiro que tudo o que eu falo soa como agressão, e as pessoas duvidam muito da minha metodologia, do meu conhecimento. Todo semestre eu tenho um aluno que duvida do meu conhecimento, que não aceita que uma mulher negra tenha aquilo o que ele busca”, relata.  

O preconceito que sofre também se intensifica pelo meio musical que a cantora participa: A MPB. 

A MPB 

“Infelizmente a MPB é um estilo de música elitizado”, aponta Elisa ao refletir sobre a falta de espaço que encontra nesse âmbito por sua raça e gênero.   

A cantora direciona sua crítica à indústria que, dentro de um país com uma riqueza grandiosa de gêneros musicais, favorece uns em detrimento de outros: “Eu acho que tem que existir mesmo, música para falar de amor, de relacionamento, de término, de bebida, de balada. A minha grande questão é que a indústria cultural pega um determinado gênero musical e faz ele ser muito popular, e os outros gêneros musicais ficam completamente esquecidos”, explica.  

Dentro de suas maiores referências musicais estão: Tatiana Parra, Lívia Nestrovski, Vanessa Moreno, Mônica Salmaso, Helene Fisher, Nana Caymmi, Zizi Possi, Gal Costa, Milton Nascimento. 

“A primeira vez que eu ouvi uma música do Milton Nascimento, com uns 7,8 anos, eu chorei da hora que eu ouvi a música até eu ir dormir. O nome da música é Fazenda. Eu tenho inclusive a capa desse disco tatuada no meu braço”.

Além da música, Elisa também é atriz e,  menciona Aline Cunha como uma grande referência dentro do Teatro Musical, que inclusive foi sua aluna, e possui uma trajetória semelhante à sua. 

Quando era pequena, Elisa sonhava em ser uma verdadeira popstar. Esse sonho foi sendo moldado conforme foi crescendo e se vendo fora dos padrões que são aceitos na sociedade para alcançar o estrelato.   

Entretanto, no decorrer de sua carreira, foi realizando muitos outros sonhos. Alguns já desejados, como cantar no Raul Gil, participar de um programa musical da TV Cultura e cantar ao lado de Márcio Borges, outros que nunca imaginou ser possível, como lançar um disco. “Eu sou uma mulher negra de periferia. Eu acessei lugares que pessoas como eu jamais acessariam, e eu sei que foi através da música”, declara.  

Hoje, Elisa sonha em ter mais estabilidade em sua carreira, conseguir levar sua banda para tocar fora, trabalhando um pouco menos e ganhando mais. 

NOVO ALBUM 

Elisa confessa que nunca havia sonhado em ter um álbum, pois nunca se viu sendo compositora, apesar de sempre escrever. 

Elisa cantando com Danilo Caymmi no Sarau Brasilis. Fonte: Acervo Pessoal/Elisa Dias
Elisa cantando com Danilo Caymmi no Sarau Brasilis. Fonte: Acervo Pessoal/Elisa Dias

 

A artista diz que seu bloqueio era advindo da pessoalidade e da intimidade do seu trabalho, vinda do quanto ela se coloca em suas músicas, “É um pedaço da minha alma que eu coloco para fora”.  

Ela conta que a transição veio após mostrar seus projetos para sua banda que, então, passou a interpretá-las em seus shows. Assim, a artista ganhou, em 2024, o financiamento de metade de seu álbum pela Lei Aldir Blanc, política de fomento à cultura brasileira, o que a possibilitou embarcar nesse novo sonho.  

Em seu disco, os arranjos e a direção musical são feitos pelo Dino Barioni, os músicos que participam são os que a acompanham há mais de cinco anos. O seu caminho musical se encontrou com o de Danilo Caymmi, instrumentista, cantor e compositor, em o que Dias caracteriza como uma “feliz surpresa”. A partir de uma performance juntos, Elisa recebeu um convite para participar da turnê de Caymmi que ocorrerá ainda neste ano e, posteriormente, o convidou para realizar uma participação em seu disco. Elisa Dias conta sobre o que essa participação significa para sua história: “Eu cresci ouvindo a família Caymmi”. 

A participação acontece no single “Curumim do Mato”, disponível já para pré-save, que retrata a história de migração dos pais de Elisa, enredo universal para os brasileiros do norte e do nordeste que se deparam com a precarização do sudeste. Danilo surge na faixa com seu próprio repertório, também sendo, assim como Elisa, filho de pais que passaram pelo mesmo processo.  

“Esse é um sonho que eu nunca ousei sonhar”, Elisa encerra ao pintar a realidade a sua frente, produto de tantos obstáculos vencidos.  

 

 

 

Em São Paulo, o Dia Internacional da Mulher lembra das que se foram e luta pelas que ainda vivem
por
Carolina Machado
Isabela Sallum
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09/03/2026 - 12h

Neste domingo (8), manifestantes lideradas pelo Levante Mulheres Vivas, ato orgânico criado pelas atrizes Rachel Ripani e Livia La Gatto, concentraram-se na Avenida Paulista e seguiram do Masp até a Praça Roosevelt, na Consolação. O trajeto foi marcado pela presença de representantes de diversas organizações, partidos políticos, coletivos feministas e militantes independentes.

O aumento de crimes brutais lembra à população o que os números indicam há anos: o Brasil não é um lugar seguro para as mulheres. Cartazes denunciavam um estado de emergência por feminicídio, exibiram pedidos por mulheres vivas, o fim do discurso "red pill” (movimento misógino online), liberdade e reafirmam que criança não é mãe. Mulheres recentemente assassinadas foram lembradas por um pequeno cemitério de bonecas e um longo pano vermelho, que reunia sapatos, representando as vítimas. 

Representação de cemitério ilustra o número crescente de feminicídios. Foto: Carolina Machado/AGEMT
Representação de cemitério ilustra o número crescente de feminicídios. Foto: Carolina Machado/AGEMT

Em 2025, o Brasil registrou recorde de feminicídios, foram 1.568 vítimas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Só em janeiro deste ano, 27 mulheres foram mortas no estado paulista. “Em um país que registra milhares de casos de violência doméstica, estupros e uma epidemia de feminicídios, no dia 8 de março é para se estar nas ruas”, publicou o movimento no perfil @levantemulheresvivas, no Instagram.

Um dos casos mais marcantes lembrados no ato é o de Thainara Souza dos Santos, de 31 anos, que foi atropelada e arrastada por um quilômetro, presa ao carro pelo próprio companheiro, na zona norte de São Paulo, em novembro do ano passado. Ela morreu após um ano internada.

Rosana, de 40 anos, manifestava pelas que se foram, pelas que virão e por ela mesma. “Nós nos queremos vivas e livres. Por isso estamos aqui desconstruindo, derrubando e combatendo o que nos impede: a misoginia e a violência.”, diz à AGEMT. “Não é só indignação, é luta”, completa. 

Cartaz “Pela criminalização do discurso red pill” engrossa discurso contra a misoginia. Foto: Carolina Machado/AGEMT.
Cartaz contra a misoginia engrossa discurso pelos direitos das mulheres. Foto: Carolina Machado/AGEMT.

As reivindicações reuniram diferentes movimentos sociais, organizações políticas e militantes independentes que pautavam não apenas o combate à violência contra mulher, mas também o fim da escala 6x1 e do imperialismo, além da defesa da democracia e da soberania nacional. 

A alta nos índices de feminicídio indica que o problema não é apenas estatístico, mas é fruto de uma cultura patriarcal presente desde a formação do Brasil. Essa realidade também se reflete na falta de políticas públicas voltadas à proteção das mulheres. Em dezembro de 2025, o Portal da Transparência publicou o planejamento orçamentário do estado de São Paulo para o enfrentamento da violência contra a mulher, que previa apenas R$0,18 por mulher na faixa de 15 a 59 anos.

Como consequência, o estado lidera os rankings nacionais de feminicídio, registrando um aumento de 96,4%, o segundo maior do país, atrás apenas do Amapá, segundo o Fórum de Segurança Pública de 2025.

“O governo do Estado colocou à frente apenas 15% do orçamento público no combate ao feminicídio. Por isso, é papel do ativismo feminino ir para as ruas pelo combate às violências contra a mulher, à precarização do trabalho e aos ataques do imperialismo contemporâneo. Querendo, ou não, os assuntos se entrelaçam”, afirma Júlia Cardoso, de 23 anos, estudante e militante da Faísca Revolucionária.
 

Manifestação feminista une-se ao fim da escala 6x1. Foto: Isabela Sallum/AGEMT
Manifestação feminista também defende o fim da escala 6x1. Foto: Isabela Sallum/AGEMT

As mulheres enfrentam jornadas duplas ou triplas de trabalho, pois ainda são, em grande parte,  responsáveis pelos afazeres domésticos e cuidados familiares. São elas, também, as principais vítimas da escalada de ataques norte-americanos contra outras nações. “Trump bombardeou uma escola de meninas iranianas, durante a guerra vigente entre Estados Unidos, Israel e Irã”, lembra Júlia.

Em meio a exigências por direitos femininos básicos, Joyce, de 27 anos, militante do Levante Popular da Juventude, lembra o significado histórico do Dia Internacional da Mulher. “Não se trata de homenagem, e sim de mobilização social.”, afirma.
 

Mulheres protestam junto a partidos e grupos militantes na Avenida Paulista. Foto: Isabela Sallum/AGEMT.
Mulheres protestam junto a partidos e grupos militantes na Avenida Paulista. Foto: Isabela Sallum/AGEMT.

A jovem relembra a mobilização das mulheres socialistas russas contra o regime czarista, com a organização de atos e protestos no movimento operário. “Pelo fim do patriarcado, contra o machismo e a violência contra a mulher. Hoje o que me traz aqui nas ruas é contar e fazer história para transformar radicalmente a sociedade", conclui Joyce. 

Entre o palco e a sala de aula, construiu sua trajetória unindo a arte e a transformação social
por
Anna Cândida Xavier
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09/03/2026 - 12h

Isabel Marques, de 61 anos, é artista e pioneira no estudo do ensino de dança no Brasil. É doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Caleidos Cia. de Dança desde 1996. Sua trajetória na dança começou ainda criança, nas clássicas aulas de balé, mas na adolescência começou a questionar as metodologias e práticas de ensino. “A repetição, imitação, controle e a busca do corpo ideal das bailarinas não cabiam mais em mim. Tudo isso estava em oposição à possibilidade de criação”.

Isabel Marques sorrindo em um espetáculo de dança
Isabel Marques no espetáculo “Entrevista”, 2024 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança 

Com 16 anos, ganhou uma bolsa de estudos do United World Colleges (UWC) para estudar no Canadá. Isabel conta que a experiência em um colégio internacional abriu seus horizontes, fez amizades com jovens de todo o mundo e cursou o ensino médio longe da censura da Ditadura Militar. Decidiu fazer pedagogia após ler “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire. “Encontrei o livro em inglês na mesa dos alunos de filosofia, fiquei curiosa por ser um autor brasileiro e me encantei por ele e pela a educação”, conta. 

Ao voltar para o Brasil, ingressou na USP e retomou as aulas de dança – agora com foco na improvisação – onde conheceu os princípios e processos de criação de Rudolf Laban, um dos precursores da dança moderna. Isabel conta que Laban foi crucial para sua trajetória, uma vez que ele foi responsável pelo primeiro currículo escolar que inclui dança, criado em 1958 na Inglaterra.

A carreira de Isabel Marques é permeada pelas interfaces entre dança e educação, entre a vivência acadêmica e o fazer artístico. Em 1991, após terminar seu mestrado em Londres, começou a dar aula na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) como professora convidada. Na universidade, criou um grupo de pesquisa voltado à integração entre arte e educação, que mais tarde se transformou na companhia de dança contemporânea Caleidos.

Isabel Marques, sentada em uma mesa escrevendo.
Isabel Marques em sua defesa de doutorado, 1996 – Foto: Arquivo Caleidos Cia. de Dança 

Na mesma época, foi convidada por Ana Mae Barbosa para fazer parte da equipe de Paulo Freire na Secretaria da Educação da prefeitura de Luiza Erundina em São Paulo. “A ideia era abrir o leque de possibilidades do ensino de arte nas escolas, porque antes só tinham artes visuais e música. Em 1993, nós lançamos um novo currículo, desenhado a muitas mãos, que incluía o teatro e a dança e aprofundava as outras linguagens”, conta Isabel. 

Em 1997, foi responsável por elaborar os currículos nacionais de dança do Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Isabel acredita que a importância da dança na escola em um país que dança é a possibilidade de compreendê-la como linguagem e como arte. “A escola trata a dança como área do conhecimento, não só como entretenimento, lazer, diversão, religião – todas muito importantes e muito significativas e cruciais para o Brasil. Mas, ao estudar a linguagem da dança é possível atribuir significado aos movimentos, você tem a possibilidade de questionar, de perguntar, de recriar e de ser co-criador do mundo mesmo, da arte”. 

Isabel Marques ministrando uma palestra.
Isabel Marques ministrando uma palestra, 2009 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança

Ao longo das últimas décadas, Isabel lecionou diversos cursos de formação de professores para a rede de escolas públicas de São Paulo. “É importante que as professoras entendam que esse corpo delas, que muitas vezes não é o corpo ideal, que não é o corpo da bailarina, esbelto e flexível, também dança. É a volta ao corpo, ao movimento e à vida que as torna professoras diferenciadas”. Isabel destaca o direito à dança e ao movimento nas escolas. “A escola tradicional supervaloriza a mente, o corpo é morto na escola. Quando a gente trabalha com a dança na escola pública, a gente introduz a importância da diversidade corporal”. 

O trabalho com as escolas públicas é central em sua trajetória.“É na escola que a gente trabalha em prol da transformação social, da conscientização e da visão crítica do mundo”. Para ela, é a partir de um diálogo estabelecido com o mundo que é possível transformá-lo. Afirma que as redes de relação que criamos com o mundo podem partir de uma elaboração mental ou da experiência não verbal, de percepção através do movimento. “Você percebe o mundo através do movimento, você conhece as pessoas… Uma coisa é você falar eu te amo, outra coisa é você abraçar e beijar. São complementares”. 

Em seu livro “Ensino de Dança Hoje”, publicado em 1999, Isabel Marques propõe o conceito de “dança no contexto”. Para ela, é preciso relacionar as suas aulas de dança aos contextos sociais, afetivos, culturais e políticos, o objetivo não é simplesmente aprender uma sequência de passos, mas criar dança a partir de um contexto. “Eu conheço praticamente todos os estados do Brasil ensinando dança e dançando, sempre com um cuidado de não impor a cultura paulistana, sempre estabelecendo um diálogo com o local”.

Em suas peregrinações pelo país, Isabel lançou seis livros sobre dança e educação e ministrou cursos de especialização, incluindo aulas inaugurais em faculdades de dança. Ela conta que, no início de sua carreira, havia somente três graduações em dança no Brasil. Hoje, após o programa Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), de 2008, existem mais de 40. 

Este ano, o Caleidos, companhia de dança dirigida por Isabel Marques e Fábio Brazil, completa 30 anos. “A gente brinca que 30 anos de dança no Brasil equivalem a 200 na Europa”, comenta Isabel frente às dificuldades de viver enquanto artista no Brasil. O Caleidos já produziu 35 espetáculos de dança e ganhou 16 prêmios de fomento à dança, em nível municipal, estadual e federal. Uma das marcas da companhia é a interatividade com o público, chamar as pessoas para participar do espetáculo, dançar com os bailarinos. 

Alunos da escola pública participam de um espetáculo de dança do Caleidos
Espetáculo “Coreológicas Ludus” na sede do Caleidos com alunos da Rede Pública de Ensino de São Paulo, 2011 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança 

Os espetáculos do Caleidos nascem de imperativos sociais, explica Isabel, “é quase um chamamento”. Destaca a importância de experienciar o mundo como parte do processo criativo, muitas cenas surgem da experiência do cotidiano, com um olhar artístico apurado. O processo de construção dos espetáculos costuma envolver muita pesquisa, “eu sou pesquisadora então eu valorizo muito as pesquisas acadêmicas, é a partir dessas discussões que conseguimos ir além da experiência pessoal. O artista é um interlocutor da sociedade em que vive, do seu contexto, propõe diálogos que abrangem algo além de si mesmo”. 

Em 2025, Isabel Marques foi homenageada no XI Congresso Internacional SESC de Arte/Educação, produzido em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco. Durante o evento, estreiou seu primeiro solo de dança: ‘Outonos’. Para ela, o espetáculo surgiu da necessidade de falar sobre o envelhecimento, “envelhecer não é uma sensação, você é avisado que está mais velha pelo diálogo com as novas gerações”. “É o comportamento dos outros em relação a você que faz você se sentir mais velha. Eu adoro o assento reservado para idosos no metrô, mas alguém levantar para você sentar causa um estranhamento”. O espetáculo volta em cartaz no segundo semestre de 2026.

Isabel Marques dançando no espetáculo “Outonos”
Isabel Marques dançando no espetáculo “Outonos”, 2025 – Foto: Lino Fly/Arquivo Caleidos Cia. de Dança

 

Especialistas ressaltam que conteúdos misóginos nas redes sociais podem influenciar a escalada da violência contra mulheres
por
Carolina Nader
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03/03/2026 - 12h

O Brasil registrou, em 2025, média de 42 julgamentos de feminicídio por dia, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), aumento de 17% em relação ao ano anterior. O dado reacende o debate sobre a efetividade das políticas públicas de proteção às mulheres e os fatores sociais associados à permanência da violência no país.

Tipificado como crime hediondo desde 2015, o feminicídio é caracterizado pelo assassinato de mulheres em razão do gênero. Especialistas apontam que o crime raramente ocorre de forma repentina, sendo resultado de uma série de agressões ao longo do tempo.

Em entrevista à AGEMT, a delegada da Polícia Civil de Arujá (SP), Fernanda Pastor de Morais, afirmou que casos de feminicídio costumam ser precedidos por ameaças, perseguições e violência psicológica. “O feminicídio é o ápice de um cotidiano de violência”, disse. Segundo ela, comportamentos controladores tendem a se intensificar quando o agressor não aceita a autonomia da vítima ou o fim do relacionamento. “O crime também ocorre em maior escala no âmbito doméstico e familiar, em que o parceiro não “aceita” a autonomia da mulher ou o rompimento da relação”, afirma.

Manifestação reúne pessoas em luta por direitos femininos no dia Internacional da Mulher no Rio de Janeiro, em 2024. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Manifestação reúne pessoas em luta por direitos femininos no dia Internacional da Mulher no Rio de Janeiro, em 2024. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Nos últimos anos, comunidades virtuais associadas à chamada “machosfera”, como o movimento red pill — ideologia online contra mulheres — ganharam visibilidade nas redes sociais, difundindo conteúdos que reforçam estereótipos machistas e discursos de hostilidade. Esse cenário, em alguns casos, aparece associado a episódios de violência ao reforçar e naturalizar a desigualdade de gênero.

Na prática investigativa, o ambiente digital aparece frequentemente como extensão da violência doméstica. De acordo com a delegada, redes sociais são utilizadas por agressores para monitorar, intimidar e expor vítimas, funcionando como instrumento de controle psicológico que pode anteceder agressões físicas. 

A repercussão dos casos nas plataformas digitais também produz efeitos ambíguos. Se, por um lado, amplia a conscientização pública, por outro pode gerar desinformação, pressão sobre investigações e revitimização das mulheres envolvidas. Comentários que culpabilizam as vítimas, segundo Morais, reforçam a cultura de violência ao deslocarem a responsabilidade do agressor.

Apesar do Brasil possuir uma legislação considerada avançada no enfrentamento à violência de gênero, alguns desafios ainda persistem na aplicação das normas e na investigação de crimes digitais, especialmente diante do anonimato online e da rápida disseminação de conteúdos.

Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o feminicídio. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil
Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o feminicídio. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Para a delegada, a prevenção passa pela combinação entre educação para igualdade de gênero, fortalecimento das investigações e maior responsabilidade das plataformas digitais na moderação de conteúdos violentos. “A internet não é uma terra sem lei. O que muda é apenas o meio; a responsabilidade continua existindo”, afirma. O aumento dos registros indica que a violência contra mulheres é resultado de estruturas históricas que seguem sendo reproduzidas e amplificadas no ambiente digital. 

Atriz e cantora cearense afirma que ninguém se torna artista, nasce
por
Carolina Machado
|
02/03/2026 - 12h

Desde a infância, Tabatha Almeida, 24 anos, transitou entre diferentes expressões artísticas. Do canto à dança, ou até a mescla dos dois, no teatro musical, a arte sempre esteve ali por e para ela. “Minha casa sempre foi um ambiente muito musical. Meu pai é músico e foi muito importante para mim, cantávamos juntos. Quando descobri os musicais, concluí que aquilo era a salvação da minha vida. Enquanto minhas amigas queriam ser médicas ou advogadas, eu só queria cantar e dançar”, relata em entrevista. A artista já realizou pelo menos cinco grandes produções teatrais, participando como cover da personagem Elphaba recentemente, durante a temporada de 2025 de Wicked Brasil.

Myra Ruiz e Tabatha Almeida nos camarins de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha
Myra Ruiz e Tabatha Almeida nos camarins de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha

Quando pequena, Almeida realizava inúmeras performances, cantando e fazendo acrobacias por todos os cantos. Aos 14 anos, participou da nona edição do The Voice Kids Brasil. “Para mim, é muito louco olhar para trás e pensar: o que eu faço hoje sempre esteve ali, não tinha como seguir outro caminho”, reflete. Em um mundo criado por homens e voltado para seus desejos, a atriz considera corajoso expressar-se por inteiro, como ela faz, e é grata à menina que foi por moldar quem ela é hoje. 

Aos 17 anos, mudou-se de Recife para o Rio de Janeiro, passando por inúmeros imprevistos, desilusões amorosas e muito, muito trabalho. A partir desse processo, Tabatha descobriu que o machismo não é disfarçado no mundo das artes, pelo contrário ele faz parte de uma das indignações do seu dia a dia profissional. Em entrevista à AGEMT, ela afirma que, apesar de se considerar uma pessoa que sempre conseguiu se expressar livremente em sociedade, existe uma disparidade de salários e de holofotes, e declara essa uma questão latente. Ainda assim, acredita que as mulheres encontrarão seu lugar ao se posicionarem, mostrando-se abertas e comprometidas, percorrendo diferentes caminhos e lutando por espaços.

Tabatha Almeida, nos ensaios  de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha
Tabatha Almeida, nos ensaios  de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha

A atriz destaca e entende a importância das amizades e parcerias femininas nesse processo. “Tento me cercar de mulheres fortes. Levo minhas grandes amigas dos trabalhos que realizei para a vida e pretendo estar no topo com elas”, disse. Almeida acrescenta sobre as relações, afirmando ser uma forma de empoderamento e fortalecimento do coletivo feminino, em que se fomentam opiniões e posicionamentos com o objetivo de enfrentar o mundo que é o mesmo para todas: difícil e injusto.
 

Tabatha Almeida e colegas de profissão - Imagem via Instagram @tabatha
Tabatha Almeida e colegas de profissão - Imagem via Instagram @tabatha

Tabatha acredita que ter uma rede de apoio é essencial. Isso porque sua própria família e amigas sempre estiveram por perto, nunca a deixando à mercê de situações que comprometessem seu trabalho e, sobretudo, sua integridade como mulher. “Foi fundamental me rodear de pessoas. Tentei nunca me ‘dobrar e desdobrar’ por ninguém, e sim aprender com as experiências, fortalecer laços e a mim mesma”, conclui.