Grupos misóginos online disseminam ódio contra as mulheres e a violência dispara
por
Pedro Timm
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24/03/2026 - 12h

Nos últimos 10 anos, os casos de feminicídio no Brasil dispararam. Juntamente com o aumento dos crimes, se têm a proliferação de discursos de ódio online. Nas redes sociais, os movimentos misóginos, conhecidos como "manosfera", vão influenciando cada vez mais homens a serem mais másculos, ao mesmo tempo que incita o ódio ao feminino, contribuindo com a violência contra as mulheres. O feminicídio é um conceito criado por Diana Russel, em 1976, com o objetivo de nomear o assassinato de mulher por questões de gênero, assim diferenciando de um homicídio comum. No Brasil, se tornou um crime em 2015 pela Lei 13.104/2015. Mesmo sendo um crime hediondo, e com a maior pena para crimes autônomos no código penal, os casos vem aumentando vertiginosamente.

De acordo com dados disponibilizados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2025 foram registradas 1.568 vítimas de feminicídio, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Estima-se que pelo menos 13 mil mulheres perderam suas vidas em decorrência desse crime desde a criação da lei. É necessário analisar o número e entender motivos de seu crescimento.

Gráfico em linha dos casos de feminicídio no Brasil entre 2015 a 2025
Gráfico disponibilizado pelo Fórum de Segurança Pública sobre os casos de feminicídio. Disponível em https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/03/nota-tecnica-dia-mulher-2026.pdf 

A "manosfera" é uma comunidade online focada no desenvolvimento pessoal masculino com frequentes críticas ao feminismo e incitação ao ódio contra mulheres. Surgiu na década de 1990 na internet, porém ainda estava muito difuso. O movimento ganhou força a partir de 2010. Foi dentro da "manosfera" que surgiu o movimento atualmente chamamos de red pill. Começou com grupos online com ideologias misóginas para disseminar a ideia de que as mulheres estariam tomando o espaço social dos homens, criando uma narrativa de homens contra as mulheres.

Angelita Herrmann, consultora do Instituto ProMundo, explicou a adesão do discurso entre os homens. “Colocar uns contra os outros é muito mais fácil. Então, vai se criando um movimento de que homens são vitimizados. É um terreno fértil para o ódio. É a ideia de estar perdendo as oportunidades por causa de uma mulher", explica Herman e acrescenta: "a sociedade moldada pelo patriarcado está em crise".

As mulheres sempre foram obrigadas a serem submissas aos homens, enquanto o gênero oposto foi ensinado a prover e não sofrer em nenhuma ocasião, só sendo possível canalizar seus sentimentos a partir da raiva.  Ao passo que os coletivos feministas foi reivindicando seus direitos nas últimas décadas, a mudança da ocupação social das mulheres se tornou uma insegurança para homens. Muitos se veem sozinhos, em crise de identificação com o ideal masculino da sociedade. “Nós nunca tivemos uma sociedade tão solitária. Não tem mais esse tecido social, ela é individualista, é solitária, e aí você pega uma pessoa solitária, que não consegue se relacionar e cria-se um ambiente favorável para (se eu não consigo me relacionar) para culpar a mulher. Então, tem essa dificuldade inconsciente, subjetiva, em relação à masculinidade”, explica Herrmann.

O meio de disseminação do ódio começou e continua sendo, principalmente, nas redes sociais, que não regulamentadas permitem a produção desse conteúdo. O ECA Digital, vigente desde março de 2026, é uma tentativa de regulamentá-las. Assim como o PL 6396/2025 proposto por Érika Hilton (PSOL/SP), onde o conteúdo misógino propagado nas redes sociais teria sua monetização proibida. Os influenciadores que participam e disseminam a ideia do red pill têm milhões de seguidores. .

Para combater o movimento red pill, que de forma indireta influencia nos casos de feminicídio, a regulamentação das redes é um caminho possível. A ressignificação de masculinidade na sociedade atual é outro. Pensando e analisando a situação, a ONG ProMundo vem trabalhando com a ressignificação da masculinidade e da paternidade. São 28 anos trabalhando nesse objetivo, transformando homens e famílias.

O jeito com que os homens vivem a sua própria masculinidade tem matado os próprios homens.  A presença no debate sobre o feminicídio e sobre a masculinidade é extremamente necessária. “A melhor forma que os homens têm de se engajar é por si próprio. Se engajar mesmo, dizer, gente, não está dando mais, eu não aguento ser este homem que a sociedade está me impondo que eu seja. Então, de que nova masculinidade nós estamos falando? É importante ressignificar”, diz Herrmann.

Os aumentos de casos de feminicídio não aconteceram de forma isolada. Existe uma sociedade que cria mecanismos que facilitam os crimes e o preconceito contra as mulheres e o debate qualificado e o engajamento de todos é um dos caminhos para uma sociedade mais justa.

Cantora lança seu primeiro disco com single em parceria com Danilo Caymmi
por
Daniela Cid
Manuela Abbate
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24/03/2026 - 12h

Em Embu das Artes, a festa de aniversário da cidade foi também a data em que Elisa Dias viu seu destino traçado pela música.   

Mulher preta e periférica, a cantora nascida na Terra das Artes conta à Agemt sua trajetória de amor e dedicação à música em um contexto de dificuldades financeiras, preconceitos e bullying.  

Nascida em uma família musical onde o pai e, principalmente, o irmão, Elcio Dias, cantor, compositor e instrumentista, passavam horas ouvindo e estudando Elis Regina, Tom Jobim, Chico Buarque e Milton Nascimento, que hoje são suas maiores referências. A partir desses momentos com o irmão, Elisa desenvolveu seu gosto musical e pensamento crítico: “Ele me explicava as mensagens subliminares nas letras das músicas do Chico”, relembra.  

A artista conta que o casamento entre sua vida e a música se deu logo na primeira infância. Graças à figura do irmão músico que logo cedo percebeu o potencial da irmã mais nova, que já “cantava afinadinho”, começaram a ensaiar um repertório de músicas sertanejas, muito tradicional em sua cidade, para cantarem às quintas-feiras em um palco aberto de música folclórica de Embu das Artes.  

Apesar da vergonha de cantar sozinha neste palco, Elisa se esforçava nos ensaios com o irmão para cantar junto com ele, no palco dos adultos. Aos 9 anos, participou da festa de aniversário da cidade, onde cantou “Cuitelinho” de Pena Branca & Xavantinho para mais de 5 mil pessoas. Foi ali que teve certeza de que deveria fazer aquilo pelo resto da vida.

“Eu achava que todo mundo vivia daquele jeito. Que a música era o centro da vida das outras pessoas, como era o centro da vida da minha família”, comenta. 

Cartaz de divulgação de Festival de Inverno de Embu das Artes em que Elisa cantou com grandes nomes da música popular brasileira. Fonte: Instagram @elisadiass
Cartaz de divulgação de Festival de Inverno de Embu das Artes em que Elisa cantou com grandes nomes da música popular brasileira. Fonte: Instagram @elisadiass 

 

Com a sua infância tecida pela arte, Elisa sabia que seguiria o caminho da música, o caminho que sempre foi o seu: “Quando eu era criança, eu não falava que eu ia ser cantora quando crescer. Eu falava ‘eu sou cantora’”.

O PRECONCEITO 

Desde sua infância, Elisa foi atravessada pelo olhar do outro; olhar esse que a desencorajava a seguir cantando. A artista conta que sempre se sentiu fora dos padrões físicos, era rechaçada por colegas e figuras de autoridade, como professores. 

Entretanto, a música era vista por Elisa como uma ferramenta para se conectar com o outro que a recusava, além de ser sua fonte de acolhimento e, principalmente, sua companhia. “Todo artista no fundo só quer ser amado”, ela analisa sua relação com expor seu talento em busca de aceitação e reconhecimento.  

Elisa conta que, ao expor seu talento pela primeira vez no sarau da escola, com seus colegas e professora a plateia, finalmente se sentiu pertencente. 

Elisa em sua primeira apresentação na escola, em que, pela primeira vez, foi recebida com adoração por seus colegas. Reprodução: Acervo pessoal/Elisa Dias
Elisa em sua primeira apresentação na escola, em que, pela primeira vez, foi recebida com adoração por seus colegas. Reprodução: Acervo pessoal/Elisa Dias 

A artista, após cantar “Coração de Estudante” de Milton Nascimento, se deparou com uma nova realidade, “foi a primeira vez na vida que ninguém riu de mim”. Ela relata que mesmo as crianças que faziam bullying com ela a receberam com abraços e que sua professora, que não havia acreditado que ela subiria no palco para cantar, chorou de emoção.   

Ao longo de sua trajetória, Elisa seguiu se encontrando com os efeitos do julgamento do outro quanto às suas habilidades.  

 

Entrou muito nova na faculdade de música, onde as dificuldades se intensificaram por também ser uma das únicas mulheres em um grupo majoritariamente masculino que não a levavam a sério: “Alguns me acolhiam como filha; achavam tudo que eu fazia era fofinho. Outros, nitidamente deixavam bem claro que não entendiam o que eu estava fazendo ali”, declara.  

A cantora menciona, inclusive, um colega específico que a quase fez desistir de sua graduação devido às suas falas: “Me gerou traumas e bloqueios que até pouco tempo atrás eu tinha”, confessa. Ela também diz que, no geral, se sente mais cobrada que os homens dentro da música.  

O fato de ser mulher trouxe muitos desafios à sua carreira. Apesar de hoje  trabalhar com homens mais desconstruídos, que a respeitam mais do que na época da faculdade, Elisa afirma que ainda enfrenta discriminação por ser negra: “Eu também sou professora (...) e por eu ser uma mulher negra, primeiro que tudo o que eu falo soa como agressão, e as pessoas duvidam muito da minha metodologia, do meu conhecimento. Todo semestre eu tenho um aluno que duvida do meu conhecimento, que não aceita que uma mulher negra tenha aquilo o que ele busca”, relata.  

O preconceito que sofre também se intensifica pelo meio musical que a cantora participa: A MPB. 

A MPB 

“Infelizmente a MPB é um estilo de música elitizado”, aponta Elisa ao refletir sobre a falta de espaço que encontra nesse âmbito por sua raça e gênero.   

A cantora direciona sua crítica à indústria que, dentro de um país com uma riqueza grandiosa de gêneros musicais, favorece uns em detrimento de outros: “Eu acho que tem que existir mesmo, música para falar de amor, de relacionamento, de término, de bebida, de balada. A minha grande questão é que a indústria cultural pega um determinado gênero musical e faz ele ser muito popular, e os outros gêneros musicais ficam completamente esquecidos”, explica.  

Dentro de suas maiores referências musicais estão: Tatiana Parra, Lívia Nestrovski, Vanessa Moreno, Mônica Salmaso, Helene Fisher, Nana Caymmi, Zizi Possi, Gal Costa, Milton Nascimento. 

“A primeira vez que eu ouvi uma música do Milton Nascimento, com uns 7,8 anos, eu chorei da hora que eu ouvi a música até eu ir dormir. O nome da música é Fazenda. Eu tenho inclusive a capa desse disco tatuada no meu braço”.

Além da música, Elisa também é atriz e,  menciona Aline Cunha como uma grande referência dentro do Teatro Musical, que inclusive foi sua aluna, e possui uma trajetória semelhante à sua. 

Quando era pequena, Elisa sonhava em ser uma verdadeira popstar. Esse sonho foi sendo moldado conforme foi crescendo e se vendo fora dos padrões que são aceitos na sociedade para alcançar o estrelato.   

Entretanto, no decorrer de sua carreira, foi realizando muitos outros sonhos. Alguns já desejados, como cantar no Raul Gil, participar de um programa musical da TV Cultura e cantar ao lado de Márcio Borges, outros que nunca imaginou ser possível, como lançar um disco. “Eu sou uma mulher negra de periferia. Eu acessei lugares que pessoas como eu jamais acessariam, e eu sei que foi através da música”, declara.  

Hoje, Elisa sonha em ter mais estabilidade em sua carreira, conseguir levar sua banda para tocar fora, trabalhando um pouco menos e ganhando mais. 

NOVO ALBUM 

Elisa confessa que nunca havia sonhado em ter um álbum, pois nunca se viu sendo compositora, apesar de sempre escrever. 

Elisa cantando com Danilo Caymmi no Sarau Brasilis. Fonte: Acervo Pessoal/Elisa Dias
Elisa cantando com Danilo Caymmi no Sarau Brasilis. Fonte: Acervo Pessoal/Elisa Dias

 

A artista diz que seu bloqueio era advindo da pessoalidade e da intimidade do seu trabalho, vinda do quanto ela se coloca em suas músicas, “É um pedaço da minha alma que eu coloco para fora”.  

Ela conta que a transição veio após mostrar seus projetos para sua banda que, então, passou a interpretá-las em seus shows. Assim, a artista ganhou, em 2024, o financiamento de metade de seu álbum pela Lei Aldir Blanc, política de fomento à cultura brasileira, o que a possibilitou embarcar nesse novo sonho.  

Em seu disco, os arranjos e a direção musical são feitos pelo Dino Barioni, os músicos que participam são os que a acompanham há mais de cinco anos. O seu caminho musical se encontrou com o de Danilo Caymmi, instrumentista, cantor e compositor, em o que Dias caracteriza como uma “feliz surpresa”. A partir de uma performance juntos, Elisa recebeu um convite para participar da turnê de Caymmi que ocorrerá ainda neste ano e, posteriormente, o convidou para realizar uma participação em seu disco. Elisa Dias conta sobre o que essa participação significa para sua história: “Eu cresci ouvindo a família Caymmi”. 

A participação acontece no single “Curumim do Mato”, disponível já para pré-save, que retrata a história de migração dos pais de Elisa, enredo universal para os brasileiros do norte e do nordeste que se deparam com a precarização do sudeste. Danilo surge na faixa com seu próprio repertório, também sendo, assim como Elisa, filho de pais que passaram pelo mesmo processo.  

“Esse é um sonho que eu nunca ousei sonhar”, Elisa encerra ao pintar a realidade a sua frente, produto de tantos obstáculos vencidos.  

 

 

 

Em São Paulo, o Dia Internacional da Mulher lembra das que se foram e luta pelas que ainda vivem
por
Carolina Machado
Isabela Sallum
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09/03/2026 - 12h

Neste domingo (8), manifestantes lideradas pelo Levante Mulheres Vivas, ato orgânico criado pelas atrizes Rachel Ripani e Livia La Gatto, concentraram-se na Avenida Paulista e seguiram do Masp até a Praça Roosevelt, na Consolação. O trajeto foi marcado pela presença de representantes de diversas organizações, partidos políticos, coletivos feministas e militantes independentes.

O aumento de crimes brutais lembra à população o que os números indicam há anos: o Brasil não é um lugar seguro para as mulheres. Cartazes denunciavam um estado de emergência por feminicídio, exibiram pedidos por mulheres vivas, o fim do discurso "red pill” (movimento misógino online), liberdade e reafirmam que criança não é mãe. Mulheres recentemente assassinadas foram lembradas por um pequeno cemitério de bonecas e um longo pano vermelho, que reunia sapatos, representando as vítimas. 

Representação de cemitério ilustra o número crescente de feminicídios. Foto: Carolina Machado/AGEMT
Representação de cemitério ilustra o número crescente de feminicídios. Foto: Carolina Machado/AGEMT

Em 2025, o Brasil registrou recorde de feminicídios, foram 1.568 vítimas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Só em janeiro deste ano, 27 mulheres foram mortas no estado paulista. “Em um país que registra milhares de casos de violência doméstica, estupros e uma epidemia de feminicídios, no dia 8 de março é para se estar nas ruas”, publicou o movimento no perfil @levantemulheresvivas, no Instagram.

Um dos casos mais marcantes lembrados no ato é o de Thainara Souza dos Santos, de 31 anos, que foi atropelada e arrastada por um quilômetro, presa ao carro pelo próprio companheiro, na zona norte de São Paulo, em novembro do ano passado. Ela morreu após um ano internada.

Rosana, de 40 anos, manifestava pelas que se foram, pelas que virão e por ela mesma. “Nós nos queremos vivas e livres. Por isso estamos aqui desconstruindo, derrubando e combatendo o que nos impede: a misoginia e a violência.”, diz à AGEMT. “Não é só indignação, é luta”, completa. 

Cartaz “Pela criminalização do discurso red pill” engrossa discurso contra a misoginia. Foto: Carolina Machado/AGEMT.
Cartaz contra a misoginia engrossa discurso pelos direitos das mulheres. Foto: Carolina Machado/AGEMT.

As reivindicações reuniram diferentes movimentos sociais, organizações políticas e militantes independentes que pautavam não apenas o combate à violência contra mulher, mas também o fim da escala 6x1 e do imperialismo, além da defesa da democracia e da soberania nacional. 

A alta nos índices de feminicídio indica que o problema não é apenas estatístico, mas é fruto de uma cultura patriarcal presente desde a formação do Brasil. Essa realidade também se reflete na falta de políticas públicas voltadas à proteção das mulheres. Em dezembro de 2025, o Portal da Transparência publicou o planejamento orçamentário do estado de São Paulo para o enfrentamento da violência contra a mulher, que previa apenas R$0,18 por mulher na faixa de 15 a 59 anos.

Como consequência, o estado lidera os rankings nacionais de feminicídio, registrando um aumento de 96,4%, o segundo maior do país, atrás apenas do Amapá, segundo o Fórum de Segurança Pública de 2025.

“O governo do Estado colocou à frente apenas 15% do orçamento público no combate ao feminicídio. Por isso, é papel do ativismo feminino ir para as ruas pelo combate às violências contra a mulher, à precarização do trabalho e aos ataques do imperialismo contemporâneo. Querendo, ou não, os assuntos se entrelaçam”, afirma Júlia Cardoso, de 23 anos, estudante e militante da Faísca Revolucionária.
 

Manifestação feminista une-se ao fim da escala 6x1. Foto: Isabela Sallum/AGEMT
Manifestação feminista também defende o fim da escala 6x1. Foto: Isabela Sallum/AGEMT

As mulheres enfrentam jornadas duplas ou triplas de trabalho, pois ainda são, em grande parte,  responsáveis pelos afazeres domésticos e cuidados familiares. São elas, também, as principais vítimas da escalada de ataques norte-americanos contra outras nações. “Trump bombardeou uma escola de meninas iranianas, durante a guerra vigente entre Estados Unidos, Israel e Irã”, lembra Júlia.

Em meio a exigências por direitos femininos básicos, Joyce, de 27 anos, militante do Levante Popular da Juventude, lembra o significado histórico do Dia Internacional da Mulher. “Não se trata de homenagem, e sim de mobilização social.”, afirma.
 

Mulheres protestam junto a partidos e grupos militantes na Avenida Paulista. Foto: Isabela Sallum/AGEMT.
Mulheres protestam junto a partidos e grupos militantes na Avenida Paulista. Foto: Isabela Sallum/AGEMT.

A jovem relembra a mobilização das mulheres socialistas russas contra o regime czarista, com a organização de atos e protestos no movimento operário. “Pelo fim do patriarcado, contra o machismo e a violência contra a mulher. Hoje o que me traz aqui nas ruas é contar e fazer história para transformar radicalmente a sociedade", conclui Joyce. 

Entre o palco e a sala de aula, construiu sua trajetória unindo a arte e a transformação social
por
Anna Cândida Xavier
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09/03/2026 - 12h

Isabel Marques, de 61 anos, é artista e pioneira no estudo do ensino de dança no Brasil. É doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Caleidos Cia. de Dança desde 1996. Sua trajetória na dança começou ainda criança, nas clássicas aulas de balé, mas na adolescência começou a questionar as metodologias e práticas de ensino. “A repetição, imitação, controle e a busca do corpo ideal das bailarinas não cabiam mais em mim. Tudo isso estava em oposição à possibilidade de criação”.

Isabel Marques sorrindo em um espetáculo de dança
Isabel Marques no espetáculo “Entrevista”, 2024 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança 

Com 16 anos, ganhou uma bolsa de estudos do United World Colleges (UWC) para estudar no Canadá. Isabel conta que a experiência em um colégio internacional abriu seus horizontes, fez amizades com jovens de todo o mundo e cursou o ensino médio longe da censura da Ditadura Militar. Decidiu fazer pedagogia após ler “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire. “Encontrei o livro em inglês na mesa dos alunos de filosofia, fiquei curiosa por ser um autor brasileiro e me encantei por ele e pela a educação”, conta. 

Ao voltar para o Brasil, ingressou na USP e retomou as aulas de dança – agora com foco na improvisação – onde conheceu os princípios e processos de criação de Rudolf Laban, um dos precursores da dança moderna. Isabel conta que Laban foi crucial para sua trajetória, uma vez que ele foi responsável pelo primeiro currículo escolar que inclui dança, criado em 1958 na Inglaterra.

A carreira de Isabel Marques é permeada pelas interfaces entre dança e educação, entre a vivência acadêmica e o fazer artístico. Em 1991, após terminar seu mestrado em Londres, começou a dar aula na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) como professora convidada. Na universidade, criou um grupo de pesquisa voltado à integração entre arte e educação, que mais tarde se transformou na companhia de dança contemporânea Caleidos.

Isabel Marques, sentada em uma mesa escrevendo.
Isabel Marques em sua defesa de doutorado, 1996 – Foto: Arquivo Caleidos Cia. de Dança 

Na mesma época, foi convidada por Ana Mae Barbosa para fazer parte da equipe de Paulo Freire na Secretaria da Educação da prefeitura de Luiza Erundina em São Paulo. “A ideia era abrir o leque de possibilidades do ensino de arte nas escolas, porque antes só tinham artes visuais e música. Em 1993, nós lançamos um novo currículo, desenhado a muitas mãos, que incluía o teatro e a dança e aprofundava as outras linguagens”, conta Isabel. 

Em 1997, foi responsável por elaborar os currículos nacionais de dança do Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Isabel acredita que a importância da dança na escola em um país que dança é a possibilidade de compreendê-la como linguagem e como arte. “A escola trata a dança como área do conhecimento, não só como entretenimento, lazer, diversão, religião – todas muito importantes e muito significativas e cruciais para o Brasil. Mas, ao estudar a linguagem da dança é possível atribuir significado aos movimentos, você tem a possibilidade de questionar, de perguntar, de recriar e de ser co-criador do mundo mesmo, da arte”. 

Isabel Marques ministrando uma palestra.
Isabel Marques ministrando uma palestra, 2009 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança

Ao longo das últimas décadas, Isabel lecionou diversos cursos de formação de professores para a rede de escolas públicas de São Paulo. “É importante que as professoras entendam que esse corpo delas, que muitas vezes não é o corpo ideal, que não é o corpo da bailarina, esbelto e flexível, também dança. É a volta ao corpo, ao movimento e à vida que as torna professoras diferenciadas”. Isabel destaca o direito à dança e ao movimento nas escolas. “A escola tradicional supervaloriza a mente, o corpo é morto na escola. Quando a gente trabalha com a dança na escola pública, a gente introduz a importância da diversidade corporal”. 

O trabalho com as escolas públicas é central em sua trajetória.“É na escola que a gente trabalha em prol da transformação social, da conscientização e da visão crítica do mundo”. Para ela, é a partir de um diálogo estabelecido com o mundo que é possível transformá-lo. Afirma que as redes de relação que criamos com o mundo podem partir de uma elaboração mental ou da experiência não verbal, de percepção através do movimento. “Você percebe o mundo através do movimento, você conhece as pessoas… Uma coisa é você falar eu te amo, outra coisa é você abraçar e beijar. São complementares”. 

Em seu livro “Ensino de Dança Hoje”, publicado em 1999, Isabel Marques propõe o conceito de “dança no contexto”. Para ela, é preciso relacionar as suas aulas de dança aos contextos sociais, afetivos, culturais e políticos, o objetivo não é simplesmente aprender uma sequência de passos, mas criar dança a partir de um contexto. “Eu conheço praticamente todos os estados do Brasil ensinando dança e dançando, sempre com um cuidado de não impor a cultura paulistana, sempre estabelecendo um diálogo com o local”.

Em suas peregrinações pelo país, Isabel lançou seis livros sobre dança e educação e ministrou cursos de especialização, incluindo aulas inaugurais em faculdades de dança. Ela conta que, no início de sua carreira, havia somente três graduações em dança no Brasil. Hoje, após o programa Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), de 2008, existem mais de 40. 

Este ano, o Caleidos, companhia de dança dirigida por Isabel Marques e Fábio Brazil, completa 30 anos. “A gente brinca que 30 anos de dança no Brasil equivalem a 200 na Europa”, comenta Isabel frente às dificuldades de viver enquanto artista no Brasil. O Caleidos já produziu 35 espetáculos de dança e ganhou 16 prêmios de fomento à dança, em nível municipal, estadual e federal. Uma das marcas da companhia é a interatividade com o público, chamar as pessoas para participar do espetáculo, dançar com os bailarinos. 

Alunos da escola pública participam de um espetáculo de dança do Caleidos
Espetáculo “Coreológicas Ludus” na sede do Caleidos com alunos da Rede Pública de Ensino de São Paulo, 2011 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança 

Os espetáculos do Caleidos nascem de imperativos sociais, explica Isabel, “é quase um chamamento”. Destaca a importância de experienciar o mundo como parte do processo criativo, muitas cenas surgem da experiência do cotidiano, com um olhar artístico apurado. O processo de construção dos espetáculos costuma envolver muita pesquisa, “eu sou pesquisadora então eu valorizo muito as pesquisas acadêmicas, é a partir dessas discussões que conseguimos ir além da experiência pessoal. O artista é um interlocutor da sociedade em que vive, do seu contexto, propõe diálogos que abrangem algo além de si mesmo”. 

Em 2025, Isabel Marques foi homenageada no XI Congresso Internacional SESC de Arte/Educação, produzido em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco. Durante o evento, estreiou seu primeiro solo de dança: ‘Outonos’. Para ela, o espetáculo surgiu da necessidade de falar sobre o envelhecimento, “envelhecer não é uma sensação, você é avisado que está mais velha pelo diálogo com as novas gerações”. “É o comportamento dos outros em relação a você que faz você se sentir mais velha. Eu adoro o assento reservado para idosos no metrô, mas alguém levantar para você sentar causa um estranhamento”. O espetáculo volta em cartaz no segundo semestre de 2026.

Isabel Marques dançando no espetáculo “Outonos”
Isabel Marques dançando no espetáculo “Outonos”, 2025 – Foto: Lino Fly/Arquivo Caleidos Cia. de Dança

 

Especialistas ressaltam que conteúdos misóginos nas redes sociais podem influenciar a escalada da violência contra mulheres
por
Carolina Nader
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03/03/2026 - 12h

O Brasil registrou, em 2025, média de 42 julgamentos de feminicídio por dia, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), aumento de 17% em relação ao ano anterior. O dado reacende o debate sobre a efetividade das políticas públicas de proteção às mulheres e os fatores sociais associados à permanência da violência no país.

Tipificado como crime hediondo desde 2015, o feminicídio é caracterizado pelo assassinato de mulheres em razão do gênero. Especialistas apontam que o crime raramente ocorre de forma repentina, sendo resultado de uma série de agressões ao longo do tempo.

Em entrevista à AGEMT, a delegada da Polícia Civil de Arujá (SP), Fernanda Pastor de Morais, afirmou que casos de feminicídio costumam ser precedidos por ameaças, perseguições e violência psicológica. “O feminicídio é o ápice de um cotidiano de violência”, disse. Segundo ela, comportamentos controladores tendem a se intensificar quando o agressor não aceita a autonomia da vítima ou o fim do relacionamento. “O crime também ocorre em maior escala no âmbito doméstico e familiar, em que o parceiro não “aceita” a autonomia da mulher ou o rompimento da relação”, afirma.

Manifestação reúne pessoas em luta por direitos femininos no dia Internacional da Mulher no Rio de Janeiro, em 2024. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Manifestação reúne pessoas em luta por direitos femininos no dia Internacional da Mulher no Rio de Janeiro, em 2024. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Nos últimos anos, comunidades virtuais associadas à chamada “machosfera”, como o movimento red pill — ideologia online contra mulheres — ganharam visibilidade nas redes sociais, difundindo conteúdos que reforçam estereótipos machistas e discursos de hostilidade. Esse cenário, em alguns casos, aparece associado a episódios de violência ao reforçar e naturalizar a desigualdade de gênero.

Na prática investigativa, o ambiente digital aparece frequentemente como extensão da violência doméstica. De acordo com a delegada, redes sociais são utilizadas por agressores para monitorar, intimidar e expor vítimas, funcionando como instrumento de controle psicológico que pode anteceder agressões físicas. 

A repercussão dos casos nas plataformas digitais também produz efeitos ambíguos. Se, por um lado, amplia a conscientização pública, por outro pode gerar desinformação, pressão sobre investigações e revitimização das mulheres envolvidas. Comentários que culpabilizam as vítimas, segundo Morais, reforçam a cultura de violência ao deslocarem a responsabilidade do agressor.

Apesar do Brasil possuir uma legislação considerada avançada no enfrentamento à violência de gênero, alguns desafios ainda persistem na aplicação das normas e na investigação de crimes digitais, especialmente diante do anonimato online e da rápida disseminação de conteúdos.

Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o feminicídio. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil
Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o feminicídio. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Para a delegada, a prevenção passa pela combinação entre educação para igualdade de gênero, fortalecimento das investigações e maior responsabilidade das plataformas digitais na moderação de conteúdos violentos. “A internet não é uma terra sem lei. O que muda é apenas o meio; a responsabilidade continua existindo”, afirma. O aumento dos registros indica que a violência contra mulheres é resultado de estruturas históricas que seguem sendo reproduzidas e amplificadas no ambiente digital. 

Atriz e cantora cearense afirma que ninguém se torna artista, nasce
por
Carolina Machado
|
02/03/2026 - 12h

Desde a infância, Tabatha Almeida, 24 anos, transitou entre diferentes expressões artísticas. Do canto à dança, ou até a mescla dos dois, no teatro musical, a arte sempre esteve ali por e para ela. “Minha casa sempre foi um ambiente muito musical. Meu pai é músico e foi muito importante para mim, cantávamos juntos. Quando descobri os musicais, concluí que aquilo era a salvação da minha vida. Enquanto minhas amigas queriam ser médicas ou advogadas, eu só queria cantar e dançar”, relata em entrevista. A artista já realizou pelo menos cinco grandes produções teatrais, participando como cover da personagem Elphaba recentemente, durante a temporada de 2025 de Wicked Brasil.

Myra Ruiz e Tabatha Almeida nos camarins de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha
Myra Ruiz e Tabatha Almeida nos camarins de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha

Quando pequena, Almeida realizava inúmeras performances, cantando e fazendo acrobacias por todos os cantos. Aos 14 anos, participou da nona edição do The Voice Kids Brasil. “Para mim, é muito louco olhar para trás e pensar: o que eu faço hoje sempre esteve ali, não tinha como seguir outro caminho”, reflete. Em um mundo criado por homens e voltado para seus desejos, a atriz considera corajoso expressar-se por inteiro, como ela faz, e é grata à menina que foi por moldar quem ela é hoje. 

Aos 17 anos, mudou-se de Recife para o Rio de Janeiro, passando por inúmeros imprevistos, desilusões amorosas e muito, muito trabalho. A partir desse processo, Tabatha descobriu que o machismo não é disfarçado no mundo das artes, pelo contrário ele faz parte de uma das indignações do seu dia a dia profissional. Em entrevista à AGEMT, ela afirma que, apesar de se considerar uma pessoa que sempre conseguiu se expressar livremente em sociedade, existe uma disparidade de salários e de holofotes, e declara essa uma questão latente. Ainda assim, acredita que as mulheres encontrarão seu lugar ao se posicionarem, mostrando-se abertas e comprometidas, percorrendo diferentes caminhos e lutando por espaços.

Tabatha Almeida, nos ensaios  de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha
Tabatha Almeida, nos ensaios  de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha

A atriz destaca e entende a importância das amizades e parcerias femininas nesse processo. “Tento me cercar de mulheres fortes. Levo minhas grandes amigas dos trabalhos que realizei para a vida e pretendo estar no topo com elas”, disse. Almeida acrescenta sobre as relações, afirmando ser uma forma de empoderamento e fortalecimento do coletivo feminino, em que se fomentam opiniões e posicionamentos com o objetivo de enfrentar o mundo que é o mesmo para todas: difícil e injusto.
 

Tabatha Almeida e colegas de profissão - Imagem via Instagram @tabatha
Tabatha Almeida e colegas de profissão - Imagem via Instagram @tabatha

Tabatha acredita que ter uma rede de apoio é essencial. Isso porque sua própria família e amigas sempre estiveram por perto, nunca a deixando à mercê de situações que comprometessem seu trabalho e, sobretudo, sua integridade como mulher. “Foi fundamental me rodear de pessoas. Tentei nunca me ‘dobrar e desdobrar’ por ninguém, e sim aprender com as experiências, fortalecer laços e a mim mesma”, conclui.

Influencer brasileira viaja em um celta para o Peru com a sua companheira de quatro patas
por
João Luiz Freitas Souza
Fernanda Dias
|
17/06/2025 - 12h

Ana Clara Uchoa, 24 anos, iniciou sua jornada com sua cadela Ísis pelas estradas em novembro de 2023, após sentir-se sufocada pela rotina. “Eu ficava muito frustrada com a minha vida parada. Trabalhar, voltar pra casa, passear com a Ísis na praça por meia hora. Eu queria mais” relata em entrevista via Google Meet. Hoje em dia, a influenciadora está a um mês na nova temporada dessa jornada e novamente o seu destino é o Peru. 

Aos 22 anos, Uchoa iniciou uma mudança de vida em novembro de 2023, deixando seu trabalho para concretizar um sonho. Após algumas viagens de ônibus sozinha, planejou e economizou para adquirir um Celta, nomeado Ozzy, e dar início à sua própria jornada com a sua cadela Ísis. Por mais de um ano, ela percorreu o litoral do país, e em 1 ano e 3 meses de viagem, destacou sua afeição pela Bahia e por Minas Gerais e suas cachoeiras, além da experiência de conhecer novas pessoas e culturas. No Natal, optou por retornar e passar a data com a família, interrompendo o cronograma inicial.

 

Ana Uchoa com sua cachorra Isis na frente de seu carro
Ana Clara e Isis em São José dos Campos, São Paulo - Imagem via Instagram @anaclarauchoa 

A vida no carro, no entanto, não é só paisagem bonita e liberdade, um exemplo disso foi quando ela fundiu o motor em Pernambuco, teve o bagageiro voando na ponte Rio-Niterói e dormiu em lugares improvisados e esses foram alguns dos perrengues enfrentados. Mesmo assim, Uchoa vê cada obstáculo como aprendizado pois apesar dos contratempos ela nunca precisou guinchar o carro. "O Celta nunca andou de guincho, ele sempre quebra do lado da oficina. Está tudo certo”, brinca. 

Além de viajar, Uchoa decidiu documentar tudo nas redes sociais, apesar de ser uma vontade desde sempre, contou que tinha muita vergonha, mas acabou quebrando essa barreira pessoal e postando seu primeiro conteúdo no TikTok, que hoje conta com mais de 330 mil seguidores. Sem filtros ou roteiros, seu conteúdo viralizou mostrando sua simples rotina de viagem com a Ísis, como preparar um café, escovar os dentes ao lado do carro ou improvisar uma refeição. “Eu achava que ninguém ia querer ver isso. Mas hoje, se eu não posto o café, o povo pergunta: ‘cadê o café?’”, conta, entre risos. Sua rotina virou inspiração para muitos e sua presença online, um espaço de empoderamento. 

O machismo ainda marca a rotina de quem se aventura sozinha pelas estradas do país. Ao relatar situações desconfortáveis, ela contou sobre um episódio em que, mesmo repleta de orientações técnicas do próprio mecânico, foi tratada com desdém por outro profissional. “Falei com todo cuidado, mas ele me mandou sentar e disse que quem estava trabalhando era ele. Só depois de ouvir o áudio, resolveu o problema em cinco minutos.” 

Ana Uchoa com sua cachorra Isis na frente de um monumento em Brasília
Ana Clara e Isis em Brasília, Distrito Federal - Imagem via Instagram @anaclarauchoa 

A influenciadora compartilhou que quando o assunto é segurança, o planejamento é indispensável pois dormir em locais desertos nunca é uma opção. “Mesmo se estiver no meio do nada, vou procurar um estacionamento, um posto com movimento. Se alguém percebe que estou sozinha, já sou vista como vulnerável.” Comentou ainda que, em muitos casos, “homem só respeita homem”, o que torna cada decisão na estrada mais estratégica. 

Algumas mulheres adotam medidas como deixar sapatos masculinos ao lado do carro para simular a presença de um homem. Ela prefere não recorrer a isso, mas entende quem o faz. “Ser mulher na estrada exige atenção, inteligência e muita resiliência.” 

Ao mesmo tempo, existe uma rede de apoio não oficial que prova a força da sororidade. “Se eu chego num posto e tem outra mulher sozinha, ela já fala: para aqui do lado.” Esse cuidado mútuo, que surge mesmo entre desconhecidas, mostra como mulheres viajantes criam um laço imediato de proteção e solidariedade. “O homem às vezes até acha legal, mas a mulher age. Ela acolhe, ela cuida.” 

Uchoa relata que viajar sozinha é mais do que uma escolha, é um ato de coragem e autonomia diante de um mundo que ainda questiona a liberdade feminina. 

Giovanna Conti relata os desafios da profissão e o que é ser mulher no automobilismo
por
Olivia Ferreira
Anna Sofia Carsughi
|
16/06/2025 - 12h

"Eu acho que é sempre importante frisar a importância feminina no automobilismo" diz a jornalista esportiva Giovanna Conti, que na última quinta-feira (12) discutiu a respeito da importância das mulheres dentro dessa área. A entrevistada detalhou sua trajetória nesse início de carreira, contribuindo para a diversidade dentro da Fórmula 1.

A inclusão no mundo do automobilismo tem ganho cada vez mais espaço e atenção. Nestes ambientes predominantemente de homens, as mulheres, quanto mais enfrentam e lutam para uma maior visibilidade feminina, mais abrem espaço para discussões e debates acerca dessa pauta. Esses locais sempre foram vistos desde sua popularidade como algo especificamente para homens, contribuindo para um afastamento do cenário feminino nos espaços de corrida e até dentro do jornalismo.

Grupo de mulheres que fazem parte da F1 ACADEMY
Foto: https://www.alongtheracingline.com/accelerating-success-f1-academy/ 

Apesar dos avanços, existem diversos desafios como a escassez de patrocínios e a resistência cultural. Iniciativas como a criação da F1 Academy, uma categoria de base exclusivamente feminina criada pela FIA em 2022, foi de extrema importância cultural e histórica, além de buscar promover a inclusão e oferecer oportunidades para que mais mulheres ingressem e se destaquem no automobilismo.

Na Fórmula 1, ainda existem muitos desafios a serem enfrentados, porém o cenário atual mostra progresso significativo em direção à igualdade de gênero. Dentro dessa categoria, existem por exemplo várias mulheres com papéis muito importantes que são necessários tanto dentro das pistas de corrida, como na manutenção dos carros e estratégias de melhoria..

Esse esporte tem demonstrado muito mais interesse por mulheres e não somente por homens. Segundo o site AutoGear, hoje, 41% dos fãs de F1 são mulheres, e o grupo demográfico que mais cresce é o dos 16-24 anos, sinalizando um esforço bem-sucedido para alargar a escala de interesse desse público no esporte automotivo.  Essa crescente presença feminina, é um reflexo de uma sociedade em transformação, que reconhece e valoriza a contribuição delas em todas as esferas.

Giovanna Conti

Giovanna Conti, jornalista e social media formada pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), é especializada na área de esportes, no setor de automobilismo. Ela escreve em seu blog e em matérias avulsas, além de trabalhar como influenciadora digital no Instagram compartilhando tudo sobre Fórmula 1. Já realizou muitos projetos como: Band Primeira Notícia, Live F1 Gen Z Youtube Podcast, F1Mania Webstories, matérias na categoria LIF1 do site F1Mania, Relações Públicas dos Fittipaldi Brothers, colunista da Glamurama, entre outras.

Giovanna Conti, jornalista do automobilismo
Foto: Instagram oficial da Giovanna Conti 


Em entrevista para AGEMT, ela afirma que seu interesse pelo automobilismo começou desde pequena,  com forte influência de seu pai, mas só aos 13 anos que essa paixão a fez ter certeza que amava esse mundo e que gostaria de poder fazer parte dele de outras formas.

Apesar da sua força de vontade, as dificuldades da profissão se manifestam diariamente. “Uma coisa que eu sinto, principalmente vivenciando no dia a dia é que o preconceito muitas vezes vem de fora, de pessoas que assistem, ou até mesmo as que não acompanham mas que sempre estão destilando um “veneninho”, por pura maldade”- diz ela. 

Além disso, ainda há muito a fazer para se alcançar a equidade de gênero no automobilismo. Para Giovanna, a chegada da Liberty Média em 2017 fez a categoria mudar muito,  e se moldou para alcançar um público que não era o da F1. Como consequência, segundo ela,  temos um número cada vez maior de fãs que acompanham e se interessam pela categoria, que gravam vídeos, tik toks e que querem estar a par sobre os assuntos desse meio. 

Essa falta de representatividade também aparece dentro das pistas. Apesar disso, segundo ela, algumas equipes acreditam que em breve teremos uma mulher correndo. “Acredito que com a F1Academy isso fique cada vez mais claro. Seria interessante ver a F1A funcionar como a F3 e a F2, uma categoria de base para a chegada da F1”- contou Giovanna.

“Nunca enfrentei nenhum problema nesse sentido , sempre me impus muito nesse esporte e busquei provar meu valor a partir do meu trabalho, então sempre tive a sorte de ser muito respeitada e bem vista aos olhos de muitos”, conclui Conti.

  

 



 

 

Com um compilado de quatro reportagens, textos trazem diferentes perspectivas sobre o tema
por
Nathalia de Moura
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16/06/2025 - 12h

O site Donas da Bola, idealizado por Nathalia de Moura para a disciplina de Jornalismo Contra-Hegemônico, lecionada pela Professora Doutora Anna Flávia Feldmann, visa, a partir de dados, imagens, entrevistas e diferentes perspectivas, mostrar a desvalorização do futebol feminino, além de impulsionar e dar voz à luta e às atletas.

Com um compilado de quatro reportagens, o primeiro texto contextualiza historicamente o futebol feminino, trazendo o olhar de Renata Beltrão, Mestre em Museologia e Coordenadora de Comunicação do Museu do Futebol. O segundo texto aborda a realidade das categorias de base feminina de clubes brasileiros. Com depoimentos das atletas Laryssa Lourenço e Giovanna Holanda, temos um panorama das equipes jovens e o sentimento das jogadoras perante a realidade enfrentada.

A terceira reportagem foca na cobertura jornalística na modalidade feminina, os desafios enfrentados e o que pode ser feito para melhorar, tudo isso com a ajuda da Jornalista do jornal Lance!, Juliana Yamaoka. Na quarta e última reportagem, uma entrevista com a goleira do Corinthians, Kemelli Trugilho, mostra um panorama do futebol profissional feminino e a situação dos clubes da elite brasileira, além das medidas que podem ser tomadas para alavancar e valorizar o esporte.

Para acessar as reportagens, basta clicar no link a seguir: https://donasdabola.my.canva.site/

O influenciador volta a ter notoriedade nas redes sociais após claras insinuações machistas
por
Wildner Felix Cerqueira dos Santos
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06/05/2025 - 12h

Breno Faria, um influenciador digital voltou a ser alvo de críticas após a divulgação de uma série de vídeos considerados machistas, nos quais reforça estereótipos ultrapassados sobre o papel das mulheres na sociedade. As declarações – como “mulher de verdade sabe o seu lugar” ou “mulheres que trabalham demais se afastam da sua feminilidade” – reacenderam o debate sobre os efeitos do machismo cotidiano e a responsabilidade dos criadores de conteúdo nas redes sociais. Especialistas em psicologia alertam para os danos emocionais causados por esse tipo de discurso. 

 

A repercussão nas plataformas foi imediata. Internautas levantaram hashtags como #MachismoNãoÉOpinião e #BrenoFariaMisógino, enquanto especialistas apontaram os riscos desse tipo de discurso para a saúde mental das mulheres e para o retrocesso nas pautas de igualdade de gênero.

Segundo psicólogos, falas como as de Breno Faria são exemplos do chamado machismo cotidiano — um conjunto de comportamentos e comentários naturalizados que desgastam emocionalmente as mulheres e enfraquecem sua autoconfiança. “A mulher, ao ouvir esse tipo de frase em seu cotidiano, passa a duvidar de sua própria competência, a se calar em espaços de poder e a desenvolver sintomas como ansiedade, insônia e auto sabotagem”, explica o psicólogo Elienay Brandão em entrevista à AGEMT. 

Foto do Psicólogo entrevistado
Elienay Brandão Psicólogo (Reprodução/foto:@psi.elienaybrandao)

Essa forma de violência, tem impactos profundos e duradouros na vida das mulheres. Ao serem constantemente desvalorizadas, muitas desenvolvem comportamentos de auto degradação e hipervigilância: “Elas se policiam para não parecerem ‘sensíveis demais’, evitam dar opiniões ou até abrem mão de cargos e oportunidades por acreditarem, mesmo que inconscientemente, que não merecem”, destaca o psicólogo.

De acordo com a psicóloga Bruna Batista Schneider, o machismo cotidiano se manifesta de formas diversas: desde o questionamento das capacidades femininas em ambientes profissionais até a hipersexualização e o silenciamento. “Mulheres são constantemente interrompidas em reuniões, têm suas ideias apropriadas e sentem-se culpadas por não atender a padrões inatingíveis”, afirma. Esses comportamentos, somados, alimentam o que ela chama de gaslighting internalizado — quando a mulher passa a duvidar da própria percepção da realidade, muitas vezes se culpando ou se calando.

Foto da Psicóloga entrevistada
Bruna Batista Schneider Psicóloga (Reprodução/foto: @psicbrunaschneider)

Diante da repercussão negativa, plataformas como Instagram, TikTok e YouTube foram pressionadas por usuários a tomar medidas contra os conteúdos publicados por Breno Faria. Em resposta, algumas redes iniciaram investigações internas para verificar possíveis violações às diretrizes de uso, mas sem respostas ainda. A mobilização também chegou ao meio acadêmico e a entidades de defesa dos direitos das mulheres. O Instituto Maria da Penha divulgou uma nota de repúdio, não direcionada ao influenciador, mas sim classificando as declarações de Breno Faria como “violência simbólica com potencial de naturalizar a desigualdade”. Já o Observatório de Gênero e Mídia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) anunciou um relatório em elaboração sobre a influência de figuras públicas na perpetuação do machismo nas redes.

Embora os efeitos do machismo sejam devastadores, há formas de enfrentá-lo. Entre as estratégias terapêuticas recomendadas estão o fortalecimento do diálogo interno positivo, a criação de redes de apoio e a prática do autocuidado contínuo. “É fundamental que essas mulheres reconheçam que o problema não está nelas, mas sim em um sistema que as desvaloriza. A psicoterapia ajuda a desconstruir essas crenças internalizadas e a resgatar a autonomia e o prazer de existir”, afirma Schneider. Ela também destaca a importância de estabelecer limites, celebrar conquistas, mesmo que pequenas, e buscar ambientes seguros para compartilhar vivências.

A polêmica em torno das declarações de Breno Faria expõe, mais uma vez, como discursos normalizados nas redes sociais podem alimentar estruturas opressoras e perpetuar padrões nocivos. Mais do que episódios isolados, casos como esse evidenciam o impacto psicológico real que o machismo ainda exerce sobre milhões de mulheres — muitas vezes de forma silenciosa e invisível.

Diante disso, cresce a cobrança por posicionamentos mais firmes das plataformas digitais e pela responsabilização de influenciadores que propagam ideias discriminatórias. Ao mesmo tempo, especialistas reforçam a importância de uma rede de apoio emocional, de espaços seguros para escuta e da promoção de uma cultura que valorize, acolha e respeite as mulheres em sua pluralidade. Enquanto o debate segue nas redes, no meio acadêmico e nos consultórios de terapia, uma certeza se impõe: não se trata de censurar opiniões, mas de reconhecer que palavras têm peso — e, em muitos casos, causam feridas profundas. Combater o machismo cotidiano é, acima de tudo, um compromisso com a saúde mental, a dignidade e a equidade de gênero.  Ouça a reportagem.