Entre a tarde e a noite da última quarta-feira (20), representantes dos movimentos das faculdades estaduais de São Paulo, juntamente com profissionais da educação pública superior e básica e representantes de partidos de esquerda, realizaram uma marcha contra o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). A manifestação foi do Largo da Batata até o Palácio dos Bandeirantes e contou com cerca de 30 mil pessoas, segundo informação dos organizadores. Ao final do ato, devido ao bloqueio feito pela Polícia Militar, somente alguns representantes selecionados tiveram a permissão de entrar na sede do governo para compor uma possível mesa de negociação.
Desde o começo, a manifestação contou com forte policiamento. No início do dia, estudantes da UNESP (Universidade Estadual Paulista) denunciaram que a Polícia Militar estaria parando os ônibus que os levavam até São Paulo nas rodovias e os revistando. Além disso, na estação Faria Lima, próxima ao ponto inicial do ato, integrantes da Tropa de Choque da PM estavam posicionados em frente as catracas. E às 14h30, os mesmos policiais mandaram todos os grupos que se organizaram em blocos dentro da estação saírem para não atrapalhar o fluxo.
A PM acompanhou todo o trajeto dos estudantes, da saída do Largo da Batata ao Palácio dos Bandeirantes. Cerca de 20 motos, oito carros, um ônibus e um helicóptero da PM, juntamente com carros da Guarda Civil Metropolitana e da CET, seguiram a marcha fechando as ruas, quando necessário.
Até esse momento, só havia um caso de briga ou confusão, que ocorreu quando o ex-deputado estadual e filiado ao União Brasil, Douglas Garcia, provocou alguns estudantes que o responderam. A situação paralisou a manifestação por alguns minutos. Motoristas e pedestres também chegaram a criticar os estudantes. Em um momento, um homem que dirigia um Toyota Hilux branco na altura do Parque do Povo chamou os manifestantes de "vagabundos". E uma mulher inconformada disse que os "jovens não deviam estar aqui pedindo a queda do Tarcísio" fez gestos de desaprovação e completou dizendo que “o movimento estudantil não devia fazer política”.
Assim que o ato chegou na bifurcação entre a Avenida Morumbi e a Avenida Giovanni Gronchi, próximo a uma das entradas da sede do Governo do Estado de São Paulo, os manifestantes se depararam com um bloqueio feito pela PM, que contava com grades de rua, uma corrente de policiais com escudos antimotim, além de integrantes do batalhão de choque e da cavalaria.
Os estudantes sustentaram os gritos e as palavras de ordem, até que, após um período de espera, um representante da manifestação falasse com um negociador. A representante escolhida foi a diretora do DCE USP e integrante do Movimento Correnteza, Dany Oliveira.
Apenas seis pessoas estavam autorizadas a furar o bloqueio, mas os estudantes pediam oito representantes, além de um advogado e um membro da imprensa. Após uma conversa com os policiais de alta patente e seus superiores, o negociador negou o pedido dos alunos e liberou apenas a entrada suplementar de dois advogados e da deputada estadual Mônica Seixas (Psol). Os estudantes que puderam conversar com os integrantes da Secretaria Estadual da Casa Civil, que atua no assessoramento do governador, eram quatro do DCE da USP, um integrante do DCE da Unesp e outro do DCE da Unicamp.
Ao final da conversa, a representante da UNICAMP e integrante da Secretária Geral do UEESP (União Estadual dos Estudantes de São Paulo), Malena Rojas, afirmou à imprensa que a mobilização segue forte e unificada já que o grupo ouviu apenas que estão sendo ouvidos, mas que ninguém poderia "dar nenhuma garantia” de que haverá alguma reunião direta com representantes mais próximos do governador ou com os reitores. A representante também reiterou que “essa posição do governo, não é só uma expressão de fechar um diálogo, mas expressão de um projeto político que hoje abre mão de garantir a valorização de serviços tão essenciais”.
Em nota, o Governo do Estado de São Paulo afirmou que as reivindicações serão encaminhadas para a avaliação dos responsáveis, que acompanham a situação junto às reitorias e afirmou que as tratativas com os estudantes nas três faculdades estaduais estão em andamento.
A nota também finaliza com a informação de que mais de 64 bilhões de reais teriam sido investidos nas faculdades estaduais desde 2023. O valor representa, aproximadamente, 7% do que teria sido investido no estado, durante toda a gestão - montante apresentado pelo próprio governo, em 2025. Segundo Tarcísio, o governo teria investido 910 bilhões, sendo 540 bilhões oriundos de investimentos da iniciativa privada e 370 vindos de leilões, parcerias e concessões.
Até a manhã da última terça-feira (21), segundo nota do DCE USP, apesar da tentativa de negociação com a reitoria, não houve apresentação de propostas novas e a mesa de negociação foi postergada para a próxima segunda-feira (25).
Mesmo com indícios de avanço, as greves na USP, UNICAMP e UNESP continuam, ainda sem data para terminar.
No final de 2025 a Casa Branca divulgou a nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, o documento cita a Doutrina Monroe e diz que deve-se "retomar" os princípios no relacionamento com a América Latina. Ao trazer essa lógica histórica de influência dos EUA sobre a região, o governo de Donald Trump parece operar uma espécie de atualização informal daquela doutrina, agora com menos coerência diplomática e mais por imprevisibilidade estratégica. Em vez da negociação multilateral, o que é observado é a substituição do diálogo por pressões econômicas, ameaças políticas e iniciativas unilaterais que tensionam as relações regionais.
A Doutrina Monroe, formulada em 1823 sob o lema “América para os americanos”, foi uma política externa estadunidense responsável por construir as primeiras relações do país com a América Latina. Inicialmente apresentada como um instrumento de oposição às tentativas de recolonização europeia no continente, a doutrina transformou-se, ao longo do tempo, em justificativa para a consolidação da influência norte-americana no hemisfério.
Para Sergio Simoni, professor doutor em ciência política da USP, esse movimento não é inteiramente novo, governos norte-americanos sempre buscaram ampliar sua influência no continente. Mas o atual momento se distingue por ultrapassar os padrões considerados esperados da diplomacia contemporânea. Para o professor, a política externa de Trump “vai além do esperado tanto no âmbito político quanto no âmbito diplomático e econômico”.
Segundo o professor de História da PUC-SP, Daniel Carvalho De Paula, no século XIX a Doutrina Monroe possuía um caráter mais defensivo e simbólico, mas passou por uma importante reinterpretação no início do século XX com o Corolário Roosevelt. “Ela foi reinterpretada como fundamento do direito de intervenção dos Estados Unidos em países latino-americanos, especialmente em nome da estabilidade política, da proteção de interesses econômicos e da segurança regional”, explica.
Na avaliação de De Paula, as preocupações atuais dos Estados Unidos concentram-se em temas como migração, narcotráfico, segurança energética e, sobretudo, no avanço da presença chinesa na América Latina. Ainda assim, o historiador ressalta uma diferença importante em relação ao passado: “Hoje existe uma América Latina mais diversificada em suas alianças internacionais e com maior capacidade de negociação, o que torna a hegemonia norte-americana menos absoluta e mais sujeita a disputas políticas, econômicas e diplomáticas no cenário hemisférico atual”.
Doutrina Monroe 2.0
Essas pressões sobre países como México, Colômbia e Brasil, frequentemente apresentadas no discurso do combate ao narcotráfico e ao terrorismo, podem ser entendidas como parte de uma continuidade histórica mais ampla da política externa dos Estados Unidos na região, como Simoni destaca: “O governo Trump está tomando diversas iniciativas para manter ou aumentar a influência dos Estados Unidos na América Latina. O exemplo clássico é a Doutrina Monroe, que foi um documento doutrinário sobre isso e que o Trump agora até diz que está atualizando”
Mesmo quando não se concretizam em intervenções diretas, essas iniciativas, sejam sanções, ameaças diplomáticas ou pressões econômicas, já produzem efeitos internos importantes. Elas reorganizam o campo político doméstico, reforçam atores e discursos mais alinhados a Washington e reconfiguram disputas que passam a ser atravessadas por esse eixo externo. Nesse sentido, não se trata apenas de “ações pontuais”, mas de fatores que interferem na dinâmica política dos países, deslocando prioridades governamentais e influenciando a formação de coalizões.
Diferentemente de leituras que aproximam esse cenário do Plano Condor, o docente ressalta uma distinção fundamental: o contexto atual é marcado por regimes democráticos, e não por ditaduras militares articuladas sob a lógica da Guerra Fria. Ainda assim, isso não significa ausência de influência externa, mas sim uma transformação de seus mecanismos. Em vez da repressão direta, o que acontece é uma articulação transnacional de grupos de extrema-direita, capazes de influenciar agendas, eleições e governos.
As tarifas
Na economia, a política tarifária se tornou um dos principais instrumentos estratégicos de Donald Trump. Segundo Simoni “A questão das tarifas, que era algo que ele já tinha feito no primeiro mandato e anunciado na campanha [eleitoral] que iria fazer. É algo que afeta o mundo todo, não só países da América Latina”.
Em julho de 2025, o Brasil foi o país mais afetado pelo tarifaço de Trump, com taxa de 50% de aumento, mas deixou de fora itens estratégicos, como o petróleo. Ainda em 2025, o presidente dos Estados Unidos recuou e isentou itens como café, carnes, frutas e minerais. A medida foi formalizada por meio de uma nova ordem executiva assinada por Donald Trump e publicada no site da Casa Branca.
A imposição de tarifas, que chegaram a patamares médios elevados desde 2025, não apenas reorganiza fluxos comerciais, mas também funciona como mecanismo de pressão política sobre países parceiros. Mais do que medidas protecionistas, essas tarifas operam como ferramentas de negociação, frequentemente aplicadas ou suspensas conforme interesses conjunturais. Resultando em um ambiente de instabilidade que afeta diretamente a autonomia econômica da América Latina.
Resposta brasileira às políticas estadunidenses
No Brasil, diante de pressões externas (como ameaças tarifárias e disputas financeiras), o governo Lula passou a mobilizar um discurso nacionalista historicamente associado à direita. Ao defender a soberania econômica frente às investidas norte-americanas, o governo desloca temporariamente as fronteiras ideológicas tradicionais, evidenciando como a política externa de Trump reconfigura não apenas relações internacionais, mas também disputas internas.
Sobre as estratégias brasileiras, Sergio Simoni afirma: “A gente teve alguns indícios de que o governo Lula conseguiu beliscar um pouco dessa pauta que é tradicional da direita brasileira, de defesa do nacionalismo, quando o governo começou a defender e levantar essa bandeira para combater as tarifas que o Trump estava fazendo e as ameaças ao PIX.”
O que seria a “Doutrina Monroe 2.0” não se apresenta como um projeto estruturado e coerente, mas como uma prática marcada pela volatilidade. Entre tarifas, ameaças e articulações políticas transnacionais, a América Latina volta a ocupar um lugar central na estratégia dos Estados Unidos, não mais como território de intervenção direta, mas como espaço de disputa em um cenário global cada vez mais instável.
O sequestro de Nicolás Maduro
A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças norte-americanas, anunciada por Donald Trump em janeiro de 2026, trouxe à tona o debate sobre os limites da atuação dos Estados Unidos na América Latina e discussões sobre soberania e intervenção no continente. Segundo o governo norte-americano, Maduro foi retirado da Venezuela para responder em solo estadunidense a acusações ligadas ao narcotráfico. A operação gerou reações diplomáticas imediatas e foi classificada por governos e organizações internacionais como um episódio sem precedentes recentes nas relações hemisféricas.
Na avaliação do professor Daniel, o episódio representa simultaneamente ruptura jurídica e diplomática e continuidade histórica. “É ruptura porque a captura de um chefe de Estado em território estrangeiro, por forças norte-americanas, ultrapassa formas tradicionais de pressão diplomática, sanções econômicas ou apoio indireto a opositores”, afirma o docente. Para ele, o caso foi denunciado como possível violação da soberania venezuelana e das normas internacionais, mas não pode ser compreendido como um acontecimento isolado.
Segundo o acadêmico, existe uma continuidade histórica que conecta o episódio às práticas anteriores da política externa dos Estados Unidos na região. “A Doutrina Monroe, o Corolário Roosevelt, as ocupações militares no Caribe e na América Central e o apoio a golpes durante a Guerra Fria mostram que muda a linguagem legitimadora, mas permanece a pretensão de Washington de agir unilateralmente quando considera que a região afeta sua segurança estratégica”, explica.
Nesse sentido, o caso Maduro aparece como um dos exemplos mais explícitos daquilo que parte dos analistas descreve como uma “Doutrina Monroe 2.0”: não necessariamente baseada em ocupações prolongadas ou operações sistemáticas, mas marcada por ações de alto impacto político, justificadas por argumentos ligados à segurança, ao combate ao crime organizado ou à estabilidade regional.
A questão cubana
As tensões envolvendo Cuba também ajudam a compreender a centralidade renovada da América Latina na política externa norte-americana. Desde a Revolução Cubana de 1959, a ilha ocupa um lugar singular na estratégia dos Estados Unidos, funcionando simultaneamente como adversário político e símbolo histórico das disputas por influência no continente.
Durante a Guerra Fria, Cuba tornou-se um dos principais pontos de confronto entre os Estados Unidos e a União Soviética. O embargo econômico, as tentativas de isolamento diplomático e os sucessivos episódios de tensão consolidaram a ilha como um símbolo da resistência à hegemonia estadunidense na região. Embora o contexto internacional tenha mudado, parte dessa lógica permanece.
Segundo Daniel Carvalho de Paula, Cuba continua sendo percebida pelos Estados Unidos como peça estratégica no Hemisfério Ocidental. “Desde a Revolução Cubana de 1959, a ilha tornou-se um desafio histórico à hegemonia norte-americana na América Latina, sobrevivendo à Guerra Fria, ao embargo econômico e às tentativas de isolamento diplomático”, afirma.
Na avaliação do professor, as pressões contemporâneas não se explicam apenas por divergências ideológicas. “Hoje, essa lógica aparece associada não apenas à dimensão ideológica, como ocorreu durante a Guerra Fria, mas também à crescente influência de países como China e Rússia na América Latina e no Caribe, envolvendo interesses econômicos, tecnológicos, militares e estratégicos”, explica. Para Daniel, esse processo evidencia permanências históricas mais profundas. “Cuba continua funcionando como um símbolo das disputas sobre soberania, autonomia regional e limites da hegemonia norte-americana no continente”, conclui.
Na última quarta-feira (13), o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, retirou o sigilo de sua decisão contra a organização criminosa ligada à gestão do Banco Master e à família Vorcaro. A instituição está sendo investigada por uma fraude financeira que resultou no desvio de R$ 47 bilhões. Em entrevista a jornalistas na entrada do ministério da fazenda, o ex-ministro Fernando Haddad classificou o escândalo como “a maior fraude bancária da história do Brasil”.
O caso veio à tona após a Operação Compliance Zero, feita pela Polícia Federal, revelando a fraude de R$ 12 milhões na fabricação de carteiras falsas de crédito consignado. O que resultou na liquidação do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro do ano passado.
A postura da instituição no mercado financeiro era caracterizada por sua agressividade, variando entre o patrocínio de times de futebol e a compra de instituições menores. A empresa já vinha sendo monitorada por fornecer taxas acima da média do mercado e investimentos considerados arriscados para pessoas físicas.
Decisão Judicial
Após o desdobramento da operação, foi iniciada a investigação contra Daniel Vorcaro, dono do banco Master e seu pai, Henrique Moura Vorcaro, expondo que a organização criminosa estava dividida em grupos, todos gerenciados por Luiz Phillipi Mourão, conhecido como "Sicário".
O apelido ligado a “assassino de aluguel” e “crueldade”, não é por acaso. Mourão tinha contato direto com Vorcaro e era responsável por práticas violentas, monitorando e intimidando possíveis vítimas escolhidas pelo investigado.
Na decisão do ministro Mendonça, os envolvidos foram organizados em grupos. “A Turma”, liderada por Daniel, foi responsável por coagir jornalistas, intimar adversários, realizar levantamentos clandestinos e obter dados através de ameaças e intimidações físicas. O demais integrantes são:
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Marilson Roseno da Silva, ex-policial federal e líder do núcleo;
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Manoel Mendes Rodrigues, “bicheiro”;
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Anderson Wander da Silva Lima, policial federal;
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Sebastião Monteiro Júnior, ex-policial federal.
Já “Os meninos”, braço tecnológico, atuavam como hackers, realizando invasões digitais, monitoramento telemático e desativação de perfis nas redes, com o objetivo de derrubar conteúdos negativos e promover publicações favoráveis. São eles:
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David Henrique Alves, líder do núcleo e responsável por liderar os ataques cibernéticos;
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Victor Lima Sedlmaier, operador auxiliar,
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Rodrigo Pimenta Franco, “Rodriguinho”, colaborador aquisitor de domínios da internet para hacking.
A PF aponta que o empresário Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel, teve um papel fundamental no financiamento dos grupos, além de solicitar, recorrentemente, os serviços ilegais. Conversas analisadas indicaram pagamentos mensais para manter os núcleos ativos, mesmo após o início das investigações. Enquanto David Henrique Alves era encarregado de coordenar ataques cibernéticos e monitorar ações para proteger os interesses do grupo.
A investigação afirmou que houve a tentativa de ocultação dos equipamentos eletrônicos e provas e que policiais suspeitos acessaram sistemas internos com o objetivo de repassar informações sigilosas sobre o andamento do inquérito.
Após o ministro André Mendonça recolher os pedidos da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, foi determinada a prisão preventiva de Henrique Vorcaro, dos três integrantes responsáveis pelos ataques cibernéticos, e de três integrantes da “turma”, Manoel Mendes Rodrigues, Anderson Wander da Silva Lima e Sebastião Monteiro Júnior. Mourão também foi preso, mas morreu enquanto estava sob custódia da PF. A versão oficial é de suicídio.
No despacho, Mendonça aponta a existência de uma organização criminosa robusta e ativa, responsável por diversos crimes graves e estruturados como lavagem de dinheiro; emissão de notas fiscais frias; ameaça; extorsão e intimidação; invasão de dispositivo informático e crimes cibernéticos; violação de sigilo funcional; corrupção; infiltração na polícia federal; realização de consultas indevidas no sistema e-Pol; falsidade ideológica e ocultação de provas.
Esfera política
O cientista político, Eduardo Viveiros, apontou a fragilidade dentro das instituições estatais. “O que chama a atenção é como um banco de dimensão pequena do sistema bancário foi capaz de capturar toda a estrutura do poder político, chegando até o judiciário, passando pelo legislativo e agora a evidente relação com a família Bolsonaro”.
O inquérito também teve como objetivo analisar o envolvimento de políticos e membros do STF (Supremo Tribunal Federal). Um deles foi o vazamento dos áudios do senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL) com Vorcaro, em que o parlamentar cobrava 134 milhões de reais para o financiamento de uma produção cinematográfica sobre o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro não foi o único envolvido. O senador Ciro Nogueira (PP) também foi alvo da investigação, sob suspeita de receber repasses mensais ilegais de 300 mil reais de Vorcaro. Em troca, o político usou seu mandato para defender interesses do Master. O político apresentou uma emenda parlamentar, redigida pela assessoria do Banco Master, que visava aumentar o teto de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Essa medida faria com que o banco multiplicasse suas captações.
Segundo Viveiros, a relação entre política e crimes está institucionalizada, a ponto de parlamentares usarem a prerrogativa de emendas ao orçamento federal para atividades paralelas. “É uma grave ameaça à democracia; é um sintoma da captura do poder político pelo crime organizado, ou seja, a estrutura do crime está a serviço de uma parte do sistema político”, acusa o cientista.
Em janeiro, o bilionário Nelson Tanure foi alvo de busca e apreensão durante a segunda fase da Operação Compliance Zero. Ele está sendo investigado por ameaça, perseguição e intimidação contra o fundador da Esh Capital, Vladimir Timerman.
“Esse escândalo do Banco Master joga luz sobre a relação entre crime financeiro e a sustentação do poder político no Brasil”, afirma Viveiros. Para ele, a proteção da democracia depende do cuidado de aplicar a lei e promover a perseguição dos criminosos antes que o Estado seja capturado por um sistema infrator.
A divulgação de um áudio atribuído ao senador, Flávio Bolsonaro, e ao banqueiro, Daniel Vorcaro, abriu uma nova frente de desgaste político para o bolsonarismo e reposicionou o escândalo do Banco Master no centro da disputa presidencial de 2026. O material, revelado pelo The Intercept Brasil, mostra Flávio pressionando Vorcaro pela retomada de repasses destinados ao filme Dark Horse, produção internacional sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
Mais do que um simples pedido de patrocínio, o episódio expôs a proximidade entre um dos principais nomes da extrema direita brasileira e um empresário que, naquela altura, já estava no epicentro de investigações sobre gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e organização criminosa no sistema financeiro.
Segundo a investigação, o áudio teria sido enviado em setembro de 2025, momento em que a produção do filme enfrentava dificuldades financeiras. Na gravação, Flávio afirma que a obra estava em um “momento decisivo”, menciona parcelas atrasadas e alerta para o risco de “dar calote” em integrantes internacionais da produção, entre eles o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. O senador pede uma definição urgente sobre os pagamentos e afirma que o projeto corria risco de colapso caso o fluxo de recursos não fosse retomado.
Horas após a publicação da reportagem, Flávio Bolsonaro deixou de negar o contato com Vorcaro e passou a admitir que buscou financiamento privado para o longa-metragem. A sua defesa sustentou que se tratava apenas de um “filme privado”, financiado por “patrocínio privado”, sem qualquer irregularidade. Ainda assim, a mudança de discurso teve impacto imediato. Inicialmente, o parlamentar classificou as informações como “mentira”; depois, reconheceu a existência do contrato e das cobranças relacionadas aos repasses.
A cronologia do caso reforça a dimensão financeira da operação. Documentos citados pela investigação indicam reuniões realizadas em Brasília entre aliados de Flávio e representantes de Vorcaro desde dezembro de 2024. Em fevereiro de 2025, um comprovante apontaria a transferência de US$2 milhões para o fundo Havengate Development Fund LP, ligado ao projeto cinematográfico. Planilhas mencionadas na apuração indicam previsão total de investimento entre US$23,9 milhões e US$24 milhões, cerca de R$134 milhões na cotação da época. Parte desse montante, segundo os documentos analisados pelos jornalistas, já teria sido efetivamente transferida até maio de 2025.
Em novembro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, que investigava crimes financeiros envolvendo o conglomerado Master. Dias depois, o Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial de instituições ligadas ao grupo. Vorcaro passou, então, a simbolizar um dos maiores escândalos financeiros recentes do país.
É justamente essa conexão que elevou a gravidade do áudio. Embora a gravação, isoladamente, não prove corrupção, ela fortalece suspeitas sobre a relação financeira entre o senador da República e o banqueiro investigado criminalmente. Juristas ouvidos por veículos nacionais apontam que o conteúdo pode abrir caminho para apurações sobre eventual lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial, organização criminosa e até implicações eleitorais, caso o filme tenha sido utilizado como instrumento indireto de pré-campanha presidencial.
Do ponto de vista técnico, ainda existe uma lacuna importante, não há, até o momento, laudo pericial público completo sobre o áudio vazado. Não foram divulgados hash do arquivo original, metadados, análise formal de edição nem exame oficial de comparação de voz. Ou seja, há forte corroboração jornalística e contextual, mas ainda não existe autenticação forense pública integral do material.
Isso não significa que o conteúdo seja falso. Pelo contrário, a própria admissão posterior de Flávio, somada à existência de cronogramas financeiros, mensagens, transferências e relatos de fontes da Polícia Federal, reforça a plausibilidade da gravação. Ainda assim, especialistas em perícia digital lembram que autenticidade jornalística e autenticação pericial não são sinônimos, distinção especialmente relevante em uma era marcada por deepfakes, manipulações digitais e vazamentos seletivos.
No campo político, a repercussão foi imediata. Integrantes do Partido dos Trabalhadores e do PSOL anunciaram medidas junto à Polícia Federal e ao Ministério Público. O deputado Guilherme Boulos afirmou que o caso poderia justificar cassação caso a autenticidade do áudio fosse confirmada integralmente. Dentro da própria direita, a reação foi fragmentada; o governador Romeu Zema criticou duramente Flávio, enquanto Ronaldo Caiado e Tarcísio de Freitas adotaram tom mais cauteloso, tentando conter o impacto eleitoral do episódio.
A dimensão simbólica do filme também pesa. Dark Horse não era tratado apenas como um produto audiovisual, mas como uma peça estratégica de construção narrativa do bolsonarismo para 2026. O projeto tinha elenco internacional, ambição global e previsão de lançamento próxima ao calendário eleitoral brasileiro, nesse contexto, o financiamento da obra deixa de ser apenas uma questão cultural e passa a ocupar espaço no cenário eleitoral.
O caso também evidencia uma contradição delicada para o discurso anticorrupção que sustentou parte da ascensão bolsonarista. A revelação de um senador da família Bolsonaro cobrando recursos milionários de um banqueiro posteriormente preso e investigado atinge diretamente a imagem de outsider político construída pelo grupo desde 2018. Ainda que nenhuma condenação exista até agora, o desgaste já se tornou concreto.
Na última segunda-feira (11) o Diário da Assembleia de São Paulo publicou o projeto de lei 439/26, assinado pelo deputado estadual Guto Zacarias (Missão), que tem como objetivo punir o movimento estudantil que " impeça, perturbe ou dificulte as atividades acadêmicas ou o acesso ao campus nas universidades públicas paulistas".
De acordo com o projeto, professores, reitores, diretores e prefeitos dos campi que apoiarem, permitirem ou se omitirem diante dos movimentos serão punidos com demissão e proibição de acesso a concursos públicos estaduais por um período de dez anos.
O documento propõe que os servidores públicos identifiquem os alunos responsáveis pelos atos e acionem a Polícia Militar. Além disso, prevê o corte de salários de servidores e a suspensão de bolsas ou qualquer benefício concedido aos estudantes envolvidos, em caso de envolvimento com os movimentos. O projeto também pretende obrigar os responsáveis a fornecer informações e acesso irrestrito a arquivos físicos ou digitais às polícias Civil e Militar.
Para os alunos a punição prevê expulsão e proibição de matrícula em qualquer curso, de todos os níveis, de qualquer universidade estadual, por quinze anos. O texto também determina que não será permitida nenhuma forma de aplicação retroativa da lei.
Na justificativa do projeto, Guto Zacarias afirma que a proposta busca “preservar o interesse público” e garantir o funcionamento das instituições de ensino superior do Estado de São Paulo. Segundo o deputado, a autonomia universitária “não pode servir de escudo para omissão” diante de atos que, para ele, “flertam com o vandalismo e o autoritarismo de minorias”.
A iniciativa do deputado ocorre em meio à repercussão das recentes manifestações estudantis na Universidade de São Paulo (USP), marcadas por ocupações, paralisações e confrontos contra a Polícia Militar.
Em entrevista à AGEMT, Olívia Maria Silva Dias, estudante de pós-graduação em filosofia da USP, integrante do Centro Acadêmico e do comando de greve, contou que as ameaças de punições aos estudantes já fazem parte da realidade dos movimentos universitários há muito tempo. “Sempre, em todas as greves têm ameaças de cancelamento de matrícula, isso é muito comum, infelizmente”, declarou.
Segundo ela, medidas como as do PL 439/26 representam uma tentativa de enfraquecer a mobilização política estudantil. “Acredito que temos que lutar por um decreto que impeça a repressão pelos estudantes que se movimentaram politicamente, por que isso é uma das mais covardes práticas, impedir a luta do movimento estudantil.”
Dias relatou ainda ter participado diretamente das mobilizações recentes na universidade e disse que sofreu agressões durante uma ação policial. “Eu estava na linha de frente das mobilizações. Sempre me movimentei muito politicamente. Fui a pessoa que teve o braço quebrado pela ação da PM na desocupação do Dia das Mães”, contou.
A estudante criticou o tratamento dado às ocupações estudantis e afirmou que há diferença na forma como as ações dos manifestantes e da polícia são interpretadas. “Nós somos vândalos por quebrar uma porta e para eles uma porta é mais importante do que um braço”, declarou. Para ela, o envolvimento político está ligado também à sua trajetória acadêmica. “Eu não consigo estar em um lugar e não me imaginar intervindo politicamente, não vendo a filosofia como um instrumento de denúncia.”, refletiu.
A proposta, que gerou revolta entre os estudantes, movimentos estudantis e centrais sindicais, está em discussão na Comissão de Constituição, Justiça e Redação da Alesp.