A justiça italiana determinou a soltura imediata da ex-deputada, do PL
por
Lara Manasseh
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26/05/2026 - 12h

Na última sexta-feira (22), Carla Zambelli, condenada pelos crimes de invasão do sistema do CNJ e falsidade ideológica, teve sua extradição negada pela Suprema Corte de Cassação de Roma, última instância do judiciário italiano. A decisão também incluiu a libertação imediata da ex-deputada do Partido Liberal, que estava em um presídio nos arredores da capital italiana. 

Em 11 de junho do ano passado, o ministro do STF, Alexandre de Moraes, pediu ao governo federal a extradição de Zambelli. Somente em março deste ano, a Corte de Apelação de Roma determinou a deportação da ex-deputada, mas a defesa recorreu e acabou vencendo o processo. Com isso, a decisão da corte será levada ao ministro da Justiça da Itália, Carlo Nordio, que terá 45 dias para dar seu parecer sobre a extradição.

Os advogados de Zambelli argumentaram que ela seria alvo de perseguição política e que supostamente haveria parcialidade no Supremo Tribunal Federal (STF). Tentaram também caracterizar os processos como de natureza política, argumento comum em ações internacionais de extradição. 

Em vídeo feito nas redes sociais, o deputado estadual Bruno Zambelli (PL), irmão de Carla Zambelli, diz que a decisão da corte foi “um milagre”.

Carla Zambelli a esquerda e seu advogado intaliano a direita
Zambelli aparece ao lado de seu advogado, após ser solta Foto: Reprodução Instagram/@carla.zambelli 

A ex-deputada fugiu para a Itália em 2025, após o STF estabelecer uma pena de dez anos pelos crimes cometidos. Com sua cidadania italiana em mãos, ela fixou residência na Itália e alegou ter sofrido perseguição política pelo judiciário brasileiro, mas acabou detida em Roma por uma operação conjunta entre a Polícia Federal brasileira, autoridades locais e a INTERPOL, em 29 de julho de 2025. 

O tratado recíproco de extradição entre o Brasil e a Itália está em vigor desde 1933 e determina que os países sejam obrigados a entregar, um ao outro, foragidos e figuras procuradas para cumprir sua pena ou serem levados para julgamento. 

Além dos crimes de invasão do sistema de mandatos judiciais com auxílio do hacker Walter Delgatti e falsidade ideológica, Zambelli também está sendo julgada por porte ilegal de armas e constrangimento ilegal com o emprego de arma de fogo. O Plenário do Supremo Tribunal Federal determinou pena de cinco anos de prisão pelo episódio que ocorreu dias antes das votações nas eleições de 2022 e atualmente se encontra pendente na corte italiana. Com isso, há dois processos de extradição, um feito pelo Ministro Alexandre de Moraes e outro pelo Ministro Gilmar Mendes. 

Em vídeo publicado no instagram de seu advogado, Pieremilio Sammarco, Zambelli comemora sua soltura e alega que sua vitória foi “consagrada à Deus”. De acordo com Fabio Pagnozzi, advogado da ex-deputada que cuida do caso no Brasil, ela permanecerá na Itália aguardando a aprovação do ministro Carlo Nordio. 

Manifestação em defesa da educação em São Paulo permitiu que chefes do movimento falassem com representantes do governo do estado
por
Gustavo Tonini
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22/05/2026 - 12h

Entre a tarde e a noite da última quarta-feira (20), representantes dos movimentos das faculdades estaduais de São Paulo, juntamente com profissionais da educação pública superior e básica e representantes de partidos de esquerda, realizaram uma marcha contra o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). A manifestação foi do Largo da Batata até o Palácio dos Bandeirantes e contou com cerca de 30 mil pessoas, segundo informação dos organizadores. Ao final do ato, devido ao bloqueio feito pela Polícia Militar, somente alguns representantes selecionados tiveram a permissão de entrar na sede do governo para compor uma possível mesa de negociação. 

Desde o começo, a manifestação contou com forte policiamento. No início do dia, estudantes da UNESP (Universidade Estadual Paulista) denunciaram que a Polícia Militar estaria parando os ônibus que os levavam até São Paulo nas rodovias e os revistando. Além disso, na estação Faria Lima, próxima ao ponto inicial do ato, integrantes da Tropa de Choque da PM estavam posicionados em frente as catracas. E às 14h30, os mesmos policiais mandaram todos os grupos que se organizaram em blocos dentro da estação saírem para não atrapalhar o fluxo.

 

Na saída da estação, os policiais militares também estavam postados por onde os estudantes entravam no ato. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT
Na saída da estação, policiais militares acompanhavam entrada de estudantes no ato. Foto: Gustavo Tonini/ AGEMT

A PM acompanhou todo o trajeto dos estudantes, da saída do Largo da Batata ao Palácio dos Bandeirantes. Cerca de 20 motos, oito carros, um ônibus e um helicóptero da PM, juntamente com carros da Guarda Civil Metropolitana e da CET, seguiram a marcha fechando as ruas, quando necessário.

 

Os estudantes que estavam atrás fizeram uma corrente humana em frente aos automóveis da PM. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT
Os estudantes que estavam atrás organizaram uma corrente humana entre a marcha e os automóveis da PM. Foto: Gustavo Tonini/ AGEMT

Até esse momento, só havia um caso de briga ou confusão, que ocorreu quando o ex-deputado estadual e filiado ao União Brasil, Douglas Garcia, provocou alguns estudantes que o responderam. A situação paralisou a manifestação por alguns minutos. Motoristas e pedestres também chegaram a criticar os estudantes. Em um momento, um homem que dirigia um Toyota Hilux branco na altura do Parque do Povo chamou os manifestantes de "vagabundos". E uma mulher inconformada disse que os "jovens não deviam estar aqui pedindo a queda do Tarcísio" fez gestos de desaprovação e completou dizendo que “o movimento estudantil não devia fazer política”.

 

A manifestação fechou diversas ruas e provocou diversos engarrafamentos. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT
A manifestação fechou diversas ruas enquanto avançava rumo ao Palácio. Foto: Gustavo Tonini/ AGEMT

Assim que o ato chegou na bifurcação entre a Avenida Morumbi e a Avenida Giovanni Gronchi, próximo a uma das entradas da sede do Governo do Estado de São Paulo, os manifestantes se depararam com um bloqueio feito pela PM, que contava com grades de rua, uma corrente de policiais com escudos antimotim, além de integrantes do batalhão de choque e da cavalaria. 

 

A recomendação inicial da PM era impedir a passagem de qualquer manifestante. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT.
A recomendação inicial da PM era impedir a passagem de qualquer manifestante. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT.

Os estudantes sustentaram os gritos e as palavras de ordem, até que, após um período de espera, um representante da manifestação falasse com um negociador. A representante escolhida foi a diretora do DCE USP e integrante do Movimento Correnteza, Dany Oliveira. 

Apenas seis pessoas estavam autorizadas a furar o bloqueio, mas os estudantes pediam oito representantes, além de um advogado e um membro da imprensa. Após uma conversa com os policiais de alta patente e seus superiores, o negociador negou o pedido dos alunos e liberou apenas a entrada suplementar de dois advogados e da deputada estadual Mônica Seixas (Psol). Os estudantes que puderam conversar com os integrantes da Secretaria Estadual da Casa Civil, que atua no assessoramento do governador, eram  quatro do DCE da USP, um integrante do DCE da Unesp e outro do DCE da Unicamp. 

 

O negociador conversou com a imprensa enquanto fazia as negociações. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT
Negociador conversou com a imprensa e a polícia antes de receber alunos. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT

 

Ao final da conversa, a representante da UNICAMP e integrante da Secretária Geral do UEESP (União Estadual dos Estudantes de São Paulo), Malena Rojas, afirmou à imprensa que a mobilização segue forte e unificada já que o grupo ouviu apenas que estão sendo ouvidos, mas que ninguém poderia "dar nenhuma garantia” de que haverá alguma reunião direta com representantes mais próximos do governador ou com os reitores. A representante também reiterou que “essa posição do governo, não é só uma expressão de fechar um diálogo, mas expressão de um projeto político que hoje abre mão de garantir a valorização de serviços tão essenciais”.

No momento em que os representantes furaram o bloqueio, os estudantes atearam fogo em apostilas e inflamaram seus cantos. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT.
No momento em que os representantes furaram o bloqueio, os estudantes atearam fogo em apostilas e inflamaram seus cantos. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT.

 

Em nota, o Governo do Estado de São Paulo afirmou que as reivindicações serão encaminhadas para a avaliação dos responsáveis, que acompanham a situação junto às reitorias e afirmou que as tratativas com os estudantes nas três faculdades estaduais estão em andamento.

A nota também finaliza com a informação de que mais de 64 bilhões de reais teriam sido investidos nas faculdades estaduais desde 2023. O valor representa, aproximadamente, 7% do que teria sido investido no estado, durante toda a gestão - montante apresentado pelo próprio governo, em 2025. Segundo Tarcísio, o governo teria investido 910 bilhões, sendo 540 bilhões oriundos de investimentos da iniciativa privada e 370 vindos de leilões, parcerias e concessões. 

Até a manhã da última terça-feira (21), segundo nota do DCE USP, apesar da tentativa de negociação com a reitoria, não houve apresentação de propostas novas e a mesa de negociação foi postergada para a próxima segunda-feira (25).

Mesmo com indícios de avanço, as greves na USP, UNICAMP e UNESP continuam, ainda sem data para terminar.

Entenda as acusações e quem são os envolvidos na investigação feita pela Polícia Federal
por
Lara Manasseh
Maria Eduarda Cepeda
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21/05/2026 - 12h

 

Na última quarta-feira (13), o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, retirou o sigilo de sua decisão contra a organização criminosa ligada à gestão do Banco Master e à família Vorcaro. A instituição está sendo investigada por uma fraude financeira que resultou no desvio de R$ 47 bilhões. Em entrevista a jornalistas na entrada do ministério da fazenda, o ex-ministro Fernando Haddad classificou o escândalo como “a maior fraude bancária da história do Brasil”.  

O caso veio à tona após a Operação Compliance Zero, feita pela Polícia Federal, revelando a fraude de R$ 12 milhões na fabricação de carteiras falsas de crédito consignado. O que resultou na liquidação do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro do ano passado.

A postura da instituição no mercado financeiro era caracterizada por sua agressividade, variando entre o patrocínio de times de futebol e a compra de instituições menores. A empresa já vinha sendo monitorada por fornecer taxas acima da média do mercado e investimentos considerados arriscados para pessoas físicas. 

Decisão Judicial

Após o desdobramento da operação, foi iniciada a investigação contra Daniel Vorcaro, dono do banco Master e  seu pai, Henrique Moura Vorcaro, expondo que a organização criminosa estava dividida em grupos, todos gerenciados por Luiz Phillipi Mourão, conhecido como "Sicário".  

O apelido ligado a “assassino de aluguel” e “crueldade”, não é por acaso. Mourão tinha contato direto com Vorcaro e era responsável por práticas violentas, monitorando e intimidando possíveis vítimas escolhidas pelo investigado. 

Na decisão do ministro Mendonça, os envolvidos foram organizados em grupos. “A Turma”, liderada por Daniel, foi responsável por coagir jornalistas, intimar adversários, realizar levantamentos clandestinos e obter dados através de ameaças e intimidações físicas. O demais integrantes são:

  • Marilson Roseno da Silva, ex-policial federal e líder do núcleo;

  • Manoel Mendes Rodrigues, “bicheiro”;

  • Anderson Wander da Silva Lima, policial federal;

  • Sebastião Monteiro Júnior, ex-policial federal.

Já “Os meninos”, braço tecnológico, atuavam como hackers, realizando invasões digitais, monitoramento telemático e desativação de perfis nas redes, com o objetivo de derrubar conteúdos negativos e promover publicações favoráveis. São eles:

  • David Henrique Alves, líder do núcleo e responsável por liderar os ataques cibernéticos;

  • Victor Lima Sedlmaier, operador auxiliar,

  • Rodrigo Pimenta Franco, “Rodriguinho”, colaborador aquisitor de domínios da internet para hacking.

A PF aponta que o empresário Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel, teve um papel fundamental no financiamento dos grupos, além de solicitar, recorrentemente, os serviços ilegais. Conversas analisadas indicaram pagamentos mensais para manter os núcleos ativos, mesmo após o início das investigações. Enquanto David Henrique Alves era encarregado de coordenar ataques cibernéticos e monitorar ações para proteger os interesses do grupo. 

A investigação afirmou que houve a tentativa de ocultação dos equipamentos eletrônicos e provas e que policiais suspeitos acessaram sistemas internos com o objetivo de repassar informações sigilosas sobre o andamento do inquérito. 

A imagem mostra a fachada da polícia federal à luz do dia
Superintendência da Polícia federal em Brasília, onde Daniel Vorcaro está preso. Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

Após o ministro André Mendonça recolher os pedidos da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, foi determinada a prisão preventiva de Henrique Vorcaro, dos três integrantes responsáveis pelos ataques cibernéticos, e de três integrantes da “turma”, Manoel Mendes Rodrigues, Anderson Wander da Silva Lima e Sebastião Monteiro Júnior. Mourão também foi preso, mas morreu enquanto estava sob custódia da PF. A versão oficial é de suicídio. 

No despacho, Mendonça aponta a existência de uma organização criminosa robusta e ativa, responsável por diversos crimes graves e estruturados como lavagem de dinheiro; emissão de notas fiscais frias; ameaça; extorsão e intimidação; invasão de dispositivo informático e crimes cibernéticos; violação de sigilo funcional; corrupção; infiltração na polícia federal; realização de consultas indevidas no sistema e-Pol; falsidade ideológica e ocultação de provas.

Esfera política 

O cientista político, Eduardo Viveiros, apontou a fragilidade dentro das instituições estatais. “O que chama a atenção é como um banco de dimensão pequena do sistema bancário foi capaz de capturar toda a estrutura do poder político, chegando até o judiciário, passando pelo legislativo e agora a evidente relação com a família Bolsonaro”. 

O inquérito também teve como objetivo analisar o envolvimento de políticos e membros do STF (Supremo Tribunal Federal). Um deles foi o vazamento dos áudios do senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL) com Vorcaro, em que o parlamentar cobrava 134 milhões de reais para o financiamento de uma produção cinematográfica sobre o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro não foi o único envolvido. O senador Ciro Nogueira (PP) também foi alvo da investigação, sob suspeita de receber repasses mensais ilegais de 300 mil reais de Vorcaro. Em troca, o político usou seu mandato para defender interesses do Master. O político apresentou uma emenda parlamentar, redigida pela assessoria do Banco Master, que visava aumentar o teto de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Essa medida faria com que o banco multiplicasse suas captações. 

Segundo Viveiros, a relação entre política e crimes está institucionalizada, a ponto de parlamentares usarem a prerrogativa de emendas ao orçamento federal para atividades paralelas. “É uma grave ameaça à democracia; é um sintoma da captura do poder político pelo crime organizado, ou seja, a estrutura do crime está a serviço de uma parte do sistema político”, acusa o cientista. 

Em janeiro, o bilionário Nelson Tanure foi alvo de busca e apreensão durante a segunda fase da Operação Compliance Zero. Ele está sendo investigado por ameaça, perseguição e intimidação contra o fundador da Esh Capital, Vladimir Timerman. 

“Esse escândalo do Banco Master joga luz sobre a relação entre crime financeiro e a sustentação do poder político no Brasil”, afirma Viveiros. Para ele, a proteção da democracia depende do cuidado de aplicar a lei e promover a perseguição dos criminosos antes que o Estado seja capturado por um sistema infrator. 





 

Gravação revela relação próxima entre senador e banqueiro investigado no maior escândalo financeiro do país
por
Carolina Zaterka
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19/05/2026 - 12h

 

A divulgação de um áudio atribuído ao senador, Flávio Bolsonaro, e ao banqueiro, Daniel Vorcaro, abriu uma nova frente de desgaste político para o bolsonarismo e reposicionou o escândalo do Banco Master no centro da disputa presidencial de 2026. O material, revelado pelo The Intercept Brasil, mostra Flávio pressionando Vorcaro pela retomada de repasses destinados ao filme Dark Horse, produção internacional sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.

Mais do que um simples pedido de patrocínio, o episódio expôs a proximidade entre um dos principais nomes da extrema direita brasileira e um empresário que, naquela altura, já estava no epicentro de investigações sobre gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e organização criminosa no sistema financeiro. 

Segundo a investigação, o áudio teria sido enviado em setembro de 2025, momento em que a produção do filme enfrentava dificuldades financeiras. Na gravação, Flávio afirma que a obra estava em um “momento decisivo”, menciona parcelas atrasadas e alerta para o risco de “dar calote” em integrantes internacionais da produção, entre eles o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. O senador pede uma definição urgente sobre os pagamentos e afirma que o projeto corria risco de colapso caso o fluxo de recursos não fosse retomado.

Horas após a publicação da reportagem, Flávio Bolsonaro deixou de negar o contato com Vorcaro e passou a admitir que buscou financiamento privado para o longa-metragem. A sua defesa sustentou que se tratava apenas de um “filme privado”, financiado por “patrocínio privado”, sem qualquer irregularidade. Ainda assim, a mudança de discurso teve impacto imediato. Inicialmente, o parlamentar classificou as informações como “mentira”; depois, reconheceu a existência do contrato e das cobranças relacionadas aos repasses.

A cronologia do caso reforça a dimensão financeira da operação. Documentos citados pela investigação indicam reuniões realizadas em Brasília entre aliados de Flávio e representantes de Vorcaro desde dezembro de 2024. Em fevereiro de 2025, um comprovante apontaria a transferência de US$2 milhões para o fundo Havengate Development Fund LP, ligado ao projeto cinematográfico. Planilhas mencionadas na apuração indicam previsão total de investimento entre US$23,9 milhões e US$24 milhões, cerca de R$134 milhões na cotação da época. Parte desse montante, segundo os documentos analisados pelos jornalistas, já teria sido efetivamente transferida até maio de 2025.

Em novembro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, que investigava crimes financeiros envolvendo o conglomerado Master. Dias depois, o Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial de instituições ligadas ao grupo. Vorcaro passou, então, a simbolizar um dos maiores escândalos financeiros recentes do país.

Flávio Bolsonaro em campanha à pré-candidatura da presidência | Foto: Vitor Souza - Reprodução: Brasil de Fato
Senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República. Foto: Vitor Souza - Reprodução: Brasil de Fato

É justamente essa conexão que elevou a gravidade do áudio. Embora a gravação, isoladamente, não prove corrupção, ela fortalece suspeitas sobre a relação financeira entre o senador da República e o banqueiro investigado criminalmente. Juristas ouvidos por veículos nacionais apontam que o conteúdo pode abrir caminho para apurações sobre eventual lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial, organização criminosa e até implicações eleitorais, caso o filme tenha sido utilizado como instrumento indireto de pré-campanha presidencial.

Do ponto de vista técnico, ainda existe uma lacuna importante, não há, até o momento, laudo pericial público completo sobre o áudio vazado. Não foram divulgados hash do arquivo original, metadados, análise formal de edição nem exame oficial de comparação de voz. Ou seja, há forte corroboração jornalística e contextual, mas ainda não existe autenticação forense pública integral do material.

Isso não significa que o conteúdo seja falso. Pelo contrário, a própria admissão posterior de Flávio, somada à existência de cronogramas financeiros, mensagens, transferências e relatos de fontes da Polícia Federal, reforça a plausibilidade da gravação. Ainda assim, especialistas em perícia digital lembram que autenticidade jornalística e autenticação pericial não são sinônimos, distinção especialmente relevante em uma era marcada por deepfakes, manipulações digitais e vazamentos seletivos.

No campo político, a repercussão foi imediata. Integrantes do Partido dos Trabalhadores e do PSOL anunciaram medidas junto à Polícia Federal e ao Ministério Público. O deputado Guilherme Boulos afirmou que o caso poderia justificar cassação caso a autenticidade do áudio fosse confirmada integralmente. Dentro da própria direita, a reação foi fragmentada; o governador Romeu Zema criticou duramente Flávio, enquanto Ronaldo Caiado e Tarcísio de Freitas adotaram tom mais cauteloso, tentando conter o impacto eleitoral do episódio.

A dimensão simbólica do filme também pesa. Dark Horse não era tratado apenas como um produto audiovisual, mas como uma peça estratégica de construção narrativa do bolsonarismo para 2026. O projeto tinha elenco internacional, ambição global e previsão de lançamento próxima ao calendário eleitoral brasileiro, nesse contexto, o financiamento da obra deixa de ser apenas uma questão cultural e passa a ocupar espaço no cenário eleitoral.

O caso também evidencia uma contradição delicada para o discurso anticorrupção que sustentou parte da ascensão bolsonarista. A revelação de um senador da família Bolsonaro cobrando recursos milionários de um banqueiro posteriormente preso e investigado atinge diretamente a imagem de outsider político construída pelo grupo desde 2018. Ainda que nenhuma condenação exista até agora, o desgaste já se tornou concreto.

Proposta de Guto Zacarias (Missão-SP) quer estabelecer sanções a alunos e servidores envolvidos em movimentos estudantis; pós-graduanda da USP critica medida e relata violência policial
por
Carolina Nader
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18/05/2026 - 12h

Na última segunda-feira (11) o Diário da Assembleia de São Paulo publicou o projeto de lei 439/26, assinado pelo deputado estadual Guto Zacarias (Missão), que tem como objetivo punir o movimento estudantil que " impeça, perturbe ou dificulte as atividades acadêmicas ou o acesso ao campus nas universidades públicas paulistas". 

De acordo com o projeto, professores, reitores, diretores e prefeitos dos campi que apoiarem, permitirem ou se omitirem diante dos movimentos serão punidos com demissão e proibição de acesso a concursos públicos estaduais por um período de dez anos. 

O documento propõe que os servidores públicos identifiquem os alunos responsáveis pelos atos e acionem a Polícia Militar. Além disso, prevê o corte de salários de servidores e a suspensão de bolsas ou qualquer benefício concedido aos estudantes envolvidos, em caso de envolvimento com os movimentos. O projeto também pretende obrigar os responsáveis a fornecer informações e acesso irrestrito a arquivos físicos ou digitais às polícias Civil e Militar. 

Para os alunos a punição prevê expulsão e proibição de matrícula em qualquer curso, de todos os níveis, de qualquer universidade estadual, por quinze anos. O texto também determina que não será permitida nenhuma forma de aplicação retroativa da lei. 

Na justificativa do projeto, Guto Zacarias afirma que a proposta busca “preservar o interesse público” e garantir o funcionamento das instituições de ensino superior do Estado de São Paulo. Segundo o deputado, a autonomia universitária “não pode servir de escudo para omissão” diante de atos que, para ele, “flertam com o vandalismo e o autoritarismo de minorias”. 

A iniciativa do deputado ocorre em meio à repercussão das recentes manifestações estudantis na Universidade de São Paulo (USP), marcadas por ocupações, paralisações e confrontos contra a Polícia Militar.  

Em entrevista à AGEMT, Olívia Maria Silva Dias, estudante de pós-graduação em filosofia da USP, integrante do Centro Acadêmico e do comando de greve, contou que as ameaças de punições aos estudantes já fazem parte da realidade dos movimentos universitários há muito tempo. “Sempre, em todas as greves têm ameaças de cancelamento de matrícula, isso é muito comum, infelizmente”, declarou. 

Segundo ela, medidas como as do PL 439/26 representam uma tentativa de enfraquecer a mobilização política estudantil. “Acredito que temos que lutar por um decreto que impeça a repressão pelos estudantes que se movimentaram politicamente, por que isso é uma das mais covardes práticas, impedir a luta do movimento estudantil.” 

Dias relatou ainda ter participado diretamente das mobilizações recentes na universidade e disse que sofreu agressões durante uma ação policial. “Eu estava na linha de frente das mobilizações. Sempre me movimentei muito politicamente. Fui a pessoa que teve o braço quebrado pela ação da PM na desocupação do Dia das Mães”, contou. 

A estudante criticou o tratamento dado às ocupações estudantis e afirmou que há diferença na forma como as ações dos manifestantes e da polícia são interpretadas. “Nós somos vândalos por quebrar uma porta e para eles uma porta é mais importante do que um braço”, declarou. Para ela, o envolvimento político está ligado também à sua trajetória acadêmica. “Eu não consigo estar em um lugar e não me imaginar intervindo politicamente, não vendo a filosofia como um instrumento de denúncia.”, refletiu. 

A proposta, que gerou revolta entre os estudantes, movimentos estudantis e centrais sindicais, está em discussão na Comissão de Constituição, Justiça e Redação da Alesp.

“Pessoas foram executadas em estádios” afirma Renata Beltrão, guia do Museu do Futebol
por
Malu Malaquias
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28/04/2026 - 12h

O esporte foi utilizado como instrumento político por ditaduras militares na América Latina, especialmente no Brasil, na Argentina e no Chile, entre as décadas de 1960 e 1980, período marcado por golpes de Estado e repressão. Governos autoritários desses países exploraram o enorme alcance popular do esporte para promover propaganda oficial, estimular o nacionalismo e desviar a atenção da população das violações de direitos humanos, seja por meio de grandes eventos como Copas do Mundo ou do controle sobre clubes, federações e estádios. Essa estratégia ocorreu porque o futebol, enquanto fenômeno de massa, possui alto poder de mobilização emocional, tornando-se uma ferramenta eficaz de legitimação política e controle social em contextos autoritários.

Durante esse período, os países afetados por regimes militares sofreram controle não apenas as instituições políticas, mas também as manifestações culturais. Nesse cenário, a modalidade esportiva, já consolidada como o principal fenômeno de massa do continente, passou a ocupar um lugar estratégico nas ações do Estado. Capaz de mobilizar sentimentos coletivos, reunir multidões e produzir símbolos nacionais, o esporte foi apropriado pelos governos como instrumento para sustentar discursos oficiais de ordem, progresso e unidade. Essa instrumentalização envolveu diferentes dimensões, como a propaganda governamental, o controle social por meio do entretenimento e a construção de um sentimento patriótico artificial em meio à repressão. 

No Brasil, após o golpe civil-militar de 1964, o novo governo passou a intervir diretamente no universo esportivo. Os militares compreenderam que o futebol, não poderia permanecer distante das disputas de poder. A suspensão de competições logo após a ruptura democrática indicou que o Estado via o esporte como um espaço sensível à instabilidade política. Com o Ato Institucional nº 5, decretado em 1968, aprofundou o autoritarismo da ditadura militar ao suspender direitos civis, ampliar a censura e intensificar a repressão política, criando o contexto ideal para o uso do futebol como instrumento de propaganda e controle social. A aproximação entre o governo, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e dirigentes como João Havelange consolidou uma aliança que permitiu maior controle sobre a organização esportiva e sobre a imagem da Seleção Brasileira.

A conquista da Copa do Mundo de 1970, no México, tornou-se o maior símbolo do uso político desse fenômeno esportivo em nosso país. O tricampeonato mundial foi apropriado pelo regime do general Emílio Garrastazu Médici como prova da suposta grandeza nacional. Campanhas publicitárias e slogans, como “Pra Frente, Brasil” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”, associaram o sucesso esportivo ao chamado “milagre econômico”, promovendo a ideia de um país próspero e em ascensão. Enquanto a população celebrava nomes como Pelé, Tostão e Jairzinho, a repressão se intensificava nos bastidores, com censura, tortura e desaparecimentos políticos. Tornando a modalidade uma poderosa ferramenta para encobrir a violência do Estado e legitimar o regime interna e externamente.

Na Argentina, a ditadura instaurada em 1976 pela junta militar liderada por Jorge Rafael Videla encontrou na Copa do Mundo de 1978 uma oportunidade estratégica de autopromoção internacional. O evento foi cuidadosamente planejado para apresentar o país como moderno, organizado e pacificado, apesar da existência de centros de detenção clandestinos e da prática sistemática de violações dos direitos humanos. O torneio ficou marcado por denúncias de censura à imprensa, perseguição política, desaparecimentos forçados e suspeitas de interferência nos resultados esportivos, como a polêmica goleada da Argentina sobre o Peru por 6 a 0.  Historiadores como José Paulo Florenzano, apontam que o título mundial simboliza uma profunda contradição entre a euforia popular e o terror imposto pela autoridade estatal.

No Chile, o golpe de 11 de setembro de 1973, liderado por Augusto Pinochet, estabeleceu uma relação ainda mais brutal entre futebol e repressão. O Estádio Nacional de Santiago, principal palco esportivo do país, foi convertido em centro de detenção, tortura e execução, por onde, segundo levantamentos históricos e instituições de memória, estima-se que cerca de 40 mil prisioneiros políticos nos primeiros meses da ditadura. O espaço, tradicionalmente associado à celebração esportiva, transformou-se em símbolo do terror estatal. Um episódio emblemático desse período foi o boicote da União Soviética à partida contra o Chile, válida pela repescagem da Copa do Mundo de 1974, em protesto contra a realização do jogo em um estádio recentemente utilizado como campo de concentração.

​ Painel exposto no Museu do Futebol relembra a ditadura militar no Chile, destacando a pergunta “¿Dónde está?” (“Onde está?”), símbolo da luta por memória e justiça diante dos desaparecimentos forçados ocorridos após o golpe de 1973. Foto: Malu Malaquias  Click e arraste para mover ​
Painel exposto no Museu do Futebol relembra a ditadura militar no Chile, destacando a pergunta “¿Dónde está?” (“Onde está?”), símbolo da luta por memória e justiça diante dos desaparecimentos forçados ocorridos após o golpe de 1973. Foto: Malu Malaquias

Apesar do forte controle estatal, o futebol não se restringiu ao papel de instrumento da repressão. Em diferentes momentos, tornou-se também espaço de resistência política. No Brasil, a Democracia Corinthiana destacou-se como um dos movimentos mais significativos, ao defender a gestão democrática do clube e apoiar publicamente a campanha das Diretas Já no início dos anos 1980.

“Houve atuação direta de alguns jogadores contra a ditadura”, constatou a guia Renata

Liderados por jogadores como Sócrates, Casagrande e Wladimir, os atletas utilizaram sua visibilidade para questionar o autoritarismo. Além disso, torcidas organizadas, jornalistas esportivos e intelectuais passaram a empregar o futebol como linguagem simbólica para driblar a censura e ampliar o debate público.

Com o fim das ditaduras, a preservação da memória tornou-se fundamental para compreender o papel do futebol nesses regimes. Instituições como o Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), ligado ao Museu do Futebol, dedicam-se à pesquisa, documentação e divulgação das relações entre esporte, política e direitos humanos. Em parceria com centros acadêmicos, como o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas, essas iniciativas contribuem para combater o apagamento histórico e aprofundar o debate sobre o passado autoritário do continente. Reconhecer que futebol e política sempre estiveram interligados é essencial para que o esporte deixe de ser instrumento de dominação e se consolide como espaço de cidadania, reflexão crítica e memória coletiva.

Avanço dos deepfakes transforma a percepção das imagens nas redes sociais e levanta questionamentos sobre verdade e cultura digital
por
Carolina Nader
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28/04/2026 - 12h

Vídeos capazes de simular discursos e expressões que nunca aconteceram deixaram de ser experimentos tecnológicos para se tornarem uma preocupação crescente no ambiente digital. Produzidos com o uso de Inteligência Artificial (IA), os chamados deepfakes ampliam desafios para a informação pública e acendem alertas sobre a disseminação da desinformação, especialmente em períodos eleitorais.

Mais do que uma inovação técnica, esses materiais circulam em um ambiente digital marcado pela velocidade do compartilhamento e pelo peso das emoções na propagação de informações. Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), publicado em 2018 na revista Science, mostrou que informações falsas podem se espalhar até seis vezes mais rápido do que conteúdos verdadeiros nas redes sociais, ampliando desafios para jornalistas, pesquisadores e usuários diante da desinformação online.

Em períodos eleitorais, essa dinâmica torna-se ainda mais relevante. Ao navegar pelas redes, eleitores são expostos a publicações virais que, antes mesmo de serem verificadas ou desmentidas, alcançam grande circulação e passam a influenciar percepções sobre candidatos e acontecimentos políticos. Houve casos como o da deputada Tabata Amaral, que teve suas imagens adulteradas com montagens pornográficas em 2024.

De acordo com João Henrique Martins, advogado especialista em Direito Digital e mestre em IA pela PUC-SP, o principal desafio está na diferença de ritmo entre tecnologia e instituições. “Há um problema diagnosticado de que o processo legislativo não acompanha a mesma velocidade com que a tecnologia evolui. Enquanto a desinformação circula em um ritmo exponencial, a lógica processual possui ritmo muito menor.”

Segundo o especialista, a expansão dos deepfakes também está ligada à democratização das ferramentas de inteligência artificial. O que antes exigia conhecimento técnico avançado passou a estar acessível a qualquer pessoa capaz de utilizar plataformas digitais, ampliando significativamente o potencial de criação e disseminação de materiais manipulados durante campanhas eleitorais.

Martins destaca ainda que a legislação eleitoral brasileira já prevê responsabilização para casos de desinformação. De acordo com ele, a punição pode atingir tanto quem produz quanto quem compartilha conteúdos sabidamente falsos, já que o foco da lei está no ato de divulgar informações inverídicas capazes de influenciar o eleitorado. Ainda assim, a velocidade da circulação digital impõe dificuldades práticas para a aplicação das normas existentes.

A rapidez das redes sociais também contribui para o impacto dos deepfakes ao se conectar diretamente às emoções humanas. As plataformas digitais são estruturadas para priorizar publicações que geram reação imediata nos indivíduos. Para o psicanalista João Bosco, “a racionalidade exige tempo e o ambiente digital valoriza a velocidade.”

Além disso, o especialista afirma que conteúdos extremos rompem a sensação de normalidade. Para ele, o ser humano não está apto a viver em um ambiente onde imagens podem mentir. Durante a maior parte da evolução humana, “ver” era sinônimo de acreditar, e a confiança na percepção visual foi fundamental para a sobrevivência. Agora, com a possibilidade de manipulação total das imagens, esse princípio é abalado, gerando um conflito psicológico. “Esse desalinhamento pode causar ansiedade, insegurança e até uma sensação constante de dúvida em relação à realidade”, afirma.

As consequências ultrapassam o campo individual e passam a afetar diretamente as relações sociais e a confiança coletiva, especialmente em contextos eleitorais. O relatório do World Economic Forum de 2024 apontou a desinformação impulsionada por IA como um dos principais riscos globais de curto prazo, destacando o potencial impacto sobre processos democráticos. Segundo João Bosco, quando as pessoas passam a duvidar sistematicamente do que veem, ocorre uma “erosão da confiança perceptiva”. Isso pode levar a dois extremos: acreditar em tudo pela emoção ou não acreditar em nada pelo ceticismo excessivo. No longo prazo, o impacto atinge não apenas a informação, mas a própria construção de sentidos sobre o mundo.

Diante do avanço dos deepfakes, plataformas digitais e autoridades eleitorais têm ampliado medidas de identificação, por meio da exigência de rotulagem de conteúdos gerados artificialmente, monitoramento, remoção de conteúdo irregular e multas eleitorais. Especialistas alertam, porém, que o desafio não é apenas tecnológico. A dificuldade em distinguir o que é real pode gerar cansaço informacional e afastamento do debate público - fenômeno associado ao aumento da apatia política.

Em um cenário em que imagens já não garantem automaticamente a verdade, o pensamento crítico passa a ocupar papel central na construção da confiança pública e no funcionamento da democracia.

O ato gerou reações dos alunos e tinha como principal intuito propagar o combate ao aborto
por
Hudy Ferreira
Gustavo Tonini
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24/04/2026 - 12h

 

Na manhã desta quarta-feira (22), integrantes do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira  (IPCO) realizaram uma manifestação contra o aborto em frente ao Edifício Reitor Bandeira de Melo da PUC-SP, na rua Ministro de Godói. Com placas escritas  “buzine se você odeia o socialismo”, oferecimento de panfletos anti-aborto e uma fanfarra acompanhada dos gritos da associação. 

 

Parte dos integrantes na manifestação eram jovens que buscavam mobilizar quem passava pela rua. Foto: Gustavo Tonini/Agemt
Parte dos integrantes na manifestação eram jovens que buscavam mobilizar quem passava pela rua. Foto: Gustavo Tonini/Agemt

 

O IPCO é uma organização ideológico-privada dos seguidores de Plínio Corrêa de Oliveira, líder católico tradicionalista, ex-deputado federal e fundador da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), a qual defende o combate ao comunismo, socialismo e modernismo da igreja, além de pautas como a pena de morte e o pró-vida.  

 

Em entrevista, Paulo Américo, um dos encarregados do IPCO na campanha contra o aborto, afirmou que a iniciativa tem como objetivo “alertar a população dos perigos do aborto e encorajar as pessoas que são contra a prática”, ressaltando o caráter mobilizador da ação. 

 

Sem presença feminina do IPCO, Paulo afirma que o debate central é de ordem moral e independe de gênero, “o aborto é legítimo ou não? Você pode matar ou não uma criança no ventre da sua mãe? Não importa se sou homem ou mulher”,enfatizou.

 

Luiza Passos, estudante de jornalismo da PUC-SP, critica a abordagem adotada pelos grupos presentes. Para ela, "a criminalização do aborto não impede que ele aconteça, ela apenas o torna mais perigoso", afirmou. Para a universitária, existe também destaque  da vulnerabilidade de mulheres jovens, negras e de baixa renda, que têm menos acesso a condições seguras de saúde e que recorrem a procedimentos clandestinos.

 

O ato gerou reações nos estudantes contrários às ideias propostas, os quais vaiaram e jogaram ovos e latas das escadarias do prédio como gesto de oposição. Américo recorreu ao artigo 5º, inciso XVI da Constituição Federal, destacando o direito à livre manifestação e a proibição de impedimentos a atos pacíficos em resposta aos ataques. 

 

Durante a campanha, a associação distribuiu um panfleto, “10 razões para rejeitar o aborto”, o qual traz argumentos divididos em tópicos de cunho moral, religioso e político contra a prática. 

 

Luiza também questiona o uso de argumentos religiosos em um Estado laico, "os panfletos distribuídos traziam argumentos religiosos, que não deveriam orientar leis que valem para toda a sociedade", ressalta. Segundo ela, o debate não pode ser reduzido a uma pergunta, pois "simplifica um tema complexo, que envolve saúde pública, desigualdade social e direitos reprodutivos", enfatiza.

 

Exemplar do folheto distribuído em frente à PUC-SP. Foto: Gustavo Tonini/Agemt
Exemplar do folheto distribuído em frente à PUC-SP. Foto: Gustavo Tonini/Agemt

 

No tópico “As destruições mais trágicas”, é relatado que 73 milhões de abortos voluntários ocorrem a cada ano e assemelhando esse número ao de mortes por catástrofes e na Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, a OMS inclui o aborto na lista de serviços essenciais de saúde, publicada em 2020 e sugere um método adequado de fazer o procedimento do aborto para que seja uma intervenção segura para a saúde da mulher. 

 

O panfleto também apresenta um paralelo com o Projeto TAMAR para contrapor a proteção de tartarugas à interrupção da gravidez humana, evocando um imaginário “Projeto Matar” e afirmando tratar-se de “a desvalorização máxima do ser humano”. 

 

Em outro trecho, intitulado “Um abismo atrai outros abismos”, o texto projeta um cenário futuro questionando: “E amanhã? Impor ideologia de gênero às crianças ou a eutanásia a nossos doentes e idosos? Legalizar o amor livre ou a pedofilia? Implantar leis de condenação aos cristãos preconceituosos?”.
 

Em entrevista à AGEMT, Bernardo Iacomo, estudante de Direito na PUC-SP, avaliou que o discurso apresentado busca “tirar o poder de decisão das mulheres”, sem propor medidas concretas para melhorar a qualidade de vida da mãe e da criança após o nascimento. Para Iacomo, o debate ignora questões práticas, além de inibir a responsabilidade paterna, destacando o abandono frequente de pais.

 

Favorável à legalização do aborto, Bernardo critica a moralidade na argumentação dos manifestantes, apontando contradições internas. Ele questiona o fato de defenderem princípios religiosos ligados à preservação da vida enquanto apoiam a pena de morte. Em sua visão “se a vida é um princípio, ela deve ser absoluta”, afirma.

 

A Polícia Militar foi acionada, mas segundo o Comando Geral da PM, não houve registros de operação. A manifestação se encerrou no início da tarde.

O político é o último do núcleo crucial do golpe que não começou a cumprir pena
por
GUSTAVO TONINI
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17/04/2026 - 12h

 

Nesta segunda-feira (13), o ex-deputado federal Alexandre Ramagem, condenado pelo STF a 16 anos de prisão por envolvimento na tentativa de golpe e outros crimes à nação, foi detido por agentes do ICE (Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira) em Orlando, Flórida. 

A detenção do ex-deputado federal, não teve relação direta com suas condenações no STF, mas sim com o fato de estar no país de forma irregular, com o visto de turista vencido e a falta de passaporte regularizado. Agora, o político foragido aguarda audiência com um juíz que trata de questões migratórias, no qual começará o processo que decidirá o que será feito. Ao mesmo tempo, Ramagem lançou um pedido de asilo nos EUA, que também será analisado. 

 

​  Assim como Eduardo Bolsonaro, Alexandre Ramagem fugiu para os EUA quando teve seu mandato cassado. foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@alexandreramagem22  ​
Assim como Eduardo Bolsonaro, Alexandre Ramagem fugiu para os EUA quando teve seu mandato cassado. Foto: Reprodução/@alexandreramagem22

Trajetória de Alexandre Ramagem 

O ex-depeutado federal começou sua trajetória na Polícia Federal como delegado em 2005 e alcançou notoriedade em 2018, quando foi nomeado como chefe da segurança pessoal de Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial. Com a vitória nas eleições, foi escolhido para ser o chefe da Abin, Agência Brasileira de Inteligência, ainda com o então presidente afirmando que “grande parte do destino da nação” passaria nas mãos de Ramagem. Bolsonaro chegou a nomeá-lo para o cargo de diretor-geral da PF, o que foi impedido pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes. 

Com a notoriedade, lançou a sua candidatura à Câmara dos Deputados, sendo eleito mesmo com a derrota de Jair Bolsonaro. Também concorreu à prefeitura da cidade do Rio de Janeiro em 2024. Em meio a isso, em outubro de 2023, também foi alvo de uma investigação da PF pela utilização da Abin para realizar rastreamentos ilegais de ministros do STF, políticos, jornalistas e advogados.

 

Alexandre Ramagem e Jair Bolsonaro em manifestações de extrema-direita em 2024. REPRODUÇÃO/Instagram/@ramagemprefeitorj
Alexandre Ramagem e Jair Bolsonaro em manifestações de extrema-direita em 2024. Foto: Reprodução/@ramagemprefeitorj

 

Com as investigações e o julgamento da tentativa de golpe de estado realizada em Janeiro de 2023, Alexandre Ramagem foi identificado como um integrante do núcleo crucial da organização criminosa. Ele foi acusado pelo STF também por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado.

Em meio ao julgamento, em setembro de 2025, fugiu do Brasil de forma clandestina pela fronteira de Roraima com a Guiana em direção aos EUA com seu passaporte diplomático, como foi apontado por investigação da PF. Porém, já havia uma determinação do cancelamento do passaporte utilizado, com isso, em dezembro do mesmo ano, com a cassação do seu mandato de deputado federal pelo julgamento da tentativa de golpe, também foi feito um pedido de extradição do Ministério de Justiça do Brasil ao Departamento de Estado dos EUA, também com seu nome incluído na lista da interpol.

Após a detenção pelo serviço de imigração dos Estados Unidos, uma possibilidade é a da extradição, que envolveria devolução do político diretamente ao estado brasileiro, por responder processo penal em outro país.

Nova norma estimula o desenvolvimento e a incorporação mais rápida das novas tecnologias no setor de saúde
por
Carolina Nader
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16/04/2026 - 12h

Na última sexta-feira (10) , o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei que tem como objetivo facilitar o acesso a remédios, testes diagnósticos e outros produtos de terapia avançada para pacientes da rede pública de saúde. De acordo com o comunicado, as vacinas contra o câncer e outros tratamentos inovadores devem ser disponibilizados gratuitamente e de forma prioritária pelo Sistema Único de Saúde (SUS). 

Publicada nesta segunda-feira (13) no Diário Oficial da União (DOU), a nova norma - que já está em vigor - estabelece que as vacinas deverão estar centralizadas na Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer. As vacinas, os medicamentos e os produtos oncológicos de terapia avançada enquadram-se na categoria de precedência prioritária, direito legal que garante atendimento imediato ou preferencial a grupos específicos. 

Como previsto no DOU, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) poderá destinar recursos específicos ao financiamento de pesquisas, projetos e estudos voltados ao desenvolvimento de tecnologias contra o câncer no País. 

Com base no Art. 7°-B, haverá um incentivo à análise genética como ferramenta de apoio ao diagnóstico e à personalização do tratamento oncológico segundo as características biológicas do câncer. Após a análise genética de cada paciente, as vacinas, que são produzidas de forma individual, serão aplicadas para estimular a produção de células de defesa direcionadas ao combate do tumor. 

Pela nova legislação, a regulação sanitária de tecnologias contra o câncer obedecerá a princípios para tornar mais rápida a liberação de vacinas e medicamentos. 

A lei objetiva aumentar a produção científica nacional, reduzindo a dependência de importações e apoiando a aplicação de Inteligência Artificial (IA) em atividades de pesquisa e desenvolvimento, voltados à inovação oncológica e ao fortalecimento de parcerias com universidades e centros de pesquisa públicos e privados.