Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, mostra reúne mais de 70 artistas brasileiros e propõe uma jornada crítica sobre o histórico de violências no sertão
por
Helena Aguiar de Campos
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06/05/2026 - 12h

 

A mostra, que ocupa todos os andares do CCBB, articula um diálogo da cultura brasileira, em relação às heranças indígenas e africanas, ao abordar temas como espiritualidade e ancestralidade. As obras revelam a força dessas culturas, trazendo à tona práticas religiosas, conhecimentos agronômicos e costumes cotidianos que atravessam gerações.

 

obra de tinta acrílica sobre manta térmica
Obra: rOna. Foto: Helena Campos/Agemt

 

A exposição contém obras realizadas majoritariamente por artistas das regiões Norte e Nordeste, de comunidades afrodescendentes e indígenas, comissionadas especialmente para a exposição. Já na entrada, o público é impactado com uma instalação triangular que carrega várias telas da artista premiada, Biarritzzz. A obra, pendurada no teto do edifício, representa o instrumento histórico dos trios de forró, exercitando o imaginário sertanejo.

 

Obra triangular pendurada ao teto
Obra: Biarritzzz. Foto: Helena Campos/Agemt

 

O projeto expográfico investiu em cores fortes e fez relação a biodiversidade brasileira para marcar diferentes elementos da região e entregar também, uma experiência sensorial. A primeira cor é verde da vegetação, representando a força da vida que brota mesmo com dificuldade. Depois, as paredes se tornam azuis, assim como o céu, inspiradas pela liberdade e espiritualidade. E enfim, o laranja, vermelho e amarelo, cores que representam o calor, fogo e o sol, como o começo e fim do dia no sertão, simbolizam a luta e esperança.

 

Uma máscara colorida suspensa, elementos sonoros e fundo verde bandeira
Obra: Denilson Baniwa. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Homem à frente de fotos de mulher indígena na favela
Obra: Xamânica e Tayná Uràz. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Pinturas sobre placa de trânsito
Obras: Amilton. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Fotografias de pessoas negras com miniatura de caravela
Obra: Márvila Araújo. Foto: Helena Campos/Agemt

 

“O sertão é um território simbólico no qual diferentes experiências históricas se cruzam e onde a arte pode revelar múltiplas narrativas sobre o país”,

Ariana Nuala, uma das curadoras.

 

Fotografias de pessoas envolvidas por sementes
Obra: Ayrson Heráclito. Foto: Helena Campos/Agemt

 

A exposição está aberta para visitação até o dia 3 de agosto de 2026, das 9h às 20h e a entrada é gratuita.

 

De onde surgiu a ideia

A exposição nasceu das pesquisas de Marina Maciel, criadora e diretora-geral do projeto, desenvolvidas do mestrado ao seu doutorado na Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB). Em 2023, a ideia saiu no papel e ganhou forma com o Coletivo Atlântico, que atua na defesa dos direitos humanos por meio da arte. A primeira edição, Atlântico Vermelho  denunciou dor e massacres causados pela escravização e marcou presença na ONU com obras de mais de 20 artistas afro-brasileiros. Como consequência da visibilidade e importância realizaram, já no próximo ano, o Atlântico Floresta, no Museu de Arte do Rio (MAR), reunindo artistas contemporâneos para abordar a violência contra povos originários.

 

As edições carregam o nome “Atlântico” com uma dimensão filosófica e crítica: se, por um lado, o oceano foi marcado por morte e sofrimento devido à processos coloniais, por outro, a arte decolonial e nacional, ressignifica a história, evidenciando vida e resistência.

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Promotoria deu prazo de 15 dias para que a empresa esclareça seus critérios na cobrança de taxas na venda virtual
por
Rafaella Lalo
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06/05/2026 - 12h

A Ticketmaster Brasil foi notificada pelo Ministério Público de São Paulo e terá 15 dias para esclarecer a cobrança das taxas de 20% sobre os ingressos vendidos no site. O despacho foi assinado pela Promotoria de Justiça de São Paulo na quinta-feira (9) de abril, e questiona a proporcionalidade das taxas de serviço e os custos adicionais cobrados dos consumidores.

A denúncia foi apresentada pelo deputado Guilherme Cortez (PSOL), após recolher várias queixas feitas pelos compradores que adquiriram ingressos para shows como BTS, Harry Styles e Kid Abelha. A venda para o evento de Harry Styles que iniciou em janeiro deste ano já recebia reclamações sobre os custos desproporcionais. Clientes perceberam que os valores mudam de acordo com o preço do ingresso. Por exemplo, entradas de R$700,00 têm taxas de R$140,00, enquanto um ingresso de R$265,00 tem R$53,00 de custo adicional.

Em sua representação, o deputado ressalta também a ilegalidade dessas ações, além da falta de transparência por parte da empresa. 

Print da denúncia feita na rede social X do deputado Guilherme Cortez
Postagem feita nas redes sociais do Deputado Guilherme Cortez. Foto: Reprodução X.com 

De acordo com informações divulgadas sobre o despacho assinado pelo promotor Donisete Tavares de Moraes Oliveira, a Ticketmaster deverá explicar como é feito o cálculo dessas taxas de 20%, já que a cobrança é fixa e aplicada ao valor total da compra independentemente do valor ou tipo da entrada (inteira ou meia).

A Promotoria também aguarda esclarecimentos sobre quais são os custos de infraestrutura e gestão de demanda que justifiquem essa cobrança, qual é o número total de ingressos disponibilizados para venda por cada dia de show e se as taxas são proporcionais ao valor da entrada vendida de forma on-line.

Em setembro de 2025, o Procon pediu explicações para a empresa, após esses custos adicionais serem cobrados nos ingressos do show de The Weeknd. Situação semelhante ao que ocorreu nos shows de BTS e Harry Styles.  

A Ticketmaster Brasil confirmou, em nota encaminhada à imprensa, ter recebido a notificação do MP-SP. Segundo a empresa, a taxa de serviço cobrada nas vendas online está relacionada a custos de infraestrutura, operação do site e medidas antifraude voltadas à segurança do comprador. A plataforma também declarou que essas cobranças são informadas de forma transparente durante o processo e ressaltou que o consumidor tem a opção de comprar ingressos em bilheterias físicas sem os custos adicionais cobrados no site.

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Apresentações aconteceram em São Paulo e no Rio de Janeiro, após quase dois anos da última passagem do artista pelo país
por
João Paulo Di Bella Soma
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05/05/2026 - 12h

The Weeknd voltou ao Brasil nos dias 26, 30 de abril e 01 de maio em São Paulo e Rio de Janeiro, como parte da etapa latino-americana da turnê After Hours Til Dawn. A turnê consolida a era de sua mais recente trilogia musical composta pelos álbuns After Hours, Dawn FM e Hurry Up Tomorrow.

Depois de passar por países como Estados Unidos e México, a turnê passou pelo Estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro, no dia 26 de abril e pelo Morumbis, em São Paulo, nos dias 30 de abril e 1 de maio. A produção impressiona não só pelo tamanho, mas também pelo conceito visual, que mistura elementos futuristas com uma estética sombria e cinematográfica.

Anitta foi a artista escolhida para os shows de abertura da turnê na América Latina e aqueceu o público com uma performance energética e cheia de identidade brasileira. Misturando funk, pop e elementos eletrônicos, a cantora entregou um setlist que transitou entre novidades e velhos sucessos. Ela iniciou com faixas como “Meia Noite”, “Desgraça”, “Mandinga” e “Vai Dar Caô”, e posteriormente levantou a plateia com hits como “Sua Cara”, “Bola Rebola” e “Vai Malandra”.

Durante cerca de 2h30 de show e com um repertório de aproximadamente 40 músicas, The Weeknd conduziu o público por seus 15 anos de carreira. O show é uma experiência imersiva, com iluminação dramática, cenografia elaborada e uma narrativa visual que remete a um filme de terror e suspense. Acompanharam o cantor sua banda e o lendário produtor Mike Dean.

The Weeknd no Estádio MorumBIS
The Weeknd em tour Foto: Reprodução Instagram @theweekndmxc


Apresentando músicas do álbum Hurry Up Tomorrow ao lado de seus maiores sucessos, Abel iniciou o show com “Baptized In Fear”, “Open Hearts” e “Wake Me Up”, criando uma atmosfera intensa logo de início. Em seguida, emendou hits como “After Hours”, “Starboy” e “Heartless”, levando o público ao delírio.

O cantor ainda retornou ao seu novo projeto com “Cry For Me” e “São Paulo”, faixa que ganhou destaque especial por homenagear a cidade. Em um dos momentos mais marcantes da noite, Anitta voltou ao palco para cantar o novo single “Rio”, uma homenagem direta à cidade carioca e que conta com sua participação. A faixa traz influências do Brazilian Phonk e chama a atenção pelo visual de seu futuro clipe, dirigido pelo famoso cineasta japonês Takashi Miike.

Ao longo do show, The Weeknd percorre diferentes fases da sua carreira e revisita trabalhos como Dawn FM, Beauty Behind The Madness, My Dear Melancholy, e House of Balloons. Em versões mais intimistas de “Out of Time” e “I Feel It Coming”, o artista desceu até a grade e interagiu com os fãs. Em um momento espontâneo, cantou com uma fã da primeira fileira, correu pela frente do palco cumprimentando o público e demonstrou gratidão pela recepção calorosa.

Abel encerrou a noite com uma declaração emocionante: “Eu sinto que estou em casa quando estou em São Paulo”. Ele garantiu que volta ao Brasil, mas não deixou pistas de quando. 

Fugindo do formato tradicional e engessado, o show conta com longas passarelas que avançam sobre a pista, aproximando o cantor do público, enquanto a banda permanece conectada no palco principal, sustentada por um telão gigantesco que amplifica a experiência visual.

the weeknd palco
Palco After Hours Til Dawn Foto: TAIT


Além da estrutura, a performance vocal de Abel também se destaca. Com uma voz afinada, ele entrega estabilidade ao vivo mesmo em faixas mais exigentes, combinando técnica, carisma e presença de palco. Sempre em movimento, interagindo e incentivando o público, o artista mantém a energia elevada do início ao fim.

A parte visual do show ganha ainda mais força com o uso criativo da iluminação. Lasers cortam o estádio em diferentes direções, criando cenários dinâmicos, enquanto as pulseiras luminosas distribuídas ao público transformam a plateia em um verdadeiro mar de luzes sincronizadas. No encerramento, fogos de artifício tomaram conta do céu e fecharam o espetáculo de forma memorável ao som de "Moth To A Flame".

A última vinda do artista ao país aconteceu em 7 de setembro de 2024, durante a fase final da turnê que promovia o álbum Hurry Up Tomorrow. Na ocasião, o cantor contou com participações especiais de Anitta e Playboi Carti.

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Jornal norte-americano destaca nomes que moldam a indústria da música dos Estados Unidos e influenciam o cenário global
por
Livia Vilela
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05/05/2026 - 12h

 

O jornal americano The New York Times publicou na última terça-feira (28) uma seleção dos 30 maiores compositores americanos vivos. Sem ordem de ranking, o levantamento se propõe a definir o padrão de compositor da nova geração e quais seriam as suas principais influências, reunindo artistas que seguem moldando a produção musical contemporânea e ampliando seu alcance cultural em escala global.

O projeto faz parte de uma cobertura especial sobre o ofício da composição, com entrevistas em vídeo com nomes como Jay-Z, Taylor Swift e Lucinda Williams, além de artistas e produtores como Nile Rodgers, Mariah Carey e Babyface. A proposta é aproximar o público dos processos criativos por trás de algumas das canções mais conhecidas das últimas décadas, destacando o papel do compositor como eixo central da indústria da música.

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Jay Z em entrevista para o The New York Times 
Foto: Reprodução/ Instagram @nytimes

A seleção foi construída a partir de mais de 700 indicações enviadas por mais de 250 profissionais da música, além da curadoria de críticos do jornal. O processo envolveu semanas de análise e debate sobre critérios como influência, consistência artística, impacto cultural e permanência ao longo do tempo.

O resultado combina compositores consagrados, como Bob Dylan, vencedor do Nobel de Literatura, Carole King e Stevie Wonder, com artistas que redefiniram o pop e o hip-hop nas últimas décadas, como Kendrick Lamar, Taylor Swift e Lana Del Rey. O que foi avaliado em comum entre todos esses artistas foi a capacidade de atravessar gerações e influenciar não apenas o mercado americano, mas a produção musical global.

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Taylor Swift em entrevista para o The New York Times 
Foto: Reprodução/ Instagram @nytimes

A lista também reconhece o peso de compositores que atuam nos bastidores da indústria, responsáveis por sucessos gravados por outros artistas, como Diane Warren, Babyface, The-Dream e a dupla Jimmy Jam & Terry Lewis. A diversidade estética é um dos pontos centrais da seleção. Além de reunir diferentes gerações e estilos, passando pelo folk, country, pop, R&B e hip-hop, a lista também reflete a ampliação do alcance global da música americana. 

Outro aspecto relevante é a inclusão de artistas latinos e bilíngues, como Romeo Santos e Bad Bunny, sinalizando como a ideia de “compositor americano” hoje incorpora trajetórias e influências fora do território dos EUA e da língua inglesa. O recorte reforça como a produção musical atual é globalizada e ultrapassa fronteiras linguísticas e culturais, acompanhando transformações do próprio público e da indústria. 

Lista dos 30 Maiores Compositores Americanos Vivos:
 Babyface
 Bad Bunny 
 Bob Dylan
 Brian & Eddie Holland 
 Bruce Springsteen
 Carole King
 Diane Warren
 Dolly Parton
 Fiona Apple
 Jay-Z
 Jimmy Jam & Terry Lewis 
 Josh Osborne, Brandy Clark & Shane McAnally 
 Kendrick Lamar
 Lana Del Rey
 Lionel Richie
 Lucinda Williams
 Mariah Carey
 Missy Elliott
 Nile Rodgers
 Outkast
 Paul Simon
 Romeo Santos 
 Smokey Robinson
 Stephin Merritt 
 Stevie Wonder
 Taylor Swift
 The-Dream
 Valerie Simpson
 Willie Nelson
 Young Thug

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Gato sem Rabo reabre em grande estilo, com novo café e restaurante, e fortalece o espaço para o público leitor em SP
por
Sofia Morelli
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05/05/2026 - 12h

Em maio de 2025, após uma reforma, Gato sem rabo abre suas portas ao público, com mais conforto para receber os interessados por uma literatura voltada ao mundo e imaginário feminino, em novo endereço no centro de São Paulo. Johanna Stein, fundadora do estabelecimento, idealizou-o conforme notou a falta de um lugar em que obras escritas por mulheres cisgênero, trans e travestis fossem valorizadas e mais acessíveis. Agora composto por um café e bar para leitores e para cidadãos que por ali passam. Durante sua graduação no campo das artes, Johanna tinha um grande interesse no trabalho de autoras mulheres, mas ao longo de suas pesquisas começou a esbarrar repetidamente com a dificuldade de achar textos produzidos por essas artistas em geral, mesmo em uma metrópole tão plural como  São Paulo. Foi dessa frustração que se materializou a livraria, criando um espaço para que essas vozes pudessem fluir.

Cada vez mais, o centro de São Paulo é preenchido por estabelecimentos que exploram partes da cultura subvalorizadas e dispersas. “Existe uma demanda por obras produzidas por grupos historicamente excluídos, que tem aparecido no dia a dia dos lançamentos das editoras”, afirma Ana Paula Pacheco, professora  do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo (USP), além de escritora de ficção e de romance experimental. “Acho que isso virou um nicho de mercado, para o bem e para o mal, acho que tem um desrecalque de vozes anti-escaladas  e desrecalque é muito bom, por outro lado existe uma certa tendência de eliminar a leitura crítica das obras, é importante tratar essas obras como obras para valer que podem passar por um critério estético, crítico de leitura.”, reflete a professora da USP, em questão das popularização que vem ocorrendo dessas obras.

 

Livraria Gato Sem Rabo, no Centro de São Paulo.  Por Sofia Morelli

 

A curadoria da Gato sem rabo se preocupou em montar um acervo com enfoque na produção do sul global, além de clássicos de Virginia Woolf, escritora do ensaio que inspirou o próprio nome da livraria. Nesse ensaio “Um quarto só seu”, de 1928, a narradora observa um animal estranho em um gramado, onde não deveria estar caminhando, uma possível e famosa interpretação é a de estranhamento que as mulheres sofrem ao tentarem ocupar  um lugar no mundo dos intelectuais, ousando a  escrever. 

O mundo evoluiu muito desde então, mas ainda há dificuldades inegáveis para mulheres que desejam ser intelectuais, o que não significa que não há livros que caminham por todos os gêneros literários, poético, fictício, político assim como romance e questões corporais. “Eu sinto sobretudo no meio intelectual, na universidade, na circulação do pensamento, as mulheres são uma espécie de nicho do mercado mesmo. Na universidade eu vejo ainda uma aparência de democratização, nas ações que contém uma violência histórica, às vezes muito sutil, por exemplo no domínio masculino do debate, de bancas de defesa de tese e na maneira infantilização o pensamento das mulheres, às vezes elogiando, mas existe uma certa minoridade que se tenta impor no pensamento delas”, diz Ana Paula.

Essa visibilidade a essas obras significa muito para jovens garotas, com mais possibilidades de experienciar um mundo de vozes mais próximas de seus imaginários impulsiona o surgimento de novas possíveis autoras, ou até mesmo para que o mundo intelectual seja colocado como mais acessível para  todos os grupos e gêneros, e menos unificado para o público masculino. Com clube do livro, rodas de conversas e eventos, a livraria se transpõe como um lugar para que vozes sejam escutadas e que novas vozes floresçam num caminho cada vez menos fechado. 

Em suma, a criação de Johanna se demonstra como um espaço com uma importância física e emocional para a comunidade literária da região, que está sendo cuidado para que siga uma tendência de crescimento.  A ausência vira presença com um acervo com cerca de 650 escritoras, um esforço além da prateleira, que tem compromisso em explorar as visões de mundo na literatura produzida por elas. Livrarias independentes, como essa, fazem parte de uma transformação cultural ativa de extrema importância para o ecossistema literário “O conhecimento de relatos das mulheres, ele forma novas mulheres de outras maneiras, mas também não acho que a gente tenha que ter ilusões quanto a uma aceitação de mulheres no meio intelectual, acho que temos que ocupar espaços, disputar os espaços politicamente, sem esperar aceitação masculina”, de acordo com Ana Paula.

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As instiuições são fundamentais para a preservação das artes paulistanas
por
Bárbara More
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25/05/2022 - 12h

Por Bárbara Cristina More

Além de ser o centro financeiro do Brasil, São Paulo também é uma metrópole muito rica quando se pensa em cultura. Com o intuito de garantir livre acesso da população às artes, a Secretaria Municipal de Cultura dispôs 20 Casas de Cultura espalhadas pela cidade. As instituições são voltadas para a atuação do setor artístico-cultural, promovendo atividades gratuitas que abrangem todas as camadas da sociedade. Dentro delas, um universo de cores e texturas invade os sentidos dos presentes. 

Quem já passou por uma dessas casas, provavelmente não conseguiu ignorá-la. Estruturas imponentes e coloridas, elas chamam os transeuntes a visitar seu espaço. No interior, pessoas de todas as idades celebram as artes durante os eventos e exercitam talentos criativos nas oficinas. Localizadas nos corações de bairros tradicionais de São Paulo, essas instituições também abrigam exposições artísticas, apresentações musicais e espetáculos teatrais. Contudo, por se tratarem de iniciativas públicas, os polos sofreram muito com a pandemia de Covid-19. 

Os espaços, que antes eram dominados por músicas e conversas animadas, perderam a vida e foram invadidos pelo silêncio. Por conta das restrições sanitárias, fecharam as portas que estavam sempre abertas e se viram obrigados a buscar por alternativas. Algumas recorreram à lives e aulas remotas, enquanto outras precisaram cessar as atividades. No caso da unidade do Butantã, apenas os seguranças ficavam no local para cuidar da propriedade. Com o decreto de liberação, ela deu boas-vindas novamente ao público e já recuperou todo o seu esplendor. 

Oficializado em 1992 com a lei de Casas de Cultura, a instituição foi planejada e construída com o intuito de ser um sacolão e, por conta disso, apresenta um formato de galpão. O coordenador da casa, Danilo, ficou animado ao exaltar o bairro que se tornou um símbolo de residência artística. A instituição é um reflexo da história local e se ergueu em meio a grandes polos exportadores de cultura. Artistas ocuparam o espaço antes que ele pudesse se tornar um comércio e criaram uma casa que acolhe aqueles que estão dispostos a conhecer seu universo. 

No interior, frequentadores e oficineiros se misturam enquanto exercem diferentes atividades. Por se tratar de um espaço sem divisões, algumas oficinas acontecem simultaneamente, criando uma explosão de cores e sons. A música se mistura às conversas, risadas e ensinamentos que estão sendo passados. Pessoas de diferentes gerações, classes sociais e origens se encontram para praticar ações distintas, mas sem haver confusão. Ao mesmo tempo em que existe uma inundação de informações, tudo é simples de ser entendido e parece hipnotizar o visitante a entrar e não sair mais. 

Se a casa do Butantã é bem colorida, no polo de Santo Amaro reinam os tons marrons. A explicação para o ar mais sóbrio do local está em sua história. Antes de abrigar a instituição, o prédio chegou a ser um mercadão e uma funerária. Hoje, ele ainda preserva a sua arquitetura e representa um imponente patrimônio histórico do bairro. As marcas no piso de madeira denunciam os milhares de sapatos que se arrastavam no chão enquanto seus donos dançavam nos bailes. Nas paredes, estão quadros e registros de seus principais eventos e o orgulho da casa: o samba de vela. 

Funcionária da casa há 15 anos, Neuma carregou suas palavras de felicidade ao falar sobre o tradicional bloco de samba. Apesar de as atividades estarem voltando gradualmente após terem cessado durante a pandemia, o visual do espaço permite imaginar casais apaixonados girando ao som de músicas nacionais e aproveitando uma bela noite de divertimento. Os idosos, que estavam acostumados a bailar de duas a três vezes por mês, ocasionalmente batem na porta e clamam pelo retorno dos eventos. Por conta da saudade das aulas, o público se entristeceu e alguns até chegaram a ficar doentes. A cultura é uma distração para a terceira idade, que representa o grupo mais frequenta o local. 

Quando se fala de tradição, não há como deixar de mencionar a Casa de Cultura Salvador Ligabue. Se para o resto da cidade ela se tornou um ponto turístico, para os moradores da Freguesia do Ó, o local integra sua rotina. A instituição faz parte do novo polo cultural e gastronômico do Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó, um projeto de lei instaurado pela vereadora Sandra Santana. Ao longo de seus 30 anos de existência, a construção cresceu e anexou o espaço da junta militar, onde agora há uma escola gastronômica. 

Da gastronomia às artes, o largo não falha em atrair público. Na época de Carnaval, a região hospeda um dos mais tradicionais blocos da cidade de São Paulo. Contudo, não é apenas no feriado que se pode encontrar festas. A Casa de Cultura invoca a todos a participar de seus programas e se inscreverem em sua oficinas. As crianças do bairro se habituaram a frequentar o local para aprender novas habilidades e se divertir no processo. Assim como o polo de Santo Amaro, a Salvador Ligabue recebe muitos idosos, que parecem rejuvenescer ao adentrar o seu espaço. Enquanto passam seu tempo livre no acolhedor local, os sorrisos não deixam seus rostos. Contudo, tiveram que esperar longos meses para sentir novamente o calor da casa, que segue tomando cuidados preventivos e realiza controle de carteiras de vacinação para acessar as atividades.

Na luta pela sobrevivência à pandemia, o coordenador Luís se empenhou em fazer um estudo de como manter os artistas em atividade de forma segura. Seguindo o exemplo de outras unidades, ele também recorreu aos meios de comunicação onlines e criou uma programação onde os artistas eram contatados e cadastrados em um sistema para que a instituição e o público conseguissem continuar contemplando os programas. Com as pessoas retidas em casa e clamando pelo acesso às artes, não havia alternativa senão reunir esforços para inovar os equipamentos culturais e se adaptar nesse processo.

Para participar das aulas gratuitas oferecidas pelas instituições, o interessado deve aguardar pela abertura do período de inscrições, visitar a Casa de Cultura de sua preferência e deixar os seus dados.

Secretaria de Cultura de São Paulo 

Em entrevista à AGEMT, a secretária de cultura de São Paulo, Aline Torres, comentou a importância das Casas de Cultura para a sociedade. Para ela, essas instituições são uns dos principais equipamentos de livre acesso e descentralização da cultura, porque elas estão, de fato, nos mais diversos bairros. Preocupada com o fomento de políticas públicas das artes e implantação de novos projetos para a sociedade, ela revelou que a secretaria está introduzindo um programa novo.

Ainda em processo, ele fomentará 300 blocos de carnavais periféricos pequenos. Aline afirma que já conseguiram instrumentalizar a ideia juridicamente para contratar esses grupos. No entanto, ela acredita que a pandemia não teve impacto somente nos programas de incentivo à cultura, mas na cultura como um todo. Segundo Torres, ela foi o primeiro segmento da sociedade que teve impacto, depois da saúde, porque foi onde os palcos e os microfones foram fechados. Ao mesmo tempo, a cultura foi quem deu sobrevida para todo mundo.

A secretária acredita no poder das artes em trazer forças para a população. Durante a entrevista, ressaltou que foi preciso criar um novo olhar e inovar na hora de levar a cultura até a população, sendo o momento das lives e dos shows em casa. Em específico, a sociedade conseguiu reorganizar e entender que podia transformar o teatro em audiovisual, abrindo novas plataformas e possibilidades da cultura para todos os fomentos..

 

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Imagem estereotipada em filmes representa o Brasil no exterior.
por
Lucca Cavalheiro Ranzani
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08/06/2022 - 12h

Por Lucca Ranzani

O estereótipo é algo que sempre existiu na sociedade, desde os primórdios, onde o ser humano se tornava racional, as pessoas já realizavam isso. Sendo uma representação de uma imagem preconcebida, padronizada e generalizada definida pelo senso comum. Usado principalmente para definir e limitar as pessoas quanto a aparência, naturalidade e comportamento. Era tratado como normal realizar estereótipo na dramaturgia, aonde eles pegavam coisas de outra  nacionalidade, raça, sexo etc.

Um exemplo bastante claro sobre a questão do estereotipo racista nas produções é a peça teatral Chocolat e Footit que era uma dupla de amigos palhaços, Chocolat era o primeiro palhaço negro de sucesso na França moderna, nas apresentações era feito brincadeiras contra o Chocolat, onde era derrubado da cadeira, sofria agressões, mas era tratado como uma forma de brincadeira e hoje é compreendido que era um ato de racismo e os espectadores da época não via isso e pelo contrário achava engraçado. Vem mudando de uns tempos para cá, porém pessoas negras não se viam representadas em livros, filmes, séries de televisão, brinquedos e etc. Os negros não tinham pessoas para se impressionar e inspirar, mas com a mudança de ideias, pensamentos, os negros começaram a ser representados. Um exemplo claro disso é na série de TV americana Brooklyn 99, uma série de comedia, situada em uma delegacia de polícia em Nova York que é chefiada por um capitão negro e homossexual, também tem um sargento negro, e duas detetives latinas que acabam representando essas minorias. 

As produções de Hollywood são as mais famosas do mundo, que recebem notoriedade pelos astros, sets de filmagens, direções e um alto nível de orçamento. Mas o preço dessa notoriedade é um alto nível de disseminação de estereótipos e visões distorcidas do mundo. Desde o começo Hollywood reforça preconceitos existentes na sociedade norte americana. Paródias, personagens caricaturescos e técnicas de filmagens são elementos utilizados até hoje, nas para representar determinadas culturas de forma equivocada e depreciativa.   

O Brasil tem muitos estereótipos apresentados em produções audiovisuais que acabam sendo retratados como um país de favelas, samba, mulheres e etc. No filme Rio (2011) é mostrada uma imagem customizada do país e mais especificamente do Rio de Janeiro, em que é apresentada a velha e boa “receita de bolo” para um filme fazer sucesso com a imagem do Brasil no exterior. No filme existem alguns equívocos como a fala de personagens quando interpretado em português e espanhol, com um sotaque latino e também usam expressões típicas do espanhol. No filme o país é repleto de macacos, corrupção, favelas, contrabando de animais silvestres e outros estereótipos.   

Para o professor Norval Baitello Jr, estereótipo é uma forma de repetição, um clichê, onde as produções acabam realizando essas gafes para assim poder ter mais sucesso, pois as pessoas têm o costume de ir sempre no comum, no porto seguro. Se na produção audiovisual faz sucesso filmes em que é retratado o Brasil de forma estereotipada  por exemplo, então acaba fazendo sucesso lá fora por ser algo que é bem-visto por eles e aqui no Brasil por ser um filme de fora falando sobre a gente e assim fazer sucesso. É necessário ter uma mudança de pensamento tanto por parte das empresas, quanto por parte dos espectadores pois que devem abrir a cabeça para novas ideias e assim tentar diminuir os estereótipos e as repetições. Apesar disso ser algo seguro para nós, as vezes é necessário sair da zona de conforto e explorar coisas novas e também entendermos que os estereótipos contra raça, sexo, nacionalidade etc. é algo errado e temos que combater essas situações. 
 

 

 

 

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Uma viagem cultural em uma sala de aula acerca do surgimento de dançarinos e o estilo musical
por
Victor Trovão
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18/05/2022 - 12h

Por Victor Trovão

 

Dia 9 de abril, uma manhã de um sábado nublado acompanhado de uma garoa esporádica. Os vagões da linha azul do metrô surpreendentemente estavam cheios naquele horário, as placas pontuavam duas saídas, uma para a avenida e outra para a praça, esta, a qual a maioria das pessoas seguia. Talvez pelos cheiros, pelos sons ou simplesmente pela movimentação coletiva que guiava ao local. Um aglomerado de barracas vermelhas, comidas asiáticas, doces recheados com feijão, pessoas das mais diversas partes comendo, conversando e explorando a feira. Uma praça que conta a história da cidade, de povos que por ali passaram e construíram suas vidas, costurando até se tornar o bairro da Liberdade, na metrópole paulistana.

O que mais impressionou naquela manhã não foram os postes com luzes japonesas, nem as pessoas vestidas de cosplay, ou até mesmo a fila incontável de famílias esperando pela tigela de Yakissoba, mas sim, um grupo distinto de jovens parados na frente de uma porta laranja, que contavam cada segundo por algo. Eles aguardavam por uma aula, uma aula singular, que não se poderia imaginar que seria sediada ao entrar no corredor por trás daquela porta e subir um elevador que demorava mais do que o esperado. 

Ao entrar na sala, os alunos das mais variadas idades se espalharam pelo espaço, se alongaram apoiados nas paredes cinzas e cantarolavam músicas que já tinham alguma familiaridade. Dentre eles, estava a professora, que não se diferencia muito dos estudantes, de rabo de cavalo e uma camisa bem solta e leve, ela ligou o som, propôs um alongamento e em seguida ligou uma música chamada “Eleven” quase no volume máximo. E ali iniciou-se uma aula de dança de um dos ritmos musicais mais famosos da contemporaneidade, K-pop (Korean Pop).  


Cada pessoa na sala embora compartilhassem o gosto do mesmo estilo musical eram extremamente diferentes, a faixa etária era dos 15 aos 30, altos, baixos, paulistanos e naturais de outras cidades, eles se juntam regularmente aos sábados pela manhã para estudar essa face da expressão corporal. O alongamento logo iniciou-se, alguns pareciam mais tranquilos em sua execução, outros nem tanto, pois a flexibilidade e força estavam sendo exigidos ao máximo a fim de que nenhum deles pudessem se machucar no decorrer da aula.

Embora o mundo esteja gradativamente conhecendo o K-pop dada a explosão das músicas, cada vez mais ele também se conecta com a dança que acompanha as canções. Um dos marcos importantes da trajetória do gênero foi quando “Gangnam Style”, uma música de PSY, foi recebida muito bem no ocidente e abriu os olhos para muitas pessoas sobre o potencial das manifestações artísticas que aconteciam há anos na Coreia do Sul. A partir disso, com a atenção voltada para lá, o investimento governamental na cultura, o aprimoramento de técnicas artísticas e o trabalho árduo possibilitou com que naquele país surgissem empresas, dedicadas a explorar esse novo território, que hoje impacta diversos países, especialmente no Brasil.

Três grandes nomes foram importantes para criar o que podemos chamar de a “fórmula do K-pop”, são eles YG Entertainment, SM Entertainment e JYP Entertainment. A partir deles, diversos artistas e grupos nasceram após o período de trainee, o qual os jovens que possuem aptidões e o sonho de se tornarem artistas são submetidos para treinar e adquirir as habilidades vocais e em dança que precisarão ao longo de sua carreira. Os anos de treinamento não são fáceis, a pressão em se enquadrar nos padrões e na qualidade que as empresas desejam são altas. Apenas aqueles que demonstrarem esforço, talento e foco serão vistos como possíveis artistas a serem lançados. 


Os mais fortes terão que passar por esse treinamento para enfim debutar, pode se ver como esse período funciona observando o grupo Blackpink por meio do filme documentário "BLACKPINK: Light up the sky", dedicado a um dos maiores nomes da música internacional, é mostrado como as integrantes treinaram por cerca de cinco anos em sua adolescência até estrearem em 2016. Por meio de blocos de quatorze dias de prática e um de descanso, elas tinham cerca de 4 aulas de dança por dia, tirando os ensaios por conta própria, fazendo as começarem pela manhã e finalizarem pela noite. Essa dinâmica, inevitavelmente, trabalha na construção de dançarinos incríveis em nível profissional, o que é exportado ao mundo por meio das performances, shows e music videos. 


Por meio da composição da estética do K-pop, é explícito como cada detalhe é pensado para que se atinja a perfeição. Os movimentos, as posições e o desenho coreográfico trabalham para que os telespectadores não tirem os olhos da performance por um segundo, e de fato isso ocorre. Pela qualidade das apresentações, ocorre o efeito borboleta àqueles que já possuem certa experiência na dança e aos que nunca dançaram na vida. Por meio da visualização das coreografias na internet, os jovens aprendem cada movimento, ainda que demore muito para acertá-lo. Os que já possuem certa experiência com a dança acabam tendo um pouco mais facilidade em questões de interpretar a batida e a fluidez dos movimentos, no entanto, a execução em si passa por obstáculos dada a rapidez, a qualidade de movimentação exigida e a respiração.

A aula estava prestes a iniciar, e antes disso a professora se viu desafiada a responder alguns questionamentos dos alunos sobre a atividade. Com perguntas e queixas desde o porquê mesmo treinando a semana toda continuavam a fracassar na tentativa a dores em partes do corpo pelo treino que começou a fazer, o questionamento deles era visível. Ela certamente já conhecia aqueles rostos de preocupação e leve desânimo. A nuvem de incertezas e inseguranças sobre o estar ali eram enormes, mas por meio de uma boa conversa e palavras de alguém que já estava na indústria há anos, a poeira baixou.

Citando alguns exemplos dos maiores dançarinos do pequeno país da Ásia, foi contada a história de anos deles e sua relação com a dança. O profissionalismo era obtido a partir de uma receita simples e seca: treino, treino e mais treino. Para conseguir, resiliência é a única coisa que não se pode deixar de lado. Os jovens aspirantes a se tornarem artistas treinam a um ponto em que pegar uma coreografia inteira se torna rápido e com o passar do tempo, demoram cada vez menos tempo para aprender. É preciso esforçar e conhecer o corpo, entendê-lo, para que a dificuldade não seja vista como impossível.


Outro objetivo é a criação de memória muscular. O nosso cérebro tem a capacidade de guardar as informações com muito mais facilidade do que o corpo. Este, precisa de mais tempo e mais prática para conseguir recordar facilmente. Para alcançar tal nível de dança, é preciso que essas duas partes estejam extremamente conectadas. O corpo precisa associar os movimentos na mesma velocidade que a mente. O que de início raramente acontece. Ela conta como conseguir essa conexão e enfatiza: treino. 


A aula programada para durar durante uma hora e meia começa. A coreografia escolhida para o dia foi “Maniac” de Stray Kids. Os 90 minutos são separados igualmente para os alunos se dedicarem à música e também a um treino específico que pode envolver alguma parte do corpo como explorar o uso das pernas, do tronco ou dos braços. Até mesmo uma movimentação mais técnica como isolation ou body wave, que constantemente são notadas nas danças dos grupos do ritmo musical.  


O primeiro passo envolve os quadris e a rotação das pernas rapidamente. Os braços não ficam parados e se movimentam de acordo com a voz dos cantores. Simultaneamente, a cabeça precisa desenhar o passo junto às outras partes do corpo. Em seguida as posições mudam, as pessoas que estavam na frente se deslocam para trás. A aula segue com a mesma energia até a sua finalização. Tudo muito rápido, os alunos são convidados a treinar a dança por inteiro após o término por diversas vezes. Trata-se de uma técnica que usa da repetição para que consigam alcançar os maiores resultados. 

No decorrer da aula, é visível como algumas pessoas realmente não conseguiram captar todos os movimentos ou então interligá-los. É proposto que eles façam algo difícil, com o qual não estão habituados justamente para conseguirem identificar o avanço. Seria bem mais difícil notar a melhoria e uma boa execução caso fosse passado algo fácil e curto. Os alunos são instigados a se esforçarem mais, e em seguida notam o impacto disso. 

Um dos fatores que com toda certeza contribuem para que a dança do gênero seja extremamente diferente do que se está acostumado são suas composições. O K-pop é um ritmo musical, um gênero único desenvolvido na Coreia do Sul, que em muitas das suas músicas misturam se o pop e rap. Já a dança que acompanha o estilo musical não é a única e desenvolvida no país. Desde a década de 90, quando a semente do que hoje conhecemos do gênero foi plantada, a coreografia aderiu a sua composição outros estilos de dança de diversas partes do mundo. Entre eles estão o street dance, stiletto, pop, balada, eletrônico, locking, contemporâneo e bastante hip-hop. Juntos eles são colocados em partes específicas das músicas e costuram as coreografias surreais que existem nos grupos.

Nos momentos finais, pelos quais os alunos podem descansar um pouco ou se alongar para irem a caminho de suas casas, uma curiosidade surge. Poucas pessoas sabem como uma coreografia do K-pop é produzida. Raramente são os próprios artistas que as criam para suas canções, na verdade as empresas que gerenciam eles que ficam responsáveis por isso. Na finalização de um vídeo clipe do gênero é bem comum que na parte final os coreógrafos sejam creditados, e o que surpreende é que na maioria das vezes estão mais de duas pessoas, ou mesmo um grupo de coreógrafos que a criaram. E o mais interessante, talvez eles nunca ao menos se conheceram mas trabalham juntos em algo. 

A dinâmica da produção das danças marcantes e que legitimam a fama dos grupos está na proposta das empresas. Ao terem alguma música demo pronta e precisarem da dança para ela, eles escolhem diversos coreógrafos pelo mundo e enviam a canção com alguns ruídos e repartições para que não seja vazada antecipadamente. Os dançarinos então possuem uma data para entregar seu projeto. Cada um deles entregam sua dança autoral e enviam para as empresas após serem pagos. Agora, é a vez da empresa de trabalhar com dançarinos que já estão acostumados e delimitar quais partes entram, em quais momentos e de quem entra ou não.

Se torna uma verdadeira salada, com contribuições de muitos dançarinos para se chegar ao produto final. Em algumas ocasiões, boa parte de uma proposta é incorporada caso ela se encaixe bem com a música e os integrantes do grupo, já em outras apenas dois ou três movimentos conseguem ser utilizados na canção. Eles são pagos pela proposta inteira que enviam para análise e caso seus movimentos sejam realmente anexados na composição da coreografia, eles são pagos com mais uma porcentagem pela utilização. 

Ao longo daqueles minutos, muitas questões foram feitas e respondidas, porém era preciso entender os motivos e razões mais profundas pelas quais aquelas pessoas acordavam cedo num sábado de manhã para estarem ali. Uma garota de 15 anos, era motivada a ir porque não tinha nada para fazer no dia e gostava da banda BTS. Um rapaz, no auge dos seus 18 anos, fazia duas faculdades e usava aquele momento para relaxar e fazer um exercício físico. Outra moça de 21 chegava à sala assiduamente para explorar o que era a dança, pois nunca havia entrado numa aula como a que estava durante toda sua vida. Diversos motivos explicam o porquê aquelas pessoas estavam tão ligadas com aquela manifestação artística. Dentre as dezenas de casos mais singulares que estavam ali, um dos que mais marcou aquela manhã foi o de um garoto que durante toda sua infância sonhava em poder dançar, mas por pressões na escola e em casa nunca pode realizar esse desejo. Embora tivesse aptidões notáveis, apenas podia dançar quando estava sozinho em casa. Sua vida mudou durante o ensino médio ao se apaixonar pelo K-pop e se conectar com a dança dos artistas. Agora, ele usava daquele momento para explorar todo seu potencial e usar do ritmo como uma ferramenta para atingir o sonho de criança. 

Com os mais particulares motivos, não se pode deixar de lado que a arte do dançar sempre estará ligada a liberdade de expressão e uma forma pela qual as pessoas podem se comunicar com as outras. Essa seja uma das principais, se não a razão principal para todas aquelas pessoas estarem ali. Nosso corpo possui a necessidade pura de se expressar. Isso acontece desde a nossa infância e construção como indivíduo e perdura até os momentos finais. Ser humano é sentir a tudo e tanto, o que não fica apenas nas sensibilidades tátil, auditiva ou visual, mas também em movimento. 

Com inúmeras reflexões que ficaram em mente, a aula infelizmente chegou ao fim. Alguns dos alunos mal podiam esperar para chegar em casa e ensaiar mais um pouco, outros estavam notoriamente cansados. No caminho para a estação nem todos iam direto para sua casa, eles aproveitavam como aquela parte da cidade explorava uma das coisas em que mais gostavam e assim aproveitavam para comer comidas locais, comprar itens que vieram da Coreia do Sul e curtir o restante do sábado. Infelizmente, muitas das pessoas que estavam naquela sala não encontraram ou encontrarão o melhor contexto no país para se tornarem dançarinos profissionais.

A realidade assistida na Coreia se difere bruscamente do Brasil, um dos países com a maior revolução tecnológica na Ásia não deixou de investir em sua cultura e a exportação dos produtos culturais para fora. Essa atividade aconteceu por meio de décadas e hoje é possível ver os resultados disso no mundo como o retorno para o país. É inevitável que com esse cenário os jovens olhem para o mundo artístico como uma opção a ser seguida e respeitada, mesmo que exista concorrência e inseguranças, lá a mágica acontece e as chances de criar uma carreira na indústria são altamente maiores do que no aqui. Embora o Brasil seja amplamente visto como um país muito ligado à dança internacionalmente, essa visão se destoa da realidade. Com pouquíssimas oportunidades de crescimento, artistas de todas as partes dos país veem seus talentos serem negligenciados e seus sonhos apagados pela falta de investimento na cultura local e na dança da forma que deveria acontecer. Ainda sim, muitos deles lutam suas batalhas diárias para sua legitimação como profissionais e com talento e um sonho eles se desdobram para conseguir se desenvolverem em meio ao caos.

Olhando para os vagões cheios do metrô e assistindo a uma breve apresentação de dançarinos de rua na multidão foi possível notar como a dança está ligada às pessoas. Com a explosão do K-pop e sua influência na vida de jovens em diversos países, a dança em geral só tem a ganhar com tantos talentos e forças que se somam a essa arte. Do ballet ao street dance, todas as modalidades costuram o que hoje entendemos como o que é dançar. O novo gênero musical contribui ativamente para essa manifestação artística e espera-se muito de seu impacto no decorrer dos próximos anos. Observando como essa atividade, compreende-se a forma pela qual o K-pop é utilizado como uma ferramenta que movimenta uma geração e sua cultura ao somar cada vez mais seus dançarinos e jovens talentos ao universo da dança. O ritmo que antes era mal visto ao distinguir as produções conservadoras e nacionalistas do país, se posiciona como uma das maiores apostas da música internacional e cresce o número de fãs em cada país. 

 

Por meio dessa experiência de vivenciar um pouco mais desse universo, por quem e como é composto, uma das partes mais interessantes foi analisar uma das faces pela qual a conexão da humanidade com a dança acontece. Não importa sua raça, gênero, sexualidade ou condição financeira, todo ser humano nasce ligado a isso. Ao longo de toda a história da arte no mundo, na dança as pessoas puderam encontrar um espaço que as abraçasse e respeitasse a suas existências. Se tornaram tão próximas a ela que não poderiam se imaginar sem essa parte de sua vida. Os desafios para os dançarinos do mundo não acabarão de um dia para o outro, a esperança consiste em continuar independente do que acontecer. 


“O amanhã que estávamos esperando se torna ontem em algum momento”
 - BTS

 

Aula de dança
 

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História e legado que um dos maiores compositores do Brasil deixou na nossa cultura.
por
Thomaz Guarizzo Cintra
|
27/06/2022 - 12h

Por Thomaz Guarrizo

Raul de Santos Seixas foi um cantor e compositor brasileiro e seu legado na sociedade brasileira é tão impactante que hoje é chamado de “Pai do Rock Brasileiro”. Raulzito, ao longo de seus 26 anos de carreira lançou 17 álbuns e em muitas músicas, o artista acabava misturando gêneros, pegando referências de outros compositores de sua época e sendo influenciado pelo estilo baião, típico no Nordeste brasileiro.

Ele iniciou sua carreira na banda Os Panteras que lançou apenas um disco, chamado Raulzito e os Panteras, os integrantes da banda haviam ido todos ao Rio de Janeiro para gravar o álbum, mas no fim das contas, o disco não fez sucesso e os membros do conjunto musical começaram a passar dificuldades no Rio. Depois de ter voltado à Salvador, Raul recebe uma proposta da CBS para ser produtor musical, proposta essa que ele aceita de imediato, e por isso, volta à Cidade Maravilhosa, mais tarde, o artista ainda revelou que passava os dias em Salvador lendo e estudando filosofia. Já na CBS, ele conhece diversos outros compositores e em meio a vários projetos fracassados, Sérgio Sampaio convence Raul a participar do Festival Internacional da Canção, e foi aí que sua carreira realmente foi catapultada, principalmente por causa da música “Let Me Sing, Let Me Sing”.

A partir daí, o Raulzito que todos estamos acostumados a ver, começou a se formar, finalmente Raul começou a fazer sucesso com suas letras marcantes e expressando suas ideias que viriam a marcar os brasileiros de todas as gerações. Logo no início de sua carreira solo, o cantor compôs o álbum “Krig-ha, Bandolo!” que tem os famosos hits Mosca na Sopa, Ouro de Tolo e a música mais marcante do disco, Metamorfose Ambulante, que também já mostrava um pouco das ideias de Raul e as ‘críticas’ que ele traria para a sociedade.

Durante alguns shows que ele fez após o lançamento desse disco, Raulzito distribuía manifestos da chamada Sociedade Alternativa, que depois viraria nome para uma das maiores músicas já escritas por ele, essa sociedade era como uma filosofia do próprio Raul e do Paulo Coelho, tratando-se de uma organização anarquista, na qual o ser humano poderia fazer o que quisesse dentro dessa ‘sociedade’. E todo esse conceito da sociedade alternativa, é uma das maiores contribuições do Pai do Rock para nossa cultura, pois além de um compositor e produtor, Raul Seixas também era fissurado em filosofia e sociologia, por isso é tão interessante ver seus ideais sendo postos em prática, e o melhor exemplo é essa sociedade. Por conta de toda a confusão causada pelo cantor e sua filosofia, ele acabou sendo preso e exilado nos Estados Unidos, e isso mostra a influência que ele tinha sobre a população.

Em 1988, um ano antes de sua morte, Raul participou de uma entrevista explicando melhor o que havia ocorrido com ele no ano de 1974, quando ficou exilado nos Estados Unidos. E ele conta que durante esse ano, o álbum Gita que ele já havia gravado, estourou entre os brasileiros, e que até foi algo inesperado por ele: “Já tinha deixado o LP Gita gravado e não sabia que ia fazer sucesso sozinho. Não sabia que ia estourar. E ele estourou”. Por conta desse sucesso de seu álbum ele foi autorizado a voltar ao Brasil, e foi exatamente o que ele fez, depois posou para a capa do álbum com uma guitarra vermelha e vestido de guerrilheiro, numa provocação à ditadura militar brasileira que o forçou a viver nos EUA, e esse, se não for o maior álbum de sua carreira, é um dos, com mais de 500 mil cópias vendidas, foi seu primeiro álbum premiado com o Disco de Ouro.

Depois do lançamento de Gita, Raul compôs mais diversos álbuns, mas nenhum chegou a fazer o sucesso que Gita fez, em 1975 por exemplo, ele lançou Novo Aeon, que teve um número de vendas relativamente baixo. Porém, no ano seguinte, era a vez de Há 10 Mil Anos Atrás, que ultrapassou o número de 100 mil cópias vendidas, além de ter sido muito elogiado pela crítica e conter duas de suas maiores músicas, “Eu nasci há 10 mil anos atrás” e “Eu também vou reclamar”, trazendo novamente à suas músicas aquele misticismo que tanto marcou sua carreira. Depois ainda viriam seus dois álbuns mais famosos atrás de Gita, um deles sendo intitulado Raul Seixas, e o outro Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!, estes discos que ficariam marcados como os últimos lampejos de Raul, em um momento em que ele já estava lutando contra o alcoolismo e as drogas, mesmo assim essas duas obras receberam o Disco de Ouro, assim como seu último lançamento, A Panela do Diabo, que também teve um alto número de vendas e foi lançado no ano de seu falecimento, em 1989.

O Maluco Beleza recebeu o apelido de Pai do Rock Brasileiro. Ele foi uma pessoa muito influente na música brasileira de modo geral e até quem não aprecia suas músicas sabe quem foi Raul Seixas, ainda foram feitos muitos álbuns póstumos seus para que as pessoas sempre lembrem de Raul. E uma das coisas mais interessantes de se pensar é que muito do sucesso do Raul, além das músicas em si, claro, eram suas letras, que por muitas vezes tinham algum significado por trás, mesmo que algumas tivessem isso de forma mais explícita que outras. A Sociedade Alternativa por exemplo, é claramente uma referência à própria sociedade alternativa de Raul e Paulo Coelho, porém, há também Cowboy Fora da Lei, considerada última música de grande sucesso dele antes de sua morte, a letra pode ser entendida como uma crítica ou uma reflexão sobre o esforço que muitas pessoas fazem por conta da fama e se esse esforço no fim das contas vale a pena. Algumas interpretações sugerem que Raul estaria falando de Tancredo Neves, por conta do fim que levou o presidente que nem chegou a ficar realmente no cargo, outras pessoas pensam que o compositor poderia estar cantando sobre Jesus Cristo quando diz “morrer dependurado em uma cruz”, e por aí vai, a letra da música constantemente reflete sobre esse esforço necessário para virar um ‘ídolo’ e se ele realmente compensa, visto que diversas figuras como Gandhi e John Lennon foram assassinadas, muito por conta da influência e relevância que tinham. E para completar, ele ainda cita a imprensa como manipuladora quando diz que não precisa ler jornais pois já sabe mentir sozinho, dando a ideia de que os jornais mentem e assim manipulam a sociedade.

Falando em sociedade alternativa, esse é um dos ideais do Raul que mais ficou marcado na cultura brasileira, até hoje, muitos fãs do cantor nem conseguem explicar de forma clara o que é a Sociedade Alternativa, mas, simplificando um pouco, diante de diversas declarações e produções artísticas dá para perceber que se trata principalmente da liberdade, até porque essa ideia em si gira em torno de uma organização anarquista. É preciso lembrar também de Aleister Crowley, autor do Livro da Lei, e criador da doutrina Thelema, pois foi nessa obra que Crowley escreveu a frase “Faze o que queres, há de ser o todo da lei”, e que viria a ser mencionada na própria música de Raul (“Faz o que tu queres / pois é tudo da lei”), para o autor, essa era a regra principal que deveria reger o mundo, a Liberdade Absoluta, ou Lei de Thelema. Além de Crowley, o escritor Paulo Coelho, foi a figura que mais influenciou Raul quando se fala desse ocultismo e misticismo, no início da década de 70, Paulo Coelho teve muito contato com o thelemita Marcelo Ramos da Motta, e foi muito por conta dele, que Raul e Paulo passaram a conhecer essas ideias de Crowley mais afundo, tanto é que muitas músicas de grande sucesso do Raul, foram escritas junto de Paulo Coelho e Marcelo Ramos da Motta.

A Sociedade Alternativa em si foi criada no ano de 1973, a sede era o próprio apartamento de Raul, mas a ideia dele e de Paulo era criar uma comunidade em Minas Gerais para seus fãs, porém ela acabou não saindo do papel, pois um ano depois, a dupla acabou sendo exilada nos Estados Unidos, na época da Ditadura Militar. Os maiores fãs do Pai do Rock defendem a tese de que a Sociedade nunca acabou, e a música, que acabou ficando marcada na cultura brasileira, foi a maneira que Paulo Coelho e Raul Seixas encontraram de disseminar esses ideais e principalmente, a própria sociedade.

Outro clube (ou ‘sociedade’) que é importante citar é o Raul Rock Club, que recebeu, na década de 80, o posto de fã-clube oficial pelo próprio Raul Seixas, e seu fundador, Sylvio Passos, que chegou a ser amigo de Raul desde 1981 até sua morte, me concedeu uma entrevista para essa matéria. E quando perguntado sobre o que o fez virar um fã do Raulzito, ele respondeu que gostava de suas composições pois era diferente de tudo que tinha aqui no Brasil naquela época, não somente as letras como também as melodias, misturando o rock com o estilo do baião por exemplo.

Sylvio comenta também que Raul, por ter estudado bastante o campo da filosofia e ter estado sempre antenado ao que estava acontecendo, conseguia escrever músicas que ele sabia que ficariam marcadas na história, músicas que se tornariam atemporais, pois ele enxergava coisas que ocorriam no momento presente, mas que já haviam ocorrido no passado e que nada impedia elas de ocorrerem no futuro também. “A forma que o Raul encontrava de dar sua visão de mundo era reagindo a tudo que ele via, sentia e percebia”, completou.

Sobre a Sociedade Alternativa, Sylvio ressalta que ela acabou ficando muito marcada justamente por conta da ideia e do conceito, já que ela se assemelha a diversas outras comunidades hippies, e desse tipo de comunidade, o Brasil já tem várias, então o que fez a Sociedade Alternativa se destacar em meio às outras foi justamente, porque ela não saiu do papel, e ficou apenas na teoria. Assim, as pessoas passaram a entender melhor a ideia proposta pela Sociedade e por conta disso ela será eterna, pois é algo que existe dentro de todo mundo, essa ideia de liberdade, de não aceitação e de querer mudanças está presente em todo mundo.

Com as próprias palavras do Sylvio, “Eu tive o privilégio de não ser apenas um fã do Raul, mas eu tive o privilégio de ser aluno do Raul. Eu costumo dizer que eu tenho dois pais, meu pai biológico, que me trouxe para o mundo, e meu pai intelectual, que é o Raul [...] eu fui aluno dele por oito anos, aí já vai dar umas duas faculdades pelo menos né. Eu costumo dizer que se você ficasse um minuto com o Raul, você teria história para contar pelo resto de sua vida, agora imagina você convivendo oito anos com a pessoa, viagens, gravação de shows, bebedeiras, festas, gravação de discos, programas de televisão, e eu era um garoto, e tudo era um universo muito novo para mim. Eu nunca imaginei na minha vida que um dia eu estaria ao lado de Raul Seixas, sendo amigo dele, acompanhando ele em todos os processos da vida dele, desde o dia a dia, dentro de casa, indo ao dentista, sendo internado... Eu fiz algumas músicas em homenagem ao Raul, uma delas chama Meu Amigo Raul, que está no YouTube, outra chama-se Um Blues para Raul, que eu já gravei com a minha banda, a Putos Brothers Band, e a mais recente, foi lançada ano passado, chama Obrigado Raul, nessas três músicas, eu conto muito da minha relação com o Raul”.

Outro ponto que mostra o legado que Raul deixou na nossa cultura é a famosa expressão “Toca Raul”, mesmo alguém que nunca ouviu uma música do artista, já ouviu outra pessoa dizendo isso. E essa frase ficou tão marcada que incentivou a banda "Pedra Letícia", a escrever uma música chamada “Eu não toco Raul”, e na letra, eles dizem que em todo bar que vão tocar, sempre tem alguém que grita “toca Raul”. E esse é apenas mais um exemplo de como ele ficou marcado na história do Brasil, um dos, se não o, maior cantor e compositor nacional, de toda a história, Raul Seixas.

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Coletânea traduz diversos dos sentimentos mais profundos de quem as vê
por
Otávio Rodrigues Preto
|
15/06/2022 - 12h

Por Otávio Preto

Dia 10 de abril, uma tarde ensolarada de um domingo acompanhado de vento gelado. Os vagões da linha amarela estavam cheios como era de se esperar, a estação do metrô Paulista não diferia muito, pois como todo bom paulistano sabe, aos domingos, a principal avenida da metrópole é muito movimentada, mas não de carros, e sim de pessoas, pois a Avenida Paulista fica fechada apenas para pedestres. Em uma das travessas mais famosas, a Rua Augusta estava como de costume, movimentada e cheia de energia, bares lotados, música alta e muita pluralidade, havia pessoas de todos os estilos, raças e culturas, nada representa mais a cidade de São Paulo do que essa enorme diversidade.

O que mais impressionou naquela tarde, não foram as performances artísticas que se encontravam nos faróis, a movimentação da rua, ou nem mesmo a diversidade de bares e baladas que estavam a todo vapor em plena luz do sol, mas sim um amontoado de pessoas que estavam na tentativa de formar uma fila em frente à Galeria Objectos do Olhar. Um número incontável de pessoas esperando na porta para ter a oportunidade de visitar e conhecer a exposição de Susano Correia, apresentação denominada “À Melancolia”. Muitas pessoas estavam lá apenas para conhecer a obra de um autor que para elas era desconhecido, entrar na galeria, olhar, e seguir seu rumo, já para outras era um grande evento, já que o autor é muito popular nas redes sociais e é considerado um dos artistas brasileiros com mais obras tatuadas pelo País.

Ao entrar na galeria, havia pessoas das mais variadas idades que se espalhavam pelo espaço não tão grande para apreciar as pinturas e esculturas do artista. Nas paredes geladas feitas de tijolos cinza estavam suas obras, feitas de óleo sobre tela, as quais já estavam enquadradas para serem comerciadas. Ao fundo se ouvia um Jazz suave, que ornava perfeitamente com a dinâmica do local, dando um ar calmo, deste modo, todos contemplavam com tranquilidade cada detalhe

Embora muitos dos visitantes estavam ali apenas para ver desenhos e esculturas que nunca tinham visto e que em breve cairiam no esquecimento, muitos ficavam minutos e minutos olhando para apenas uma tela, de modo que toda a profundidade da pintura que ali estava, fosse absorvida, pois as obras de Susano, para muitos, não eram apenas um desenho, mas sim uma tradução de sentimentos. Para uma jovem de 22 anos que visitava o local, as obras exemplificavam os sentimentos mais profundos que já havia vivido, como angústia, agonia, ansiedade e diversos outros obstáculos que já encontrou com seu eu. Já para um rapaz de 33 anos, o mais interessante não era a profundidade que as pinturas traziam, mas sim o traço do autor e o processo de criação. 

Além das pinturas óleo sobre tela, também tinha diversas esculturas que enfeitavam o local, como a obra denominada “O homem brincando de ser só”, composições que a maioria dos que estavam ali ficavam admirando durante muito tempo, pois como todas as outras, trazia uma profundidade e podia sentir o sentimento que foi colocado. 

Obra "O homem brincando de ser só"
Foto: Otávio Preto | Obra "O homem brincando de ser só"

Ao descer as escadas os visitantes se deparavam com uma das obras que foi inspirada em uma vivência do autor, a primeira da série que influencia toda a exposição, denominada “Cante para mim”, foi uma cena vista de um cadeirante solitário carregando um pássaro engaiolado, a imagem traz a tona, diversas interpretações e sensações. 

Obra "Cante para mim"
Foto: Otávio Preto | Obra "Cante para mim"

Já noutro andar da galeria, a maneira como eram feitas as obras já mudava, em vez de tinta, telas enormes e esculturas, era algo mais simples, ali estavam desenhos feitos no papel e lápis, cada traço em cada desenho era singular, toda composição tinha sua particularidade e atingia um sentimento ou experiência que muitos já passaram. Uma longa fila se estendia pelo corredor, pessoas visivelmente ansiosas esperando por algo, ao final encontrava-se o autor de toda aquela obra, de pele clara e cabelo liso, camisa leve, solta e usando uma calça jeans, Susano Correia enrolava seu próprio cigarro com uma taça de vinho ao lado. Ao terminar de fumar, começou a autografar obras compradas por quem estava ali, a cada pessoa que passava, Correia fazia um rápido desenho no verso das obras ou nos livros, com uma mão rápida e habilidosa, tracejava rosas, borboletas entre outros desenhos para os visitantes.

O que inspira Susano a fazer suas obras é a própria vida, seus encontros e desencontros da experiência humana, percebe-se também que há uma influência clara de El Greco até o pintor italiano Caravaggio. As trocas de ideias entre amigos, familiares e poetas nem tão conhecidos também contribuem para suas produções. 

Um dos principais quadros de Correia, chamado “Enquanto a Luz Durar”, mostra uma vela com característica humana, a obra tem grande importância para o autor, pois durante a comemoração do lançamento de seu terceiro livro, se envolveu com sua namorada em uma experiência psicodélica com cogumelos, ele acabou exagerando na dosagem e entrou na chamada ‘bad Trip’, naquele momento a arte estava incompleta sob um cavalete e durante os devaneios da viagem, o que lhe salvou foi sua gata, as velas que costumava colocar para iluminar sua casa e o quadro inacabado, o que foi uma experiência bem intensa. 

Obra enquanto a luz durar
Foto: Otávio Preto | Obra "Enquanto a luz durar"

Os desenhos de Susano Correia, de modo geral, tem uma mensagem e sempre foca no sujeito com ele mesmo, percorre entre questões psicológicas e existenciais, é o que une o trabalho em geral. Questões que as pessoas têm em comum, como a vida, a morte, a saúde e a perda.

Obra "Homem com profunda sede de si"
Foto: Otávio Preto | Obra "Homem com profunda sede de si"

Obra "Trago ansiedade"

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