Inaugurada no início de 2026, a Orla TotalPass, grande complexo de gastronomia e esportes que se assemelharia a uma praia, revela uma nova forma de se entender o espaço. O complexo faz parte da nova fase da gestão do Parque Villa-Lobos, concedido à empresa Reserva Novos Parques desde agosto de 2022.
Somente nos primeiros meses de 2026, o parque inaugurou no espaço a Heineken House, e iniciou as construções da Casa Cazé TV. Além disso, quadras de tênis com arquibancadas também foram erguidas, onde ocorrerá anualmente o torneio de tênis SP Open. Desses projetos, somente a Orla TotalPass e a Heineken House são de entrada gratuita.
Ainda em maio desse ano, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu uma investigação contra a Reserva Novos Parques, consórcio responsável pela gestão do parque. A investigação foi motivada por uma suspeita de “exploração econômica excessiva”, devido ao grande número de eventos privados e ações comerciais, cujas montagens e desmontagens restringem o acesso do público. Houve a tentativa de contato com a empresa, que não quis se pronunciar até o momento da publicação.
O contrato assinado para a concessão prevê a fiscalização da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) nas ações realizadas no parque. Em nota, a agência afirma que o contrato permite a delimitação das áreas do parque, desde que não prejudique as demais atividades realizadas nele. Na nota, ainda reitera que a realização de qualquer evento é permitida desde que esteja de acordo com as finalidades do parque: “voltadas ao lazer, esporte, cultura e recreação”.
Ao mesmo tempo que restringem o espaço do parque, as privatizações podem dar nova vida a ele. Edilson Carneiro, que diz frequentar o parque desde sua inauguração, afirma que "se não fosse a privatização, o parque estaria mais largado. Traz mais turistas, traz mais gente". Ele ainda considera que com a entrada de empresas no parque, permite-se que circule mais dinheiro nele, melhorando sua infraestrutura. Mas qual infraestrutura está sendo melhorada?
A promessa de aproximar a praia da cidade grande foi concretizada no início de 2026 com a inauguração da Orla TotalPass no Parque Villa-Lobos: um complexo de 12 mil m2 com cinco quadras esportivas de areia e 12 quiosques gastronômicos. O projeto foi idealizado pela empresa de infraestrutura Orla Brasil, em parceria com a plataforma de bem-estar TotalPass, tendo ainda a SulAmérica, a Smartfit e a Red Bull como patrocinadoras. O espaço surge como uma alternativa para aqueles que não tinham a oportunidade de utilizar as quadras de areia para a prática de beach tênis e beach vôlei.
A estrutura das quadras é dividida em duas modalidades: duas são abertas para o público geral e as outras 3 são reservadas para um pacote de day use, pelo qual são cobrados R$200,00 a diária, por dupla. Em conversa com funcionários da área esportiva do complexo, foi destacado que a dúvida que eles mais recebem é se precisa ter o aplicativo para utilizar as áreas. A resposta é que o TotalPass é só o patrocinador máximo do projeto e que não é preciso tê-lo para utilizar o espaço. Qualquer pessoa pode agendar as quadras de forma gratuita, acrescentou um dos funcionários, referindo-se às 2 quadras que funcionam dessa forma.
Sobre o day use, ele afirma que o valor é super acessível e ressalta que, durante a semana o valor do aluguel das quadras é convertido em consumação total para o restaurante, dando direito também a um lounge (área exclusiva).
Ao entrar na Orla a sensação é de adentrar em um lugar completamente separado do parque. Isso porque a modernização, a inovação e os investimentos na infraestrutura do local criam um contraste com as demais áreas públicas do parque, que não recebem a mesma atenção. Edilson Carneiro, frequentador assíduo do Villa-Lobos comentou que a privatização valoriza o parque e ajuda o local por trazer mais turistas. “Se não fosse a privatização, o parque estaria mais largado”, acrescentou. Sobre o projeto da Orla, Edilson pontuou que o lugar é sofisticado e traz um glamour ao parque: “Quando fui lá eu achei que estava no Recife”.
Já o arquiteto Marco D’Elia, formado pela FAU Mackenzie e pós-graduado pela FAU-USP, analisa que as privatizações nascem de uma falha do poder público na administração digna das áreas dos parques. Para o especialista essas concessões deveriam buscar a potencialização dos espaços do parque, porém “na prática, não vemos isso acontecer”.
E realmente não são todos que podem usufruir do espaço da Orla. As quadras gratuitas abertas ao público (apenas duas) não são suficientes para comportar a quantidade de pessoas que visita o parque durante os finais de semana que, de acordo com os funcionários, são os dias mais cheios da Orla. Eles explicam que domingo é o dia mais movimentado e durante a semana o público é predominantemente do Alto de Pinheiros. Além disso, o preço do day use para as demais quadras, mesmo com seus benefícios, não é acessível ao público geral.
Fora do perímetro da Orla e caminhando para o outro lado do parque, encontram-se três quadras de areia totalmente abertas ao público. A infraestrutura é simples: redes antigas e areia. Um diferencial entre as quadras da Orla e as quadras afastadas foi apontada pelo funcionário da TotalPass: “Lá você encontra pedras, aqui não”, se referindo à qualidade do solo das quadras.
Na quadra pública externa, uma frequentadora do parque praticava esportes. Ela conta que até visitou a Orla, mas não permaneceu no local por ser muito reservado e de pessoas de classe mais alta. A visitante ainda reiterou que se sentiu mais confortável no espaço externo por ser mais popular.
Além deste relato, a estudante Gabriela Marques também migrou da Orla para as quadras gratuitas. Ela relata uma experiência negativa na Orla: “Chegamos lá e não tinha mais quadra gratuita disponível. Vimos que tinham três quadras novas que estavam vazias e perguntamos se podíamos usar aquelas, mas eram 200 reais por dupla para alugá-las durante o dia”. Depois de desistir, Gabriela e seus colegas encontraram as quadras públicas: “Eram três quadras de vôlei de areia que são bem antigas. Uma estava vazia e acabamos jogando lá”. A estudante pondera que, embora a privatização traga melhorias para o parque, também restringe o acesso ao espaço: “Nem tem bebedouro dentro da Orla. A privatização tira um espaço do parque que era público e reduz o acesso de muitas pessoas”.
Marco D’Elia explica que o principal problema da privatização nesses locais não é a concessão em si, mas o modo como ela vem sendo gerida e falta de fiscalização por parte da prefeitura de São Paulo. “Você não pode ter fechamentos e cercas que impeça o acesso das pessoas mediante a cobrança de ingresso…esse tipo de coisa é absurda”, comenta.
A AGEMT entrou em contato com a gestão do parque para pedir esclarecimentos, porém nenhuma resposta foi obtida até a publicação desta reportagem.
No dia 05 de agosto, o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Central do Brasil decretou, em assembleia, o fim da greve dos funcionários das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da CPTM. A paralisação havia começado à meia-noite da terça-feira (4), em meio às reivindicações dos trabalhadores contra a concessão das linhas à iniciativa privada e pela garantia de seus empregos.
Após o encerramento da paralisação, a circulação dos trens foi normalizada. No entanto, os trabalhadores decidiram permanecer em estado de greve, o que significa que uma nova paralisação poderá ser realizada caso a categoria aprove a medida em outra assembleia.
A paralisação afetou a mobilidade urbana. Durante a greve, passageiros precisaram recorrer a ônibus, carros e outros meios de transporte para chegar aos seus destinos. Como consequência, o trânsito também foi afetado e a Prefeitura de São Paulo suspendeu o rodízio municipal de veículos durante os dias da paralisação.
Gabriela Thier, 23, mora em Ferraz de Vasconcelos e depende da linha 11-Coral para se locomover. Ela descreve sua situação como "cidade dormitório", já que sua rotina está concentrada na capital. Durante a greve, ela não conseguiu ir às aulas, perdeu uma consulta e seus pais também não conseguiram chegar ao trabalho.
“Tentamos ônibus e carro mas as filas eram quilométricas, impossível chegar na hora”, afirma a estudante. Apesar dos transtornos, Gabriela diz entender a paralisação diante dos problemas enfrentados no transporte.
A greve aconteceu em meio à discussão sobre a concessão das linhas à iniciativa privada. As linhas haviam sido transferidas para a concessionária Trivia Trens em julho, mas a CPTM retomou temporáriamente a operação após uma série de falhas registradas nos primeiros dias da gestão privada.
Durante a paralisação, o governador Tarcísio de Freitas declarou apoio às privatizações e classificou a greve como “baderna”:
“Uma concessão é feita para melhorar os serviços, eliminar problemas de via permanente, trazer trens novos, garantir estações mais acessíveis, eliminar falhas na via aérea de alimentação e nas subestações, estender as linhas até Bonsucesso ou até César de Souza e dar mais confiança ao sistema”, afirmou.
Porém, desde a transferência da operação para a iniciativa privada, foram registrados problemas nas linhas. Como no dia 23 de julho, quando uma falha elétrica provocou um incêndio em um vagão da Linha 12-Safira, afetando a circulação dos passageiros.
Uma das principais reivindicações da categoria é justamente a manutenção dos postos de trabalho. O Projeto de Lei 730/2025, do deputado Guilherme Cortez (PSOL), propõe que trabalhadores da CPTM possam ser absorvidos por outros órgãos ou entidades da administração pública estadual após a transferência dos serviços para empresas privadas.
Agora, com o fim da greve, o governo precisa avançar nas próximas etapas do acordo. A proposta deverá ser encaminhada à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), onde será analisada e votada pelos deputados. Se aprovada, seguirá para sanção do governador.
Na última quarta-feira (17), a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) recebeu o pré-candidato ao governo do Estado de São Paulo, Fernando Haddad, para lecionar o seminário “Desenvolvimento, Democracia e Mudança Estrutural” e reuniu alunos e professores para compor a solenidade. O evento também contou com a presença de Luiz Gonzaga Belluzzo, economista reconhecido por presidir o Palmeiras entre 2009 e 2011.
O debate teve início com a fala de Belluzzo, que abordou, de forma crítica, as teorias econômicas. Segundo ele, essas teorias não analisam criticamente o contexto de um país, mas justificam os fatos econômicos que ocorrem . “Você não pode ser dogmático, mas investigador”, afirmou ao discutir as relações dentro da economia.
Belluzzo defende uma ordenação das relações econômicas na sociedade por meio das articulações das instituições e, por conta disso, acredita que deve haver uma mobilização dos movimentos sociais nas redes digitais. Também afirmou que, diferentemente da época das Diretas já!, movimento do qual participou no final dos anos 1980, a comunicação das pessoas passou a se resumir a “manifestações em poucas linhas”.
A palestra seguiu com Fernando Haddad, que falou sobre os pressupostos do desenvolvimento. Assim como Belluzzo, Haddad defendeu um plano de desenvolvimento baseado nas articulações das instituições. “Não basta vontade. Precisamos de posicionamento e de uma classe dirigente que seja diferente da que foi estabelecida desde o Segundo Reinado”, afirmou
Em entrevista à AGEMT, Haddad comentou sobre sua candidatura ao Governo de São Paulo pelo Partido dos Trabalhadore puxando o gancho da sua palestra. Ele se disse preocupado com a economia paulista. “Eu tive que capitanear, a pedido do presidente Lula, junto ao Rodrigo Pacheco, a renegociação da dívida do Estado. Tivemos que abrir espaço orçamentário de mais de 11 bilhões por ano para ajudar no Estado de São Paulo”, disse.
Haddad citou o atraso à adesão do Governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao Programa de Pleno Pagamento da Dívida dos Estados (PROPAG), o plano federal voltado à reestruturação e repactuação das dívidas dos entes federativos com a União. “Nós perdemos uma SABESP pelo atraso à adesão ao PROPAG. Então, o que nós pudemos fazer pelo Estado no Governo Federal, com renegociação da dívida, linhas de crédito do BNDES e dinheiro a fundo perdido no PAC, nós fizemos”, exclamou. “Precisamos de raízes aqui para que o Estado volte a se desenvolver”, continuou. No entanto, finalizou sua fala cauteloso - “Não existe respaldo político para ajustar as contas. Quem dirá um plano de desenvolvimento”.
Após a fala de Haddad, a professora doutora Cristina Helena Pinto de Mello enfatizou que, atualmente, existem duas instituições importantes no funcionamento da sociedade: o mercado e o Estado. Ao utilizar os Estados Unidos de exemplo, Cristina afirmou que “a economia digital sobrecarregou os postos de trabalho”.
A professora Laura Carvalho deu continuidade ao tema e criticou a falta de revisão das políticas dos anos 2000. Segundo ela, não rever algumas políticas faz com que as leis não acompanhem as mudanças da sociedade, como o aumento da informalidade. Ela também criticou a ‘plataformazação' do mercado, argumentando que o fenômeno auxilia no aprofundamento das desigualdades de classe.
Quem falou por último foi o professor Luís Fernando de Paula que destacou a importância da macroeconomia aliada a uma estratégia de desenvolvimento e criticou a forma como a política de juros, em sua avaliação, dificulta o desenvolvimento econômico. “ A política fiscal não deve ser subordinada à política monetária”, afirmou. Além disso, o professor acredita que ter o agronegócio como fator determinante da economia é uma questão problemática para o país e finalizou defendendo a revisão da meta de inflação.
A cidade de São Paulo cresce para os lados ou para o alto? E quais são os impactos desse processo no dia a dia da população? Neste podcast, os repórteres da AGEMT Annick Borges, Davi Madi e Rafael Pessoa conversam com o professor de Geografia Tiago Fuoco sobre a verticalização da capital paulista e o aumento dos edifícios na maior cidade do país.
Você também vai entender como São Paulo foi planejada a partir de referências europeias e norte-americanas e por que essa lógica urbana continua influenciando a organização da cidade até os dias atuais. Um bate-papo que ajuda a compreender as transformações do espaço urbano e os desafios do crescimento de São Paulo. O programa é acompanhado pela banda "Izaias e Seus Chorões". Confira aqui: