A cidade de Itajubá, no sul de Minas Gerais, realizou nos dias 23, 24 e 25 de abril a "Expo Itajubá", uma tradicional festa de rodeio e shows musicais no Parque de Exposições. O evento anual movimenta a população, com menos de 100 mil habitantes, e atrai visitantes de diferentes lugares. Conhecida por receber grandes nomes da música nacional, principalmente sertanejo, e oferecer estrutura com áreas VIP, pista e camarotes, a expo virou um dos principais eventos da região. Comida, bebida e festas tradicionais também se misturam como parte da experiência.
O envolvimento do Sindicato Rural de Itajubá e a participação de pequenos comerciantes, que oferecem hotéis, restaurantes, transportes e alimentos para o público, revelam uma dinâmica que impulsiona a economia do município e atrai novos olhares para a região. Eventos dessa magnitude tendem a beneficiar diversas cidades, principalmente as pequenas, como é o caso de Itajubá que tem políticas públicas voltadas para a cultura, estruturadas pelo Plano Municipal de Cultura (PMC) e integradas ao Sistema Nacional de Cultura.
A recepção de turistas, a participação da população local e as políticas voltadas para a movimentação cultural servem como base para melhoria do fluxo financeiro durante o evento. O Secretário Municipal de Agronegócio de Itajubá, Edgar Moreira da Silva, em entrevista à AGEMT, explica como isso ocorre. “Os produtores expõem seus bovinos, seus cavalos, que são suas fontes de renda. Ao expor, eles têm uma valorização desses produtos, e isso tudo gera um fortalecimento na economia e também um ânimo para o setor”, diz Silva.
Ele reforça que essa movimentação ocorre em uma série de segmentos, além do econômico. "Também afeta o setor produtivo agropecuário, o setor logístico, os ambulantes, além de toda a equipe de produção e de infraestrutura”. Silva estima que a Expo movimenta cerca de 4 milhões de reais por ano para o município e, apesar de não haver nenhuma pesquisa quantitativa a respeito do aumento no faturamento do comércio durante o período do evento, relatos de comerciantes são animadores quanto ao crescimento de vendas.
Acontecimentos desse porte também estimulam a geração de empregos temporários e o aumento de fontes de arrecadação como alvarás, notas fiscais e produtos gerais. Os shows, principais atrações, atraem caravanas de vários estados e regiões, comprovando o alcance para além da comunidade local. As festas também envolvem os cidadãos para além do âmbito cultural e de entretenimento, fazendo com que eles vivam na prática o evento. O morador de Itajubá Luiz Augusto Villanacci, que também é fotógrafo da Expo, compartilha o orgulho em participar de um registro tão especial para ele e para o município. "A Expo faz parte da história da cidade, e poder documentar isso com imagens é uma responsabilidade grande. O evento passa, o show acaba, a estrutura é desmontada, mas a fotografia fica. No futuro, essas imagens ajudam a contar como a cidade viveu aquele momento” afirma Villanacci.
Luiz Augusto Villanacci / Acervo Pessoal
Para Villanacci, fotografar a Expo é retratar o município com outro olhar, indo além do show ou do artista para destacar a força do evento, a presença do público e a capacidade da cidade de proporcionar grandes eventos. O jovem compartilhou na prática como isso funciona: “Ontem vi uma foto que fiz do Zezé Di Camargo virar capa de notícia em um portal de sertanejo. Ver uma imagem feita aqui em Itajubá ganhando esse alcance mostra como a fotografia também ajuda a levar o nome da cidade para mais pessoas” anima-se.
Luiz Augusto Villanacci / Acervo Pessoal
Na economia criativa, viver de arte costuma ser visto como exceção. Na Casa Locomotiva, em São Paulo, a proposta é justamente inverter essa lógica e tratar a arte não apenas como expressão, mas como fonte de renda. Fundada pelo artista visual Evandro Malgueiro, conhecido como Gota, a casa nasceu da ideia de reunir artistas em um espaço onde fosse possível produzir, ensinar e criar um ambiente permanente de troca. Gota afirma que além da atuação artística, ele trabalha com produção cultural e audiovisual, dirigindo videoclipes e realizando produções de fotografia, imagem e vídeo. A Casa Locomotiva, segundo ele, começou como um projeto coletivo, a partir do convite a amigos ilustradores para construir um lugar que fosse, ao mesmo tempo, estúdio, escola e ponto de encontro.
A casa existe há 12 anos e está em seu segundo endereço. Antes de chegar à Vila Madalena, começou em um sobrado na Lapa. O crescimento, segundo Gota, não veio de um grande investimento inicial, mas de uma construção gradual. “O dinheiro veio vindo junto com a casa”, resume. No início, a lógica era alugar uma pequena casa e começar. Hoje, mais de 30 pessoas vivem da arte a partir do ecossistema criado pela Casa Locomotiva. O espaço opera com diferentes frentes de atuação, cursos regulares, turmas de desenvolvimento artístico, eventos, oficinas e atividades voltadas ao mercado corporativo. A diversificação ajuda a manter o projeto em funcionamento mesmo quando uma área tem menor demanda.
Do ponto de vista financeiro, o modelo se apoia em uma combinação de receitas recorrentes e atividades pontuais. Em consulta aos canais públicos da própria casa, o curso de teatro popular aparece com mensalidade de 395 reais, em formato presencial, com 3 horas semanais. Já oficinas avulsas divulgadas em redes sociais e plataformas de eventos aparecem com valores como 150 e 200 reais, dependendo da atividade, do número de vagas e da proposta artística. Considerando que a escola reúne cerca de 120 alunos, uma mensalidade próxima ao valor público encontrado para um dos cursos indicaria um faturamento em torno de 47 mil por mês, com pelo menos 20% dos alunos sendo bolsistas.
Alguns alunos permanecem por anos, porque, segundo Gota, a formação artística não termina em um certificado, sempre há um novo projeto, uma nova linguagem ou uma nova etapa de criação. Na visão econômica, a recorrência é um dos pontos centrais para a sobrevivência de espaços culturais. Gota observa que muitos projetos dependem de editais, governos ou apoios instáveis. Por isso, encontrar uma atividade com entrada previsível de receita é fundamental. No caso da Casa Locomotiva, uma das frentes que cumprem esse papel são as oficinas para o mercado corporativo.
Essas oficinas recebem grupos de empresas para experiências artísticas direcionadas ao desenvolvimento do pensamento criativo. Para Gota, a técnica pode ser aprendida em muitos lugares, mas a prática artística em grupo tem força para estimular inovação em diferentes profissões. “A arte é onde você treina isso”, afirma. O projeto também visa uma expansão. Uma das ideias é criar as chamadas “estações Locomotiva”, fortalecendo espaços em outras regiões da cidade, com metodologias, professores e apoio a iniciativas já existentes. Gota, que veio da Zona Leste, vê nesse movimento uma forma de enfrentar a dificuldade de fazer o dinheiro circular para além dos bairros tradicionalmente associados ao consumo cultural. Mais do que uma escola de arte, a Casa Locomotiva funciona como um caso de empreendedorismo cultural. Em vez de tratar a arte como atividade paralela à economia, o espaço mostra que ela pode gerar trabalho, sustentar profissionais e oferecer ferramentas criativas para outras áreas. Assista a reportagem em vídeo.
A alta no valor do combustível, embalagens e ingredientes, especialmente os importados, que dependem do câmbio e do mercado internacional, afetam diretamente os picolés premium vendidos na cidade de São Paulo. Atualmente, os ajustes frequentes no setor alimentício forçam a adaptação e diversificação. A marca LosLos, que a princípio surgiu como paletas mexicanas, hoje se identifica como indústria de sorvetes. Nasceu em 2014, começando a operar fábricas em 2018. A ideia do fundador, José Vicente Mazzarella, em entrevista à AGEMT, surgiu a partir de uma oportunidade de negócio durante o próprio casamento, em 2005, quando serviu 600 picolés para mais de 300 convidados, que se esgotaram em meia hora. Em 2018, com apenas cinco meses recém-inaugurada, 527 pontos de venda foram abertos.
Nos dias de hoje, são vendidas cerca de 7 mil caixas de sorvetes diariamente, sendo 62% a 65% voltados a matérias-primas vindas do exterior. O empresário conta que os ajustes de valores podem chegar de 6% a 8% anualmente com a crise no Oriente Médio. Os custos altos atingem desde o transporte refrigerado de sorvetes até a gasolina, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), dados divulgados pelo IBGE, o grupo alimentação e bebidas, mostram um aumento de 1,34% em abril, de acordo com a reportagem da revista Veja. Para Vicente, todas as commodities são extremamente importantes. Ele afirma que, com as instabilidades do mercado global, é essencial acompanhar os preços, preparando-se constantemente para possíveis mudanças em estratégias. Leite argentino, pastas italianas, fibras e adoçantes alemães e frutas, por exemplo, são matérias-primas vindas do exterior, correspondendo a mais de 60% das compras internacionais da empresa. “O sorvete leva muita commodity: açúcar, papelão, plástico, madeira, leite e chocolate. A gente acompanha uma média de 6% a 8% de aumento ao ano”, diz o empresário.
São comprados, em média, lotes de 30 toneladas de leite em pó argentino, sendo hoje em dia o maior gasto da marca. Custando R$ 1,50 a mais por quilo, comparado ao nacional, chegando a aproximadamente R$ 45 mil por compra, a diferença pode chegar a ultrapassar de R$ 270 mil por ano. Em seguida, o pistache é o segundo maior gasto da empresa, com uma variação de 30% nas últimas semanas, devido à alta demanda internacional, principalmente vindo do Oriente Médio.
A gasolina elevada encareceu o transporte refrigerado e o diesel. Os custos de logística são de 4,5% a 5% do custo geral da empresa. As embalagens também têm base de petróleo, saindo de R$ 33 para R$ 46 o quilo, com uma alta de 39,4%. “Tudo que é derivado de petróleo explodiu de preço”, diz. Segundo ele, os repasses aos clientes são feitos gradativamente, mesmo com adaptações totais. A inflação, com números entre 6% e 8%, tem alta absorvida pela redução da margem de lucro, segundo Mazzarella.
Os investimentos da LosLos agora são principalmente voltados para a reformulação das receitas, retirando corantes petrolíferos e quaisquer elementos transgênicos, visando uma trajetória totalmente “clean label”. O desafio econômico agora é igualar os custos à qualidade do produto.
Durante décadas, a ideia de crescimento social no Brasil esteve ligada à promessa de que estudar e trabalhar duro bastariam para construir uma vida melhor. Mas essa lógica começou a perder força. Em um cenário de custo de vida alto, empregos instáveis e dificuldade crescente de acesso à moradia, o patrimônio familiar passou a ter um peso decisivo nas trajetórias individuais. Dados divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2018 colocaram o Brasil entre os países com menor mobilidade social do mundo. O debate ganhou força internacionalmente sob o conceito de “herançocracia”: uma sociedade em que a herança pesa mais do que o mérito individual na definição das oportunidades. Embora o termo tenha surgido em discussões recentes sobre Europa e Estados Unidos, tem efeitos em um país historicamente desigual como o Brasil.
Para o economista Naercio Aquino, professor da USP e doutor em Economia pela University College London, em entrevista à AGEMT, a herança tem um papel direto na manutenção das distâncias sociais. “A herança tem papel decisivo na reprodução da desigualdade no país, na medida em que ela faz com que as pessoas nasçam com perspectivas diferentes na vida”, afirma. Segundo ele, quem recebe patrimônio acumula vantagens desde cedo: “Aqueles que recebem grandes heranças terão mais facilidade para realizar seus sonhos, pois têm mais capacidade de investir em educação e riquezas”.
A discussão, no entanto, vai além da transmissão formal de bens. O patrimônio familiar opera também de maneiras menos visíveis, no acesso a redes de contato, na possibilidade de assumir riscos profissionais, no tempo disponível para estudar ou mesmo na chance de fracassar sem cair na precariedade. O pesquisador Pedro Herculano, sociólogo e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), chama atenção para outro problema: o Brasil conhece pouco a própria estrutura patrimonial. “A maior dificuldade para entendermos o papel das heranças no Brasil é a falta de dados. Sabemos muito pouco sobre a distribuição de patrimônio, e menos ainda sobre a transmissão de heranças”, diz Herculano.
Segundo ele, essa ausência de informações dificulta compreender o tamanho real do fenômeno. Ainda assim, há sinais de que o patrimônio se tornou um elemento na reprodução das desigualdades. “No mundo todo, há mais desigualdade de patrimônio do que de renda, e o Brasil certamente não é diferente”, afirma.
O custo da vida adulta
A expansão universitária alterou trajetórias e ampliou oportunidades especialmente para grupos historicamente excluídos. Mas o diploma já não garante o mesmo retorno econômico de outras gerações. Ao mesmo tempo, os custos da vida adulta subiram de forma acelerada. Comprar um imóvel é mais difícil. Em 2024, São Paulo registrou o maior valor médio de aluguel da série histórica do índice QuintoAndar/Imovelweb. O mercado de trabalho passou a exigir formação contínua, experiência prévia e alta competitividade para vagas frequentemente instáveis. Em grandes cidades morar sozinho virou privilégio.
Nesse cenário, famílias passaram a funcionar como amortecedores econômicos. Pais ajudam filhos adultos a pagar aluguel, financiar estudos ou enfrentar períodos de desemprego. Avós sustentam parte da rotina doméstica cuidando de crianças enquanto os pais trabalham. Em muitos casos, a sobrevivência financeira depende menos do salário e mais da estrutura familiar disponível. Para Naercio, o problema é que esse apoio não está igualmente distribuído. “A educação, em tese, conseguiria compensar a falta de patrimônio, mas somente se a qualidade da educação pública fosse similar à da educação em escolas privadas, o que não ocorre no Brasil”, afirma.
Ele diz que a desigualdade se reproduz desde os primeiros anos de vida. “Quem tem mais recursos acaba estudando em escolas melhores, desde a creche, obtém mais aprendizado e maiores salários no futuro”, explica. Já Herculano observa que as vantagens patrimoniais começam muito antes da herança oficial. “Os herdeiros podem se beneficiar por múltiplos canais, para além da transmissão direta de bens”, diz. “Em outros casos, os pais antecipam a transmissão de patrimônio dando suporte e vantagens para os filhos ainda em vida”.
A perspectiva de herdar um imóvel por exemplo altera decisões sobre carreira, consumo, moradia e até relacionamentos. Em um mercado de trabalho mais competitivo, com processos seletivos longos, exigência de qualificação constante e poucas garantias de estabilidade, negativas sucessivas se tornaram parte da rotina. A dificuldade de alcançar independência financeira, somada ao alto custo da moradia e à pressão por sucesso profissional, ajuda a ampliar sentimentos de frustração, insegurança e desgaste emocional entre as novas gerações.
Para os especialistas entrevistados, o impacto da concentração patrimonial não se limita à vida privada. Ele também afeta o funcionamento da democracia. Naercio afirma que a concentração de riqueza tende a reduzir o crescimento econômico no longo prazo. “Ela aumenta a influência dos mais ricos nas decisões do Congresso que afetam o crescimento econômico”, diz.
Herculano segue linha semelhante ao destacar o risco de política: “Em um país muito desigual, os mais ricos conseguem converter parte dos seus recursos econômicos em influência política”, afirma. Segundo ele, isso permite que grupos privilegiados aprovem políticas alinhadas aos seus próprios interesses, mesmo que isso contrarie necessidades mais amplas da população.
A consequência mais visível talvez seja a erosão lenta da ideia de mérito. Não porque o esforço deixe de importar, mas porque ele passa a produzir resultados radicalmente diferentes dependendo do ponto de partida. O Brasil ainda discute pouco a riqueza acumulada e transmitida entre gerações. O imposto sobre herança permanece baixo em comparação internacional, enquanto a concentração patrimonial segue elevada.
Para Naercio, ampliar a tributação sobre heranças poderia ajudar a reduzir parte da desigualdade estrutural. “Não acho que devamos acabar com a herança, pois isto poderia desestimular a busca por mais produtividade, mas sim aumentar bastante o imposto pago na hora de passar os bens dos pais para os filhos”, afirma.
A inadimplência no Brasil atingiu patamares históricos nos últimos dois meses e estabeleceu novos recordes de comprometimento financeiro. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o percentual da população com dívidas foi de 80,4% em março e subiu mais 0,5 ponto percentual em abril. O cenário reflete a dificuldade crescente das famílias que buscam quitar despesas essenciais, como contas de luz, água e aluguel.
Em entrevista à AGEMT, o economista Gabriel analisa a percepção social da inadimplência e o impacto do vício em apostas, como as bets, no orçamento doméstico. O especialista aborda ainda o papel da educação financeira de base diante do atual cenário econômico. Confira a reportagem completa aqui