Plataforma solicitou licenças para atuar com pagamentos e crédito, integrando consumo e transações
por
Mariane Beraldes
Thainá Brito
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08/05/2026 - 12h

TikTok busca autorização do Banco Central do Brasil (BC) para operar como instituição financeira no país, em um movimento que aproxima o aplicativo do modelo de “super app” e pode transformar a forma como consumidores, especialmente o público juvenil, compram e se relacionam com o dinheiro. A informação foi divulgada pela agência Reuters na última terça-feira de março (31). “Assim como outras plataformas, o TikTok quer deixar de ser só o canal de descoberta, para operar no ambiente completo de conversão, transformando esse consumo quase que guiado por esses estímulos dos próprios algoritmos da plataforma”, afirma Ângelo Vieira Jr., especialista em Digital e Novos Negócios, em entrevista à AGEMT.

Segundo fontes ouvidas pela Reuters, a rede social, controlada pela ByteDance, solicitou duas licenças: a de emissor de moeda eletrônica e a de sociedade de crédito direto. A primeira permitiria oferecer contas de pagamento digital, com serviços como transferências e pagamentos dentro da própria plataforma. Já a segunda abriria caminho para a concessão de crédito com recursos próprios ou para a atuação como intermediadora de empréstimos.

De acordo com a pesquisa TicKids Online Brasil de 2025, cerca de 46% das crianças e adolescentes brasileiros utilizam o aplicativo várias vezes ao dia. Para Ângelo, o novo modelo das plataformas pode transformar a forma como o jovem enxerga o consumo: “existe um risco relevante em relação a isso, principalmente entre os públicos mais jovens, essa diluição das fronteiras entre o próprio entretenimento e o consumo financeiro. A gente tá entrando na era desse embedded finance (finanças integradas), onde a decisão de compra não passa mais por  racionalidade clássica, mas por estímulo do próprio algoritmo, resultado da dopamina”, explica. 

A queda no uso do dinheiro físico tem feito com que a faixa etária infantil e juvenil lide cada vez mais cedo com formas digitais de pagamento, muitas vezes sem entender o valor do dinheiro, o que significa uma transação financeira ou até onde vão os próprios limites de gasto. Esse cenário acende um alerta, principalmente quando esse público chega aos 18 anos. Sem educação financeira, a relação com o consumo e com plataformas digitais pode ficar mais descontrolada. Dados do Relatório de Cidadania Financeira 2025, do Banco Central, mostram que, nos últimos oito anos, o número de jovens com acesso ao crédito dobrou no Brasil. Ao mesmo tempo, a inadimplência entre eles já é maior do que entre adultos e idosos. Em 2024, entre os que possuíam renda de até dois salários mínimos, 17,4% estavam inadimplentes.

No caso do TikTok, a expansão e a facilidade de acesso do público a serviços e ferramentas de compra reposiciona a plataforma, que passa a atuar também como fintech e a concorrer com bancos digitais e aplicativos de marketplace. Para Ângelo, esse movimento traz três desafios principais: a construção de credibilidade, a proteção do consumidor e a percepção de segurança de dados e dos pagamentos. “O aplicativo tem uma vantagem estrutural bem relevante: ele parte da atenção. Os marketplaces tradicionais competem pela demanda, enquanto o TikTok cria essa demanda. Esses players evoluíram do comércio para o conteúdo, essa rede social está fazendo o caminho inverso. E claro, também tem a capacidade de influenciar esses desejos antes da própria intenção de compra desse consumidor existir. Na prática, isso acaba posicionando a plataforma não apenas como um concorrente dos marketplaces tradicionais, mas quase que uma camada acima ", diz Ângelo.

Acompanhe em vídeo esta reportagem. 

 

Conflito encarece petróleo e fertilizantes, e mantém os juros altos, sufocando o orçamento
por
Julia de Sá Ribeiro
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27/04/2026 - 12h

A escalada do conflito no Oriente Médio já não é apenas um problema geopolítico distante: seus efeitos estão chegando com força ao bolso das famílias brasileiras. Como o Brasil importa derivados e depende fortemente do diesel para abastecer sua frota de transporte e o setor agropecuário, o resultado imediato do conflito são combustíveis mais caros. Esse custo extra na bomba é rapidamente repassado para a logística, a indústria e, consequentemente, para os alimentos nas prateleiras dos supermercados. 

Além do petróleo, há a crise agrícola. O Brasil é altamente dependente de fertilizantes importados, e o Irã figura como um fornecedor relevante de ureia e outros insumos. Especialistas já alertam para o risco de desabastecimento e de uma nova alta nos preços caso as infraestruturas iranianas sejam atingidas pelo conflito. Culturas fundamentais como a soja já enfrentam pressão de custos e incertezas para a safra de 2026/27, o que significa custos maiores no campo e, inevitavelmente, alimentos mais caros e inflação mais alta para o consumidor final. Com a inflação mais alta, o poder de compra da população cai, aumentando a necessidade de se recorrer ao crédito. Para tentar conter essa escalada de preços, o Banco Central tende a manter elevada a Selic, que é a taxa básica de juros da economia brasileira. A Selic funciona como referência para todas as outras taxas do país. Na prática, juros altos significam que o crédito, como cartão de crédito, cheque especial, consignado e financiamentos, fica muito mais caro, e a renegociação de dívidas antigas se torna mais difícil. As empresas, por sua vez, continuam repassando esses custos ao consumidor. 

Atualmente, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 8 em cada 10 famílias brasileiras estão endividadas, o maior nível registrado em 16 anos. O comprometimento da renda com essas dívidas já alcançou 29,3%, uma máxima histórica segundo dados do Banco Central. A combinação de inflação persistente e salários estagnados cria uma trajetória perigosa: os custos de produção sobem, a inflação acelera e a renda real cai. Para manter o consumo básico, as famílias recorrem ao crédito caro. Economista e professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP), Laura Carvalho, em entrevista à AGEMT, explica: "quando a inflação de itens essenciais, como alimentos e energia, sobe acima da média e os salários não acompanham, ocorre uma compressão violenta do orçamento. As famílias não se endividam por luxo, mas para fechar o mês. Esse 'endividamento de sobrevivência' é o mais difícil de combater, pois não depende de educação financeira, mas de recomposição do poder de compra", ressalta Carvalho. 

Laura Carvalho, economista e professora da Universidade de São Paulo (USP) 
Laura Carvalho, economista e professora da Universidade de São Paulo (USP) 

Essa realidade é evidenciada pelo fato de que parte da população passou a usar o cartão de crédito para comprar comida. Para a economista, isso sinaliza um colapso em múltiplas frentes: "usar crédito para alimentação é um sintoma grave. Vejo isso como uma falha combinada: de política econômica, que não conseguiu garantir um ambiente de crescimento com baixa inflação, e de política social, que falhou em proteger os mais vulneráveis de choques de preços externos", diz a economista. 

Diante do cenário, o governo anunciou em 01 de maio o Desenrola 2.0, programa de renegociação de créditos inadimplidos, criado pelo Governo Federal. "Programas de renegociação são fundamentais para limpar o nome do consumidor e permitir que ele volte ao mercado, mas, isolados, eles podem apenas 'enxugar gelo' ", afirma Carvalho. Com a tendência de endividamento elevado projetada para 2026, o Brasil segue vulnerável às oscilações globais. Enquanto o conflito no Oriente Médio mantiver o petróleo pressionado, o desafio interno será transformar medidas de alívio temporário em soluções estruturais que protejam a renda do trabalhador. 

Entenda as motivações da queda e seus impactos no país
por
Isabella Damião
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23/04/2026 - 12h

Na última terça-feira (14), a cotação do dólar alcançou o menor valor desde 2024, abaixo dos R$5,00. A mudança do cenário financeiro no Brasil se deu, sobretudo, como consequência das últimas negociações entre o governo dos Estados Unidos e do Irã, em guerra desde fevereiro de 2026.

O dólar comercial, ou a taxa de câmbio, corresponde ao valor do real em relação ao dólar e reflete, principalmente, a política internacional e a inflação de cada país. Desse modo, a oscilação das tentativas de acordo entre o governo estadunidense e iraniano torna arriscado o cenário americano em diversos setores da economia, principalmente no comércio de petróleo. Os dois países disputam o controle do Estreito de Ormuz, via marítima que entrega 20% do petróleo mundial. 

O enfraquecimento do dólar se deu mundialmente, e outras moedas como o peso chileno e o peso mexicano também se valorizaram nessa relação. “Quando o mercado passa a acreditar que o Federal Reserve [Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos] pode reduzir ou desacelerar o aperto monetário, o dólar tende a perder força frente a outras moedas, especialmente de países emergentes", explica a professora de Economia da PUC-SP, Cristina Helena Pinto de Mello. 

Em relação ao real, a economista pontua que o que o favorece são as altas taxas de juros, que atraem investimento de capital estrangeiro. Além disso, a balança comercial brasileira apresentou, entre janeiro e abril de 2026, um superávit de US$20,92 bilhões, 44,3% a mais do que o valor do mesmo período no ano anterior. Esses fatores contribuem para um fluxo positivo de capital no Brasil e valorizam o real. 

Gráfico - média diária de saldo
Gráfico: Secretária do Comércio Exterior/MDIC

 

Quanto aos efeitos da redução do dólar comercial, Cristina Helena não vê uma mudança a longo prazo na economia brasileira: embora existam boas indicações nesse cenário, como o controle da inflação, a oscilação da taxa de câmbio pode deixar o fluxo de capitais mais suscetível à juros. “O real tem se destacado entre moedas emergentes em alguns momentos recentes, mas isso não é um movimento isolado nem garantido. Isso é conjuntural e pode se inverter”, esclareceu. 

Influenciadora brasileira detalha a criação e o sucesso de seu body splash
por
Fernanda Dias
João Luiz Freitas
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30/03/2026 - 12h

Com 442 mil seguidores no Instagram, a influenciadora digital Lis Bella Andreazzi viu que seu público consumia muitos perfumes e teve a ideia de criar um produto com a sua cara. A parceria com a Ekomist, empresa que faz aromas para grandes marcas, foi o passo seguinte para tirar o plano do papel e lançar o  "Eighteen Seasons". Em entrevista à AGEMT ela detalha a estratégia de seu body splash e explica para o leitor o poder da influência digital sobre o consumo. 

A conversa revelou como criadores de conteúdo movem o mercado e fazem produtos esgotarem em poucas horas. Também contou sobre o processo de criação para garantir que o item faça parte da rotina de quem a segue.  Lis Bella entende o impacto de suas indicações no mundo digital e percebe que seu público confia muito no que ela usa no dia a dia. A influenciadora explica que nem todo produto vende com facilidade e o que importa é o alinhamento com o perfil de quem a acompanha. "Não é todo mundo que vai comprar? É quem se sentir atraído pelo produto, se divulgo maquiagem ou perfume, a chance de venda é maior", ressalta Lis Bella, que acrescenta: "as pessoas veem que ela usa o item de verdade e não apenas para uma propaganda". 

"Você ser uma influenciadora que passa essa confiança para o público, criando uma intimidade por meio de exemplos de sua rotina de cuidados com a pele gera muito engajamento". Segundo a influenciadora essa credibilidade está altamente ligada à escolha de não divulgar golpes ou casas de apostas, pois as marcas buscam influenciadores com boa reputação para parcerias de longo prazo. O nome "Eighteen Seasons" marca uma fase de transição na vida dela, pois o lançamento teve uma ativação estratégica em sua festa de 18 anos.

Além disso, ela chamou alguns de seus seguidores para estarem presentes nesse lançamento, reforçando a ideia de que ela preza pela proximidade ao público. A embalagem tem inspiração em produtos internacionais de sucesso e a marca atrai quem gosta de perfume e quem admira o estilo de Lis Bella.

Lis Bella Andreazzi - mulher segurando seu produto
Lis Bella Andreazzi na divulgação do seu produto "Eighteen Seasons". Fonte: divulgação. 

O mercado vê o surgimento de febres passageiras em alimentos e cosméticos, vários produtos viralizam e esgotam rapidamente. Exemplos recentes incluem o "morango do amor" e o "labubu". Esses itens mostram como um vídeo ou uma tendência pode criar uma demanda imediata e massiva. A velocidade com que esses produtos aparecem e desaparecem do mercado é um desafio para as marcas e um reflexo do consumo impulsionado pelas redes sociais.

A ideia de que um produto pode viralizar hoje e ser esquecido amanhã não é apenas percepção das redes sociais, mas já vem sendo discutida também no campo do marketing. Um estudo recente da Nanyang Business School, em Singapura, define esse cenário como “economia do momento”, em que marcas e consumidores passam a girar em torno de tendências rápidas, com picos de atenção que desaparecem em pouco tempo.

Na prática, o que se observa é um padrão recorrente. Um vídeo viraliza, o produto ganha visibilidade, a procura dispara e, em poucos dias, o interesse começa a cair. O ciclo é curto e, muitas vezes, substituído rapidamente por uma nova tendência. A influenciadora reforça, em entrevista, que a relação de confiança com o público acelera esse processo. Quando a indicação vem de alguém com quem o seguidor já se identifica, a decisão de compra tende a acontecer mais rápido, sem muita comparação ou planejamento. Ao mesmo tempo, o próprio estudo aponta um limite importante: chamar atenção não significa construir uma relação duradoura. Em um ambiente onde tudo é substituído rapidamente, ser visto não garante ser lembrado.

Andreazzi destaca que, nesse contexto, o timing se torna um dos fatores mais importantes. Participar de uma tendência no momento certo pode definir o alcance de um produto. Fora desse período, o interesse tende a cair rapidamente. Por fim, o eixo do comportamento do consumidor busca entender como essas dinâmicas afetam as escolhas. A repetição desse padrão indica um consumo mais impulsivo, influenciado pela urgência e pelo desejo de participar de algo coletivo. No entanto, esse comportamento nem sempre se traduz em fidelidade. A própria lógica da “economia do momento” sugere que o consumidor está sempre em busca do próximo viral. Segundo Andreazzi, a continuidade da relação depende menos do hype e mais da experiência real com o produto após a compra.

 

Bolhas de IAs e tensões geopolíticas afetam o valor final dos produtos eletrônicos
por
João Moura
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27/03/2026 - 12h

O consumidor brasileiro que planeja atualizar seus dispositivos eletrônicos nos próximos meses encontrará um cenário difícil. Segundo projeção da Gartner, empresa de consultoria no mercado de tecnologia, o preço dos computadores deve sofrer um reajuste de 17% em curto prazo. Ainda nessa análise, o mercado de PC’s deve sofrer uma retração de 10,4% em vendas. O aumento do preço é  impulsionado por uma combinação de fatores globais e decisões de política interna. O encarecimento de memórias RAM e unidades de armazenamento SSD, se transformou no principal vilão do orçamento doméstico e empresarial, agravando uma tendência de alta que se acumula desde o final de 2024.

O motivo principal dessa inflação está no crescimento do mercado de inteligência artificial (IA). A infraestrutura necessária para sustentar os modelos de linguagem (LLMs) e processamento de dados exige uma grande quantidade de hardware. Como resultado, as big techs estão direcionando seus investimentos para a construção e manutenção de data centers, consumindo a maior parte da produção mundial de semicondutores.

O apetite das gigantes da tecnologia acaba por "canibalizar" a oferta de produtos para o consumidor comum e pequenos varejistas. Um marco dessa mudança ocorreu em novembro de 2025, quando a Micron, uma das líderes globais do setor, anunciou o fim de sua linha de memórias padrão para consumidores, reajustando todo o seu portfólio para atender exclusivamente às demandas corporativas de alta escala. Para a economista e professora da PUC-SP, Leslie Denise Beloque, o momento exige cautela extra dos investidores e consumidores. “Temos uma imensa bolha no campo das big techs. Quer dizer que a valorização das ações dela na bolsa é extremamente grande, supondo que o desempenho delas na vida real também esteja. Isso fatalmente uma hora estoura, e todo mundo que tinha ação vai ver que isso era irreal, e perde dinheiro”, afirma Leslie.

Data centers dominam o mercado de memória RAM. Foto: wirestock/Freepick
Data centers dominam o mercado de memória RAM. Foto: wirestock/Freepick

Além da pressão de demanda, a oferta global de chips enfrenta problemas logísticos e diplomáticos. A guerra tarifária entre Estados Unidos e China impôs barreiras severas ao fluxo de recursos essenciais para a fabricação de microchips, afetando empresas cruciais como a TSMC e a Nvidia. A escalada de tensões entre os dois países também envolve restrições à exportação de tecnologias sensíveis e sanções comerciais estratégicas, especialmente no setor de semicondutores avançados.

Washington (EUA) tem ampliado o controle sobre o envio de equipamentos de litografia e chips de alto desempenho para empresas chinesas, enquanto Pequim responde com políticas de incentivo à produção doméstica e possíveis limitações na exportação de minerais críticos, como terras raras. Esse embate cria um ambiente de incerteza para toda a cadeia global de suprimentos, elevando custos, atrasando entregas e reduzindo a previsibilidade do mercado. No Brasil, o cenário é agravado pela questão tributária. A resolução Gecex 852, que entrou plenamente em vigor no início de  março de 2026, estabeleceu uma taxação de 12,6% sobre placas de vídeo, memórias RAM e placas-mãe. Embora o governo justifique a medida como uma forma de proteger a indústria nacional, que registrou um aumento de 33% na importação desses itens desde 2022, o impacto imediato é o desestímulo ao consumo.

Redes sociais passam a integrar entretenimento e consumo, acelerando o avanço do social commerce no Brasil
por
Eduarda Amaral
Kaleo Ferreira
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28/03/2026 - 12h

O comércio eletrônico brasileiro vive uma nova fase impulsionada pelos marketplaces, plataformas que conectam vendedores e consumidores em um mesmo ambiente digital. Nos últimos anos, esse modelo se consolidou como um dos principais motores de e-commerce no país, concentrando grande parte das vendas online e ampliando o alcance de marcas e pequenos empreendedores. Se preferir, ouça esta matéria em áudio.

Em 2026 um novo formato ganha espaço, o social commerce, que integra redes sociais às vendas online, permitindo ao consumidor descobrir e comprar produtos sem sair da plataforma. Um exemplo desse movimento é o TikTok Shop, que transforma vídeos curtos e transmissões ao vivo em vitrines digitais. O modelo se apoia no conceito de discovery commerce, o consumo por descoberta. Diferente da lógica tradicional, em que o cliente busca o que quer comprar, aqui ele os encontra de forma espontânea enquanto consome conteúdo. Para o especialista Felipe Couto, cofundador técnico e engenheiro principal da Jodda.ia, plataforma que integra gestão de dados e performance no e-commerce, os marketplaces deixaram de ser meros intermediários para se tornarem provedores de infraestrutura. Ao oferecerem soluções de logística, publicidade e crédito, essas plataformas geraram um "efeito de rede, em que mais vendedores atraem mais consumidores, fortalecendo o ciclo", explica Couto.

Nesse cenário, o entretenimento passa a desempenhar um papel central na decisão de compra, permitindo que marcas e criadores apresentem produtos de forma mais orgânica e próxima do consumidor. Essa estratégia transforma a navegação nas redes em um ambiente de descoberta constante, no qual recomendações e o algoritmo influenciam diretamente o comportamento do consumidor. Os números confirmam o avanço do setor. De acordo com a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), o e-commerce brasileiro faturou R$ 235 bilhões em 2025, alta de 15% em relação ao ano anterior. O período encerrou com 94 milhões de compradores online e aumento de 5,8% no volume de pedidos, com projeções que indicam a manutenção desse ritmo em 2026.

Gráfico faturamento do e-commerce no Brasil de 2020 a 2025 de acordo com a ABComm
Evolução do faturamento do e-commerce no Brasil de 2020 a 2025 - Fonte: ABComm

Essa alta-performance tem nos marketplaces seu principal motor, somada ao fenômeno do live commerce. O modelo popularizado na China em plataformas como Taobao Live e Douyin (versão chinesa do TikTok), onde o setor já movimenta centenas de bilhões de dólares anualmente, ganha força no Brasil como uma das formas mais autênticas de exposição de produtos. Nas transmissões ao vivo, vendedores e criadores respondem a dúvidas em tempo real, estabelecendo uma relação de proximidade que transforma o micro-influenciador em peça estratégica desse ecossistema.

Couto cita empresas que encontraram nas plataformas um atalho para expansão. A Growth Supplements, por exemplo, que já registrava alto faturamento em seu site próprio, alcançou milhões de pedidos em apenas um mês após migrar para o Mercado Livre. Para ele, o movimento evidencia que "não é só o pequeno seller (vendedor) que depende disso, até empresas grandes usam marketplaces como canal estratégico de crescimento". Mas esse formato, no entanto, começa a ser desafiado por um novo concorrente. Com cerca de 90 milhões de usuários no Brasil, o TikTok Shop registrou um crescimento de 26 vezes na receita diária média em apenas cinco meses desde sua chegada ao país, em 2025. 

Montagem com interface do TikTok Shop e vídeos de promoção de produtos — Imagem: Eduarda Amaral/Canva
Montagem com interface do TikTok Shop e vídeos de promoção de produtos - Arte: Eduarda Amaral/Canva

Ao aproximar entretenimento, recomendação e compra em um único ambiente, o social commerce redefine a jornada do consumidor e abre novas frentes de monetização. Nesse modelo, o conteúdo se transforma em vitrine e o criador em mediador, consolidando uma etapa do varejo digital em que as fronteiras entre diversão e consumo são cada vez mais difusas. 

Essa transição para novos canais exige mais do que presença digital, exige inteligência sobre o próprio negócio. É justamente esse o desafio que Couto enfrenta no dia a dia com a Jodda.ia. Segundo ele, a maioria dos vendedores tomam decisões com base em dados históricos e intuição: sabem quanto venderam, mas não entendem por que venderam ou onde perderam margem. "Um vendedor que não tem essa base analítica estruturada vai tentar replicar o que faz no Mercado Livre e vai se frustrar, porque as métricas são diferentes", afirma. Para ele, ter clareza sobre o lucro é o que permite avaliar com segurança se um item faz sentido no TikTok Shop, onde o giro é acelerado pela viralidade.

Essa disputa, no entanto, não deve se consolidar como uma competição direta entre modelos. O cenário aponta para uma convergência entre marketplaces e social commerce, à medida que plataformas de venda incorporam elementos de conteúdo, enquanto redes sociais avançam na estrutura operacional. Para Couto, essa transformação já está em curso e reflete uma adaptação do varejo digital a um consumidor mais orientado por experiência e conveniência.

Nesse processo, o avanço do TikTok Shop como ameaça real ainda depende de fatores como logística e confiança no pós-venda, áreas em que players consolidados mantêm vantagem. “Se o TikTok Shop conseguir fechar essa lacuna, aí o jogo muda”, afirma Couto. A disputa deixa de ser apenas por preço ou variedade e passa a envolver experiência e eficiência. “O marketplace venceu pela infraestrutura; o TikTok Shop cresce pela atenção; e o próximo ciclo será vencido por quem conseguir unir atenção, operação e margem no mesmo sistema”, conclui.

O que a crise gerada por Vorcaro conta sobre o letramento financeiro dos brasileiros
por
Leticia Falaschi
Anna Cândida Xavier
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27/03/2026 - 12h

O escândalo do banco Master tomou conta do noticiário brasileiro, promessas de rendimentos milagrosos, altas taxas de juros, ativos sem retaguarda e possível envolvimento de nomes importantes da política. A investigação da Polícia Federal estima que a crise do Master gerou R$50 bilhões em prejuízos generalizados, inclusive para investidores inexperientes que apostaram tudo o que tinham em uma cilada. Este caso deixa um alerta sobre a transformação do risco em produto e a expectativa em estratégia de mercado. Desde 2017, quando o empresário Daniel Vorcaro assumiu a presidência, o Banco Master apresentou um crescimento acelerado, baseado na emissão de Certificado de Depósito Bancários (CDB) com alto juros.

O CDB é um investimento de renda fixa emitido por bancos para captar dinheiro, ao investir, o cliente empresta dinheiro ao banco e recebe os juros. O Master oferecia uma rentabilidade muito superior à média de mercado, o que gerou uma captação expressiva e promessa de grandes retornos aos investidores. As operações eram complexas, de alto risco e pouco transparentes. A crise expõe não apenas uma falha financeira, mas um fenômeno social e comunicacional mais amplo, construído ao longo da última década no Brasil: a popularização do investimento em um ambiente mediado por linguagem simplificada, entretenimento e disputas de narrativa. Plataformas digitais, assessores e influenciadores passaram a traduzir o mercado financeiro em uma linguagem acessível, vendendo a ideia de que investir era simples e seguro. “As pessoas usam aquilo que é mais simples de acessar, que é a caderneta de poupança”, explica Cristina Helena Pinto, professora doutora em economia pela Fundação Getúlio Vargas.

Segundo ela, "o retorno monetário modesto deste tipo de investimento leva alguns à se arriscarem. Pessoas que têm baixo letramento financeiro, ou têm muita vontade de realizar rápido um ganho extraordinário”, caem, alerta Cristina. Nesse movimento, encontram um ecossistema financeiro pronto para oferecer soluções mais lucrativas, como CBD´s com juros muito altos.  Nesse percurso, muitos investidores se tornam vulneráveis a conteúdos que prometem ganhos rápidos, especialmente quando há muita vontade de realizar rápido um ganho extraordinário, o que se torna corriqueiro para boa parte da população.

É nesse ponto que a dimensão comunicacional se torna central. Segundo Davidson Carvalho, que defendeu mestrado na PUC-SP analisando o mercado financeiro para pequenos empreendedores, "há uma mudança estrutural na forma como o mercado financeiro se comunica: conteúdos sobre dinheiro passaram a adotar lógica de entretenimento, com ritmo acelerado, apelo visual e fragmentação". 

"O uso de memes e recursos visuais não é necessariamente um problema, como no caso do canal Me Poupe!, mas pode servir para “quebrar o ritmo racional do negócio”. O resultado é uma comunicação que privilegia engajamento em detrimento da profundidade", explica Carvalho. 

A economista Cristina Helena reforça essa ambiguidade ao apontar que, mesmo para quem possui conhecimento, há um conflito entre percepção de risco e confiança institucional: “olhava para aquilo e falava, está acima do que o mercado está pagando, tem alguma coisa de errado aqui”, mas, ao mesmo tempo, confiava que “dificilmente esse banco ia estar numa situação de risco tão elevado sem aparecer alguma coisa”. Essa confiança no sistema, combinada com a comunicação simplificada, contribuiu para diluir a percepção de risco entre investidores menos experientes.

Outro aspecto central é a disputa de narrativas entre instituições tradicionais e novos agentes comunicacionais. Como afirma Carvalho, “o banco não está isolado, não está conversando sozinho, pois compete diretamente com influenciadores que também se propõem a falar sobre educação financeira”, adverte. No entanto, há uma diferença de linguagem: enquanto instituições oferecem conteúdos mais técnicos, influenciadores alcançam grande audiência com formatos dinâmicos. 

Essa assimetria ajuda a explicar por que narrativas simplificadas têm maior alcance, mesmo quando menos completas. Nessa disputa por atenção, as instituições acabam por perder. “Os bancos também pensam em como decifrar a economia para o consumidor.” afirma Carvalho. 

Fundo Garantidor de Créditos (FGC)

Para a professora, a existência do (FGC) levou muitos investidores a acreditarem que estavam protegidos. Apesar dele garantir retorno para investimentos de até R$ 250 mil, muitas pessoas apostaram suas poucas fichas para além desse valor, confiando na segurança do CBD do Master. “O risco faz parte da estrutura do negócio de um banco, a diferença do caso Master são as fraudes, a emissão de ativos sem colateral, sem retaguarda” afirma Cristina. 

A crise do Master revela limites estruturais que vão além da comunicação. Carvalho destaca que muitos brasileiros simplesmente não têm tempo para se aprofundar: “um cara que está 12 horas numa moto, chega em casa e vai descansar, ele não vai fazer mais nada”, o que torna o consumo de informação rápida e superficial quase inevitável. Aí, a decisão de investimento deixa de ser apenas econômica e passa a ser mediada por cansaço, falta de tempo e excesso de estímulos", explica o mestre Carvalho. 

 

Produtos utilizados por integrantes da casa vigiada têm vendas aumentadas
por
Mariane Beraldes
Thainá Brito
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27/03/2026 - 12h

O Big Brother Brasil 26 se tornou uma das edições mais comentadas do reality nos últimos anos, com forte impacto nas redes sociais. Segundo a Rede Globo, o programa já acumula milhões de interações nas plataformas digitais, o que tem impulsionado a demanda por produtos utilizados pelos participantes. A transmissão 24h amplia o contato do público com os confinados e os itens exibidos dentro da casa, o que tem aumentado o interesse dos consumidores por esses itens. O fenômeno também alcançou pequenos empreendedores, que registram crescimento nas vendas, impulsionado pela visibilidade no ambiente digital. 

Entre os impactados está a estudante Patrícia Carvalho, que afirma já ter adquirido mercadorias motivadas pelo programa. “Eu ainda não me arrependi de nenhuma compra que fiz por conta do BBB. Acredito que isso acontece porque consigo ver o resultado do produto. Se é um item de maquiagem, por exemplo, posso acompanhar como ele se comporta na pele e o acabamento que oferece”, diz Carvalho. 

De acordo com o relatório da McKinsey, empresa global de consultoria e gestão estratégica, recomendações e experiências compartilhadas entre consumidores podem influenciar entre 20% e 50% nas decisões de compra. A lógica se manifesta de forma indireta no BBB, ao acompanhar o cotidiano dos brothers, o público pode observar o uso contínuo dos produtos, o que tende a aumentar a confiança na hora da compra. 

Nas redes sociais, o engajamento é intenso, especialmente em itens de skincare, cabelo e acessórios. A participante Ana Paula Renault garantiu aos pequenos empreendedores maior visibilidade, aumento do faturamento e até esgotamento rápido de seus produtos. Em alguns casos, as parcerias já existiam antes da entrada da sister na casa, como ocorreu com os acessórios da marca “Nega Lora”, que registrou crescimento de 60% nas vendas no início de 2026.

Ana Paula Renault utilizando acessórios da marca Nega Lora Foto: Globo/Divulgação
Participante Ana Paula Renault utilizando acessórios da marca Nega Lora Foto: Globo/Divulgação


Além das parcerias, perfis nas redes sociais, como @closetdaanapaularenault, divulgam as peças usadas pela participante e aumentam a procura por outros itens de pequenos empreendedores, mesmo sem acordos comerciais formais. Quando um produto ganha visibilidade na mídia, há tendência de crescimento nas vendas devido à maior demanda. Uma pesquisa da Wake, em parceria com a Opinion Box, revelou que 56% dos consumidores afirmam que produtos virais aumentam sua intenção de compra. Porém, especialistas em mercado alertam que esse tipo de movimento nem sempre se traduz em consumo contínuo. 

Esse efeito gera picos imediatos, principalmente no ambiente digital, tende a diminuir após o fim do programa, que dura apenas três meses. Essa movimentação exige das marcas, especialmente as menores, estratégias de fidelização para manter o crescimento de vendas a longo prazo. Segundo Davidson Carvalho, mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD), pela PUC-SP, o comportamento do público nas redes tem sido marcado por volatilidade: “Tudo é instantâneo, não necessariamente você lembra do vídeo que você viu, ou da série que você assistiu. Isso é muito rápido, dinâmico e instantâneo. Quem quiser conversar com o público, precisa mudar. Hoje em dia a comunicação está muito mais focada nas emoções, no sentimento, no visual, do que no próprio conteúdo”, explica Carvalho. 

Para Patrícia, esse comportamento pode também estar ligado à percepção inicial dos consumidores: “Quando um produto é lançado e tem aquele hype em cima, ele nunca tem nenhum defeito. Passam os meses, começam a surgir pequenas imperfeições no produto, que talvez façam você questionar se vai querer comprar ele ou não”, afirma.

Acesso facilitado a plataformas convive com renda limitada, trabalho instável e custo de vida elevado
por
Ana Clara Souza
Júlia Polito
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27/03/2026 - 12h

Os jovens da Geração Z, nascidos entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2010, estão assumindo o protagonismo das próprias decisões financeiras. Inseridos desde cedo no ambiente digital, eles possuem acesso facilitado a plataformas de investimento, conteúdos educativos e influenciadores que abordam o tema de forma direta. Ainda assim, a entrada desse público no universo das finanças ocorre em meio a desafios diários, como renda inicial reduzida, relações de trabalho mais instáveis e aumento do custo de vida, o que levanta dúvidas sobre sua capacidade de poupar e investir no mundo atual. “Como não sabemos o que vai acontecer no futuro, prefiro guardar meu dinheiro e sempre ter uma reserva de emergência”, diz o estudante Daniel Miyazaki, de 20 anos. “Sempre tento depositar 50% ou mais do meu salário em investimentos mensais”, afirma. 

Segundo a pesquisa Latam Pulse, realizada pelo AtlasIntel em parceria com a Bloomberg no final de 2025, 55% dos jovens nascidos entre 1995 e 2009 se dizem pessimistas em relação às suas finanças nos próximos anos, sendo 37% muito pessimistas e 18% um pouco pessimistas. Por outro lado, uma parcela menor mantém uma visão positiva: 14% se consideram muito otimistas, enquanto 23% estão um pouco otimistas e 8% se declaram neutros. O estudo reforça o sentimento de incerteza econômica entre os mais jovens.

Ao mesmo tempo, produtos como fundos de investimento de fácil acesso e criptomoedas também ganham espaço, impulsionados pela popularização nas redes sociais e pela promessa de maior rentabilidade. Esse movimento está diretamente ligado às transformações no sistema financeiro e à familiaridade digital dessa geração. Para Rodolfo Viana, formado em ciências econômicas pela PUC-SP e professor na universidade São Judas e no Dieese, o cenário atual favorece o acesso dos mais jovens ao mercado financeiro. “Novas formas de organizações das empresas financeiras, bancos mais modernos, descentralizados. Eles crescem justamente já aprendendo a mexer com essas ferramentas”, afirma. Segundo ele, esse contexto contribui para que a geração Z tenha mais facilidade para investir do que as anteriores.

Apesar dessa facilidade, o especialista alerta para riscos importantes no comportamento dos jovens investidores. Um dos principais erros, segundo Viana, é buscar orientação em fontes pouco confiáveis. Ele afirma que muitos acabam ouvindo influenciadores sem qualificação adequada para tratar do tema, o que pode levar a decisões equivocadas. “Começar investimentos em produtos financeiros que têm muito risco, porque prometem um retorno muito grande, mas sem avaliar esses devidos riscos, pode ser um erro muito grande”, diz o economista. 

Na prática, o cotidiano financeiro da Geração Z ainda é marcado por tentativas de organização e adaptação. Muitos jovens buscam equilibrar gastos imediatos com algum nível de planejamento, mas esbarram em dificuldades para manter regularidade financeira.  “Percebi que a poupança não rendia muito, pensava ser o lugar mais seguro, e depois de pesquisar, troquei pelo CDB”, afirma Miyazaki. 

A informalidade no trabalho, a oscilação de renda e a pressão do consumo, muito estimulada no ambiente digital, impactam diretamente também na capacidade de poupança. Ao mesmo tempo, há uma preocupação crescente com independência financeira, o que motiva a busca por alternativas de investimento, mesmo que em valores iniciais baixos.

Viana também destaca que o acesso ao mercado financeiro não é uniforme entre os jovens brasileiros e reflete desigualdades estruturais. Segundo ele, as facilidades de investimento se concentram nas classes mais altas, que possuem maior capacidade de poupar. Já entre jovens das classes C, D e E, a realidade é distinta: muitos estão fora desse universo não apenas por falta de informação, mas principalmente pela dificuldade de fechar o orçamento mensal.

Mesmo com o aumento do preço do chocolate refletindo no bolso do consumidor, setor aposta na personalização e no apelo visual para atrair 4,2 milhões de novos compradores
por
Victória Miranda
Ana Julia Mira
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27/03/2026 - 12h

Todos os anos no feriado de Páscoa, os brasileiros se animam com os novos ovos de chocolate. Sejam os industrializados ou artesanais, dificilmente a data passa sem que seja adquirido ou ovo, feito em casa ou comprado. A expectativa do comércio varejista é de 10% no aumento das vendas em razão do comportamento brasileiro inclinado à presentear em datas comemorativas neste ano.

No entanto, a recente crise no mercado do cacau em anos anteriores ainda impactam os valores do chocolate nas prateleiras. De acordo com a analista da StoneX, Lucca Bezzon para o G1, mesmo com a queda do preço do cacau no campo, o ingrediente utilizado na fabricação dos produtos de páscoa foi comprado durante o auge da crise, momento em que os valores batiam recordes de aumento. Estes produtos mais consumidos na época do feriado foram impactados com cerca de 50% de variação de preço em 5 anos. 

Fonte: Bora Investir (B3)
Bora Investir (B3)

 O destaque de aumento vai para o chocolate em barra e bombom, que sofreram alterações de quase 25% nos preços. As mudanças são sentidas principalmente pelos pequenos empresários, que anualmente precisam se adaptar para produzirem de forma lucrativa. Isabella Martins, proprietária da confeitaria Doce Apetite, em Osvaldo Cruz (SP), diz ter tido que mudar os valores de seus produtos em razão da alta do chocolate. “Tiveram produtos que a gente teve que diminuir um pouco nossa margem de lucro para passar um preço melhor para o nosso cliente” disse Isabella, que produz ovos de páscoa para venda há 6 anos.

Mas mesmo com as dificuldades de lidar com as mudanças de preço, as tendências para a data comemorativa continuam surgindo. Algumas delas são: ovos em fatias, barras recheadas, mini ovos e kits degustação, sabores de ovos inusitados – que vão desde o bolo de coco gelado até pistache estilo Dubai, entre outras.

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Kit degustação 2026 produzido por Isabella. Foto: Reprodução/@doceapetite_cg

Para os produtores, o otimismo é justificado pelos números. Segundo uma pesquisa realizada pela Harald, marca de chocolates e coberturas, focada no mercado profissional, o período pode representar até 40% da receita anual para a maioria dos confeiteiros, sendo a principal comemoração do ano para mais de 65% desses empreendedores. Esse dado conversa diretamente com o levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e SPC Brasil, em parceria com a Offerwise, que aponta que 65% dos brasileiros pretendem comprar presentes este ano — um crescimento de 4,2 milhões de novos consumidores no mercado. Embora a indústria ainda detenha 56% da preferência, o setor artesanal já conquistou 40% das intenções de compra. O que explica essa transição para o feito à mão é a busca por maior qualidade e personalização. O gasto médio previsto é de R$253. 

A tendência do ovo em fatia é a mais forte. Viralizada nas redes sociais, como Tik Tok e Instagram, a proposta apresenta um ovo de chocolate dividido em até seis pedaços, cada um com um recheio diferente, apelando para o visual “instagramável” e a variedade de sabores. O que começou no ambiente artesanal rapidamente foi absorvido pela indústria: a Cacau Show lançou nesta semana uma edição limitada de 360g que combina três sabores da linha Dreams. O produto custa R$119,99 para clientes participantes do clube de fidelidade da marca.O movimento mostra que as grandes marcas estão atentas à agilidade dos pequenos confeiteiros em criar novos formatos. 

Cacau Show investe na maior tendência para a Páscoa deste ano
Cacau Show investe em maior tendência para a Páscoa deste ano. Foto: Divulgação/Cacau Show

Apesar da Páscoa ser celebrada em abril, para quem produz, o calendário começa muito antes. Como explica Isabella: "normalmente em janeiro, já começamos a estudar a questão dos insumos, forminhas etc, para já ir se preparando melhor e conseguir preços mais acessíveis”. No ano passado, por conta de uma mudança de espaço, a empreendedora registrou um faturamento de R$6 mil. Com um tíquete médio que varia entre R$40 e R$60 por cliente, o faturamento semanal gira em torno de mil reais.

Este ano, ela apostou na tendência do ovo em fatia: “a gente apostou por ser uma novidade muito boa”. Sendo assim, os produtos da loja variam de R$12 (mini ovinhos e coelhinhos) a R$130 (ovo em fatia). Mesmo com a diferença de preços, o fator decisivo para o cliente do setor artesanal vai além do valor na etiqueta. Segundo a confeiteira, há uma mudança na mentalidade: “Os clientes consideram muito o valor na questão da compra, mas eles também priorizam um pouco a experiência”.