Bichinhos trazem carinho e diminuem a solidão no isolamento
por
Iris Martins Oliveira de Freitas
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01/06/2021 - 12h

Em período de isolamento social, a procura por um pet se tornou significativa. Para suprir a solidão e animar a monótona vida em uma pandemia, muitos optaram por adotar um animalzinho. Confira a matéria clicando AQUI. (se preferir, habilite as legendas clicando na própria opção do YouTube).

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“O que me incomoda mais é ser reduzida à imagem” diz a jornalista
por
Paula Moraes
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26/05/2021 - 12h

A jornalista e radialista Gabriela Mayer (33), expressa que mesmo com tantos anos de exposição pela mídia, ainda tem dificuldade em lidar com os comentários negativos dos telespectadores. 

Ao longo de sua carreira na televisão, onde trabalhou na TV Gazeta, na Record News e na TV Cultura, Mayer via a diferença de comentários do público sobre ela e os apresentadores homens. Ela percebia que, para ela, os comentários eram mais direcionados à sua aparência do que a sua postura como apresentadora, enquanto para os seus colegas homens os comentários vinham, em sua maioria, sobre sua postura como apresentadores.

A partir de 2017, passou a trabalhar como radialista na BandNews FM. Mesmo sem ser vista, os comentários enviados por aplicativos de mensagem pelos ouvintes são diferentes dos que seus colegas homens recebem. É comum colocarem em dúvida as informações apresentadas por ela, mesmo quando cita fontes seguras de informação.

Para Mayer é muito difícil toda essa exposição e diferença de tratamento, ela sente que para o publico é mais fácil, por ela ser mulher, criticá-la com comentários relacionados ao corpo do que criticas ao seu trabalho, e que o mesmo nunca vai ser replicado com seus colegas homens. 

A jornalista confessa que lida mal com os comentários que recebe em relação ao seu corpo, visto que é muito insegura. Mesmo assim,  ela mantém o hábito de responder comentários que mandam tanto no número da rádio como em seu Instagram, mas reconhece que essa prática não lhe faz bem.

Também tem dificuldade de perceber a linha tênue entre um elogio ao seu trabalho e um flerte. “O que me incomoda mais é ser reduzida à imagem, eu acho legal que me considerem bonita, mas eu não estou em algum lugar por causa disso”.

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País retorna ao mapa da fome e 19 milhões de brasileiros são atingidos pela fome durante a pandemia da Covid-19, registra inquérito da Rede Penssan.
por
Lidiane Domiciano Miotta
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14/05/2021 - 12h

Junto com a pandemia de covid-19 o Brasil também está vivendo uma pandemia de fome, é isso que indica o inquérito nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, conduzido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan). O estudo realizado em 2.180 domicílios nas cinco regiões do país, em áreas urbanas e rurais, entre 5 e 24 de dezembro de 2020, aponta que a insegurança alimentar grave afeta 19 milhões de brasileiros, ou seja 19 milhões de brasileiros estão passando fome, e que 43,4 milhões de brasileiros convivem com a insegurança alimentar, isso é, não contam com alimentos em quantidade suficiente para se alimentar adequadamente.

É perceptível que a combinação das crises econômica, política e sanitária provocou uma imensa redução da segurança alimentar em todo o Brasil, o inquérito mostra que voltamos aos patamares que não eram registrados desde 2004 e retornamos ao mapa da fome ao qual o Brasil avia sido excluído em 2013, quando a situação de fome da população havia caído para 4,2%, o nível mais baixo até então.

O Brasil tinha sido capaz de combater a fome até então com políticas públicas que combatiam à pobreza e à miséria. Mas o corte do auxílio emergência, de R$600 para R$ 300, que era concedido a 68 milhões de brasileiros pelo governo federal durante a pandemia de covid-19 contribuiu para chegarmos nesses números de fome. O inquérito mostra o aumento acentuado na proporção da insegurança alimentar leve em apenas dois anos, de 20,7% para 34,7%. Cerca de metade dos entrevistados pelo estudo relatam que houve, durante a pandemia, redução de renda familiar que consequentemente causou insegurança alimentar leve.

O inquérito também mostra que a pandemia acentuou desigualdades já existentes, os maiores afetados, segundo o estudo, são as regiões Nordeste e Norte, já que segundo os dados adquiridos os índices de insegurança alimentar estava acima dos 60% no Norte e dos 70% no Nordeste, enquanto o porcentual nacional é de 55,2%, e a fome foi registrada em 18,1% dos lares do Norte e em 13,8% do Nordeste.

A pandemia também acentuou desigualdades sociais, os dados mostram que a desigualdade de gênero e o racismo têm papel fundamental nessa realidade brasileira, já que o estudo aponta que 11,1% dos lares chefiados por mulheres os habitantes passam fome, contra 7,7% quando o chefe de família é um homem. Quando passamos para os dados de lares que pertencem a pessoas negras a fome estevava presente em 10,7%, mas entre lares de pessoas brancas o percentual foi de 7,5%.

O estudo da Rede Penssan aponta que a fome não está sozinha, ela anda junto com outras carências como a insegurança hídrica que também está presente nesses lares. Nas regiões Nordeste e Norte a porcentagem de insegurança hídrica chegou a 40,2% e 38,4%, o que é quase três vezes superior as porcentagens registradas nas demais regiões do Brasil. Esses dados são preocupantes quando lembramos que estamos vivendo uma pandemia de Covid-19 e a água é um fator fundamental para os cuidados de prevenção do vírus.

Apesar desse cenário assustador e da falta de políticas públicas governamentais, inúmeras organizações não governamentais estão realizando projetos para combater a fome que só vem crescendo no Brasil. Um dos projetos mais conhecidos e mais promovidos é a campanha “Tem Gente com Fome” promovida pela Coalizão Negra Por Direitos, em parceria com a Anistia Internacional, Oxfam Brasil, Redes da Maré, Ação Brasileira de Combate às Desigualdades, entre outras organizações da sociedade civil. O objetivo da campanha é realizar um financiamento coletivo para arrecadar fundos para ações emergenciais de enfrentamento à fome, à miséria e à violência na pandemia de Covid-19.

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Os funcionários do metrô e CPTM serão os próximos a entrarem na fila da vacinação, que terá início no dia 11 de maio, já aqueles que trabalham nos ônibus continuam sem previsão para tomar a vacina, embora a notícia seja boa para alguns, não é para outros
por
Julio Cesar Ferreira e Helena Monteleone Sereza
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06/05/2021 - 12h

Os funcionários da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Os metrôs, ônibus e trens não pararam desde o início da pandemia, o que expõe a necessidade da categoria de motoristas, condutores, cobradores e outros funcionários do transporte público se vacinarem com prioridade. Embora os motoristas de ônibus ainda não tenham entrado na fila, os funcionários do metrô e CPTM, conseguiram. 

Serão vacinadas 9.500 pessoas, incluindo todos os operadores de trens, independentemente da idade, e demais funcionários da operação, que lidam diretamente com o público, acima dos 47 anos. Entram ainda, os trabalhadores da operação das linhas 4-amarela e 5-lilás, que são privatizadas.

Em vídeo, Alexandre Baldy, secretário dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, divulga que “estaremos vacinando trabalhadores das operações, aqueles que estão nas estações como operador, aqueles que estão como segurança e aqueles que estão para a limpeza, a higienização de todas as superfícies das pessoas que tocam a todo momento. Exclusivamente os que estão em contato com milhões de pessoas a cada dia estão sendo vacinados pelo Governo de São Paulo”.

A AGEMT conversou com o Altino Prazeres Jr, coordenador do Sindicato dos Metroviários de São Paulo e militante do PSTU. Perguntamos qual a visão dele sobre a vacinação para a categoria. Para ele, “O setor de transporte deveria ter sido incluído logo depois dos idosos e setores de saúde já que são grandes transmissores''. Ele acrescenta criticando a situação atual. 

“Se o governo bolsonaro tivesse comprado as vacinas antes, e não fizesse campanha contra elas no seu início. E também, os próprios laboratórios, se não tivessem fazendo leilão da vacina, mas quebrassem a patente, a vacinação ocorreria de forma mais abrangente em todo o mundo."

Em sua opinião, “a velocidade da imunização está muito atrasada, descaso de todas as esferas governamentais”. Altino ressalta ainda que, “A ganância das grandes empresas e milionários está impedindo a sociedade de colocar um fim na pandemia. A falta de esforço está sendo o maior obstáculo para a imunização mais rápida e trazer ajuda para o maior número de pessoas possíveis”, conclui.  

altino
Altino Prazeres, coordenador do Sindicato dos Metroviários e militante do PSTU. (Foto/Acervo Pessoal)

 

O Metrô já soma 22 mortes entre seus funcionários, além de cerca de 1.500 contaminados, segundo contagem do sindicato dos Metroviários, que convocou uma “greve sanitária”.

Prazeres traz também que, “Por mais que todos os trabalhadores sejam imunizados, ainda há o risco de serem infectados por diferentes mutações do vírus". O coordenador relata que tem ansiedade, pois  gostaria que "ele e os colegas fossem vacinados mais rápidos”. 

O relatório da Administração do Metrô divulgado, mostra que embora a pandemia tenha tirado passageiros nos primeiros meses da chegada do vírus ao Brasil, foram feitas quase 3 bilhões de viagens nos transportes públicos que passam pela capital, entre metrô (764 milhões), CPTM (505 milhões) e ônibus municipais (1,6 bilhão).

Prazeres ainda expõe, que a notícia deixou o sindicato contente, porém, frustrados por garantir a vacina apenas para os funcionários com idade a partir de 47 anos e o Governo do Estado de São Paulo não deu explicações ou informações para o sindicato, os trabalhadores e para os funcionários da área de segurança. “Há um desejo, mas ainda uma insatisfação, pois grande parte da categoria não vai ser vacinada no momento”. 

Na pandemia, o metrô do Estado teve um prejuízo de cerca de R$1,7 bilhões devido à queda do número de passageiros, acarretando diminuições de vagões e trens em circulação pela capital. As linhas 1 – azul e 3 – vermelha sofreram uma retirada de 17% comparado com anos anteriores, enquanto a linha 2 – verde foi a mais atingida, com menos 29% de viagens diárias. 

 

A profissão que surgiu como inovação, hoje é meio de sustento para milhares de brasileiros que recorreram aos aplicativos para terem uma renda mínima – ou menos.
por
Guilherme Campos
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06/05/2021 - 12h

   Fundada oficialmente em junho de 2010 na cidade de São Francisco, Estados Unidos, a Uber Technologies Inc. criou um novo nicho profissional, que inicialmente tinham a proposta de serem uma empresa de carros luxuosos, porém rapidamente notaram que compensaria absurdamente mais caso tornassem o negócio acessível à população como um todo – e sem dúvidas fizeram isso de forma esplêndida. Hoje distribuída pelo mundo todo, a empresa chegou ao Brasil em 2014 revolucionando completamente tudo o que conhecíamos que tangenciasse o quesito movimentar-se por meio de transporte particular.

   Com preços mais baixos para os consumidores e com ganhos mais altos para quem dirigia, rapidamente caiu no gosto e no inventário popular como uma alternativa prática para passeios com a família, retornos de festas, ou mesmo o deslocamento para o trabalho diariamente, isso justificado por motivos como o preço do combustível, pelo fato de ter uma flexibilidade muito maior com relação aos horários do que os táxis, que antes possuíam todos os mecanismos até então criados, e quanto pela praticidade do carro vir até o passageiro, e não vice-versa. Apesar dos benefícios que eram exaltados mídia e mundo afora, a crise brasileira em 2015 começou a acentuar um processo que desencadeou na realidade que muitos motoristas vivem hoje em dia. Por ser um serviço de certa forma considerado simples e de fácil ingresso, muitas pessoas que perderam seus empregos na época recorreram ao aplicativo como uma saída rápida e eficaz para continuarem arcando com os custos mínimo de uma vida digna. Esse movimento de transição para os aplicativos foi crescendo cada vez mais entre os brasileiros que precisassem de um serviço, independente do motivo, e não foi diferente na crise advinda do Covid-19, onde milhares de brasileiros que perderam suas ocupações precisavam de alguma forma de sustento, elevando essa curva do contingente de motoristas ao limiar, o que trouxe à tona problemas que muitos enfrentam há anos completamente em silêncio.

   Através de uma nota técnica publicada pelo Observatório Social da Covid-19 da UFMG, que analisou dados providos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid-19 (Pnad-Covid) e de outras pesquisas realizadas em anos anteriores, em busca de padrões e/ou mudanças possíveis, realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é possível analisar o impacto dos aplicativos nos números de pessoas que já trabalhavam como motoristas e como essa taxa aumentou com o passar dos anos. A pesquisa nacional de 2011 afirma terem 614 mil condutores independentes para transporte particular no Brasil, número que se manteve estável até meados de 2015, época em que já eram registrados cerca de 643 mil motoristas na mesma condição. Após a chegada dos aplicativos e com o sucessivo boom da categoria, os números das pesquisas de 2019 e 2020 comprovam a existência de mais de 1,1 milhão de trabalhadores na área, ou seja, um aumento de mais de 500 mil novos membros. 

Foto: Guilherme Campos Legenda: Motorista João Carvalho dirigindo
Motorista João Carvalho dirigindo durante a noite.
Foto: Guilherme Campos

   João Carvalho Antunes de Souza , motorista que deu depoimento à AGEMT, relata que iniciou seus serviços através do aplicativo após maio de 2020, mas não por prazer ou vontade própria. “Eu trabalhei em empresas grandes antes de “virar Uber”, mas sabe que tem coisa que a gente não escolhe, a gente precisa fazer para viver”. “A gente tá precisando trabalhar umas 10 a 12 horas por dia se quiser tirar um dinheiro no final do mês, e ainda mais agora que tem muita gente precisando de dinheiro, cada vez vem menos.”

   Através das PNAD’s realizadas anualmente, é possível perceber a diferença bruta na carga horária semanal de outras profissões para aqueles que trabalham como motoristas. Bruno, outro motorista que aceitou depor, porém com seu nome e imagem velada, também aponta algumas questões cruciais dos riscos que corre todos os dias: “Antes eu fazia entre 2 mil até 2.500 por mês, agora eu preciso trabalhar o dobro para ganhar metade praticamente”. “Às vezes você tem que saber até onde pode ir, se vale à pena fazer tal corrida, porque se algo acontecer não vai ter ninguém preocupado em te socorrer, saca?”. Tendo em comparação o número de horas trabalhadas com a renda mensal final, o mínimo esperado era que atingisse ao menos o salário mínimo decretado pela legislação, porém a falta de vínculo com a empresa coloca em xeque as vidas desta classe, pois a necessidade de bater um valor mínimo para sobreviver faz com que pessoas como João, Bruno e outras milhares façam jornadas desgastantes todos os dias, sem a mínima segurança prevista pelos aplicativos que fornecem os pedidos, sem direitos trabalhistas ou sequer a certeza de que vão voltar para casa. 

Tabela: microdados PNAD Contínua / IBGE
Fonte: Microdados PNAD Contínua/ IBGE

   No início de 2019, em Londres, a suprema corte britânica decretou que motoristas da Uber teriam direitos como salário mínimo, descansos e intervalos entre corridas remuneradas, entre outros direitos trabalhistas. A empresa norte americana entretanto sempre alegou que se tratava somente de uma intermediária entre motoristas e passageiros, porém a decisão judicial foi contrária, entendendo que os motoristas estão em posição subordinada à Uber, sendo que a própria define o valor das corridas feitas, qual a tarifa cobrada mediante ao valor total, os termos previamente decretados pela Uber, penalizações e até possível suspensão do contrato dos motoristas caso hajam reclamações por parte dos passageiros, tudo isso sem que o motorista possua um mecanismo de diálogo para uma possível alteração ou algo que o valha. Tal decisão pode acabar reverberando e gerando outros movimentos ao redor do mundo, bem como aqui no Brasil, pois sem dúvidas as condições pré-impostas àqueles e àquelas que buscam nos aplicativos uma renda, seja ela extra ou única, são um tanto quanto irresponsáveis e preocupantes, ainda mais no período de pandemia, onde em um único dia estas pessoas que controlam os veículos se expõe agudamente ao vírus da Covid-19, mesmo com máscaras e outras proteções, pois o fluxo de pessoas é contínuo, circulam a cidade toda, e tristemente caso algo ocorra com qualquer um destes motoristas, ninguém se responsabilizará. A sobrevivência de muitos brasileiros depende exclusivamente desse dinheiro e não há opção de escolha para a grande maioria. O que nos resta é lutar pelos direitos que todos deveriam ter, pois não há dinheiro no mundo que valha mais que a vida de um ser humano.

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Como a vertente cristã auxilia os mais necessitados durante a maior crise sanitária da história do Brasil
por
Enzo Cury e João Victor Capricho
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20/05/2021 - 12h

Por Enzo Munhoz Cury, Henrique Sales Barros e João Victor Capricho Scalzaretto

 

Ao longo do século XX, alguns membros da Igreja Católica estavam notando o crescimento de questões sociais envolvendo a fome, guerras e desemprego ao redor do mundo, mais especificamente na América Latina. Com o catolicismo se modificando com o passar do tempo e sofrendo influências de outras correntes de pensamento religioso, a Teologia da Libertação* surge em meados da década de 60. 

No Brasil, seu aparecimento se deu através de dois fatos; o Concílio Vaticano II e o Golpe Militar de 1964. Este primeiro, realizado em dezembro de 1961, visou discutir as transformações globais que ocorriam na época e como a Igreja deveria se adaptar a tais mudanças, mas sem perder sua conduta conservadora e rigidez. O segundo serviu para inflamar o sentimento de revolta de muitos eclesiásticos brasileiros, que se posicionaram com firmeza contra as ações do regime militar, resultando na perseguição e, consequentemente, prisão de alguns membros do clero. 

Influenciado pelo surgimento de vários regimes autoritários por toda América Latina, esse segmento da Igreja Católica, contrário às formas de opressão, foi se tornando cada vez mais expressivo. E foi na Conferência de Medellín, realizada para aplicar os ensinamentos do Concílio Vaticano II no continente americano, que a proposta da Teologia da Libertação se fundou e, baseando-se na “preferência pelos pobres”, iniciou um movimento que seria mal visto pelas alas mais conservadoras do catolicismo. 

Muitos teóricos concordam em definir o ano de 1971 como o marco inicial da vertente, por conta do lançamento do livro “A Teologia da Libertação”, escrito pelo teólogo peruano Gustavo Gutierrez. Para Gutierrez, a teologia tem duas funções; a espiritual e a racional, propondo que haja um diálogo constante entre essas duas partes, além de ser necessário o conhecimento das ciências sociais, biológicas e psicológicas para se tornar um escolástico. 

Porém, existem obras que antecedem a Gutierrez que já demonstravam o encaminhamento de diversos pensamentos teológicos em direção à Teologia da Libertaçaõ. Em 1965, o teólogo batista Harvey Cox publica sua obra “A Cidade Secular”, em contraposição à “De Civitate Dei”, de Santo Agostinho. Cox defende a divisão da cidade dos homens e a cidade de Deus (mundo terreno e espiritual, respectivamente). Para ele, está visão de mundo está ultrapassada e foi superada pela relação de proletários e patrões. Também, há a publicação de Rubem Alves (teólogo, escritor e psicanalista brasileiro), “Uma teologia da esperança humana”, que foi sua tese de doutorado no Princeton Theological Seminary. 

Os pensamentos derivados da vertente católica podem ser percebidos na prática analisando alguns casos; como o dos sacerdotes na Nicarágua que, inspirados pela Teologia da Libertação, tomaram parte ativa na revolução sandinista de 1979, lutando contra o regime ditatorial de Anastasio Somoza. Também podem ser notados na Colômbia, onde por quase trinta anos, Gregório Manuel Pérez Martinez, um sacerdote católico e pioneiro da Teologia da Libertação, comandou o Exército de Liberação Nacional na luta armada. Além desses exemplos, é possível citar Leonardo Boff, José Comblin e diversos outros filósofos e teólogos que ajudaram a enraizar os fundamentos do movimento na América Latina.

"A Teologia da Libertação é a grande teoria propriamente latino-americana que fez uma junção jamais vista sem os trabalhos de autores como Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff, Rubem Alves, Milton Schwantes e tantos outros religiosos e leigos, que através da confrontação com os textos bíblico viram em sua hermenêutica a opção pelos pobres, como bem descrita na obra de Jon Sobrino. Em resumo a Teologia da Libertação, é um manifesto de opção pelos pobres do mundo, evidenciando a atenção especial de Deus pelos vulneráveis e humilhados do mundo. ” – afirma Éverton Almeida, teólogo e professor de sociologia e filosofia.

No final do ano de 2019, foi descoberto um novo Coronavírus, um vírus de origem comum em animais e de elevada transmissibilidade, que ocasionou o cenário pandêmico em que nos encontramos até o momento. Por conta da fácil infecção do vírus, algumas das medidas profiláticas essenciais são; o isolamento social, uso de máscara e fechamento dos comércios não essências para a manutenção da vida. Com o desemprego em alta e o aumento das famílias que passam da linha da miséria, o Brasil vive um cenário caótico por conta da emergência sanitária e da falta de coordenação, por parte do governo federal, para enfrentar esse período conturbado.

voluntários distribuindo refeições para outras pessoas na rua


Nesse contexto catastrófico, a Teologia da Libertação vem amparando pessoas que buscam alimento e necessitam de ajuda. Na cidade de São Paulo, mais especificamente, existem vários pontos onde ocorrem prestações de auxílio e distribuição de cestas básicas. Muitos destes locais ficam na zona central da cidade, onde há uma grande população de moradores de rua. As ruas frias e os cheiros fortes são as marcas registradas de um submundo invisível, que existe no coração da maior cidade da América Latina. Submetidos a condições desumanas, essas pessoas não têm acesso a recursos e instrumentos para se alimentarem decentemente e muito menos para se proteger contra a Covid-19. Mas, mesmo onde, aparentemente, falta humanidade, sobra compaixão. 

Existem aqueles que, mesmo em meio a uma pandemia, põem em prática as teorias da Teologia da Libertação, mesmo nem sempre sendo parte da Igreja. Robson Mendonça é diretor da ONG “Movimento Estadual da População de Rua do Estado de São Paulo”, a MEPRESP. Seu trabalho ajuda diariamente muitas pessoas em situação de rua. Para ele, a fé é muito importante em tudo que faz. Ele conta que antes da pandemia, andava de bengala com o atendimento da população de rua que passou a ser diário. Após isso, não precisou mais, pois sentiu que estava sendo usado para aliviar o sofrimento de parte desta população e, para ele, isso é uma forma de cura do espírito.

Seu papel, como presidente fundador da ONG, é organizar os serviços de atendimento a população de rua como; tiragem de documentos, encaminhamento para o tratamento e cura de dependentes químicos, cursos profissionalizantes e abrigos. Como estamos neste período de pandemia, também faz o cardápio e cuida da área de alimentação. Em suas palavras: “Isso faz com que eu me sinta vivo e útil para os irmãos menos favorecidos, dando-me uma injeção de ânimo para seguir vivendo”. O trabalho que realizam neste momento é importante para evitar que muitos venham a morrer de fome ou de frio, pois a humanidade está carente de tudo e de todos. 

Robson acredita que o movimento tem o importante papel de realizar todos os serviços que deveriam ser feitos pelos governantes. Mas, também sabe que a sociedade civil tem seu papel fundamental principalmente, neste momento de tanta angústia que estamos passando durante a pandemia. E não só o MEPRESP, mas todos os envolvidos com ele, pois fazem parte de um coletivo.Isso, tendo em vista que o aspecto fundamental, que salta aos olhos e que recebe inspiração do legado da Teologia da Libertação é justamente a luta contra a fome e a exclusão social, que na pandemia, foi ao mesmo tempo exposta e catalisada.

voluntária de camiseta preta distribuindo refeições para outras pessoas


Ele conta que um dos pontos mais importantes, e que merece ser destacado pelo período da pandemia, não é só como a vertente cristã em discussão se mostra essencial agora. Mas, além disso, é evidenciar como a Igreja, como instituição, pode repensar seu papel, observando o retorno deste tipo de vertente.
“A grande lição que as igrejas podem tirar desses tempos pandêmicos é a constatação de que os poderosos desse mundo não se importam com pobres e vulneráveis, como Jesus fez em seu ministério terreno. Essa lição é dura, mas necessária. Os pobres desse mundo só podem contar com a solidariedade fraterna dos filhos de Deus, ou seja, daqueles no exercício da empatia que sentem a dor do outro, aqueles que se converteram a causa de Cristo. A causa da humanidade, a saber, os amantes de Cristo e não os amantes do dinheiro e do poder.” – afirma Everton.

 

 

A Teologia da Libertação é uma vertente cristã inclusiva, que busca reinterpretar os ensinamentos de Jesus Cristo, tendo ele como o verdadeiro libertador dos povos oprimidos, e alguns dogmas da Igreja Católica. Visando dar preferência no tratamento aos pobres e necessitados, ela utiliza as ciências humanas para realizar essas ações, e seu objetivo é combater qualquer forma de desigualdade.

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A vacinação contra a Covid-19 em SP, começou no dia 17 de janeiro de 2021, com a vacina CoronaVac fabricada pelo Instituto Butantã.
por
Marcela Foresti e Paula Moraes
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09/04/2021 - 12h

 

   Com quase três meses de vacinação em São Paulo, e inicialmente sendo aplicada em profissionais da saúde, indígenas e quilombolas. Percebe-se que há novas preocupações nestes grupos já vacinados  e que as experiências não são as mesmas.

    A assistente social da Secretaria Municipal da Habitação de São Paulo, Suelma de Deus tomou recentemente em uma UBS a primeira dose da vacina AstraZeneca, que foi produzida pela universidade de Oxford e começou a ser distribuída em fevereiro no Brasil. 

    Ela não teve  nenhum tipo de  efeito colateral após a aplicação da vacina, e não enfrentou problemas no dia da vacinação “A UBS estava vazia, cheguei e já fui vacinada em uma sala própria para vacinas.” Além disso conta que se sente aliviada de já ter chegado a sua vez na ordem de vacinação, entretanto não se sente totalmente segura, pois só tomou uma dose e está ciente que mesmo com as duas doses ainda está sujeita a pegar e transmitir o vírus

    Para ela, o  momento em que vivemos é muito difícil, tanto pela gravidade da doença e da situação sanitária quanto pelo desgoverno “É doloroso observar que o governo federal não assumiu a direção correta para salvar vidas, com a compra antecipada de vacinas, testes em massa e o reforço referente às orientações dadas pelos cientistas para evitar a propagação do vírus.”

    A assistente social ainda acrescenta: “Vivenciamos um festival de horror, com a troca de ministros da saúde, indicação para tomar medicamento sem comprovação científica de cura e a indução ao comportamento coletivo favorável à propagação do vírus. Todas essas questões somadas aos problemas econômicos com a interrupção do auxílio emergencial em meio a pandemia, entre tantos outros problemas.” 

    Ela acredita que vacinar a população é a única salvação que temos para diminuir o número de mortes e voltar a ter uma vida normal.

    A enfermeira Nadia Lopes, está trabalhando há um ano na ala especial para pacientes com Covid-19 no Hospital Metropolitano da Lapa. Lopes foi vacinada com as duas doses da vacina CoronaVac logo na primeira semana de vacinação em São Paulo, não sofreu nenhum tipo de sintoma depois da aplicação.

   Durante o último ano perdeu vários colegas de profissão para a doença. Logo no início da pandemia, sentiu alguns sintomas da Covid-19, como febre e dores no corpo, porém o resultado dos testes acabou sendo negativo. Com medo de acabar transmitindo em algum momento o vírus, resolveu sair da casa do pai logo no início da pandemia.

   Para Lopes o medo de se infectar agora é maior do que no início da pandemia “No início ninguém sabia o que era e nem sabia o que fazer.” A enfermeira cuida de uma ala com quarenta pacientes de Covid-19, e com os altos números tem que conviver com a realidade do hospital, que precisou  contratou um contêiner para levar os mortos por Covid-19 “Isso me abala muito”.

    “O que dói muito, além de ver os óbitos, é ver as pessoas descrentes com a doença indo em bailes funk, nas tabacarias fumar e beber com aglomeração e depois levar a doença para casa e contaminar um parente. Estou fazendo plantões extras pois não tem pessoas suficientes para cuidar da ala, esse é o pior momento da minha vida, estou me sentindo em uma terceira guerra mundial”.

     Lopes também se considera mais segura agora que tomou as duas doses da vacina, entretanto tem consciência que ainda pode ser contaminada, mas acha que os sintomas não seriam tão cruéis como antes da vacinação.



 

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Com a Covid-19 cerimônias precisaram se adaptar ao cenário pandêmico, consolidando várias mudanças, desde indicados a falta de espaço físico: podcast discute isso e muito mais
por
Julio Cesar Ferreira
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10/04/2021 - 12h

 

 

Ronaldo Trancoso Jr., jornalista e editor do blog Cinematic Tips; especializado em cinema, premiações e festivais, conversa com Julio Cesar Ferreira, aluno do curso de Jornalismo, colaborador da AGEMT, discutiram as principais mudanças ocorridas na temporada de premiações com o advento do novo coronavírus.

 

cinematic tips
Página inicial do blog Cinematic Tips. Foto: (Captura de tela/Site online) 
ronaldo
Ronaldo Trancoso Jr., editor do blog Cinematic Tips. Foto: (Acervo Pessoal) 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Emmy de 2020 foi a primeira cerimônia que adotou o formato virtual, o que antecipou as outras cerimônias e consolidou algumas mudanças para a apresentação de indicados e vencedores. Determinadas entidades conseguiram realizar seus eventos de forma híbrida, como o Grammy 2021  que contou com a presença de alguns artistas indicados mais importantes, o SAG Awards 2021 decidiu ocorrer de maneira gravada e o Oscar 2021 será presencial, sem adotar o hibridismo. 

 

troféus oscar

 

Questões como estas foram discutidas na conversa que contribuiu para a construção do podcast, para além disso, também foi comentado sobre o Governo de Trump e Joe Biden, e seus diferentes posicionamentos acerca da pandemia e o papel da vacina. 

Abordaram, ainda, as principais mudanças de indicações, a diferença entre filmes independentes e os blockbusters nesse momento, o acesso e o lugar do streaming, a falta de diversidade, e como o público vêm consumindo e questionando as cerimônias ao longo dos anos, de modo que a audiência é refletida nisso. O debate se desdobra de maneira informal, criando uma relação próxima entre o emissor e o receptor. 

Para ouvir esse debate leve e descontraído, clique aqui. 

 

Conheça os prós e os contras, os maiores perrengues e as curiosidades de ser um correspondente internacional
por
Raphael Dafferner, Lucas Martins e Paulo Castro
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08/04/2021 - 12h

Para quem é ainda estudante de jornalismo ou não trabalha com a profissão, a vida de um comunicador parece perfeita. Quando se trata de exercê-la em outro país, enquanto conhece outros lugares e culturas, então, parece um sonho. Porém, na verdade, não é bem assim. Às vezes, é necessário que o jornalista faça plantões durante a madrugada, se coloque em situações de perigo e enfrente várias dificuldades da cultura e da língua, que muitas vezes são completamente diferentes.

Foto: Reprodução Twitter
Anita Efraim, repórter da Yahoo! no Chile (Foto: reprodução Twitter)

Esse choque cultural e essa convivência em ambientes com os quais os repórteres não conheciam, entretanto, trazem uma perspectiva diferente em comparação com a dos brasileiros. Foi o que ressaltou Anita Efraim, repórter do Yahoo! no Chile: “Acho que o mais legal de ser correspondente é você poder levar para o público no Brasil uma visão diferente sobre alguns temas”.

Anita contou ainda sobre a visibilidade que ganhou nesse período no Chile, em especial no caso do jogo entre Internacional e Universidad de Chile, no qual os torcedores chilenos, durante um protesto, atearam fogo no Estádio Nacional.

“Eu acabei conseguindo fazer entradas em vários canais televisivos. Depois do jogo também falei em rádios do Brasil e em programas de TV”, afirmou.

Foto: Reprodução Twitter
Tim Vickery, correspondente da BBC Sports na América do Sul (Foto: Reprodução Twitter)

A Agência Maurício Tragtenberg (AGEMT) conversou com mais alguns jornalistas que resolveram se aventurar em outro país: o também brasileiro Marcus Alves, que trabalha em Portugal por vários veículos de imprensa; e o inglês Tim Vickery, que está no Brasil desde 1994, sendo atualmente correspondente da BBC Sports na América Latina e comentarista do programa Redação SporTV.

Foto: Reprodução Twitter
Marcus Alves, jornalista brasileiro que trabalha em Portugal (Foto: Reprodução Twitter)

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Abrigo no interior de São Paulo vê abandonos crescerem e adoções diminuírem, gerando dificuldades de funcionamento
por
Beatriz Aguiar e Sara de Oliveira
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14/05/2021 - 12h

Por Sara de Oliveira e Beatriz Aguiar

 

Depois de um sábado gasto na tentativa de construir um gatil (espaço para gatos) sem muito sucesso para a gata que mora no canil ela não gostou Rita e Regina se preparam para a entrevista online. Com o celular na vertical, Rita segurava o aparelho e  o apontava para Regina. Iniciaram pedindo desculpas pelo atraso e por estarem descabeladas. No “corre” desde cedo, não tinham com o que se preocupar. “Nem almoçamos ainda. Só tomamos água e ‘tubaína'”; já se passavam das 17h do dia 27 de março. As protetoras de animais estão trabalhando como nunca na pandemia. Há uma alta nos abandonos e elas crêem que muitas famílias não queiram cuidar dos animais de parentes vitimados pela doença.

Rita de Cássia e Regina Cardoso são duas ativistas da causa animal. Ambas trabalham na área da saúde. Rita é professora de enfermagem na UNIFACAMP - Universidade Faculdade de Campo Limpo Paulista e enfermeira. Regina é técnica de enfermagem da Prefeitura. Ambas trabalham em Campo Limpo Paulista, a 62 km da capital. A cidade tem 85.541 habitantes espalhados nos mais de 80 quilômetros quadrados, segundo o IBGE 2020. Uma cidade relativamente pequena. Não tem grandes comércios, não tem shopping, não tem McDonalds, mas tem a Krupp, a metalurgia responsável por trazer um grande movimento econômico na cidade desde os anos 1960, quando se instalou na cidade.

Alaska
Conheça Alaska

 Rita e Regina estão resgatando animais há mais de vinte anos. São inúmeras histórias, em sua maioria tristes. O “Abrigo Amigo Fiel” (não se confunda: é o amarelo e marrom nas redes sociais) tem uma capacidade para 120 cães, mas, no momento, estão com 200. Elas fazem os resgates pelas ruas da cidade. Os animais são em sua maioria idosos e vira-latas. “Você deixa uma cachorra cega no meio da pista pra que? Outro dia eu parei meu carro no acostamento, liguei o pisca alerta, desci e resgatei a cachorra”, disse Regina totalmente indignada com a falta de amor do ser humano para com os animais.

Desde o começo da pandemia foram resgatados mais de quarenta cães, com uma média de dois a três por semana. Na maior parte dos casos, os cães chegam doentes e machucados por maus tratos. Durante a semana do dia 22 de março de 2021, foram resgatados cinco cachorros, um com priapismo, uma ereção persistente do pênis, frequentemente dolorosa que dura mais de quatro horas, na ausência de estímulo ou desejo sexual. É uma patologia pouco frequente em cães, segundo o artigo científico do Pubvet. Outro com tumor nas costas está internado. Além de mais três abandonados, todos machucados e desnutridos.

Em áudio, as protetoras contam as histórias de alguns animais que as marcaram, sejam pelos maus tratos que sofreram, sejam pela doçura para enfrentar seus obstáculos:

 

Segundo a Ampara Animal, uma associação de mulheres que ajuda abrigos e protetores independentes, aumentou em 70% o abandono de animais no Brasil durante a pandemia. Embora Rita e Regina não tenham dados específicos para comparar o número de cães acolhidos antes e depois da pandemia, seus relatos dão uma ideia. “Se nós pegarmos as ninhadas do ano passado [2020], eu posso te falar que resgatamos pelo menos uns 50, 60 cachorros e doamos uma média de 20 cães. O resto ficou”.

Para Júlia Fink, psicóloga clínica e professora de Psicologia da UNIP, houve um aumento da ansiedade relacionado às circunstâncias incontroláveis da pandemia. Esse aumento combinado à visão social de animais como objetos para o prazer humano, ao invés de seres vivos com sentimentos, pode estar culminando na expansão do abandono. “É uma experiência nova [a pandemia], é um estado de exceção. As pessoas estão num senso de urgência para tomar decisões que subtraiam de suas vidas tudo que possa estar gerando um peso. Seja um peso financeiro, emocional…”. Maus-tratos também podem estar relacionados ao aumento dos transtornos mentais durante o período. Algumas condições, como a depressão, podem levar a quadros limitantes, quando a pessoa não consegue cuidar de si nem dos outros, como animais domésticos. “Se a pessoa está num episódio desses de depressão, o ideal seria que houvesse uma rede de apoio que pudesse cuidar da pessoa e do animal (...) Agora, existem pessoas que sentem prazer em infligir dor a animais. Nesses casos, não sei se a pandemia faz tanta diferença”. 

Regina e Nescau
Regina e Nescau

Como o acolhimento dos cães é feito a partir do resgate nas ruas, Rita e Regina não sabem ao certo o histórico do animal. Porém, Rita acredita que esses animais estão sendo abandonados pelos parentes dos donos que faleceram por conta da COVID-19: “Eles têm hábitos domiciliares. Não são cachorros que foram criados na rua. A gente percebe que quando o animal é criado na rua ele tem um outro comportamento”. Cachorros criados em lares gostam de ficar perto das pessoas, obedecer, são aparentemente calmos e não têm medo de contato humano; ou, pelo contrário, estão completamente assustados com a situação. A maioria dos cães abandonados são vira latas ou das raças poodles, lhasas e chitsons. Cachorros de raça são abandonados com mais frequência quando envelhecem.

Rita com Nescau e Sherá
Rita, Nescau e Sherá

A dupla está junta há mais de 11 anos. Antes de se encontrarem, já trabalhavam no resgate de animais. Elas reuniram os cães resgatados de cada e montaram o “Abrigo Amigo Fiel”. A rotina é dura: Rita trabalha das 7h às 22h como professora e Regina das 7h às 16h na UBS. Os finais de semana são exclusivos para resolver questões do abrigo. 

A pandemia afetou muito também as adoções. Tiveram um começo promissor, com muitas pessoas adotando por se sentirem sozinhas em suas casas nos primeiros meses da pandemia. Cachorros idosos, que não costumam ser a preferência, estavam sendo selecionados. Uma pesquisa de julho de 2020 da ONG União Internacional Protetora dos Animais corrobora sua fala: a procura por cães e gatos cresceu 400% durante a quarentena em São Paulo. 

Houve um estímulo da mídia para a adoção de animais durante esse último ano, através de matérias que mostravam os efeitos positivos na saúde mental. Fink concorda que a adoção pode ser boa, desde que seja feita de forma responsável. “A interação com animais pode ser positiva [para a saúde mental], mas ela tenderá a ser positiva quanto mais responsável ela for. Adotar um animal é maravilhoso, adotar um animal de forma irresponsável é complicado. Ele é um ser vivo e merece carinho e condições dignas de existência”. A adoção, como ela mesmo frisa, é uma escolha de médio a longo prazo, uma vez que animais domésticos vivem anos, até mais de uma década. Não pode ser pautada por um desejo imediato produzido durante esse período de confinamento. A imprudência de quem adota, aliada a alguns processos de adoção igualmente descuidados, pode estar levando a um fenômeno observado no Abrigo Amigo Fiel: a devolução de cães por adotantes.

"Ninguém nos procura mais e quem procura devolve”, lamenta Rita. “Devolve porque faz xixi, devolve porque faz cocô; ainda bem né”, ironiza Regina. “Se não tem vaga no coração [para o cachorro], não aguenta mesmo e devolve”.

Zeus
Zeus, Pitbull

As duas protetoras de animais são cuidadosas na adoção. É feita uma entrevista com o interessado, que, caso aprovado diante dos requisitos estipulados, pode adotar. Alguns dos requisitos são: a casa ser fechada ou murada; o cão possuir um espaço próprio, seja dentro ou fora de casa; os interessados possuírem condições materiais de manterem o cachorro. Ambas ainda se interessam pela profissão dos requerentes e por animais de estimação que tenham ou tiveram. Afirmam que se o interessado deseja o cão para presente, rejeitam. Os aprovados são acompanhados semanalmente durante o primeiro mês; na primeira semana o contato é diário. Quando ambas sentem que o animal está seguro em seu novo lar, as visitas são espaçadas. 

Por conta da superlotação, as amigas pedem ajuda. O abrigo funciona a partir de doações. Felizmente, possuem amigos que ajudam fielmente o projeto, mas na atual situação, não está sendo o suficiente. Além disso, como os animais chegam doentes, alguns com câncer, machucados, desnutridos, cada um tem uma demanda diferente. Como não são veterinárias, precisam pagar pelo serviço. Já chegaram a gastar R$31.000 reais, fora a medicação, num único ano. Se tudo está bem, elas gastam em média R$8.900 por mês, já contando com as doações. 

 

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Quem quiser ajudar o abrigo pode entrar em contato: 

Facebook: Abrigo Amigo Fiel

Instagram: @AbrigoAmigoFiel

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