Em meio a pandemia da Covid-19 e conflitos incessantes ao redor do mundo, entenda esse grupo e conheça a uma das instituições que lhes presta apoio no Brasil
por
Marina Daquanno Testi e Thayná Alves
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08/12/2020 - 12h

 

 

     

        O número de refugiados no Brasil vem crescendo a cada ano. Só no ano de 2018, segundo a Agência da ONU Para Refugiados (ACNUR) foram relatadas 80 mil solicitações de reconhecimento de condição de refugiado no Brasil. Os grupos de maior número entre as solicitações são os venezuelanos (61.681), que saíram do país devido à crise humanitária, e os haitianos (7.030), cujo fluxo de migração se intensificou após o terremoto que atingiu o país em 2010.  

        A lei brasileira considera refugiado todo indivíduo que está fora de seu país de origem devido a guerras, terremotos, miséria e questões relacionadas a conflitos de raça, religião, perseguição política, entre outros motivos que violam seus direitos humanos. Isso pode acontecer, por exemplo, quando a vida, liberdade ou integridade física da pessoa corria sério risco no seu país.

        Para que o imigrante seja reconhecido como refugiado, é necessário enviar uma solicitação para o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE). O processo de reconhecimento, que antes era mais burocrático e mais demorado, atualmente é feito no site do Ministério da Justiça, a partir do preenchimento do formulário que pode ser feito ainda no país de origem. Todas as etapas podem ser acompanhadas pela internet, mas para o processo começar a tramitar, o solicitante deverá comparecer pessoalmente a uma unidade da polícia federal. 

        Dentre a população refugiada reconhecida no Brasil, segundo o censo da ACNUR de 2018, a maioria se concentra nas faixas etárias de 30 a 59 anos (41,80%), seguido de pessoas com idade entre 18 a 29 anos (38,58%). Do total, 34% são mulheres e 66% são homens, ressaltando os sírios, os congoleses como nacionalidades em maior quantidade (respectivamente 55% e 21%). 

         Em janeiro de 2020, o Brasil tornou-se o país com maior número de refugiados venezuelanos reconhecidos na América Latina, cerca de 17 mil pessoas se beneficiaram da aplicação facilitada no processo de reconhecimento, segundo a  Agência da ONU para Refugiados. As autoridades brasileiras estimam que cerca de 264 mil venezuelanos vivem atualmente no país. Uma média de 500 venezuelanos continua a atravessar a fronteira com o Brasil todos os dias, principalmente para o estado de Roraima.

         Apesar de em grande quantidade, apenas 215 municípios têm algum tipo de serviço especializado de atenção a essa população. As maiores dificuldades encontradas por pessoas refugiadas são a adaptação com o mercado de trabalho, com o aprendizado do idioma, o preconceito e a xenofobia, educação (muitos possuem diplomas em seus países de origem que não são aceitos aqui no Brasil), moradia e saúde. 

 

Covid-19 e o amparo aos refugiados

 

        Diante de um quadro de crise em escala global, como o que acontece este ano com a pandemia da Covid-19, essa população de migrantes e refugiados, que já se encontram em extrema vulnerabilidade, conta com o apoio de poucas instituições voltadas especialmente para suas necessidades. Este é o caso da Missão Paz, uma instituição filantrópica de apoio e acolhimento a imigrantes e refugiados, com uma das sedes na cidade de São Paulo, como conta o padre Paolo Parise.

        Nascido e criado na Itália, Parise atua desde 2010 na Missão Paz, atualmente como um dos diretores, e explica que esta instituição está ligada a uma congregação da Igreja Católica chamada Scalabrinianos, que atua com imigrantes e refugiados em 34 países do mundo. “Na região do Glicério - município do estado de São Paulo-, a obra se iniciou nos anos 30 e atualmente está presente em Manaus, Rio de Janeiro, Cuiabá, Brasília, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Foz do Iguaçu, Corumbá e outros lugares.”

        Sua estrutura atual conta com a Casa do Migrante, um abrigo com capacidade de 110 indivíduos que são acolhidos com alimentação, material de higiene pessoal, roupas, aulas de português, acompanhamento de assistentes sociais e apoio psicológico; e o Centro Pastoral e de Mediação dos Migrantes (CPMM) que oferece atendimento e serviços voltados aos imigrantes, quanto aos seguintes temas: documentação e jurídico; trabalho, capacitação e cidadania; saúde; serviço social; família e comunidade. “Além disso, temos a área de pesquisa em parceria com a revista Travessia, que é o Centro de Estudos Migratórios (CEM), uma biblioteca especializada em migração e a WebRadio Migrantes”, completa Pe. Paolo.

Fonte: Site da instituição Missão Paz - Casa do Migrante
Fonte: Site da instituição Missão Paz - Crianças brincam na Casa do Migrante

        De acordo com o diretor, o maior desafio enfrentado pela instituição, durante a pandemia, foi com a saúde dos refugiados, principalmente pela impossibilidade de viver a quarentena isoladamente, já que muitos vivem em ocupações ou em lugares com muitas pessoas concentradas. Ele ainda denunciou que, dentre tantas vítimas da Covid-19 em São Paulo, um dos grupos mais afetados foi o de imigrantes bolivianos, “muitos foram contaminados e muitos morreram”.

        Diante de instabilidades políticas e econômicas, atualmente, sírios e venezuelanos são as principais nacionalidades afetadas que solicitam entrada no país. O que ratifica o Pe. Parise, “Falando pela Missão Paz, se você utiliza o termo ‘refugiados’, o maior grupo neste momento é de venezuelanos, sejam os que foram acolhidos pela missão paz, sejam os que estão entrando no Brasil. E depois encontramos outros grupos como da República Democrática do Congo. Mas se falamos de imigrantes, temos Colombianos, Bolivianos, Paraguaios, Peruanos, Angolanos e de outros países que estão recorrendo ao Brasil.”

        Mesmo com mudanças críticas, no cenário jurídico e político brasileiro, para que esta população seja recebida no país e tenha seus direitos respeitados, ainda não se pode falar em auxílio do governo ou medidas diretas de apoio a refugiados e imigrantes. 

        Paolo relembra a criação de leis que têm beneficiado a população no Brasil. Uma delas é a lei municipal Nº 16.478 de 2016, onde o Prefeito do Município de São Paulo, Fernando Haddad, instituiu a Política Municipal para a População Imigrante que garantia a esses o acesso a direitos sociais e aos serviços públicos, o respeito à diversidade e à interculturalidade, impedia a violação de direitos e fomentava a participação social; e a outra é a lei federal Nº13.445 de 2017, ou a nova Lei de Migração, que substitui o Estatuto do Estrangeiro e define os direitos e deveres do migrante e do visitante, regula a sua entrada e estada no País e estabelece princípios e diretrizes para as políticas públicas para o emigrante.

        A Missão Paz se mantém através de projetos e dinheiro injetado pela congregação da Igreja Católica. “Neste momento, a Missão Paz não recebe apoio financeiro nem do município, nem do estado e nem do Governo Federal”, relata Parise. Durante a pandemia receberam ajuda da sociedade civil, “[A Instituição] Conseguiu muitas doações de pessoas físicas, de instituições, de campanhas, fosse em dinheiro, em cestas básicas ou kits de higiene pessoal”, e com 200 cestas básicas, por mês, da Prefeitura de São Paulo. Também receberam ajuda com testes de COVID em nível municipal. 

         A instituição filantrópica ainda conta com a ajuda de vários parceiros, como explica seu diretor “na área de incidências políticas, por exemplo, nós atuamos com a ONG Conectas Direitos Humanos, temos na área de refugiados um projeto com a ACNUR, estamos preparando outro com a OIM (Organização Internacional para as Migrações) e temos algumas ações com a Cruz Vermelha”. 

        Desde o começo do ano, já atenderam por volta de 7 mil imigrantes e refugiados, e, hoje em dia, tem por volta de 40 pessoas na Casa, o que representa ⅓ da capacidade total. Além disso, entregam de 50 a 60 cestas básicas a refugiados, diariamente, e ao redor de 60 a 70 que vão, por dia, procurar os serviços do CPMM. “Outras ações incluíram a disponibilização de atendimentos online, de aulas de português a atendimentos jurídicos, psicológicos ou serviços sociais, além de ajudar a completar aluguel, água ou luz daqueles que precisam da ajuda da instituiçã”, fala Padre Paolo. 

        Todo esse esforço e dedicação da instituição foi feito, sempre, visando seguir as normas de segurança e as indicações da OMS (Organização Mundial da Saúde). Foram fornecidos a seus funcionários e a população migrante e de refugiados álcool para higienizar as mãos, máscaras e demais equipamentos e serviços de proteção e higiene.

“Durante a campanha, nos preocupamos em mostrar, de forma transparente, aquilo que fizemos e o que ainda vamos fazer por São Paulo”, publicou no Twitter
por
João Tognonato
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29/11/2020 - 12h

            Enquanto a campanha do candidato Guilherme Boulos à prefeitura de São Paulo apostou na crescente mobilização de sua base, Bruno Covas se mantém confiante adotando uma agenda diversificada em várias Zonas da Cidade. Ao que parece, o atual prefeito não sentiu efeito nas últimas pesquisas mostrando uma visível ascensão de Boulos e segue firme em sua campanha unindo passeios com a população, cafés da manhã, reuniões, carreatas, eventos de rua e encontros com entidades representantes de grupos civis – tudo isso aliado a sua função executiva de prefeito e sessões de imunoterapia no hospital Sírio-Libanes.

            Ainda no sábado passado, dia 21 de novembro, esteve na Av. Paulista com militantes do PSDB que cantavam, debaixo do vão do MASP, slogans de campanha: “Foco, força e fé” e “1,2,3, é Covas outra vez.”. À imprensa, Marco Vinholi, Diretório Estadual, enaltecia o empenho e o caráter de renovação do partido tucano. Na mesma tarde, esteve em Parelheiros com sua aliada, Marta Suplicy, que também teceu elogios ao peessedebista.

            No dia seguinte, Covas encontrou-se com os evangélicos que, segundo as pesquisas, estão alinhados com o atual prefeito. De manhã, na Assembleia de Deus, recebeu fortes agradecimentos do Pastor Adauto Silva por manter os templos abertos durante o tempo de pandemia. Após deixar o local, reuniu-se com líderes da Assembleia de Deus, sem a presença de jornalistas; e terminou na Igreja Mundial do Poder de Deus, comandada por Valdemiro Santiago.

            Segunda feira, 23 de novembro, Bruno Covas tomou café da manhã com Thammy Miranda, do PL, um dos candidatos transexuais que se elegeram no primeiro turno para vereador. Foram a um estabelecimento no bairro da Liberdade, conhecido pela colônia japonesa; e andaram pela Rua Galvão Bueno, principal via da região, onde Thammy convocou apoiadores e tirou fotos de Covas com os eleitores.

            Talvez o dia mais exaustivo para Bruno Covas tenha sido a terça-feira, 24, onde seria obrigado a responder perguntas relativas a seus dois maiores calcanhares de Aquiles: o vice, Ricardo Nunes, e o crescimento da pandemia. Após sair de uma sabatina na rádio CBN, Covas explicou que Nunes, “representa uma coletividade de partidos que somaram conosco ao longo do primeiro turno desde o início da campanha”, que não tem nenhum problema com a escolha. E acerca da Covid-19, reiterou: “Tivemos um aumento nas internações, mas esse aumento veio acompanhado de um cenário de redução de leitos, em especial na rede privada. Houve uma redução de 1.700 leitos para 1 mil leitos referenciados Covid. O próprio município vai voltar a ter mais 200 leitos referenciados para não deixar ninguém sem tratamento.” Além disso, Covas se reuniu a noite com representantes da Polícia Militar para ouvir suas demandas, que giravam em torno de garantias e previsibilidade para a carreira.

                Na quarta-feira, com apoiadores, o atual prefeito voltou à região da avenida Paulista para assinar um acordo com Caixa, que visava aumentar o valor do auxílio emergencial em R$ 100,00. Aproveitou para cumprimentar eleitores e conversar com as pessoas antes de ir à um encontro marcado com coordenadores do “Movimento Livres” – uma organização liberal suprapartidária, que desenvolve lideranças, políticas públicas e projetos de impacto social. Ali firmou oito compromissos programáticos, dentre eles zerar a fila das creches, desburocratizar o sistema público, acelerar o processo de desestatização, compor um plano diretor participativo e criar um sistema de desempenho pelo qual a sociedade civil poderia avaliar os funcionários públicos.

                Na quinta-feira, a quatro dias do dia da votação, Covas focou na participação em sabatinas e programas de TV. Deu entrevista ao programa Bora SP, da Band. Depois, mais três encontros: Jornal Eldorado, da Rádio Eldorado Jornal Gente, da Bandeirantes e às 9h ao Jornal da Manhã da Jovem Pan. Às 10 foi à Sabatina da UOL/FOLHA e 12h visitou uma galeria em Santana. Sua agenda no dia seguinte continha apenas uma passagem pela região do Rio Pequeno, onde esteve com os eleitores, antes de voltar a se reunir com a equipe de marketing para os preparativos antes do debate, que acabaria sendo cancelado.

            Ontem, Bruno Covas optou por uma agenda tranquila, sem grandes atos ou carreatas. Tomou café da manhã na residência dos eleitores, começando às 10h da manhã, pelo bairro do Jaraguá, na Zona Noroeste da cidade, e terminando às 14h25 na periferia da Zona Sul.

Hoje, antes de votar, acompanhou os votos da ex-prefeita Marta Suplicy, do ex-presidente Fernando Henrique e do governador João Dória.

 

 

               

               

 

           

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“Tá sendo histórico! Gente vindo de todo o Brasil pra panfletar nas ruas de SP nessas últimas 48h de campanha. Precisamos nos reabastecer de material para dar conta de tantas pessoas querendo ajudar.” Guilherme Boulos, pelo Twitter no dia 27
por
João Tognonato
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29/11/2020 - 12h

            A campanha eleitoral do candidato Guilherme Boulos seguiu em ritmo acelerado nos últimos dias. Até agora, comitivas organizadas pelas lideranças partidária e de outros partidos, buscavam reverter os votos nulos, indecisos, transferindo-os em prol do psicólogo. Ações na região de Pinheiros, Lapa, Vila Mariana, Parelheiros, Cidade Tiradentes, Carrão, Pirituba, Santana, Vila Aurora entre outros se fortaleceram a cada dia com o apoio de militantes amadores, de membros do PSOL e de partidos da base que se formou após o primeiro turno.

            São ações que ocorrem em ambientes de alta circulação como feiras, estações de metrô, rodoviárias e sindicatos. Os voluntários se organizam por grupos de WhatsApp abertos a quem se interessar e puder participar: seja na oratória – convencendo transeuntes e cidadãos a aderir ao projeto de Boulos – seja buscando material nas bases do partido, ou até articulando campanhas virtuais nas redes sociais e fóruns de discussão.

            Uma das colaboradoras é Tássia Almeida, 28, psicóloga, professora e filiada ao PSOL, onde construiu o “Movimento Rua – Juventude Anticapitalista;” dos movimentos que ajudam na campanha de Boulos e Erundina. Moradora da Vila Mariana, ela pertence a grupos do bairro, onde busca arregimentar militantes e, também, propor ações. “Vamos nos organizando conforme a necessidade, e dentro dos diversos espaços,” disse à reportagem. “A gente reúne as diversas panfletagens durante a semana e pensa, sempre juntos, quem vai pra onde, tentando priorizar e manter cada um mais perto da sua casa.”

            As maiores dificuldades da militância, segundo ela, são basicamente três: em primeiro, a pandemia, que não só “afugenta as pessoas da rua, como também não permite que todos os apoiadores se concentrem ostensivamente na campanha. Em segundo estão as fake news que circulam nas redes, construindo uma imagem negativa do candidato com informações nem sempre procedentes. E, por fim, o fato de Guilherme Boulos ainda não ser tão conhecido na capital, como é o seu adversário – que, como atual prefeito, tem uma alta visibilidade devido ao cargo. Mas acima disso tudo, Tássia acredita que essa experiência – seja qual for o resultado – será muito positiva. “Está sendo uma nova vivência na construção política. A geração atual, das jornadas de junho, do “Tsunami da Educação, formou-se basicamente nas ruas; mas ainda não tinha podido penetrar na disputa dentro do âmbito das eleições.”

            Para os organizadores, a corrida agora é contra o tempo. Segundo as contas da assessoria de Boulos, é preciso virar mais ou menos 250mil votos até domingo, onde cerca de basicamente 80% da população já diz ter solidificado sua decisão. Para dar certo, cerca de 70 mil votos por dia devem ser trazidos para o lado do “psolista” que, em conjunto com uma onda ascendente, podem dar a vitória ao candidato.

 

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A exclusão nas várias áreas da sociedade.
por
Marcela Foresti
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27/11/2020 - 12h

Como qualquer outro país o Brasil também enfrenta diversos problemas sociais, um destes problemas é a exclusão de deficientes. Segundo levantamento do IBGE de 2010 o país tem 46 milhões de pessoas que declaram ter algum tipo de deficiência, este número equivale a 24% da população.

Este grupo da sociedade enfrenta barreiras todos os dias e são excluídos de atividades básicas do dia a dia, como em atividades escolares. O diretor de patrimônio da  Associação dos Policiais Militares Portadores de Deficiência do Estado de São Paulo (APMDFESP) e cabo da polícia militar reformado Alexandre Miragaia de Araújo acredita que a sociedade em que vivemos está longe de ser inclusiva e que não podemos confundir a boa vontade de poucas pessoas com a tão sonhada inclusão “A exclusão já começa na infância com as súplicas de pais por uma vaga em   escolas”. Alexandre Miragaia de Araújo

 O também policial militar reformado e hoje presidente da Associação dos Policiais   Militares Portadores de Deficiência do Estado de São Paulo (APMDFESP) Antônio   Figueiredo Sobrinho, acredita que aos poucos a sociedade está caminhando para uma   maior inclusão, principalmente no trabalho já que existem os sistemas de cota, mas   que ainda estamos longe de atingirmos a inclusão total. Antonio Figueiredo Sobrinho

A sociedade infelizmente ainda enxerga os deficientes como incapazes e diferentes, muitas empresas preferem pagar a multa por não cumprir a lei de cotas do que contratar alguém que se declara deficiente. Na escola é a mesma coisa, as instituições não colocam seus alunos deficientes em eventos por julgarem que a criança é incapaz de se misturar.

Para Araújo e Figueiredo o poder financeiro ainda é um fator determinante da inclusão, ele que proporciona  maior qualidade de vida, viabiliza a mobilidade e facilita o acesso a informações. 

A falta de sensibilidade para o assunto também reflete na mídia. Araújo acha que a quantidade de reportagens sobre o assunto está se tornando constante, mas que ainda vemos uma quantidade enorme de ONGs e políticos serem representantes do assunto ao invés dos próprios deficientes que superam seus limites todo dia “Não nos sentimos representados por toda essa gama de pessoas”.

Figueiredo por outro lado acredita que os conteúdos das matérias são sempre superficiais “Falam de maneira que o conteúdo seja para beneficiar outros”, para ele esta minoria da sociedade ainda não tem crédito de valor.

O pouco interesse da sociedade sobre o assunto é uma realidade triste do Brasil, difícil vermos planos de governo que incluam medidas que irão beneficiar este grupo além de cotas. Há poucas medidas para a mobilidade nas ruas e estabelecimentos, o que dificulta o acesso e mantém as barreiras do preconceito. Araújo acredita que existe uma preocupação dos governantes, mas não se vê como programa de relevância “Não tem uma formatação de Leis com nossa realidade e ficamos na dependência de ações isoladas”.

Já Figueiredo acredita que a história está mudando e que não irá demorar muito para eles serem incluídos como pessoas normais na sociedade.

 A luta pela inclusão é de todos nós e devemos cada vez mais nos preocupar em ter uma sociedade onde todos são vistos e tratados como iguais. O Brasil ainda tem uma grande caminhada e ela é agenda de todos.

 

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A periferia mostrou-se ser um ligar a parte na gestão e manutenção de seus comércios durante a pandemia, seja com dificuldades ou com manobras ilegais para se manter ativo
por
Eduardo Rocha da Luz
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09/11/2020 - 12h

A pandemia pegou toda a população mundial de surpresa e logo mostrou à que veio. Se não apenas para mostrar como somos tão frágeis diante de um organismo ínfimo – Mas com um poder destrutivo voraz – deixou escancarado as diferenças de classe e a fragilidade dos sistemas econômicos. Em meados de março, com o primeiro caso de COVID-19 em São Paulo, iniciou-se uma corrida por suprimentos, o que causou o desabastecimento de algumas redes de supermercado. Ao longo das semanas seguintes, foi visto que a histeria foi exagerada.
Mas será mesmo?

Na periferia de São Paulo (Sapopemba), comerciantes sentiram o impacto ocasionado pela pandemia de maneira singular. Por serem de pequeno porte, sem estrutura para manterem estoques de emergência e sem poder para realizar a reposição perante as grandes redes de supermercado. “Em março e abril as vendas foram surpreendente, nunca, nos 26 anos que mantenho meu mercado, houve uma busca tão grande por alimentos não perecíveis (Arroz, feijão, farinhas), diferentemente do que era mostrado na TV, não tivemos tanta busca por produtos de higiene pessoal” - Carlos Alberto (65), proprietário de um mercado no Jd. Elba.

Outro grande problema relatado, foi que nos meses seguintes, houve um aumento no valor, justamente nos itens da cesta básica (Arroz, feijão, óleo), e dessa forma, um malabarismo para minimizar o valor do repasse desse aumento ao consumidor foi realizado. “Aqui na região, as pessoas são mais simples, muitos idosos e crianças, mães solteiras, muitos desempregados que vivem de bico ou de favor. Vejo a dificuldade que tem para vir comprar o básico. Me corta o coração, mas também não posso deixar de pagar meus funcionários, as contas de meu comercio. Por isso, nos últimos meses, tenho trabalhado no limite do limite do repasse do reajuste dos valores. Tenho tentado ser o mais patriota o possível, como pediu o presidente, mas com todos os encargos e impostos, é impossível” – Carlos Alberto.

Outra situação muito comum nessa região foram as maneiras de driblar possíveis fiscalizações de descumprimento de manter comércios não essenciais fechados. Foi muito comum encontrar salões de cabelereiro, restaurantes, bares, bazares e todos os tipos de comércios com as portas abertas ou semiabertas. Alair Jorge (25) mantem um salão de cabelereiro, de onde vem seu sustento, da esposa Jussara (23), dona de casa e seus quatro filhos. “Já tenho uma clientela fiel, que marcam horário pelo Zap (WhatsApp) e não poderia deixá-los na mão, além do mais, é daqui que tiro meu sustento. O auxílio emergencial do governo veio em uma hora boa, mas se eu deixasse de atender quem me chamasse no zap, com certeza esse iria buscar por outro cabelereiro.”
Ao ser questionado sobre uma possível fiscalização, Alair diz: “Mano, aqui é favela, os caras da prefeitura só aparecem por aqui de quatro em quatro anos, para pedir voto.”

Diferente de regiões centrais, comerciantes periféricos tiveram suas dificuldades durante a pandemia, mas também tiveram que se adequar para manter seus comércios em funcionamento.

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Em meio ao aumento de invasões e o avanço da Covid-19 em comunidades originárias, candidaturas indígenas, neste ano, cresceram 28% em relação às eleições de 2016, deixando de ser a minoria representada nas urnas.
por
Laura Trindade
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04/11/2020 - 12h

Em meio a uma pandemia que têm colocado em risco a existência de comunidades isoladas, ações do STF (Supremo Tribunal Federal), como a votação da tese do Marco Temporal, que dificulta a demarcação de terras, e o aumento do desmatamento, as candidaturas indígenas cresceram 28% em relação às eleições de 2016. Sendo assim, a etnia deixou de ser a menos representada em cargos eletivos, com 2.177 candidaturas, segundo a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil). 

De acordo com a APIB, o aumento da população indígena na participação das eleições municipais é concomitante ao aumento dos ataques aos seus direitos em meio a pandemia de Covid-19. Segundo dados atualizados no dia 30 de outubro, foram 32.446 casos confirmados e 866 óbitos por Covid-19 entre os povos indígenas, que enfrentam, além da pandemia, desde escassez de água, como é o caso da comunidade Avá Guarani, no Paraná, até uma estrada irregular que avança por Terra Indígena no estado do Maranhão. 

Os representantes indígenas nas eleições deste ano vêm com uma pauta em comum: a retomada da demarcação dos territórios. Para Chirley Pankará, primeira indígena co Deputada Estadual em São Paulo, a demarcação de terras é uma das maiores causas e lutas. Segundo a co Deputada, só assim é possível haver políticas públicas voltadas para atender as necessidades indígenas, além de, também ressaltar que, mesmo em contextos urbanos, a demarcação é importante devido à ancestralidade e história do povo. 

Essa conquista de espaço no poder poder público têm ganhado forças com o surgimento de alguns nomes nos últimos tempos, como o de Sônia Guajajara, vice do candidato a presidência, Guilherme Boulos, nas eleições de 2018. Porém, apesar da visibilidade e credibilidade que isso tem gerado, de acordo com a co Deputada, as dificuldades nas eleições são muitas para quem é indígena, principalmente pela falta de apoio financeiro.   

Para incentivar e dar suporte às candidaturas, a APIB lançou a Campanha Indígena, de caráter suprapartidário, um mês antes do primeiro turno das eleições municipais. A Articulação alega que as candidaturas e as defesas dos direitos indígenas são mais importantes do que o partido ao qual o candidato está filiado.  

 

Candidatura coletiva

Oficialmente, não é possível haver um mandato de mais de uma pessoa, mas, desde 2018, as candidaturas coletivas têm ganhado espaço nas eleições. Ela acontece por meio de campanhas eleitorais, quando integrantes de um mesmo partido fazem um acordo para conseguir votos coletivamente. Caso o representante seja eleito, todo o grupo que faz parte da candidatura coletiva terá participação nos assuntos que permeiam a câmara. 

Em 2018, São Paulo e Pernambuco foram os primeiros estados a elegerem um mandato coletivo, caso da co Deputada Chirley Pankará, da Bancada Ativista. Segundo a eleita, as candidaturas coletivas abrem caminho para grupos minoritários. 

Nas eleições municipais deste ano, apenas em São Paulo há pelo menos 34 chapas únicas com mais de um participantes, principalmente vindos de partidos de esquerda, coletivos da periferia, movimentos sociais e indígenas. 

 

Marco Temporal 

Sendo defendido principalmente por ruralistas e setores interessados na exploração de terras, o marco temporal é uma tese que se associa a pauta de demarcações de terras indígenas, visto que restringe essa possibilidade. 

Com a aprovação dessa tese pelo STF, os povos indígenas teriam direito à demarcação  das terras que estivessem sob sua posse no dia 5 de outubro de 1988, data em que foi promulgada a atual Constituição Brasileira, ou que, nesse mesmo dia estivessem sob disputa física ou judicial comprovada. Porém, antes dessa Constituição, povos indígenas eram tutelados pelo Estado e não tinham autonomia para, judicialmente, lutar pelos seus direitos. 

O julgamento do Marco Temporal havia sido incluído na pauta do dia 28 de outubro de 2020, sendo retirado dois dias depois e, atualmente, está sem data prevista.

 

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Setor já vinha sofrendo problemas internos, antes mesmo da crise sanitária se instaurar no país
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28/10/2020 - 12h

Com a chegada do Coronavírus ao Brasil, um dos setores que mais sofreu com as novas configurações impostas foi o editorial, que anteriormente já vinha enfrentando dificuldades. Entre 2006 e 2019, o mercado viu uma diminuição em 20% da receita, segundo dados da Pesquisa de Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, coordenada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). 

A possível taxação sobre livros proposta pelo governo federal também pode agravar a crise no mercado editorial brasileiro. De acordo com o projeto do ministro da economia, Paulo Guedes, seria criado o imposto de Contribuição Social sobre Operações com Bens e Serviços (CBS), que gera uma taxa de 12% sobre os livros. Em um país em que a leitura não é incentivada e o acesso a livros é dificultado pela desigualdade social, o medo é de que o imposto afaste até mesmo os consumidores do mercado nacional. Desde 2004, a lei Lei do Pis/Pasep proíbe a criação de impostos sobre obras literárias.

Felipe Vale, editor da Editora Aetia, conta como a empresa está enfrentando a crise do mercado, a pandemia e o cenário político. Sendo uma editora de nicho focada em literatura alemã, afro-americana e temas políticos da esquerda revolucionária, viu a diminuição da procura do público acadêmico. “Conforme a administração Weintraub destruía a educação brasileira e cortava todas as verbas possíveis, nosso público perdeu poder de compra. Sentimos a queda na hora. A pandemia só intensificou isso”, afirma o editor. 

A situação não afetou apenas as editoras, o que gerou um efeito cascata. Vendedores e revendedores deixaram de repassar as vendas, o que até abril deixou a editora com renda gerada apenas por vendas diretas, freelancer com tradutores e o que vinha da loja virtual. Para Felipe, isso acarretou mudanças de vida: “Eu, que morava em São Paulo com minha esposa, tive que sair da cidade por não conseguir mais pagar aluguel. A editora está funcionando em Londrina/PR e SP/capital agora, por conta disso”. A paralisação de feiras de livros e eventos de contato direto com o público garantem parte substancial da renda de muitas editoras de nicho e editoras ligadas a causas sociais, como a Aetia.

Para driblar a crise, em maio as campanhas de financiamento viraram alternativa de geração de capital. A editora, que conta com três funcionários, viu na utilização da plataforma Catarse.me um meio de pagar as contas mensais e os salários. Neste ano foram três campanhas, a primeira, segundo Felipe, alcançou um resultado satisfatório. Já a segunda teve um sucesso inesperado. “Mas isso se deve mais ao título: uma obra inédita de Marx e Engels, que teve apoio direto do Partido Comunista Brasileiro e inúmeras pessoas que compartilharam o link de boa vontade”, explica. Em setembro foi lançada a terceira, e a expectativa é de que elas possam ocorrer a cada dois meses.

Obra inédita de Marx e Engels. Fonte: Aetia Editorial
Obra inédita de Marx e Engels. Fonte: Aetia Editorial

Somada às campanhas, a divulgação nas redes sociais por meio de postagens e boots no Instagram e Facebook - esse último sem o resultado esperado, de acordo com o editor - acentuou a importância do meio digital para a sobrevivência no mercado editorial em tempos de isolamento social. “Antes dávamos mais atenção ao público direto, já que a participação em feiras de livro, assentamentos sem-terra, espaços livres de universidades e shows diversos eram as ocasiões em que vendíamos mais”. 

Os acontecimentos dos últimos meses, como os protestos ligados ao movimento “Black Lives Matter” e aqueles contra o fascismo, permitiram o aumento da procura por livros relacionados a esses assuntos. Na editora Aetia, por exemplo, oito títulos contemplam essas temáticas. “Tanto a quarentena, quanto a péssima administração do governo atual e eventos globais anticoloniais e antirrascistas aparentemente fizeram o restante dos ausentes se revoltarem de vez e começar a ler sobre formas de resistência”. Mas a percepção é de que a procura esteja restrita a um público. “Estou falando sobre o público acadêmico, de 19 a 45 anos mais ou menos, que geralmente compra nossos livros. Depois da morte de George Floyd e de João Victor, algumas pessoas passaram a pedir informações e ir atrás de nossos livros de literatura antirracista”, completa.

Dois romances sobre a era Jim Crow, em que a segregação racial era amparada por lei. Fonte: Aetia Editorial
Dois romances sobre a era Jim Crow, em que a segregação racial era amparada por lei. Fonte: Aetia Editorial 

Para o editor, a situação do mercado está longe de se normalizar. Felipe expõe também o que acontece ao setor lojista, afetado pelo fechamento do comércio. “Os lojistas vão demorar um bocado para se recuperarem: temos distribuição em São Paulo, Maranhão, Bahia, RJ e Paraná, todos são gente próxima e compartilham conosco como está difícil. Alguns já fecharam suas lojas e estão trabalhando remotamente, com vendas online apenas. Isso é uma tristeza”. 

O apoio do público em geral às editoras independentes é um dos principais caminhos para se evitar o agravamento dos problemas de um setor já tão desvalorizado no país. “Mas, conversando com colegas de Ponta Grossa/PR, Foz do Iguaçu/PR e São Paulo/SP, gente na mesma situação que nós, constatamos que muitos clientes começaram a apoiar editoras menores com maior afinco. A editora Monstro dos Mares está se mantendo com financiamento de leitores e amigos, por exemplo; isso é bem legal”, finaliza Felipe

Já para Caio Ramos da Editora Faro, a crise das grandes livrarias era uma verdadeira dificuldade, mas que não chegou a envolver os leitores. “As pessoas continuavam lendo e comprando. Porém, o que acontecia é que o grande faturamento de muitas editoras dependia principalmente da Saraiva”, conta ele. O colapso da Saraiva em 2018 levou a editora Faro a se programar para um novo plano de ação que dependesse menos das grandes redes e, sim, procurasse investir em pontos alternativos de mercado. 

De acordo com Caio, a procura pelos livros de autoajuda e desenvolvimento pessoal aumentou as vendas de maneira geral, já que os leitores em quarentena passaram a ter muito mais tempo livre para dedicar a seus interesses próprios. A Faro se mostra otimista e já acredita em uma melhora no mercado editorial de forma gradativa: “A venda de livros nas livrarias vem aumentando. Muitas livrarias aprenderam a se reinventar para atender a nova necessidade do mercado, como o atendimento por delivery, por exemplo”.

Diferente do pensamento comum que atribui a culpa aos brasileiros por lerem pouco, a Associação Nacional de Livros (ANL), que promove mensalmente um estudo sobre o comportamento do varejo de livros no Brasil, constatou que a busca por livros vem aumentando ano a ano no país. O que acontece é que o modelo de negócio das livrarias brasileiras está enfrentando transtornos. Em 2018, as duas maiores redes no país, Livraria Cultura e Saraiva, entraram com processo de recuperação judicial, sendo que quatro em cada dez dos livros vendidos no país passam por essas lojas. Essa quebra arrasta toda a cadeia editorial, altamente dependente desse oligopólio que hoje não está mais conseguindo se sustentar.

“Temos que ter claro que o mundo não acabou, não é estático. Tem renovação e adaptação permanente às exigências do consumidor”, disse em entrevista Bernardo Gurbanov, o presidente da ANL. Segundo ele, um dos movimentos que tende a ganhar força é volta da ampliação da rede de pequenas livrarias, visto que estão aparecendo muitas lojas novas ao mesmo tempo em que as novas gerações, interessadas por livros e ambientes culturais, chegam ao mercado de trabalho. “Também podemos pensar no comércio online das próprias editoras que precisam escoar seus produtos. Não digo que sejam estratégias definitivas e nem a salvação da pátria. Mas são saídas, tal como maior participação em eventos literários, feiras, enfim, uma maior aproximação com o consumidor vai ser essencial”, completa.

Com o objetivo de contornar as adversidades causadas pela chegada do COVID-19 no Brasil, muitas editoras estão optando por adiamentos ou lançamentos em e-books não planejados. Segundo a pesquisa feita em abril pela Liga Brasileira de Editoras (LIBRE), com foco na região sudeste, que visa compreender o impacto da pandemia na área financeira das editoras independentes, 81% dessas estão com algum atraso em seus recebimentos fazendo com que 88% das editoras decidissem pelo adiamento dos lançamentos ainda esse ano e 39% escolhessem incluir edições no formato digital que não eram planejadas. 

Segundo a pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro ano-base 2019, conduzida Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), o faturamento de e-books, audiolivros e outros formatos digitais foi de R$ 103 milhões, 140% a mais quando comparado com os resultados de 2016 (com variação de IPCA em 115%. Foram vendidos 4,7 milhões de unidades, 96% delas em formato e-book e 4% em audiolivro. Hoje, ainda de acordo com a pesquisa, os meios digitais representam 4% do mercado editorial, bem como seu faturamento.

 

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O termo, ainda pouco conhecido, é utilizado para denominar aqueles que não se classificam exclusivamente em nenhum dos gêneros binários - masculino ou feminino.
por
Georgia Barcarolo
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21/09/2020 - 12h

 

Rose Marie Muraro, intelectual tida como representante-mor e pioneira do feminismo no Brasil, expressou em seus trabalhos como a divisão dos sexos foi baseada em processos de dominação, na busca pelo poder e na divisão sexual do trabalho. Para ela, o gênero não é determinado pelo sexo biológico: toda essa designação de gênero se organiza de acordo com uma sociedade patriarcal. A partir dessa divisão, tarefas, vestimentas e comportamentos, entre outros, surgiram as concepções de gênero em nossa sociedade e inconsciente coletivo. 

O gênero atribuído ao nascimento, comumente chamado de “sexo biológico”, diz respeito às características biológicas e sexuais que a pessoa tem ao nascer, e incluem cromossomos, genitália, composição hormonal, entre outros. Já a identidade de gênero é uma questão de autopercepção, uma vez que a autoimagem da pessoa é o fator que mais se sobressai ,já que ela se define conforme a sua percepção de si mesma. Uma pessoa pode ser cis ou transgênero; sendo trans, pode identificar-se dentro do gênero binário ou possuir uma identidade não-binária.

As noções de gênero primárias, que contavam somente com a binariedade, foram essenciais para a exclusão e desigualdade não só apenas de indivíduos cisgênero (aqueles que se identificam, em todos os aspectos, com o gênero atribuído), como de indivíduos com opções sexuais não normativas e transgêneros, tais quais não-binários, agêneros e genderfluids. Logo, as pessoas que se consideram não-binárias, ou seja, as que não se identificam com o binarismo de gênero de homem e mulher, concebem uma nova ideia de gênero. Apesar de ser considerado por muitos algo inerente ao ser humano desde seu surgimento, a binariedade é construída a partir do contexto social, histórico e cultural, e esses indivíduos de certa forma se “desprendem” do papel opressor da normatividade de gênero. 

Alex pode se perceber não-binário e posteriormente, genderfluid.

Joy se percebeu lésbica e se assumiu à família aos 18 anos, fazendo uma mudança radical na aparência. Hoje, com 20 anos, se assume não-binarie. “Eu não ligo de me chamarem de menino ou menina. E eu fui percebendo isso ao passar do tempo que isso não me incomodava. Eu não sinto nenhum tipo de pressão da sociedade, só que eu não consigo tolerar nenhum tipo de preconceito. ofensa me chamando de menino”.

A discussão sobre a inclusão de pronomes neutros é outra pauta importante para a comunidade NB. A Suécia, por exemplo, incluiu em 2015 o pronome neutro hen ao Dicionário da Academia Sueca, como alternativa aos pronomes hon e han, feminino e masculino, respectivamente. O fato se deu no começo do século XX por conta da popularização do uso, quando parte da comunidade trans no país aderiu à palavra. 

Há uma facilidade maior em idiomas como o alemão e sueco, os quais já possuem um pronome neutro - no caso da Alemanha, em 2018 foi incorporado às leis do país a existência de um “terceiro gênero”, o intersex, facilitando também a adaptação das pessoas no uso dos pronomes - e, apesar das opiniões a respeito do uso do pronome ainda variarem bastante, atualmente é possível encontrá-lo em diversos textos acadêmicos e jornalísticos, além de ser usado em situações cotidianas de comunicação entre alguns falantes, desvencilhando-se assim da conotação que carregava anteriormente por ser utilizado apenas por grupos ativistas. Atualmente, há não-bináries que não aceitam serem tratados no feminino ou masculino.

As mudanças na língua portuguesa surgiram primeiramente marcadas por “@”, como tentativa de marcação simultânea de masculino e feminino; logo após, surgiu a tentativa de utilizar “x” para omitir vogais e neutralizar a conjugação de gênero. Embora inclusivas para uns, ambas as grafias se assemelham no sentido de que só podem ocorrer na modalidade escrita, além de dificultarem a utilização de ledores (leitores automáticos para deficientes visuais).  Justamente por essas razões houve uma reforma na utilização de pronomes neutros, sugerindo o uso de “e” para omitir a demarcação de gênero masculino/feminino, mas sendo passível de pronúncia em língua oralizada. 

Há alguns anos atrás, a possibilidade do uso de pronomes neutros no Brasil era apenas um borrão. E as línguas latinas, por terem a característica gramatical que classifica coisas e pessoas em categorias masculinas e femininas, são especialmente problemáticas. Entretanto, achar que você sabe a identidade de gênero de alguém somente pela aparência não é mais uma realidade.

“Minha família não entende, então eles me chamam de [nome morto]**. Isso é meio incômodo, mas eu me acostumei”, diz Alex, 21 anos. Para ele, que prefere o uso de pronomes masculinos no momento, o conceito de gênero sempre foi confuso. Por meio de um conhecido da comunidade trans, Alex pode se perceber não-binário e, posteriormente, genderfluid. “ E como não-binário, bissexual e negro, ele diz estar ciente do preconceito existente. “Acho que o mais difícil foi perceber o quão diferente eu sou, não porque eu quero ser normal, mas porque ser diferente tem um custo muito alto na sociedade em que a gente vive”. Porém, mesmo com vários desafios, Alex se diz muito melhor se percebendo não-binário uma vez em que pensar apenas a binariedade como identidade de gênero o deixava mal: “Mas eu não mudaria. Agora eu sou mais feliz porque eu sei mais quem eu sou. Eu performo meu eu de acordo com como me sinto, e isso é muito rebelde”.

 

** "nome morto" é um termo utilizado pela comunidade trans para se referir ao nome e identidade de nascença, anterior à descoberta de gênero.

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Veja como as Universidades Federais estão lidando com as aulas à distância e o retorno das atividades presenciais
por
Gabriel Lourenço Schiavoni
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11/09/2020 - 12h

É de conhecimento público que a pandemia de Sars-CoV-2 trouxe impactos profundos em esfera global, que forçaram alterações na maneira com que a vida era levada corriqueiramente, buscando o isolamento social para a contenção do vírus. Com isso áreas fundamentais em nossas sociedades, dentre essas o trabalho e o estudo, tiveram que passar por alterações para continuarem sendo executadas e tentar manter de alguma forma um vínculo com os compromissos da velha “vida normal”.
Essas mudanças entretanto, não parecem ser tão simples de serem colocadas em prática, e com isso, em algumas áreas, debates sobre como aplicar sua metodologia fora de seus ambientes normais  e presenciais se formaram. Em grande parte do país foi adotada a metodologia do EAD, uma modalidade de aula que já existia antes em alguns cursos, mas que foi implementada com a pandemia de forma geral para não prejudicar o andamento dos cursos. Todavia, a ideia que parecia ser genial e salvadora passou a ser questionada e colocada em dúvida.
No Brasil, um dos primeiros problemas apontados foi a forma com que escolas e universidades públicas iriam lidar com essa situação para fornecer o material necessário para todos os alunos e professores envolvidos. Para saber um pouco mais sobre isso entrevistamos a professora Ana Valéria Santos de Lourenço da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), para compreender melhor essa situação e toda essa problemática.
Entrevistada, Ana ressalta que as atitudes de suspensão das atividades presenciais foram tomadas rapidamente, logo com os primeiros casos de covid-19 no país. Perguntada sobre as atividades online, a professora conta que a organização para as atividades ocorrem via computador na casa dos docentes e alunos não foi uma tarefa das mais simples. Ela levanta algumas problemáticas que tiveram que ser superadas, a primeira, e talvez a principal, é a de que o estatuto não permitia a execução das atividades á distância, o que forçou com que as portarias flexibilizassem medidas para neste momento de necessidade abrir uma exceção e continuar o mais cedo possível com as aulas.
Com essas barreiras superadas, diversas reuniões passaram a ser executadas para tentar colocar em prática o projeto da UNIFESP de Atividades Domiciliares Especiais (ADE), a forma pela qual se denomina a metodologia aplicada no momento pela universidade. 
Para executar esse plano, conta a professora universitária, foi preciso ter certas preocupações com os alunos de baixa renda na universidade, tomando medidas para possibilitar o acesso às aulas a esses alunos, abrindo editais tanto para oferecer computadores para assistir as aulas, e também um auxílio emergencial para a instalação de redes de internet nas casas de alunos de menor renda. Ainda preocupado com os alunos, foi estabelecido que a as aulas deveriam ser assíncronas, e no caso das atividades síncronas, devem ser gravadas para o posterior acesso de quem não teve a oportunidade de assistir no horário marcado. Outra medida foi mudar o critério de avaliação, por um entendimento dos docentes de que não seria justo dar uma nota neste momento.
Com tudo planejado, o primeiro semestre retornou somente no início de agosto com previsão de fim no mês de novembro, acompanhando o que normalmente seria o segundo semestre, já o segundo semestre está marcado de novembro até março de 2020, sendo planejado que ambos sejam feitos na metodologia à distância.
Vendo o andamento dessa situação Ana fala que a situação demorou a ser resolvida, mas segundo ela “ tomou o tempo necessário para as coisas acontecerem “, perguntada se o método que a situação foi solucionado foi melhor, ela responde que “ foi resolvido da forma para não causar problema a nenhuma das partes.

 

 

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Apenas 9% das famílias das classes D e E possuíam computador em casa. Enquanto a classe A, apresenta um número de 98%. A situação gerada pela pandemia reforça a grande desigualdade do Brasil e acarreta complicações no ambiente educacional.
por
Anna da Matta, Beatriz Loss e Fernanda Fernandes
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11/07/2020 - 12h

                

                             Aluno estudando via celular-Créditos: USP imagens

 

De repente, a COVID regressou ao século XXI ganhando um novo nome, Covid-19. A maioria dos brasileiros estava convencida de que a epidemia não atingiria o país, já que no início surgiram casos apenas em lugares isolados da China. Mas esta crença teve fim quando, em fevereiro, foi confirmado o primeiro diagnóstico positivo de coronavírus no Brasil. O paciente, de 61 anos, havia chegado de uma viagem feita à Itália, região bem afetada pela doença. Com a chegada da pandemia, mudanças tiveram que ser feitas. Transições tecnológicas que levariam décadas para serem instituídas voluntariamente foram inseridas em questão de meses, dada a surpresa enfrentada.

Para tentar controlar os casos, foram implantados de início critérios de isolamento e quarentena apenas para pacientes que estavam com suspeita ou confirmação de infecção por coronavírus. Posteriormente, essas medidas foram ampliadas para pacientes de risco, e depois para todos. A Covid-19 transformou vidas, não apenas na modificação do cotidiano, em que não há possibilidades de ir à festas, restaurantes, parques, encontros com a família e amigos, mas também altera mudanças que já estavam em andamento, como a busca por sustentabilidade, tanto por parte da sociedade como por parte das empresas, o trabalho se tornando Home Office, e principalmente, a educação sendo online. Tal cenário afeta estudantes e professores, com consequências tanto acadêmicas quanto psicológicas.

Logo que a quarentena se iniciou, um quadro de incertezas surgiu sobre os alunos, pais e professores. Com as aulas suspensas, começaram os debates sobre como ficaria o ano letivo e a qualidade do aprendizado dos estudantes, e uma das soluções para essa situação foram as aulas online. Diferente da educação à distância (EAD), esse ensino remoto não teve o mesmo planejamento e estrutura para funcionar de forma eficaz. Uma das razões que faz as pessoas optarem, geralmente, pela plataforma do EAD é para economizar tempo e dinheiro. Um dos privilégios, e diferenças, da educação remota é o contato direto com os professores, ainda que virtual. Esses ensinos são distintos e não podem ser confundidos, principalmente porque os estudantes neste momento não tiveram escolha, e não tem o controle de sua aprendizagem.

 

As diferenças e dificuldades nas redes pública e privada

 

          Com a suspensão das aulas, foi preciso buscar novas alternativas para conseguir cumprir o calendário escolar previsto para 2020. Todos os professores e alunos tiveram que modificar suas vidas, tanto os da rede pública como os do ensino particular. Desde o 1º semestre , eles estão tentando se adaptar e entender como ter um melhor aproveitamento das plataformas digitais. Porém está sendo uma experiência difícil e consequências negativas estão surgindo nessa nova fase.

É evidente que o ensino da rede pública está passando por maiores dificuldades, pois a classe social dos alunos influencia muito no momento do acesso aos novos recursos. O Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação realizou uma pesquisa sobre o uso de tecnologias de informação e comunicação em domicílios brasileiros e mostrou que, em 2018, apenas 9% das famílias das classes D e E possuíam computador em casa. Enquanto a classe A apresenta um número de 98%. A situação gerada pela pandemia reforça a grande desigualdade do Brasil e acarreta complicações no ambiente educacional.

Josiane Bezerra professora de Português, Eletivas e Tecnologias trabalha em duas escolas da rede estadual na periferia da Zona Norte de São Paulo. A professora relata que as aulas foram encerradas no dia 18 de março e que o governo não disponibilizou nenhuma plataforma obrigatória para os professores trabalharem, apenas uma apostila que contém o conteúdo de todas as matérias para os alunos retirarem nas escolas. Dessa forma cada, escola está trabalhando do modo que prefere com os alunos, no caso das escolas de Josiane, os professores estão passando as atividades e os conteúdos por meio do Blog das escolas e das páginas do Facebook. Josiane mantém contato com os alunos de outra forma: “Preferi criar um grupo no WhatsApp com meus alunos do 6º ano, estou passando as atividades por lá, acho que assim fica mais fácil minha comunicação com eles, mas ainda não consegui o contato de todos”, relata.

 Segundo ela, uma das escolas colou cartazes informativos no portão e espalhou alguns pela região para que os alunos pudessem saber o que fazer, a outra escola já teve uma comunicação melhor, pois já continha um grupo do diretor com todas as mães, então mandaram as informações por lá. Mas relata que a falta de acesso dos alunos  à internet está fazendo com que muitos não participem das aulas, “A situação dos alunos é precária, muitas das famílias são numerosas e tem apenas um celular”. Em relação a essa nova experiência a educadora diz “Não estou achando fácil, fico receosa de passar um tema, uma atividade nova e eles não conseguirem aprender, sei que tem alunos que têm muita dificuldade, sem estar presente com ele fica difícil saber se eles estão com dúvida. A falta do olho no olho faz muita diferença.”

Em relação à rede municipal de ensino, o professor de matemática Clóvis Sá, que trabalha na região da Brasilândia, em São Paulo, relata: “No primeiro momento orientamos os alunos a ficarem em casa, mas estávamos atendendo os que vinham. Muitos acabam indo por conta da alimentação ou porque não têm com quem ficar”. Com o tempo a quantidade de alunos foi diminuindo e a escola fechou. Os alunos ficaram sem aula por quase duas semanas, período em que a Secretaria da Educação mandou orientações e os professores tiveram reuniões por meio de vídeo para organizar os modelos de aula e aprender a utilizar a nova plataforma, além de conhecer o novo material. A prefeitura, ao contrário do estado, definiu a plataforma Google Classroom para todos os professores usarem, além de criar uma apostila contendo atividades e o conteúdo de todas as matérias e enviar por meio do correio na casa de todos os alunos. O professor comenta: “Infelizmente nem todos os alunos estão tendo acesso a este material, pois muitas famílias não atualizaram seus endereços na escola, ou colocaram errado”. Para avisar os alunos e mostrar como entrar no aplicativo foi usado a página do Facebook da escola, um cartaz no portão e os diretores estão fazendo atendimentos por meio do telefone da escola e da internet.

 “Os professores estão postando vídeos, atividades na plataforma. E estão ficando conectados no aplicativo no horário de aula, no meu caso das 7:00 às 11:50. Temos que ficar on-line para orientar sobre as atividades e tirar dúvidas dos alunos.”, diz o professor Clovis.

Por fim, o matemático desabafa: “Está sendo uma experiência complicada. Acho que a estrutura criada até que foi rápida, mas ainda não é eficaz, não depende só do professor, ela esbarra na dificuldade de o aluno de ter acesso e também na falta de interesse de muitos”.

Já no colégio particular são perceptíveis muitas diferenças, apesar de também apresentarem dificuldades por ser um processo inesperado, os professores e os alunos contêm um suporte maior. Simone Arcanjo é professora de História e Sociologia em um colégio particular na região da Lapa, em São Paulo, diz que assim que ocorreu a suspensão das aulas o colégio teve uma atitude prudente e cautelosa em procurar uma plataforma digital que seria ideal para todos. A instituição resolveu utilizar o aplicativo Microsoft Teams e a partir da decisão começaram a dar treinamento aos professores para aprenderem a usar, “O colégio já tem uma boa experiência com essa parte de tecnologia e dentro do nosso corpo de colaboradores temos os mentores [professores que trabalham diretamente com projetos ligados a tecnologia] e eles estão sempre nos ajudando, passando dicas e tirando dúvidas” comenta, com a presença dos mentores esse processo acabou sendo mais fácil e a professora afirma estar tendo uma experiência positiva. Os alunos ficaram sabendo do novo modelo de ensino por meio do site da escola e estão tendo aulas ao vivo durante o mesmo período que teriam no presencial. Simone relata “Percebo de uma maneira geral que todos têm acesso a internet e tem dispositivos para usar, por conta disso as aulas estão indo bem, em um dos dias conseguimos até fazer um debate durante a aula de história e funcionou”. As atividades estão sendo produtivas e ela comenta que uma das reclamações feitas pelos alunos é em relação a sobrecarga na internet, por conta de terem outros familiares também utilizando no momento.

 

Relatos dos estudantes

 

Ao entrevistar alguns estudantes de instituições distintas pode-se perceber que as experiências não estão sendo positivas, mas sim preocupantes.

O estudante de escola pública Lucas Barreto, de 15 anos, conta como foram os primeiros contatos com o ensino remoto e como sua escola tem procedido “No começo, estava sem computador e deixei de entregar algumas atividades por estar sem acesso” e completa “Cheguei a ficar com notas baixas”. Lucas, como muitos outros, é vítima dessa falta de suporte por parte das escolas “Não estão dando apoio para quem está sem acesso aos computadores, só estão dando um tempo maior para entregar as tarefas”. “Nas aulas presenciais dava para absorver melhor porque eu prestava mais atenção. Aqui [em casa] eu tenho que ficar procurando as atividades [nas plataformas]. Às vezes fico sem foco”. Ele também declara ter receio de como vai ficar sua educação “O ensino remoto não tem tanta qualidade quanto o presencial”.

“Tenho sete matérias, e só uma delas está tendo vídeo aula mesmo, então a professora passa [a vídeo aula] e eu assisto a hora que quiser. O resto dos professores está passando capítulos para lermos” conta a estudante de Estatística, Mariana Bastos de 18 anos. A aluna revela que pensou em trancar o curso quando começou a quarentena e chegou a abandonar duas aulas “São matérias muito importantes pro meu curso, que são Probabilidade 2 e Inferência. Eu optei em trancar porque teria consequências na minha carreira [caso fizesse online], então prefiro estudá-la mais pra frente, no presencial”. Mariana diz que sua experiência tem sido negativa por conta de não conseguir se concentrar no estudo e fala sobre como fazia antes da pandemia “Gostava muito de estudar com os meus amigos, a gente se juntava e tirava dúvida um com o outro, fazíamos uma rodinha de estudo”. Mas destaca como uma consequência positiva, a rotina criada por parte dos educandos.

A estudante do terceiro ano do Ensino Médio, Maria Luísa Montebelo de 16 anos, declara preocupação com a qualidade de seu ensino “Tenho muito esse medo de chegar no final do ano e sentir que não adiantou de nada”. “Acho um absurdo não mudarem a data do ENEM porque muitas pessoas dependem só dessa prova pra entrar em faculdades públicas. Em São Paulo ainda temos um leque de outras universidades públicas, mas essa não é a realidade de todos os estados, então pensando num viés mais social, uma coisa mais justa, seria importante reavaliarem a data para não prejudicar as pessoas” conta a aluna sobre a decisão do MEC de não adiar a prova. “A questão da saúde mental pega bastante, principalmente agora no terceiro ano, que já é meio pesado, com tudo isso que está acontecendo”. Maria Luísa relata que de início foi mais complicado lidar com as aulas online, mas que agora os educandos estão se adaptando melhor e que a escola tem se preocupado e está os ouvindo para fazer melhorias nesse ensino.

Ainda que o cursinho pré-vestibular não seja uma obrigação para os estudantes, é importante considerá-lo, pois muitos desses alunos também estão tendo dificuldades no momento do estudo. Felipe Holler, 18 anos, relata que começou o ano com a expectativa de aproveitar todas suas aulas, estudar muito e conseguir passar em uma faculdade, prestando engenharia de produção. Porém a situação atual está deixando-o preocupado, apesar de seu cursinho dar um bom suporte e disponibilizar muitas aulas online ele comenta “Eu gosto bastante dos vídeos, mas está sendo uma experiência ruim, pois não consigo assistir o mesmo número de aulas que assistiria presencialmente. E isso vai me afetar bastante na hora de fazer o vestibular”, ele relata que em casa é difícil manter a mesma concentração e que tenta se distrair fazendo outras coisas também para não prejudicar sua saúde mental.

 

Saúde mental

 

 Com a chegada da pandemia e com as aulas online, surgiram também questões em relação a saúde mental dos estudantes em um momento tão sério e complicado como esse. Sabemos que escolas e faculdades já sobrecarregam os alunos de atividades com as aulas regulares, agora, em que todos, ou grande parte da população, está em casa, professores entendem que o tempo se multiplica e acabam passando ainda mais atividades.

Em entrevista com a psicóloga Valéria Zold, ela afirma “Os estudantes estão sofrendo não só com a forma de ensino, mas com a mudança que toda essa situação acarretou, e a forma de aprendizado é mais um fator, porque tem uma sobrecarga que não aconteceria em uma situação rotineira”, a profissional ainda afirma que as aulas online prejudicam a qualidade do ensino na questão de que o professor não consegue perceber se o aluno está acompanhando, se ele [professor] está sendo claro o suficiente ou se é necessário fazer alguma adaptação e se atentar aos alunos que apresentam mais dificuldades, pois está conversando com uma tela e não existe o olho no olho que permite essas percepções.

A psicóloga faz ainda uma observação “Não poder sair de casa é um fator que gera estresse, e ultimamente percebo que tudo fica ligado aos estudos e a cabeça não consegue relaxar”. E sugere algumas saídas para que os estudantes consigam se organizar melhor e para não os afetar tanto mentalmente “É necessário estabelecer uma rotina e colocar nela algumas atividades que esteja ligada a um hobby”.

 

O pós pandemia

Todas as alterações nas formas de trabalho e estudo, que foram necessárias para que a população pudesse continuar a vida normalmente dentro do possível durante a pandemia do Covid-19, geraram também uma série de dúvidas sobre o futuro. Alguns dizem que as relações de trabalho serão as mais afetadas, mas ocorre também um questionamento sobre a área do ensino.

O projeto de transformar cursos presenciais em EAD acontece há alguns anos e com a chegada do vírus e a impossibilidade de aulas presenciais, a tendência é que esse processo que já estava em andamento se intensifique. Para os professores e estudantes existem muito mais fatores negativos do que positivos, e podemos citar entre eles, o aumento no número de desemprego no país, a queda da qualidade do ensino, a perda de um local adequado para os estudos, o estabelecimento de relações líquidas, entre outros. Transformar os cursos presenciais em EAD seria transformar também a educação em um negócio, visando apenas os lucros e descartando a importância do ensino.

Alguns questionamentos surgem nesse momento: como será o ensino quando a pandemia acabar? Será que acontecerão muitas mudanças definitivas?

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