Enquanto atletas profissionais recorrem a novos procedimentos, pacientes comuns enfrentam incertezas sobre quando e como poderão se recuperar
por
Caio Moreira
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21/09/2026 - 12h

Por Caio Moreira

 

No futebol de alto rendimento, cada dia longe dos gramados pode representar um prejuízo para a carreira de um atleta. Em fevereiro de 2026, o volante Alexsander, do Atlético-MG, foi submetido a um tratamento que utiliza células-tronco do próprio corpo após sofrer uma ruptura total do ligamento colateral medial do joelho esquerdo. O procedimento tinha como objetivo estimular a cicatrização e acelerar o reparo do tecido lesionado. E em abril, já estava atuando em uma partida válida pela CONMEBOL Sudamericana.

Outro caso é o do atacante Ferreira, do Grêmio. Em abril de 2022, o jogador realizou um tratamento com células-tronco retiradas da própria medula óssea e aplicadas na região do músculo adutor da coxa direita, onde sentia dores. O procedimento tinha como objetivo estimular a cicatrização e acelerar a recuperação. O tratamento foi realizado fora das dependências do clube e financiado pelo empresário do atleta, evidenciando como jogadores profissionais podem recorrer a estruturas médicas particulares. Esses casos mostram como a medicina regenerativa ganhou fama no esporte, especialmente na busca por alternativas para acelerar a recuperação de lesões. Mas, enquanto atletas de alto rendimento podem ser acompanhados por estruturas médicas especializadas, pessoas comuns também enfrentam lesões que transformam suas rotinas, muitas vezes sem acesso às mesmas possibilidades de tratamento. 

Foi o que aconteceu com Fábio Mantovani, arquiteto de 38 anos. Fábio se arriscava em partidas de futsal com amigos, a habilidade poderia não ser a de um atleta profissional,  mas a paixão pelo esporte era idêntica à do ídolo do seu time, Rogério Ceni. Um certo dia no ano de 2017, em uma de suas peladas semanais, ele machucou o joelho direito no meio da partida. Uma ruptura parcial do ligamento cruzado anterior, o assombrou por anos e afastou Fábio do esporte que amava acompanhar e praticar. Segundo ele, o tratamento recomendado na época foi via fisioterapia sem necessidade de cirurgia, porém as longas sessões do tratamento o distanciaram e tiraram dele a confiança de retornar às quadras. 8 anos depois da frustração o arquiteto se sentiu confiante para retornar à sua atividade, o joelho que parecia frágil e instável, retornou a ser o que era antes do ocorrido. Despreocupado e seguro que o joelho não o deixaria na mão, o pior aconteceu. Em agosto de 2026, aquela que antes era uma ruptura parcial, se agravou para um rompimento total do LCA, roubando todo seu otimismo no desempenho recuperado nos anos anteriores.

 

A ruptura do LCA não é um problema exclusivo do esporte profissional. Entre 2008 e 2014, mais de 48 mil reconstruções do ligamento foram realizadas pelo SUS. Foto: WIKIMEDIA

 

Sua recuperação agora será mais intensa dessa vez, o tratamento necessitará de uma cirurgia, mas não só isso, as sessões de fisioterapia vão voltar a assombrar o torcedor tricolor, antes e depois do procedimento. Por enquanto, o arquiteto não sente limitações na sua vida cotidiana e citou que sua única restrição foi pendurar as chuteiras por um momento. Ao ser questionado sobre a recuperação regenerativa via células tronco, ele citou que nunca ouviu falar e acrescentou, “Não foi me dado como alternativa”. 

A história de Alice Cirina, também revela outra dimensão desse debate. Vinda do interior da Bahia, no município de Brotas de Macaúba para São Paulo, dona Alice migrou para a capital paulista a fim de conseguir novas oportunidades de trabalho. Na Selva de Pedra, ela trabalhou como manicure e empregada doméstica por quase toda sua vida até a aposentadoria. Devido a longos períodos expostos a esforços físicos e posições nada recomendáveis nos seus ofícios, ela desenvolveu lesões na região lombar da coluna. Sentada num banco de madeira, dona Alice segue atendendo suas clientes, aos 78 anos de idade. A clientela, ela conheceu no condomínio onde mora e segue seu ofício com maestria.  Seu caso já foi investigado por vários médicos do SUS, porém as dores nunca sumiram, até técnicas de acupuntura foram usadas, mas nada acabou com seu problema. 

 

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, analisados em estudo com 88.531 adultos brasileiros, apontam que 21,6% da população adulta sofria de dor crônica na coluna. Foto: WIKIMEDIA

Embora tratamentos com células-tronco já despertam o  interesse no futebol de alto rendimento, seu acesso ainda está concentrado em atletas profissionais, que contam com clubes, departamentos médicos especializados e recursos financeiros para custear procedimentos experimentais ou de uso restrito. Para pessoas como Fábio e a dona Alice, que dependem do sistema público de saúde e convênio médico, a oferta é diferente: terapias regenerativas voltadas a lesões ortopédicas ainda precisam comprovar segurança e eficácia em estudos clínicos e obter autorização da Anvisa. Caso os resultados demonstrarem benefício, o tratamento deverá passar pela avaliação da Conitec, que analisará evidências científicas, custos, impacto orçamentário e viabilidade de implementação antes de recomendar sua incorporação ao SUS. Só depois da decisão do Ministério da Saúde e da organização da estrutura necessária seria possível ampliar o acesso à população.

 

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Após uma década de “Body Positivity”, os tapetes vermelhos estão sendo ocupados com o mesmo padrão de beleza que juravam ter deixado de lado
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Sofia Morelli Cordeiro
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09/06/2026 - 12h

Desde 2010, a promessa de inclusão se acendeu na indústria da moda, o culto pelos corpos magros ao extremo, muitas vezes chegando a níveis doentios, como o “heroin chic”,  parecia estar enterrado. O Plus-Size ganhou a atenção do público e das marcas e anunciou uma era do que podia constituir como padrão de beleza. Mas agora o mundo deu mais um retrocesso, com o aumento na procura por remédios emagrecimento, como Ozempic e Mounjaro e manequins estreitados novamente. Em entrevista à AGEMT, Mariana (nome fictício), estudante na PUC-SP, conversa sobre o uso há 1 mês de uma caneta emagrecedora, com acompanhamento de sua endocrinologista. “Acho que a gente acaba sempre em um lugar de insatisfação, com o corpo, a aparência. Esses remédios apareceram como um atalho para uma autoestima melhor, uma aceitação interna. Desde que eu comecei a tomar, eu perdi 8 kg em quatro semanas, e eu estou bem, saudável e mais feliz por estar perto da minha meta, sabe?”.

Os medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida, Ozempic e Mounjaro, originalmente  foram desenvolvidos para tratar diabetes tipo 2, mas ao serem injetados, simulam hormônios intestinais que aumentam a saciedade e reduzem a fome, por isso acabaram nas mãos do público como uma forma eficiente e rápida para se alcançar a silhueta que a moda voltou a celebrar. Celebridades e influenciadores passaram a atribuir publicamente suas perdas de peso com a menção dessas “canetas” e o uso cosmético desses remédios ganhou um caráter quase banal.

O papel das passarelas nesse ciclo não pode ser subestimado, pois quando a moda celebra um tipo de corpo, ela dá impulso à um efeito cascata que atravessa campanhas publicitárias, redes sociais, conteúdos de beleza e atinge os espelhos de mulheres reais, que olham para esses medicamentos como seres milagrosos por darem a oportunidade de alcançarem o corpo ideal, o mesmo que desfila por suas telas. Foi na década de 1990 que surgiu o termo “Heroin Chic” para definir uma estética que crescia, corpos esquálidos, rostos ocos, olheiras profundas, ossos protuberantes, e dominava as passarelas e as revistas, com a “angel” (apelido das modelos da Victoria's Secret), tendo Kate Moss como pioneira.

O nome já dizia tudo: glamourização de uma aparência associada ao consumo de drogas e à autodestruição. Com o tempo, essa estética foi parcialmente despopularizada, ao menos no discurso público que queria aparentar dar atenção a formas saudáveis de emagrecer, com esporte e alimentação balanceada. Mas ela nunca sumiu de verdade. O desfile da Victoria's Secret era um símbolo central da ideia do “corpo perfeito” no início do século, que por anos teve um grande peso na imaginação da população sobre qual deveria ser a meta feminina. Quando as pessoas pediram uma extensão na visão de quem podia ser uma modelo, atravessando as ideias de curvas, idade e etnia, a marca sofreu.

Esse novo divisor de águas no meado de 2010, afetou audiências e eventualmente, por esses e outros problemas administrativos, o famoso desfile perdeu sua relevância a ponto de ser fechado. Mas em outubro de 2024, o desfile voltou, após seis anos de inatividade, com uma palavra-chave no press-release, “Body Positivity", e no ano seguinte, as propagandas continuavam com a mesma linha. Mas em 2025, assim como em 2024, havia cerca de sete modelos curvilíneas entre 52 modelos no total, com os tamanhos “ plus-size”, para as cabeças por trás desta marca, incluíndo 42-44 BR, que são menores do que o tamanho médio utilizado pelas norte-americanas, entre 16-18 US/50 - 52 BR, de acordo com Debora A.Christel e Susan C. Dunn em seu estudo de 2017, “International Journal of Fashion Design, Technology and Education”. Uma discrepância é revelada quando se compara esses números com o esperado para essas Angels, que devem permanecer entre os tamanhos 0-2 US, ou o 34 BR.

As peças de roupa são uma materialização do retorno da glorificação da magreza. Havia um roteiro bonito sendo construído, a abertura das portas da indústria da moda para todos que quiserem entrar, que acabaria com a ideia persistente de gordura como o maior mal contra as mulheres, mas com esse retorno, fica a dúvida se esse processo era visto, pelas grandes corporações, como uma transformação permanente nesse meio. Era um mundo que parecia à beira da morte para muitos, mas que se mantinha vivo no imaginário de muitas meninas que cresceram com esse padrão em suas telas, sendo alimentadas pelos detalhes que remetiam a essa ideia. “Eu sempre tive uma percepção meio distorcida do que é magreza, mas mais por conta dos filmes e séries que eu assistia quando pequena. Eu lembro da Britney Spears sendo considerada gorda numa apresentação, no começo dos anos 2000, saiu em tudo quanto é lugar a gordurinha que apareceu no jeans dele, era algo que deveria ser normal, mas  entrou nas cabeças das garotinhas assim”, conta Mariana.

O mundo das passarelas e tapetes vermelhos estarem fechando seus olhos e valorizando novamente essa ideia de magreza extrema, pode ser o combustível para o aumento de comportamentos, em relação a saúde, devastadores, como distúrbios alimentares, distorção imagética e oscilações de humor, além de reforçar uma abordagem de olhar para os corpos para uma nova geração de garotas mais jovens e suscetíveis a essas manipulações. 

Imagem de capa: Fonte: https://drconsulta.com/conteudo/mounjaro/ Imagem ilustrativa das canetas "emagrecedoras"

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Especialistas alertam que os prejuízos, que vão muito além das perdas financeiras, podem comprometer relações familiares
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Renata Bittar
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08/06/2026 - 12h

As apostas online se tornaram parte da rotina de milhões de brasileiros, mas o crescimento acelerado das chamadas bets também tem levantado preocupações sobre seus impactos financeiros e psicológicos. Dados do Ministério da Saúde apontam aumento na procura por atendimento relacionado à dependência em jogos, enquanto especialistas alertam para os riscos da compulsão, do endividamento e da falsa percepção de ganhos fáceis. Em entrevista à AGEMT, o psicólogo Renan Afonso e a advogada e presidente da ANVINT, Tanila Savoy, explicam como funciona o mecanismo que pode levar ao vício em apostas, quais são os direitos dos consumidores e os limites da responsabilidade de empresas, influenciadores e plataformas digitais. Confira o podcast clicando aqui! Em caso de emergência, disque 188 para falar com o Centro de Valorização à Vida (CVV). 

 

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Navio de expedição saiu no início de abril do Ushuaia, na Argentina, com destino a Cabo Verde
por
Juliana Bertini de Paula
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26/05/2026 - 12h

Um surto causado por uma cepa rara do hantavírus, Andes, transmitida entre humanos, atingiu um navio de cruzeiro que partiu no dia primeiro de abril de Ushuaia, na Argentina. Atualmente, já são três as mortes registradas, sete casos confirmados e dois casos suspeitos entre os 149 passageiros. O destino final seria Cabo Verde, mas por conta do risco sanitário e a falta de estrutura, o navio seguiu para as Ilhas Canárias em Tenerife, após ficar três dias à deriva. 

Início do surto

Cinco dias após o embarque, um passageiro holandês apresentou os primeiros sintomas da hantavirose. Seis dias depois, em 11 de abril, ele faleceu a bordo. Devido às condições do cruzeiro, seu corpo só pôde ser retirado 13 dias depois, quando o navio atracou na remota ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul. 

Durante esse período, a esposa do passageiro também apresentou sintomas compatíveis com a doença e dois dias após o desembarque, a holandesa também faleceu, já na África do Sul.

Especialistas indicam que o "paciente zero" provavelmente contraiu o vírus ainda em solo argentino. O Prof. Marcos Vinicius da Silva, médico coordenador do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e consultor do Ministério da Saúde, explicou à AGEMT a dinâmica do evento: "A provável causa do surto foi algum dos passageiros durante um passeio, em terra, foi infectado com o Hantavírus Andes, transmitido por algum roedor silvestre e tenha levado e disseminado o vírus para os outros passageiros e tripulantes".

O que transforma o caso do navio em uma emergência de saúde pública global é a biologia da variante Andes. Embora a grande maioria das cepas de hantavírus demande a inalação de partículas de fezes ou urina de roedores contaminados, o vírus Andes possui a rara capacidade de ser transmitido com o contato próximo e prolongado de pessoa para pessoa. Ou seja, o ambiente fechado do cruzeiro funcionou como um acelerador para a propagação da doença. 

Cruzeiro de luxo MV Hondius em expedição polar. Foto: Divulgação/Oceanwide expeditions
Cruzeiro de luxo MV Hondius em expedição polar. Foto: Divulgação/Oceanwide expeditions

 

Evacuação e repatriação

Atracado em Tenerife, o MV Hondius concluiu a evacuação de passageiros e tripulantes. O último grupo, formado por seis passageiros e parte da tripulação, desembarcou no dia 11 de maio antes de seguirem para a Holanda, em voos organizados pelas autoridades holandesas. Após a operação, o navio deixou as Ilhas Canárias rumo aos Países Baixos, levando apenas uma equipe reduzida, além de profissionais de saúde, para passar por um processo de descontaminação e limpeza completa. 

Os viajantes já repatriados seguem em processo de quarentena em seus respectivos países. O protocolo está baseado no longo período em que o vírus pode permanecer "silencioso" no organismo. "As medidas de isolamento dos passageiros e tripulantes já foram tomadas, aguarda-se o período máximo de incubação da doença, que é de seis semanas, com observação médica e sanitária contínua dessas pessoas", esclarece o especialista.

 

A doença

A letalidade da infecção explica as decisões extremas de navegação. Originalmente com destino a Cabo Verde, o desembarque foi negado pelo país africano por conta da falta de infraestrutura local para o suporte médico de alta complexidade, exigido para conter a doença. Isso deixou a embarcação à deriva no oceano Atlântico até que a rota para a Espanha fosse aprovada.

A evolução dessa síndrome é frequentemente fulminante, exigindo intervenção imediata e equipamentos de biossegurança de nível máximo. "O quadro clínico se torna grave logo no início da doença e requer tratamento em unidade de terapia intensiva e com medidas de barreira para isolamento, diminuindo o risco de transmissão para os profissionais de saúde que atendem o paciente", explica ainda o Dr. Marcos Vinícius.

O alerta para a gravidade da hantavirose se dá, em grande parte, pela forma como os primeiros sinais aparecem, muitas vezes confundidos com outras infecções menos severas, antes de evoluírem rapidamente para uma emergência médica. Nos estágios iniciais, os infectados pela cepa Andes costumam apresentar sintomas semelhantes aos de uma forte gripe, como febre, calafrios, dores musculares intensas especialmente na região lombar, ombros e coxas), além de fadiga profunda, dores de cabeça, náuseas e vômitos. 

Imagem microscópica do vírus da hantavirose. Foto: Divulgação/CDC
Imagem microscópica do vírus da hantavirose. Foto: Divulgação/CDC

O cenário da doença, contudo, deteriora-se de forma abrupta na transição para a fase cardiopulmonar. Em questão de poucos dias ou até horas, o paciente passa a sofrer com tosse, falta de ar severa e acúmulo rápido de líquido nos pulmões (edema pulmonar). O quadro culmina em insuficiência respiratória e colapso do sistema cardiovascular. É essa progressão fulminante que justifica a necessidade crítica de leitos de UTI com suporte de vida avançado - o que motivou a busca desesperada do cruzeiro por um porto estruturado. 

 

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Demora no atendimento transforma a espera por saúde em sofrimento diário para milhões de brasileiros.
por
Alice Begnini
Lawanny Nasc
Rafaella Lalo
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21/05/2026 - 12h

O Brasil possui um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diversos serviços gratuitos à população. Criado para garantir acesso universal à saúde, o sistema atende cerca de 76% dos brasileiros exclusivamente pela rede pública. Porém, as queixas sobre o longo tempo de espera aumentam diariamente, causando indignação em quem depende do atendimento.

Apesar dos avanços anunciados pelo governo federal, a realidade ainda é marcada pela demora. Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre 2022 e 2024, o número de cirurgias eletivas realizadas pelo SUS aumentou 32%, chegando a 13,6 milhões em 2024, o maior número da história do sistema. O governo também ampliou o Programa Nacional de Redução das Filas, que recebeu R$ 1,2 bilhão em investimentos no último ano.

Além disso, programas como o “Mais Acesso a Especialistas” foram criados para diminuir o tempo de espera em áreas críticas, como cardiologia, oncologia e ortopedia. O SUS também é responsável por cerca de 85% dos transplantes realizados no Brasil e possui um dos maiores programas públicos de vacinação do mundo.

Em entrevista, o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto destaca que, apesar das dificuldades atuais, o SUS foi fundamental para melhorar as condições de vida da população brasileira nas últimas décadas. Segundo ele, avanços como o acesso à água tratada e melhorias na saúde do trabalhador contribuíram para o aumento da expectativa de vida no país.

Mas os números não conseguem medir o peso da espera.

“Não existe atendimento imediato em nenhum sistema de saúde do mundo”, ressalta Vecina. Para ele, o principal problema não está apenas na existência das filas, mas na maneira como elas são administradas. O médico critica a falta de integração entre estados e municípios e afirma que a má gestão das filas acaba aumentando ainda mais a demora no atendimento. “Nós não temos tido uma resposta mais efetiva do Estado”, disse.

Gonzalo também aponta falhas na integração entre municípios e estados. “As filas são muito mal administradas”, declarou. Segundo ele, pacientes entram em diferentes sistemas de regulação ao mesmo tempo e muitas vezes não cancelam consultas já marcadas, causando desperdício de vagas e aumento da demora.

Mas os dados ainda não mostram madrugadas em corredores de hospital, famílias implorando por exames ou pacientes vendo sintomas simples se transformarem em doenças graves. Também não mostram histórias como a de José Francisco da Silva.

Morador de Embu das Artes, na Grande São Paulo, José Francisco, de 62 anos, aposentado por invalidez e sem instrução, sofria de reumatismo reumatoide quando começou a passar mal e foi levado a uma unidade de saúde com pneumonia. Após ficar internado por apenas 24 horas, recebeu alta. No dia seguinte, piorou. A partir dali, começou uma rotina marcada por tentativas desesperadas de conseguir atendimento.

O quadro de pneumonia piorou com uma infecção urinária e depois evoluiu para sepse, uma infecção generalizada. Segundo a filha, Cleonice Reis, a família precisava insistir constantemente para que o estado de saúde do pai fosse atualizado na Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde (CROSS), sistema responsável pela transferência de pacientes entre hospitais do estado. “A gente entrou em guerra para tentar salvar meu pai”, relata.

Após dias de espera, José conseguiu uma vaga no Hospital Geral de Guarulhos. Para chegar até lá, a família precisou recorrer a conhecidos e políticos para conseguir uma ambulância, já que o transporte não havia sido disponibilizado pelo SUS.

No novo hospital, o quadro clínico foi estabilizado. “Hospital maravilhoso, não tenho o que falar”, afirmou Reis. Ainda assim, a família enfrentou novas dificuldades para conseguir transporte com oxigênio e exames básicos. Segundo ela, o aparelho de tomografia da unidade onde o pai estava internado permanecia quebrado havia anos.

Poucos dias depois de voltar para casa, José passou mal novamente. Esposo, pai de duas filhas e avô de seis netos morreu no pronto socorro. “Nós familiares nos sentimos indignados. A gente paga nossos impostos e, quando precisa, fica à mercê”, disse.

Enquanto famílias enfrentam longos períodos de espera, profissionais da saúde também convivem com os impactos da superlotação. Aparecida do Amparo, enfermeira da Unidade de Pronto Atendimento do bairro Cohab II, em Carapicuíba, na região metropolitana de São Paulo, afirma que muitos pacientes chegam às UBSs com sintomas leves, mas acabam piorando devido à demora para conseguir especialistas. “Já tive contato com pacientes que, devido à demora, acabaram tendo a doença agravada, sem condições mais de fazer o tratamento”, explicou.

Ao analisar o impacto dessa realidade, Gonzalo Vecina afirma que a demora no SUS também revela desigualdades profundas do país. “A desigualdade é a grande doença da sociedade brasileira”, declarou. Para o médico, a saúde não pode ser analisada separadamente das condições de moradia, alimentação, trabalho e acesso básico à dignidade.

Mesmo diante das dificuldades, Aparecida afirma continuar acreditando no sistema público de saúde. “O que motiva a gente é saber que pode aliviar o sofrimento dos pacientes.”

Manifestação sobre saúde pública
Manifestação sobre a falta de gestão na saúde pública. Foto: Pexels.com

 

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Primeiro de São Paulo e da América Latina, o Centro para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) foi aberto ao público no dia 02 de abril
por
Cecília Schwengber Leite
Laura Petroucic
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04/04/2025 - 12h

Na última quarta-feira, 02 de abril, foi inaugurado o primeiro Centro Municipal para Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (Centro TEA) da América Latina, nomeado em homenagem à ativista da causa, Dra. Marina Magro Beringhs Martinez. Localizado na zona norte da cidade de São Paulo, o Centro conta com uma equipe multidisciplinar composta por profissionais das áreas de psicologia, assistência social, fonoaudiologia, terapia ocupacional, nutrição, educação física, psicopedagogia e administração.

Fachada do Centro TEA.
Fachada do Centro TEA. Foto: site/canalautismo.com.br

O Centro é público e atenderá gratuitamente pessoas com TEA de todas as idades. De acordo com o Ministério da Saúde, há mais de 300 mil diagnosticados só no Estado de São Paulo. Estes cidadãos enfrentam não apenas o estigma e preconceito social, mas também o alto custo dos tratamentos e a falta de informação. Em entrevista à AGEMT, Renata Delluzzo, coordenadora de projetos e políticas de inclusão, defende que o Centro TEA “é inovador por não se tratar de uma clínica-escola, mas sim de um espaço de socialização que busca promover o acolhimento de pessoas com autismo e seus familiares, além de atender ao público profissional”. E acrescenta: "é a primeira vez que munícipes da cidade de São Paulo são contemplados dessa forma".

Muitas famílias não sabem quais terapias e atividades são necessárias para estimular o desenvolvimento da pessoa com TEA, e mesmo as que sabem muitas vezes sofrem com a falta de acessibilidade a tais serviços. Um dos objetivos do Centro é justamente criar uma comunidade para as famílias que não têm uma rede de apoio e/ou condição financeira. Com acesso a tratamento, exercícios e acompanhamento adequados, os indivíduos no espectro autista atendidos terão melhores condições para se desenvolver e incluírem-se na sociedade.

De acordo com informações do site da Prefeitura de São Paulo, “o Centro TEA será um espaço pioneiro dedicado ao desenvolvimento integral de autistas e seus familiares. Fundamentado em cinco eixos estratégicos – Cultura; Esportes; Formação; Trabalho e Empreendedorismo; Bem-Estar e Autonomia –, também promoverá a capacitação de profissionais da rede de atenção”. Para isso, sua estrutura conta com quadra poliesportiva, teatro, piscina, biblioteca, brinquedoteca, jardim sensorial, sala de informática, cozinha comunitária, entre outros ambientes.

Além do atendimento cotidiano, o Centro buscará realizar anualmente a Semana Municipal de Conscientização do Autismo; adquirir equipamentos de saúde e educação para fortalecimento do atendimento da pessoa com TEA na rede municipal; realizar 10.000 atendimentos em mutirões de serviços para pessoas com deficiência, famílias e cuidadores; criar novos indicadores relativos à pessoa com deficiência no Observatório Municipal da Pessoa com Deficiência; entre outras iniciativas.

Para Renata, “a criação do Centro TEA é um grande passo na atenção e no cuidado ao público com autismo”. Ela conta que, para somar ao espaço recém inaugurado, está prevista no Programa de Metas 2025/2028 da Prefeitura de São Paulo a construção de mais três Centros TEA, nas zonas Leste, Oeste e Sul.

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“A mídia poderia fazer vídeos de pessoas com esquizofrenia que venceram na vida”, sugere Elvis, à imprensa
por
Vitória Nunes de Jesus
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27/11/2024 - 12h

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a esquizofrenia é a terceira causa de perda da qualidade de vida entre os 15 e 44 anos. São cerca de 1,6 milhão de brasileiros que, além da doença, sofrem com o estigma, que causa mais sofrimento do que o próprio transtorno.

Ainda conforme a OMS, o estigma é “uma marca de vergonha, desgraça ou reprovação que leva um indivíduo a ser rejeitado, discriminado e excluído de participar em diferentes esferas da sociedade”.

Um estudo publicado pela World Psychiatry revelou que nove em cada dez pessoas com esquizofrenia enfrentam estigma e discriminação, incluindo em ambientes de trabalho, serviços de saúde e relações sociais.

Para esclarecer melhor sobre esse transtorno que ainda é um tabu na sociedade, o médico psiquiatra Cristiano Noto explica melhor sobre a psicose, os sintomas da esquizofrenia e o estigma. “A psicose é um sintoma. A psicose é uma ruptura com a realidade. Normalmente se fala em delírio e alucinação, sendo que delírio são crenças dos pacientes que muitas vezes estão destorcidas da realidade. Na esquizofrenia, o mais comum é a alucinação auditiva, então normalmente a pessoa escuta vozes que xingam, que mandam ela fazer coisas, que têm um conteúdo mais depreciativo”.  

Cristiano explica que os sintomas acima são os chamados “sintomas positivos”. Ele conta que, além destes, existem outros. “Também é muito comum a desorganização do pensamento e no comportamento. Existem os sintomas negativos que são bastante frequentes, que são retração, então a pessoa se isola, tem menos prazer nas atividades, vai ficando mais apática, traz bastante sofrimento para o paciente e para a família”.  

O doutor diz que a esquizofrenia tem uma causa genética de 70 a 80% e que existem fatores ambientais que estimulam estes genes. “Entre esses fatores, vários podem ser citados, mas geralmente são relacionados com estresse, por exemplo: problemas no parto, maus tratos na infância, violência, abuso, uso de droga, principalmente maconha”. 

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o estigma é uma das principais barreiras para o tratamento de pessoas com esquizofrenia.

Para os jornalistas, o tema não é abordado por não conhecerem o transtorno mental, preconceito, focar em outros transtornos como ansiedade e depressão e receio de a reportagem não ser bem vista por conta do tabu existente.

A jornalista Thaís Itaqui conta a sua experiência com pautas de saúde mental. “Falar de esquizofrenia para mim virou algo mais rotineiro porque eu tenho uma pessoa na minha família que convive com essa doença, que é meu irmão, o Thiago. Eu fiquei trabalhando na TV Globo por quase vinte anos, quando comecei a vender pautas de saúde mental, percebia que estas pautas eram mais facilmente veiculadas quando tinha uma data especial. Ou falava-se de depressão, ansiedade, dificilmente outros transtornos eram abordados. Quando eu me tornei jornalista e comecei a fazer um trabalho dentro da TV e quis começar a vender essa pauta justamente por conhecer e trazendo a importância de se falar disso, eu comecei a perceber a dificuldade que era de perceberem que essa pauta era importante, então normalmente eles falavam que eu trazia a pauta devido ao meu irmão, mas que não era algo comum de se abordar. Então começa a perceber que o tema é um tabu em vários lugares. A pessoa acaba sendo excluída e a família também, pois a pessoa tem dificuldades e a família pega essas dores”. 

Thaís diz acreditar ter recebido retornos positivos em sua profissão. “No começo quando se levanta uma pauta tão difícil como essa e consegue colocá-la na mídia, a gente está conseguindo abrir uma porta, então no momento que milhares de pessoas assistiram minhas matérias, eu acredito ter alcançado pessoas que vivem com o problema, familiares e profissionais que cuidam desses pacientes. Eu também percebi uma coisa muito legal com os meus colegas de trabalho, porque como eles sabiam da minha experiência com meu irmão, eles começaram a conhecer mais a doença por minha causa”.

Dados do Schizophrenia Research Journal indicam que as representações na imprensa representam frequentemente a esquizofrenia ao comportamento violento.

Para completar os depoimentos, não poderia faltar o de uma pessoa com esquizofrenia. Elvis Presley Guarany de Melo conta como foi o momento em que foi diagnosticado. “Fui diagnosticado quando eu era criança. Aprendi a falar com 9 anos, mas minha mãe nunca entendia o meu problema, aí ela começou a perceber as minhas dificuldades na escola, porque eu não me enturmava com os alunos, mas ela não queria aceitar e ela viu que repeti a 1ª série três vezes aí ela percebeu que eu tinha um problema e a professora percebia que eu ficava afastado das pessoas, foi aí que surgiu o início da esquizofrenia. Com o tempo, eu fui crescendo, foi piorando o diagnóstico e eu comecei a passar no psiquiatra a partir dos dezoito anos”.  

O ambiente em que a pessoa é criada interfere no desenvolvimento da esquizofrenia. Elvis conta como foi sua infância na casa onde foi criado. “Eu tenho um irmão gêmeo que também tem esquizofrenia, mas eu tenho um grau mais elevado. Meus pais se separaram porque meu pai traiu minha mãe, que teve que cuidar de 4 filhos, então minha mãe não pode dar luxo para os filhos. O governo se negava a dar assistência social e tratamento de fonoaudiólogo. Os sintomas foram piorando porque quem não tem recursos não se trata, e o governo ignora. Eu passo no CAPS 3, que é onde se trata pessoas com esquizofrenia e não tem psiquiatra, você pega o remédio há cada 3 meses e não tem médico e quando você vai questionar, eles aumentam a dosagem do seu remédio porque não gostam que as pessoas falem a verdade. Mas o CAPS está sendo insuficiente porque nós não temos todos os tratamentos e psiquiatras quando precisamos”.  

De acordo com a OMS, menos de 15% das pessoas diagnosticadas com esquizofrenia têm empregos formais, comparado a 65% da população geral. Elvis relata sua grande dificuldade de permanecer em um trabalho. “Eu já trabalhei em 42 empresas e em todas fui mandado embora porque as empresas não são adequadas para pessoas com esquizofrenia. Eu nunca agredi alguém, eu vejo coisas, ouço vozes e isso faz parte de mim. Eu estou cansado de me esconder e é por isso que eu quero que as pessoas saibam da minha história que é real. Eu quero estudar, eu quero trabalhar, eu quero ser útil”.  

Por fim, Elvis conta sobre seu doloroso tratamento e sua luta para ter uma condição de vida melhor.  

Eu já fiz uma terapia chamada terapia do choque, que eles colocam tipo um metal na boca e dão estímulos de carga elétrica na cabeça. A pessoa com esquizofrenia tem a mente acelerada, ela vê coisas e pensa em muitas coisas ao mesmo tempo. Eu já fui amarrado numa maca e não foi fácil porque, se eu tivesse o tratamento e apoio de todos os profissionais de saúde necessários, eu não precisaria ter passado por tratamentos tão severos como os tratamentos de choque que levei muitas vezes.  

— E você teve quantos surtos mais ou menos? Eu vejo pessoas que às vezes me chamam, eu ouço muitas vozes, em lugar muito cheio eu uso abafador auditivo. Eu lutei para ter um cachorro para identificar quem é real e quem não é, mas o governo não me disponibiliza um cachorro treinado, e eu estou nessa luta. No Brasil, nós estamos muito atrasados na luta contra a esquizofrenia.  

Diante destes apontamentos, é claro perceber que a mídia deve abordar mais sobre a esquizofrenia visando mostrar a realidade destas pessoas. Existem pacientes que podem ter apenas um surto durante toda a vida, pode ter uma pessoa com esquizofrenia do seu lado no metrô. Falta informação e acolhimento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Produzir orgânicos é um desafio que envolve altos custos, manejo artesanal e um compromisso com a sustentabilidade.
por
NINA JANUZZI DA GLORIA
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12/11/2024 - 12h

Por Nina J. da Glória

 

No coração de uma pequena fazenda nos arredores de São Paulo, a paisagem exibe fileiras simétricas de verduras, um campo verde que mais parece um quadro pintado com paciência e precisão. Cada folha simboliza uma promessa livre de químicos, cultivada à mão, mas também testemunha de um trabalho árduo, invisível ao consumidor final. Esse é o cotidiano de Mariana Silva, uma agricultora que decidiu, há quase uma década, abandonar a produção convencional para dedicar-se ao orgânico. No início, acreditava que seria um retorno ao básico, uma reconexão com a natureza. Mas a realidade mostrou-se mais densa e complexa do que o imaginado. O solo, como um organismo vivo, exigia constantes cuidados e uma compreensão que ia além dos métodos tradicionais. Cada semente carregava uma incerteza, e cada colheita trazia consigo os riscos de uma produtividade menor, vulnerável a pragas e intempéries. "O solo não aceita pressa", sua frase parece pairar na atmosfera ao redor das hortas, impregnada de paciência e resignação.

Nas redondezas, em outra propriedade de São Roque, Paulo Mendes compartilha a mesma visão, mas com uma trajetória que o levou ao orgânico por caminhos distintos. Ao contrário de Mariana, ele vem de uma família que cultivava com agroquímicos, mas sempre sentiu a necessidade de transformar as práticas de cultivo. Para ele, o orgânico é como um resgate da essência da terra, uma escolha que exige mais do que habilidades tradicionais. É um compromisso com o solo, com o ciclo de nutrientes e com o futuro. Paulo vê o campo como um delicado organismo, onde a compostagem e a rotação de culturas são essenciais, mas também um desafio financeiro. Cada safra se transforma em uma experiência quase artesanal, onde a eficácia do manejo natural precisa competir com a tentação das facilidades químicas. Esse processo, para ele, é como uma dança cuidadosa com a natureza, em que observar e respeitar o ritmo das estações torna-se tão vital quanto qualquer técnica de plantio.

                                                            Comunidade de pessoas que trabalham juntas na agricultura para cultivar alimentos

Para Mariana e Paulo, a colheita orgânica traz consigo um custo invisível ao olhar do consumidor. A vulnerabilidade às pragas, por exemplo, é uma preocupação constante. Sem pesticidas convencionais cada infestação é uma batalha natural que, muitas vezes, se perde. A introdução de insetos benéficos para conter pragas ou o uso de biofertilizantes representa um custo adicional, tornando a logística do manejo um quebra-cabeça financeiro. Além disso, há as certificações rigorosas exigidas para que o produto receba o selo de orgânico, que Mariana descreve como "um segundo trabalho", com visitas e inspeções que, embora necessárias, absorvem ainda mais recursos.

No centro dessa cadeia está Cláudia Ramos, proprietária de uma loja de produtos orgânicos em São Paulo. De seu ponto de vista privilegiado, ela percebe o esforço e as dificuldades de seus fornecedores, mas também o descompasso entre o preço desses produtos e a percepção dos consumidores. Em cada item das prateleiras, Cláudia vê um microcosmo de esforço e idealismo, mas, ao explicar as diferenças entre orgânico e convencional, enfrenta um público que ainda considera o orgânico um luxo. Ela afirma que cada produto é uma história de sacrifício, e explica que o custo mais alto representa a vulnerabilidade da produção orgânica, que exige cuidados permanentes e colheitas menos previsíveis.

                                                                                           Close-up de plantas verdes na estufa

A produção orgânica, então, emerge como uma complexa equação de valores, sacrifícios e riscos. Cada um dos envolvidos—do campo à prateleira—carrega uma parte dessa carga, como se fosse um ciclo contínuo de compromissos, onde o ideal e o real se encontram e se confrontam. A busca pela pureza e pelo cuidado no cultivo se mescla a um cotidiano cheio de dificuldades, e o produto final se transforma numa espécie de narrativa silenciosa sobre perseverança e dedicação ao que se acredita ser o melhor para o futuro do planeta e do ser humano.

Doença que afeta cerca de 8 milhões de brasileiras ainda tem diagnóstico complicado e demorado
por
Giovanna Takamatsu
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12/11/2024 - 12h

Por Giovanna Takamatsu 

Eram 4h00min, talvez 5h00min, de algum dia da semana de 2017. Estava chovendo forte, uma daquelas tempestades com trovoadas, que deixa o céu totalmente escuro e tudo parece noite. Lara foi acordada por uma dor descomunal. Nunca tinha sentido algo assim antes em toda sua vida. Parecia que tinha sido atingida por uma faca ou um machado em sua perna direita. Ou então como se uma mão gigante estivesse apertando cada vez mais forte seus músculos da coxa. Ela não sabia o que fazer, pois não tinha nada aparentemente errado com seu membro; começou então a chorar e soluçar de tanta dor. Isso fez com que seus pais acordassem e checassem o que estava acontecendo. 

Sua mãe, que é farmacêutica, ao entender a situação, logo pensou em remédios disponíveis pela casa para tentar acabar com a dor, mas nenhum chegou nem perto de melhorar o sintoma de Lara – mesmo tomando remédios fortes, como codeína + paracetamol. O último recurso menos ‘drástico’ que sua mãe pensou foi uma massagem. A família tinha um massageador automático que esquentava enquanto agia. E por algum milagre, era exatamente isso que a adolescente precisava. Depois de uma longa hora - que pareceu uma sessão de tortura -, a dor de Lara finalmente diminuiu e ela conseguiu pegar no sono novamente. 

Um mês se passou sem que essa agonia voltasse, e Lara chegou a pensar que foi somente um episódio de dor de crescimento mais intensa– aqueles desconfortos que parecem uma mistura de câimbra e um apertão que acontecem com os pré-adolescentes – já que era muito comum disso acontecer com ela. Mas novamente, Lara acordou com aquele sofrimento, na mesma perna, no mesmo local. Não era possível. Dessa vez ela já sabia o que fazer, como proceder, mas precisa entender a causa dessa dor. 

Claro que a menina foi avisar sua mãe. E como se fosse uma epifania, a mãe percebeu sobre o que se tratava essas dores misteriosas. Ela já havia passado por algo parecido. Notou que ambas as vezes que essa dor na perna aconteceu, Lara estava menstruada. Esse era o ponto em comum entre as aflições. Só podia ser algo relacionado a isso. Fazia total sentido; ela sempre sofreu com sua menstruação: tinha dores e cólicas intensas nas costas, seu fluxo era intenso, já tinha o diagnóstico de Síndrome do Ovário Policístico (SOP) e seu ciclo era extremamente desregulado. 

Talvez seja endometriose, disse a mãe que lembrou ter tido isso quando era mais nova. Endometriose. Lara perguntou o que sua mãe fezpara resolver. Sua mãe foi enfática ao dizer que a gravidez, em sua época, era o tratamento mais comum. Mas Lara ainda era uma adolescente, e nem sabia se queria ter filhos. E o tratamento para a pior dor da vida não poderia ser engravidar.  Ela se sentiu em uma distopia, em ‘O Conto de Aia’. Lara foi procurar sobre essa tal de endometriose e na Internet viu que demora entre 4 a 10 anos para conseguir fechar o diagnóstico. 10 anos!!! E que não há cura, somente manejo dos sintomas. 

            O próximo passo lógico era ir à uma ginecologista. Lara não estava muito animada com isso já que entendeu que talvez demoraria anos e anos para resolver aquela situação. Mas enfim, ela foi. A ginecologista não deu muita atenção à queixa de Lara. Na consulta foram feitos os exames de rotina, e no final foi receitado uma pílula de gestrinona, que deveria bloquear totalmente sua menstruação, assim não teria nenhum sintoma relacionado a ela. Mas ainda sim não recebeu a confirmação de endometriose. 

Após alguns anos de dúvidas em seu diagnóstico, Lara decidiu a passar em outra ginecologista especialista em endometriose. Essa nova médica pediu que ela fizesse um exame de ressonância magnética da pelve, para identificar se havia focos de tecido endometrial fora do útero. Somente após que o exame voltou positivo, foi fechado o diagnóstico, ou seja, após 4 ou 5 anos do primeiro episódio de dor. Hoje, ela maneja seus sintomas com a pílula. Por se tratar de uma doença crônica, sua médica se preocupa com a questão de sua fertilidade, mesmo que Lara seja nova ainda. Demorou alguns anos, mas hoje Lara sabe que possuí uma rede de apoio médico que a auxilia em qualquer momento e respeita suas escolhas.   

Mas se sabe que essa realidade não é de todas as mulheres brasileiras com endometriose. Segundo o Ministério de Saúde, 1 em cada 10 mulheres sofrem com a endometriose. Isso são 8 milhões de brasileiras no total com essa doença. O diagnóstico dessa moléstia não é fácil, devido a inespecificidade dos sintomas, que podem significar muitas doenças ginecológicas. Mas o preconceito por parte de profissionais de saúde, que constroem estigmas cerca às aflições da mulher, afeta muito no tempo do diagnóstico e ressalta como as mulheres ainda não são levadas a sério nos diversos âmbitos sociais

Eliane tem 26 anos e é moradora do Campo Limpo, periferia de São Paulo. Desde adolescente, ela sofre com os sintomas da endometriose, tendo um quadro parecido com o de Lara: dores e cólicas fortes em diversas regiões próximas ao útero, fluxo intenso, ciclo desregulado. A principal diferença entre as mulheres é que, enquanto Lara conseguiu atenção médica e diagnóstico preciso já no início de sua dor, Eliane precisou de quase 10 anos para finalmente fechar seu diagnóstico. 

Isso se deve muito a desvalorização médica em casos de dores e cólicas uterinas. Eliane já escutou de profissionais da saúde em UBSs e UPAs que isso era normal da menstruação – o que não fazia o menor sentido em sua cabeça; não é normal uma dor que parece que suas pernas, seu abdome, suas costas estão sendo esmagadas. Ela se sentia ignorada toda vez que tentava falar sobre o assunto, e, de certa forma, ela desistiu de procurar ajuda para aquelas dores terríveis que tinha todos os meses. 

Aos 22 anos, Eliane conheceu seu atual marido. O casal começou a tentar engravidar, mas isso nunca se concretizou. Após 1 ano de tentativa, Eliane decidiu que iria passar por uma ginecologista para entender o que estava acontecendo. Essa médica não deu muita importância para as queixas de dor intensa, e alegou que era normal. Mas, para desencargo de consciência, a ginecologista pediu que ela realizasse o ultrassom transvaginal com preparo intestinal – prática comum para o diagnóstico de endometriose, uma vez que, com as alças do intestino vazias, a visualização dos focos de tecido é mais fácil – tanto para a endometriose quanto para o problema de fertilidade. 

Finalmente, no retorno da consulta, Eliane recebeu seu diagnóstico: endometriose. Entretanto, pelos anos que ela passou sem tratar essa doença, ela desenvolveu problemas de fertilidade. Hoje, ela realiza tratamentos que auxiliam resgatar sua fertilidade, mas ainda não conseguiu carregar uma gestação a termo. 

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Para além de desafios científicos, programas de planejamento familiar frequentemente ignoram a necessidade de inclusão dos homens nas decisões reprodutivas
por
Laura Mariano
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23/10/2024 - 12h

Desde da década de 1960, esforços têm sido feitos para desenvolver um método contraceptivo masculino que seja reversível e possua uma eficácia comparável, ou até superior, à da pílula anticoncepcional. Contudo, até o presente momento, esse produto não chegou ao mercado. Ainda que a pesquisa sobre contraceptivos masculinos seja conduzida desde a introdução dos métodos contraceptivos femininos à população, os métodos convencionais de contracepção continuam predominantemente focados no controle da fertilidade das mulheres.

As razões abrangem desde os desafios fisiológicos do sistema reprodutivo masculino, uma vez que isso implica na redução das taxas de testosterona, podendo levar a problemas de função erétil e incapacidade de conceber, até a insuficiente dedicação por parte da indústria farmacêutica e aos estigmas associados aos diversos métodos potenciais, sejam eles baseados em hormônios ou de natureza de bloqueio, como exemplificado pelo Risug — Inibição Reversível do Esperma sob Orientação: um conceito que atraiu interesse desde o início de suas pesquisas nos anos 1970.

Dessa ideia, surgiu o Risug que injeta um polímero — popularmente conhecido como gel, chamado SMA (anidrido maleico de estireno) — no canal do deferente que, próximo à bolsa escrotal, inibe a passagem do fluido espermático local. Como alternativa, o procedimento promete, de acordo com estudos em modelos animais, esterilidade em até 10 anos.

O Instituto Indiano de Tecnologia (IIT), que estuda o procedimento com SMA, divulgou que os testes estão em estágio avançado e o Risug estaria disponível para a população. Isto é, caso haja a liberação dos órgãos reguladores de cada país, como a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), no Brasil. A injeção contraceptiva chegaria ao mercado valendo, em média, R$400,00, segundo o IIT.

O médico urologista do Centro de Medicina Sexual do Hospital Sírio Libanês, Celso Gromatsky, explicou que existe a possibilidade de reversibilidade do procedimento através de uma nova injeção no deferente, com uma mistura de bicarbonato de sódio e ácido dinitrosalicílico (DNS), um composto de moléculas redutoras.

“O gel atua na motilidade do esperma. Então, o indivíduo vai ejacular normalmente, só não vai conter espermatozoide. Há uma semelhança com a vasectomia, ou seja, o mecanismo é mais ou menos o mesmo, a diferença é que a reversibilidade do Risug é mais simples”, afirma Gromatsky.

Métodos contraceptivos espalhados com um fundo rosa
Nova método contraceptivo masculino foi eficaz em reduzir a fertilidade em testes do Instituto Indiano - Fonte: Freepik
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Mesmo assim, não parece a solução perfeita. Os espermatozoides ainda conseguem ultrapassar a barreira, e quando entram em contato com SMA, após uma transformação química, acabam sofrendo defeitos morfológicos, fragmentação do DNA e habilidade e fertilização prejudicada. Para além disso, os métodos propostos à população masculina ainda apresentam taxas de insucesso, além dos riscos de reversão, infertilidade e obstruções locais. 

A partir do momento em que os primeiros estudos sobre esse assunto foram divulgados, os pesquisadores enfrentam desafios para introduzir os medicamentos na indústria farmacêutica, dado que a taxa de eficácia se destaca como um fator de risco significativo. Ao analisar os resultados, a pílula anticoncepcional feminina, por exemplo, emerge como um dos métodos mais seguros quando utilizado de forma adequada, demonstrando uma eficácia de 99,9% dos casos.

“É muito caro produzir medicamentos, ainda mais quando falamos de uma situação na qual existem métodos muito mais efetivos. A pílula feminina, por exemplo, tem um perfil de segurança e um custo benefício maior, né? Tem que ser um produto que seja tão eficaz e tão seguro quanto, para ser lançado ao mercado”, afirma Erick José Ramo da Silva, doutor em Farmacologia e professor do Departamento de Biofísica e Farmacologia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp).

A sociedade contemporânea está mais inclinada a deixar a responsabilidade de controle da reprodução para mulheres. Uma possível razão para essa situação é que, em sua grande maioria, a determinação da fertilidade é conduzida pelas mulheres, uma vez que são elas que enfrentam os riscos associados à gravidez e desempenham predominantemente o papel principal na criação dos filhos. Como resultado, a maioria dos métodos contraceptivos é voltada para o público feminino, deixando apenas três opções disponíveis para o público masculino: preservativo, vasectomia e o método de retirada.

“Estamos no século XXI, a vasectomia existe há mais de um século e existem homens que acreditam que o procedimento impactaria no desempenho sexual. Por isso, o advento do anticoncepcional masculino no mercado possibilita compartilhar a responsabilidade da gravidez de forma igualitária entre parceiro e parceira”, pondera Celso Gromatsky. 

No presente, em que se enfatiza tanto a necessidade de os homens assumirem suas responsabilidades reprodutivas, fica mais evidente essa lacuna de conhecimento e cada vez mais evidente a reivindicação da participação masculina no mérito da reprodução, bem como sua percepção acerca dos diferentes papéis de gênero em relação às decisões sobre quando ter relação sexual e uma gravidez.

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