O uso exacerbado de IA em trabalhos acadêmicos apresentam riscos cognitivos se não forem usados com ética
por
Chiara Abreu
|
09/06/2026 - 12h

O avanço das inteligências artificiais (IA) tem provocado transformações profundas no cenário educacional, exigindo novas posturas tanto de instituições de ensino quanto de professores. Com a praticidade das IAs na criação de textos dissertativos, alunos tem enfrentado uma maior dificuldade na geração e organização de ideias. O uso excessivo tem contribuído para a falta de prática em alunos do ensino básico e superior. Da falta de concentração à compreensão de simples textos, a dificuldade dos alunos tem assustado os educadores, que encontram alunos cada vez menos preparados para dissertar sobre assuntos socialmente relevantes. A ferramenta apresenta um déficit cognitivo em usuários compulsivos, em que áreas como memória e pensamento crítico são severamente afetados.

Um estudo do MIT Media Lab, publicado em 2025, indica que o uso de inteligências artificiais pode ser relacionado com uma possível atrofia cognitiva. De acordo com Hugo Dória, Neurocirurgião, MD, PhD da Beneficência Portuguesa de São Paulo em entrevista à CNN, "O problema não é a inteligência artificial em si, mas o fenômeno chamado de cognitive offloading, ou terceirização cognitiva. Quando passamos a delegar funções essenciais, como pensar, estruturar ideias ou resolver problemas, o cérebro reduz seu nível de ativação nessas redes", explica.

O sistema de auto supervisionamento das IAs dificulta o auxílio do corpo docente aos alunos, já que eles têm encontrado uma dificuldade cada vez maior de detectar um texto produzido por IA, especialmente em teses e monografias. Ainda que existam programas que detectam plágio, especialmente em faculdades com mais recursos, a eficácia não é total.

Segundo Maria Eugênia D’Esposito, doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP, em entrevista à AGEMT, "se eu colocar uma redação hoje, ela vai corrigir de um jeito. Se eu colocar a mesma redação para corrigir amanhã, ela vai corrigir de outro jeito". Essa volatilidade da tecnologia torna difícil assegurar com certeza que um trabalho não teve intervenção de IA. Mas ainda existem alguns padrões fáceis de detectar, como a aparência de uma `colcha de retalhos´, em que as ideias do texto não conversam entre si", preocupa-se Maria Eugênia.

Letramento em IA para os professores seriam uma possível solução, mas a maioria das escolas não utilizam esse recurso. D’Esposito explica que qualquer atividade ou curso extra deve ser, por lei, remunerado. Essa obrigação dificulta para as instituições a implementação das especializações. Por outro lado, muitas instituições optam por “convites”, que desobrigam a remuneração, o que diminui o interesse e procura. 

Entre a conexão e o excesso: impacto no sono, na saúde mental e nas relações sociais
por
Guilherme Romero
|
02/06/2026 - 12h

 O celular tornou-se uma ferramenta indispensável no cotidiano, mas o  seu uso excessivo tem despertado preocupação entre especialistas. A crescente dependência de dispositivos móveis, desde crianças até idosos, têm impactado hábitos de sono, concentração, relações sociais e saúde mental. Inclusive, comportamentos como ansiedade e estresse estão cada vez mais comuns no dia a dia das pessoas por serem dependentes do celular.

 Nesse contexto, vamos entender como essa dependência se desenvolve e quais são seus impactos na vida das pessoas. Assista a conversa com o psicólogo André Vasconcellos, em entrevista à AGEMT.

Grupo de estudantes publicitários da Belas Artes cria evento sobre a pobreza menstrual
por
Pedro Timm
Gabriel Giannini
|
29/05/2026 - 12h

A quantidade de mulheres com falta de acesso às necessidades básicas e conhecimento sobre a menstruação é enorme no país. O Projeto Fluxos surge para ajudar nessa causa. A iniciativa surgiu dentro da faculdade Belas Artes, em São Paulo, por sete estudantes que promoveu dia 30/5, no Buffet Piatto, em Interlagos (SP) um evento com palestras e ativações proporcionadas pela Fluxos e seus parceiros para que mulheres tenham um espaço para falar sobre a saúde e o corpo. Para saber mais sobre o projeto, acesse @somosfluxos no Instagram. A AGEMT acompanhou o evento. Escute!

 

Saiba mais em @somosfluxos no Instagram.

Como grandes empresas conseguiram reverter o declínio do tabagismo trazendo de volta hábitos antigos e viciando jovens em novos produtos
por
Julia Naspolini
Leticia Falaschi
|
22/05/2026 - 12h

Os resultados da pesquisa preliminar da Vigitel divulgados no início de 2026, revelam que houve um aumento no número de fumantes no Brasil, que estava estagnado desde 2019. A proporção de adultos fumantes nas capitais brasileiras saltou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, um crescimento de 25% em apenas um ano. Especialistas apontam preocupação diante dos números, principalmente entre os mais jovens, que além de fumarem cigarros tradicionais, se tornaram viciados nos formatos eletrônicos. O aumento no número de fumantes do cigarro original, pode ser explicado pela diminuição de campanhas públicas contra o tabagismo. Juntamente a isso, o preço mínimo do produto no país, imposto pelo governo, ficou paralizado, ou seja sem nenhum reajuste, entre 2016 e 2024.

Além disso, os “pods”, “vapes” e “juuls”, apesar de serem oficialmente proibidos pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), conseguiram se popularizar e se espalhar entre diferentes faixas etárias de forma bem rápida,  influenciando bastante o aumento do número de fumantes no país. Segundo dados da Pesquisa Nacional da Saúde Escolar, entre 2019 e 2024, o uso dos eletrônicos subiu de 16,8% para 29,6%, entre adolescentes de 13 a 17 anos. A indústria desses dispositivos cresceu de forma desenfreada nos últimos 10 anos, no Brasil e no mundo, principalmente no cotidiano dos jovens. Por alegarem não conter as substâncias cancerígenas e a fuligem resultantes da combustão do fumo, evitariam riscos de câncer, doenças cardiovasculares e pulmonares.  A promessa era sedutora, mas a realidade é bem diferente.

Além de atrativos que parecem querer captar a atenção de jovens, como sabores artificiais, aparência compacta e tecnológica e propagandas chamativas, os fatores que mais alertam os especialistas é a composição e proporção química desses produtos. Quando os lucros começam a cair, os fabricantes se renovam para continuar vendendo, e ainda mais. Compactar a nicotina num dispositivo que não tem cheiro de fumaça parece mais palatável e mais aceitável. Mas será que eles são tão inovadores? O que os consumidores raramente sabem é que por trás das nuvens perfumadas havia os mesmos donos de sempre. A Altria, a maior fabricante de cigarros nos Estados Unidos, detentora das marcas Marlboro e Parliament, investiu US$12,8 bilhões na compra de 35% da Juul Labs, empresa que domina um terço do florescente mercado de cigarros eletrônicos do país. 

A resposta está no lucro. “Essas indústrias do cigarro convencional começaram a perceber que estavam perdendo dinheiro e compraram as indústrias do cigarro eletrônico”, explica a Dra.pneumologista Manuela Truiti, em entrevista à AGEMT. “O problema é que muitas vezes esses interesses econômicos avançam muito mais rápido do que as evidências científicas conseguem acompanhar. Então, enquanto a ciência ainda está estudando os impactos de longo prazo do vape, a indústria investe pesado em marketing, tecnologia e estratégias para ampliar o consumo, especialmente entre os jovens… quanto mais tempo eles conseguirem manter uma pessoa viciada, dependente da sua substância, mais dinheiro eles vão ganhar", ressalta Manuela. 

A estratégia é conhecida. “Durante décadas, no século passado, o cigarro com filtro e o cigarro light também foram vendidos como opções mais saudáveis… e depois a gente viu que isso não era verdade. Hoje muitos cigarros eletrônicos são divulgados com uma imagem de modernidade, redução de danos e até bem-estar, o que acaba diminuindo a percepção de risco, principalmente entre os jovens”, diz a médica. 

Trata-se de uma troca, e não de uma cura. Os especialistas são categóricos: “... trocar o cigarro branco por cigarro eletrônico? Não é parar de fumar… a pessoa só está transicionando de uma forma de tabagismo para outra”, afirma a Dra. “A gente tem estudos que avaliaram o uso do vape como uma ferramenta para cessar o uso do cigarro branco, e o que eles viram, acompanhando esses indivíduos depois de um ano, é que a maioria ainda estava usando vape”, diz. 

O que é avaliado é que o vape tende a intensificar a dependência comportamental, não apenas a química. “A pessoa continua mantendo a dependência e muitas vezes até aumenta a dependência de nicotina, porque os vapes têm concentrações altíssimas e também são usados ao longo do dia em situações ou locais em que o cigarro branco não seria usado nem tolerado”. 

Manuela ainda alerta para o perigo das substâncias tóxicas produzidas mesmo sem a combustão, como no cigarro tradicional: “O vapor que é formado pelo aquecimento do líquido possui dezenas de substâncias tóxicas e algumas cancerígenas já identificadas, fora a quantidade gigantesca de nicotina, que muitas vezes equivale a centenas de cigarros”. Estudos do INCA (Instituto Nacional do Câncer) indicam que o uso do dispositivo oferece riscos diretos como dependência, doenças respiratórias e cardiovasculares, e câncer, com toxicidade que pode ser tão prejudicial quanto a versão tradicional. 

Medidas contra o tabagismo

A Anvisa nunca permitiu a produção ou a comercialização dos cigarros eletrônicos no Brasil. Mas, os cigarros tradicionais são legalizados e facilmente encontrados em bancas, mercados e lojas de conveniência, por baixos valores. Em uma campanha contra o tabagismo, a Agência e o Ministério da Saúde anunciaram mudanças nesse valor. Desde 1 de maio, o preço mínimo do maço do cigarro subiu de R$6,50 para R$7,50, e até agosto deste ano, ainda haverá um aumento na taxação de impostos dele, levando o comerciante a subir mais o valor final. Essa medida do Ministério da Saúde, tenta diminuir a prática do tabagismo, eles defendem a elevação do custo como a forma mais eficiente de diminuir o hábito do fumo.

O problema é que às vezes, ao invés de abaixar o consumo do cigarro, o aumento no preço só estimula mais o mercado ilegal. Levando as pessoas a comprarem produtos sem fiscalização e de origem desconhecida, ao invés de um lugar de confiança. O professor de Economia da PUC-SP e Conselheiro do Conselho Federal de Economia, Claudemir Galvani, elucida a questão, "o mercado ilegal realmente pode ser beneficiado, sim, claro. Se aumenta o preço aqui e não aumenta lá, que não tem imposto, não paga imposto. E isso o governo, como é que ele resolve isso daqui? Pela polícia federal para ter o controle das fronteiras. Mas, é um estímulo a mais você correr o risco de comprar uma mercadoria, porque o preço ficou muito mais caro aqui, mas é uma forma que o governo tem também de usar o seu poder de polícia”.

Além do aumento do mercado ilegal e dos riscos disso, o professor ainda aponta que um fumante viciado, não deixa de comprar o produto de seu vício, por uma diferença de preço. "É o chamado bem de demanda inelástica, ou seja, é tão fundamental para a vida dele como alimentação, como a água. Então, para ele, vai impactar, sim, no sentido que ele vai continuar comprando e vai parar de comprar outras coisas que ele entende que seja menos necessária do que o cigarro”.

Esse questionamento da real efetividade desta medida para fumantes é colaborado pelo médico psiquiatra, Dr. Ivan Sérgio Petroucic, que aponta que “o dependente estabelecido pode migrar para marcas mais baratas, pode sacrificar necessidades básicas, ou migrar simplesmente para o mercado clandestino de contrabando”. Mas, essa norma de aumento no preço mínimo e dos impostos ainda pode ajudar a afastar os jovens do cigarro tradicional e pode ajudar a diminuir o número de novos fumantes. O aumento de preços, normalmente via aumento de impostos, tem o objetivo de prevenir que novos fumantes iniciem o árduo. Principalmente os jovens. Qualquer produto que você aumente o preço, na prática, você está reduzindo o acesso a ele”, complementa o Dr. Petroucic. 

“É necessário politizar o debate para discutir impactos sociais, ambientais e econômicos”, afirma coordenador pedagógico de Colégio de elite em São Paulo
por
Annick Borges
Davi Madi
Rafael Pessoa
|
05/05/2026 - 12h

Com o avanço exponencial da tecnologia, popularizando e facilitando o uso de Inteligências Artificiais Generativas (IAGs) entre usuários de todas as idades, iniciam-se preocupações das instituições de ensino e do próprio estado de São Paulo em relação a estes sistemas. Por outro lado, pesquisas indicam que seu uso adequado e responsável pode trazer benefícios. Em fevereiro de 2025, a Secretaria de Governo Digital, juntamente com o Serpro, publicou uma cartilha de inteligência artificial generativa, com o intuito de explicar e abordar os riscos desta nova tecnologia. O texto, produzido em colaboração com diferentes órgãos públicos, traz como um dos riscos a “Criatividade Sintética”, resposta gerada a partir de invenções da IA por falta de informações sobre o tópico. 

A avaliação dialoga com a preocupação de Paulo Edson, professor de sociologia e coordenador pedagógico da Escola Nossa Senhora das Graças, popularmente conhecida como “Gracinha”, localizada no Itaim, que alerta: “a IA ainda inventa informações, inclusive referências que não existem. Ela ainda não tem este código de ética”. 

Para Edson, estes sistemas estão para a nossa sociedade como outras ferramentas tecnológicas estão para a história da humanidade, como instrumentos de auxílio. No entanto, seu uso deve ser embasado. “Ela pode facilitar os trabalhos, mas se você não tiver repertório, você não consegue formular prompts”, aponta. Sobre seu uso na didática escolar, o professor conclui: “Ela tem potencial, mas ela tem que ser avaliada, por cientistas e comitês de ética universitários”.

De acordo com pesquisa realizada em 2023 pela Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (ABMES), em parceria com a empresa Educa Insights, cerca de 74% das instituições de ensino consideram muito importante o investimento em ferramentas de IA para a educação. Para o coordenador, a união entre escola e IA deve vir acoplada de  investimentos em uma educação que valoriza o repertório e o pensamento crítico. “Existe o risco de perder processos importantes do pensamento, como o esforço de interpretação e criação”, afirma.

Outros desafios na introdução do uso destes sistemas também foram apresentados no estudo da ABMES, tais como a falta de participação humana nas pesquisas e a possível dependência em tecnologias que podem falhar ou se tornarem ultrapassadas rapidamente. Diante desta avaliação, a cartilha do governo problematiza esta obsolescência e afirma que o impacto são decisões baseadas em informações incorretas ou desatualizadas.

Ilustração presente na Cartilha de Inteligência Artificial Generativa, com texto sobre "Alucinação e desinformação", seguido dos tópicos "Critividade Sintética: Na Ausência de dados confiáveis, a IA pode inventar informações, referências legais inexistentes ou interpretações incorretas" e "Obsolescência: O conhecimento da IA pode estar limitado à data do seu treinamento. em alguns casos, pode ignorar fatos novos, legislações recentes ou mudanças de contexto que ocorreram após essa data", seguido da observação "Impactos: decisões baseadas em informações incorretas ou desatualizadas".
Ilustração de alerta sobre riscos do uso irresponsável de IA, presente na Cartilha de Inteligência Artificial Generativa: Reprodução - gov.br 

 

Edson também colocou como medidas educacionais no Gracinha o aumento de exercícios manuscritos, leitura e por fim ensinar os alunos a usar o prompt (caixa de pergunta ou instrução enviada para IAG). Segundo ele, muitas vezes os estudantes têm dificuldade em fazer os pedidos de forma correta  o que resultam em respostas que não solucionam as dúvidas.  Apesar dos riscos apontados, os resultados do estudo da ABMES mostram que mais da metade das instituições consultadas consideram que a IA pode apresentar benefícios na rotina dos alunos. Dentre estes, são citadas a versatilidade de aprender a qualquer hora  ou lugar; o acesso diversificado a informações e a melhor eficiência na resolução de dúvidas e problemas.

Paulo Rota, coordenador do ensino médio no Gracinha e mestre em tecnologias na inteligência e design digital, em entrevista à AGEMT, acredita que ainda não alcançamos um uso satisfatório da inteligência artificial na educação, e acha que alguns professores ainda demonstram resistência em seu uso. Essa confiança das instituições está relacionada ao avanço contínuo da inteligência artificial generativa (IAG) no apoio aos estudos. A cada ano surgem sistemas mais refinados, práticos e eficazes, que auxiliam em processos de pesquisa e aprendizagem, o que amplia sua adoção como ferramenta educacional pelas escolas. Rota diz que não consegue pensar no ser humano sem dispositivos, mas ressalta: “tem uma contradição na IA e nas redes sociais. É uma coisa privatizada, e o controle da inteligência artificial e das big techs está na mão de algumas poucas empresas”.

Para Rota, a IA pode ser vista como ferramenta de auxílio externo ao estudante, e não deve ser ignorada. O coordenador do ensino médio ainda compara a visão diante da nova tecnologia com os princípios filosóficos de Aristóteles. “Para ele, o ser humano não podia ler livros. Deveríamos construir nossa opinião somente com base em nossa razão. Alguns professores que rejeitam a IA estão sendo aristotélico”, afirma. Ele ainda segue, ao afirmar que usar estas tecnologias é nossa natureza. “Somos como a aranha, e a IA é como nossa teia. Algo criado pelo ser humano, alheio, mas que devemos usar”. 

Com base na progressão do uso das IAGs entre estudantes e, a Secretaria de Gestão da Informação, Inovação e Avaliação de Políticas Educacionais (SEGAPE) produziu o “Referencial para Desenvolvimento e Uso Responsável de Inteligência Artificial”, em fevereiro deste ano. O documento trabalha através de princípios, diretrizes e recomendações que busquem orientar instituições de ensino à como utilizar sistemas de IA na educação. Assinado pelo Ministério da Educação, o referencial reúne diversos pontos que auxiliam a compreensão sobre como se pode usar a tecnologia como ferramenta para um aprendizado com inclusão e equidade, mantendo a ética e responsabilidade.

Dentre os tópicos, são destacados: a supervisão humana no acesso às IAGs pelos alunos, que devem ser orientados e acompanhados pelos professores; o combate às desigualdades, utilizando das ferramentas como promoção de um acesso à informação justo e não discriminatório; e a transparência diante dos dados apresentados, sempre esclarecendo a origem das informações e a checagem dos fatos. A conclusão do referencial afirma que o uso de IAGs e de pesquisa são uma possibilidade de auxílio no processo de aprendizado, contanto que o rigor de ensino, de checagem e presença do professor ao longo do uso se mantenham. “Ao reafirmar a centralidade do projeto pedagógico, a indispensabilidade da supervisão humana e a salvaguarda dos direitos fundamentais, busca-se promover o uso da inteligência artificial como instrumento de qualificação dos processos educacionais”, afirma o documento.

Coordenador técnico Thiago Lellis compartilha experiência dos serviços realizados por projeto solidário no Rio de Janeiro
por
Gustavo Song Jun Choi
|
27/04/2026 - 12h

No município de São Gonçalo, segunda cidade mais populosa do estado do Rio de Janeiro, com cerca de 900 mil habitantes, o projeto Liberdade e Justiça Social, da Cruz Vermelha Brasileira, trabalha ativamente no serviço de assistência à população com transtorno de espectro autista (TEA) e portadores de deficiência auditiva (DA) por meio de atendimentos gratuitos em parceria com sua prefeitura, que englobam serviços como o de psicologia, psicopedagogia, psicomotricidade e libras. Thiago Lellis, o coordenador técnico desse projeto, em entrevista à AGEMT, conta sobre a experiência e desafios de seu trabalho.

O coordenador menciona que mesmo antes do início do projeto e seus serviços, em 2022, já havia um olhar da necessidade da cidade atender a demanda do público com TEA e DA. “Nosso projeto foi desenvolvido justamente por se encontrar esta defasagem dentro do município, óbvio que a noção que tínhamos era apenas a ponta do iceberg, pois boa parte das dificuldades só são realmente expostas à medida que a imersão na realidade deste público acontece”, diz ele.  

Equipe da Cruz Vermelha Brasileira filial de São Gonçalo
Equipe da Cruz Vermelha Brasileira filial de São Gonçalo - Foto: Cruz Vermelha Brasileira filial de São Gonçalo

Quando questionado se o número de pessoas que o projeto busca ajudar aumentou ao longo dos anos, Thiago confirma que houve um crescimento com o decorrer do tempo em relação ao número de indivíduos que tiveram acesso aos serviços que ele e seus colegas oferecem. No entanto, entre as dificuldades que lidam no dia a dia do seu trabalho social, comenta que apesar do projeto ter uma atenção local relevante e significativa, manter as pessoas engajadas nele ainda é um desafio. “Atrair pessoas é relativamente mais fácil do que mantê-los engajados [sic] ao longo do tempo. Lidamos com evasão por questões sociais, familiares e até financeiras”. 

Outro obstáculo que o coordenador enfrenta é a limitação de recursos, pois mesmo com o convênio municipal existente e o apoio institucional, ainda existe uma constante necessidade de otimizar recursos humanos, materiais, financeiros, além da necessidade de manter os assistidos engajados. “Muitas vezes a demanda da comunidade é maior do que a capacidade que conseguimos oferecer em nosso projeto”, desabafa Lellis.

Ainda nesse eixo, discute que apesar do projeto ter financiamento governamental e através de doações, ainda existem dificuldades no quesito da sustentabilidade por conta da limitação de recursos e crescente custo operacional, resultando em impactos diretos nos seus serviços. “Muitas ideias e demandas não conseguem sair do papel por falta de verba, além de profissionais da área que seriam de suma importância para a execução do nosso trabalho [que o projeto não consegue contratar] (...) infelizmente por questões também financeiras”, relata. 

Apesar disso, Lellis garante que atualmente o projeto cumpre seu papel social e gera impacto real na comunidade, e entende que isso é algo extremamente positivo. Mas também atesta que há sempre pontos a serem melhorados, listando exemplos como o melhor uso de ferramentas e mídias digitais, o aumento do alcance do projeto e a melhoria na experiência dos assistidos e familiares. “Diversas formas são importantes para contribuição e fortalecimento do nosso projeto. Parcerias para eventos e ações sociais, divulgação do nosso trabalho, campanhas de doações, apadrinhamentos e leis de incentivo”. 

Com mais trabalho e mais custos, profissionais precisam ficar mais horas na rua para manter a renda
por
Anna Carolina Z. Bueno de Aguiar
|
25/04/2026 - 12h

O combustível mais caro impacta diretamente a rotina e o rendimento mensal de quem trabalha como motorista de aplicativo na capital paulista. O aumento no valor registra alta de 7,48%, chegando a R$ 6,75, segundo apurou reportagem da CNN. Matheus Blaich, taxista há cerca de três anos em São Paulo, conta que o abastecimento do carro é o que mais pesa atualmente, podendo chegar até mesmo a um terço do salário ao mês. A redução na quantidade de corridas no período noturno, um dos melhores horários de acordo com o motorista, pode chegar também a uma diminuição de quase 30% em relação ao ano passado. 

As despesas maiores e a diminuição da clientela forçam motoristas a se adaptarem e a aumentarem suas horas de trabalho. “Hoje eu preciso trabalhar mais horas para ganhar o que ganhava antes. E, às vezes, nem assim consigo manter o mesmo rendimento”, conta Matheus.  

A seleção de corridas tornou-se mais criteriosa por pura estratégia e redução de possíveis prejuízos; deslocamentos longos ou fora de rota são em sua maioria, evitados, visando à não compensação do valor recebido em relação ao combustível, comparado ao gasto da locomoção total. Aplicativos que usam tarifas dinâmicas e variáveis se tornam imediatamente mais atraentes. "A modalidade com desconto dessas plataformas molda a percepção do valor do serviço, fazendo com que passageiros considerem esses preços menores como padrão, sem acrescentar o custo a mais, desvalorizando o trabalho, deixando a concorrência frustrante", diz.

A insatisfação de quem trabalha com app de entregas e transporte é nítida pelas diversas manifestações em um curto período e em diferentes partes do Brasil. Em São Paulo, a classe pede por melhoria nas condições de trabalho e diminuição de taxas cobradas por aplicativos, que aumentam cada vez mais. Altas despesas gerais, gasolina e pouca remuneração também são criticadas pelos trabalhadores da área de mobilidade. O combustível alto gera um efeito dominó inevitável, em que o aumento do abastecimento não só encarece as corridas aos passageiros, mas, como consequência, diminui a demanda. O resultado não é um caso isolado de condutores paulistanos, mas uma realidade brasileira atual. 

O taxista não pretende deixar a profissão em pouco tempo, mas confessa ter incertezas constantes de um futuro distante e tentador: “A longo prazo, eu penso em mudar, sim. Porque está cada vez mais difícil manter o mesmo ganho”, desabafa Matheus. 

Muitos profissionais ainda se conformam com a situação por princípio de estabilidade momentânea e uma possível falta de alternativas. Blaich também afirma sobre a importância de clientes avaliarem e refletirem os preços envolvidos no serviço total. “Muita gente não tem noção do que custa manter um carro rodando o dia inteiro. Não é só dirigir, tem muito gasto envolvido” .

Apesar das oscilações de custos, demandas da adaptação contínua e metas nem sempre alcançadas, a tendência do número de motoristas é diminuir, mas não um completo desaparecimento da profissão, por agora. A categoria teme a chegada de carros autônomos em aplicativos, que operam sem necessidade de humanos, o que poderia levar a reduzir significativamente a profissão de uma vez por todas. 

Com o dólar em alta e edições cada vez mais sofisticadas, o mercado de HQs tenta sobreviver entre colecionadores fiéis, sebos e drives compartilhados na internet
por
Emily de Matos
Luis Henrique Oliveira
Wildner Felix Cerqueira
|
02/04/2026 - 12h

Quem passa em frente a uma banca de jornal e olha para as HQs disponíveis logo percebe: o preço mudou. Edições simples viraram raridade e, no lugar delas, capas duras e omnibus (no contexto editorial, refere-se a um volume que reúne várias obras) dividem o espaço nas prateleiras. Com o dólar em alta, principalmente depois da guerra no Oriente Médio e o custo do papel acompanhando a disparada da moeda americana, os quadrinhos chegaram a 2026 com valores que assusta boa parte dos leitores brasileiros.

Para quem trabalha no setor há décadas, porém, a novidade é relativa. "O quadrinho nunca foi barato no Brasil. Sempre teve um preço alto", afirma Fernando Pedroso Vaz, jornaleiro veterano de Itapevi, na Zona Oeste de São Paulo, que atua há 30 anos no ramo. Na sua visão, o produto evoluiu junto com o valor cobrado, saiu do básico e se transformou em peça de colecionador, com edições especiais e volumes únicos que reúnem histórias inteiras em um só livro.

Fernando Pedroso Vaz, jornaleiro de Itapevi, ao lado de quadrinhos diversos
Fernando Pedroso é jornaleiro à 30 anos em Itapevi. Foto: Luis Henrique Oliveira

O problema, ele admite, é outro: "O salário do brasileiro não subiu o equivalente". É nessa tensão entre um produto que se reinventou como objeto de arte e um poder de compra que patina que o mercado de quadrinhos tenta encontrar seu equilíbrio no Brasil. O mercado de quadrinhos passa por um momento de expansão paradoxal: ao mesmo tempo em que conquista novos públicos, enfrenta desafios estruturais que ameaçam os canais tradicionais de venda. Para Maria Gabrielle Fontinele, leitora desde os 13 anos, o preço elevado não a afastou, mas ela percebe seu efeito nos leitores mais novos. "Tem afastado, principalmente em relação aos da Marvel", afirma. Na sua leitura, o boom dos filmes criou um atalho: o público se interessa pela história, mas migra para a tela e esquece a publicação impressa. A adaptação cinematográfica, que poderia funcionar como porta de entrada para os quadrinhos, acaba competindo com eles, explica Fontinele. "O pessoal começa pela marca da HQ, mas no final acaba totalmente diferente", ela observa, apontando uma contradição que frustra tanto leitores antigos quanto potenciais novos consumidores.

Quem permanece fiel ao formato impresso carrega algo que vai além do hábito. Maria descreve uma dimensão afetiva que sustenta o mercado mesmo diante das adversidades: "você criou um apego emocional por aquilo." A coleção vira memória, identidade, algo transmitido entre gerações. É esse público cativo, fiel desde o início, que mantém bancas como a de Itapevi de pé, mesmo com a concorrência brutal da internet. O vendedor não tem ilusões sobre o futuro das bancas: "o futuro das bancas é deixar de existir". Mas reconhece, com certa ironia, que a internet, ao mesmo tempo que lhe tirou clientes, fortaleceu o colecionismo. Ficou mais fácil encontrar edições antigas, completar séries, acessar títulos importados.

A entrada da banca de Fernando, cheia de revistas e quadrinhos
A banca de Fernando Pedroso é a única que ainda resiste na cidade de Itapevi. Foto: Luis Henrique Oliveira

Para driblar a disparidade entre o número das vendas, grandes editoras vêm adotando medidas alternativas. A Panini, por exemplo, apostou na volta de quadrinhos com a lombada canoa como forma de baratear a produção e tornar o custo mais acessível para os consumidores. Esse formato tem como característica as páginas grampeadas, diferentes da encadernação com as folhas coladas que tinham adotado nos últimos anos.

Também trouxeram para o Brasil em 2025 os “DC de Bolso”, relançamento de arcos essenciais dentro do universo DC Comics compactados em publicações menos luxuosas que as versões anteriores. Gibis como Reino do Amanhã e Superman: Entre a Foice e o Martelo custam entre R$23,34 a R$49,50, enquanto suas impressões em capa dura chegam a R$450. Embora a intenção seja atrair novos leitores, os índices não mentem: segundo pesquisas feitas pela Nielsen BookScan, houve uma queda de 14% nas vendas de quadrinhos em 2023, último ano do estudo.

Paulo Henrique Passos, estudante de antropologia na Universidade de Brasília (UnB), é um leitor assíduo de revistinhas desde os 11 anos de idade. A paixão pelo meio é tanta que, durante a pandemia da Covid-19, ele criou uma iniciativa para facilitar o acesso a materiais do Batman, sejam eles filmes, desenhos animados e, claro, histórias em quadrinhos. "Eu percebi que como o novo filme [do Batman] estava a caminho, eu poderia não só facilitar as pessoas a conhecerem mais o personagem, mas também fazer elas entenderem porque ele é tão amado e atemporal", explica o estudante.

Apelidado de “Bat-drive”, o projeto traz um acervo impressionante com todas as aventuras que o homem-morcego já protagonizou dentre seus 87 anos de criação – algumas fora de circulação nas bancas e livrarias, disponíveis de forma gratuita para qualquer um interessado em ler. Entretanto, a dedicação não impediu que Passos se decepcionasse com o mercado. Ele admite que diminuiu o fluxo de compra hoje em dia e que o preço não foi o único fator para a decisão.

“A qualidade oferecida pela maior editora do Brasil em histórias de quadrinhos, que é a Panini, também me fez perder muito interesse em continuar acompanhando as comics porque, enquanto o preço é muito alto, a qualidade não é equiparável ao valor que você está pagando”, explica.

Quadrinhos de diversas editoras e heróis espalhados no chão
Editoras vem tentando arranjar alternativas para não pesar tanto no bolso do leitor. Foto: Luis Henrique Oliveira

Tanto Fontinele quanto Passos relatam que começaram a comprar as HQs em sebos, optando por edições antigas de seus heróis favoritos a um menor preço. Feiras de livros e editoras independentes nacionais também entram nas opções na hora de comprar suas revistinhas e aumentar suas coleções. Essa escolha revela a contradição que as editoras brasileiras encontram no mercado hoje em dia; Se elas ainda buscam uma fórmula certa para equilibrar qualidade e acessibilidade, os fãs já encontraram as suas: entre sebos empoeirados, feiras de rua e drives compartilhados na internet.

Redes sociais e algoritmos remodelam funcionamento social da religião
por
Larissa Viana
|
30/03/2026 - 12h

O exercício da fé se torna cada vez mais presente nas redes sociais e telas dos celulares, bem como na vida contemporânea acelerada. A prática religiosa não depende mais somente de espaços físicos e organizações formais de espiritualidade, como igrejas e templos. Fiéis têm possibilidades de construir trajetórias próprias que combinam crenças, aplicações e referências diversas. Alguns exemplos de ambientes digitais de religião incluem aplicativos, sites, comunidades e transmissões em redes sociais.

Nos apps e sites os usuários têm acesso desde textos informativos até celebrações e rituais. A cena é cada vez mais comum: alguém assiste a um culto ao vivo pelo celular, compartilha uma mensagem espiritual nas redes sociais e, minutos depois, consome conteúdos de outra tradição religiosa até em jogos. Recentemente, o fenômeno de missas na plataforma de jogos Roblox ganhou destaque por atrair o público jovem às celebrações da fé cristã. Os jogadores podem se inserir nas cerimônias, acompanhar por meio de transmissões públicas em aplicativos e fazer parte de chats de conversa online.

Apesar de seguir com sua tradicionalidade, a Igreja Católica se adapta às novas formas de evangelização e garante um maior alcance em espaços descontraídos. Em entrevista à AGEMT, o arcebispo da Arquidiocese de Aparecida no Roblox, Giovanni Burke, afirma que “embora tenha uma grande diversidade na comunidade católica do Roblox, todos professamos a mesma fé, e essa diversidade fortalece a nossa vida religiosa e coletiva, já que cada um pode praticar aquele carisma que mais se identifica”, explica Burke. 

Mesmo assim, aspectos estruturais da Igreja não são ignorados. Ainda existem no meio da plataforma cargos e hierarquias, embora não sejam oficializados. De acordo com Burke, “em nossa comunidade o papel dos nossos líderes como bispos e o papa é mais administrativo, em respeito e obediência ao magistério da Igreja real que detém a verdadeira autoridade para ensinar e governar”, ressalta.

Celebração de Domingo de Ramos no Roblox. Foto: Reprodução/Instagram/@arquiaparecidarb
Celebração de Domingo de Ramos no Roblox. Foto: Reprodução/Instagram/@arquiaparecidarb

Também existem outros tipos de coletivos digitais que celebram outras fés. “Como nossa comunidade é católica romana, tudo que fazemos está em conformidade com a Igreja. Mas também para quem pensa diferente há outras comunidades dentro do ambiente virtual da plataforma Roblox, como comunidades evangélicas”, diz Burke. Dessa forma, a Igreja e outras entidades passam por um processo de democratização da religião característico do tempo atual, já que o acesso se diversificou. A sinodalidade (do grego synodos (caminhar juntos), por exemplo, é a forma de ser da Igreja, não apenas um evento; valorizando a voz de todos, especialmente através de consultas em nível paroquial, diocesano e universal. "Mas, ainda sim submetidos a hierarquia da igreja, que não permite desvios na sã doutrina, mesmo que tenha de ser aplicada apenas aqueles que atentem a tradição e hierarquia da igreja”,  diz Burke.

Outro aspecto relevante no cenário contemporâneo é o papel dos algoritmos, que sugerem conteúdos com base no comportamento do usuário. Esse mecanismo tende a reforçar determinadas crenças e criar bolhas espirituais, nas quais o indivíduo é constantemente exposto a perspectivas semelhantes às suas. Com isso, cria-se o risco de isolamento ideológico que ocasiona uma visão de mundo limitada. Além de manter a concentração do usuário no ambiente virtual, que prejudica a vivência religiosa autêntica, também existe o perigo de disseminação de desinformação ou conteúdos negativos. Mas também oferecem a possibilidade de aprender e transitar entre diferentes perspectivas religiosas. Se por um lado, a era digital fragmenta, por outro ela também conecta. E é nesse equilíbrio instável que a religião segue se reinventando como uma construção humana em movimento permanente.

Associação Fernanda Bianchini transforma a cultura em ferramenta de inclusão
por
Gianna Flores
|
30/03/2026 - 12h

O som das palmas marca o ritmo. Não é música ainda. É direção. É orientação. Em uma sala de ensaio na zona sul de São Paulo, braços se elevam, pés deslizam e corpos ocupam o espaço com precisão. À primeira vista, é uma aula de dança como tantas outras. Mas, ali o movimento não depende do olhar. A Associação Fernanda Bianchini Cia Ballet de Cegos construiu, ao longo de décadas, um trabalho que ultrapassa a ideia tradicional de ensino artístico. Fundada nos anos 1990, a instituição se tornou referência ao desenvolver um método próprio de ensino de dança para pessoas com deficiência visual, sem, no entanto, se limitar a isso. Hoje, o espaço acolhe alunos com diferentes tipos de deficiência e oferece atividades que vão do balé clássico ao pilates. Para a psicóloga Marina Queiroz de Andrade, especialista em inclusão social, esse tipo de iniciativa tem um impacto que vai além do aprendizado técnico. “A arte, especialmente a dança, reorganiza a forma como a pessoa se percebe no mundo. Quando o corpo encontra possibilidades de expressão, ele deixa de ser visto apenas pelas suas limitações e passa a ser reconhecido pela sua potência”, afirma.

Mais do que formar bailarinos, a dança, ali, não se resume à estética do movimento. Ela funciona como um meio de reorganizar relações, com o próprio corpo, com o outro e com o espaço, já que a dinâmica da aula revela outras formas de perceber o corpo e o espaço. As palmas e as orientações verbais funcionam como guia. O toque também se torna linguagem, mãos que conduzem, ajustam e indicam caminhos. Cria-se uma relação de troca que ultrapassa a técnica e se aproxima de uma construção coletiva do movimento. Trata-se de um processo que não ocorre de maneira imediata. Para doar e participar, clique e conheça o projeto

dançando
Durante o ano, a CIA realiza apresentações tanto internas e quanto abertas para o público geral. Foto: Gianna Flores

Há pausas, tentativas e repetições. Entre um exercício e outro, há risos, conversas, pequenos comentários que quebram a formalidade da aula e revelam o espaço como um ambiente de convivência. Na associação, a dança não é vista apenas como execução, mas também como relação. A presença de professores e bailarinos com deficiência visual reforça essa lógica. O conhecimento não vem de fora, mas é construído dentro da própria experiência. Ensinar, nesse contexto, também é partilhar vivências.

A associação funciona por meio de doações e a proposta não é apenas ensinar dança, mas criar um ambiente em que o corpo possa ser experimentado sem as limitações frequentemente impostas fora dali. A psicóloga destaca também a importância das aulas serem gratuitas. A inclusão nesse caso não acontece só na proposta, mas na possibilidade de real acesso”, conta Andrade. Em um cenário em que o acesso à cultura ainda é desigual, iniciativas como essa apontam para outras possibilidades de inclusão.