No município de São Gonçalo, segunda cidade mais populosa do estado do Rio de Janeiro, com cerca de 900 mil habitantes, o projeto Liberdade e Justiça Social, da Cruz Vermelha Brasileira, trabalha ativamente no serviço de assistência à população com transtorno de espectro autista (TEA) e portadores de deficiência auditiva (DA) por meio de atendimentos gratuitos em parceria com sua prefeitura, que englobam serviços como o de psicologia, psicopedagogia, psicomotricidade e libras. Thiago Lellis, o coordenador técnico desse projeto, em entrevista à AGEMT, conta sobre a experiência e desafios de seu trabalho.
O coordenador menciona que mesmo antes do início do projeto e seus serviços, em 2022, já havia um olhar da necessidade da cidade atender a demanda do público com TEA e DA. “Nosso projeto foi desenvolvido justamente por se encontrar esta defasagem dentro do município, óbvio que a noção que tínhamos era apenas a ponta do iceberg, pois boa parte das dificuldades só são realmente expostas à medida que a imersão na realidade deste público acontece”, diz ele.
Quando questionado se o número de pessoas que o projeto busca ajudar aumentou ao longo dos anos, Thiago confirma que houve um crescimento com o decorrer do tempo em relação ao número de indivíduos que tiveram acesso aos serviços que ele e seus colegas oferecem. No entanto, entre as dificuldades que lidam no dia a dia do seu trabalho social, comenta que apesar do projeto ter uma atenção local relevante e significativa, manter as pessoas engajadas nele ainda é um desafio. “Atrair pessoas é relativamente mais fácil do que mantê-los engajados [sic] ao longo do tempo. Lidamos com evasão por questões sociais, familiares e até financeiras”.
Outro obstáculo que o coordenador enfrenta é a limitação de recursos, pois mesmo com o convênio municipal existente e o apoio institucional, ainda existe uma constante necessidade de otimizar recursos humanos, materiais, financeiros, além da necessidade de manter os assistidos engajados. “Muitas vezes a demanda da comunidade é maior do que a capacidade que conseguimos oferecer em nosso projeto”, desabafa Lellis.
Ainda nesse eixo, discute que apesar do projeto ter financiamento governamental e através de doações, ainda existem dificuldades no quesito da sustentabilidade por conta da limitação de recursos e crescente custo operacional, resultando em impactos diretos nos seus serviços. “Muitas ideias e demandas não conseguem sair do papel por falta de verba, além de profissionais da área que seriam de suma importância para a execução do nosso trabalho [que o projeto não consegue contratar] (...) infelizmente por questões também financeiras”, relata.
Apesar disso, Lellis garante que atualmente o projeto cumpre seu papel social e gera impacto real na comunidade, e entende que isso é algo extremamente positivo. Mas também atesta que há sempre pontos a serem melhorados, listando exemplos como o melhor uso de ferramentas e mídias digitais, o aumento do alcance do projeto e a melhoria na experiência dos assistidos e familiares. “Diversas formas são importantes para contribuição e fortalecimento do nosso projeto. Parcerias para eventos e ações sociais, divulgação do nosso trabalho, campanhas de doações, apadrinhamentos e leis de incentivo”.
O combustível mais caro impacta diretamente a rotina e o rendimento mensal de quem trabalha como motorista de aplicativo na capital paulista. O aumento no valor registra alta de 7,48%, chegando a R$ 6,75, segundo apurou reportagem da CNN. Matheus Blaich, taxista há cerca de três anos em São Paulo, conta que o abastecimento do carro é o que mais pesa atualmente, podendo chegar até mesmo a um terço do salário ao mês. A redução na quantidade de corridas no período noturno, um dos melhores horários de acordo com o motorista, pode chegar também a uma diminuição de quase 30% em relação ao ano passado.
As despesas maiores e a diminuição da clientela forçam motoristas a se adaptarem e a aumentarem suas horas de trabalho. “Hoje eu preciso trabalhar mais horas para ganhar o que ganhava antes. E, às vezes, nem assim consigo manter o mesmo rendimento”, conta Matheus.
A seleção de corridas tornou-se mais criteriosa por pura estratégia e redução de possíveis prejuízos; deslocamentos longos ou fora de rota são em sua maioria, evitados, visando à não compensação do valor recebido em relação ao combustível, comparado ao gasto da locomoção total. Aplicativos que usam tarifas dinâmicas e variáveis se tornam imediatamente mais atraentes. "A modalidade com desconto dessas plataformas molda a percepção do valor do serviço, fazendo com que passageiros considerem esses preços menores como padrão, sem acrescentar o custo a mais, desvalorizando o trabalho, deixando a concorrência frustrante", diz.
A insatisfação de quem trabalha com app de entregas e transporte é nítida pelas diversas manifestações em um curto período e em diferentes partes do Brasil. Em São Paulo, a classe pede por melhoria nas condições de trabalho e diminuição de taxas cobradas por aplicativos, que aumentam cada vez mais. Altas despesas gerais, gasolina e pouca remuneração também são criticadas pelos trabalhadores da área de mobilidade. O combustível alto gera um efeito dominó inevitável, em que o aumento do abastecimento não só encarece as corridas aos passageiros, mas, como consequência, diminui a demanda. O resultado não é um caso isolado de condutores paulistanos, mas uma realidade brasileira atual.
O taxista não pretende deixar a profissão em pouco tempo, mas confessa ter incertezas constantes de um futuro distante e tentador: “A longo prazo, eu penso em mudar, sim. Porque está cada vez mais difícil manter o mesmo ganho”, desabafa Matheus.
Muitos profissionais ainda se conformam com a situação por princípio de estabilidade momentânea e uma possível falta de alternativas. Blaich também afirma sobre a importância de clientes avaliarem e refletirem os preços envolvidos no serviço total. “Muita gente não tem noção do que custa manter um carro rodando o dia inteiro. Não é só dirigir, tem muito gasto envolvido” .
Apesar das oscilações de custos, demandas da adaptação contínua e metas nem sempre alcançadas, a tendência do número de motoristas é diminuir, mas não um completo desaparecimento da profissão, por agora. A categoria teme a chegada de carros autônomos em aplicativos, que operam sem necessidade de humanos, o que poderia levar a reduzir significativamente a profissão de uma vez por todas.
Quem passa em frente a uma banca de jornal e olha para as HQs disponíveis logo percebe: o preço mudou. Edições simples viraram raridade e, no lugar delas, capas duras e omnibus (no contexto editorial, refere-se a um volume que reúne várias obras) dividem o espaço nas prateleiras. Com o dólar em alta, principalmente depois da guerra no Oriente Médio e o custo do papel acompanhando a disparada da moeda americana, os quadrinhos chegaram a 2026 com valores que assusta boa parte dos leitores brasileiros.
Para quem trabalha no setor há décadas, porém, a novidade é relativa. "O quadrinho nunca foi barato no Brasil. Sempre teve um preço alto", afirma Fernando Pedroso Vaz, jornaleiro veterano de Itapevi, na Zona Oeste de São Paulo, que atua há 30 anos no ramo. Na sua visão, o produto evoluiu junto com o valor cobrado, saiu do básico e se transformou em peça de colecionador, com edições especiais e volumes únicos que reúnem histórias inteiras em um só livro.
O problema, ele admite, é outro: "O salário do brasileiro não subiu o equivalente". É nessa tensão entre um produto que se reinventou como objeto de arte e um poder de compra que patina que o mercado de quadrinhos tenta encontrar seu equilíbrio no Brasil. O mercado de quadrinhos passa por um momento de expansão paradoxal: ao mesmo tempo em que conquista novos públicos, enfrenta desafios estruturais que ameaçam os canais tradicionais de venda. Para Maria Gabrielle Fontinele, leitora desde os 13 anos, o preço elevado não a afastou, mas ela percebe seu efeito nos leitores mais novos. "Tem afastado, principalmente em relação aos da Marvel", afirma. Na sua leitura, o boom dos filmes criou um atalho: o público se interessa pela história, mas migra para a tela e esquece a publicação impressa. A adaptação cinematográfica, que poderia funcionar como porta de entrada para os quadrinhos, acaba competindo com eles, explica Fontinele. "O pessoal começa pela marca da HQ, mas no final acaba totalmente diferente", ela observa, apontando uma contradição que frustra tanto leitores antigos quanto potenciais novos consumidores.
Quem permanece fiel ao formato impresso carrega algo que vai além do hábito. Maria descreve uma dimensão afetiva que sustenta o mercado mesmo diante das adversidades: "você criou um apego emocional por aquilo." A coleção vira memória, identidade, algo transmitido entre gerações. É esse público cativo, fiel desde o início, que mantém bancas como a de Itapevi de pé, mesmo com a concorrência brutal da internet. O vendedor não tem ilusões sobre o futuro das bancas: "o futuro das bancas é deixar de existir". Mas reconhece, com certa ironia, que a internet, ao mesmo tempo que lhe tirou clientes, fortaleceu o colecionismo. Ficou mais fácil encontrar edições antigas, completar séries, acessar títulos importados.
Para driblar a disparidade entre o número das vendas, grandes editoras vêm adotando medidas alternativas. A Panini, por exemplo, apostou na volta de quadrinhos com a lombada canoa como forma de baratear a produção e tornar o custo mais acessível para os consumidores. Esse formato tem como característica as páginas grampeadas, diferentes da encadernação com as folhas coladas que tinham adotado nos últimos anos.
Também trouxeram para o Brasil em 2025 os “DC de Bolso”, relançamento de arcos essenciais dentro do universo DC Comics compactados em publicações menos luxuosas que as versões anteriores. Gibis como Reino do Amanhã e Superman: Entre a Foice e o Martelo custam entre R$23,34 a R$49,50, enquanto suas impressões em capa dura chegam a R$450. Embora a intenção seja atrair novos leitores, os índices não mentem: segundo pesquisas feitas pela Nielsen BookScan, houve uma queda de 14% nas vendas de quadrinhos em 2023, último ano do estudo.
Paulo Henrique Passos, estudante de antropologia na Universidade de Brasília (UnB), é um leitor assíduo de revistinhas desde os 11 anos de idade. A paixão pelo meio é tanta que, durante a pandemia da Covid-19, ele criou uma iniciativa para facilitar o acesso a materiais do Batman, sejam eles filmes, desenhos animados e, claro, histórias em quadrinhos. "Eu percebi que como o novo filme [do Batman] estava a caminho, eu poderia não só facilitar as pessoas a conhecerem mais o personagem, mas também fazer elas entenderem porque ele é tão amado e atemporal", explica o estudante.
Apelidado de “Bat-drive”, o projeto traz um acervo impressionante com todas as aventuras que o homem-morcego já protagonizou dentre seus 87 anos de criação – algumas fora de circulação nas bancas e livrarias, disponíveis de forma gratuita para qualquer um interessado em ler. Entretanto, a dedicação não impediu que Passos se decepcionasse com o mercado. Ele admite que diminuiu o fluxo de compra hoje em dia e que o preço não foi o único fator para a decisão.
“A qualidade oferecida pela maior editora do Brasil em histórias de quadrinhos, que é a Panini, também me fez perder muito interesse em continuar acompanhando as comics porque, enquanto o preço é muito alto, a qualidade não é equiparável ao valor que você está pagando”, explica.
Tanto Fontinele quanto Passos relatam que começaram a comprar as HQs em sebos, optando por edições antigas de seus heróis favoritos a um menor preço. Feiras de livros e editoras independentes nacionais também entram nas opções na hora de comprar suas revistinhas e aumentar suas coleções. Essa escolha revela a contradição que as editoras brasileiras encontram no mercado hoje em dia; Se elas ainda buscam uma fórmula certa para equilibrar qualidade e acessibilidade, os fãs já encontraram as suas: entre sebos empoeirados, feiras de rua e drives compartilhados na internet.
O exercício da fé se torna cada vez mais presente nas redes sociais e telas dos celulares, bem como na vida contemporânea acelerada. A prática religiosa não depende mais somente de espaços físicos e organizações formais de espiritualidade, como igrejas e templos. Fiéis têm possibilidades de construir trajetórias próprias que combinam crenças, aplicações e referências diversas. Alguns exemplos de ambientes digitais de religião incluem aplicativos, sites, comunidades e transmissões em redes sociais.
Nos apps e sites os usuários têm acesso desde textos informativos até celebrações e rituais. A cena é cada vez mais comum: alguém assiste a um culto ao vivo pelo celular, compartilha uma mensagem espiritual nas redes sociais e, minutos depois, consome conteúdos de outra tradição religiosa até em jogos. Recentemente, o fenômeno de missas na plataforma de jogos Roblox ganhou destaque por atrair o público jovem às celebrações da fé cristã. Os jogadores podem se inserir nas cerimônias, acompanhar por meio de transmissões públicas em aplicativos e fazer parte de chats de conversa online.
Apesar de seguir com sua tradicionalidade, a Igreja Católica se adapta às novas formas de evangelização e garante um maior alcance em espaços descontraídos. Em entrevista à AGEMT, o arcebispo da Arquidiocese de Aparecida no Roblox, Giovanni Burke, afirma que “embora tenha uma grande diversidade na comunidade católica do Roblox, todos professamos a mesma fé, e essa diversidade fortalece a nossa vida religiosa e coletiva, já que cada um pode praticar aquele carisma que mais se identifica”, explica Burke.
Mesmo assim, aspectos estruturais da Igreja não são ignorados. Ainda existem no meio da plataforma cargos e hierarquias, embora não sejam oficializados. De acordo com Burke, “em nossa comunidade o papel dos nossos líderes como bispos e o papa é mais administrativo, em respeito e obediência ao magistério da Igreja real que detém a verdadeira autoridade para ensinar e governar”, ressalta.
Também existem outros tipos de coletivos digitais que celebram outras fés. “Como nossa comunidade é católica romana, tudo que fazemos está em conformidade com a Igreja. Mas também para quem pensa diferente há outras comunidades dentro do ambiente virtual da plataforma Roblox, como comunidades evangélicas”, diz Burke. Dessa forma, a Igreja e outras entidades passam por um processo de democratização da religião característico do tempo atual, já que o acesso se diversificou. A sinodalidade (do grego synodos (caminhar juntos), por exemplo, é a forma de ser da Igreja, não apenas um evento; valorizando a voz de todos, especialmente através de consultas em nível paroquial, diocesano e universal. "Mas, ainda sim submetidos a hierarquia da igreja, que não permite desvios na sã doutrina, mesmo que tenha de ser aplicada apenas aqueles que atentem a tradição e hierarquia da igreja”, diz Burke.
Outro aspecto relevante no cenário contemporâneo é o papel dos algoritmos, que sugerem conteúdos com base no comportamento do usuário. Esse mecanismo tende a reforçar determinadas crenças e criar bolhas espirituais, nas quais o indivíduo é constantemente exposto a perspectivas semelhantes às suas. Com isso, cria-se o risco de isolamento ideológico que ocasiona uma visão de mundo limitada. Além de manter a concentração do usuário no ambiente virtual, que prejudica a vivência religiosa autêntica, também existe o perigo de disseminação de desinformação ou conteúdos negativos. Mas também oferecem a possibilidade de aprender e transitar entre diferentes perspectivas religiosas. Se por um lado, a era digital fragmenta, por outro ela também conecta. E é nesse equilíbrio instável que a religião segue se reinventando como uma construção humana em movimento permanente.
O som das palmas marca o ritmo. Não é música ainda. É direção. É orientação. Em uma sala de ensaio na zona sul de São Paulo, braços se elevam, pés deslizam e corpos ocupam o espaço com precisão. À primeira vista, é uma aula de dança como tantas outras. Mas, ali o movimento não depende do olhar. A Associação Fernanda Bianchini Cia Ballet de Cegos construiu, ao longo de décadas, um trabalho que ultrapassa a ideia tradicional de ensino artístico. Fundada nos anos 1990, a instituição se tornou referência ao desenvolver um método próprio de ensino de dança para pessoas com deficiência visual, sem, no entanto, se limitar a isso. Hoje, o espaço acolhe alunos com diferentes tipos de deficiência e oferece atividades que vão do balé clássico ao pilates. Para a psicóloga Marina Queiroz de Andrade, especialista em inclusão social, esse tipo de iniciativa tem um impacto que vai além do aprendizado técnico. “A arte, especialmente a dança, reorganiza a forma como a pessoa se percebe no mundo. Quando o corpo encontra possibilidades de expressão, ele deixa de ser visto apenas pelas suas limitações e passa a ser reconhecido pela sua potência”, afirma.
Mais do que formar bailarinos, a dança, ali, não se resume à estética do movimento. Ela funciona como um meio de reorganizar relações, com o próprio corpo, com o outro e com o espaço, já que a dinâmica da aula revela outras formas de perceber o corpo e o espaço. As palmas e as orientações verbais funcionam como guia. O toque também se torna linguagem, mãos que conduzem, ajustam e indicam caminhos. Cria-se uma relação de troca que ultrapassa a técnica e se aproxima de uma construção coletiva do movimento. Trata-se de um processo que não ocorre de maneira imediata. Para doar e participar, clique e conheça o projeto
Há pausas, tentativas e repetições. Entre um exercício e outro, há risos, conversas, pequenos comentários que quebram a formalidade da aula e revelam o espaço como um ambiente de convivência. Na associação, a dança não é vista apenas como execução, mas também como relação. A presença de professores e bailarinos com deficiência visual reforça essa lógica. O conhecimento não vem de fora, mas é construído dentro da própria experiência. Ensinar, nesse contexto, também é partilhar vivências.
A associação funciona por meio de doações e a proposta não é apenas ensinar dança, mas criar um ambiente em que o corpo possa ser experimentado sem as limitações frequentemente impostas fora dali. A psicóloga destaca também a importância das aulas serem gratuitas. A inclusão nesse caso não acontece só na proposta, mas na possibilidade de real acesso”, conta Andrade. Em um cenário em que o acesso à cultura ainda é desigual, iniciativas como essa apontam para outras possibilidades de inclusão.