O hábito de recorrer ao GPS e aos motores de busca altera a forma como prestamos atenção e retemos informação, mas especialistas divergem sobre os impactos reais na nossa capacidade cognitiva.
por
Isabelle Muniz
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28/09/2026 - 12h

Por Isabelle Muniz

 

Para chegar à faculdade, o estudante de Administração Henrique de Lira, 20 anos, costuma fazer o mesmo caminho: entra no carro, abre o Waze e coloca o endereço do destino. Mesmo depois de percorrer a rota algumas vezes, ele continua seguindo as orientações do aplicativo para saber qual rua pegar, onde virar e quando mudar o trajeto. Henrique tirou a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) há cerca de cinco meses e passou a utilizar aplicativos de navegação com frequência desde então. A dependência do GPS fica mais evidente quando o celular deixa de ser uma opção. Ele já ficou sem bateria ou sem Internet durante um percurso e, apesar de saber aproximadamente em que região estava, não conseguia identificar exatamente como chegar ao destino. A dificuldade também aparece quando precisa explicar um caminho que já percorreu. Henrique conta que, em alguns casos, consegue lembrar apenas de partes do trajeto, mesmo tendo chegado ao mesmo lugar outras vezes.

Para ele, a diferença está na atenção dedicada ao percurso: sem o aplicativo, seria necessário observar ruas, prédios e outros pontos de referência. Com o GPS, essa tarefa fica a cargo da tecnologia. O comportamento não se limita à orientação espacial. Quando precisa lembrar de alguma informação, Henrique também costuma recorrer diretamente ao celular, em vez de tentar recuperá-la pela própria memória. A facilidade de pesquisar faz com que, muitas vezes, ele nem tente guardar a informação. A experiência do estudante ilustra uma mudança na relação entre tecnologia e memória. Funções que durante muito tempo dependeram diretamente da atenção, da memória e da capacidade de orientação passaram a ser compartilhadas com sistemas digitais. Aplicativos de navegação indicam os caminhos, mecanismos de busca encontram informações em poucos segundos e os celulares mantêm disponíveis dados que antes precisavam ser lembrados. Nesse cenário, a questão não é simplesmente determinar se a tecnologia está prejudicando ou não a memória, mas entender como a disponibilidade constante dessas ferramentas modifica a maneira como as pessoas utilizam suas próprias capacidades cognitivas. A memória humana não funciona como um arquivo que registra igualmente tudo aquilo que é vivenciado. A atenção exerce um papel importante nesse processo, já que as informações às quais uma pessoa presta atenção têm maiores possibilidades de serem elaboradas e posteriormente recuperadas. Quando uma ferramenta assume determinada tarefa, portanto, também pode mudar a quantidade de atenção e esforço dedicada a ela.

Na orientação espacial, seguir instruções passo a passo de um GPS permite chegar a um destino sem necessariamente construir uma representação mental do percurso. É possível saber que se chegou ao lugar correto sem conseguir reconstruir o caminho feito. Esse processo pode ser relacionado ao conceito de memória transacional, segundo o qual o conhecimento necessário para realizar determinadas atividades pode ser distribuído entre pessoas e fontes externas. No ambiente digital, essa lógica se amplia. Parte das informações que antes precisavam ser armazenadas individualmente pode ficar sob responsabilidade dos dispositivos. Em vez de memorizar uma informação, basta saber onde encontrá-la. Em vez de aprender um trajeto, basta saber utilizar o aplicativo que o indica.

Para o psicólogo Carlos Eduardo Malagutti, no entanto, o uso do celular, por si só, não permite afirmar que a memória esteja sendo prejudicada. A capacidade de memorizar depende de diferentes estímulos e atividades cognitivas, como leitura, diálogos e exercícios. Malagutti aponta que a facilidade de pesquisar uma informação imediatamente pode, por outro lado, alterar a forma como a própria memória é utilizada. Ao recorrer ao Google antes de tentar lembrar de alguma coisa, a pessoa pode deixar de acessar conhecimentos que já possui. A atenção também está relacionada a esse processo. Segundo o psicólogo, quando o foco está constantemente direcionado ao celular, parte da atenção que poderia estar voltada para pessoas, ambientes e acontecimentos ao redor deixa de ser utilizada. Como a atenção participa do processo de armazenamento das informações, essa divisão pode interferir naquilo que posteriormente será lembrado. No caso da orientação espacial, Malagutti não considera que o Waze necessariamente prejudique essa capacidade. Para ele, o aplicativo pode funcionar como uma ferramenta de apoio. A questão está menos na existência da tecnologia e mais na maneira como as informações oferecidas por ela são utilizadas. Mesmo quando uma ferramenta realiza parte de uma tarefa, a habilidade não precisa necessariamente ser perdida.

Ainda segundo o psicólogo, ela pode continuar preservada quando a pessoa também presta atenção e utiliza as informações necessárias para realizar a atividade. A relação entre tecnologia, memória e concentração, portanto, não se resume à ideia de que o celular estaria simplesmente destruindo a memória. O uso dessas ferramentas também envolve uma mudança naquilo que as pessoas consideram necessário memorizar e no esforço empregado para recuperar informações. A neurociência amplia essa discussão. O neurocientista Miguel Nicolelis explica que a memória humana não funciona como um arquivo digital armazenado de maneira fixa no cérebro. Trata-se de um processo biológico, dinâmico e constantemente reconstruído a partir das experiências e do contexto de cada pessoa. A partir dessa característica, Nicolelis alerta para os efeitos da terceirização contínua de funções cognitivas para máquinas. Quando dispositivos e algoritmos passam a realizar tarefas que exigiriam raciocínio, tomada de decisão ou memória, essas capacidades deixam de ser exercitadas da mesma maneira. A perspectiva ajuda a compreender situações como a de Henrique.

  Curtir  Não gosto A frase de Miguel Nicolelis, "A inteligência artificial nem é inteligente nem é artificial," reflete uma crítica às concepções populares sobre a inteligência artificial.

A frase de Miguel Nicolelis, "A inteligência artificial nem é inteligente nem é artificial," reflete uma crítica às concepções populares sobre a inteligência artificial.

O problema não está necessariamente em utilizar o Waze ou mecanismos de busca, mas na possibilidade de depender dessas ferramentas a ponto de deixar de exercitar habilidades que poderiam continuar sendo desenvolvidas individualmente. Uma experiência diferente aparece na trajetória da engenheira de qualidade Andressa Muniz, 41 anos. Ela tirou a carteira de habilitação aos 18 anos, quando aplicativos como o Waze ainda não faziam parte da rotina dos motoristas. Na época, aprender a dirigir também significava aprender a se orientar. Para chegar a um lugar desconhecido, Andressa recorria a mapas, pedia informações ou anotava instruções. Depois de repetir um trajeto algumas vezes, já conseguia fazer o percurso sem consultar essas referências. O processo dependia da observação. Praças, postos de gasolina, lojas, pontes e outros pontos do caminho funcionavam como referências para identificar onde era necessário virar. Caso não prestasse atenção ao ambiente, poderia se perder. Quando algo dava errado, também era necessário encontrar uma solução por conta própria. Errar uma rua poderia significar voltar, procurar outra rota ou pedir informações. Essas situações faziam parte do próprio processo de aprendizagem do caminho. Hoje, Andressa utiliza o Waze principalmente quando vai a lugares que não conhece. Nos trajetos habituais, muitas vezes dispensa o aplicativo.

Alguns dos caminhos aprendidos décadas atrás continuam registrados em sua memória. Para ela, a tecnologia não necessariamente tornou as pessoas menos capazes de memorizar ou se orientar. A principal mudança estaria na necessidade de utilizar essas habilidades. Com ferramentas capazes de fornecer respostas e indicar caminhos imediatamente, o esforço exigido para realizar determinadas tarefas diminuiu. A experiência de Andressa também mostra que a utilização da tecnologia não impede necessariamente a atenção ao ambiente. Quando dirige para um lugar novo, ela procura compreender o caminho e observar as referências, em vez de apenas seguir as instruções do aplicativo. As experiências de Henrique e Andressa não permitem concluir que uma geração tenha uma memória melhor que a outra. Elas mostram, porém, duas formas diferentes de aprender e utilizar uma mesma habilidade. Enquanto Andressa aprendeu a construir os trajetos a partir da observação, da repetição e da memorização, Henrique passou a dirigir em um contexto no qual essas etapas podem ser realizadas, em parte, por uma ferramenta digital. A tecnologia, nesse sentido, não apenas oferece novas formas de acessar informações. Ela também modifica quais tarefas precisam ser realizadas pela própria pessoa. O caminho pode continuar sendo percorrido, a informação pode continuar sendo encontrada e o destino pode continuar sendo alcançado. A diferença está em quanto desse processo permanece na memória de quem o realiza.

 

Após tentativa falha de reunião com o diretor executivo da FUNDASP, nova assembleia votará possível ocupação do campus Monte Alegre
por
Vítor Nhoatto
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21/09/2026 - 12h

Na manhã de sexta-feira (18), alunos, professores e funcionários da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) marcharam em protesto pacífico até a sede da Fundação São Paulo (FUNDASP), mantenedora da universidade. Sob cânticos universitários e o lema “Amar a PUC, lutar pela PUC”, o ato acabou sem resoluções, e uma nova paralisação por parte dos movimentos estudantis será votada na próxima terça-feira (22).

“A gente solicitou, na nossa concepção, coisas básicas para uma universidade como a PUC funcionar, e o padre não nos deu ouvidos. A ideia é que a gente não pare até que sejamos ouvidos.” Essa foi uma das falas de Íca Iyamí Nishimoto, presidente do Centro Acadêmico de Serviço Social na PUC-SP, após o não comparecimento do diretor-executivo da FUNDASP, padre José Rodolpho Perazzolo. 

As reivindicações a que Íca se refere já são antigas, mas ganharam força especialmente após o anúncio da adoção da plataforma Educaopen para a concessão e renovação de bolsas de estudo em 13 de agosto. A ferramenta analisa, por meio da tecnologia open finance, movimentações dos alunos e seus familiares para determinar se deveriam ou não receber, ou continuar com a bolsa de estudos. 

Mais detalhes sobre como isso funcionaria e quais dados e períodos seriam analisados, não foram fornecidos aos estudantes, mesmo após pedido formal do Centro Acadêmico de Relações Internacionais (CARI). Devido à repercussão negativa, a FUNDASP voltou atrás no dia 2 de setembro, mas a insatisfação com outros quesitos não pôde ser contida.

Reuniões internas de cada curso da PUC-SP aconteceram, até que no último dia 16, uma assembleia geral com grande quórum aconteceu no Campus Monte Alegre. Estiveram presentes centenas de alunos, funcionários e professores, que votaram por uma paralisação voluntária durante os dias 17 e 18 de setembro. Figuras políticas e candidatos como Thiago Ávila  e Isadora Brizola também discursaram em apoio aos estudantes. E assim se deu. Professores avisados e alunos fora da sala de aula, apesar de uma parte continuar como se o clima no ar não fosse de tensão. 

Mesmo assim, a mobilização era visível. Durante os dois dias, os alunos não compareceram às aulas, e realizaram produções de cartazes, rodas de conversa e outras atividades. Até que no último dia da paralisação, às 10h, os manifestantes marcharam rumo à sede da FUNDASP para pressionar o Conselho da mantenedora, que se reuniria às 10h30 com o Conselho de Mobilização para negociar.

Dentre as reivindicações apresentadas por representantes dos Centros Acadêmicos e Movimentos Estudantis da universidade, estão: melhoria na infraestrutura, aumento na concessão de bolsas pela instituição, congelamento no preço das mensalidades ou com aumento limitado pela inflação, aumento dos salários dos docentes e maior transparência em relação à situação financeira da PUC-SP.

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Alunos protestam por melhores salários para docentes contratados a partir de 2023, destacando que novas contratações recebem quase metade dos que já lecionam na PUC-SP. Foto: Vítor Nhoatto

Helena Allil, relações públicas do Centro Acadêmico de Direito (CA 22), destacou minutos antes da caminhada até a mesa de negociação na Fundação: “A paralisação é a melhor ferramenta que a gente tem para lidar com a situação atual. Estamos agindo muito bem e todos os estudantes precisam apoiar, porque a situação da PUC está catastrófica e a força estudantil precisa mudar isso.”

Segundo dados de acesso público do Ministério da Educação (MEC), o número de bolsas integrais PROUNI caiu de 284 para 146 entre 2020 e 2026. Entre 2021 e 2023, o número se manteve relativamente estável perto de 300 por ano, até que em 2024 chegou a 540 e despencou para 126 em 2025. 

Em relação à verba destinada à pesquisa, de acordo com demonstrativos financeiros da FUNDASP, o montante foi de apenas R$ 21 mil no ano passado, contra quase R$ 2,5 milhões em 2019. Para 2026, a Fundação - que chamou de falsas as informações divulgadas - se limitou a divulgar em nota no último dia 10, que mais de R$ 1 milhão foi liberado para editais de fomento à pesquisa até então. Mesmo assim, o valor não chega a 0,5% das despesas totais da instituição. 

A nota destaca obras realizadas no Campus Monte Alegre, como a revitalização da quadra e do bosque; fala sobre o aumento da mensalidade de 2025 para 2026 ter sido de 9,49% no curso de Relações Internacionais, o que estaria abaixo do limite estabelecido pelo conselho; e reforça que cumpre as regras do MEC sobre a oferta de bolsas estudantis.

No entanto, a obra mencionada na quadra levou anos para ser concretizada, após uma série de pedidos das Atléticas. A reforma do bosque inutilizou o espaço do Centro Acadêmico de Jornalismo, que foi ocupado por entulhos e teve seus móveis descartados sem autorização e ainda teve piso e paredes danificados, segundo lideranças do próprio CA.

Sobre o reajuste, o Centro Acadêmico de Relações Internacionais destaca que o aumento na mensalidade deveria ser justificado pela inflação, que foi de 4,22% segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), menos da metade do aumento registrado em um ano. Há também cobrança pelo aumento no número de bolsas fornecidas pela Fundasp para minimizar a diminuição das bolsas concedidas pelo Governo Federal - dados que, por sua vez, não estão suficientemente claros nos relatórios da fundação.

Em entrevista para a AGEMT durante o ato em frente ao prédio da FUNDASP, a candidata à reeleição como deputada federal por São Paulo pelo PSOL, Samia Bomfim, destacou o seu apoio a causa estudantil: “É necessário permitir, a partir da política de cotas, a entrada de estudantes mais pobres na universidade [...] além de se ter políticas de permanência, para garantir que os estudantes tenham o direito de se formar.” 

Professores e funcionários da PUC-SP também estavam presentes na assembleia. Entre cartazes, um megafone, mochilas de estudantes e stencils colados à mão nos tapumes da obra da futura Linha 6-Laranja do metrô na Rua Cardoso de Almeida, escutava-se um único grito: pelo direito básico que é a educação de qualidade para todos.

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Estudantes foram orientados a colar cartazes apenas nos tapumes da obra do metrô, para evitar acusações de vandalismo por parte da Fundasp. Foto: Vítor Nhoatto

Questionada pela AGEMT sobre a ausência de Rodolpho na reunião, a FUNDASP respondeu: “Temos a informar que, a pedido dos estudantes, reiterado em assembleias, o padre Rodolpho está fora dessas negociações. O padre João Júlio, diretor-executivo como ele, atendeu o Conselho de Mobilização dos alunos da PUC-SP, mas os representantes se recusaram a seguir em negociação”. A Fundação não deu mais detalhes sobre esse “pedido dos estudantes” para que o padre Rodolpho ficasse de fora das negociações, e os estudantes repudiaram a ausência.

Gritos de “Fora Rodolpho” foram entoados, e grande parte dos cartazes produzidos atacava o padre. Em comunicado nas páginas dos CAs na rede social Instagram, o Conselho reiterou que “agradeceu aos representantes da Fundação a recepção”, mas que “não há sentido em uma reunião sobre as negligências da gestão de Rodolpho sem que o próprio esteja presente” 

Com a falha nas tratativas, o Conselho realizará novamente uma assembleia geral na PUC-SP na próxima terça-feira (22), às 10h e às 18h. Nela, será discutida e votada uma nova paralisação e uma possível ocupação do campus Monte Alegre, tal qual ocorreu em maio do ano passado, também por conta de problemas de infraestrutura e sucateamento. Além disso, um novo e-mail solicitando uma reunião expressamente com o padre Rodolpho foi enviado à Fundasp.

“Se o padre não ouvir os estudantes, a gente vai paralisar, e se continuar, vamos votar uma ocupação, e se mesmo assim não ouvir, vamos ocupar a PUC-SP,” garantiu Laís Hera, presidente do CA de Direito, logo após a ausência de Rodolpho na reunião ser anunciada em frente ao prédio da Fundação. 

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Histórico de lutas da instituição, principalmente durante a ditadura militar, foi lembrado por estudantes que marcharam até o prédio-sede da FUNDASP, na manhã de sexta. Foto: Vítor Nhoatto

Ao som da Bateria do curso de Relações Internacionais, entre cantos, cartazes e sob um sol que há dias não aparecia em São Paulo, os estudantes marcharam de volta ao campus sem resposta. “Se a paralisação se estender para a próxima semana, eu não tenho nenhum problema em vir aqui com o pessoal”, frisou Luciano Paulino, diretor de eventos da BateRI. 


 

As dificuldades contemporâneas da geração criada entre telas
por
Rafael Pessoa
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28/09/2026 - 12h

Por Rafael Pessoa

 

Por volta das três horas da tarde, o colégio estava silencioso. Poucas crianças pelos corredores, com exceção de um grupo sentado em um canto, próximo à saída. Todas mexiam no celular. A cena, apesar das restrições ao uso dos aparelhos dentro da escola, já se tornou comum. A frente, numa sala tecnológica é ali que o professor Marcelo Vieira passa boa parte de suas aulas de Tecnologia Educacional no Colégio Santa Marcelina. O ambiente tinha cheiro de MDF queimado, deixado pela máquina de corte a laser. E nela viam-se fios de todas as cores e deles eram feitos os carrinhos que estavam estacionados prateleiras acima. Marcelo, como educador, questiona até mesmo o nome dado à tecnologia que ensina. Para ele, chamar esses sistemas de inteligência artificial é inadequado, já que eles não são capazes de inteligir. A máquina, segundo o professor, não apreende a realidade da mesma maneira que um ser humano.

Uma das etapas do processamento que ajuda a explicar seu funcionamento é o chamado tokenizador. Ao receber um texto, o divide em partes menores, os tokens, que podem representar palavras inteiras, pedaços de palavras ou caracteres. Cada uma dessas partes recebe uma identificação numérica que pode ser processada pelo modelo. Na prática, o tokenizador transforma a linguagem humana em uma linguagem robótica. Para demonstrar isso, Marcelo utiliza uma frase em que a palavra manga aparece com sentidos diferentes: o menino subiu no pé de manga e sujou a sua manga; depois, seu amigo, ao vê-lo, gritou  não manga de mim. Embora a palavra apareça de maneira semelhante, sua posição e seu significado dentro das frases interferem na forma como ela é processada.

A discussão sobre tecnologia, porém, não termina na inteligência artificial. Alguns andares abaixo da sala do Marcelo, próximo à sala dos professores, trabalha Davi, ex-aluno do colégio que atualmente atua na área de Tecnologia da Informação. Ele conta que já recebeu pedidos de ajuda que chamaram sua atenção. Entre eles estavam estudantes mais novos com dificuldades para realizar tarefas consideradas básicas no ambiente digital, como enviar um e-mail. Segundo Davi, isso se dá porque a escola deixou de oferecer aulas de informática. A educação física também perdeu parte de seu espaço na grade. Marcelo afirmou que as mudanças não atingem apenas o contato dos alunos com computadores e ferramentas digitais, mas também as oportunidades de desenvolver habilidades fora do conteúdo tradicional das disciplinas.

Marcelo diz perceber algumas dessas dificuldades em situações simples do cotidiano. Em sala, observa alunos que precisam de orientação constante para realizar determinadas tarefas. E em casa, já viu o próprio filho encontrar dificuldades para realizar atividades manuais, como cortar um pão. Quando questiona o motivo da dificuldade, a resposta costuma ser: “Faziam para mim”. Para o professor, experiências como essas podem produzir efeitos que aparecem apenas mais tarde. A dificuldade em utilizar uma ferramenta, solucionar um problema ou realizar uma tarefa cotidiana pode não ser percebida imediatamente como uma consequência da formação escolar. Mas, dentro da sala de aula, algumas dessas dificuldades já começam a aparecer.

AULA 2

Uma semana depois, dessa vez às 10h45min da manhã, o colégio parecia seguir o mesmo ritmo. O sinal tocou e Marcelo chamou os alunos para entrar. Nas mesmas cadeiras onde eu havia sentado anos antes, agora estavam outras crianças. Era uma turma do oitavo ano. Marcelo explicou aos alunos que eles iriam para outra sala para a entrega das notas e que, enquanto isso, deveriam responder a um formulário. Na sala, quatro meninas se sentaram em uma mesa ao fundo. No começo, conversavam entre si enquanto aguardavam as orientações. Marcelo pediu que mostrassem os carrinhos construídos ao longo do semestre. Eram diferentes entre si. Um era circular, outro mais retangular; alguns tinham rodas maiores, outros menores. Havia carrinhos pintados de verde, roxo e vermelho. Apesar das diferenças, todos tinham algo em comum: fios saindo de diferentes partes da estrutura. As próprias alunas explicaram que às vezes se confundiam com a ligação dos fios.

A tentativa de explicar como haviam construído os carrinhos foi interrompida diversas vezes pelas conversas paralelas delas e da sala. A sala estava barulhenta e a atenção das alunas se dividia entre a atividade, os colegas e os pedidos que vinham de outros pontos do ambiente. Quando perguntadas se conseguiriam construir um carrinho daquele tipo novamente sem as instruções recebidas durante o projeto, elas não demonstraram segurança. Uma das meninas contou ainda que havia pintado uma placa e, durante o processo, danificado o sistema. Segundo ela, depois de algum tempo o carrinho voltou a funcionar porque havia “desqueimado”. Logo depois, quiseram mostrar os carrinhos funcionando. Dos quatro que estavam sobre a mesa, apenas um realizava a tarefa proposta pelo professor: andar para frente e parar quando encontrar um objeto. Os outros se movimentavam apenas para trás ou não paravam diante do obstáculo.

A tentativa de solucionar o problema começou com uma hipótese simples. As meninas arrancaram o sensor que estava preso com cola quente e tentaram invertê-lo, acreditando que a mudança poderia fazer o carrinho funcionar.

Enquanto isso, a sala continuava chamando pelo professor:

“Marcelo, onde está a cola quente?”

“Marcelo, onde está a chave de fenda?”

“Marcelo, o que é para fazer?”

 E o professor dividia a atenção entre os alunos que atendia individualmente e os pedidos que surgiam ao redor da sala.

Enquanto uma das meninas tentava fazer o carrinho voltar a funcionar, outra suspeitou que poderia haver um problema na fiação. Pediu cola quente para prender novamente o sensor e uma chave de fenda para mexer nos fios. Durante alguns minutos, reclamou com a amiga porque acreditava que ela havia recebido a ferramenta errada. Até perceber que o problema estava em suas próprias mãos: ela estava girava a chave para o lado errado. A situação chamava atenção porque aquelas alunas estavam no oitavo ano e já tinham contato com esse tipo de atividade desde o sexto. Mesmo depois de dois anos trabalhando com o conteúdo, algumas dificuldades apareciam justamente em tarefas necessárias para solucionar um problema que surgiu durante a montagem.

A atividade seguinte mudou o tipo de desafio. Agora, diante do computador, os alunos receberam a tarefa de fazer com que um personagem, ao bater em uma parede, voltasse. Em outras mesas, algumas crianças conversavam, mexiam nos computadores e pouco reagiam quando eram questionadas. As respostas eram curtas, geralmente apenas “sim” ou “não”, antes que voltassem àquilo que faziam na tela.

A mesa que apresentava esse comportamento, porém, era também a que havia apresentado melhor desempenho nas atividades. Os alunos não demonstraram grandes dificuldades para realizar a tarefa do carrinho e tampouco para cumprir a atividade digital.O problema estava em outro lugar. Nos computadores, não havia o formulário pedido por Marcelo. A plataforma utilizada pelo colégio também não estava aberta. Nas telas apareciam jogos e vídeos do YouTube.

A mesma tecnologia que poderia ser usada para realizar a atividade proposta estava sendo utilizada para outra finalidade. A dificuldade, portanto, não parecia estar simplesmente em saber operar um computador. Os alunos sabiam navegar, encontrar vídeos e jogar. O que estava em disputa naquela sala era como fazer com que essas crianças utilizassem a tecnologia para aprender e resolver problemas.

No fim daquela aula, os carrinhos continuavam sem funcionar e os formulários ainda não haviam sido respondidos. Cerca de 45 minutos haviam sido consumidos entre tentativas de conserto, conversas e jogos nos computadores. Além de todas as complicações durante a aula Marcelo ainda encontrava dificuldade para finalizar a aula. Pedia aos alunos que deixassem os materiais nos lugares onde haviam encontrado e voltassem para a sala. A resposta vinha em coro, entre gritos de “calma” e pedidos por “só mais cinco minutos”.

Durante aqueles 45 minutos, porém, eles demonstraram saber utilizar algumas das ferramentas disponíveis. Navegavam pelos computadores, encontravam jogos e vídeos e conseguiam realizar determinadas tarefas quando recebiam orientação ou eram obrigados por que a atividade valia nota. As dificuldades apareciam quando era necessário utilizar esses mesmos recursos para solucionar um problema, seguir uma sequência de instruções ou trabalhar sem a intervenção constante do professor.

A perda da capacidade de leitura de um hardware de videogame é a mesma perda da memória de uma geração
por |
28/09/2026 - 12h

Por Daniela Cid

 

Yago de Castro é um executivo na indústria farmacêutica e entrou para o mundo dos jogos quando ainda era criança. Por questões financeiras, não conseguiu, logo de cara, comprar um Playstation, então assim como muitos de sua geração, adquiriu um Super Nintendo. O famoso console que tornou Mario Kart um ícone no mundo inteiro se utilizava de cartuchos para seus jogos, que na infância de Yago podiam ser alugados em locadoras de filmes VHS. Muitos destes cartuchos não eram oficiais da Nintendo, eram piratas. Ele conta que ficava muito feliz quando encontrava um com a imagem do Pikachu, mas hoje entende que talvez aquilo nem fosse um game da própria Nintendo.

Foi a pirataria que possibilitou não somente a entrada de Yago no mundo dos jogos, mas a de uma geração inteira. Conforme a idade foi passando, conseguiu finalmente adquirir um Playstation. Entretanto, a facilidade que tinha em conhecer e testar novos jogos devido à pirataria dos cartuchos não foi a mesma. Os jogos da PlayStation na época eram equivalentes a 1 ou 2% de um salário-mínimo. Hoje, podem chegar a até 30%. Um custo que vai além das questões financeiras, exclui desse universo quem não pode pagar por esse preço.     

Para Yago, jogar não é apenas um momento de diversão, é um estilo de vida. Além de apreciar a arte, ele também o utiliza como um momento de descontração, relaxamento e encontro. Vindo do interior de São Paulo para a capital, se conecta com o irmão que está na cidade natal para jogarem juntos, assim como o faz com muitos amigos. O jogo possibilita o engajamento coletivo dentro de uma história ficcional para que juntos um objetivo seja alcançado.  Assim como a indústria cinematográfica e literária, os jogos desenvolvem um imaginário inconsciente a partir de símbolos de referência que integram a cultura. A remediação destas obras que fundaram o universo cognitivo de milhares de jovens, ajuda na perda das memórias de base, fundamentais para a construção de uma identidade. Obras com narrativas extensas, complexas e gráficos mais desenvolvidos, passaram a ser traduzidas em português, e foram criando conexões e memórias afetivas cada vez mais fortes com seus usuários. Algumas só conseguem criar essa conexão porque estão em formato de jogo. Da mesma maneira que um espectador aguarda ansiosamente pela próxima temporada de sua série favorita, quem joga aguarda pelo próximo jogo da série que conclui a história. 

Ele conta que o momento em que se apaixonou pelo universo dos jogos foi quando experienciou o que eles chamam de sandbox. Como uma caixa de areia feita para brincar, com jogos que não tinham muitas regras e nos quais ele se via em um mundo com muita liberdade. Isso mudou quando teve a oportunidade de compra do Shadow Colossus jogo PlayStation de 2005, segundo ele um marco na vida de muitas pessoas. Trazia um mundo a ser explorado com histórias e inimigos a serem derrotados, os famosos “chefões”. Era preciso ler, entender a história e muitas vezes só era possível derrotar os colossus a partir de dicas que o roteiro do jogo dava, em inglês. Na época, não sabia falar muito bem a língua, e a comunidade que hoje existe na Internet ainda não era tão acessível. Então, pediu à tia, que era fluente, para ajudá-lo a compreender e atingir seu objetivo. A partir de então, percebeu que os jogos poderiam proporcionar mais do que apenas um lugar para brincar, mas um ambientede histórias, onde ele poderia imergir, aprender e fazer parte.Sua relação com esses outros mundos o ajudou a construir o próprio entendimento do seu. A tatuagem que cobre seu braço esquerdo inteiro trás referência de God of War, jogo para PlayStation II de 2005,e revela sua paixão pela obra cuja narrativa é baseada na mitologia nórdica, outro assunto de muito interesse para Yago. A progressão da indústria cresceu junto com o interesse dele pelos jogos.  

A mesma experiência ocorre para Thomy Fernando Takata, 32 anos, executivo no mercado de Tecnologia e amigo de infância de Yago. O universo dos jogos se aproxima do mesmo do cinema e da literatura. Consome jogos FPS (First Person Shooter), RPJ (Role-playing game) e MMORPG (Massively Multiplayer Online Role-Playing Game) desde cedo. Nestes tipos de jogos, universos são criados a partir de histórias em que o jogador está inserido em uma narrativa complexa, e atua sozinho ou em conjunto com outras pessoas. Numa mistura de Teatro, Literatura e Cinema, o usuário é colocado em um ambiente extremamente imersivo onde não só aprende novas histórias através do estímulo da leitura e da escuta, mas também participa da situação. Segundo Thomy, os jogos tiveram grande influência no seu desenvolvimento cognitivo e cultural. O que ele não lê em livros físicos ou assiste em filmes, o faz durante os jogos. 

Jay David Bolter e Richard Grusin em seu livro Remediation: Understanding New Media, publicado em 1999 conceituou o termo remediação, que é o processo em que uma nova mídia reutiliza e transforma uma mídia anterior, mantendo algumas características enquanto descartam ou atualizam outras. Quando uma história é escrita no papel, passada para o computador, transformada em livro, ou o livro vira filme e o filme vira videogame, ela está sendo remediada. E assim como um telefone sem fio, quando uma informação é passada para outro meio, ela adquire um novo significado e algo é perdido. No mundo dos jogos, a cada ano que passa os produtos de grandes empresas como Sony, Nintendo e Tencent surgem com mais tecnologia de imersão, em novos meios, mais extensos e mais caros. 

Novos consoles são lançados, ao passo em que mais usuários optam pelas plataformas digitais por serem menos onerosas. A remediação é feita muito rapidamente e novos hardwares não são mais capazes de ler jogos clássicos antigos. Além da exclusão financeira, perde-se repertório. Novas gerações de gamers não terão acesso a histórias clássicas que pavimentaram o mundo dos jogos. Podem até experimentar novas narrativas que se utilizem das mesmas referências, mas não as compreenderão em sua totalidade, transformando a identidade em algo raso.  

Recentemente, a Sony anunciou que em breve não produzirá mais mídias físicas com a justificativa de que houve uma forte mudança nas preferências de consumo do público, com a grande maioria dos jogadores priorizando o formato digital há algum tempo. Existe a hipótese de que da mesma maneira que Yago recorria à pirataria devido ao preço e ao acesso a novas histórias, o aumento da procura por jogos online se deveria ao fato de serem mais baratos, além de existir uma infinidade de plataformas e de estilos de jogos que diversifica a audiência. Facilita a vida das pessoas que querem jogar algo, pois não necessita de um console. Hoje também é crescente o número de pessoas pelo celular, expandindo o universo dos jogos e descontruindo a imagem estereotipada do gamer, um cara nerd, introspectivo e fechado em seu próprio mundo. O ponto negativo de tirar a mídia física é ficar preso a essas grandes plataformas. Atualmente, a Sony possui jogos online através da PlayStation Store, além dos discos, e pela PlayStation Plus, um catálogo de jogos para assinatura. Houve uma polêmica envolvendo a multinacional dona do PlayStation, gerada a partir de e-mails em massa enviados para usuários de conta da marca, afirmando que os usuários não compram o jogo em si, mas sim uma licença de uso digital, que é limitada, revogável e intransferível. Dentro da plataforma, o botão diz "Comprar", e induz o jogador comum a acreditar que é dono definitivo do jogo. No entanto, a defesa da Sony deixa claro que, se a empresa quiser revogar o acesso, banir uma conta ou se os servidores de uma plataforma futura forem desligados, o jogador pode perder o acesso aos títulos digitais pelos quais pagou preço cheio. Grande parte da comunidade se revoltou com este fato, somado ao fim da produção das mídias físicas. O grande problema não está somente no engano gerado nos usuários, mas na sensação de perda de uma suposta propriedade e, principalmente, de um arcabouço de linguagem. 

Ensaiar uma civilização que perdeu toda sua história pois não tinham arquivos em mídia física não é algo que se passa naturalmente pela mente de quem vive a vida correndo de um lado para o outro, dependendo de infinitos sistemas operacionais para as ações do dia a dia. A ideia de que tudo está no meio digital, travado por contas e servidores de empresas que detém os direitos de propriedade e que os usuários têm apenas uma permissão para acessar é relativamente recente. Alienadamente são os próprios usuários das redes sociais que transferem seus dados íntimos para uma máquina de leitura e repetição de padrões de dados sem a consciência de que tudo o que cai lá passa a ser propriedade das empresas por detrás das plataformas. Nós esquecemos tudo o que está lá, mas a plataforma não. O debate a respeito da sustentabilidade para manutenção de plataformas digitais e manutenção da memória também não traz muita esperança e questiona a longevidade de um mundo onde a identidade é um avatar.  

 

Pesquisa do FBSP mostra que registros de agressão doméstica aumentam 28%
por
Carolina Nader
Gabriela Thier
Malu Malaquias
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28/08/2026 - 12h

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) lançou, no dia 11 de agosto, a segunda edição do estudo Futebol e Violência contra a Mulher. O documento relaciona o esporte aos casos de violência doméstica. O estudo não enquadra a modalidade como causa, mas expõe, a partir dela, dinâmicas violentas e a normalização da agressividade masculina.

A análise da relação entre o calendário de algumas das principais competições de futebol – Campeonato Brasileiro (Série A), Copa Libertadores e Copa Sul-Americana – e a violência contra mulheres foi feita a partir de dados inéditos coletados de cinco capitais brasileiras (Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre), no período de 2023 a 2025.

Segundo o relatório, foram levados em conta um conjunto de variáveis de controle, como as condições ambientais de chuva e temperatura, os dias da semana, meses e anos. 

A pesquisa parte do princípio de que o futebol vai além da prática esportiva, uma vez que também é um ambiente de socialização, em sua maioria masculina. Nos estádios, os torcedores aprendem e reforçam a ideia do que é “ser homem”, por meio de atitudes como cânticos, xingamentos, territorialidade da torcida e disposição para o confronto. Nesse ambiente, alguns comportamentos são valorizados como “demonstrações de masculinidade”. O problema, de acordo com o documento, aparece quando essas características passam a ser associadas ao pensamento de que ser homem significa exercer controle e superioridade.

O relatório afirma que a masculinidade construída nesses espaços é relacional e hierárquica, a qual se afirma pela oposição a outros homens considerados “insuficientes” ou que não correspondem ao modelo masculino dominante. Por exemplo, a feminização do rival pode ser utilizada como forma de inferiorizá-lo. Assim, aquilo que é associado ao feminino ou à vulnerabilidade passa a ser colocado como algo inferior.

Ao utilizar a ideia de Rita Segato, antropóloga, feminista e escritora argentina, - de que existe uma espécie de “obrigação social” para que homens demonstrem continuamente virilidade, potência e controle perante outros homens - o estudo entende que os padrões de comportamento masculinos, muitas vezes, são socialmente construídos e reproduzidos. Os estádios são classificados como uma espécie de “currículo de masculinidade” - onde essas atitudes são aprendidas e hierarquizadas. 

De que modo isso se conecta à violência contra mulheres?

Essas ideias podem aparecer nas relações íntimas. Por esse motivo o futebol não é o “causador” das violências, mas pode funcionar como um contexto que intensifica comportamentos misóginos e machistas, presentes nas relações de poder que existem historicamente na sociedade. 

O relatório diz que o futebol pode funcionar como um “catalisador de dinâmicas patriarcais preexistentes”. A análise empírica realizada pelo FBSP reforça essa relação: nos dias de jogos, os registros de ameaça contra mulheres aumentaram 27,4%, enquanto os de lesão corporal dolosa decorrente de violência doméstica cresceram 28,8%. Entre mulheres de 15 a 29 anos, os aumentos chegam a aproximadamente 44% nos dois tipos de ocorrência. Levando em consideração o calendário de partidas da elite do futebol brasileiro, isso ocorre em, no mínimo, cinco dias da semana.

Além disso, existem outros fatores que potencializam as agressões, como as rivalidades, frustrações, álcool, apostas e as relações de gênero já desiguais. Em comparação com a primeira edição do estudo, publicada em 2022, quando os aumentos eram de 23,7% para ameaças e 20,8% para lesões, os dados atuais sugerem uma intensificação dessa associação e um crescimento proporcionalmente maior das agressões físicas, passando para 27,4% e 28,8%, respectivamente. 

Esse contexto pode ser mais destacado quando olhamos para mulheres que participam do ambiente esportivo, já que historicamente no Brasil há uma exclusão do público feminino. Legalmente, somente em 1983 a CND (Conselho Nacional de Desportos), antigo órgão responsável por todas as regulações da prática esportiva passou a permitir que o futebol feminino fosse praticado no país. A instituição, extinta em 1993, foi criada por Getúlio Vargas em 1941 e proibia mulheres de praticar esportes que não fossem da “natureza feminina” , atualmente extinto, 

Ainda assim, temos até os dias de hoje resquícios desta imagem do futebol diretamente relacionada a “dominância masculina”. Em entrevista para a AGEMT, Thaís Togneri, 35, ex-jogadora e professora de futebol, falou o quão recente são estas mudanças de cenário.

Thaís Togneri em seu trabalho como professora de futebol. Imagem: Reprodução/Instagram/@quadradoxuxa
Thaís Togneri em seu trabalho como professora de futebol. Foto: Reprodução/Instagram/@quadradoxuxa

“(Quando Comecei) Era muito comum ouvir que futebol não era para mulher. Como os homens sempre tiveram uma predominância muito grande nesse esporte [...] participei dos Jogos Regionais representando as cidades de Guararema e Poá. Cheguei a fazer um teste no Juventus, mas não passei. Na verdade, nunca cheguei a buscar de forma concreta uma carreira profissional como jogadora, muito porque, naquela época, as oportunidades para as mulheres eram ainda mais limitadas.”

O Futebol faz parte da vida de Thaís desde os oito anos de idade, sempre sendo evidente, mesmo que não diretamente, a diferença de tratamento que as meninas e mulheres do esporte recebem em relação aos meninos e homens. Elas acabam tendo que se provar serem merecedoras deste espaço bem mais do que o público masculino.

 “[...] acredito que isso acontece até hoje [...] para ocupar esse espaço, muitas vezes precisamos mostrar, através do nosso trabalho e da nossa capacidade, que também pertencemos a ele”, relata a professora.

Bets, álcool e o aumento dos fatores de risco

Nos últimos anos, as apostas esportivas online, conhecidas como “bets”, passaram a ocupar espaço central nesse universo, patrocinando campeonatos, clubes e transmissões. Embora o estudo do FBSP ressalte que o futebol não é responsável pela violência direta contra as mulheres, fatores ligados ao esporte, como o consumo de álcool e a expansão desse mercado, podem potencializar conflitos já existentes. 

Na pesquisa, segundo Juliana Brandão, pesquisadora e coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), situações como perdas financeiras, frustração com resultados esportivos e comportamentos impulsivos ligados ao jogo podem aumentar tensões dentro de casa, especialmente quando já têm contextos marcados por controle, agressividade e desigualdades de gênero. 

Além disso, a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) afirma que o álcool e um fator de risco associado a violência praticada por parceiros íntimos e a violência sexual, uma vez que pode reduzir o autocontrole e favorecer comportamentos agressivos.

Assim, especialistas defendem que tanto o consumo excessivo de bebidas alcoólicas como apostas, devem ser tratadas como temas de saúde pública e prevenção da violência, e não somente como questões individuais.

A responsabilidade de clubes, federações e torcidas

A participação dos clubes em minimizar essa cultura machista dentro do futebol existe. Thaís descreve uma grande evolução em comparação a quando ela estava começando e cita exemplos de grandes clubes, como o Corinthians. Hoje em dia, o time consegue lotar estádios com a equipe feminina, mas também nota essa presença nas categorias de base.

“Eu vejo isso também no meu trabalho. No ano passado, por exemplo, uma das minhas alunas foi para a categoria de base do Centro Olímpico, em São Paulo, e passou a ser direcionada para treinar e jogar com as meninas da base.”, afirma.

Porém o problema vai para além do campo e os números indicam necessidade de ação de todas as partes.

Diante do crescimento dos casos registrados em dias de jogos, o relatório argumenta que o combate às agressões contra mulheres precisa envolver todos os atores que fazem parte do universo do futebol.

Clubes e federações podem atuar na promoção de campanhas educativas, na divulgação de canais de denúncia e na implementação de protocolos de acolhimento às vítimas. Também podem investir em ações e formação voltadas a atletas profissionais e das categorias de base, abordando temas como respeito, igualdade de gênero e prevenção da violência. 

Algumas iniciativas recentes mostram como o futebol pode assumir esse papel de forma mais ativa. Em novembro de 2025, Corinthians e Botafogo realizaram uma ação conjunta de conscientização contra o feminicídio. Na partida entre as equipes, os uniformes trouxeram mensagens de conscientização, combinando as campanhas “Quem Matou?”, do Corinthians, e “Números Quebrados”, do Botafogo, com o objetivo de chamar a atenção para os altos índices de violência de gênero no país. Reforçando a avaliação de que clubes são agentes com capacidade de influenciar comportamentos e mobilizar seus torcedores, mostrando como campanhas de conscientização poderiam ocorrer com maior frequência no futebol brasileiro.

Acima, detalhe do uniforme do Corinthians com a mensagem da campanha “Quem matou?”. Abaixo, o número estilizado da campanha “Números Quebrados” inspirados em radiografias de mulheres vítimas de agressão, do Botafogo. Foto: Reprodução/ Instagram/ @corinthians/ @botafogo
Acima, detalhe do uniforme do Corinthians com a mensagem da campanha “Quem matou?”. Abaixo, o número estilizado da campanha “Números Quebrados” inspirados em radiografias de mulheres vítimas de agressão, do Botafogo. Foto: Reprodução/ Instagram/ @corinthians/ @botafogo

As torcidas, apontadas como parte fundamental da mudança cultural, também podem contribuir para o enfrentamento de discursos machistas e promover uma construção de uma cultura esportiva mais inclusiva, desvinculando a masculinidade de comportamentos agressivos e relações de dominação. 

A discussão ganha ainda mais relevância em um cenário no qual mulheres ocupam cada vez mais espaço nas arquibancadas e na prática esportiva, mas continuam convivendo com situações de assédio, discriminação e violência dentro e fora dos estádios.

O que pode ser feito?

Além de apresentar os resultados da pesquisa, o FBSP elaborou recomendações para enfrentar a violência contra a mulher associada aos contextos futebolísticos. Entre as principais medidas estão:

  • criação de postos permanentes de acolhimento e denúncia dentro dos estádios;
  • monitoramento mais rigoroso de casos de violência doméstica e do cumprimento de medidas protetivas;
  • desenvolvimento de programas educativos sobre masculinidades e igualdade de gênero;
  • criação de estratégias voltadas para os impactos do consumo abusivo de álcool e das apostas esportivas;
  • fortalecimento de iniciativas que tornem os estádios mais seguros e acolhedores para mulheres.

 

Os dados dessa pesquisa informam que a violência contra as mulheres vai além dos estádios e reflete desigualdades ainda presentes na sociedade. Nesse cenário, enfrentar o problema exige o compromisso de clubes, federações, torcidas, patrocinadores e do poder público para promover mudanças socioculturais e fortalecer a prevenção.

Para mulheres que vivenciam situações de violência, a denúncia é um passo fundamental para romper o ciclo de agressões. O canal nacional de atendimento à mulher é o Ligue 180, que funciona 24 horas por dia, de forma gratuita e sigilosa. Em casos de emergência ou risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190. Também é possível registrar ocorrência nas Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) e buscar apoio em serviços especializados de proteção e acolhimento.

 

Fraudes em compras digitais fazem vítimas perderem dinheiro e mudam a relação com cartões, senhas e dados pessoais.
por
Dhara Yuki
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14/09/2026 - 12h

Por Dhara Yuki

 

Amélia estava em casa quando percebeu algo errado com a notificação de uma transação feita em seu cartão em um mercado que fechava às oito horas da noite. Ao entrar em contato com o banco tentou resolver a situação abrindo um BO e seguindo as orientações recebidas para contestar a compra, mas o procedimento não teve o resultado esperado. No fim, a transação no valor de R$ 68 precisou ser paga. Uma compra que não havia sido feita por ela acabou se transformando em uma despesa que precisou assumir. Depois disso, outra tentativa de compra aconteceu, mas desta vez, o valor era muito maior, sendo uma transação de aproximadamente R$ 5.900. A transação teria sido feita pela internet, uma compra em um site de marketplace, mas, por falta de limite no cartão, o banco entrou em contato para saber se Amélia autorizava a compra. Ela não reconheceu o valor e, diante da possibilidade de uma movimentação de milhares de reais, foi diretamente ao banco.

Dessa vez, ela conseguiu que a compra não fosse autorizada recebendo ajuda da empresa responsável pelo pagamento. Conversando com a atendente do banco, Amélia disse que iria trocar a senha do cartão, mas o procedimento adotado pela atendente foi excluir aquele e fazer um novo. O cartão foi trocado e a tentativa de utilização indevida não chegou a gerar um novo prejuízo financeiro. A diferença entre as duas situações mostra como o reconhecimento rápido de uma movimentação pode ser determinante. Na primeira situação, o dinheiro já havia sido utilizado e os R$ 68 precisaram ser pagos. Na segunda, a tentativa foi identificada antes de ser concluída. Depois das ocorrências, Amélia passou a tomar mais cuidado com o cartão. Ela conta que começou a utilizar novos procedimentos de segurança para tentar evitar que algo parecido acontecesse novamente. O que antes fazia parte da rotina de maneira quase automática passou a exigir mais atenção. O cartão, que deveria facilitar as compras, passou a representar também uma preocupação.

Segundo dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgados em 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 2.261.055 ocorrências de estelionato em 2025, um aumento de 2,7% em relação a 2024 e de 429,8% desde 2018. O número representa uma média de 258 casos por hora, ou quatro por minuto. Entre as ocorrências, mais de 346 mil foram golpes digitais, que cresceram 20,6% no período. Os dados incluem diferentes formas de fraude, desde golpes tradicionais até aqueles realizados por meio de links, aplicativos e redes sociais.

Por isso é fundamental conferir movimentações, perceber valores que não reconhece e procurar o banco quando alguma coisa parece diferente passaram a fazer parte da experiência de Amélia. A primeira fraude trouxe uma perda financeira pequena quando comparada à segunda tentativa, mas o impacto não está apenas na quantidade de dinheiro envolvida. Quando uma pessoa percebe que uma compra foi feita em seu nome sem sua autorização, também precisa lidar com a sensação de que perdeu o controle sobre algo que deveria estar sob sua responsabilidade.

Depois do episódio, a experiência mostrou que a segurança de uma compra não termina quando a transação é aprovada. Para quem já teve o cartão utilizado indevidamente, cada nova movimentação pode carregar a necessidade de conferir, desconfiar e agir rapidamente, deixando uma preocupação muito maior, a de que, no mundo das compras digitais e dos cartões, nem sempre o dinheiro sai da conta pelas mãos de quem é seu dono.

No caso de Amélia, ainda não se sabe como os dados do cartão foram acessados por outra pessoa e qual a possibilidade de serem usados em outras fraudes. A hipótese é que talvez tenham acessado a sua conta do site e o cartão estava salvo nos dados do seu perfil, mas existem casos em que a pessoa que pretende aplicar o golpe vá diretamente até a pessoa.

Foi o caso de Andrea que estava olhando um anúncio de uma churrasqueira no Facebook e entrou em contato com o vendedor. A pessoa do anúncio pediu seu número e a ligou por chamada de vídeo, o que parece uma ação até de confiança. Ver o vendedor, na verdade, também expõe um dado que muitos esquecem: seu rosto, que hoje em dia já é usado para desbloquear aplicativos de bancos.

Além de ter tirado capturas de tela do rosto de Andrea, o vendedor ainda se aproveitou da situação, pedindo que ela compartilhasse a tela do seu celular na chamada, fazendo com que ele conseguisse visualizar tudo o que estava sendo clicado em seu celular, aplicativos, senhas, redes sociais e bancos. Somente com esses dados, de longe, ele conseguiu acessar remotamente o celular e já começou a baixar outros aplicativos que ajudavam mais do acesso remoto. O momento que definiu toda a situação foi sua filha, que, naquele dia, estava trabalhando em casa ao invés de estar presencialmente na empresa. Ela percebeu a conversa estranha da mãe no telefone e foi perguntar o que estava acontecendo, e entender toda a situação e a exposição que sua mãe estava tendo. Já desligou a chamada do celular, apagou os aplicativos que o vendedor baixou remotamente no aparelho, trocou senhas e, por fim, como garantia, redefiniu o celular ao padrão de fábrica para limpar totalmente qualquer resquício que tenha ficado ocultado pelo golpista. Mas os golpes não se limitam a testar a fragilidade de idosos ou pouco acostumadas com o uso de aparelhos digitais.

Pessoas mais novas também são alvos de golpes virtuais, que encontram nas redes sociais um ambiente favorável para explorar a confiança das vítimas e transformar perfis aparentemente legítimos em ferramentas para aplicar fraudes. A procura por ingressos para o show do System of a Down também levou Marcelo a cair em um golpe digital. A banda havia anunciado uma apresentação no Brasil após mais de dez anos sem realizar shows no país. O primeiro evento, marcado no Allianz Parque, teve os ingressos esgotados em menos de um minuto. Com a grande procura, uma data extra foi anunciada para Interlagos, onde Marcelo conseguiu assistir à apresentação. Mas antes disso, a frustração por não ter conseguido ingressos para o primeiro show fez com que ele procurasse outras formas de compra na Internet.

Ao acompanhar as publicações de pessoas que também não haviam conseguido ingressos, Marcelo encontrou um comentário em uma página do Instagram que se apresentava como uma das maiores revendedoras de ingressos do Brasil. O perfil tinha cerca de 300 mil seguidores e aparentava ser profissional. Marcelo chegou a verificar os perfis que acompanhavam a página e, segundo ele, muitos pareciam pertencer a pessoas reais. Além disso, a conta apresentava informações como CNPJ, o que contribuiu para que a página transmitisse uma aparência de legitimidade. Os ingressos eram anunciados por valores abaixo dos praticados oficialmente e, acreditando que se tratava de uma empresa confiável, Marcelo realizou um pagamento de pouco mais de R$ 300 por Pix.

A suspeita de que havia sido vítima de um golpe surgiu imediatamente após o pagamento. Durante a conversa pelo Instagram com o vendedor, ele havia informado que o ingresso seria disponibilizado em um aplicativo de ingresso utilizado para armazenar as entradas dos eventos assim que o Pix fosse realizado. Depois de efetuar o pagamento, Marcelo acessou o aplicativo, mas o ingresso não apareceu. Ele aguardou e entrou novamente em contato com o perfil para informar que ainda não havia recebido o ingresso. Naquele momento, a conta que havia realizado a venda o bloqueou. Foi então que Marcelo percebeu que havia realizado um pagamento para um perfil falso e perdido o dinheiro.

O caso de Marcelo também não é isolado. Em janeiro de 2026, a Polícia Civil de São Paulo realizou a Operação Fear of the Pix, que investigou um esquema de venda de ingressos falsos para os shows do Iron Maiden no Allianz Parque. A investigação começou depois que uma vítima denunciou ter realizado o pagamento, mas não ter recebido os ingressos. A polícia identificou um site falso utilizado para comercializar as entradas e cumpriu mandados de busca e apreensão relacionados ao esquema.

O uso exacerbado de IA em trabalhos acadêmicos apresentam riscos cognitivos se não forem usados com ética
por
Chiara Abreu
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09/06/2026 - 12h

O avanço das inteligências artificiais (IA) tem provocado transformações profundas no cenário educacional, exigindo novas posturas tanto de instituições de ensino quanto de professores. Com a praticidade das IAs na criação de textos dissertativos, alunos tem enfrentado uma maior dificuldade na geração e organização de ideias. O uso excessivo tem contribuído para a falta de prática em alunos do ensino básico e superior. Da falta de concentração à compreensão de simples textos, a dificuldade dos alunos tem assustado os educadores, que encontram alunos cada vez menos preparados para dissertar sobre assuntos socialmente relevantes. A ferramenta apresenta um déficit cognitivo em usuários compulsivos, em que áreas como memória e pensamento crítico são severamente afetados.

Um estudo do MIT Media Lab, publicado em 2025, indica que o uso de inteligências artificiais pode ser relacionado com uma possível atrofia cognitiva. De acordo com Hugo Dória, Neurocirurgião, MD, PhD da Beneficência Portuguesa de São Paulo em entrevista à CNN, "O problema não é a inteligência artificial em si, mas o fenômeno chamado de cognitive offloading, ou terceirização cognitiva. Quando passamos a delegar funções essenciais, como pensar, estruturar ideias ou resolver problemas, o cérebro reduz seu nível de ativação nessas redes", explica.

O sistema de auto supervisionamento das IAs dificulta o auxílio do corpo docente aos alunos, já que eles têm encontrado uma dificuldade cada vez maior de detectar um texto produzido por IA, especialmente em teses e monografias. Ainda que existam programas que detectam plágio, especialmente em faculdades com mais recursos, a eficácia não é total.

Segundo Maria Eugênia D’Esposito, doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP, em entrevista à AGEMT, "se eu colocar uma redação hoje, ela vai corrigir de um jeito. Se eu colocar a mesma redação para corrigir amanhã, ela vai corrigir de outro jeito". Essa volatilidade da tecnologia torna difícil assegurar com certeza que um trabalho não teve intervenção de IA. Mas ainda existem alguns padrões fáceis de detectar, como a aparência de uma `colcha de retalhos´, em que as ideias do texto não conversam entre si", preocupa-se Maria Eugênia.

Letramento em IA para os professores seriam uma possível solução, mas a maioria das escolas não utilizam esse recurso. D’Esposito explica que qualquer atividade ou curso extra deve ser, por lei, remunerado. Essa obrigação dificulta para as instituições a implementação das especializações. Por outro lado, muitas instituições optam por “convites”, que desobrigam a remuneração, o que diminui o interesse e procura. 

Entre a conexão e o excesso: impacto no sono, na saúde mental e nas relações sociais
por
Guilherme Romero
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02/06/2026 - 12h

 O celular tornou-se uma ferramenta indispensável no cotidiano, mas o  seu uso excessivo tem despertado preocupação entre especialistas. A crescente dependência de dispositivos móveis, desde crianças até idosos, têm impactado hábitos de sono, concentração, relações sociais e saúde mental. Inclusive, comportamentos como ansiedade e estresse estão cada vez mais comuns no dia a dia das pessoas por serem dependentes do celular.

 Nesse contexto, vamos entender como essa dependência se desenvolve e quais são seus impactos na vida das pessoas. Assista a conversa com o psicólogo André Vasconcellos, em entrevista à AGEMT.

Grupo de estudantes publicitários da Belas Artes cria evento sobre a pobreza menstrual
por
Pedro Timm
Gabriel Giannini
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29/05/2026 - 12h

A quantidade de mulheres com falta de acesso às necessidades básicas e conhecimento sobre a menstruação é enorme no país. O Projeto Fluxos surge para ajudar nessa causa. A iniciativa surgiu dentro da faculdade Belas Artes, em São Paulo, por sete estudantes que promoveu dia 30/5, no Buffet Piatto, em Interlagos (SP) um evento com palestras e ativações proporcionadas pela Fluxos e seus parceiros para que mulheres tenham um espaço para falar sobre a saúde e o corpo. Para saber mais sobre o projeto, acesse @somosfluxos no Instagram. A AGEMT acompanhou o evento. Escute!

 

Saiba mais em @somosfluxos no Instagram.

Como grandes empresas conseguiram reverter o declínio do tabagismo trazendo de volta hábitos antigos e viciando jovens em novos produtos
por
Julia Naspolini
Leticia Falaschi
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22/05/2026 - 12h

Os resultados da pesquisa preliminar da Vigitel divulgados no início de 2026, revelam que houve um aumento no número de fumantes no Brasil, que estava estagnado desde 2019. A proporção de adultos fumantes nas capitais brasileiras saltou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, um crescimento de 25% em apenas um ano. Especialistas apontam preocupação diante dos números, principalmente entre os mais jovens, que além de fumarem cigarros tradicionais, se tornaram viciados nos formatos eletrônicos. O aumento no número de fumantes do cigarro original, pode ser explicado pela diminuição de campanhas públicas contra o tabagismo. Juntamente a isso, o preço mínimo do produto no país, imposto pelo governo, ficou paralizado, ou seja sem nenhum reajuste, entre 2016 e 2024.

Além disso, os “pods”, “vapes” e “juuls”, apesar de serem oficialmente proibidos pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), conseguiram se popularizar e se espalhar entre diferentes faixas etárias de forma bem rápida,  influenciando bastante o aumento do número de fumantes no país. Segundo dados da Pesquisa Nacional da Saúde Escolar, entre 2019 e 2024, o uso dos eletrônicos subiu de 16,8% para 29,6%, entre adolescentes de 13 a 17 anos. A indústria desses dispositivos cresceu de forma desenfreada nos últimos 10 anos, no Brasil e no mundo, principalmente no cotidiano dos jovens. Por alegarem não conter as substâncias cancerígenas e a fuligem resultantes da combustão do fumo, evitariam riscos de câncer, doenças cardiovasculares e pulmonares.  A promessa era sedutora, mas a realidade é bem diferente.

Além de atrativos que parecem querer captar a atenção de jovens, como sabores artificiais, aparência compacta e tecnológica e propagandas chamativas, os fatores que mais alertam os especialistas é a composição e proporção química desses produtos. Quando os lucros começam a cair, os fabricantes se renovam para continuar vendendo, e ainda mais. Compactar a nicotina num dispositivo que não tem cheiro de fumaça parece mais palatável e mais aceitável. Mas será que eles são tão inovadores? O que os consumidores raramente sabem é que por trás das nuvens perfumadas havia os mesmos donos de sempre. A Altria, a maior fabricante de cigarros nos Estados Unidos, detentora das marcas Marlboro e Parliament, investiu US$12,8 bilhões na compra de 35% da Juul Labs, empresa que domina um terço do florescente mercado de cigarros eletrônicos do país. 

A resposta está no lucro. “Essas indústrias do cigarro convencional começaram a perceber que estavam perdendo dinheiro e compraram as indústrias do cigarro eletrônico”, explica a Dra.pneumologista Manuela Truiti, em entrevista à AGEMT. “O problema é que muitas vezes esses interesses econômicos avançam muito mais rápido do que as evidências científicas conseguem acompanhar. Então, enquanto a ciência ainda está estudando os impactos de longo prazo do vape, a indústria investe pesado em marketing, tecnologia e estratégias para ampliar o consumo, especialmente entre os jovens… quanto mais tempo eles conseguirem manter uma pessoa viciada, dependente da sua substância, mais dinheiro eles vão ganhar", ressalta Manuela. 

A estratégia é conhecida. “Durante décadas, no século passado, o cigarro com filtro e o cigarro light também foram vendidos como opções mais saudáveis… e depois a gente viu que isso não era verdade. Hoje muitos cigarros eletrônicos são divulgados com uma imagem de modernidade, redução de danos e até bem-estar, o que acaba diminuindo a percepção de risco, principalmente entre os jovens”, diz a médica. 

Trata-se de uma troca, e não de uma cura. Os especialistas são categóricos: “... trocar o cigarro branco por cigarro eletrônico? Não é parar de fumar… a pessoa só está transicionando de uma forma de tabagismo para outra”, afirma a Dra. “A gente tem estudos que avaliaram o uso do vape como uma ferramenta para cessar o uso do cigarro branco, e o que eles viram, acompanhando esses indivíduos depois de um ano, é que a maioria ainda estava usando vape”, diz. 

O que é avaliado é que o vape tende a intensificar a dependência comportamental, não apenas a química. “A pessoa continua mantendo a dependência e muitas vezes até aumenta a dependência de nicotina, porque os vapes têm concentrações altíssimas e também são usados ao longo do dia em situações ou locais em que o cigarro branco não seria usado nem tolerado”. 

Manuela ainda alerta para o perigo das substâncias tóxicas produzidas mesmo sem a combustão, como no cigarro tradicional: “O vapor que é formado pelo aquecimento do líquido possui dezenas de substâncias tóxicas e algumas cancerígenas já identificadas, fora a quantidade gigantesca de nicotina, que muitas vezes equivale a centenas de cigarros”. Estudos do INCA (Instituto Nacional do Câncer) indicam que o uso do dispositivo oferece riscos diretos como dependência, doenças respiratórias e cardiovasculares, e câncer, com toxicidade que pode ser tão prejudicial quanto a versão tradicional. 

Medidas contra o tabagismo

A Anvisa nunca permitiu a produção ou a comercialização dos cigarros eletrônicos no Brasil. Mas, os cigarros tradicionais são legalizados e facilmente encontrados em bancas, mercados e lojas de conveniência, por baixos valores. Em uma campanha contra o tabagismo, a Agência e o Ministério da Saúde anunciaram mudanças nesse valor. Desde 1 de maio, o preço mínimo do maço do cigarro subiu de R$6,50 para R$7,50, e até agosto deste ano, ainda haverá um aumento na taxação de impostos dele, levando o comerciante a subir mais o valor final. Essa medida do Ministério da Saúde, tenta diminuir a prática do tabagismo, eles defendem a elevação do custo como a forma mais eficiente de diminuir o hábito do fumo.

O problema é que às vezes, ao invés de abaixar o consumo do cigarro, o aumento no preço só estimula mais o mercado ilegal. Levando as pessoas a comprarem produtos sem fiscalização e de origem desconhecida, ao invés de um lugar de confiança. O professor de Economia da PUC-SP e Conselheiro do Conselho Federal de Economia, Claudemir Galvani, elucida a questão, "o mercado ilegal realmente pode ser beneficiado, sim, claro. Se aumenta o preço aqui e não aumenta lá, que não tem imposto, não paga imposto. E isso o governo, como é que ele resolve isso daqui? Pela polícia federal para ter o controle das fronteiras. Mas, é um estímulo a mais você correr o risco de comprar uma mercadoria, porque o preço ficou muito mais caro aqui, mas é uma forma que o governo tem também de usar o seu poder de polícia”.

Além do aumento do mercado ilegal e dos riscos disso, o professor ainda aponta que um fumante viciado, não deixa de comprar o produto de seu vício, por uma diferença de preço. "É o chamado bem de demanda inelástica, ou seja, é tão fundamental para a vida dele como alimentação, como a água. Então, para ele, vai impactar, sim, no sentido que ele vai continuar comprando e vai parar de comprar outras coisas que ele entende que seja menos necessária do que o cigarro”.

Esse questionamento da real efetividade desta medida para fumantes é colaborado pelo médico psiquiatra, Dr. Ivan Sérgio Petroucic, que aponta que “o dependente estabelecido pode migrar para marcas mais baratas, pode sacrificar necessidades básicas, ou migrar simplesmente para o mercado clandestino de contrabando”. Mas, essa norma de aumento no preço mínimo e dos impostos ainda pode ajudar a afastar os jovens do cigarro tradicional e pode ajudar a diminuir o número de novos fumantes. O aumento de preços, normalmente via aumento de impostos, tem o objetivo de prevenir que novos fumantes iniciem o árduo. Principalmente os jovens. Qualquer produto que você aumente o preço, na prática, você está reduzindo o acesso a ele”, complementa o Dr. Petroucic.