Pesquisadores documentam falhas graves em chatbots usados para terapia
por
Rafael Jorge
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28/09/2026 - 12h

Por Rafael Jorge

 

Marina abre o aplicativo às 23h47min. A tela ilumina o teto do quarto, e ela digita devagar, como quem ainda está decidindo se vale a pena continuar acordada só para falar sozinha, embora, tecnicamente, não esteja. A resposta chega em menos de três segundos. É gentil, bem construída, sem pressa nenhuma, o tipo de calma que ninguém tem à meia-noite de uma terça-feira. A IA valida o que ela sente, pergunta com delicadeza sobre o que Marina lembra do pai, sugere técnicas de respiração para quando a culpa aperta o peito. Marina se sente ouvida. É a quarta noite seguida que ela conversa assim.

Marina tinha uma psicóloga, pelo plano de saúde, uma sessão por semana havia dois anos. Depois da morte do pai, ela pediu para aumentar a frequência. A operadora negou duas sessões mensais era o limite do plano básico, e mudar de categoria significava esperar noventa dias de carência. A psicóloga particular que ela pesquisou cobrava o equivalente a um terço do salário de Marina por mês. Ela fez as contas, adiou a decisão, e uma noite, sem premeditação, abriu o aplicativo de IA que já usava para revisar e-mails de trabalho.

Essa combinação, acesso limitado a profissionais, custo alto, disponibilidade zero de plantão emocional, é exatamente o que pesquisadores apontam como motor do fenômeno. Um levantamento da Harvard Business Review, divulgado em 2025, colocou "terapia e companhia virtual" no topo da lista dos dez usos mais comuns de inteligência artificial generativa no mundo, à frente de tarefas como redigir textos ou programar. Não é um uso marginal, é, hoje, um dos motivos centrais pelos quais as pessoas abrem esses aplicativos.

A explicação não é misteriosa. A tecnologia oferece coisas que o sistema de saúde mental, sobrecarregado em quase todos os países, frequentemente não consegue oferecer como resposta imediata, ausência aparente de julgamento e custo zero. Para uma geração que já resolve boa parte da vida prática pelo celular, conversar com um chatbot às vezes parece menos custoso socialmente, do que ligar para alguém e admitir que a noite está difícil.

Nas primeiras semanas, a experiência de Marina com a IA foi, à primeira vista, positiva. As respostas são organizadas, empáticas, cheias de validação, "faz muito sentido você sentir isso", "é completamente compreensível", "você está sendo gentil consigo mesma ao reconhecer isso". Ela nunca se sente julgada. Nunca é interrompida. Nunca precisa esperar uma semana para desabafar de novo.

É exatamente aqui que pesquisadores identificam o primeiro risco relevante, a validação automática excessiva. Um chatbot de uso geral é, em boa medida, otimizado para manter a pessoa engajada na conversa, o que na prática costuma significar concordar, acolher, suavizar qualquer atrito. Isso é agradável, mas pode ser o oposto do que uma análise de verdade frequentemente exige, que é também confrontar padrões de pensamento, questionar narrativas e, por vezes, gerar um desconforto que é parte do processo terapêutico. Um estudo apresentado neste ano na Conferência AAAI/ACM sobre Inteligência Artificial, Ética e Sociedade, conduzido por pesquisadores da Universidade Brown, mapeou quinze riscos éticos distintos em chatbots que atuam como conselheiros de saúde mental. A equipe reuniu sete conselheiros treinados em terapia cognitivo-comportamental para conduzir sessões simuladas com sistemas como o ChatGPT, o Claude e o Llama, usando como base conversas reais de aconselhamento humano, psicólogos clínicos licenciados revisaram depois as transcrições em busca de violações éticas. Entre os problemas identificados estavam justamente respostas que reforçavam, em vez de questionar.

Marina não sabe nada disso. Para ela, a validação constante é só um alívio depois de meses tensos. É difícil perceber um risco que se parece, ponto a ponto, com aquilo que ela mais precisava, alguém que não a interrompesse.

Numa quinta-feira, algumas semanas depois da primeira conversa, Marina escreve algo diferente. Não é um pedido de ajuda explícito, é uma frase solta no meio de um desabafo mais longo, "às vezes eu queria só dormir”. A IA responde com empatia, sugere técnicas de manejo de ansiedade, pergunta como ela está se sentindo agora. Não pergunta diretamente o que ela está pensando. Não menciona um número de apoio. Não sinaliza, de forma clara, a gravidade daquela frase.

Nada de irreversível acontece com Marina naquela noite. Ela fecha o aplicativo, dorme mal, acorda cansada. Mas o episódio é um acidente que, multiplicado por milhões de conversas ao redor do mundo, revela por que organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiram tratar o tema com urgência, em janeiro deste ano, a entidade reuniu pesquisadores, gestores públicos e profissionais de saúde para discutir especificamente o uso de IA em contextos de saúde mental, e elaborou recomendações que incluem avaliar o impacto psicológico dessas ferramentas antes da liberação ao público.

Passado o susto daquela noite, Marina continua usando o aplicativo, só que com mais cautela, evitando tocar de novo naquele assunto. O que muda, sem que ela perceba claramente, é o entorno da sua vida. A irmã liga, Marina atende, mas as conversas ficam mais curtas, porque ela já "desabafou" à noite, com a IA. A psicóloga, que ela ainda vê uma vez por semana, comenta que Marina parece mais fechada nas sessões, como se já tivesse processado tudo sozinha antes de chegar ali.

Há mais uma camada, menos visível no dia a dia de Marina, mas presente em quase todos os relatos sobre o tema, a privacidade. Nas conversas de madrugada, ela compartilhou informações extremamente íntimas, luto, culpa, pensamentos e detalhes da relação com o pai que nunca contou a ninguém além da psicóloga. Dependendo da plataforma e de suas políticas de uso de dados, esse tipo de conteúdo pode ser armazenado, processado ou, em alguns casos, utilizado para aprimorar versões futuras do próprio sistema, uma condição que a maioria dos usuários aceita em termos de uso que raramente lê até o fim.

Essa é, talvez, a linha mais difícil de enxergar quando se está do outro lado da tela, às 23h47min, sem ninguém mais para conversar. Marina não fez nada de errado. Ela só usou a ferramenta que estava disponível, gratuita e sempre acordada. O problema nunca esteve inteiramente nela, está na distância entre o que a tecnologia parece oferecer e o que ela não sabe fazer, reconhecer uma crise, dizer um "não" que ajude, e insistir para que alguém procure, de verdade, o cuidado humano que nenhuma resposta gerada em três segundos consegue substituir.

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Pesquisas da UNICAMP e de uma universidade da Espanha comprovam que consumidores acham produtos com proteína mais saudáveis sem ver sua composição nutricional
por
martim tarifa
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28/09/2026 - 12h

Por Martim Tarifa

 

Fábio tem 26 anos e desde criança quase sempre esteve acima do peso. Com o passar do tempo e principalmente durante a pandemia, Fábio se tornou obeso devido a um período difícil em questão de sua saúde mental. Ele terminou a escola durante a quarentena e se viu sem chances de ingressar em uma universidade ou arranjar um emprego. 
Com o fim da pandemia, o principal objetivo era recuperar sua saúde física e mental,  para depois pensar o que fazer da vida.

Fábio fez da academia um hábito. Executava os exercícios corretamente e se mantinha disciplinado na dieta, mas não via grandes resultados. Assim ele acabou transferindo a culpa para si mesmo e voltou a ter depressão, deixou de frequentar a academia e começou a focar apenas no emprego que havia arrumado a pouco tempo. 

Foi apenas cerca de 1 ano depois que Fábio decidiu se consultar com uma nutricionista presencialmente. Apresentando toda a sua rotina da época em que estava praticando atividade física regularmente, ficou claro para a profissional que o problema estava na alimentação. Apesar da dieta estar correta, toda proteína consumida por Fábio vinha de alimentos ultra processados e ou altos em gordura e açúcar. Algo que o jovem nem tinha parado para pensar, pois imaginava que por ter proteína e ser indicado por pessoas do mundo fitness, esse produto seria saudável. Depois disso Fábio retomou a musculação e o acompanhamento nutricional com profissionais que estavam o auxiliando de verdade e mantinham contato presencial.

 

Com o crescimento da recente moda de adição de proteína em alimentos comuns, o consumidor deve ficar alerta em como isso é uma estratégia de marketing das empresas. Ter proteína extra não torna um alimento necessariamente saudável. Um produto ultra-processado com altos índices de açúcar e ou sódio não se torna bom para a nossa saúde apenas por ter mais proteína. Porém o consumidor ainda não percebeu isso e as empresas do ramo alimentício estão aproveitando essa oportunidade. 

Uma pesquisa realizada pela FCA da UNICAMP (Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade de Campinas) entrevistou 412 pessoas para entender como essa adição de proteína principalmente destacada nos rótulos dos produtos afetava a preferência de compra dos consumidores. E os resultados confirmam a tese de que um produto ultra-processado ganha uma nova chance com os consumidores apenas por possuir no rótulo o selo light, fit, saudável e proteico. Todos os entrevistados se mostraram afetados por esse padrão. Até mesmo os consumidores que dizem não se importar com a saúde, disseram escolher alimentos com essa característica, por mais que sem saber, a fórmula continuasse a mesma em muitos casos. 

Outro estudo, publicado na revista científica Nutrients, e conduzido por pesquisadores da Universidad Complutense de Madrid, analisou 36 produtos processados enriquecidos com proteína vendidos em supermercados da Espanha. O nível de proteína desses produtos variava de 10% a 88%, mostrando o quanto essa "dose extra" pode ser exagerada. Segundo a pesquisa, apenas uma porção de alguns desses produtos, somada a 150g de carne no dia, já é suficiente para ultrapassar toda a recomendação diária de proteína de uma pessoa, chegando a até 306% do necessário em mulheres e 232% em homens. O consumidor pode estar exagerando no consumo sem nem perceber, apenas por confiar no rótulo. O estudo também aponta riscos desse excesso: o risco de pré-diabetes e diabetes tipo 2 pode aumentar entre 20% e 40% a cada 10g de proteína consumida além do necessário, além de possíveis efeitos negativos na microbiota intestinal e até ganho de peso, quando o excesso de proteína não vem acompanhado de uma redução de carboidratos ou gorduras na dieta.

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Barras de proteína são o principal alimento ultra processado do mundo fitness. 


No caso de Fábio foram as dicas de exercício, dieta e suplementos que o auxiliaram. Disse que sabia nada de academia, dieta e proteína. Tudo aprendeu na Internet. Hoje está conseguindo emagrecer e tem uma saúde mental estável para enfrentar o dia-a-dia.

Por isso é essencial que o consumidor aprenda a checar o rótulo corretamente antes de confiar apenas no que está estampado na embalagem. O primeiro passo é ignorar as chamadas na frente do produto, como "rico em proteína" ou "fit", e ir direto para a tabela nutricional e a lista de ingredientes. Nessa lista, os ingredientes aparecem em ordem decrescente de quantidade, ou seja, os primeiros da lista são os que mais compõem o produto. Se açúcar, xarope de glucose ou gordura vegetal aparecerem entre os primeiros, é um sinal de alerta, mesmo que a proteína esteja em destaque na embalagem. Outro ponto importante é observar o tamanho da porção usada como referência na tabela nutricional, já que muitas vezes as empresas calculam os valores para porções pequenas, fazendo o produto parecer mais saudável do que realmente é quando consumido na quantidade real. Por fim, vale comparar o produto "fit" com a versão tradicional do mesmo alimento, olhando lado a lado os valores de açúcar, sódio e gordura saturada, para entender se a diferença é real ou apenas uma estratégia de marketing.
    

    

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Consultas, cirurgias e anos de dor fazem parte da rotina de mulheres com endometriose, que enfrentam o desafio de serem levadas a sério
por
Maria Clara Palmeira
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28/09/2026 - 12h

Por Maria Clara Palmeira

 

Antes mesmo de saber o nome da doença, Carolina já conhecia a dor e Liliane Lima  levou quase sete anos para descobrir o que provocava as crises que a faziam abandonar o trabalho e procurar o pronto-socorro. Separadas por décadas e por experiências muito diferentes de acesso à informação e ao atendimento médico, as duas têm em comum uma doença que pode transformar a menstruação em um obstáculo para a vida cotidiana. A endometriose, caracterizada pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio fora do útero, ainda pode levar anos para ser diagnosticada e, nesse intervalo, muitas mulheres aprendem a conviver com uma dor que nem sempre é levada a sério.

A doença inflamatória e crônica que ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio, camada que reveste o interior do útero, se desenvolve em outras regiões do organismo. As lesões podem atingir os ovários, as trompas, o intestino, a bexiga e outras estruturas da região pélvica. A doença pode provocar cólicas intensas, sangramento, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais e urinárias e dificuldades para engravidar. A intensidade dos sintomas varia entre as pacientes, mas, nos casos mais graves, a dor pode deixar de ser apenas um sintoma associado à menstruação e passar a determinar a rotina de quem convive com ela.

Carolina menstruou pela primeira vez aos 13 anos. As dores, porém, já faziam parte de sua vida antes mesmo da primeira menstruação. Quando o ciclo chegou, a intensidade dos sintomas deixou de parecer apenas uma característica da adolescência, o fluxo era muito intenso, as cólicas eram fortes e os dias de menstruação passaram a interferir na rotina. 

A família conhecia a doença por conta do seu histórico familiar e, por isso, Carolina teve acesso desde cedo a uma ginecologista que já acompanhava sua mãe. Aos 14 ou 15 anos, depois de passar por exames, recebeu a confirmação, o diagnóstico chegou cedo, mas não significou que o tratamento seria simples. Diz que sempre se sentiu muito segura (com a ginecologista), ainda mais por a conhecer desde pequena. Sua mãe já fazia acompanhamento com ela, por isso cresceu tendo essa referência. Quando começou a sentir tudo aquilo, já sabia que podia ser endometriose e conseguiu investigar mais rápido.

Durante o tratamento, Carolina passou por aproximadamente sete anticoncepcionais diferentes até encontrar um que conseguisse controlar os sintomas. Por cerca de três anos, emendou as cartelas e deixou de menstruar, a estratégia permitiu que mantivesse uma rotina que, durante os períodos de crise, ficava praticamente impossível. Ela conta que era praticamente impossível ter ciclo, porque sempre Carolina parava no hospital. Quando menstruava, não conseguia seguir a vida normalmente, mas, finalmente, encontrou um anticoncepcional que funcionava, foi importante para que ela conseguisse voltar a ter uma rotina.

A endometriose afeta cerca de 7 a 8 milhões de mulheres no Brasil, o que representa entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva
A endometriose afeta cerca de 7 a 8 milhões de mulheres no Brasil, o que representa entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva

A história de Liliane seguiu por outra direção, em 1999, aos 28 anos, ela começou a sentir dores fortes antes, durante e depois da menstruação. Moradora da Vila Brasilândia, na zona norte de São Paulo, procurou os serviços públicos de saúde da região. Passou por postos, foi encaminhada para outros atendimentos e chegou à Santa Casa, entretanto, não recebeu um diagnóstico. A cada novo ciclo, a resposta era voltada para o alívio imediato da dor.

A menstruação de Liliane durava sete dias e vinha acompanhada de sangramento intenso e muitos coágulos e em algumas ocasiões, o sangue atravessava a roupa enquanto ela estava trabalhando e era preciso voltar para casa. A perda frequente de sangue provocava anemia e, nas crises mais fortes, ela precisava receber Tramal pela veia. Ela conta que sua menstruação durava sete dias, sempre muito intensa e com coágulos. Por quase sete anos, ela procurou uma resposta. A encontrou apenas em 2006, depois de conseguir um plano de saúde e na primeira consulta com um novo ginecologista, a possibilidade de endometriose foi levantada e os exames confirmaram a doença. O diagnóstico chegou quando o quadro já estava avançado. No ano seguinte, Liliane passou pela primeira cirurgia. O médico encontrou uma grande quantidade de aderências e precisou interromper o procedimento diante do risco de atingir outros órgãos. Em 2008, passou por uma segunda cirurgia, desta vez por videolaparoscopia, para retirar parte das aderências.

Foi durante esse processo que ouviu dos médicos que teria menos de 1% de chance de engravidar, a possibilidade de não ser mãe foi uma das partes mais difíceis do tratamento. Liliane queria muito ser mãe e quando o médico fala que a possibilidade de engravidar é praticamente nenhuma, mexe com o psicológico daquela mulher, as vezes até mais que a própria dor física. Precisar trabalhar o psicológico, o emocional, fazer o tratamento, passar por cirurgia e, ao mesmo tempo, saber que talvez não consiga realizar um sonho é difícil. A dor voltou ainda mais forte em 2009. Depois de enfrentar outras complicações de saúde, Liliane finalmente passou por uma histerectomia em outubro daquele ano. A cirurgia marcou uma mudança na relação com a dor que havia acompanhado sua vida durante uma década. Depois que tirou o útero, as dores praticamente cessaram. Liliane comenta que é uma diferença muito grande para quem passou tantos anos vivendo com dor. Mesmo depois com toda a adaptação, ela conta que existem outras fases como a menopausa, da alimentação, da atividade física. Apesar disso, quela dor que fazia parte da rotina praticamente deixou de existir.

Enquanto Liliane atravessava anos de consultas sem diagnóstico, Carolina tinha uma trajetória marcada pelo acompanhamento desde a adolescência. Ainda assim, anos depois, também precisou voltar ao ponto de partida: a dor. Em 2025, uma crise levou Carolina ao hospital. Ela havia procurado atendimento para receber medicação, mas sua médica decidiu solicitar uma ressonância magnética diante da suspeita de que a endometriose pudesse estar comprometendo outras estruturas. A cirurgia, que já estava prevista para acontecer em algum momento, acabou sendo antecipada.

A procura por respostas também levou Carolina a buscar outros médicos. Em uma dessas consultas, ouviu que a dor poderia ser psicológica, a fala teve um peso diferente porque vinha depois de uma cirurgia e de anos de acompanhamento médico. Liliane também conhece a sensação de procurar ajuda e não encontrar acolhimento, durante os anos em que utilizou o sistema público de saúde, ela diz que ninguém conseguiu investigar a origem das dores. Para ela, mesmo que determinados exames não estivessem disponíveis naquele momento, uma orientação poderia ter mudado o percurso.

As duas relatam que endometriose atravessou a vida para além dos consultórios e hospitais. A dor interferia no trabalho, nos compromissos e na possibilidade de planejar atividades simples. Apesar do transtorno, depois do diagnóstico, Liliane passou a falar mais sobre a doença quando amigas relataram cólicas fortes. Algumas procuraram ginecologistas e descobriram também a mesma doença. Para ela, falar sobre o assunto é também uma maneira de evitar que outras mulheres passem anos sem entender o que acontece com o próprio corpo. Ela alerta, que se a cólica é tão forte que você não consegue trabalhar, não consegue sair da cama, não consegue fazer a sua vida, procure um ginecologista e investigue.

É nesse intervalo entre a primeira queixa e a investigação que as histórias de Carolina e Liliane se encontram. Uma teve a possibilidade de investigar cedo por conhecer a doença dentro de casa, a outra precisou atravessar quase sete anos de consultas e crises até ouvir o diagnóstico. Entre as duas, permanece uma questão que ultrapassa a experiência individual: quanto tempo uma mulher precisa sentir dor até que alguém decida investigar o que seu corpo está tentando dizer?

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As pessoas relatam porque ainda não foram ao posto de saúde se proteger
por
Daniella Ramos
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28/09/2026 - 12h

Por Daniella Ramos

 

Paola Barbosa, 26 anos, moradora da Zona Leste de São Paulo, enfrenta dificuldade para conseguir se vacinar contra o sarampo. Até o momento, o estado de São Paulo registrou 37 casos e precisou ampliar sua vacinação.  Ela acorda às 5h da manhã todos os dias, sai para o trabalho às 6h e só volta para a casa às 23h, os postos de saúde costumam abrir às 7h e fechar às 19h, logo, a estudante de publicidade, se vê sem opções: sai de casa antes do posto abrir e volta depois que ele já fechou. 

Além da rotina exaustiva, os finais de semana servem como um respiro para conseguir aguentar mais uma nova semana intensa. Paola se vê entre escolher ter dinheiro para sobreviver ou ter tempo para cuidar de sua saúde. O capitalismo que move o mundo, acaba remoendo a vida da estudante em seu cotidiano e nos seus costumes. Em razão disso ela só foi ter noção de como estavam as condições da população sobre a vacinação do sarampo através de amigos que contaram para ela, em conversas descontraídas, que tinham se vacinado, pois no seu dia a dia e nas suas redes sociais, Paola não teve acesso a essa informação.

Para entender porque Paola não teve acesso à essa informação de interesse público, basta entender a lógica dos algoritmos. Um conjunto de sistemas automatizados aprenderam o que prende a atenção de cada pessoa e, a partir dessas informações, esse sistema consegue montar, em frações de segundo, um feed personalizado para cada usuário. 

O algoritmo de Paola não trouxe à ela uma informação que é de necessidade pública, que precisaria ser passada a todos, mas que não é de interesse capital, principalmente para META e o X, o que faz com que nas redes ela não tenha tão facilmente esse acesso ao que estava ocorrendo. Mas não só ela foi afetada.

Nathalia Ayub, 24 anos, publicitária da zona sul de São Paulo, passa pelo mesmo problema. Sai de casa antes do posto de saúde abrir e volta quando ele já está fechado, mas relata um diferencial: embora se tenha tentado se planejar para tomar a vacina no horário de almoço. percebeu que não havia nenhum posto de saúde perto o suficiente para ir dentro do período liberado.  Ayub ainda chegou a ter atenção nas propagandas dos relógios de rua, pois dentro do ônibus viu de longe a mensagem que os postos funcionariam aos sábados para tentar atender a população, mas com os trabalhos freelancers que ela exerce para ter uma renda extra, também não conseguiria ir no final de semana.

Ainda interessada pela vacina, Nathalia faz questão de ressaltar possibilidades para melhoria da vacinação em seu bairro de forma que ela pudesse ser contemplada também: para além da vacinação em algumas estações de metrô, ela sugere que sejam em várias estações por vários dias e tentar parcerias com supermercados, padarias e farmácias para que houvessem mais opções de lugares para se prevenir contra o sarampo. 

Assim como Paola, o algoritmo de Nathalia em nenhum momento chegou a sugerir para ela qualquer tipo de informação sobre a vacinação. Se a publicitária não tivesse a curiosidade de olhar para fora na janela de ônibus, talvez nem soubesse quais meios de poderia usar para se vacinar.

Entre 3 e 19 de agosto, a Secretaria Municipal da Saúde registrou a aplicação de 1.045.758 doses em um estado que tem 46.179.008 pessoas. 

Uma pesquisa do DataSenado aponta de 54% dos brasileiros têm meios digitais como principal fonte de notícias. Para as entrevistadas, o melhor seria uma maior amplitude de divulgação nas redes sociais e no cotidiano dos transportes públicos a fim de ajudar a Secretaria da Saúde levar o contexto da vacinação para a população.

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Enquanto atletas profissionais recorrem a novos procedimentos, pacientes comuns enfrentam incertezas sobre quando e como poderão se recuperar
por
Caio Moreira
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21/09/2026 - 12h

Por Caio Moreira

 

No futebol de alto rendimento, cada dia longe dos gramados pode representar um prejuízo para a carreira de um atleta. Em fevereiro de 2026, o volante Alexsander, do Atlético-MG, foi submetido a um tratamento que utiliza células-tronco do próprio corpo após sofrer uma ruptura total do ligamento colateral medial do joelho esquerdo. O procedimento tinha como objetivo estimular a cicatrização e acelerar o reparo do tecido lesionado. E em abril, já estava atuando em uma partida válida pela CONMEBOL Sudamericana.

Outro caso é o do atacante Ferreira, do Grêmio. Em abril de 2022, o jogador realizou um tratamento com células-tronco retiradas da própria medula óssea e aplicadas na região do músculo adutor da coxa direita, onde sentia dores. O procedimento tinha como objetivo estimular a cicatrização e acelerar a recuperação. O tratamento foi realizado fora das dependências do clube e financiado pelo empresário do atleta, evidenciando como jogadores profissionais podem recorrer a estruturas médicas particulares. Esses casos mostram como a medicina regenerativa ganhou fama no esporte, especialmente na busca por alternativas para acelerar a recuperação de lesões. Mas, enquanto atletas de alto rendimento podem ser acompanhados por estruturas médicas especializadas, pessoas comuns também enfrentam lesões que transformam suas rotinas, muitas vezes sem acesso às mesmas possibilidades de tratamento. 

Foi o que aconteceu com Fábio Mantovani, arquiteto de 38 anos. Fábio se arriscava em partidas de futsal com amigos, a habilidade poderia não ser a de um atleta profissional,  mas a paixão pelo esporte era idêntica à do ídolo do seu time, Rogério Ceni. Um certo dia no ano de 2017, em uma de suas peladas semanais, ele machucou o joelho direito no meio da partida. Uma ruptura parcial do ligamento cruzado anterior, o assombrou por anos e afastou Fábio do esporte que amava acompanhar e praticar. Segundo ele, o tratamento recomendado na época foi via fisioterapia sem necessidade de cirurgia, porém as longas sessões do tratamento o distanciaram e tiraram dele a confiança de retornar às quadras. 8 anos depois da frustração o arquiteto se sentiu confiante para retornar à sua atividade, o joelho que parecia frágil e instável, retornou a ser o que era antes do ocorrido. Despreocupado e seguro que o joelho não o deixaria na mão, o pior aconteceu. Em agosto de 2026, aquela que antes era uma ruptura parcial, se agravou para um rompimento total do LCA, roubando todo seu otimismo no desempenho recuperado nos anos anteriores.

 

A ruptura do LCA não é um problema exclusivo do esporte profissional. Entre 2008 e 2014, mais de 48 mil reconstruções do ligamento foram realizadas pelo SUS. Foto: WIKIMEDIA

 

Sua recuperação agora será mais intensa dessa vez, o tratamento necessitará de uma cirurgia, mas não só isso, as sessões de fisioterapia vão voltar a assombrar o torcedor tricolor, antes e depois do procedimento. Por enquanto, o arquiteto não sente limitações na sua vida cotidiana e citou que sua única restrição foi pendurar as chuteiras por um momento. Ao ser questionado sobre a recuperação regenerativa via células tronco, ele citou que nunca ouviu falar e acrescentou, “Não foi me dado como alternativa”. 

A história de Alice Cirina, também revela outra dimensão desse debate. Vinda do interior da Bahia, no município de Brotas de Macaúba para São Paulo, dona Alice migrou para a capital paulista a fim de conseguir novas oportunidades de trabalho. Na Selva de Pedra, ela trabalhou como manicure e empregada doméstica por quase toda sua vida até a aposentadoria. Devido a longos períodos expostos a esforços físicos e posições nada recomendáveis nos seus ofícios, ela desenvolveu lesões na região lombar da coluna. Sentada num banco de madeira, dona Alice segue atendendo suas clientes, aos 78 anos de idade. A clientela, ela conheceu no condomínio onde mora e segue seu ofício com maestria.  Seu caso já foi investigado por vários médicos do SUS, porém as dores nunca sumiram, até técnicas de acupuntura foram usadas, mas nada acabou com seu problema. 

 

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, analisados em estudo com 88.531 adultos brasileiros, apontam que 21,6% da população adulta sofria de dor crônica na coluna. Foto: WIKIMEDIA

Embora tratamentos com células-tronco já despertam o  interesse no futebol de alto rendimento, seu acesso ainda está concentrado em atletas profissionais, que contam com clubes, departamentos médicos especializados e recursos financeiros para custear procedimentos experimentais ou de uso restrito. Para pessoas como Fábio e a dona Alice, que dependem do sistema público de saúde e convênio médico, a oferta é diferente: terapias regenerativas voltadas a lesões ortopédicas ainda precisam comprovar segurança e eficácia em estudos clínicos e obter autorização da Anvisa. Caso os resultados demonstrarem benefício, o tratamento deverá passar pela avaliação da Conitec, que analisará evidências científicas, custos, impacto orçamentário e viabilidade de implementação antes de recomendar sua incorporação ao SUS. Só depois da decisão do Ministério da Saúde e da organização da estrutura necessária seria possível ampliar o acesso à população.

 

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A profissão de professor é uma das mais afetadas por transtornos mentais. Entenda o que tem impactado a vida dessas pessoas
por
Guilbert Inácio
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19/05/2025 - 12h

Segundo pesquisa Atuação Docente em Múltiplas Escolas no Brasil, divulgada em 2024 pela Fundação Carlos Chagas (FCC), aproximadamente 460 mil professores e professoras da educação básica trabalham em mais de uma escola no país. Os dados acendem um alerta para o cuidado da saúde mental dessas pessoas.

Ao fundo há um quadro com ilustrações de gráficos. No centro da imagem, há uma mulher de óculos segurando papeis com a mão esquerda e com a mão direita no queixo, demonstrando cansaço. Ela está com ambos os cotovelos encostados em uma mesa, que tem um xícara e um notebook em cima.
Falta de tempo é algo recorrente no magistério / Fonte: Freepik

De acordo com o estudo, que usou dados do Censo Escolar 2023, docentes que atuam em jornadas extensas têm maiores chances de se ausentarem do trabalho por causa da saúde, em especial por questões psicológicas e relativas à voz, além de não conseguirem administrar o tempo, gerando estresse e menor participação em atividades coletivas, o que vai impactar diretamente na educação dos e das estudantes. 

Segundo a Pesquisa Saúde Mental dos Educadores, realizada pela Nova Escola, em 2022, 21,5% de educadores e educadoras consideravam sua saúde mental ruim ou muito ruim. As consequências mais citadas foram sentimentos intensos e frequentes de ansiedade (60,1%), baixo rendimento e cansaço excessivo (48,1%) e problemas com sono (41,1%). Para lidar com a pressão, 40,4% relataram que fazer atividade física ou ao ar livre pode ajudar e 36,8% destacam o contato com amigos e familiares que ofereçam apoio emocional. 

Exercícios físicos e contatos sociais requerem uma certa disponibilidade, porém o cenário atual não contribui. Os dados obtidos pela FCC mostram que a creche é o segmento com menor proporção de profissionais em mais de uma escola: 12,7%. Mas o número aumenta nas próximas fases, até chegar em 36,4% no Ensino Médio. 

A hipótese é que nos anos iniciais de ensino, as professoras – em sua maioria – são polivalentes e passam todo o turno com uma turma. Nos anos finais, os e as docentes são especialistas, lecionando, de acordo com sua formação, um ou dois componentes curriculares, portanto não passam todo o turno com uma mesma turma. Para cumprir a carga horária necessária, esse grupo assume várias classes, o que aumenta as chances de uma atuação em mais de uma escola. 

De acordo com o exemplo da nota técnica da FCC, um docente em uma jornada de 40h semanais, com um terço do tempo para as atividades extraclasse, leciona, no máximo, por 26 horas e 40 minutos por semana. Se considerar redes de ensino com aulas de 50 minutos e que o componente curricular só tenha duas aulas por semana, esse profissional pode chegar a lecionar 32 aulas por semana para 16 turmas diferentes.  

Se usarmos uma média de 30 alunos por turma, docentes, na situação do exemplo, dão aulas para 480 estudantes, o que significa uma alta demanda para quem vai ter que explicar a mesma coisa várias vezes, tirar dúvidas, corrigir lições e trabalhos, além de se deslocar entre as turmas e escolas. 

A partir da pesquisa, a FCC traçou o perfil de profissionais nessa situação - docentes do sexo masculino que lecionam disciplinas com menor carga curricular, como biologia, física, filosofia, entre outras. A hipótese levantada pela FCC sobre isso, é que há concentração de docentes masculinos na etapa em que isso mais ocorre, enquanto as mulheres estão mais distribuídas nas etapas de ensino - Censo Escolar 2022: 90% de docentes das creches e da educação infantil são mulheres. Além de que os dados demonstrem menor disponibilidade de tempo por parte das mulheres para acumular mais escolas, em comparação com os homens, tendo em vista que, segundo o IBGE 2024, mulheres dedicam quase o dobro das horas do que os homens, em média, para afazeres domésticos e cuidados familiares.

A ilustração apresenta um fundo cinza com os dizeres a frente: 29,8% de professores atuam em mais de uma escola (143.940 de 482.984) 16,8% de professoras atuam em mais de uma escola (364.364 de 1.871.210)
Recorte por gênero / Fonte: Fundação Carlos Chagas (FCC) / Arte: Guilbert Inácio

Em entrevista à AGEMT, o Dr. Marcelo Afonso Ribeiro, professor do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Serviço de Orientação Profissional (SOPI) e do Laboratório de Estudos do Trabalho e Orientação Profissional (LABOR) da USP, destacou que a saúde mental requer condições dignas de vida, respeito, reconhecimento e autonomia. “A falta de condições de trabalho com sobrecarga de tarefas, uma organização do trabalho centrada na produtividade e uma falta de reconhecimento social e econômico do professor tendem a levar ao adoecimento, não como condição individual, mas como resposta a este conjunto de condições insatisfatórias de trabalho.”, comenta o professor. 

Adoecimento profissional

Segundo Marcelo, os principais dilemas contemporâneos da profissão estão em três campos:

  • Questões pessoais e profissionais: Há falta de limite entre vida pessoal e profissional, insatisfação versus realização e falta de sentido no que faz. 

  • Questões estruturais e organizacionais: Falta de condições dignas de trabalho, ampliação e sobrecarga do trabalho, defasagem entre trabalho prescrito e trabalho real, assédio moral, demanda ao lidar com tecnologia e mundo digital, além de autorresponsabilização por problemas estruturais. 

  • Questões sociais: Falta de reconhecimento, declínio no discurso de autoridade, falta de autonomia, conflito entre o discurso de formador e doutrinador, pressão das famílias dos e das discentes e dos ambientes públicos.

Dados obtidos pela TV Globo, por meio da Lei de Acesso à Informação, revelam que no primeiro semestre de 2023, 20.173 docentes da rede estadual de São Paulo foram afastados do trabalho por questões relacionadas à saúde mental, como depressão, ansiedade e crise do pânico. Os dados demostram um aumento de 15% em comparação ao mesmo período de 2022 e que, em média, 112 profissionais são afastados por dia. Este ano, o G1 obteve, por meio da mesma lei, dados da Secretaria de Estado da Educação (Seduc-SP) que revelam que Campinas (SP) teve 3.421 docentes afastados por transtornos mentais de 2022 para cá. 

Cruzando os dados acima com a pesquisa da FCC, 12,9% da rede municipal de Campinas e 23,5% de docentes da rede estadual de São Paulo trabalham em múltiplas escolas. Segundo o Dr. Odair Furtado, professor de psicologia e coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trabalho e Ação Social (NTAS) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), profissionais da educação básica recebem salários incompatíveis com a sua função social e por isso optam por uma dupla ou tripla jornada desumana para conseguirem sobreviver e isso é catastrófico. 

A questão salarial foi pauta do antigo Plano Nacional de Educação (PNE), 2014-2024, que tinha como meta equiparar, até 2024, a remuneração média de docentes com as demais profissões que requerem Ensino Superior. Contudo, o piso salarial atual (2025) para professores do ensino básico da rede pública é de R$ 4.867,77 para exercício de 40h mínimas; representando 68,6% de R$ 7.094,17; salário médio de uma pessoa com graduação, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Devido à crise econômica, principalmente depois da pandemia, não só educadores, mas todas as profissões passaram por uma precarização. Dentre os fatores, Odair Furtado, aponta a crescente utilização da Inteligência Artificial (IA) nas atividades profissionais que aumentaram a produtividade, mas também a pressão em cima do trabalhador, que acumula estresse e, consequentemente, pode gerar ansiedade e depressão. “Trabalhadores sabem que se buscarem atendimento, são afastados do trabalho e isso leva, inexoravelmente, à demissão. Então, essas pessoas suportam até surtarem”, comenta o professor. 

O Brasil passa por uma epidemia de doenças relacionadas à saúde mental no ambiente profissional. De acordo com o Ministério da Previdência Social, em 2024, cerca de 470 mil trabalhadores foram afastados do emprego por causa de transtornos mentais. Os dados representam, em comparação com 2023, um aumento de 68% de licenças concedidas, além de ser o maior desde 2014. As duas doenças mais diagnosticadas foram ansiedade e depressão.

A ilustração demonstra um gráfico com os dados da Previdência Social sobre afastamentos do trabalho por causa de doenças mentais. O gráfico inicia em 2014 com 221.721 casos. Os dados caem em 2015 e sobem até 2018, quando voltam a cair até 2020. Após isso, os dados sobem muito rápido, chegando em 472.328, em 2024.
Dados do Ministério da Previdência Social / Arte: Guilbert Inácio 

Caminhos futuros 

No dia 26 de maio de 2025, riscos psicossociais serão incluídos na NR-1, norma que apresenta as diretrizes de saúde no ambiente do trabalho. Após a inclusão, o Ministério do Trabalho passa a fiscalizar os riscos psicossociais no processo de gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (SST), o que pode acarretar penalizações às empresas, caso sejam identificadas questões como: 

  • Metas excessivas 

  • Jornadas extensas 

  • Ausência de suporte 

  • Assédio moral 

  • Conflitos interpessoais 

  • Falta de autonomia no trabalho 

  • Condições precárias de trabalho 

Quanto à valorização da carreira docente, em junho do ano passado, o novo PNE, 2024-2034, foi encaminhado ao Congresso Nacional. A pasta prevê 18 objetivos a serem cumpridos nos próximos dez anos. O Plano será prioridade da Bancada da Educação em 2025. 

Confira outras propostas defendidas pela Bancada ao longo do ano que dizem respeito à profissão:

Ilustração em formato de pergaminho na cor cinza. Há os dizeres: SNE - Sistema Nacional de Educação;  PEC 169/19- permite ao professor acumular cargos públicos,  PL 3628/2024 - visa garantir que as diretrizes já estabelecidas pela Lei nº 14.817 sejam implementadas em todo o país;  PL 2387/23 - inclui os professores de Educação Infantil como profissionais do magistério;  PL 3824/23 - estabelece a Política Nacional de Indução à Docência na Educação Básica
Projetos em tramitação / Arte: Guilbert Inácio ​​​​​​

Em janeiro de 2025, o Governo Federal lançou o programa Mais Professores, com o objetivo de incentivar estudantes a seguirem a carreira docente. Dentre as medidas está o Pé-de-Meia Licenciaturas que concedera uma bolsa mensal de R$1.050 por mês para quem tirar mais de 650 pontos no ENEM e ingressar na licenciatura via Sisu, Prouni ou Fies Social. 

A medida é um ponto importante para aumentar a atratividade da carreira, pois, em 2022, uma pesquisa do Instituto Semesp projetou que, em 2040, o Brasil enfrentará um “apagão” na educação básica - a projeção é de que faltarão 235 mil docentes nas escolas do país. 

Segundo Marcelo Afonso, para mudar o cenário de precarização da carreira docente, as políticas públicas precisam se centrar em: “valorizar mais o professor e a professora, oferecer melhores condições de trabalho, remunerar melhor, oferecer qualificação contínua e, acima de tudo, construir um ambiente de respeito para formação de seres humanos.”.

Primeiro de São Paulo e da América Latina, o Centro para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) foi aberto ao público no dia 02 de abril
por
Cecília Schwengber Leite
Laura Petroucic
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04/04/2025 - 12h

Na última quarta-feira, 02 de abril, foi inaugurado o primeiro Centro Municipal para Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (Centro TEA) da América Latina, nomeado em homenagem à ativista da causa, Dra. Marina Magro Beringhs Martinez. Localizado na zona norte da cidade de São Paulo, o Centro conta com uma equipe multidisciplinar composta por profissionais das áreas de psicologia, assistência social, fonoaudiologia, terapia ocupacional, nutrição, educação física, psicopedagogia e administração.

Fachada do Centro TEA.
Fachada do Centro TEA. Foto: site/canalautismo.com.br

O Centro é público e atenderá gratuitamente pessoas com TEA de todas as idades. De acordo com o Ministério da Saúde, há mais de 300 mil diagnosticados só no Estado de São Paulo. Estes cidadãos enfrentam não apenas o estigma e preconceito social, mas também o alto custo dos tratamentos e a falta de informação. Em entrevista à AGEMT, Renata Delluzzo, coordenadora de projetos e políticas de inclusão, defende que o Centro TEA “é inovador por não se tratar de uma clínica-escola, mas sim de um espaço de socialização que busca promover o acolhimento de pessoas com autismo e seus familiares, além de atender ao público profissional”. E acrescenta: "é a primeira vez que munícipes da cidade de São Paulo são contemplados dessa forma".

Muitas famílias não sabem quais terapias e atividades são necessárias para estimular o desenvolvimento da pessoa com TEA, e mesmo as que sabem muitas vezes sofrem com a falta de acessibilidade a tais serviços. Um dos objetivos do Centro é justamente criar uma comunidade para as famílias que não têm uma rede de apoio e/ou condição financeira. Com acesso a tratamento, exercícios e acompanhamento adequados, os indivíduos no espectro autista atendidos terão melhores condições para se desenvolver e incluírem-se na sociedade.

De acordo com informações do site da Prefeitura de São Paulo, “o Centro TEA será um espaço pioneiro dedicado ao desenvolvimento integral de autistas e seus familiares. Fundamentado em cinco eixos estratégicos – Cultura; Esportes; Formação; Trabalho e Empreendedorismo; Bem-Estar e Autonomia –, também promoverá a capacitação de profissionais da rede de atenção”. Para isso, sua estrutura conta com quadra poliesportiva, teatro, piscina, biblioteca, brinquedoteca, jardim sensorial, sala de informática, cozinha comunitária, entre outros ambientes.

Além do atendimento cotidiano, o Centro buscará realizar anualmente a Semana Municipal de Conscientização do Autismo; adquirir equipamentos de saúde e educação para fortalecimento do atendimento da pessoa com TEA na rede municipal; realizar 10.000 atendimentos em mutirões de serviços para pessoas com deficiência, famílias e cuidadores; criar novos indicadores relativos à pessoa com deficiência no Observatório Municipal da Pessoa com Deficiência; entre outras iniciativas.

Para Renata, “a criação do Centro TEA é um grande passo na atenção e no cuidado ao público com autismo”. Ela conta que, para somar ao espaço recém inaugurado, está prevista no Programa de Metas 2025/2028 da Prefeitura de São Paulo a construção de mais três Centros TEA, nas zonas Leste, Oeste e Sul.

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“A mídia poderia fazer vídeos de pessoas com esquizofrenia que venceram na vida”, sugere Elvis, à imprensa
por
Vitória Nunes de Jesus
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27/11/2024 - 12h

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a esquizofrenia é a terceira causa de perda da qualidade de vida entre os 15 e 44 anos. São cerca de 1,6 milhão de brasileiros que, além da doença, sofrem com o estigma, que causa mais sofrimento do que o próprio transtorno.

Ainda conforme a OMS, o estigma é “uma marca de vergonha, desgraça ou reprovação que leva um indivíduo a ser rejeitado, discriminado e excluído de participar em diferentes esferas da sociedade”.

Um estudo publicado pela World Psychiatry revelou que nove em cada dez pessoas com esquizofrenia enfrentam estigma e discriminação, incluindo em ambientes de trabalho, serviços de saúde e relações sociais.

Para esclarecer melhor sobre esse transtorno que ainda é um tabu na sociedade, o médico psiquiatra Cristiano Noto explica melhor sobre a psicose, os sintomas da esquizofrenia e o estigma. “A psicose é um sintoma. A psicose é uma ruptura com a realidade. Normalmente se fala em delírio e alucinação, sendo que delírio são crenças dos pacientes que muitas vezes estão destorcidas da realidade. Na esquizofrenia, o mais comum é a alucinação auditiva, então normalmente a pessoa escuta vozes que xingam, que mandam ela fazer coisas, que têm um conteúdo mais depreciativo”.  

Cristiano explica que os sintomas acima são os chamados “sintomas positivos”. Ele conta que, além destes, existem outros. “Também é muito comum a desorganização do pensamento e no comportamento. Existem os sintomas negativos que são bastante frequentes, que são retração, então a pessoa se isola, tem menos prazer nas atividades, vai ficando mais apática, traz bastante sofrimento para o paciente e para a família”.  

O doutor diz que a esquizofrenia tem uma causa genética de 70 a 80% e que existem fatores ambientais que estimulam estes genes. “Entre esses fatores, vários podem ser citados, mas geralmente são relacionados com estresse, por exemplo: problemas no parto, maus tratos na infância, violência, abuso, uso de droga, principalmente maconha”. 

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o estigma é uma das principais barreiras para o tratamento de pessoas com esquizofrenia.

Para os jornalistas, o tema não é abordado por não conhecerem o transtorno mental, preconceito, focar em outros transtornos como ansiedade e depressão e receio de a reportagem não ser bem vista por conta do tabu existente.

A jornalista Thaís Itaqui conta a sua experiência com pautas de saúde mental. “Falar de esquizofrenia para mim virou algo mais rotineiro porque eu tenho uma pessoa na minha família que convive com essa doença, que é meu irmão, o Thiago. Eu fiquei trabalhando na TV Globo por quase vinte anos, quando comecei a vender pautas de saúde mental, percebia que estas pautas eram mais facilmente veiculadas quando tinha uma data especial. Ou falava-se de depressão, ansiedade, dificilmente outros transtornos eram abordados. Quando eu me tornei jornalista e comecei a fazer um trabalho dentro da TV e quis começar a vender essa pauta justamente por conhecer e trazendo a importância de se falar disso, eu comecei a perceber a dificuldade que era de perceberem que essa pauta era importante, então normalmente eles falavam que eu trazia a pauta devido ao meu irmão, mas que não era algo comum de se abordar. Então começa a perceber que o tema é um tabu em vários lugares. A pessoa acaba sendo excluída e a família também, pois a pessoa tem dificuldades e a família pega essas dores”. 

Thaís diz acreditar ter recebido retornos positivos em sua profissão. “No começo quando se levanta uma pauta tão difícil como essa e consegue colocá-la na mídia, a gente está conseguindo abrir uma porta, então no momento que milhares de pessoas assistiram minhas matérias, eu acredito ter alcançado pessoas que vivem com o problema, familiares e profissionais que cuidam desses pacientes. Eu também percebi uma coisa muito legal com os meus colegas de trabalho, porque como eles sabiam da minha experiência com meu irmão, eles começaram a conhecer mais a doença por minha causa”.

Dados do Schizophrenia Research Journal indicam que as representações na imprensa representam frequentemente a esquizofrenia ao comportamento violento.

Para completar os depoimentos, não poderia faltar o de uma pessoa com esquizofrenia. Elvis Presley Guarany de Melo conta como foi o momento em que foi diagnosticado. “Fui diagnosticado quando eu era criança. Aprendi a falar com 9 anos, mas minha mãe nunca entendia o meu problema, aí ela começou a perceber as minhas dificuldades na escola, porque eu não me enturmava com os alunos, mas ela não queria aceitar e ela viu que repeti a 1ª série três vezes aí ela percebeu que eu tinha um problema e a professora percebia que eu ficava afastado das pessoas, foi aí que surgiu o início da esquizofrenia. Com o tempo, eu fui crescendo, foi piorando o diagnóstico e eu comecei a passar no psiquiatra a partir dos dezoito anos”.  

O ambiente em que a pessoa é criada interfere no desenvolvimento da esquizofrenia. Elvis conta como foi sua infância na casa onde foi criado. “Eu tenho um irmão gêmeo que também tem esquizofrenia, mas eu tenho um grau mais elevado. Meus pais se separaram porque meu pai traiu minha mãe, que teve que cuidar de 4 filhos, então minha mãe não pode dar luxo para os filhos. O governo se negava a dar assistência social e tratamento de fonoaudiólogo. Os sintomas foram piorando porque quem não tem recursos não se trata, e o governo ignora. Eu passo no CAPS 3, que é onde se trata pessoas com esquizofrenia e não tem psiquiatra, você pega o remédio há cada 3 meses e não tem médico e quando você vai questionar, eles aumentam a dosagem do seu remédio porque não gostam que as pessoas falem a verdade. Mas o CAPS está sendo insuficiente porque nós não temos todos os tratamentos e psiquiatras quando precisamos”.  

De acordo com a OMS, menos de 15% das pessoas diagnosticadas com esquizofrenia têm empregos formais, comparado a 65% da população geral. Elvis relata sua grande dificuldade de permanecer em um trabalho. “Eu já trabalhei em 42 empresas e em todas fui mandado embora porque as empresas não são adequadas para pessoas com esquizofrenia. Eu nunca agredi alguém, eu vejo coisas, ouço vozes e isso faz parte de mim. Eu estou cansado de me esconder e é por isso que eu quero que as pessoas saibam da minha história que é real. Eu quero estudar, eu quero trabalhar, eu quero ser útil”.  

Por fim, Elvis conta sobre seu doloroso tratamento e sua luta para ter uma condição de vida melhor.  

Eu já fiz uma terapia chamada terapia do choque, que eles colocam tipo um metal na boca e dão estímulos de carga elétrica na cabeça. A pessoa com esquizofrenia tem a mente acelerada, ela vê coisas e pensa em muitas coisas ao mesmo tempo. Eu já fui amarrado numa maca e não foi fácil porque, se eu tivesse o tratamento e apoio de todos os profissionais de saúde necessários, eu não precisaria ter passado por tratamentos tão severos como os tratamentos de choque que levei muitas vezes.  

— E você teve quantos surtos mais ou menos? Eu vejo pessoas que às vezes me chamam, eu ouço muitas vozes, em lugar muito cheio eu uso abafador auditivo. Eu lutei para ter um cachorro para identificar quem é real e quem não é, mas o governo não me disponibiliza um cachorro treinado, e eu estou nessa luta. No Brasil, nós estamos muito atrasados na luta contra a esquizofrenia.  

Diante destes apontamentos, é claro perceber que a mídia deve abordar mais sobre a esquizofrenia visando mostrar a realidade destas pessoas. Existem pacientes que podem ter apenas um surto durante toda a vida, pode ter uma pessoa com esquizofrenia do seu lado no metrô. Falta informação e acolhimento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Produzir orgânicos é um desafio que envolve altos custos, manejo artesanal e um compromisso com a sustentabilidade.
por
NINA JANUZZI DA GLORIA
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12/11/2024 - 12h

Por Nina J. da Glória

 

No coração de uma pequena fazenda nos arredores de São Paulo, a paisagem exibe fileiras simétricas de verduras, um campo verde que mais parece um quadro pintado com paciência e precisão. Cada folha simboliza uma promessa livre de químicos, cultivada à mão, mas também testemunha de um trabalho árduo, invisível ao consumidor final. Esse é o cotidiano de Mariana Silva, uma agricultora que decidiu, há quase uma década, abandonar a produção convencional para dedicar-se ao orgânico. No início, acreditava que seria um retorno ao básico, uma reconexão com a natureza. Mas a realidade mostrou-se mais densa e complexa do que o imaginado. O solo, como um organismo vivo, exigia constantes cuidados e uma compreensão que ia além dos métodos tradicionais. Cada semente carregava uma incerteza, e cada colheita trazia consigo os riscos de uma produtividade menor, vulnerável a pragas e intempéries. "O solo não aceita pressa", sua frase parece pairar na atmosfera ao redor das hortas, impregnada de paciência e resignação.

Nas redondezas, em outra propriedade de São Roque, Paulo Mendes compartilha a mesma visão, mas com uma trajetória que o levou ao orgânico por caminhos distintos. Ao contrário de Mariana, ele vem de uma família que cultivava com agroquímicos, mas sempre sentiu a necessidade de transformar as práticas de cultivo. Para ele, o orgânico é como um resgate da essência da terra, uma escolha que exige mais do que habilidades tradicionais. É um compromisso com o solo, com o ciclo de nutrientes e com o futuro. Paulo vê o campo como um delicado organismo, onde a compostagem e a rotação de culturas são essenciais, mas também um desafio financeiro. Cada safra se transforma em uma experiência quase artesanal, onde a eficácia do manejo natural precisa competir com a tentação das facilidades químicas. Esse processo, para ele, é como uma dança cuidadosa com a natureza, em que observar e respeitar o ritmo das estações torna-se tão vital quanto qualquer técnica de plantio.

                                                            Comunidade de pessoas que trabalham juntas na agricultura para cultivar alimentos

Para Mariana e Paulo, a colheita orgânica traz consigo um custo invisível ao olhar do consumidor. A vulnerabilidade às pragas, por exemplo, é uma preocupação constante. Sem pesticidas convencionais cada infestação é uma batalha natural que, muitas vezes, se perde. A introdução de insetos benéficos para conter pragas ou o uso de biofertilizantes representa um custo adicional, tornando a logística do manejo um quebra-cabeça financeiro. Além disso, há as certificações rigorosas exigidas para que o produto receba o selo de orgânico, que Mariana descreve como "um segundo trabalho", com visitas e inspeções que, embora necessárias, absorvem ainda mais recursos.

No centro dessa cadeia está Cláudia Ramos, proprietária de uma loja de produtos orgânicos em São Paulo. De seu ponto de vista privilegiado, ela percebe o esforço e as dificuldades de seus fornecedores, mas também o descompasso entre o preço desses produtos e a percepção dos consumidores. Em cada item das prateleiras, Cláudia vê um microcosmo de esforço e idealismo, mas, ao explicar as diferenças entre orgânico e convencional, enfrenta um público que ainda considera o orgânico um luxo. Ela afirma que cada produto é uma história de sacrifício, e explica que o custo mais alto representa a vulnerabilidade da produção orgânica, que exige cuidados permanentes e colheitas menos previsíveis.

                                                                                           Close-up de plantas verdes na estufa

A produção orgânica, então, emerge como uma complexa equação de valores, sacrifícios e riscos. Cada um dos envolvidos—do campo à prateleira—carrega uma parte dessa carga, como se fosse um ciclo contínuo de compromissos, onde o ideal e o real se encontram e se confrontam. A busca pela pureza e pelo cuidado no cultivo se mescla a um cotidiano cheio de dificuldades, e o produto final se transforma numa espécie de narrativa silenciosa sobre perseverança e dedicação ao que se acredita ser o melhor para o futuro do planeta e do ser humano.

Doença que afeta cerca de 8 milhões de brasileiras ainda tem diagnóstico complicado e demorado
por
Giovanna Takamatsu
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12/11/2024 - 12h

Por Giovanna Takamatsu 

Eram 4h00min, talvez 5h00min, de algum dia da semana de 2017. Estava chovendo forte, uma daquelas tempestades com trovoadas, que deixa o céu totalmente escuro e tudo parece noite. Lara foi acordada por uma dor descomunal. Nunca tinha sentido algo assim antes em toda sua vida. Parecia que tinha sido atingida por uma faca ou um machado em sua perna direita. Ou então como se uma mão gigante estivesse apertando cada vez mais forte seus músculos da coxa. Ela não sabia o que fazer, pois não tinha nada aparentemente errado com seu membro; começou então a chorar e soluçar de tanta dor. Isso fez com que seus pais acordassem e checassem o que estava acontecendo. 

Sua mãe, que é farmacêutica, ao entender a situação, logo pensou em remédios disponíveis pela casa para tentar acabar com a dor, mas nenhum chegou nem perto de melhorar o sintoma de Lara – mesmo tomando remédios fortes, como codeína + paracetamol. O último recurso menos ‘drástico’ que sua mãe pensou foi uma massagem. A família tinha um massageador automático que esquentava enquanto agia. E por algum milagre, era exatamente isso que a adolescente precisava. Depois de uma longa hora - que pareceu uma sessão de tortura -, a dor de Lara finalmente diminuiu e ela conseguiu pegar no sono novamente. 

Um mês se passou sem que essa agonia voltasse, e Lara chegou a pensar que foi somente um episódio de dor de crescimento mais intensa– aqueles desconfortos que parecem uma mistura de câimbra e um apertão que acontecem com os pré-adolescentes – já que era muito comum disso acontecer com ela. Mas novamente, Lara acordou com aquele sofrimento, na mesma perna, no mesmo local. Não era possível. Dessa vez ela já sabia o que fazer, como proceder, mas precisa entender a causa dessa dor. 

Claro que a menina foi avisar sua mãe. E como se fosse uma epifania, a mãe percebeu sobre o que se tratava essas dores misteriosas. Ela já havia passado por algo parecido. Notou que ambas as vezes que essa dor na perna aconteceu, Lara estava menstruada. Esse era o ponto em comum entre as aflições. Só podia ser algo relacionado a isso. Fazia total sentido; ela sempre sofreu com sua menstruação: tinha dores e cólicas intensas nas costas, seu fluxo era intenso, já tinha o diagnóstico de Síndrome do Ovário Policístico (SOP) e seu ciclo era extremamente desregulado. 

Talvez seja endometriose, disse a mãe que lembrou ter tido isso quando era mais nova. Endometriose. Lara perguntou o que sua mãe fezpara resolver. Sua mãe foi enfática ao dizer que a gravidez, em sua época, era o tratamento mais comum. Mas Lara ainda era uma adolescente, e nem sabia se queria ter filhos. E o tratamento para a pior dor da vida não poderia ser engravidar.  Ela se sentiu em uma distopia, em ‘O Conto de Aia’. Lara foi procurar sobre essa tal de endometriose e na Internet viu que demora entre 4 a 10 anos para conseguir fechar o diagnóstico. 10 anos!!! E que não há cura, somente manejo dos sintomas. 

            O próximo passo lógico era ir à uma ginecologista. Lara não estava muito animada com isso já que entendeu que talvez demoraria anos e anos para resolver aquela situação. Mas enfim, ela foi. A ginecologista não deu muita atenção à queixa de Lara. Na consulta foram feitos os exames de rotina, e no final foi receitado uma pílula de gestrinona, que deveria bloquear totalmente sua menstruação, assim não teria nenhum sintoma relacionado a ela. Mas ainda sim não recebeu a confirmação de endometriose. 

Após alguns anos de dúvidas em seu diagnóstico, Lara decidiu a passar em outra ginecologista especialista em endometriose. Essa nova médica pediu que ela fizesse um exame de ressonância magnética da pelve, para identificar se havia focos de tecido endometrial fora do útero. Somente após que o exame voltou positivo, foi fechado o diagnóstico, ou seja, após 4 ou 5 anos do primeiro episódio de dor. Hoje, ela maneja seus sintomas com a pílula. Por se tratar de uma doença crônica, sua médica se preocupa com a questão de sua fertilidade, mesmo que Lara seja nova ainda. Demorou alguns anos, mas hoje Lara sabe que possuí uma rede de apoio médico que a auxilia em qualquer momento e respeita suas escolhas.   

Mas se sabe que essa realidade não é de todas as mulheres brasileiras com endometriose. Segundo o Ministério de Saúde, 1 em cada 10 mulheres sofrem com a endometriose. Isso são 8 milhões de brasileiras no total com essa doença. O diagnóstico dessa moléstia não é fácil, devido a inespecificidade dos sintomas, que podem significar muitas doenças ginecológicas. Mas o preconceito por parte de profissionais de saúde, que constroem estigmas cerca às aflições da mulher, afeta muito no tempo do diagnóstico e ressalta como as mulheres ainda não são levadas a sério nos diversos âmbitos sociais

Eliane tem 26 anos e é moradora do Campo Limpo, periferia de São Paulo. Desde adolescente, ela sofre com os sintomas da endometriose, tendo um quadro parecido com o de Lara: dores e cólicas fortes em diversas regiões próximas ao útero, fluxo intenso, ciclo desregulado. A principal diferença entre as mulheres é que, enquanto Lara conseguiu atenção médica e diagnóstico preciso já no início de sua dor, Eliane precisou de quase 10 anos para finalmente fechar seu diagnóstico. 

Isso se deve muito a desvalorização médica em casos de dores e cólicas uterinas. Eliane já escutou de profissionais da saúde em UBSs e UPAs que isso era normal da menstruação – o que não fazia o menor sentido em sua cabeça; não é normal uma dor que parece que suas pernas, seu abdome, suas costas estão sendo esmagadas. Ela se sentia ignorada toda vez que tentava falar sobre o assunto, e, de certa forma, ela desistiu de procurar ajuda para aquelas dores terríveis que tinha todos os meses. 

Aos 22 anos, Eliane conheceu seu atual marido. O casal começou a tentar engravidar, mas isso nunca se concretizou. Após 1 ano de tentativa, Eliane decidiu que iria passar por uma ginecologista para entender o que estava acontecendo. Essa médica não deu muita importância para as queixas de dor intensa, e alegou que era normal. Mas, para desencargo de consciência, a ginecologista pediu que ela realizasse o ultrassom transvaginal com preparo intestinal – prática comum para o diagnóstico de endometriose, uma vez que, com as alças do intestino vazias, a visualização dos focos de tecido é mais fácil – tanto para a endometriose quanto para o problema de fertilidade. 

Finalmente, no retorno da consulta, Eliane recebeu seu diagnóstico: endometriose. Entretanto, pelos anos que ela passou sem tratar essa doença, ela desenvolveu problemas de fertilidade. Hoje, ela realiza tratamentos que auxiliam resgatar sua fertilidade, mas ainda não conseguiu carregar uma gestação a termo. 

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