Médicos poerão prescrever o medicamento para pacientes com mais de 10 anos
por
Vitória Teles
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30/04/2026 - 12h

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou na quarta-feira (22) o uso de canetas com o princípio ativo da Tirzepatida para crianças e adolescentes que possuem diabetes tipo 2. Antes, o uso só era possível para adultos diagnosticados com diabetes e para tratamentos contra obesidade. Agora, jovens a partir de 10 anos também poderão utilizar com prescrição médica. 

As canetas imitam um hormônio do corpo chamado Glucagon-like peptide-1 (GLP-1), que ajuda a controlar o açúcar no sangue, diminuir o apetite e retardar a digestão, levando à perda de peso. A decisão da Anvisa surgiu a partir de um grande índice de crianças que sofrem com obesidade e diabetes, já que o Brasil é quarto país no mundo com crianças e adolescentes, de 0 a 19 anos, com diabetes tipo 1, podendo evoluir para o tipo 2. No ranking dos países com mais pessoas que possuem essa condição, o Brasil é o sexto no mundo, segundo dados de 2025 da 11ª edição do Diabetes Atlas, divulgado pela Federação Internacional de Diabetes (IDF).

No ranking de casos de crianças com diabetes tipo 1, o Brasil fica atrás apenas de Índia, Estados Unidos e China. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
No ranking de casos de crianças com diabetes tipo 1, o Brasil fica atrás apenas de Índia, Estados Unidos e China. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Ao mesmo tempo que esse uso específico foi aprovado, a Anvisa também proibiu canetas irregulares vendidas pela internet, já que o orientado é apenas o uso com prescrição médica, além de aumentar a fiscalização e exigir regras mais rígidas para a manipulação.

Apesar de ser um caminho eficaz, que apresenta bons resultados, há também controvérsias. Partindo do ponto de vista socioeconômico, muitas famílias sofrem com diabetes tipo 2, em níveis avançados, e não possuem renda para investirem em tratamentos como as canetas emagrecedoras, que tem um valor bastante elevado no mercado, custando entre R$1.400 a R$2.400, podendo variar de acordo com a farmácia. 

Em entrevista à AGEMT, a nutricionista Juliane Pacheco, que atua no mercado nutricional há mais de 6 anos, enfatizou que a Tirzepatida possa sim ser uma boa alternativa para tratar dessa patologia, apesar do medicamento estar muito banalizado no Brasil para fins estéticos e não apenas para tratamento de obesidade. “Para as crianças, é essencial que a medicação seja utilizada apenas com indicação médica e tenha acompanhamento com uma equipe multidisciplinar”, comenta a profissional. 

Sobre os efeitos colaterais na vida das crianças, como náuseas, diarreias e vômitos, Juliane afirma que é necessário fazer a indicação com muita cautela e não banalizar o uso para todas as crianças e adolescentes. Segundo a profissional, a alimentação também é um caminho que traz bons resultados para o tratamento de diabetes, mas que também requer atenção e cuidado. “O que fará mais diferença é a presença dos pais durante todo o tratamento. No final, são eles que compram os alimentos para seus filhos e preparam as refeições, então se não tiver um cuidado, a diabetes não é tratada”, afirma.

 

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Fatores como rotina urbana, excesso de telas e falta de atividade física contribuem para o avanço do problema no país
por
Guilherme Romero
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28/04/2026 - 12h

O Brasil enfrenta um cenário preocupante quando se trata sobre o sedentarismo. De acordo com divulgação da OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 47% da população não atinge os níveis recomendados de atividade física, colocando o país entre os mais sedentários do mundo. Para a nutricionista Patrícia Prado Dias Peres, em entrevista à AGEMT, esse comportamento está cada vez mais comum desde a infância, diretamente ligado ao aumento de doenças como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares, além de afetar a saúde mental. Segundo ela, os hábitos sedentários começam cedo e tendem a se perpetuar a longo prazo na vida.

Crianças que passam grande parte do tempo diante de telas, seja em celulares, videogames ou redes sociais, acabam reduzindo atividades físicas essenciais no tempo livre para o desenvolvimento. Esse padrão se intensifica na adolescência, especialmente entre jovens de 11 a 17 anos, faixa etária apontada como a mais afetada. Mesmo com medidas como a restrição do uso de celulares em ambientes escolares, o comportamento sedentário persiste fora das instituições de ensino, impulsionado pela facilidade de acesso à tecnologia e pela diminuição de espaços adequados para o lazer.  A falta de atividade física provoca uma série de alterações no organismo. Sem movimentação corporal, o gasto energético é reduzido e entra em um “estado de economia”, o que pode desregular processos metabólicos importantes. Entre as consequências mais comuns estão o aumento do peso corporal, o desenvolvimento de massa de gordura corporal e alterações hormonais que afetam a sensação de saciedade. “Esse desequilíbrio favorece um ciclo difícil de romper, em que o excesso de peso torna a prática de exercícios mais cansativa, levando à desmotivação e à manutenção do sedentarismo”, diz Peres. 

Patrícia Prado Dias Peres nutricionista do CEPEUSP (Centro de Práticas Esportivas da USP)
Patrícia Prado Dias Peres nutricionista do CEPEUSP (Centro de Práticas Esportivas da USP)

Os impactos do sedentarismo vão além da questão estética ou do condicionamento físico, também está associado a doenças metabólicas, como diabetes e dislipidemias, além de problemas cardiovasculares, como hipertensão, infarto e acidente vascular cerebral. Também há prejuízos para o sistema musculoesquelético, com aumento de dores, perda de massa muscular e maior risco de osteoporose. Na saúde mental, os efeitos incluem ansiedade, depressão, insônia e até declínio cognitivo, evidenciando que a inatividade física afeta o corpo humano de forma ampla. Segundo Peres, a falta da prática de atividades físicas deve ser tratada como uma questão de saúde pública, porque suas consequências geram impactos diretos e indiretos, desde o aumento dos gastos com tratamentos médicos até a redução da produtividade da população.

O problema também sobrecarrega os sistemas de saúde, que precisam lidar com o crescimento de doenças crônicas associadas ao estilo de vida. Estimativas globais apontam que milhões de mortes poderiam ser evitadas todos os anos com a adoção de hábitos mais ativos. Apesar do cenário preocupante, a mudança de comportamento é possível e pode começar com medidas simples. De acordo com Peres, não é necessário iniciar com atividades intensas: a recomendação é acumular entre 150 e 300 minutos semanais de exercícios moderados, ou de 75 a 150 minutos de atividades mais vigorosas. Mesmo práticas leves já apresentam benefícios quando comparadas à inatividade total. O mais importante, segundo a nutricionista, é encontrar uma atividade que possa ser mantida a longo prazo e incorporada à rotina. 

 A alimentação também desempenha um papel fundamental nesse processo. Peres aponta que dietas equilibradas com base em alimentos in natura ou minimamente processados, contribuem para o controle do peso e para o bom funcionamento do organismo. A redução do consumo de ultraprocessados, ricos em açúcares, gorduras e sódio, é apontada como uma estratégia essencial para prevenir doenças e melhorar a qualidade de vida, disse a especialista. Além disso, manter regularidade nas refeições ajuda a evitar picos de fome e o consumo excessivo de calorias. Diante desse cenário, Peres reforça que o enfrentamento do sedentarismo exige ações que vão além da iniciativa individual. Incentivar hábitos saudáveis desde a infância, ampliar o acesso a espaços públicos seguros para a prática de atividades físicas e promover a conscientização sobre os riscos da inatividade são medidas fundamentais. Para ela, pequenas mudanças na rotina, aliadas a uma alimentação equilibrada e à prática regular de exercícios, podem gerar impactos significativos na saúde e melhora na qualidade e expectativa de vida da população brasileira.

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Campanha alerta o cuidado com a saúde intestinal e incentiva o diagnóstico precoce
por
Carolina Nader
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24/03/2026 - 12h

Durante o mês de março, período em que ocorrem campanhas importantes de conscientização a algumas doenças, a campanha Março Azul-Marinho mobiliza instituições de saúde, médicos e órgãos públicos em ações de conscientização e prevenção do câncer colorretal, ampliando o acesso da população à informação e aos cuidados preventivos.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 45 mil novos casos da doença por ano, conforme estimativas do órgão para o período de 2023 a 2025. O câncer colorretal está entre os tipos que mais causam mortes no país, reforçando a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.

O que é o câncer colorretal?

O câncer colorretal é um tipo de tumor que se desenvolve no intestino grosso (cólon) ou no reto, parte final do sistema digestivo responsável pela formação e eliminação das fezes. A doença ocorre quando células dessa região passam a crescer de forma desordenada, formando lesões que podem se tornar malignas.

Na maioria dos casos, o tumor surge a partir de pólipos intestinais - pequenas alterações inicialmente benignas que podem evoluir para câncer ao longo do tempo, especialmente quando não são identificadas e removidas precocemente. Em entrevista à AGEMT, o médico especialista em diagnóstico por imagem, Carlos Eduardo de Souza, explica que “o diagnóstico precoce possibilita tratamentos menos invasivos, como a biópsia excisional das lesões polipoides durante a realização da colonoscopia”.

O câncer colorretal é mais frequente em pessoas a partir dos 45 anos, faixa etária considerada de maior risco, com maior incidência entre adultos e idosos. Por esse motivo e também por apresentar evolução lenta e, muitas vezes, sem sintomas nas fases iniciais, entidades médicas recomendam a realização de exames preventivos regulares mesmo na ausência de queixas, como forma de identificar alterações precocemente e aumentar as chances de tratamento eficaz. As orientações são destacadas pelo INCA e por sociedades médicas ligadas à oncologia e à gastroenterologia.

Nos últimos anos, especialistas também têm observado um crescimento gradual no número de diagnósticos entre pessoas com menos de 45 anos, embora a maioria dos casos ainda esteja concentrada nas faixas etárias mais altas. De acordo com dados divulgados pelo INCA, fatores como mudanças nos hábitos alimentares, maior consumo de alimentos ultraprocessados, sedentarismo e obesidade estão associados a esse aumento, ampliando o alerta para a importância da atenção aos sintomas também entre adultos mais jovens.

Principais sintomas e sinais de alerta

O câncer colorretal pode apresentar poucos ou nenhum sintoma nas fases iniciais, o que torna o diagnóstico precoce mais desafiador e reforça a importância dos exames preventivos. Quando surgem, os sinais costumam estar relacionados a alterações no funcionamento do intestino.

Entre os principais sintomas estão:

  • Presença de sangue nas fezes;
  • Mudanças persistentes no hábito; intestinal, como episódios frequentes; de diarreia ou prisão de ventre; 
  • Dor ou desconforto abdominal contínuo; 
  • Perda de peso sem causa aparente; 
  • Sensação de evacuação incompleta e cansaço frequente.

Segundo Carlos, esses sinais não indicam necessariamente câncer, mas devem ser investigados por um profissional de saúde, principalmente quando persistem por várias semanas.

O INCA também alerta que grande parte dos casos é diagnosticada apenas após o aparecimento de sintomas, o que pode dificultar o tratamento. Com isso, os exames precoces permitem identificar lesões ainda em estágios iniciais, aumentando significativamente as chances de cura, que podem ultrapassar 90% quando descoberto rapidamente.

Barreiras à prevenção

Na prática clínica, existem desafios para a prevenção do câncer colorretal. “Atualmente, barreiras socioeconômicas, culturais, tabus e o desconhecimento de fatores de risco dificultam a prevenção”, explica o doutor Carlos Eduardo. Além disso, muitos pacientes têm medo do exame devido à possibilidade de dor ou perfuração intestinal. O especialista reforça que “o procedimento é indolor, sendo realizado sob sedação e analgesia, sem causar prejuízos ao paciente”.

Fatores de risco associados à doença

Diversos fatores podem aumentar o risco de desenvolvimento do câncer colorretal. Entre os principais estão hábitos de vida e condições de saúde que influenciam o funcionamento do organismo ao longo do tempo.

Segundo o INCA e a Organização Mundial da Saúde (OMS), a alimentação rica em carnes processadas e ultraprocessados, aliada ao baixo consumo de fibras, está diretamente associada ao aumento do risco da doença. Estudos da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, apontam que o consumo frequente de carnes processadas pode aumentar em cerca de 18% o risco de câncer colorretal.

O sedentarismo e a obesidade também são fatores relevantes. Dados da OMS indicam que a prática regular de atividade física pode reduzir o risco de câncer de intestino em cerca de 20% a 30%. Além disso, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e o tabagismo contribuem para o desenvolvimento de diversos tipos de câncer, incluindo o colorretal.

Pessoas com histórico familiar da doença ou com doenças inflamatórias intestinais devem manter acompanhamento médico regular, já que apresentam maior predisposição ao desenvolvimento do tumor, conforme orientações de sociedades médicas de oncologia e gastroenterologia.

Prevenção e exames ajudam a reduzir casos

Especialistas apontam que grande parte dos casos de câncer colorretal pode ser evitada por meio da adoção de hábitos saudáveis e da realização de exames preventivos. A manutenção de uma alimentação equilibrada, rica em fibras, frutas, verduras e legumes, aliada à prática regular de atividade física, está entre as principais medidas recomendadas para reduzir o risco da doença.

Entre os principais exames utilizados está a colonoscopia, considerada o método mais eficaz para detectar alterações no intestino grosso e no reto. O exame permite não apenas identificar lesões suspeitas, mas também realizar a retirada de pólipos durante o procedimento. O teste de sangue oculto nas fezes também é utilizado como estratégia inicial de rastreamento.

 

Profissionais de saúde do SUS. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Exames de prevenção como a colonoscopia podem ser feitos no SUS. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

 

De acordo com recomendações médicas e orientações do Ministério da Saúde, pessoas a partir dos 45 anos - ou antes, em casos de histórico familiar - devem procurar avaliação médica para orientação sobre o rastreamento. Parte desses exames pode ser realizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mediante encaminhamento profissional.

Ao reforçar a importância da informação e do cuidado contínuo com a saúde intestinal, a campanha Março Azul-Marinho busca incentivar a população a adotar medidas preventivas e a procurar atendimento médico diante de sinais persistentes, contribuindo para a redução da mortalidade causada pelo câncer colorretal.

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Campanha destaca a importância da vacinação contra o HPV e do diagnóstico precoce
por
Carolina Nader
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19/03/2026 - 12h

Unidades de saúde de todo o país intensificam, ao longo do mês de março, ações de prevenção e conscientização sobre o câncer de colo do útero como parte da campanha Março Lilás. A iniciativa busca ampliar o acesso à vacinação contra o HPV, à realização do exame preventivo e à informação, medidas essenciais para o diagnóstico precoce e a redução dos casos da doença.

De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 17 mil novos casos de câncer de colo do útero por ano entre 2023 e 2025. Apesar de ser considerado amplamente prevenível, o tumor ainda provoca aproximadamente seis mil mortes anuais no país.

A doença está associada principalmente à infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV), vírus transmitido sobretudo por contato sexual. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os tipos 16 e 18 do HPV são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer cervical.

Desigualdades regionais 

No Brasil, a incidência do câncer de colo do útero também apresenta desigualdades regionais. Dados do INCA indicam que as regiões Norte e Nordeste concentram as maiores taxas da doença, cenário frequentemente associado a desafios no acesso aos exames preventivos, desigualdades socioeconômicas e dificuldades no acompanhamento regular em saúde. 

Em entrevista à AGEMT, a ginecologista Laís Panaino explica que fatores sociais e comportamentais ainda dificultam a prevenção. Segundo ela, a falta de acesso ao exame preventivo em algumas regiões, a baixa cobertura vacinal e o estigma quanto ao assunto contribuem para o diagnóstico tardio. "Talvez falte mais campanhas em escolas, para a conscientização. O problema é que algumas pessoas pensam que falar sobre o assunto e estimular campanhas de vacinação induz crianças a pensarem em sexo", relata a médica. 

Além disso, ela explica que o medo e a vergonha contribuem para a diminuição da realização dos exames cautelares entre as pacientes. "No posto de saúde onde trabalho existem casos em que elas não querem colher o preventivo com a enfermeira, pois acham que receberão comentários sobre suas partes íntimas, medo de sair piadas com os nomes delas", comenta. 

Importância do diagnóstico precoce

Diferentemente de outros tipos de câncer, o tumor costuma se desenvolver lentamente na região inferior do útero ao longo de vários anos, geralmente sem apresentar sintomas nas fases iniciais. Esse intervalo permite que exames preventivos identifiquem alterações celulares antes da formação do câncer, tornando possível o tratamento precoce e aumentando significativamente as chances de cura.

De acordo com Panaino, o exame Papanicolau é essencial nesse processo, pois detecta alterações celulares precoces e lesões causadas pelo HPV que podem evoluir para o câncer caso não sejam tratadas. 

Sinais de alerta para o câncer de colo do útero:

  • Sangramento fora do período menstrual ou após relações sexuais
     
  • Dor ou desconforto durante relações sexuais
     
  • Corrimento vaginal persistente ou com odor forte
     

Em caso de qualquer alteração, a orientação é procurar avaliação médica. Embora esses sintomas possam estar associados a diferentes condições ginecológicas, a investigação é importante para descartar doenças mais graves. 

Vacinação e prevenção  

A vacina contra o HPV é considerada uma das principais estratégias de prevenção, já que possui papel fundamental no bloqueio dos tipos responsáveis pela maior parte dos casos.

A vacina contra o HPV está disponível em qualquer Unidade Básica de Saúde. Foto: Marcelo Camargo (Agência Brasil)
A vacina contra o HPV está disponível em qualquer Unidade Básica de Saúde. Foto: Marcelo Camargo (Agência Brasil) 

Experiências internacionais reforçam a eficácia da vacinação. No Reino Unido, um estudo publicado na revista científica The Lancet apontou redução de até 87% nos casos de câncer de colo do útero entre mulheres que foram vacinadas ainda na adolescência. 

No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, o exame preventivo Papanicolau é indicado para mulheres entre 25 e 64 anos e está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Já a vacina contra o HPV é oferecida para meninas e meninos de 9 a 14 anos e para grupos de pessoas imunossuprimidas - indivíduos com sistema imunológico enfraquecido - como forma de prevenir a infecção pelos tipos do vírus mais associados a esse tipo de câncer. 

Diante de uma doença amplamente evitável, Laís reforça que o acesso à informação, a vacinação contra o HPV e o acompanhamento médico regular são estratégias essenciais para reduzir a mortalidade no país. “Apesar da promessa de acabar com as lesões de colo de útero, muitas pessoas não aderiram, às vezes por desinformação ou pela falta de serem lembradas", afirma. 

Ao incentivar a conscientização e o cuidado contínuo com a saúde, a campanha Março Lilás reforça que a prevenção e o diagnóstico precoce permanecem como as estratégias mais eficazes para reduzir novos casos e salvar vidas.

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Transformando a vida de milhões de pessoas todo ano, merece mais reconhecimento e recursos para manter o Brasil vivo
por
Vítor Nhoatto
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28/11/2025 - 12h

Por Vítor Nhoatto

 

Uma das poucas certezas de todo ser humano, tal qual a morte, é a doença. Sabe aquele resfriado que vem junto ao seco do frio, uma ferida que infecciona depois de cair de bicicleta, até aquelas mais sérias que podem aparecer. Fato é que sem saúde não se vive, sendo um direito constitucional não por acaso. Sendo assim, é preciso que o acesso a essa necessidade tão básica quanto respirar e se alimentar seja universal, e não um bem a se comprar apenas por aqueles que podem.

Para isso então que existe o Sistema Único de Saúde (SUS), tão falado e muito mais presente na vida do que alguns podem sequer imaginar, ou querer. Para se ter uma ideia, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão regulador dos medicamentos disponíveis no país, de controle alimentar e hídrico, faz parte do SUS. Regulamentado em 1990, é responsável pelas vacinas e desenvolvimento científico ainda, e sabe os planos de saúde, a Agência Nacional de Saúde (ANS), que os regula, também é integrante do sistema.

Para falar dessa diferença real na vida, antes é preciso até olhar nos papéis para lembrar já a quanto tempo ele é médico, enfermeiro, farmácia. De cabelos curtos hoje, depois de uma repaginada no visual devido ao câncer de pulmão que teve justamente na pandemia de COVID-19, Léia Marisa celebra que há dois anos consegue receber na AME Maria Zélia o micofenolato de Mofetila. Pois é, muitas vezes quando o nome é chique o preço é alto, uns R$500 por caixa, mil reais por mês gastos antes da papelada ficar pronta e ser aceita em 30 de novembro de 2023, já que a doença não espera os trâmites e filas.

A ex-professora, atual dona de casa e empresária a distância do seu restaurante, conta como o período de descoberta e tratamento do câncer, que levou até questões reumatológicas, e ajudou a descobrir uma artrite reumatoide, foi muito difícil. Entre dezenas de idas ao hospital de 2020 até 2023 até chegar ao diagnóstico, foram dias desgastantes, assustadores, e toda ajuda foi essencial, principalmente com os custos de sobreviver à doença. No caso dela, o tratamento do tumor foi feito em rede privada graças ao seu plano de saúde empresarial, que custa salgados R$5 mil reais ao mês. Só aqui são quase quatro salários mínimos, um privilégio muito grande, como ela destaca, olhando para um país em que apenas 7,60% da população ganha entre 5 e 10 salários como o Censo de 2022 do Instituto brasileiro de Geografia e Estatística revela. 

Se aprofundando mais ainda nos fatos, de acordo com o estudo “Quanto custa o câncer” de 2023 do Observatório de Oncologia, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE) e do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, os custos de tratamento da doença quadruplicaram nos últimos três anos. Uma sessão de radioterapia ou quimioterapia custava quase R$800 em 2022, e dezenas são necessárias na maioria das vezes. Acrescentando nessa conta, consultas, tomografias e biópsias, mil reais ali e cinco acolá, o custo chega facilmente ultrapassa dezenas de milhares de reais. Isso é ainda mais preocupante tendo em conta a incidência do câncer na população, que segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA) entre 2023 e 2025, 704 mil pessoas terão a doença como Marisa. 

E com isso que o SUS se mostra como algo tão relevante, oferecendo tratamento integral e gratuito contra todos os tipos de cânceres. Claro que muitos problemas existem, como destaca Marisa ao lembrar que quando estava no meio do tratamento enfrentou problemas com o plano de saúde, mas que só o medo de depender da demora do SUS caso fosse preciso, a preocupava muito. A saúde é o bem mais precioso para, o que para todos provavelmente deva ser, e por isso justamente que em 2012 a lei 12.732/12 obriga que o tratamento contra o câncer tem que ser iniciado em até 60 dias após o diagnóstico. 

Mas além disso, com os olhos marejados depois de navegar novamente no mar agitado que foi a jornada até a vida que tem hoje, curada e com o diagnóstico da sua doença crônica, ela volta e lembra que a diferença que não ter que pagar pelo Micofenolato que a mantém respirando faz.  Quando tinha que arcar com as despesas era como um fardo a mais imposto a ela, que considera a saúde hoje como o bem mais valioso. As idas mensais  ao posto são um alívio hoje para ela, destacando que o seu medicamento nunca faltou até então, mas que já presenciou pessoas na situação contrária e que não tinham como arcar pessoalmente com os gastos. Essa é uma realidade infelizmente, segundo fiscalização de 2023 da secretaria de contas do Estado de São Paulo, em quase metade dos postos visitados faltavam algum medicamento.

papéis
A cada seis meses Marisa tem que renovar a receita e toda a papelada para solicitação do seu medicamento junto a AME - Foto: Vítor Nhoatto

Milhões de uns

Mesmo que falte muito, afinal, só 4,16% do orçamento federal foi destinado à saúde em 2024 segundo o Painel do Orçamento Federal, a porcentagem vem aumentando desde 2022, e milhões de brasileiros são atendidos todos os dias. O Brasil é o único país do mundo com mais de 100 milhões de habitantes com um sistema universal de saúde, e 213 milhões dependem diretamente do SUS, segundo o Ministério da Saúde, que contabiliza em média 2,8 bilhões de atendimentos por ano, empregando 3,5 milhões de profissionais.

E mais um desses uns é Valdir Sousa, que do alto de seus 63 anos de idade é um típico caso brasieleiro. Com diabetes do tipo II há 20 anos e hipertenso, conta que se não fosse o acesso ao sistema gratuito, sua vida seria muito diferente, obviamente pelo lado financeiro, e muito também pelo bem-estar. O mineiro nascido em São João do Paraíso e que vive em São Paulo há décadas já viu tanto na vida, e com o passar do tempo o que todos querem e merecem é justamente qualidade de vida. Essa no caso, em grande parte possível graças a insulina que busca no posto na Freguesia do Ó e os comprimidos que cuidam do seu coração acelerado.

Justamente essa hipertensão que é a doença mais presente nos peitos animados dos brasileiros, e 52% da população é diagnosticada com alguma DCNTs, como revela a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019. Além disso, segundo dados de 2020 da Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) como as de Valdir são tecnicamente chamadas, são as mais comuns no mundo e no Brasil, com o diabetes inclusive tendo aumentado 70% entre 2000 e 2019. 

Para contextualização, nos Estados Unidos existe há alguns anos o movimento nas redes sociais insulin4all, criado pela organização sem fins lucrativos T1 International, que denuncia os altos custos da insulina no país, onde um frasco de 10ml gira em torno de U$330. Tal situação vem levando inclusive pessoas a racionarem o medicamento, o que pode levar a complicações e até a morte em casos mais graves. Já no Brasil, o mesmo remédio é disponibilizado pelo SUS, e o preço máximo permitido por lei é de R$125,30. 

Diante desses dados e o envelhecimento da população fica claro como a saúde vai ser cada vez mais necessária, tal qual destaca o jovem de espírito Valdir, que já foi pedreiro e auxiliar de manutenção geral em uma lanchonete, justamente no Hospital das Clínicas. As histórias que já viu na maior referência de saúde pública brasileira enchem a sua mente, e as palavras saem inquietas sobre as melhorias que o SUS precisa e as pessoas merecem. Ele conta em meio a suspiros que quando precisa de exames mais urgentes, ou consultas em meio a crises, tem que recorrer ao plano de saúde da sua esposa, do qual é dependente, já que as unidades de saúde estão sempre cheias e a fila de espera passa de meses algumas vezes. 

Foi nessas passagens obrigadas pela rede privada que ele inclusive descobriu mais um integrante do seu pacote, a doença renal crônica há um ano. Porém, é no SUS que o acompanhamento com nutricionista, nefrologista e endocrinologista foi possível, uma rotina de cuidados essenciais para uma boa qualidade de vida para quem tem a condição. É graças a essa rede de profissionais e a farmácia popular que Valdir vai aproveitando com os dois filhos e a mulher os seus dias, frisando com a voz até meia trêmula, que sem isso não poderia se ter o seu direito de viver com saúde exercido plenamente.

medicamentos
São graças a compostos como esses que tanto Marisa ou Valdir, e os mais de 100 milhões de brasileiros com doenças crônicas podem viver bem tal qual a constituição garante - Foto: Vítor Nhoatto

 

‘Tá muito complicado, eu senti que desenvolvi várias questões psicológicas que não existiam antes da quarentena’, diz estudante prounista de jornalismo da PUC São Paulo.
por
Guilherme Dias e Inara Novaes
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30/06/2021 - 12h

Por Inara Novaes e Guilherme Dias

 

Em meio a crise sanitária  dos últimos tempos, quando milhares de vidas são interrompidas diariamente, muitas pessoas vivem sem escolha, fadadas ao risco, expostas à morte e presas ao velho estigma do trabalhador: aquele que é impedido de parar, em troca da subsistência. Não importa o contexto social, político e econômico, trabalhar permanece sempre como sua única escolha de vida.

Segundo o filósofo alemão Dietmar Kamper no artigo O Corpo Vivo, O Corpo Morto, criamos imagens sobre essas pessoas e criar imagens é matar corpos. Transformados em imagem, os corpos perdem sua “essência natural e histórica”, tornando-se desprovidos de profundidade e subjetividade. Aos olhos de muitos, são apenas máquinas orgânicas programadas para funcionar, pois outra opção não lhes é dada. Para a população periférica, trabalhar é uma constante fuga do desabrigo, da fome, das dívidas e da morte. 

Com esses corpos reduzidos a imagem, a sanidade mental dessa população é deixada de lado, ou melhor, não é pautada. Como relata a jornalista Thaís Cavalcante, em sua pesquisa  sobre a saúde mental dos moradores do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, a mídia falha em pautar esse assunto. “Nunca li sobre morador de favela ter problemas de saúde mental. A pessoa não tem informações sobre o assunto. A naturalização existe”.

A imposição ao ‘novo normal’ implica numa perturbação psicossocial, promovendo novas tensões, angústias e temores. “O que tem tirado muito o sono” aumentaram consideravelmente, os medos se tornaram ainda mais pavorosos e sabendo disso, empresas e governos buscam lançar sobre a população o cabresto do empreendedorismo. Sem auxílios suficientes e o já comum abandono, trabalhadores e trabalhadoras acabam internalizando o papel de próprio chefe e mergulhando em um novo mar de incertezas. 

Confeiteira autônoma, Giovanna Vitória, 20, moradora do Capão Redondo, vive à margem das incertezas. “Eu só tenho essa renda e é dessa renda que eu consigo me manter, ajudar a minha família, ajudar o meu filho". Os receios somam-se à possibilidade de se contaminar e perder a única fonte de renda “e não conseguir fazer mais nada”.

Giovanna Vitória
Giovanna durante as produções de páscoa deste ano. Imagem: Acervo Pessoal

 

 

Mãe solteira, Giovanna faz parte de um grupo de mulheres no qual a  pandemia tem um peso ainda mais cruel. Cerca de 28 milhões de famílias são chefiadas por mães solteiras, segundo o último levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Sem outras pessoas para ajudar nas despesas de casa, essas mulheres não conseguem manter alimentação e higiene da sua família.

A romantização do sofrimento atinge muitas pessoas moradoras de comunidades e periferias. As políticas públicas não alcançam ou, na maioria das vezes, são ineficazes para muitas dessas famílias. Isto impacta na estabilidade psicológica, não é fácil falar de saúde mental sem considerar a crise financeira e outras preocupações que, ocasionalmente, esses grupos já lidam diariamente. Isso causa, inclusive, aumento do impacto emocional reverberando dentro dessa população a sensação de abandono. 

Para além dos fatores culturais que afastam a periferia de acessar esse serviço, o alto custo de sessões de terapia e a falta de profissionais da área no Sistema Único de Saúde (SUS) colaboram para a atual realidade. “Eu queria muito fazer terapia, mas tá muito fora da minha realidade atualmente, financeiramente falando, e práticas de autocuidado são coisas que nunca foram fomentadas na população periférica. É muito complicado, porque ocupa muito tempo e é um tempo que, às vezes, a gente poderia tá usando pra fazer outras coisas da nossa vida, tipo trabalhar”, afirma Kaio Chagas, 20, trabalhador autônomo, fundador do brechó "Veste Pencas".

 

Kaio Chagas
O trabalhador autônomo e estudante de jornalismo, Kaio Chagas. Imagem: Acervo Pessoal

 

 

O Portal Psicanálise Clínica confirmou em pesquisa de 2019,  que em média, as sessões de psicanálise variam de R$ 70 a R$400 por encontro.  Em geral, psicólogos solicitam  uma sessão com frequência semanal, porém com a intenção de garantia de faltas, alguns profissionais gostam de trabalhar com dois encontros por semana, ou seja, no final do mês os valores podem variar entre R$280 e R$ 3200. 

Mesmo com  a Internet ajudando na socialização de serviços voltados à saúde psíquica por meio de coletivos e movimentos que fornecem sessões gratuitas ou com preço acessível, o ambiente domiciliar de muitas famílias periféricas dificulta o andamento da sessão, pois, muitas das vezes,  a privacidade é escassa.  Sem um ambiente adequado, a terapia pode gerar tensões ainda maiores ao paciente.

Com a falta de acesso e o alto custo, moradores das margens sociais criam maneiras de superar os momentos de tristeza, ansiedade e depressão. “Olha, eu tento dormir, acho que é o que eu tenho feito bastante, quando posso. Quando não preciso fazer algum bico, algum trabalho para complementar a minha renda”, revela Kaio. 

Estar inerte e se deixar consumir pelo cotidiano pandêmico faz parte de muitas vidas em 2021. Com o número de mortes aumentando cada vez mais e a impossibilidade de respirar novos ares, estar estático se torna inevitável. Não há tempo, não há incentivo, muito menos meios governamentais que possibilitem a melhoria da vida psíquica da população periférica. Para o sistema e boa parte da mídia hegemônica, o trabalhador continuará como uma máquina orgânica sem sentimentos ou psicológico.

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Com a instauração da fase roxa na metrópole paulistana, ficou nítido que os casos não param de se expandir. O que era 100 mortos por dia virou 4 mil - e as UTIS atualmente trabalham com quatro vezes sua capacidade; realmente existem os responsáveis por tu
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Yerko Mauricio, Pietra Nobrega, Manuela Troccoli e João Carlos Ambra
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08/04/2021 - 12h

Em março de 2020 foi declarado o primeiro caso de coronavírus no Brasil. Um ano depois, somatizamos em mais de 400 mil mortes. Mas por que motivo isso acontece? A quem se deve o colapso que estamos vivendo, e, principalmente, a que comportamento isso pode ser associado?

    Apesar de São Paulo ter mais de 12 mil leitos (todos ocupados), e considerando que a UTI está operando com quatro vezes da sua capacidade total, a fila de mortalidade de covid só cresce - são centenas de pessoas aguardando e falecendo ao não conseguir ter acesso a nenhum leito (vale lembrar que São Paulo é o Estado com maior quantidade e disposição de leitos no país). A calamidade é geral, milhares de habitantes aguardam oxigênio.

    Além de temas como “quarentena”, “lockdown” e “kit covid”, não podemos descartar a falta de um plano nacional de imunização, a “novela” que está sendo o processo das vacinas desde o ano passado e o comité anti covid falando inclusive sobre furar a fila do plano nacional - tal que é para muitos, questionável. Sem contar que não se fala de combate, das estatísticas de outros países e da importância crucial de usar máscaras protetoras. 

    A grande falta de informação produz um descuido na proteção ao vírus, inclusive aglomerações constantes e várias festas clandestinas; mas será que quem frequenta este tipo de ambiente realmente não tem acesso a informação ou prefere se alienar para “curtir com os amigos”?

Após o aumento em massa de casos de covid com a nova variante e o decreto do governo da fase vermelha e emergências, os donos de festas, lounges, bares começaram organizar as mais conhecidas  “festas clandestinas”. 

São festas feitas a escondidas, contra as leis, com pessoas imprudentes que desrespeitam as regras e não se importam com o grande número de casos em São Paulo. Os organizadores que são chamados de promotores fazem o convite circular pelas redes sociais, sem nunca revelar a identidade para não serem pegos facilmente pelos guardas civis, policiais ou fiscais da vigilância sanitária. 

Os interessados entram em contato e recebem os dados bancários para o pagamento, só após feito e a apresentação do comprovante é revelado onde será o ponto de encontro para o partida  ou mandam o endereço para se conduzirem ao local proibido onde ocorrerá a festa clandestina. 

Os promotores apresentam regras antes de acontecerem as baladas para que não ocorra de serem encontrados, eles obrigam os convidados a deixarem o celular em um guarda volumes para evitar as fotos, também frequentemente a troca de endereços.

Dependendo do lugar e da festa a classe social acaba mudando, em lugares mais elegantes e mais caros a elite de São Paulo estará presente, que são as pessoas que têm mais dinheiro e estão dispostas a pagar mais de 300 reais pela entrada das baladas. Já em bairros mais pobres a classe muda, mas independente de quem são as pessoas eles estão desrespeitando as regras e piorando o andamento contra o Vírus. 

O empresário Carlos Eduardo de Andrade, de 28 anos, era dono de um restaurante, no centro de São Paulo. Porém com a pandemia, muitas lojas e restaurantes tiveram que fechar suas portas, devido a crise. Carlos não conseguiu manter seu restaurante e fechou.

"Na minha opinião, restaurantes, bares, shoppings e o comércio deveriam funcionar normalmente, com o uso obrigatório de máscaras e distanciamento, não vejo necessidade alguma de não poder funcionar e no final somente nós saímos perdendo e tendo que fechar nossos estabelecimentos .” disse Andrade.

    Carlos conta que estava frequentando restaurantes, bares e até mesmo festas com aglomerações.

“ Não acho tão preocupante o momento atual que estamos vivendo, a ponto de parar a minha vida e ficar isolado em casa, sei que muitas pessoas estão morrendo mas é só se cuidar e sair de máscara. Estou saindo com meus amigos sempre que posso.” Diz Andrade.

Com cerca de 341 mil mortes pela Covid-19 no Brasil, e os números de mortes por dia cada vez maiores, Carlos Eduardo diz não confiar em números e dados fornecidos pelo ministério da saúde. 

“Posso afirmar que o governo está fazendo um bom trabalho na pandemia, dentro do possível é claro, mas acho que eles aumentam os números de morte para deixar a sociedade mais aflita, com medo de sair e assim, as pessoas  começam a ficar em casa.” Diz Andrade

    Com o processo de vacinação ocorrendo por todo o Brasil, o empresário faz parte do grupo de pessoas que ainda não sabem se irão se vacinar e duvidam da eficácia.

    “Tenho um tempo para pensar até chegar a minha vez, mas como nunca peguei o vírus, acho que não vou precisar, tenho uma boa imunidade. Até porque não quero virar jacaré.” Diz Andrade. 

       Para buscar um contraponto de alguém que estava tratando a pandemia com cuidado e respeito, entrevistamos Lia Aruni Damous Bertolo, de 20 anos, que atualmente exerce a profissão de estudante. Lia está tomando todos os cuidados e cautelas necessárias e tem uma opinião contrária à de Carlos Eduardo de Andrade sobre a pandemia e a Covid-19. 

       “Por um um lado entendo aqueles que precisam trabalhar e não tem a opção de não pegar transporte público, mas vejo que muitos já se acostumaram com o que estamos passando e não tem mais “medo” do vírus. Acredito que aqueles que não tem mais “medo” do vírus e não se precavem podem não ajudar a melhorar a situação que estamos. Outro ponto que não está colaborando é o governo, que está cagando completamente pra tudo, e isso tá me dando um certo medo de ver os outros países conseguindo controlar a pandemia enquanto o Brasil só cresce o número de mortos por dia.” Diz Bertolo

       A estudante conta a respeito das medidas que está tomando junto a sua família para se cuidar contra a Covid-19.

       “As medidas que ando tomando são as básicas, como o uso de álcool em gel sempre que não estou em casa, uso de máscara, quando volto do mercado com compras sempre higienizo, ao entrar em casa tirar o tênis, higienizar a sola do sapato  e o colocar na área externa (onde há ventilação natural) além de sempre que posso tomar um banho por completo depois de voltar da rua, minha mãe está bem exigente, mas com razão, todo cuidado é pouco.” Disse Bertolo

       Lia tem tomado cuidado em dobro pois está vendo somente seu namorodo e a família dele tem pessoas no grupo de risco, sobre a vacinação da COVID-19 a estudante pontuou;

     “Sobre a vacina, irei  tomar e meu namorado também, estamos ansiosos. Mas ainda não fiz uma pesquisa a fundo pra saber mais detalhes e eficácias das vacinas. Para aqueles que optaram por não tomar, eu respeito, mas estes têm que ter um cuidado maior consigo e os que estão à sua volta.” Disse Bertolo; 

Lia conta que está passando por momentos de altos e baixos na quarentena e acredita que todos estão de saco cheio.

      “Estou muito de saco cheio da quarentena, tudo que eu queria era poder viajar com meus amigos, sair na rua, abraçar pessoas,  mas não é por isso que vou furar a quarentena e botar a minha vida e a de outros que estão à minha volta em risco, é difícil se manter positiva e produtiva em tempos como esse, tenho várias fases precisamos cuidar da gente e da nossa saúde mental.” Diz Lia.

    Após as entrevistas, ficou clara uma nítida contraposição entre os entrevistados. Enquanto de um lado existem pessoas clamando pelo fim da pandemia, e tomando cuidado para que este período não se prolongue, temos outras pessoas que estão vivendo a vida de maneira muito próxima a vida normal, sem se preocupar com contrair a doença e sobretudo em transmiti-la.

    O interessante é pensar que ambos os entrevistados estão lidando com a mesma crise sanitária, de formas absolutamente distintas. 

            Com o cenário atual que estamos vivendo, existem pessoas que preferem não enxergar a realidade, às vezes é mais fácil, só pensar em você, enxergar a sua realidade, que muitas vezes é totalmente diferente dos outros, sem se  importar com o próximo, e com as dificuldades que muitas pessoas estão passando, notamos isso  nas entrevistas. 

    Enfrentar a pandemia está sendo difícil para todos os brasileiros, todos tiveram que se adaptar a uma nova realidade, se reinventar, construir uma nova  rotina totalmente diferente,  ver a vida por outros ângulos, dar chances para o novo. Não podemos negar que as classes inferiores sentem esse impacto de uma forma maior, e com mais necessidades, mas cada um tem sua batalha diária, sua forma de passar  e viver a tudo isso.

           A melhor forma de enfrentarmos a Covid-19 é sendo humilde em reconhecer que esse momento tão crítico e cruel merece nossos esforços para que tudo acabe logo, como fazer a quarentena, ficar em casa sempre que possível, usar máscara, álcool em gel, evitar aglomerações. Cada vida importa, a sociedade precisa se unir para um bem estar coletivo, não dá mais para fingir que todos os dias morrem mais de mil pessoas, que o Brasil não é um dos piores países no combate do vírus, com dados e índices assustadores. Precisamos combater esse vírus e a diferença começa por cada um de nós.

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Algumas academias de pequeno porte mantém seu funcionamento de forma velada
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Rodrigo Vaz Guimarães Mendonça e Mario Gandini Caldeira Cardoso Neves
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08/04/2021 - 12h

  Mesmo com a escalada da pandemia da Covid-19 no Brasil com mais de 13 milhões de casos e 4 mil mortes em média por dia, até o fechamento desta reportagem em 08 de abril, pela doença além de novas variantes surgindo como a detectada na cidade de Manaus no Amazonas e outra na cidade de Sorocaba em São Paulo, muitos ainda defendem a abertura de serviços considerados não essenciais como academias alegando a necessidade de praticar exercícios físicos às vezes até indo contra decretos estaduais, como em São Paulo que por decreto do governo estadual nenhuma academia pode estar aberta desde o dia 6 de março quando todas as cidades do estado entraram na Fase Vermelha do "Plano São Paulo" que proíbe serviços como esse de abrirem.  

Coletiva de imprensa do Governo do Estado de São Paulo na qual o estado voltou a fase vermelha
Coletiva de imprensa do Governo do Estado de São Paulo na qual o estado voltou para a fase vermelha 

   Essas medidas tiveram que ser tomadas novamente devido ao relaxamento nas regras de isolamento e ao comodismo das pessoas em relação à pandemia. Entrevistamos pessoas sobre essa normalização da pandemia na cabeça de alguns e como isso afetou no ponto de vista de quem realmente está correndo risco e não tem condições de ficar trabalhando em casa: “É uma palhaçada isso, eu sei que na minha quebrada tem gente que não respeita , mas também nós [pobres] não temos condição de ficar em casa ,a gente tem que fazer o nosso corre, ou eu trabalho ou passo fome.”Carlos, morador de Paraisópolis."Como sempre, a gente paga o preço  das pessoas que não estão respeitando ,ainda mais quando a gente trata de vidas”,ressaltou Vera Lúcia, uma idosa moradora da zona XXX, em São Paulo.

   Na última semana de março, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), decretou a antecipação dos feriados de Corpus Christi de 2021 e 2022 ,da Consciência Negra de 2021 e 2022 ,além do aniversário da cidade de 2022.Todas essas medidas foram uma tentativa de diminuir os números de mortos e infectados pelo Covid-19.

 

   O avanço do coronavírus está colapsando  o sistema de saúde na cidade de São Paulo, a ocupação dos leitos de UTI já  está  em 90%,leitos de enfermaria praticamente lotados e pela primeira vez na pandemia a capital paulista apresentou falta de oxigênio para o tratamento de pacientes.

 

LUTA PELA VIDA 

 

   Estamos em tempos de guerra, a luta pela vida é diária e devemos nos resguardar se possível e nos manter atentos sobre os cuidados de higiene pois o vírus ainda está por aí esperando a nossa desatenção.A maioria dos brasileiros mudou a sua rotina devido a pandemia, com o auxílio da internet, tudo ficou um pouco mais fácil, um escritório passou a fazer a suas reuniões diárias via video chamada. 

   Outra questão que está emergindo é a relação da prática de  atividade física como grande potencial na prevenção das consequências decorrentes do vírus, muitos dos profissionais das academias estão sem receita pois não tem como exercer seu trabalho, muitos  destes mesmos profissionais questionam essas medidas de lockdown pois não incluem a academia como atividade essencial.Mesmo com essas medidas, existem pessoas que mantém o seu estabelecimento funcionando de forma clandestina, entrevistamos um destes donos com  a finalidade de saber o que levou ele a fazer isso.O entrevistado pediu para ser identificado com um nome diferente do seu para não causar problemas para o próprio.

 

Mesmo diante deste caos que está a pandemia porque o senhor manteve a academia funcionando?

  Primeiramente, sou praticante de esportes há 35 anos, de musculação à levantamento de peso olímpico.É cientificamente comprovado que a prática de atividade física ajuda na imunidade do ser humano além de ser um dos pilares contra a obesidade..Eu acho um absurdo esse fechamento das academias e dizer que os profissionais presentes nas academias não são “profissionais de saúde''. Absurdo, claro que somos”. 

 

Mas o que o senhor acha dessa pandemia e do coronavírus ?

  Não é que eu desacredito do Covid-19, mas temos que cuidar da nossa saúde, melhorar os hábitos alimentares e praticar atividade física que na minha opinião é essencial para um momento desse. Eu tenho atletas de alto  rendimento e eles não podem ficar sem academia..Além de já ser um válvula de escape natural para o estresse, que  aumentou drasticamente na população desde que começou a pandemia, o esporte incentiva o funcionamento do nosso sistema imunológico. 



 

 

 

 

 

 

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Jovens passam a ser maioria nas UTIs dos hospitais brasileiros.
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Iris Martins Oliveira de Freitas e João Victor Guimarães de Siqueira
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08/04/2021 - 12h

      Ao final de 2019 o mundo presenciou algo jamais visto por muitos, o início de uma pandemia. O novo coronavírus é uma doença infecciosa que pode ser transmitida por meio de gotículas de saliva, do aperto de mãos contaminadas, espirro, tosse e tem como sintomas: perdas de olfato e paladar, falta de ar, tosse, dor de garganta, coriza, febre, cansaço, entre outros. Mas, o que realmente preocupa são os assintomáticos que espalham esta enfermidade sem sequer saberem que estão doentes, colocando as pessoas do grupo de risco, como idosos e pessoas com pressão alta, em piores condições. Os jovens, menor grupo de afetados pela doença, acreditam que podem ignorar o isolamento social, que funciona como método preventivo e que é adotado por muitos países até hoje.

      Em entrevista, Ana Silva, 18 anos, estudante de direito na Universidade Presbiteriana Mackenzie, conta à Agência de Jornalismo Online Maurício Tragtenberg sobre sua vida na pandemia, que inclui encontros familiares e com amigos. A jovem diz que desde o começo era contra o isolamento e que nunca parou de frequentar lugares como farmácias, cartório, supermercado, academia, praia, restaurantes (quando abertos) e que se a faculdade estivesse aberta, também iria. Em seu relato, ainda narra que em sua família houve encontro familiar para a comemoração do Natal, que contou com a presença de 15 ou 20 pessoas e que os integrantes não utilizavam máscaras, medida utilizada para prevenção do covid-19, especialmente com a presença de idosos.

      A necessidade de ver pessoas é um ponto que Ana ressalta em sua fala, ela se reúne com seus amigos frequentemente, em torno de 5 a 15 pessoas aos fins de semana, na maioria das vezes. A jovem diz que os encontros com pessoas de sua faixa etária estimulam as habilidades de convivência, indica que é reconfortante tê-los ao seu lado fisicamente e não somente através de uma tela de celular. Psicólogo formado há 16 anos pela Uniban, Sidney de Rosa Júnior, em entrevista à agência, explica essa necessidade de convivência: “Tem a questão dos interesses similares, assim como a identificação com um grupo. Um jovem de 18 ou 19 anos tem a maturidade e os interesses completamente diferentes de um adulto de 30 anos, a conversa é outra, a diversão é outra.”

Jovens em festa clandestina pegos pela polícia em São Paulo no dia 21 de março de 2021
Festa clandestina em São Paulo no dia 21 de março de 2021 foi encerrada pela polícia - Foto: DEIVIDI CORREA/ESTADÃO CONTEÚDO

      Mesmo tendo contato com várias pessoas sem tomar as devidas medidas de prevenção contra a doença, a menina não a contraiu. Em razão  deste exemplo e de muitas outras situações semelhantes que os jovens de hoje em dia possuem essa ilusão de indestrutibilidade, por terem pouca idade, acreditam que são indestrutíveis. Questionado sobre isso, Sidney elucida sobre essa “Síndrome de super-heróis”: “Quando somos crianças, não conseguimos associar a ideia por trás da morte. Quando entramos na adolescência, temos consciência do que ela é, porém é uma ideia muito distante. Isso, combinado com a liberação de hormônios (que não podem ser ignorados também) nos jovens gera a sensação de imortalidade”.

       Em entrevista à BBC News, o médico Matheus Alves de Lima, em um plantão recente de casos de covid-19 em UTI de hospitais de campanha no Distrito Federal, afirma que houve uma mudança no perfil dos pacientes. "Tivemos a morte de um paciente de apenas 25 anos, o que é muito chocante", explica à BBC News Brasil. Alves ainda relata outros casos como o de um paciente de 28 anos que não resistiu à extubação (processo de retirada da ventilação mecânica), precisou ser entubado novamente e fazer hemodiálise.

     

Jean Carlo Gorinchteyn, Secretário de Saúde do Estado de São Paulo - Foto: Governo de São Paulo
Jean Carlo Gorinchteyn, Secretário de Saúde do Estado de São Paulo - Foto: Governo de São Paulo

Em entrevista coletiva no dia 1° de março de 2021, o Secretário de Saúde do Estado de São Paulo, Jean Gorinchteyn, afirma que "a pandemia retornou com uma velocidade e uma característica clínica diferentes daquela da primeira onda". E continua, "São pacientes mais jovens, que têm a sua condição clínica muito mais comprometida e, pior, são pacientes que acabam permanecendo um período mais prolongado nas UTIs. Na primeira onda, tínhamos (nas UTIs paulistas) percentual de mais de 80% de idosos e portadores de doenças crônicas. O que temos visto hoje são pacientes mais jovens, 60% deles de 30 a 50 anos, muitos dos quais sem qualquer doença prévia."

      Muitas das pessoas contaminadas hoje utilizam desculpas como não estarem no grupo de risco, ou até mesmo por já terem contraído o vírus para se aglomerarem e não seguirem as normas de prevenção contra o covid. A maioria da população mundial já tomou alguma atitude considerada inconsequente, porém há um limite que está sendo seriamente ultrapassado, visto que são completamente diferentes a ida a um restaurante e a uma festa, por exemplo.

      A conscientização dos jovens quanto aos riscos da doença e a adoção das medidas sanitárias recomendadas pelos médicos são fundamentais para o controle da pandemia no Brasil, porém não é o que ocorre, uma vez que o percentual de pessoas que morrem sem atingirem os 60 anos de idade saltou 35% em relação ao ano passado, segundo dados fornecidos pela UOL com base nos números do portal da transparência da Arpen (Associação dos Registradores de Pessoas Naturais).

(O nome da jovem entrevistada foi alterado para a preservação de sua identidade).

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Nunca foi segredo a questão do etarismo na nossa sociedade. Da vida profissional às relações pessoais e sociais, é perceptível o preconceito da sociedade com relação à idade. 
por
Giovanna Canha Crescitelli e Marina Daquanno Testi 
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24/03/2021 - 12h

Diante de países como o Japão, Cingapura - cuja média de expectativa de vida é 83 anos -, Espanha - 82 anos - e Coreia do Sul - primeiro país a caminhar para uma expectativa de vida de 90 anos -, o Brasil não está muito distante em questão de longevidade, com sua expectativa geral em 75,8 anos esta supera a média mundial que é de 71 anos. De acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), em 2016, a média da expectativa de vida da população mundial era de 74 anos para mulheres e de 69 anos para homens. 


No Brasil tem mais de 28 milhões de pessoas nessa faixa etária, número que representa 13% da população do país. E esse percentual tende a dobrar nas próximas décadas, segundo a Projeção da População, divulgada em 2018 pelo IBGE.

 

A relação entre a porcentagem de idosos e de jovens é chamada de “índice de envelhecimento”, que aumentou de 43,19%, em 2018, para 173,47%, em 2060. Esse processo pode ser observado graficamente pelas mudanças no formato da pirâmide etária ao longo dos anos, que segue a tendência mundial de estreitamento da base (menos crianças e jovens) e alargamento do corpo (adultos) e topo (idosos).

 

A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo IBGE em 2013, mostrou que a cada quatro pessoas com 60 anos ou mais, pelo menos uma relatava participar de atividades sociais organizadas. Entre as mulheres, o percentual era maior, chegando a quase 30%. Mas a participação dos homens também foi significativa, ficando bem pouco abaixo dos 20%. Este estudo nos permite ter um olhar sensível sobre a qualidade de vida desta população e mostra como a tendência dos idosos, com o avanço das cidades , é se isolar socialmente.

 

De acordo com a psicóloga Graça Câmara, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, esse movimento acontece por causa das limitações que vão sendo impostas, pelo próprio corpo e pela sociedade. “Os jovens perdem a paciência com os mais velhos e, muitas vezes, as famílias os colocam no lugar de  ‘os improdutivos da casa’”, disse para a revista Leve. Contudo este também é um dos motivos que traz profunda angústia aos que estão envelhecendo, se tornar dependente de alguém ou “incapaz” de realizar certas funções que antes lhe vinham naturalmente. 

 

Nessa constante busca por compreensão, sem perder o respeito e validação da sociedade, nossos futuros antepassados já nos avisam quanto nossa futura realidade: se aqui, enquanto somos jovens, não mudarmos certas posturas e visões “viciadas” de nossa sociedade, iremos nos deparar com nosso inerente destino e ainda sem apoio. Simone de Beauvoir disse em sua obra “A Velhice”, nos anos 70, que “Não reconhecemos a velhice em nós, nem sequer paramos para observá-la, somente a vemos nos outros, mesmo que estes possuam a mesma idade que nós”. 

 

Entrevista com Sandra Regina Gomes

 

Sandra é  a atual coordenadora de políticas para o idoso, dentro da secretaria de direitos humanos da prefeitura da cidade de São Paulo. Nascida em Santos a especialista tem um longo currículo na área, foi responsável pela implementação de políticas públicas para o idoso na cidade de São Paulo e já ocupou os cargos de assessora técnica da Secretaria de Relações Institucionais do Governo do Estado de São Paulo, coordenadora da Rede de Proteção Social para Idosos na Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo e docente na Universidade da Terceira Idade. A fonoaudióloga e gerontóloga, que também se especializou em políticas públicas, ajudou diretamente a implantar o Centro de Referência da Cidadania do Idoso, as unidades Boracea e Casa de Simeão do Abrigo para Idoso  em Situação de Rua, o Serviço de Apoio-Socioalimentar para Idoso e os Núcleos de Convivência para Idosos.

 

 

Envelhecimento é um fenômeno global? 

 

Sim, o mundo todo envelhece. Só que os países que se preparam para isso, no caso da Europa, do Canadá que por mais de cem anos se preparam para o processo de envelhecimento; o Brasil não. No Brasil, como diz uma professora querida, Maria Cecília Minai da Fiocruz, estamos trocando o pneu com o carro andando e isso é muito sério porque até onde éramos um país de jovens e hoje estamos com um país envelhecido e um envelhecimento muito rápido. Então é um um fenômeno global sem dúvida nenhuma, o mundo está envelhecendo rapidamente e nós precisamos ter ações e políticas públicas para isso. 

 

O que é Envelhecimento ativo? Como abordar o tema ao longo da vida e não apenas na fase do envelhecimento?

 

Primeiro envelhecimento ativo é um processo de otimização de oportunidades para a saúde  e aprendizagem ao longo da vida, que está relacionado a educação, a participação e segurança para garantir uma melhor qualidade de vida à medida que as pessoas envelhecem. Isso tudo aqui é uma determinação da OMS baseada no pressuposto de que o mundo precisa olhar o envelhecimento sob a ótica, promovendo resiliência ao longo do curso de vida. O que quer dizer isso? Em tese você tem processo de envelhecimento e que bom porque a maior conquista do século XX é a longevidade, uau estamos envelhecendo, hoje no Brasil a  expectativa de vida é de 75 anos, e já já vamos chegar ao Japão é de 81 anos. Para o século XXI a longevidade é um desafio, nós temos que saber como envelhecer. Então em 2002 a OMS lança esse programa de envelhecimento ativo, que o Brasil é signatário. Isto tem a ver como abordar o tema ao longo da vida, temos que pensar o envelhecimento ao longo da vida porque é uma fase como a infância, a adolescência e fase adulta depois criamos independência e depois temos o processo de velhice. Ainda bem que chegamos ao processo de envelhecimento se não você morre antes dos 60 anos e no Brasil você é considerado idoso com essa idade, em país desenvolvidos é 65 anos ou mais. Então é importante que se faça um trabalho desde de a infância, de orientação alimentar, de estilos de vidas, de aproximação de gerações e tudo isso está no Estatuto do Idoso. Não é possível falar sobre envelhecimento no Brasil sem citar o Estatuto do idoso.      

 

Qual é o papel do Estado frente ao envelhecimento ativo? Existe o direito ao envelhecimento? O que determina um processo de envelhecimento seja de qualidade e englobe o conceito de envelhecimento ativo? 

 

Tudo isso é importante que a gente entenda que não se consegue um envelhecimento saudável se você não garantir esses quatro pilares: saúde, educação, proteção e participação. Esses princípios são fundamentais porque se você tem saúde, tem a garantir de que tem as doenças todas controladas. Hoje você não morre mais de hipertensão, a não ser que você não tenha o controle dessa doença. Hipertensão, colesterol e demais doenças têm medicações e tratamentos próprios. Acompanhamento médico, atividade física, alimentação saudável, dependência química e uso de drogas, inclusive as lícitas como bebida e cigarro, tem relação com a qualidade de vida além da participação social. 

Estamos em plena pandemia, onde o isolamento é palavra de ordem, principalmente para a população idosa, que tem maior risco em relação ao COVID-19. Em que pé estamos? Temos que manter esse cérebro ativo, fazer com que as pessoas superem essas dificuldades da inclusão social e digital. Uma coisa está ligada a outra, por isso, atuo como coordenadora de políticas para a pessoa idosa dentro da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania pensando nessas relações. Existe um ganho para o idoso quando enxergamos que ele não está ligada apenas a saúde, ou a assistência, ou a previdência, ou a justiça e na verdade ele engloba todos esses aspectos representados no Estatuto do Idoso que declara que o idoso precisa de proteção, precisa ter condições de denunciar casos de violência, precisa do acolhimento, precisa da saúde e por aí vai. 

 

As diferenças que observamos em outras áreas, como na economia onde as mulheres ganham menos que os homens, também se repetem no processo de envelhecimento? Fatores culturais, gênero, ambiente social e a presença de sistemas de saúde, tanto rede particular quanto rede pública, são determinantes?

 Sim, esses determinantes sociais são muito importantes ao meu ver. Você pode resgatar esses determinantes na publicação do Kalache, A revolução da Longevidade. Ele destaca duas questões, dentre todos os determinantes, existem dois pontos transversais: um é o gênero, o outro é a cultural. 

Nós não podemos desconsiderar o histórico cultural das pessoas mais velhas e por isso nós defendemos a territorialização dessa população, ou seja que fiquem onde nasceram, onde criaram os filhos portanto onde teve seu ambiente de participação social. "Ah vou tirar ele da casa dele e vou colocá-lo na minha casa", temos que ter muito cuidado em relação a isso. Em casos extremos, talvez seja necessário, mas é melhor que a população idosa consiga permanecer onde transitou durante a vida toda, onde existe maior afinidade, aproximação e familiaridade. Chamamos isso de princípio da territorialização. 

A questão do gênero também merece destaque. Evidentemente que o processo de envelhecimento é um processo mais feminino, a gente fala dentro da gerontologia da feminização da velhice e existem muitos estudos falando disso. É muito importante que a gente entenda que existe uma característica muito marcante em relação ao envelhecimento da mulher, entretanto o sofrimento maior do processo de envelhecimento fica realmente para o homem. O homem tem muita dificuldade pra envelhecer, a mulher tem mais cuidados de saúde ao longo da vida.

 

Quais são os principais desafios enfrentados por quem está no processo de envelhecimento? Como lidar com o desenvolvimento de doenças e com o maior risco de desenvolver deficiências?

 

À medida que envelhecemos corremos riscos, né? Aumento de quedas em idosos é o que mais mata, aumenta porque nós temos a fragilidade óssea e doenças como osteoporose e também por questões visuais, há uma baixa da acuidade visão e acuidade auditiva. Nós temos a percepção e os reflexos, então há uma característica própria do processo de envelhecimento e isso é inevitável. À medida que você tem um trabalho de prevenção, uma rotina mais disciplinada no jeito de atividade física, alimentação saudável, grupo de amigos. Um dos recursos importantes é manter uma rede de amigos, mesmo que em pese alguns com o passar dos alguns venham a falecer, você abrir a possibilidade de novos contatos. è importante que você tem a amplitude da sua rede de suporte, para que você tenha a família e no caso da ausência da família que você tenha amigos, na ausência que você constitua uma outra rede de suporte. Isso é fundamental porque faz com que você esteja inserido e a gente chama na gerontologia, um sentimento de pertencimento, isso é muito importante. 

Apartar socialmente é um grande erro das políticas e na abordagem quando se fala de velho, "Ah vou colocar um prédio só de idosos" Eu não gosto disso. "Ah vou colocar um bairro só de idosos" Eu acho que a gente precisa de todas as diversidades, todas as diferentes gerações, toda  movimentação como é a característica de uma cidade. Não precisa isolar, você precisa cuidar e garantir uma cidade acessível você consegue nesse documento, A Revolução da Longevidade, Kalache fala muito sobre acessibilidade, sobre possibilidade de ter uma cidade mais amigável a pessoa idosa. Os risco de doenças sim, tem um gráfico de capacidade funcional quanto mais risco você corre quando inclusive como jovem 

 

Como devemos prover as condições ideias e as condições necessárias para oferecer cuidado de qualidade para população em envelhecimento?

 

A primeira providência é a participação social da pessoa idosa, participação nos conselhos e nos foros a exemplo de São Paulo - que tem 23 foros do idoso na capital. Nós temos o grande Conselho Municipal do Idoso, onde se concentram representantes das cinco macro regiões da cidade. É nesse local, nessa arena democrática, que se discutem as demandas e as necessidades das pessoas idosas na metrópole paulistana. São Paulo é uma cidade enorme, um idoso que mora em São Miguel Paulista é completamente diferente do idoso que mora no centro da cidade. 

Os idosos têm características diferentes, o que a gente chama de singularidade da velhice na área da Gerontologia. É importante respeitar as características de cada um e de cada região, na cidade de São Paulo são 96 bairros e distritos, cada um com seu perfil. Nós temos um documento onde fizemos o diagnóstico da questão para a cidade, elaboramos indicadores sociodemográficos para população idosa residente na cidade em São Paulo, porque o primeiro passo para fazer essas políticas públicas foi conhecer quem são esses idosos, onde eles vivem, quais são suas características e qual o perfil daquela população. Esse documento foi publicado em 2020, mas nós já o usamos desde setembro de 2017 quando iniciamos nosso trabalho durante a minha gestão na Secretaria. 

Então a primeira coisa é isso, a segunda é fortalecer essa participação social que é fundamental. Para que isso aconteça, você tem que levar ao conhecimento das pessoas idosas os dados sobre as regiões para eles avaliarem. Nós seguimos esse documento do Alexandre Kalache, que é um guia global de uma cidade amiga do idoso. Perguntamos para a população idosa sobre como está o transporte, a questão da moradia, a acessibilidade, a participação social, a questão dos locais de atendimento ao idoso se estão acessíveis e iluminados, além de uma série de perguntas que você  encontra ao visitar esse documento. Então você dá insumos às discussões e em cada bairro, em cada local isso faz com que exista uma participação, uma voz do idoso. Essa participação social clama por uma escuta. Então é como nós falamos, é de baixo pra cima e de cima pra baixo; isso é fundamental. 

 

Como podemos criar um novo paradigma de envelhecimento? 

 

A primeira coisa é falar de onde estamos falando, de que envelhecimento estamos falando. Nós estamos falando de um processo natural da vida, a velhice é natural, à medida que você vive mais adquire mais anos na sua vida, isso é super importante, e a partir dos 60 anos você é considerado idoso. Nós estamos sofrendo no Brasil,  principalmente na pandemia, a questão do idadismo - que é o preconceito em relação a idade.

"Ah é coisa de velho", "Isso é porque são velhos", "Porque os velhos precisam ficar apartados"... Existe um preconceito. 

Então, primeiramente, é preparar a sociedade para a maior proximidade com a questão do envelhecimento, então temos a questão da intergeracionalidade. A intergeracionalidade é um paradigma fundamental. As políticas públicas, privadas, filantrópicas, particulares devem integrar as ações e não fazê-las de forma apartada. É o mesmo idoso que transita entre a assistência social, entre a saúde e todas as outras áreas. Precisamos ter a integração e a integralidade, uma visão holística, integral, intergeneracional. A transversalidade é fundamental, todas as agendas de discussões precisam ter a temática sobre envelhecimento. Todas. Todas porque temos idosos imigrantes, LGBTs, em situação de rua, com deficiências, quilombolas, ribeirinhos, indígenas, portanto temos que parar de segregar. Todas essas temáticas devem vir à tona na discussão e tudo isso para preparar a questão de uma sociedade mais amigável e amorosa na questão do envelhecimento.  


 

Referências 

A Revolução Da Longevidade | Alexandre Kalache. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=_5N8V1lPIGg&t=47s> Acessado em 24/11

https://ibge.gov.br/

KALACHE, Alexandre. Envelhecimento populacional no Brasil: uma realidade nova. Cad. Saúde Pública,  Rio de Janeiro ,  v. 3, n. 3, p. 217-220,  Sept.  1987 

BRASIL. Estatuto da criança e do adolescente: Lei federal nº 8069, de 13 de

julho de 1990. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial, 2002. 

Beauvoir S. (1990). A velhice. Tradução de MHF Monteiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira

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