Transformando a vida de milhões de pessoas todo ano, merece mais reconhecimento e recursos para manter o Brasil vivo
por
Vítor Nhoatto
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28/11/2025 - 12h

Por Vítor Nhoatto

 

Uma das poucas certezas de todo ser humano, tal qual a morte, é a doença. Sabe aquele resfriado que vem junto ao seco do frio, uma ferida que infecciona depois de cair de bicicleta, até aquelas mais sérias que podem aparecer. Fato é que sem saúde não se vive, sendo um direito constitucional não por acaso. Sendo assim, é preciso que o acesso a essa necessidade tão básica quanto respirar e se alimentar seja universal, e não um bem a se comprar apenas por aqueles que podem.

Para isso então que existe o Sistema Único de Saúde (SUS), tão falado e muito mais presente na vida do que alguns podem sequer imaginar, ou querer. Para se ter uma ideia, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão regulador dos medicamentos disponíveis no país, de controle alimentar e hídrico, faz parte do SUS. Regulamentado em 1990, é responsável pelas vacinas e desenvolvimento científico ainda, e sabe os planos de saúde, a Agência Nacional de Saúde (ANS), que os regula, também é integrante do sistema.

Para falar dessa diferença real na vida, antes é preciso até olhar nos papéis para lembrar já a quanto tempo ele é médico, enfermeiro, farmácia. De cabelos curtos hoje, depois de uma repaginada no visual devido ao câncer de pulmão que teve justamente na pandemia de COVID-19, Léia Marisa celebra que há dois anos consegue receber na AME Maria Zélia o micofenolato de Mofetila. Pois é, muitas vezes quando o nome é chique o preço é alto, uns R$500 por caixa, mil reais por mês gastos antes da papelada ficar pronta e ser aceita em 30 de novembro de 2023, já que a doença não espera os trâmites e filas.

A ex-professora, atual dona de casa e empresária a distância do seu restaurante, conta como o período de descoberta e tratamento do câncer, que levou até questões reumatológicas, e ajudou a descobrir uma artrite reumatoide, foi muito difícil. Entre dezenas de idas ao hospital de 2020 até 2023 até chegar ao diagnóstico, foram dias desgastantes, assustadores, e toda ajuda foi essencial, principalmente com os custos de sobreviver à doença. No caso dela, o tratamento do tumor foi feito em rede privada graças ao seu plano de saúde empresarial, que custa salgados R$5 mil reais ao mês. Só aqui são quase quatro salários mínimos, um privilégio muito grande, como ela destaca, olhando para um país em que apenas 7,60% da população ganha entre 5 e 10 salários como o Censo de 2022 do Instituto brasileiro de Geografia e Estatística revela. 

Se aprofundando mais ainda nos fatos, de acordo com o estudo “Quanto custa o câncer” de 2023 do Observatório de Oncologia, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE) e do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, os custos de tratamento da doença quadruplicaram nos últimos três anos. Uma sessão de radioterapia ou quimioterapia custava quase R$800 em 2022, e dezenas são necessárias na maioria das vezes. Acrescentando nessa conta, consultas, tomografias e biópsias, mil reais ali e cinco acolá, o custo chega facilmente ultrapassa dezenas de milhares de reais. Isso é ainda mais preocupante tendo em conta a incidência do câncer na população, que segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA) entre 2023 e 2025, 704 mil pessoas terão a doença como Marisa. 

E com isso que o SUS se mostra como algo tão relevante, oferecendo tratamento integral e gratuito contra todos os tipos de cânceres. Claro que muitos problemas existem, como destaca Marisa ao lembrar que quando estava no meio do tratamento enfrentou problemas com o plano de saúde, mas que só o medo de depender da demora do SUS caso fosse preciso, a preocupava muito. A saúde é o bem mais precioso para, o que para todos provavelmente deva ser, e por isso justamente que em 2012 a lei 12.732/12 obriga que o tratamento contra o câncer tem que ser iniciado em até 60 dias após o diagnóstico. 

Mas além disso, com os olhos marejados depois de navegar novamente no mar agitado que foi a jornada até a vida que tem hoje, curada e com o diagnóstico da sua doença crônica, ela volta e lembra que a diferença que não ter que pagar pelo Micofenolato que a mantém respirando faz.  Quando tinha que arcar com as despesas era como um fardo a mais imposto a ela, que considera a saúde hoje como o bem mais valioso. As idas mensais  ao posto são um alívio hoje para ela, destacando que o seu medicamento nunca faltou até então, mas que já presenciou pessoas na situação contrária e que não tinham como arcar pessoalmente com os gastos. Essa é uma realidade infelizmente, segundo fiscalização de 2023 da secretaria de contas do Estado de São Paulo, em quase metade dos postos visitados faltavam algum medicamento.

papéis
A cada seis meses Marisa tem que renovar a receita e toda a papelada para solicitação do seu medicamento junto a AME - Foto: Vítor Nhoatto

Milhões de uns

Mesmo que falte muito, afinal, só 4,16% do orçamento federal foi destinado à saúde em 2024 segundo o Painel do Orçamento Federal, a porcentagem vem aumentando desde 2022, e milhões de brasileiros são atendidos todos os dias. O Brasil é o único país do mundo com mais de 100 milhões de habitantes com um sistema universal de saúde, e 213 milhões dependem diretamente do SUS, segundo o Ministério da Saúde, que contabiliza em média 2,8 bilhões de atendimentos por ano, empregando 3,5 milhões de profissionais.

E mais um desses uns é Valdir Sousa, que do alto de seus 63 anos de idade é um típico caso brasieleiro. Com diabetes do tipo II há 20 anos e hipertenso, conta que se não fosse o acesso ao sistema gratuito, sua vida seria muito diferente, obviamente pelo lado financeiro, e muito também pelo bem-estar. O mineiro nascido em São João do Paraíso e que vive em São Paulo há décadas já viu tanto na vida, e com o passar do tempo o que todos querem e merecem é justamente qualidade de vida. Essa no caso, em grande parte possível graças a insulina que busca no posto na Freguesia do Ó e os comprimidos que cuidam do seu coração acelerado.

Justamente essa hipertensão que é a doença mais presente nos peitos animados dos brasileiros, e 52% da população é diagnosticada com alguma DCNTs, como revela a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019. Além disso, segundo dados de 2020 da Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) como as de Valdir são tecnicamente chamadas, são as mais comuns no mundo e no Brasil, com o diabetes inclusive tendo aumentado 70% entre 2000 e 2019. 

Para contextualização, nos Estados Unidos existe há alguns anos o movimento nas redes sociais insulin4all, criado pela organização sem fins lucrativos T1 International, que denuncia os altos custos da insulina no país, onde um frasco de 10ml gira em torno de U$330. Tal situação vem levando inclusive pessoas a racionarem o medicamento, o que pode levar a complicações e até a morte em casos mais graves. Já no Brasil, o mesmo remédio é disponibilizado pelo SUS, e o preço máximo permitido por lei é de R$125,30. 

Diante desses dados e o envelhecimento da população fica claro como a saúde vai ser cada vez mais necessária, tal qual destaca o jovem de espírito Valdir, que já foi pedreiro e auxiliar de manutenção geral em uma lanchonete, justamente no Hospital das Clínicas. As histórias que já viu na maior referência de saúde pública brasileira enchem a sua mente, e as palavras saem inquietas sobre as melhorias que o SUS precisa e as pessoas merecem. Ele conta em meio a suspiros que quando precisa de exames mais urgentes, ou consultas em meio a crises, tem que recorrer ao plano de saúde da sua esposa, do qual é dependente, já que as unidades de saúde estão sempre cheias e a fila de espera passa de meses algumas vezes. 

Foi nessas passagens obrigadas pela rede privada que ele inclusive descobriu mais um integrante do seu pacote, a doença renal crônica há um ano. Porém, é no SUS que o acompanhamento com nutricionista, nefrologista e endocrinologista foi possível, uma rotina de cuidados essenciais para uma boa qualidade de vida para quem tem a condição. É graças a essa rede de profissionais e a farmácia popular que Valdir vai aproveitando com os dois filhos e a mulher os seus dias, frisando com a voz até meia trêmula, que sem isso não poderia se ter o seu direito de viver com saúde exercido plenamente.

medicamentos
São graças a compostos como esses que tanto Marisa ou Valdir, e os mais de 100 milhões de brasileiros com doenças crônicas podem viver bem tal qual a constituição garante - Foto: Vítor Nhoatto

 

ONG Jardim das Borboletas se destaca no acolhimento e na luta por dignidade
por
Manuela Dias
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27/11/2025 - 12h

A falta de diagnóstico precoce, o preconceito e a dificuldade de acesso ao básico ainda moldam a dura rotina de quem convive com a Epidermólise Bolhosa (EB) no Brasil. A doença genética rara, caracterizada pela extrema fragilidade da pele e pela formação de bolhas internas e externas, permanece pouco conhecida até mesmo entre profissionais de saúde.  


Em meio a essa realidade, a ONG Jardim das Borboletas, fundada em 2017 por Aline Teixeira, tornou-se um dos principais pilares de apoio a pessoas com EB no país. Hoje, a instituição acompanha 162 famílias, atua em 24 estados e no Distrito Federal e oferece atendimento totalmente gratuito, humanizado e multidisciplinar.

Cuidado começa pela informação

Com sede em Caculé (BA) e uma casa de apoio em São Paulo (SP), o Jardim das Borboletas nasceu da sensibilização de Aline ao conhecer uma criança com EB. A história, inicialmente marcada por uma campanha de ajuda individual, tornou-se a semente de um projeto nacional. “Eu vi a necessidade daquela criança e quis ajudar. Mas percebi que existiam muitas outras na mesma situação ou até pior. Então a gente segue acolhendo outras crianças”, lembra Aline.

Hoje, a ONG dispõe de uma equipe composta por assistente social, enfermeira, nutricionista, psicóloga e advogada. O atendimento remoto acontece de segunda a sexta-feira, sempre de forma individualizada.

O processo de inclusão de novos pacientes passa por um setor assistencial estruturado: “Nós temos uma assistente social que faz toda a triagem, conhece a família, avalia a situação e identifica como podemos ajudar”, explica.


O peso do preconceito

Além da fragilidade da pele, as pessoas com Epidermólise Bolhosa enfrentam outra ferida: o preconceito. A desinformação sobre a doença faz com que muitos pacientes sejam olhados com estranhamento, evitados em espaços públicos e, em alguns casos, até impedidos de frequentar escolas ou ambientes comunitários.


Para Aline Teixeira, essa é uma das barreiras mais dolorosas: “A segunda maior dificuldade é o preconceito da sociedade pela falta de conhecimento. Isso machuca muito”, afirma.

A aparência das lesões costuma gerar medo e julgamentos equivocados, reforçando o isolamento das famílias e agravando o sofrimento emocional. Muitas mães relatam episódios de exclusão, como pessoas que mudam de assento ao lado de seus filhos ou que se afastam por acreditar, erroneamente, que a doença é contagiosa. Por isso, a informação é um dos pilares do Jardim das Borboletas: “Nossa principal frente é divulgar a doença para o máximo de pessoas possível. Quando a sociedade entende o que é a EB, o preconceito diminui e isso já transforma vidas”, explica Aline.


A falta de conhecimento público, combinada com a invisibilidade da doença rara, aprofunda desafios que vão além da saúde física. Enfrentar o preconceito significa também lutar por pertencimento, inclusão e respeito.

 

 A ONG busca ser reconhecida como referência e destaque na área de reabilitação e assistência a crianças com Epidermólise Bolhosa e outras doenças raras de pele.

A ONG busca ser reconhecida como referência e destaque na área de reabilitação e assistência a crianças com Epidermólise Bolhosa e outras doenças raras de pele. Foto: Divulgação


Caixinha do Amor

Todos os assistidos recebem mensalmente a “Caixinha do Amor”, que inclui itens de higiene, curativos especiais, suplementos e medicamentos. O acesso a esses materiais é vital, já que a manutenção da pele exige curativos específicos e de alto custo. Para Aline, mais do que suprimentos, a ONG entrega dignidade: “Quando você tem acesso ao tratamento, você se sente uma pessoa mais digna. O projeto dá dignidade não só às crianças, mas às famílias inteiras.”


Ao mesmo tempo, a ONG enfrenta suas próprias batalhas: “Nosso maior desafio é conseguir padrinhos que nos ajudem a manter a assistência. E precisamos construir nossa sede para ter um espaço próprio e realizar ações ainda mais assertivas.”


Como ajudar a ONG

O trabalho do Jardim das Borboletas só é possível graças à solidariedade de pessoas e empresas que entendem o impacto transformador de cada gesto. 


Contribuir com a ONG é simples e acessível: é possível fazer doações mensais ou avulsas, que garantem a compra de curativos, suplementos e outros materiais essenciais; também é muito bem-vinda a doação de itens de higiene e curativos especiais, indispensáveis para o cuidado diário e para a prevenção de infecções. 


Quem deseja se envolver ainda mais pode atuar como voluntário, oferecendo tempo e conhecimento em áreas como saúde, comunicação, direito, administração ou educação. Outra forma poderosa de ajudar é compartilhar a causa, divulgando informações sobre a Epidermólise Bolhosa e sobre o trabalho realizado pela ONG, contribuindo para combater o preconceito e ampliar o alcance do projeto. Para conhecer todas as formas de participação e apoio, basta acessar o site do Jardim das Borboletas.

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Os efeitos que o TCC causa nos universitários expõem a fragilidade do cuidado com o psicológico diante da pressão no encerramento da graduação
por
Olivia Ferreira
Sofia Morelli
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18/11/2025 - 12h

 

A fase final da faculdade é uma época de ansiedades e pressões que vêm tanto do ambiente acadêmico quanto social e, o Trabalho de Conclusão de Curso, o famoso TCC, é visto por muitos como o grande desafio da vida universitária. Ele representa o encerramento de um ciclo, a consolidação de anos de estudo e o primeiro grande passo em direção ao mercado de trabalho. Mas, por trás das apresentações de sucesso e das bancas avaliadoras, há um lado pouco falado: o impacto que o processo de criação do TCC tem sobre a saúde mental dos estudantes.

 

Mulher mentalmente esgotada diante livros de estudo
Foto: Vestibular Brasil Escola UOL 

 

Ao longo do processo do trabalho é comum os graduandos se concentrarem totalmente nesse projeto, deixando para segundo plano sua saúde mental e até mesmo a saúde física. Além do encerramento da fase universitária, estudantes lidam com o início da vida profissional, causando ainda mais estresse durante esse período e diversos problemas graves de saúde que atingem diretamente o bem-estar do profissional, como o conhecido “burnout” e crises de ansiedade e pânico. Uma pesquisa feita pela Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) revelou que quanto maior a percepção de relação com professores e colegas, conciliação dos estudos e do lazer, pressão das disciplinas, provas, trabalhos e conciliar o estágio profissional, maior o índice da Síndrome de Burnout em estudantes.

 

 

Causas principais 

Essa vivência dramática- a primeira experiência angustiante com grande peso emocional- muitas vezes ocasiona o “burnout”, um termo utilizado para designar um trauma de longa exposição gerado quando o corpo é continuamente informado de perigo. Esse problema derivado de uma alta carga de estresse e exaustão compromete sua capacidade de concentração e produtividade. Ele se manifesta por meio de sintomas emocionais que atravessam a psique, impactando o físico. Essa pressão transforma o processo de aprendizagem em um ciclo de sofrimento e desmotivação, o que evidencia a urgência de se discutir e promover práticas de cuidado e prevenção dentro do ambiente educacional.

Mapa mental sobre os sintomas do burnout
Foto: Infográfico/ Laura Urbano

As pressões externas e internas que acorrentam discentes- e que ocasionam diversos sentimentos maléficos tanto para o desempenho didático quanto para a saúde mental- reproduzem discursos de esgotamento marcados por cobranças, falta de tempo e medo do fracasso. Além disso, a carga de tarefas é intensa: aulas, estágio, trabalho, relatórios e reuniões com o orientador,  o que resulta em  um cotidiano sobrecarregado e sem espaço para descanso ou autocuidado.“É importante equilibrar essa época da vida com atividades relaxantes e que tirem o foco do trabalho e até mesmo do tema. Saiba até onde você consegue ir, você é limitado.” afirma o psicólogo Paulo Scholze. 

Praticar atividades físicas, buscar suporte emocional e fazer coisas que sejam prazerosas são maneiras que auxiliam para um processo mais leve. Segundo Scholze, o apoio emocional é o ponto chave para lidar de forma mais calma na criação do trabalho. Os orientadores devem  escutar o aluno, e caso isso não seja possível, deve-se procurar pessoas que já passaram por essa fase e que possam oferecer apoio.

Paulo Scholze conta sua experiência com o TCC, durante a pandemia. Apesar do prazer de dar espaço para “sua própria voz”, como o mesmo explica, de poder se descobrir como autor desta pesquisa e do trabalho final —“Me descobri um pouco nesse lugar de autoria”—, o psicólogo também sofreu com a angústia costumeira. Explica como as tensões se agravam conforme se aproximam do prazo de entrega. 

Para lidar com a pressão, cada estudante cria sua própria estratégia. Alguns se apoiam em grupos de amigos, outros buscam terapia, e há quem recorra ao café e à força de vontade. “É difícil falar sobre como pacientes em geral lidam com essa fase da vida, porque todos vivem de forma muito distante. Mas, posso afirmar que acho difícil que seja algo muito tranquilo, sempre tem uma dose de angústia.” diz o psicólogo. 

Uma forma de evitar o peso maciço de demandas como a do TCC, foi descrita pela escritora inglesa, Virgínia Woolf. A mesma dizia intercalar seus romances complexos e profundos com narrativas mais simples e mais facilmente prazerosas, “livros de férias”,  como uma forma de escape da pressão que sentia na escrita dos livros mais difíceis. 

Se pode trazer este conceito para perto do assunto do TCC, ideia desenvolvida por Paulo Scholze, que usou essa analogia para exemplificar uma orientação que ajuda a lidar com a complexidade do trabalho, usando os hobbies e outros interesses como um escape para os formandos.

 

Prevenção do estresse excessivo

Algumas orientações e indicações gerais de Scholze para levar o desenvolvimento do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de maneira mais equilibrada são:

  • Fazer com que não seja um esforço contínuo: pensar no projeto com calma e tentar um ritmo menos intenso;

  • Escolher um tema que lhe agrade para manter o interesse;

  • Encontrar uma voz: não precisa ser perfeito e se auto cobrar menos;

  • Ter alguém que te escute e auxilie nessa fase desafiadora; 

  • Encontrar paz;

  • Refletir sobre como o projeto é algo que irá se concluir, algo passageiro;

  • Fazer coisas que te interessam;

  • Falar de temas que instigam algo dentro de você.




 

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Os hormônios chamados bioidênticos têm sido usados no tratamento de sintomas da menopausa.
por
manuela schenk scussiato
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17/11/2025 - 12h

Por: Manuela Schenk

 

Maria Rosa é moradora de um bairro tranquilo em Belo Horizonte e tem 58 anos. Vivia dias que pareciam sempre nublados. A menopausa havia chegado silenciosa, mas dominando cada detalhe de sua rotina: noites interrompidas por ondas de calor, cansaço persistente e um humor tão instável quanto o clima da cidade. Professora aposentada, ela se viu pela primeira vez incapaz de organizar sua própria vida, como se o corpo tivesse assumido o comando sem pedir permissão.

Os meses seguintes foram marcados por idas e vindas a médicos, tentativas de adaptar a rotina e conversas demoradas com amigas que compartilhavam experiências semelhantes. Nada parecia surtir efeito, até que ouviu falar de uma abordagem que ganhava espaço em consultórios especializados: a terapia com hormônios bioidênticos. Curiosa e cansada de sentir que estava vivendo apenas no piloto automático, Maria decidiu buscar uma avaliação completa para entender se aquela alternativa poderia ser adequada para ela.

A equipe médica analisou seu histórico e, após uma explicação detalhada sobre os possíveis benefícios e limitações, apresentou a reposição hormonal bioidêntica como uma opção. Maria aceitou iniciar o tratamento, não como uma promessa de solução mágica, mas como a possibilidade de reencontrar a si mesma. Nos dias seguintes, seu ceticismo dividia espaço com uma esperança tímida, que ela mal ousava verbalizar.

As mudanças começaram de forma sutil. As noites tornaram-se menos turbulentas, os suores repentinos diminuíram e, com o sono mais estável, veio também uma energia que Maria acreditava ter perdido para sempre. Pequenas vitórias foram se acumulando: a disposição para caminhar pela manhã, o prazer em preparar o próprio café e até a vontade de retomar projetos que havia abandonado quando os sintomas apertavam.

Com o passar dos meses, a melhora deixou de ser apenas física, ela sentiu seu mundo voltando a ter cor. Amigos próximos notaram o brilho renovado no olhar, e Maria passou a falar abertamente sobre sua experiência, sempre destacando que cada mulher tem sua trajetória e que o acompanhamento profissional é indispensável. Para ela, a reposição hormonal bioidêntica representou mais do que um tratamento: foi a reconquista de uma vida que parecia ter escapado pelas frestas do tempo.

Hoje, Maria Rosa caminha pela praça do bairro com passos firmes, como quem recuperou não só o controle do próprio corpo, mas também o entusiasmo pelos dias que virão. Sua história é uma entre tantas que ilustram a complexidade da menopausa e a importância de abordar o tema com informação, cuidado e sensibilidade. E, enquanto observava o movimento ao redor, ela resumiu sua jornada com simplicidade dizendo que a menopausa tentou paralisá-la mas aos poucos ela aprendeu que existe sempre um caminho para voltar a florescer.

Com o tempo, Maria foi percebendo que a melhora não se refletia apenas no cotidiano, mas também em suas relações. Ela voltou a frequentar rodas de leitura, retomou encontros semanais com antigas colegas de profissão e até se animou a planejar pequenas viagens. “Parece que eu reencontrei minha própria companhia”, comentou certa vez, rindo com a naturalidade que havia deixado de sentir. O que antes era medo de enfrentar os dias transformou-se em vontade de ocupar novamente os espaços que sempre foram seus.

Seu marido, Antônio, também testemunhou essa transformação de perto. Ele lembra que, antes do tratamento, as noites eram marcadas por inquietação e cansaço, e as conversas acabavam ofuscadas pela exaustão. Agora, o casal redescobre uma rotina mais leve, com caminhadas ao entardecer e longas conversas na cozinha. Para ambos, a mudança de Maria representou não apenas um avanço individual, mas uma renovação de laços, mostrando como o bem-estar de uma mulher reverbera por toda a família.

Os hormônios desempenham papéis essenciais no equilíbrio do organismo, regulando funções como metabolismo, humor, sono e, quando falamos em reposição hormonal, especialmente para mulheres na menopausa, é comum surgirem dúvidas sobre a diferença entre hormônios tradicionais (sintéticos) e hormônios bioidênticos. Embora ambos tenham o objetivo de aliviar sintomas decorrentes da queda hormonal, eles se distinguem principalmente pela estrutura química e pela forma como o corpo os reconhece.

Os hormônios tradicionais, frequentemente chamados de sintéticos ou não bioidênticos, são produzidos em laboratório, mas não necessariamente possuem a mesma estrutura molecular dos hormônios humanos. Apesar de eficazes para muitas mulheres, podem apresentar respostas variáveis no organismo porque sua interação com os receptores hormonais nem sempre ocorre da mesma forma que com os hormônios naturais. Isso pode influenciar tanto os efeitos desejados quanto o perfil de efeitos colaterais.

Já os hormônios bioidênticos são formulados para terem estrutura molecular idêntica à dos hormônios produzidos naturalmente pelo corpo humano. Por esse motivo, o organismo costuma reconhecê-los e metabolizá-los de maneira mais semelhante aos hormônios endógenos. Essa similaridade é o principal argumento de profissionais e pacientes que relatam maior tolerabilidade e adaptação, embora a resposta possa variar de pessoa para pessoa.

A reposição hormonal feita com hormônios bioidênticos pode oferecer benefícios para mulheres na menopausa, como alívio de ondas de calor, melhora da qualidade do sono, redução da irritabilidade, maior lubrificação vaginal e, em alguns casos, melhora da vitalidade e do bem-estar geral. Algumas mulheres relatam que os bioidênticos promovem um equilíbrio mais suave, possivelmente por serem metabolizados de forma mais natural pelo organismo.

Além disso, especialistas ressaltam que os hormônios bioidênticos podem ser formulados de maneira personalizada, ajustando dosagens e combinações conforme as necessidades individuais de cada mulher, sempre com supervisão de profissionais qualificados. Essa possibilidade de personalização é um dos pontos que costumam atrair pacientes que buscam uma abordagem mais adaptada ao próprio corpo, embora continue sendo fundamental o acompanhamento regular, exames periódicos e avaliação cuidadosa dos resultados.

Apesar das vantagens relatadas, é importante lembrar que qualquer terapia hormonal exige acompanhamento médico, independentemente de ser feita com hormônios sintéticos ou bioidênticos. A combinação adequada de hormônios, a forma de administração e o monitoramento regular são fundamentais para garantir segurança e eficácia. Cada mulher possui necessidades individuais, e somente um profissional qualificado pode orientar a melhor abordagem para cada caso.


 

É importante saber até onde ela esbarra no limite da ética científica
por
Chloé Dana
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18/11/2025 - 12h

Por Chloé Dana

 

Em "A Condição Humana", Hannah Arendt analisa de que maneira a época moderna alterou a centralidade da experiência humana. No passado, a política era o ambiente onde as pessoas se reuniam para construir um mundo compartilhado, um espaço vibrante de debate, divergências e criação coletiva. Atualmente, ela afirma que a política se transformou na gestão da vida orgânica. O foco mudou para a preservação do corpo, aumentando sua longevidade e minimizando seu sofrimento. Assim, a vida pública foi substituída pela luta pela sobrevivência. É nesse cenário que a bioética surge como uma resposta aos desafios que reconfiguram a visão que a humanidade tem de si mesma. Ela facilita discussões sobre o começo e o término da vida, a qualidade da vivência humana, os limites éticos dos experimentos científicos e as implicações das decisões relacionadas ao corpo. Baseia-se em valores como autonomia, dignidade e justiça, tornando-se um guia essencial em um mundo em que a ciência pode interferir de maneira cada vez mais profunda na nossa essência.

A vastidão desse domínio reflete a complexidade da vida atual, envolvendo discussões sobre aborto, euthanasia, objeção de consciência, maternidade substitutiva, tecnologias reprodutivas, decisões médicas influenciadas por crenças religiosas, modificações genéticas e os efeitos ambientais sobre os organismos vivos. A bioética surge porque a ciência contemporânea ganhou a capacidade de editar genes, escolher embriões, manipular dados pessoais, prolongar vidas e transformar corpos. Questionar “até onde a ciência deve ir” é, na essência, perguntar como proteger a humanidade que reside por trás das inovações. É assegurar autonomia, privacidade, proteção dos vulneráveis e igualdade no acesso aos benefícios da biotecnologia. Contudo, essas questões não se restringem apenas à filosofia. Elas se materializam nos consultórios, onde ciência e vulnerabilidade humana se encontram diariamente.

É nesse contexto que a vivência do geneticista Elias Monteiro ilumina, com seu corpo e voz, aquilo que muitas vezes permanece no abstrato. Uma pessoa que carrega, sem alardear, a serena responsabilidade de lidar diariamente com escolhas complicadas. Seu dia inicia cedo, sempre com exames dispostos sobre a mesa, fragmentos de DNA organizados como se fossem pequenas cartas enviadas pelo corpo humano. Cada laudo gera indagações, cada sequência genética oferece uma nova possibilidade, cada variante pode alterar o rumo de uma vida.

Entre esses documentos, aparecem histórias concretas: famílias que buscam esclarecimentos após anos de dúvidas, casais que tentam planejar o futuro com menor temor, adultos que carregam desde a infância incertezas que nunca foram nomeadas. A rotina dele é composta por precisão técnica, mas também por gestos sensíveis. A genética, em suas mãos, não se restringe à análise molecular; se transforma também em tradução, convertendo a linguagem científica em algo que alguém possa utilizar para respirar melhor, entender mais e viver de forma mais plena.

E ao discutir os limites éticos na ciência, é perceptível uma leve alteração em sua perspectiva. Não se trata de medo; é clareza mental. Ele percebe que a tecnologia vigente tem o potencial de modificar estruturas que antes eram imutáveis: realizar edições genéticas, selecionar traços, alterar direções que vão além da vida de quem está na sua frente. Para ele, tal poder requer mais cautela do que entusiasmo. Interferir no DNA de um indivíduo afeta também o futuro de gerações que ainda estão por vir. Por essa razão, ele argumenta que todo progresso deve ser acompanhado por dignidade, autonomia e justiça, pilares fundamentais para que a ciência mantenha sua integridade moral.

A genética, em sua visão, representa um domínio onde a precisão se alia à sensibilidade. Não há imparcialidade diante de um diagnóstico que pode reconfigurar a vida de uma família inteira. Cada explicação, cada resultado e cada previsão traz um impacto emocional que um algoritmo não consegue prever. Para ele, sua função não se encerra ao descobrir uma mutação; é aí que realmente começa. E talvez seja isso que faz sua presença parecer a de alguém que transita entre dois mundos: a exatidão dos dados e a fragilidade humana, a rigidez do código e a empatia da experiência. Seguindo suas considerações, torna-se claro que a bioética não é um território isolado da vida cotidiana, mas uma demanda urgente que permeia cada exame, cada consulta e cada decisão. Pois enquanto a ciência evolui, a ética deve avançar simultaneamente, não como entrave, mas como salvaguarda.

A manipulação genética em humanos traz à tona esse desafio em sua forma mais intensa. Alterar o código que forma a identidade de um ser envolve riscos imprevisíveis e consequências que podem se estender por gerações. Há também a tentação de empregar essas tecnologias para fins não terapêuticos: melhorar a aparência, a capacidade cognitiva, a força física, aumentando desigualdades, criando distinções artificiais, convertendo diferenças em produtos. Portanto, estabelecer limites éticos e legais se mostra essencial para resguardar a dignidade humana e assegurar que o futuro não fique moldado apenas pelos anseios dos mais favorecidos.

Ao considerar todos esses aspectos, desde as inquietações filosóficas de Arendt até os dilemas éticos que a genética contemporânea propõe, torna-se claro que estamos em um ponto crucial da trajetória humana. Nunca tivemos tanta influência sobre a vida e nunca fomos tão responsáveis por decidir como utilizá-la. A ciência avança, rompendo barreiras que antes eram sagradas; a bioética tenta acompanhar esse movimento, lembrando que nenhuma descoberta é isenta de influência, e que qualquer intervenção na vida deve ser feita com cuidado, prudência e compaixão.

O debate acerca da edição genética transcende uma mera questão técnica. é uma reflexão sobre a humanidade que almejamos ser. É nossa responsabilidade, tanto como indivíduos quanto como coletividade, determinar se iremos criar um mundo impulsionado pela urgência de aprimorar a existência ou pela compreensão de sua preservação. Nesse contexto, a bioética aparece não como um obstáculo, mas sim como um guia: uma ferramenta para assegurar que, ao alterarmos elementos do código da vida, não negligenciamos a conservação daquilo que nos caracteriza como seres humanos.

 

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Nunca foi segredo a questão do etarismo na nossa sociedade. Da vida profissional às relações pessoais e sociais, é perceptível o preconceito da sociedade com relação à idade. 
por
Giovanna Canha Crescitelli e Marina Daquanno Testi 
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24/03/2021 - 12h

Diante de países como o Japão, Cingapura - cuja média de expectativa de vida é 83 anos -, Espanha - 82 anos - e Coreia do Sul - primeiro país a caminhar para uma expectativa de vida de 90 anos -, o Brasil não está muito distante em questão de longevidade, com sua expectativa geral em 75,8 anos esta supera a média mundial que é de 71 anos. De acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), em 2016, a média da expectativa de vida da população mundial era de 74 anos para mulheres e de 69 anos para homens. 


No Brasil tem mais de 28 milhões de pessoas nessa faixa etária, número que representa 13% da população do país. E esse percentual tende a dobrar nas próximas décadas, segundo a Projeção da População, divulgada em 2018 pelo IBGE.

 

A relação entre a porcentagem de idosos e de jovens é chamada de “índice de envelhecimento”, que aumentou de 43,19%, em 2018, para 173,47%, em 2060. Esse processo pode ser observado graficamente pelas mudanças no formato da pirâmide etária ao longo dos anos, que segue a tendência mundial de estreitamento da base (menos crianças e jovens) e alargamento do corpo (adultos) e topo (idosos).

 

A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo IBGE em 2013, mostrou que a cada quatro pessoas com 60 anos ou mais, pelo menos uma relatava participar de atividades sociais organizadas. Entre as mulheres, o percentual era maior, chegando a quase 30%. Mas a participação dos homens também foi significativa, ficando bem pouco abaixo dos 20%. Este estudo nos permite ter um olhar sensível sobre a qualidade de vida desta população e mostra como a tendência dos idosos, com o avanço das cidades , é se isolar socialmente.

 

De acordo com a psicóloga Graça Câmara, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, esse movimento acontece por causa das limitações que vão sendo impostas, pelo próprio corpo e pela sociedade. “Os jovens perdem a paciência com os mais velhos e, muitas vezes, as famílias os colocam no lugar de  ‘os improdutivos da casa’”, disse para a revista Leve. Contudo este também é um dos motivos que traz profunda angústia aos que estão envelhecendo, se tornar dependente de alguém ou “incapaz” de realizar certas funções que antes lhe vinham naturalmente. 

 

Nessa constante busca por compreensão, sem perder o respeito e validação da sociedade, nossos futuros antepassados já nos avisam quanto nossa futura realidade: se aqui, enquanto somos jovens, não mudarmos certas posturas e visões “viciadas” de nossa sociedade, iremos nos deparar com nosso inerente destino e ainda sem apoio. Simone de Beauvoir disse em sua obra “A Velhice”, nos anos 70, que “Não reconhecemos a velhice em nós, nem sequer paramos para observá-la, somente a vemos nos outros, mesmo que estes possuam a mesma idade que nós”. 

 

Entrevista com Sandra Regina Gomes

 

Sandra é  a atual coordenadora de políticas para o idoso, dentro da secretaria de direitos humanos da prefeitura da cidade de São Paulo. Nascida em Santos a especialista tem um longo currículo na área, foi responsável pela implementação de políticas públicas para o idoso na cidade de São Paulo e já ocupou os cargos de assessora técnica da Secretaria de Relações Institucionais do Governo do Estado de São Paulo, coordenadora da Rede de Proteção Social para Idosos na Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo e docente na Universidade da Terceira Idade. A fonoaudióloga e gerontóloga, que também se especializou em políticas públicas, ajudou diretamente a implantar o Centro de Referência da Cidadania do Idoso, as unidades Boracea e Casa de Simeão do Abrigo para Idoso  em Situação de Rua, o Serviço de Apoio-Socioalimentar para Idoso e os Núcleos de Convivência para Idosos.

 

 

Envelhecimento é um fenômeno global? 

 

Sim, o mundo todo envelhece. Só que os países que se preparam para isso, no caso da Europa, do Canadá que por mais de cem anos se preparam para o processo de envelhecimento; o Brasil não. No Brasil, como diz uma professora querida, Maria Cecília Minai da Fiocruz, estamos trocando o pneu com o carro andando e isso é muito sério porque até onde éramos um país de jovens e hoje estamos com um país envelhecido e um envelhecimento muito rápido. Então é um um fenômeno global sem dúvida nenhuma, o mundo está envelhecendo rapidamente e nós precisamos ter ações e políticas públicas para isso. 

 

O que é Envelhecimento ativo? Como abordar o tema ao longo da vida e não apenas na fase do envelhecimento?

 

Primeiro envelhecimento ativo é um processo de otimização de oportunidades para a saúde  e aprendizagem ao longo da vida, que está relacionado a educação, a participação e segurança para garantir uma melhor qualidade de vida à medida que as pessoas envelhecem. Isso tudo aqui é uma determinação da OMS baseada no pressuposto de que o mundo precisa olhar o envelhecimento sob a ótica, promovendo resiliência ao longo do curso de vida. O que quer dizer isso? Em tese você tem processo de envelhecimento e que bom porque a maior conquista do século XX é a longevidade, uau estamos envelhecendo, hoje no Brasil a  expectativa de vida é de 75 anos, e já já vamos chegar ao Japão é de 81 anos. Para o século XXI a longevidade é um desafio, nós temos que saber como envelhecer. Então em 2002 a OMS lança esse programa de envelhecimento ativo, que o Brasil é signatário. Isto tem a ver como abordar o tema ao longo da vida, temos que pensar o envelhecimento ao longo da vida porque é uma fase como a infância, a adolescência e fase adulta depois criamos independência e depois temos o processo de velhice. Ainda bem que chegamos ao processo de envelhecimento se não você morre antes dos 60 anos e no Brasil você é considerado idoso com essa idade, em país desenvolvidos é 65 anos ou mais. Então é importante que se faça um trabalho desde de a infância, de orientação alimentar, de estilos de vidas, de aproximação de gerações e tudo isso está no Estatuto do Idoso. Não é possível falar sobre envelhecimento no Brasil sem citar o Estatuto do idoso.      

 

Qual é o papel do Estado frente ao envelhecimento ativo? Existe o direito ao envelhecimento? O que determina um processo de envelhecimento seja de qualidade e englobe o conceito de envelhecimento ativo? 

 

Tudo isso é importante que a gente entenda que não se consegue um envelhecimento saudável se você não garantir esses quatro pilares: saúde, educação, proteção e participação. Esses princípios são fundamentais porque se você tem saúde, tem a garantir de que tem as doenças todas controladas. Hoje você não morre mais de hipertensão, a não ser que você não tenha o controle dessa doença. Hipertensão, colesterol e demais doenças têm medicações e tratamentos próprios. Acompanhamento médico, atividade física, alimentação saudável, dependência química e uso de drogas, inclusive as lícitas como bebida e cigarro, tem relação com a qualidade de vida além da participação social. 

Estamos em plena pandemia, onde o isolamento é palavra de ordem, principalmente para a população idosa, que tem maior risco em relação ao COVID-19. Em que pé estamos? Temos que manter esse cérebro ativo, fazer com que as pessoas superem essas dificuldades da inclusão social e digital. Uma coisa está ligada a outra, por isso, atuo como coordenadora de políticas para a pessoa idosa dentro da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania pensando nessas relações. Existe um ganho para o idoso quando enxergamos que ele não está ligada apenas a saúde, ou a assistência, ou a previdência, ou a justiça e na verdade ele engloba todos esses aspectos representados no Estatuto do Idoso que declara que o idoso precisa de proteção, precisa ter condições de denunciar casos de violência, precisa do acolhimento, precisa da saúde e por aí vai. 

 

As diferenças que observamos em outras áreas, como na economia onde as mulheres ganham menos que os homens, também se repetem no processo de envelhecimento? Fatores culturais, gênero, ambiente social e a presença de sistemas de saúde, tanto rede particular quanto rede pública, são determinantes?

 Sim, esses determinantes sociais são muito importantes ao meu ver. Você pode resgatar esses determinantes na publicação do Kalache, A revolução da Longevidade. Ele destaca duas questões, dentre todos os determinantes, existem dois pontos transversais: um é o gênero, o outro é a cultural. 

Nós não podemos desconsiderar o histórico cultural das pessoas mais velhas e por isso nós defendemos a territorialização dessa população, ou seja que fiquem onde nasceram, onde criaram os filhos portanto onde teve seu ambiente de participação social. "Ah vou tirar ele da casa dele e vou colocá-lo na minha casa", temos que ter muito cuidado em relação a isso. Em casos extremos, talvez seja necessário, mas é melhor que a população idosa consiga permanecer onde transitou durante a vida toda, onde existe maior afinidade, aproximação e familiaridade. Chamamos isso de princípio da territorialização. 

A questão do gênero também merece destaque. Evidentemente que o processo de envelhecimento é um processo mais feminino, a gente fala dentro da gerontologia da feminização da velhice e existem muitos estudos falando disso. É muito importante que a gente entenda que existe uma característica muito marcante em relação ao envelhecimento da mulher, entretanto o sofrimento maior do processo de envelhecimento fica realmente para o homem. O homem tem muita dificuldade pra envelhecer, a mulher tem mais cuidados de saúde ao longo da vida.

 

Quais são os principais desafios enfrentados por quem está no processo de envelhecimento? Como lidar com o desenvolvimento de doenças e com o maior risco de desenvolver deficiências?

 

À medida que envelhecemos corremos riscos, né? Aumento de quedas em idosos é o que mais mata, aumenta porque nós temos a fragilidade óssea e doenças como osteoporose e também por questões visuais, há uma baixa da acuidade visão e acuidade auditiva. Nós temos a percepção e os reflexos, então há uma característica própria do processo de envelhecimento e isso é inevitável. À medida que você tem um trabalho de prevenção, uma rotina mais disciplinada no jeito de atividade física, alimentação saudável, grupo de amigos. Um dos recursos importantes é manter uma rede de amigos, mesmo que em pese alguns com o passar dos alguns venham a falecer, você abrir a possibilidade de novos contatos. è importante que você tem a amplitude da sua rede de suporte, para que você tenha a família e no caso da ausência da família que você tenha amigos, na ausência que você constitua uma outra rede de suporte. Isso é fundamental porque faz com que você esteja inserido e a gente chama na gerontologia, um sentimento de pertencimento, isso é muito importante. 

Apartar socialmente é um grande erro das políticas e na abordagem quando se fala de velho, "Ah vou colocar um prédio só de idosos" Eu não gosto disso. "Ah vou colocar um bairro só de idosos" Eu acho que a gente precisa de todas as diversidades, todas as diferentes gerações, toda  movimentação como é a característica de uma cidade. Não precisa isolar, você precisa cuidar e garantir uma cidade acessível você consegue nesse documento, A Revolução da Longevidade, Kalache fala muito sobre acessibilidade, sobre possibilidade de ter uma cidade mais amigável a pessoa idosa. Os risco de doenças sim, tem um gráfico de capacidade funcional quanto mais risco você corre quando inclusive como jovem 

 

Como devemos prover as condições ideias e as condições necessárias para oferecer cuidado de qualidade para população em envelhecimento?

 

A primeira providência é a participação social da pessoa idosa, participação nos conselhos e nos foros a exemplo de São Paulo - que tem 23 foros do idoso na capital. Nós temos o grande Conselho Municipal do Idoso, onde se concentram representantes das cinco macro regiões da cidade. É nesse local, nessa arena democrática, que se discutem as demandas e as necessidades das pessoas idosas na metrópole paulistana. São Paulo é uma cidade enorme, um idoso que mora em São Miguel Paulista é completamente diferente do idoso que mora no centro da cidade. 

Os idosos têm características diferentes, o que a gente chama de singularidade da velhice na área da Gerontologia. É importante respeitar as características de cada um e de cada região, na cidade de São Paulo são 96 bairros e distritos, cada um com seu perfil. Nós temos um documento onde fizemos o diagnóstico da questão para a cidade, elaboramos indicadores sociodemográficos para população idosa residente na cidade em São Paulo, porque o primeiro passo para fazer essas políticas públicas foi conhecer quem são esses idosos, onde eles vivem, quais são suas características e qual o perfil daquela população. Esse documento foi publicado em 2020, mas nós já o usamos desde setembro de 2017 quando iniciamos nosso trabalho durante a minha gestão na Secretaria. 

Então a primeira coisa é isso, a segunda é fortalecer essa participação social que é fundamental. Para que isso aconteça, você tem que levar ao conhecimento das pessoas idosas os dados sobre as regiões para eles avaliarem. Nós seguimos esse documento do Alexandre Kalache, que é um guia global de uma cidade amiga do idoso. Perguntamos para a população idosa sobre como está o transporte, a questão da moradia, a acessibilidade, a participação social, a questão dos locais de atendimento ao idoso se estão acessíveis e iluminados, além de uma série de perguntas que você  encontra ao visitar esse documento. Então você dá insumos às discussões e em cada bairro, em cada local isso faz com que exista uma participação, uma voz do idoso. Essa participação social clama por uma escuta. Então é como nós falamos, é de baixo pra cima e de cima pra baixo; isso é fundamental. 

 

Como podemos criar um novo paradigma de envelhecimento? 

 

A primeira coisa é falar de onde estamos falando, de que envelhecimento estamos falando. Nós estamos falando de um processo natural da vida, a velhice é natural, à medida que você vive mais adquire mais anos na sua vida, isso é super importante, e a partir dos 60 anos você é considerado idoso. Nós estamos sofrendo no Brasil,  principalmente na pandemia, a questão do idadismo - que é o preconceito em relação a idade.

"Ah é coisa de velho", "Isso é porque são velhos", "Porque os velhos precisam ficar apartados"... Existe um preconceito. 

Então, primeiramente, é preparar a sociedade para a maior proximidade com a questão do envelhecimento, então temos a questão da intergeracionalidade. A intergeracionalidade é um paradigma fundamental. As políticas públicas, privadas, filantrópicas, particulares devem integrar as ações e não fazê-las de forma apartada. É o mesmo idoso que transita entre a assistência social, entre a saúde e todas as outras áreas. Precisamos ter a integração e a integralidade, uma visão holística, integral, intergeneracional. A transversalidade é fundamental, todas as agendas de discussões precisam ter a temática sobre envelhecimento. Todas. Todas porque temos idosos imigrantes, LGBTs, em situação de rua, com deficiências, quilombolas, ribeirinhos, indígenas, portanto temos que parar de segregar. Todas essas temáticas devem vir à tona na discussão e tudo isso para preparar a questão de uma sociedade mais amigável e amorosa na questão do envelhecimento.  


 

Referências 

A Revolução Da Longevidade | Alexandre Kalache. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=_5N8V1lPIGg&t=47s> Acessado em 24/11

https://ibge.gov.br/

KALACHE, Alexandre. Envelhecimento populacional no Brasil: uma realidade nova. Cad. Saúde Pública,  Rio de Janeiro ,  v. 3, n. 3, p. 217-220,  Sept.  1987 

BRASIL. Estatuto da criança e do adolescente: Lei federal nº 8069, de 13 de

julho de 1990. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial, 2002. 

Beauvoir S. (1990). A velhice. Tradução de MHF Monteiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira

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A quarentena é um privilégio, porém a classe operária se vira como pode e com o que tem, e a classe alta não ajuda, como de costume.
por
Gabriel Yudi Gati Isii
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08/03/2021 - 12h

A pandemia afeta o Brasil todo, dos ricos aos pobres, porém a quarentena para a classe baixa existiu durante um mês, logo após isso houve a crise, onde os comércios locais e pessoas empregadas em residências e empresas se viram necessitadas a sair de casa. Ficar em casa é um privilégio, em São Paulo, é um local de extrema desigualdade social e econômica, desde março a cidade vive em um colapso na saúde. A classe baixa tem diversos conflitos entre si e com a classe alta.

Segundo o site UOL, no dia 24 de maio, foi compartilhado que os 20 bairros com mais mortes por covid-19 são áreas periféricas. No site do G1, em 4 de agosto, foi publicado que o levantamento da prefeitura mostra a localização dos locais com mais vítimas fatais pelo novo coronavírus, o bairro de Sapopemba, na Zona Leste de São Paulo, é o primeiro com 437 óbitos pela doença, já o segundo é o da Brasilândia, na Zona Norte, com 368.

Em entrevista, Ana Paula Vianna, que perdeu seu avô, Carlos Ribeiro Vianna, de 83 anos, por conta do corona, conta como foi o procedimento até a morte. A família vive na COHAB-1 Zona Leste, onde é conhecido também como conjunto habitacional Padre José de Anchieta. Ela relata que não sabe dizer se houve mesmo uma quarentena por lá, pois muitos vizinhos acreditavam e confiaram em ser apenas uma “gripezinha”, porém houve a paralisação do comércio local, mantendo apenas estabelecimentos com serviços essenciais, segundo decretado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em relação a morte de seu avô ela contou detalhadamente como foi o trajeto até o óbito de Carlos. Na primeira ida ao hospital, não foi feito o teste para covid, apenas alegaram que o mesmo estava com dengue, porém no dia seguinte levaram o senhor para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Itaquera, no local ele foi atendido e constatado como portador do vírus, mas enviaram ele novamente para sua casa, chegando na residência, a família ligou para o SAMU, que levou o idoso até o hospital de campanha do Morumbi, onde era muito complicado o contato com o próprio, mesmo que fosse para saber se havia melhora. Durante oito dias eles buscaram informações, ligando para os médicos responsáveis e assistentes sociais, porém sem nenhum retorno, quando conseguiam ver ele, aparentemente o idoso estava com frio. A neta afirma que o avô estava melhorando, porém de repente, houve uma ligação da médica responsável pelo plantão dizendo que o senhor precisava ser entubado, a família se desesperou, e no dia seguinte, houve a ligação dizendo que ele não possuía estabilidade para ser transferido de hospital por conta da intubação. Horas depois, ligaram dizendo que ele estava sendo transferido. Quando a família chegou ao Hospital do Mandaqui, localizado na Zona Norte de São Paulo, não havia registro da entrada de Carlos, após duas horas, a família conseguiu entrar na ala de emergência, porém ele não foi encontrado, até que um médico informou que o avô não havia resistido. A inconformação da família é se o mesmo morreu por negligência médica ou por vontade divina, pois afirmaram que o mesmo não aguentava ser transferido e mesmo assim houve a transferência.

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(Carlos Vianna é o circulado. Por: Ana, sua neta)

O atual presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, é um dos cúmplices para explicar o momento em que o país vive. Com as frases mais emblemáticas quando questionado sobre o coronavírus “É só uma gripezinha. ” e “Vou fazer o que? Não sou coveiro. ”. O governo do mesmo não tem um Ministro da Saúde em definitivo faz 3 meses. Muitos de seus seguidores apenas reproduzem suas falas e não ligam para as normas básicas que a OMS decretou. A priorização da volta da economia levou a diversos problemas, como o aumento em massa pelo vírus e o fatídico frango contaminado vendido para China, que vetou a compra de alimentos do país, Filipinas também mencionou que não comprara por enquanto.

Em entrevista, uma enfermeira do Hospital do Mandaqui, que pediu para que não fosse dito seu nome, explicou como funciona tudo por parte da linha de frente que ajuda ao máximo a população.

A mulher disse não haver falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s) (roupas e acessórios para evitar o máximo a contaminação), mas não há leitos suficientes para todos os infectados, assim tendo que transferir o paciente para outros hospitais. Ela diz que os funcionários do hospital têm a preocupação de não se infectar e não levar o vírus para suas respectivas residências. Ela relatou que quando os pacientes descobrem que estão infectados eles entram em estado de medo e angústia, alterando batimentos cardíacos e impossibilitando diversos procedimentos, muitos oram em voz alta pedindo a cura para seu respectivo Deus, muitas vezes eles se exaltam. É normal, segundo ela, a população procurar ajuda médica quando já está em estágio avançado.

A quarentena é um privilégio da classe média e alta, a população da classe baixa não tem alternativa, apenas trabalha para que consigam colocar comida em suas respectivas casas. O descaso do Estado com eles é revoltante, mas sempre foi assim, o povo pelo povo, a burguesia nunca se importou, porque das mais de 100.000 mortes, a maioria vem das periferias. Segundo a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, publicou em, 6 de maio, que houve um aumento de 45% nas mortes dos 20 distritos mais pobres da cidade. Já dos 20 bairros mais ricos, foi um aumento de 36%. Essa diferença ocorre pelo fato da classe baixa não ter condições de manter uma higiene básica, causada pela desigualdade social.

Lucas Marques Cardoso, 23, diz que seu pai, mesmo com todo o caos, teve que trabalhar durante a pandemia, mas ele não contraiu a doença, felizmente, alega o jovem. Em, Itapecerica, que é onde o mesmo mora, não houve quarentena para a população, mas para o comércio local existiu a parada. Lucas teve suspeita de corona, porém recorreu ao hospital particular, quando chegou lá e confirmou que havia o vírus, ele relata a diferença que é do sistema público para o privado de saúde.

Segundo a Imperial College, de Londres, cravou que a pandemia do novo coronavírus é elitista, pois lavar as mãos com água e sabão, algo considerado básico para se precaver, não é algo que todos possuem, assim aumentado a taxa de contaminação em 32%. Através da Organização das Nações Unidas (ONU), 4,5 bilhões de pessoas não têm acesso à saneamento básico seguro, dado de 2017.

A mesma pesquisa relata que os países com maior concentração de riqueza apresentam 4,7 vezes mais leitos hospitalares, 13 vezes mais médicos e 9,6 vezes mais enfermeiros em relação aos mais pobres.

Através do site G1, foi publicado uma matéria que visibiliza a desigualdade social, na qual o Ministério da Saúde disponibilizou o Código de Endereçamento Postal (CEP), de 3.959 pessoas, mostra que 66% das vítimas, da grande São Paulo, recebiam salários médios abaixo de R$ 3 mil, 21% com a média de R$ 6.500 e nas regiões da classe alta, a média de R$ 19 mil era de apenas 1%. Segundo o G1, também, no dia 17 de setembro, a média de mortes no Brasil nos sete últimos dias era de 779 óbitos por dia, que somados dão 5.453 no país.

Coronavírus: Pandemia escancara vulnerabilidade de 50 milhões da nova classe  C

(Reprodução: Uol.com)

Em entrevista com Lucas Bacelar, 18, morador do bairro da Brasilândia, localizado na Zona Norte de São Paulo contou sobre como vive durante a pandemia. O jovem conta que conheceu pessoas que se infectaram pelo vírus, sendo algumas pessoas de sua família e ele conhecia um senhor que tinha um bar, contaminou-se e faleceu, o caso viralizou tanto que foi parar na Record. O mesmo especifica como foi a quarentena por lá, na qual ele cita a preocupação inicial com o vírus, fazendo o possível para evitar movimentação na rua, higienizar, como possível, suas respectivas casas e as pessoas. Porém, cerca de um mês após o decreto do isolamento, o medo da contaminação ficou para trás e tudo voltou ao normal.

Lucas relata seu privilégio de sua mãe e seu irmão poderem trabalhar em home-office, porém ele mora com seu avô, que faz fretes e é autônomo, mesmo com o auxílio, teve de ir em busca de alguma renda. O próprio relata que o seu tio, que trabalhava de Uber e como segurança particular, teve de sair para a rua em busca de algum sustento. Ele pôde ver que os casos de pessoas que tiveram o privilégio de se manter em casa foram minoria, a grande maioria da população local teve que sair após os 15 dias de quarentena. Após isso, as festas e bailes clandestinos começaram novamente, logo, o isolamento proposto pelo governo foi quebrado muito rápido.

O jovem relata que no início, se assustava com a proporção de mortos, mas depois de algumas pesquisas feitas pelo próprio, ele disse que viu o quão grande era o bairro, que engloba boa parte da Zona Norte e da parte Noroeste, tornando o número de mortos pequeno para o real tamanho. Porém, ele ressalta que não se deve relaxar, e sim continuar tomando os cuidados devidos, sendo eles higiênicos e o mesmo cita a imunidade, para que haja uma boa resistência contra o vírus. Sobre a pesquisa de Lucas, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que a Brasilândia tem 5.803,542 km2, com cerca de 11.853 pessoas em seu território. Um bairro com grandes números comparado a outros próximos.

Uma enfermeira de um postinho de saúde da região da Freguesia do Ó, ela afirma que o Estado deu as condições mínimas de trabalho e os funcionários lidam com as normas descritas pela OMS. A mulher diz que é desesperador ver a reação das pessoas ao saberem que estão com o vírus, com a evolução e se poderão sair vivas.

Em entrevista com Antônio Gati, o idoso de 86 anos contraiu o vírus, ele alega que achou que morreria, pois ele já possui uma idade avançada e já tem casos de pressão alta e problemas pulmonares. O próprio tem convênio, porém com todos os fatores ele se torna um grupo de risco bem alto e grave, porém ele saiu bem e sem nenhuma sequela. Sua esposa, Rosa Moreli, também teve, ela possui 82 anos, tem diabetes e é obesa, no entanto, ela sobreviveu ao vírus, porém despertou um câncer em seu fígado e pâncreas.

O presidente, Jair Messias Bolsonaro, que tanto recomenda a cloroquina sem recomendações médicas pode gerar efeitos colaterais em seus pacientes com o uso do remédio, como arritmia cardíaca, problemas renais e comprometimento na saúde dos olhos. Magnus Gisslén, professor e médico chefe da clínica de infecção do Hospital Universitário Sahlgrenska, relatou ao jornal Gothenburg Post que o medicamento tem efeitos colaterais sérios, principalmente no coração.

De acordo com o monitoramento da Universidade Johns Hopkins (Estados Unidos), já são mais de 116.600.908 milhões de casos no mundo, com 2.589.638 morte até o momento. Mesmo com uma taxa de mortalidade baixa, que mata uma pessoa a cada 30, é uma doença letal que não se sabe seus efeitos a longo prazo.

A ONU publicou em 2019 o Índice Multidimensional de Pobreza, com 101 países analisados, há 1,3 bilhão de pessoas consideradas “multidimensionalmente pobres”. Cerca de 500 milhões vivem em pobreza extrema, sem comida, água e higiene básica. Aproximadamente, 600 milhões de pessoas menores de 18 anos vivem com a desigualdade e 428 milhões tem menos de 10 anos.

O relatório observa que a África Subsaariana e o sul da Ásia têm a maior proporção de pessoas pobres, cerca de 84,5%. O nível de desigualdade é descrito como imenso na África Subsaariana, onde varia de 6,3% na África do Sul a 91,9% no Sudão do Sul. O nível de disparidade no sul da Ásia é oscilando de 0,8% nas Maldivas, para 55,9% no Afeganistão.

Após todos os fatos, deve-se tomar cuidado atualmente e posteriormente a fase do coronavírus, na qual deve aumentar o índice, por exemplo quando o dono da Amazon aumentou sua fortuna enquanto milhares de pessoas perdem seus pequenos negócios e ficam desempregados. O covid-19 é um vírus que veio para atingir o pobre e fortificar a elite. As pessoas só não sabiam que teriam que lutar contra dois vírus, o coronavírus e o capitalismo. E para o brasileiro, combater o genocida Jair Messias Bolsonaro é mais um obstáculo.

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Em meio a pandemia da Covid-19 e conflitos incessantes ao redor do mundo, entenda esse grupo e conheça a uma das instituições que lhes presta apoio no Brasil
por
Marina Daquanno Testi e Thayná Alves
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08/12/2020 - 12h

 

 

     

        O número de refugiados no Brasil vem crescendo a cada ano. Só no ano de 2018, segundo a Agência da ONU Para Refugiados (ACNUR) foram relatadas 80 mil solicitações de reconhecimento de condição de refugiado no Brasil. Os grupos de maior número entre as solicitações são os venezuelanos (61.681), que saíram do país devido à crise humanitária, e os haitianos (7.030), cujo fluxo de migração se intensificou após o terremoto que atingiu o país em 2010.  

        A lei brasileira considera refugiado todo indivíduo que está fora de seu país de origem devido a guerras, terremotos, miséria e questões relacionadas a conflitos de raça, religião, perseguição política, entre outros motivos que violam seus direitos humanos. Isso pode acontecer, por exemplo, quando a vida, liberdade ou integridade física da pessoa corria sério risco no seu país.

        Para que o imigrante seja reconhecido como refugiado, é necessário enviar uma solicitação para o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE). O processo de reconhecimento, que antes era mais burocrático e mais demorado, atualmente é feito no site do Ministério da Justiça, a partir do preenchimento do formulário que pode ser feito ainda no país de origem. Todas as etapas podem ser acompanhadas pela internet, mas para o processo começar a tramitar, o solicitante deverá comparecer pessoalmente a uma unidade da polícia federal. 

        Dentre a população refugiada reconhecida no Brasil, segundo o censo da ACNUR de 2018, a maioria se concentra nas faixas etárias de 30 a 59 anos (41,80%), seguido de pessoas com idade entre 18 a 29 anos (38,58%). Do total, 34% são mulheres e 66% são homens, ressaltando os sírios, os congoleses como nacionalidades em maior quantidade (respectivamente 55% e 21%). 

         Em janeiro de 2020, o Brasil tornou-se o país com maior número de refugiados venezuelanos reconhecidos na América Latina, cerca de 17 mil pessoas se beneficiaram da aplicação facilitada no processo de reconhecimento, segundo a  Agência da ONU para Refugiados. As autoridades brasileiras estimam que cerca de 264 mil venezuelanos vivem atualmente no país. Uma média de 500 venezuelanos continua a atravessar a fronteira com o Brasil todos os dias, principalmente para o estado de Roraima.

         Apesar de em grande quantidade, apenas 215 municípios têm algum tipo de serviço especializado de atenção a essa população. As maiores dificuldades encontradas por pessoas refugiadas são a adaptação com o mercado de trabalho, com o aprendizado do idioma, o preconceito e a xenofobia, educação (muitos possuem diplomas em seus países de origem que não são aceitos aqui no Brasil), moradia e saúde. 

 

Covid-19 e o amparo aos refugiados

 

        Diante de um quadro de crise em escala global, como o que acontece este ano com a pandemia da Covid-19, essa população de migrantes e refugiados, que já se encontram em extrema vulnerabilidade, conta com o apoio de poucas instituições voltadas especialmente para suas necessidades. Este é o caso da Missão Paz, uma instituição filantrópica de apoio e acolhimento a imigrantes e refugiados, com uma das sedes na cidade de São Paulo, como conta o padre Paolo Parise.

        Nascido e criado na Itália, Parise atua desde 2010 na Missão Paz, atualmente como um dos diretores, e explica que esta instituição está ligada a uma congregação da Igreja Católica chamada Scalabrinianos, que atua com imigrantes e refugiados em 34 países do mundo. “Na região do Glicério - município do estado de São Paulo-, a obra se iniciou nos anos 30 e atualmente está presente em Manaus, Rio de Janeiro, Cuiabá, Brasília, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Foz do Iguaçu, Corumbá e outros lugares.”

        Sua estrutura atual conta com a Casa do Migrante, um abrigo com capacidade de 110 indivíduos que são acolhidos com alimentação, material de higiene pessoal, roupas, aulas de português, acompanhamento de assistentes sociais e apoio psicológico; e o Centro Pastoral e de Mediação dos Migrantes (CPMM) que oferece atendimento e serviços voltados aos imigrantes, quanto aos seguintes temas: documentação e jurídico; trabalho, capacitação e cidadania; saúde; serviço social; família e comunidade. “Além disso, temos a área de pesquisa em parceria com a revista Travessia, que é o Centro de Estudos Migratórios (CEM), uma biblioteca especializada em migração e a WebRadio Migrantes”, completa Pe. Paolo.

Fonte: Site da instituição Missão Paz - Casa do Migrante
Fonte: Site da instituição Missão Paz - Crianças brincam na Casa do Migrante

        De acordo com o diretor, o maior desafio enfrentado pela instituição, durante a pandemia, foi com a saúde dos refugiados, principalmente pela impossibilidade de viver a quarentena isoladamente, já que muitos vivem em ocupações ou em lugares com muitas pessoas concentradas. Ele ainda denunciou que, dentre tantas vítimas da Covid-19 em São Paulo, um dos grupos mais afetados foi o de imigrantes bolivianos, “muitos foram contaminados e muitos morreram”.

        Diante de instabilidades políticas e econômicas, atualmente, sírios e venezuelanos são as principais nacionalidades afetadas que solicitam entrada no país. O que ratifica o Pe. Parise, “Falando pela Missão Paz, se você utiliza o termo ‘refugiados’, o maior grupo neste momento é de venezuelanos, sejam os que foram acolhidos pela missão paz, sejam os que estão entrando no Brasil. E depois encontramos outros grupos como da República Democrática do Congo. Mas se falamos de imigrantes, temos Colombianos, Bolivianos, Paraguaios, Peruanos, Angolanos e de outros países que estão recorrendo ao Brasil.”

        Mesmo com mudanças críticas, no cenário jurídico e político brasileiro, para que esta população seja recebida no país e tenha seus direitos respeitados, ainda não se pode falar em auxílio do governo ou medidas diretas de apoio a refugiados e imigrantes. 

        Paolo relembra a criação de leis que têm beneficiado a população no Brasil. Uma delas é a lei municipal Nº 16.478 de 2016, onde o Prefeito do Município de São Paulo, Fernando Haddad, instituiu a Política Municipal para a População Imigrante que garantia a esses o acesso a direitos sociais e aos serviços públicos, o respeito à diversidade e à interculturalidade, impedia a violação de direitos e fomentava a participação social; e a outra é a lei federal Nº13.445 de 2017, ou a nova Lei de Migração, que substitui o Estatuto do Estrangeiro e define os direitos e deveres do migrante e do visitante, regula a sua entrada e estada no País e estabelece princípios e diretrizes para as políticas públicas para o emigrante.

        A Missão Paz se mantém através de projetos e dinheiro injetado pela congregação da Igreja Católica. “Neste momento, a Missão Paz não recebe apoio financeiro nem do município, nem do estado e nem do Governo Federal”, relata Parise. Durante a pandemia receberam ajuda da sociedade civil, “[A Instituição] Conseguiu muitas doações de pessoas físicas, de instituições, de campanhas, fosse em dinheiro, em cestas básicas ou kits de higiene pessoal”, e com 200 cestas básicas, por mês, da Prefeitura de São Paulo. Também receberam ajuda com testes de COVID em nível municipal. 

         A instituição filantrópica ainda conta com a ajuda de vários parceiros, como explica seu diretor “na área de incidências políticas, por exemplo, nós atuamos com a ONG Conectas Direitos Humanos, temos na área de refugiados um projeto com a ACNUR, estamos preparando outro com a OIM (Organização Internacional para as Migrações) e temos algumas ações com a Cruz Vermelha”. 

        Desde o começo do ano, já atenderam por volta de 7 mil imigrantes e refugiados, e, hoje em dia, tem por volta de 40 pessoas na Casa, o que representa ⅓ da capacidade total. Além disso, entregam de 50 a 60 cestas básicas a refugiados, diariamente, e ao redor de 60 a 70 que vão, por dia, procurar os serviços do CPMM. “Outras ações incluíram a disponibilização de atendimentos online, de aulas de português a atendimentos jurídicos, psicológicos ou serviços sociais, além de ajudar a completar aluguel, água ou luz daqueles que precisam da ajuda da instituiçã”, fala Padre Paolo. 

        Todo esse esforço e dedicação da instituição foi feito, sempre, visando seguir as normas de segurança e as indicações da OMS (Organização Mundial da Saúde). Foram fornecidos a seus funcionários e a população migrante e de refugiados álcool para higienizar as mãos, máscaras e demais equipamentos e serviços de proteção e higiene.

Aventada após decreto, privatização do SUS seria inconstitucional, alerta Cristina Amorim
por
Sara de Oliveira
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19/11/2020 - 12h

No dia 27 de outubro, o presidente Jair Bolsonaro assinou um decreto - revogado no dia seguinte - autorizando estudos para a realização de parcerias com o setor privado nos atendimentos primários da saúde pública. A proposta de incluir a saúde no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) foi vista como um primeiro passo para uma possível privatização do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Saúde é direito de todos e dever do Estado garantido desde a Constituição brasileira de 1988. Foi para assegurar este direito que foi criado o SUS, que resultou em diminuição de taxas de mortalidade infantil e aumento da expectativa de vida dos brasileiros. Qualquer pessoa que está no território brasileiro pode ser atendido, em uma política que primeiro presta o serviço, depois pede os documentos. 

Maior sistema público de saúde do mundo, o SUS representa uma vitória da sociedade brasileira por promover a justiça social. Segundo pesquisa divulgada no ano passado pelo IBGE, mais de 70% da população brasileira depende do SUS. 

O sistema é um dos temas de pesquisa da economia da saúde, que trata das relações de produção, distribuição e consumo dos bens de saúde. O complexo produtivo da saúde pode ser dividido em tópicos: fontes pagadoras públicas (SUS) ou privadas (operadoras, seguros saúdes); produtores de bens (indústrias de equipamentos, medicamentos); prestadores de serviços (hospitais e clínicas) e consumidor/paciente/cidadão.

O dinheiro que chega ao SUS vem do fundo público. Existe uma quantidade de impostos que o governo recolhe da população sendo direcionados para as rubricas orçamentárias - educação, segurança, saúde, previdência etc. Este orçamento é votado pelo Parlamento todos os anos. A rubrica orçamental da saúde é a segunda maior - junto com a educação, ficando atrás somente da previdência. O Legislativo tem o poder de escolher a rubrica orçamentária que neste ano é de 9%, porém o Executivo pode segurar este dinheiro, limitando o montante que realmente chega nos hospitais. 

Desde 2016, com a Emenda Constitucional (EC) 95, o dinheiro voltado para a saúde vem diminuindo cada vez mais. O PPI foi criado em 2016 pelo governo Temer, com o objetivo de avaliar e recomendar ao presidente da República projetos que poderiam render parcerias e quais poderiam sofrer desestatização. Papel semelhante havia sido desempenhado pelo Conselho Nacional de Desestatização do governo Fernando Henrique Cardoso.

Logo, este PPI não é algo novo. No estado de São Paulo, durante o governo de Mario Covas (1995-2001), iniciou-se um tipo de controle privado denominado “Organização Social de Saúde”. São instituições sem fins lucrativos, com vasta experiências nos serviços de saúde que gerenciam os equipamentos públicos. Por exemplo, a Unifesp gerencia um hospital de propriedade do governo de São Paulo. Os equipamentos e o dinheiro investido são de responsabilidade do estado de São Paulo e o governo paga um montante para a universidade gerenciar.

A professora de economia da PUC-SP Cristina Amorim pontua: “Saúde é um bem público, e o SUS é um patrimônio da sociedade brasileira. Há privatizações e privatizações. Eu diria que existe uma contradição em termos falar na privatização do SUS. Não deve e não pode. É um direito inviolável [constitucional]”.

A possível “privatização” do SUS passa pela disputa de orçamento, assim como outros serviços públicos. Mas para Cristina, que trabalha na área da economia da saúde há mais de vinte anos, “a saúde privada está muito menos interessada nos serviços do SUS do que pode parecer à primeira vista".

Ela cita como exemplo a atenção básica. "Vender para quem não tem recurso? Vender para quem não tem renda?", questiona a professora. "Sempre há uma tensão entre até onde é o espaço da saúde suplementar e até onde é o da pública", diz Cristina, acrescentando que existe uma disputa por espaço e hegemonia, mas não quanto "as manchetes anunciam".

Ao ser questionada sobre a declaração de Bolsonaro e a rápida revogação do decreto, a professora diz: “Nem deu para ver do que se trava exatamente. Eu li tudo que saiu e tudo o que pude entender é que o Estado usaria do BNDES, sendo ofertado para empresas privadas, e teriam o direito de ofertar algum tipo de serviço para atenção básica. Poderia ser a reforma do posto de saúde, porém foi muito rápido, mal deu tempo de analisar a situação”.

Porém, algo que pôde ser analisado foi a pressão da mídia e da população sobre a atitude do presidente. “A pressão foi evidente, inclusive da assessoria jurídica da Presidência da República, que deve ter falado: ‘Isto é inconstitucional’”, diz Cristina, lembrando o longo histórico de lutas da sociedade brasileira pela saúde pública. 

 

 

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Prejuízos financeiros e sociais estão entre as consequências enfrentadas por traders que sofrem com a prática compulsiva
por
Carlos E. Kelm
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18/09/2020 - 12h

Considerado por muitos um tipo de investimento, o chamado Trading provoca dependência e oferece sérios riscos aos operadores. Traders compulsivos recorrem a grupos de apoio em busca de ajuda.

Cursos que prometem ensinar as técnicas necessárias para viver de Trading são amplamente divulgados na internet, assim como os diversos relatos de sucesso. Nos sites das corretoras, o foco está na qualidade e acessibilidade do serviço: “Investir nunca foi tão fácil. Tudo o que você procura em uma incrível e potente plataforma de investimentos, no dispositivo de sua escolha”. A grande variedade de cursos constitui um mercado à parte, mas da codependência também se beneficiam as corretoras.

“As pessoas não tem noção de que isso é uma aposta”, afirma um dos coordenadores de relações públicas dos Jogadores Anônimos, “As pessoas vêm para o Jogadores Anônimos com problema, com essa dificuldade, mas achando que é um investidor, um executivo, e na verdade tá se perdendo” o entrevistado relata que a irmandade conta com membros que são Traders compulsivos.

Um dos membros do Jogadores Anônimos, que não quis se identificar, revela que começou como investidor em 1997 e depois passou para o Day Trading. “É um tipo de aposta, e no meu caso eu não consegui mais largar”, afirma o ex-trader, “Eu fiquei muitos anos ganhando vários dias, depois eu devolvia tudo porque eu queria recuperar o que eu perdi”

“É uma tremenda enganação o que estão fazendo com essas publicidades, é só cursinho pra enrolar os outros”, comenta o empresário, que continua a sua fala com convicção, “As pessoas entram iludidas, achando realmente que vão viver daquilo ali, mas acabam se viciando e perdendo tudo”

Questionado sobre o momento em que decidiu procurar ajuda, o ex-trader responde: “A gente só vai parar no JA quando destrói a vida, eu destruí a minha vida, foram vinte e três anos de patrimônio jogados fora”, num tom de revolta, “Chega num ponto que tu não aguenta mais, é o fundo do poço”

O empresário diz que já não opera mais, e atribui ao Jogadores Anônimos parte de seu progresso. Ele ressalta que já se recuperou financeiramente e conclui com um alerta: “Pra quem tá começando nesse mercado, nem inicie, se não for pra ser um investidor de fato, não inicie”

Maria Paula Magalhães Tavares de Oliveira, doutora em Psicologia Experimental e supervisora do AMJO - Ambulatório de Jogo do Instituto de Psiquiatria da FMUSP, fala sobre o perfil de jogadores compulsivos: “Algumas pessoas tem um perfil mais impulsivo, gostam de se arriscar mais e ficam muito fascinadas pela possibilidade de ganhar”

“Uma coisa é você jogar pra brincar, outra coisa é você entrar com esse olhar de achar que tem sorte, de que vai ganhar, de que é mais esperto, de que vai conseguir de alguma maneira calcular o risco”, esclarece a doutora, “Aí a pessoa começa a se endividar, não se conforma, e cada vez aposta mais alto pra recuperar o que perdeu”

Oliveira alerta sobre o comportamento de negação: “Quem usa a bolça de um jeito patológico vai dizer que não é jogo, que é trabalho, é investimento. A pessoa vai negar, é difícil ela perceber que tá se colocando em risco e colocando seu próprio patrimônio em risco”

A doutora aponta para a importância de falar sobre o problema: “Quanto mais a pessoa consegue pedir ajuda, mais fácil fica de interceder. Pra quem convive com jogador, o primeiro passo é tirar o julgamento moral, e entender que a pessoa precisa de ajuda, tratar como uma questão médica mesmo.

Bruno Cara Giovannetti, economista, pesquisador e professor da Fundação Getúlio Vargas, é um dos autores de um artigo que ganhou destaque em 2019 por concluir que é impossível viver de Day Trading. No artigo “Day Trading for a Living?” os pesquisadores comparam o Day Trade com jogos de azar, mais especificamente a roleta, por apresentarem probabilidades de ganho similares.

Giovannetti esclarece: “Day trade não é investimento porque é uma operação para dar resultado no mesmo dia e a pessoa não investe nenhum dinheiro. Ela simplesmente compra e vende o mesmo ativo durante o dia, tentando comprar a um preço médio menor e vender a um preço médio maior”

Para quem quer melhorar de vida, o economista recomenda primeiramente o trabalho e diz que não faz sentido esperar que a bolsa o substitua. Por outro lado, Giovannetti vê a bolsa como uma ótima opção para quem quer garantir a aposentadoria, com investimentos a longo prazo, prevê retornos de aproximadamente 7% ao ano.

No Brasil, o trading não é regulamentado, logo não é possível investir através de corretoras nacionais. No entanto, para os brasileiros que querem investir no mercado Forex, basta abrir uma conta em uma corretora internacional e começar a operar pela internet.

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