Na manhã desta segunda-feira (23), um incêndio de grande proporção atingiu a loja Tintas ABC, em Santo André, região do ABC Paulista. O corpo de bombeiros atuou desde às 9h para combater o fogo e mobilizou cerca de 16 viaturas e mais de 40 profissionais no local do acidente. As causas da ocorrência ainda são desconhecidas.
A loja fica localizada na Avenida Dom Pedro I, 1720, na Vila América. Apesar do ocorrido ter afetado a rotina dos moradores da região, não há registro de quantos imóveis foram afetados. O incidente não deixou vítimas. Em nota publicada nas redes sociais, a Tintas ABC informou que seus funcionários e clientes presentes foram evacuados em segurança. “Reforçamos que a segurança sempre foi uma prioridade em nossas operações, seguindo rigorosamente as normas e procedimentos vigentes.” afirmou o estabelecimento.
Nota oficial da loja Tintas ABC. Reprodução: Instagram/ @tintasabc_oficial
A Prefeitura de Santo André afirmou que o Departamento de Proteção e Defesa Civil foi acionado para o local às 10h30. Moradores e pessoas que frequentam a região, foram orientados a ficarem dentro de suas casas, com janelas e portas fechadas, devido à fumaça, que pode ser prejudicial quando inalada.
Além dos danos à loja, a rotina dos moradores foi afetada. Em entrevista à AGEMT, a analista financeira, Thania Strina, que mora há dez minutos do local, afirmou que estava trabalhando com a janela aberta quando reparou a fumaça e precisou fechá-la por causa do odor. “Na escola da minha filha, foi preciso a troca de sala”, relatou.
Fumaça vista pelos moradores da região. Imagem reprodução/ Arquivo pessoal: Thania Strina
A empreendedora Daniele Colimo, também em entrevista à AGEMT, afirmou que mora há 1km do local e que, da sua sacada, notou a fumaça. Ela relatou que sentiu dificuldade de locomoção pela cidade devido ao congestionamento gerado pelo incidente, “A loja, está localizada em uma avenida movimentada no bairro, onde trafegam ônibus para todos os lugares, quando aconteceu o acidente, alguns acessos a padaria, loja de embalagens por exemplo, ficaram impossíveis de acessar.”, afirmou.
A moradora também informou que, em escolas próximas, vizinhos tiveram que buscar seus filhos mais cedo. Após a contenção do incêndio, os móveis de sua casa ficaram cobertos de fuligem. Daniele contou ainda que trabalhou por sete anos em frente ao local e elogiou o estabelecimento e seus funcionários, que agora tentam se reerguer e buscar a causa do incêndio.
Moradores ainda lidam com os transtornos e tentam retomar a normalidade. A expectativa é por esclarecimentos sobre as causas do incidente e por medidas que reforcem a segurança local.
Da noite de segunda-feira (23) para a madrugada de terça-feira (24), a região Sudeste de Minas Gerais foi atingida por intensas chuvas. No município de Juiz de Fora, de acordo com dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), foi registrado um volume total de 209,4 milímetros, um recorde histórico para o mês de fevereiro. No município de Ubá, as chuvas provocaram a inundação do rio Ubá e alcançou a marca histórica de 7,82 metros de altura
Os índices pluviométricos extremos provocaram inundações e deslizamentos que resultaram em mortes e desaparecimentos nos municípios afetados. Em Juiz de Fora, até o momento, o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais (CBMMG) registrou 69 mortes. Em Ubá, foram confirmadas seis mortes. Juiz de Fora chegou a registrar 16 desaparecidos, enquanto em Ubá, duas pessoas. Além das vítimas fatais, a prefeitura de Juiz de Fora confirmou 8.584 desabrigados e desalojados, enquanto Ubá registrou 396 desalojados e 25 desabrigados. As buscas aconteceram na manhã da última segunda-feira (02).
Os rastros de destruição deixados pelas chuvas, em Juiz de Fora. Foto: Instagram/@engenhariaambientalbr
Fazendo fronteira com Juiz de Fora, pontos do município de Matias Barbosa também sofreram com os temporais. Mesmo sem registros de óbitos, 300 imóveis foram atingidos, deixando mil pessoas desabrigadas, de acordo com estimativas da prefeitura.
Para lidar com a situação, os bombeiros locais organizaram oito frentes de trabalho; seis em Juíz de Fora e duas em Ubá. As prefeituras de ambos os municípios declararam estado de calamidade pública, medida que possibilita o recebimento de recursos estaduais e federais para o controle da situação, além da instauração de um plano de contingência.
O presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, declarou estado de calamidade pública federal, mobilizando a Força Nacional do SUS para auxiliar na situação.
O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, declarou estado de luto e, em entrevista coletiva na terça feira (24), declarou que em “15 ou 30 dias” fará uma avaliação de como o governo auxiliará para a reconstrução de estradas e pontes nos municípios afetados - o que será feito com a verba federal. Até o momento, o Governo do Estado antecipou R$ 8 milhões para Ubá e R$ 38 milhões para Juiz de Fora, para gastos emergenciais.
Charge denuncia a responsabilidade e pouca assistência do governo estadual de Minas Gerais. Reprodução: Instagram/@cartunistagilmar
O que aconteceu?
O verão brasileiro tem sido afetado por anomalias climáticas recorrentes. Segundo pesquisas feitas no INMET pela meteorologista Andrea Ramos, os riscos de temporais aumentaram muito nos meses de Janeiro e Fevereiro, e chuvas como as ocorridas em Minas Gerais são classificadas como extremas.
Segundo ela, o principal fator para os temporais foi uma Supercélula, sistema de tempestade de grande desenvolvimento vertical. O fenômeno se intensifica com a presença do calor, da alta umidade e de um cavalo atmosférico, uma área de baixa pressão em níveis médios e altos da atmosfera, caracterizada por uma ondulação de fluxos de ventos que atua como área de instabilidade.
Ainda de acordo com o INMET, o cenário de instabilidade tende a continuar nos próximos dias.
A inteligência artificial, também conhecida como IA, tornou-se uma conveniência na vida das pessoas tão importante quanto o smartphone ou a internet. No entanto, também é um grande alvo de polêmica por conta das especulações sobre seu potencial destrutivo contra a humanidade e o meio ambiente.
Segundo Rafael de Carvalho Morales, profissional de tecnologia, professor e consultor da área de sustentabilidade, um dos impactos mais significativos é o consumo de água, usada pelos data centers para regular o sistema de resfriamento de seus diversos servidores.
Rafael de Carvalho Morales - Foto: Divulgação
“Tem alguns casos de construção de data centers em áreas de escassez hídrica, ou seja, em locais com pouca água”, diz Morales, alertando para as possíveis consequências de operações desse tipo. “Se você acabar com a água desse lugar, a cidade vai ficar sem água, a população vai ficar sem água e o entorno também vai sofrer com isso.”
O consultor também destaca a degradação ambiental provocada pela mineração de recursos necessários para a fabricação de peças utilizadas nos data centers, como lítio, cobre e silício. Trata-se de minerais escassos e valiosos, cuja extração, se não for gerenciada devidamente, produz o risco de um esgotamento rápido das reservas.
De acordo com o consultor, a falta de compromisso das empresas de tecnologia com a rastreabilidade da cadeia de minérios que fazem parte das unidades de processamento acaba estimulando uma técnica de extração de recursos de altíssimo impacto, que é a mineração artesanal. Mais conhecida como garimpo, esse modelo é mais prejudicial ao meio ambiente do que até mesmo a mineração industrial, pela falta de regulação e código de conduta apropriados. “É um grupo de pessoas, coordenadas ou não, que vão para uma determinada localidade em que se imagina que tenha minério e mineram com práticas de alto impacto, com uso de mercúrio e outros métodos nocivos para a natureza”, explica Morales.
Sobre possíveis formas de minimizar os impactos, o profissional diz que o Estado tem o papel de exigir, do ponto de vista legal, que as empresas adotem alguns princípios ao construir seus data centers, como a definição de limites para o consumo de água e a utilização de energia renovável. “Os Estados têm essa obrigação”, frisa Morales.
Ele também aponta a responsabilidade do mercado financeiro - que não deveria financiar operações sem compromisso com a sustentabilidade - e o papel dos próprios consumidores, que podem deixar de utilizar plataformas de empresas que não respeitam as normas ambientais.
Quando questionado sobre o futuro da humanidade e o lugar da IA nele, Moraes avalia que essa tecnologia veio para ficar, especialmente no contexto de uma sociedade no modelo capitalista de alta produtividade, que preza a produção de mais resultados com menos esforço e gastos. Neste sentido, diz ele, além de altamente lucrativa, a inteligência artificial se tornou uma “benção”, um acelerador de capital essencial para o atual estágio do capitalismo. “Já vi pessoas que conheço e respeito falando que a IA vai ajudar muito na produtividade”, afirma, citando a perspectiva de criação de empregos e funções inexistentes hoje.
Ainda assim, o consultor reconhece os malefícios que, para além dos impactos ambientais, a tecnologia pode trazer, como a dependência nos usuários - considerando a relação praticamente inseparável que as pessoas têm com seus smartphones - e as consequências psíquicas do uso abusivo.
Antes conhecido pela presença constante de saguis, macacos prego, capivaras e aves diversas, o Parque Estadual Alberto Löfgren, na Zona Norte de São Paulo, vive um período de silêncio. Frequentadores afirmam que o número de animais diminuiu de forma drástica nos últimos anos, especialmente depois do surto de febre amarela que atingiu o estado entre 2016 e 2018. A mudança é perceptível para quem acompanha a rotina do parque há décadas.
A aposentada Maria Eliane, 78 anos, visita o Horto desde que chegou a São Paulo. “Eu vinha aqui com meus filhos pequenos e era cheio de vida. A gente mal conseguia contar quantos saguis apareciam. Era um atrás do outro. Hoje eu caminho por tudo isso e quase não vejo mais nenhum”, afirma.
Segundo Maria Eliane, a ausência de animais transformou a experiência de visitar o parque. “O Horto sempre foi um lugar vivo. Tinha barulho, tinha movimento dos bichos. Agora parece outro lugar. Não é que acabou, mas está tudo muito reduzido. Dá uma tristeza ver como mudou.”
Os lagartos se alimentam de insetos e pequenos invertebrados, essenciais para o equilíbrio ecológico até nos centros urbanos. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Capturas clandestinas e violência contra macacos
A diminuição dos animais não é percebida apenas por visitantes antigos. Moradores do entorno também afirmam ter presenciado situações que podem ter contribuído para a redução da fauna.
Um deles, que pediu para não ser identificado, disse que presenciou capturas clandestinas dentro do parque. Ele conta que pessoas entravam por áreas menos movimentadas e montavam armadilhas para capturar pequenos mamíferos. O morador afirma ainda que, durante o período mais crítico da febre amarela, presenciou cenas de violência contra macacos. “Eu vi gente matando macaco. Eles achavam que o macaco transmitia a doença. Era ignorância. Os macacos eram vítimas, como nós. Pegavam o vírus e morriam também. Mas muita gente não entendia e atacava os bichos. Eu vi isso acontecer.”
A Secretaria de Meio Ambiente e órgãos estaduais chegaram a registrar casos de agressão a primatas na época do surto. Especialistas reforçaram, repetidamente, que os macacos não transmitem a febre amarela. Eles funcionam como sentinelas, indicando a circulação do vírus e permitindo que autoridades reforcem a vacinação.
Os animais vistos pelas câmeras
Fotografias recentes mostram que, apesar da diminuição, ainda há vida silvestre no Horto. Aves, patos e tartarugas são os mais comuns de serem vistos.
O mergulhão observa o reflexo da luz e escolhe o ângulo certo para capturar peixes sem perder tempo. Foto: Manuela Dias/AGEMTEm várias cidades, teiús vivem próximos a parques e córregos e seguem discreta convivência com humanos. Foto: Manuela Dias/AGEMTColoridas e serenas, as carpas não são só ornamentais. Elas ajudam a controlar algas e pequenos organismos, mantendo o equilíbrio dos lagos artificiais. Foto: Manuela Dias/AGEMTPatinhos aprendem rápido. Nos primeiros dias de vida já conseguem nadar e seguir a mãe em longas caminhadas até encontrar água. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Fundado por Fernando Costa e localizado próximo à Avenida Francisco Matarazzo, o Parque da Água Branca é um dos pontos de encontro mais tradicionais de São Paulo, reunindo famílias, atletas, crianças e até amantes de rodeios. Verdadeiro refúgio verde em meio à cidade de pedra, o parque abriga árvores típicas da Mata Atlântica, como pau-brasil, cedro, grumixama e canela-cheirosa, além de cerca de 190 espécies de flora e mais de 40 espécies de aves catalogadas, segundo pesquisas. Sua área atual ocupa aproximadamente 136 mil metros quadrados, e o espaço carrega consigo um rico valor histórico.
Em 2025, o parque completa 96 anos de existência. Hoje, oferece diversas atrações, como feiras orgânicas, um aquário, e o Museu Geológico Valdemar Lefèvre (MuGeo), que reúne rochas, minerais e fósseis. No entanto, sua origem é mais antiga: o local foi idealizado por Antônio da Silva Prado para abrigar a Escola Prática de Pomologia e Horticultura, voltada ao ensino de atividades agrícolas. A escola funcionou até 1911, e anos depois o espaço deu lugar ao parque que se tornaria um dos patrimônios mais queridos da cidade de São Paulo.
Já em 1928, o ex-governador Júlio Prestes, juntamente ao agrônomo Fernando Costa, transformaram a área, que até então era uma escola, na sede da Diretoria de Industria Animal, e um ano depois, com sua inauguração, foi batizado de Parque Doutor Fernando Costa. A arquitetura presente no parque é razão de destaque entre os frequentadores, as características rurais se misturam com os traços normandos das construções. Telhados inclinados e portas em arco com enormes janelas juntamente portões de ferro ornamentais, dão todo o charme do parque. Todos os edifícios permanecem originais desde 1929.
Em 1996, o local foi tombado como patrimônio histórico, cultural, arquitetônico, turístico, tecnológico e paisagístico pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado). Com o tempo, a ênfase no lazer se aprofundou e o parque passou por uma expansão. A implementação de lagos artificiais, playgrounds, quiosques, espaço para leitura e diversas atrações em datas comemorativas, trouxe uma grande atenção do público, sendo altamente frequentado nos dias de hoje.
Entrada do Parque da Água Branca. Foto: Isabelle Muniz / Agemt
Em entrevista à Agemt, a engenheira ambiental Thamires Lino, pós-graduada em Engenharia de Segurança do Trabalho e com 12 anos de experiência na área ambiental, especialmente em licenciamento, gestão ambiental e gestão de resíduos, destacou a importância dos parques urbanos como verdadeiros refúgios de ar puro nas cidades. Segundo ela, esses espaços promovem bem-estar e saúde à população por meio das áreas de lazer e recreação que oferecem. Thamires ressalta que a preservação dos parques é essencial: “Os parques urbanos favorecem a biodiversidade de plantas e animais. Por meio da conservação, o ambiente se mantém em equilíbrio, contribuindo muito para a continuidade da vida no local”. A engenheira também enfatiza o papel ecológico desses espaços e a relevância de parques como o da Água Branca, em São Paulo. “A vegetação ajuda na regulação térmica, combatendo os efeitos da ilha de calor, além de absorver CO₂ e atuar como um filtro natural”.
Assim, a presença dos parques vai muito além do entretenimento, trata-se de um elemento fundamental para o equilíbrio ambiental urbano. Thamires ainda reforça a importância da participação da população na conservação desses espaços: “Usar os parques de forma consciente, respeitar as orientações de permanência, o descarte de resíduos e evitar alimentar os animais são atitudes fundamentais para sua preservação”. Por fim, ela destaca que os pilares para a manutenção dos parques estão nas ações conjuntas da gestão pública, com as equipes de zeladoria e manutenção, e no comprometimento dos visitantes em cuidar desses espaços.
Deve-se ressaltar o grande afeto do público pela área, durante um instante de lazer no parque, Lina, aposentada de 64 anos, informou que o parque é “maravilhoso”, afirma que há diversas memórias marcantes nele e o visita com frequência, “Lembro quando os fazendeiros distribuíam leite para nós, davam brinquedos para as crianças... É um parque bem familiar, meus filhos que hoje já são homens, cresceram aqui.”. A visitante afirma que a característica mais marcante da área é o sossego e a paz que ela transmite “É minha vida isso aqui, aqui é tudo”, informa que sempre que se sente sozinha, costuma frequentar o parque, sente “paixão” pelo verde e pela vasta vegetação.
Em um mês, as enchentes no Rio Grande do Sul, um dos principais estados do Brasil, ultrapassaram os marcos de uma histórica tragédia. O Guaíba, lago que banha a capital e diversos outros municípios, passou dos cinco metros e causou a maior catástrofe ambiental já vista no RS. O último evento dessa magnitude havia sido em 1941, quando o nível de água atingiu 4,76 metros e deixou 70 mil pessoas desabrigadas.
FOTO: Gilvan Rocha/Agência Brasil
O que parecia ser o maior desastre da história do Rio Grande do Sul, já não é mais. Desde o dia 27 de abril de 2024, fortes chuvas atingiram o estado do extremo Sul do país. O fenômeno se agravou no dia 29 de abril e na data seguinte (30) foi registrada a primeira morte. Após 10 dias ininterruptos de chuvas intensas, 6 bacias de rios ficaram sobrecarregadas e passaram a transbordar. Com isso, a água invadiu os municípios e cidades. Essa água se alastrou até o Guaíba, que também ficou sobrecarregado e transbordou. No dia 04 de maio o recorde do nível de água do lago Guaíba foi batido. Em 1941, o lago atingiu 4,76 metros e esse era o maior registro que se tinha no Estado. Entretanto, nesse novo desastre o nível ultrapassou os 5 metros. Os números mostram que no dia seguinte da marca, o nível chegou aos 5,32 metros, o maior já visto na história. Assim, locais que nunca haviam sido afetados em outras enchentes, tiveram sua realidade modificada. A água atingiu lugares que jamais havia atingido.
As estatísticas mostram o tamanho do que acontece no Rio Grande do Sul. Até o momento (01 de junho), cerca de 171 mortes já foram registradas e esse número tende a crescer cada vez mais conforme os corpos são encontrados entre as enchentes e os destroços. Após mais de um mês de tragédia, outro número que impacta é de que existem mais de 600 mil pessoas desabrigadas por todo o Estado. A “Grande Enchente”, como é conhecida a tragédia que marcou o ano de 1941 no Rio Grande do Sul, foi um dos maiores desastres que já ocorreram no país. Por muito tempo, os gaúchos ouviram histórias desse acontecimento, como uma espécie de lenda do Estado. Na época, os temporais começaram no dia 10 de abril e duraram 35 dias. Cidades foram invadidas. Lavouras, estradas e ferrovias foram destruídas. Tudo isso pela água dos rios que transbordaram.
Em entrevista exclusiva, Adriana Teixeira, jornalista e editora executiva da revista GALÁxIA, conta como foi sua experiência quando foi para o Rio Grande do Sul e conheceu a história do Estado. “Eu tenho amigos que moram no Rio Grande do Sul. Tive a oportunidade de visitá-los em algumas ocasiões e ter acesso à história do Estado. A “Grande Enchente”, como eles chamam por lá, é de fato um momento contado de geração em geração, pois, infelizmente, marcou a vida de todos os gaúchos”, diz Teixeira.
De acordo com registros da época, coletados pelo museu Joaquim Felizardo, cerca de 70 mil moradores do Estado ficaram desabrigados. Para se ter noção da magnitude da situação, esse número era equivalente a um quarto de toda a população do Rio Grande do Sul em 1941. Além disso, um terço dos locais comerciais ficaram embaixo d'água e diversas indústrias foram fechadas. Falta de luz e a paralisação do abastecimento de água nas cidades também fizeram parte desse momento trágico.
FOTO: RAFAEL DALBOSCO/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Após esse evento, diversos especialistas já se voltaram ao tema para alertarem sobre uma possível nova tragédia e avisaram que se nada fosse feito, o caos poderia ser ainda maior. A arquiteta Mima Feltrin, em entrevista à Revista Veja, trata as novas enchentes como fato anunciado. “Estamos falando de, pelo menos, 25 anos de avisos”, diz. Para ela, essa falta de ações diante dos estudos realizados nos anos posteriores ao desastre, ainda é uma estratégia política. “Aqui no Brasil a lógica é inversa. Gastamos cerca de 14 vezes mais com reconstrução do que com a prevenção de tragédias”.
Adriana Teixeira, que também é doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e estuda os impactos da desinformação no cotidiano, afirma que esse fator pode ser muito prejudicial nesse momento de calamidade. A jornalista destaca que “Centros de monitoramento de desinformação alertam para a ampla circulação no ambiente online de mensagens falsas sobre o desastre climático no Rio Grande do Sul”. Além disso, ela acredita que essa “calamidade pública tem sido usada por políticos da extrema direita, influenciadores e empresários para a obtenção de lucro financeiro, engajamento e influência sobre a política nacional e o debate sobre a crise climática”
Entre alguns materiais compartilhados durante a entrevista, Adriana comentou sobre estudos realizados por algumas organizações que buscam compreender as principais narrativas de desinformação e seus impactos no desastre do RS. Ela apresentou dois levantamentos, realizados pela UFRJ e pela NetLabs entre os dias 27 de abril e 10 de maio. Os relatórios expõem que “boa parte do conteúdo desinformante sobre o desastre climático no Rio Grande do Sul tem como objetivo descredibilizar o governo federal e gerar desconfiança em torno de instituições governamentais”.
Para a editora da Revista GALÁxIA, “A imensidão de mensagens fraudulentas também serve para gerar déficit informacional e distrair a audiência sobre as informações que buscam relatar os fatos e que são necessárias para enfrentar a tragédia”. Ela também acredita que “os efeitos dessas mensagens falsas são devastadores”. Por fim, Adriana relata que “a desinformação confunde a população vítima do desastre climático, prejudica a distribuição das doações e dificulta o trabalho de agentes públicos, socorristas e voluntários”.Além disso, de maneira contundente, ela enfatiza que em situações catastróficas como essa, “a desinformação amplifica o ambiente de caos”.
Para o processo de reconstrução do estado é necessário que planos políticos e sociais, que envolvem educação ambiental e cooperação regional e internacional, sejam elaborados. Essas estratégias, quando implementadas de forma integrada e colaborativa, podem ajudar a reerguer não apenas a infraestrutura física, mas também a resiliência do Rio Grande do Sul após uma tragédia ambiental.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência das Nações Unidas especializada em clima, divulgou, em abril, o relatório “Estado do Clima na Ásia 2023”.
O Órgão destacou, em comunicado à imprensa, o ritmo acelerado de alterações nos principais indicadores observados, como: aumento da temperatura no continente, derretimento e recuo dos glaciares, aquecimento da água do mar e a subida de seu nível.
As alterações nestes dados reforçam a gravidade das mudanças climáticas no continente.
O relatório aponta que a tendência de aquecimento global se intensificou e que, no longo prazo, as consequências do desequilíbrio da natureza serão cada vez mais intensas.
O aumento desenfreado de emissão de gases do efeito estufa, ocorrido desde a Revolução Industrial, com o uso intensivo de combustíveis fósseis para movimentar os motores e máquinas, a utilização de técnicas arcaicas na agricultura e pecuária, como a queimada de florestas para semear capim e possibilitar a criação de gado em larga escala ou a monocultura, e o uso intensivo de agrotóxicos em áreas extensas tem causado uma desordem severa na natureza ao longo dos anos.
A Ásia, continente com a maior extensão terrestre, que se estende até o Ártico, é a região do mundo em que o aquecimento é superior à média global e mais propensa a desastres naturais, sendo os perigos relacionados à água a principal ameaça.
As tempestades e inundações são os maiores causadores de vítimas e perdas econômicas no continente. Em 2023, ocorreram 79 desastres associados às chuvas intensas com inundações na Ásia, afetando diretamente nove milhões de pessoas, com mais de 2000 vítimas fatais.
O relatório destaca o aumento da temperatura da superfície dos oceanos, sendo que no continente os mares estão aquecendo três vezes mais rápido que a temperatura média global dos oceanos. O derretimento e recuo dos glaciares, com a consequente subida do nível do mar, ocasionam sérios problemas para as sociedades, economia e ecossistemas da região.
Como a natureza não escolhe nem onde, nem quem ela atingirá mais severamente, os países, com limitada infraestrutura sofrem de forma desproporcional, com consequências mais duradouras.
Como exemplo, o ciclone tropical Mocha, que, em maio de 2023 provocou 156 mortes em Mianmar e Bangladesh. A chuva torrencial, classificada como tempestade ciclônica extremamente severa, atingiu a costados países situados no golfo de Bengala, obrigando milhares de pessoas a abandonarem as suas casas.
Destruição causada por tempestade ciclônica em Mianmar – Foto: Sai Aung Main/AFP/JC
Além dos fenômenos climáticos associados à água, ocorre na Ásia aumento significativo da temperatura, com ondas de calor sufocantes que podem causar desidratação e insolação.
As ondas de calor sufocantes do continente contribuem para o aumento de focos de incêndio nas florestas – Foto: VladisChern / Shutterstock.com
As ondas de calor são o mais letal dos eventos extremos causados pelas mudanças climáticas. Em 2023, o Japão viveu o verão mais quente já registrado em sua história.
Na China, em muitas estações meteorológicas foram anotados recordes de temperaturas. Na Índia, as fortes ondas de calor levaram à morte 110 pessoas devido à insolação.
Os trabalhadores que vivem expostos a condições extremamente quentes e úmidas, como os operários da construção civil ou quem trabalha em atividades ao ar livre, são os que correm maiores riscos de estresse térmico.
Incêndio florestal - Foto: Nicolas Economou/Reuters -
O relatório da OMM reforça a necessidade de que os serviços meteorológicos nacionais de toda a região produzam dados e os divulguem de forma sistematizada e em tempo hábil, para melhor alertar a população sobre os riscos eminentes de um evento climático na tentativa de reduzir danos.
As tempestades contínuas que se alastraram pela maioria dos municípios gaúchos fizeram com que o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB-RS), decretasse estado de calamidade pública, por 180 dias. Essa decisão, divulgada na última quarta-feira (1) no Diário Oficial do Estado, permite que órgãos e entidades da administração pública prestem apoio à população afetada.
A situação do RS foi classificada como um desastre nível 3. Segundo a Defesa Civil do Rio Grande do Sul, “os danos causados são importantes e os prejuízos vultosos”. Todo o território está em alerta de risco hidrológico extremo, com níveis dos rios acima da cota de inundação - quando as águas passam a causar danos ao município.
Mapa de risco de inundação de acordo com o município. Imagem: Defesa Civil do RS
A prefeitura de Porto Alegre iniciou a evacuação de seus moradores na última sexta-feira (3). O lago Guaíba, que banha a capital, ultrapassou a marca dos 5m acima de seu nível normal - circunstância que deve se manter por, no mínimo, 4 dias. A situação se agravou, especificamente na zona norte da cidade, por causa de um rompimento de uma das comportas do lago - o portão 14.
Nível da água no Centro Histórico de Porto Alegre. Foto: Evandro Leal/Agência O Globo
Por que as chuvas estão ocorrendo?
Chuvas fortes já são esperadas na região Sul, entre dezembro e março, devido ao El Niño, que provoca o aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico. Entretanto, o Rio Grande do Sul está sendo atingido por níveis pluviais anormais por uma combinação de alguns fenômenos climáticos:
Intensa corrente de ventos que causa instabilidade climática;
Onda de calor na região central do Brasil causa um bloqueio atmosférico por estagnação do movimento normal do ar - naturalmente essa é uma região de alta pressão atmosférica;
Sucessão de frentes frias e chuvosas proveniente da Argentina, que ficaram estagnadas na região Sul do Brasil por causa do bloqueio causado pela onda de calor;
Corredor de umidade proveniente da Amazônia é desviado pelos Andes, e acaba atingindo a região Sul do Brasil. A umidade causa precipitação;
La Niña e altas temperaturas no oceano Atlântico geram mais umidade e precipitação.
Em entrevista à TV Brasil, Marcelo Seluchi, coordenador do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), explica que as chuvas não devem cessar tão prontamente. “Esta situação [as chuvas], infelizmente, deve se manter, com poucas mudanças, pelo menos até sábado com volumes muito elevados ainda, até superiores a 250 milímetros, especialmente na porção centro-norte do estado”, diz Seluchi.
Gráfico explicando a causa das chuvas. Foto: Ighor Jesus/ Arte g1
O envolvimento do governo federal
Lula e Eduardo Leite em Santa Maria. Foto: Ricardo Stuckert/PR
O presidente Lula (PT) desembarcou na cidade de Santa Maria, uma das mais afetadas, na quinta-feira (2), para se encontrar com Leite.
O Presidente Lula se encontra com o governador Eduardo Leite em Santa Maria. Foto: Reprodução/ Redes sociais
Junto à ele estavam os ministros Rui Costa (Casa Civil), Jader Filho (Cidades), Renan Filho (Transportes), Waldes Góes (Integração e Desenvolvimento Nacional), Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança do Clima) e Paulo Pimenta (Secretária da Comunicação), além do chefe do gabinete do Comandante da Aeronáutica, Major-Brigadeiro do Ar Antonio Luiz Godoy Soares e do comandante do Exército, general Tomás Paiva.
“Fiz questão de trazer os ministros aqui porque quero que eles assumam o compromisso em solidariedade ao povo do Rio Grande do Sul, para que a gente possa minimizar o sofrimento que esse evento extremo da natureza está causando no estado”, afirmou Lula.
Após retornar à Brasília, Lula anunciou a criação de uma sala para conseguir monitorar diariamente a situação do RS. O governo federal, que já reconheceu o estado de calamidade do RS, mobilizou 626 militares na região para salvamento e resgate das vítimas.
Foram enviadas 45 viaturas, 12 embarcações e botes de resgate, e oito aeronaves pela Marinha e Exército, também para auxiliar no resgate dos afetados.
O governo federal liberou nesta segunda-feira (6) R$534 milhões em emendas individuais de parlamentares gaúchos, que estavam alocados na área da saúde. Segundo o ministro Paulo Pimenta, até quarta-feira (8), devem ser liberados mais R$80 milhões.
“A gente não vai permitir que faltem recursos para que a gente possa reparar os danos causados”, disse o presidente da República durante sua visita ao RS.
A Agemt tentou contato com moradores das regiões afetadas, mas não conseguiu resposta devido à falta de internet local. Até o momento, segundo balanço do governo do RS, 740 mil pessoas estão sem acesso a serviços essenciais, como energia elétrica, serviços de telefonia e internet e abastecimento de água.
São Paulo ainda não entrou no debate da adaptação às mudanças climáticas. A maior cidade da América Latina, ainda faz com que seus moradores vivam em condições improcedentes. O meio insustentável em que a capital está inserida, impede a população paulistana de possuir qualidade de vida e existir plenamente. Uma metrópole que sofre com o racismo ambiental, altas taxas de poluição, causando diversos problemas de saúde, e nenhuma indicativa de uma transição energética, acaba vinculada a uma realidade limitada e que dificulta o seu desenvolvimento. Inserir o planeta em um cenário mais sustentável e, consequentemente, mais duradouro e habitável para futuras gerações, é essencial; por isso, torna-se cada vez mais necessário a adoção de medidas que garantam isso.
Na aula inaugural promovida pelo curso de Pós-Graduação em Governanças Global e Formulação de Políticas Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que ocorreu na quinta-feira, 25 de abril, o pré-candidato à Prefeitura de SP, Guilherme Boulos, dedicou bastante tempo de sua fala a essa discussão. O deputado, que palestrava sobre cidades sustentáveis, afirmou: “O que as cidades precisam fazer? Desenvolver planos de adaptação às mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, cumprir metas de redução das emissões de gás de efeito estufa. Hoje nós não estamos discutindo isso aqui na cidade de São Paulo”.
São Paulo está entre as 10 cidades brasileiras que mais emitem carbono, o que contribui em massa para as constantes e intensas mudanças climáticas às quais a cidade tem sido submetida. Dos 12 mil ônibus responsáveis pelo translado da população paulistana, apenas 84 são elétricos, além de serem restritos ao centro de São Paulo. A grande problemática desses números, é a emissão de carbono causada pelo diesel. No entanto, o transporte público ainda é a opção mais sustentável, uma vez que os carros utilitários são os maiores agentes na emissão de poluentes
O dióxido de carbono (CO2) é um dos principais Gases de Efeito Estufa (GEE). Dessa maneira, sua emissão faz com que a temperatura da Terra aumente, por impedir que o calor saia da atmosfera. Vários problemas decorrem da emissão de gases e do aquecimento global. “No contexto global, as principais consequências são as mudanças climáticas, com eventos extremos cada vez mais frequentes e intensos; e a debilitação da saúde pública, devido à exposição a poluentes atmosféricos”, informa Célio Bermann, professor associado do Instituto de Energia e Ambiente da USP.
A transição energética, ou seja, a substituição do uso de energia fóssil (petróleo e seus produtos) para uma energia limpa e renovável, é uma realidade em outras cidades. Shenzhen, na China, possui 18 milhões de cidadãos - 6 milhões a mais que São Paulo - e foi a cidade pioneira na transição energética urbana. Atualmente, 100% de sua frota de ônibus são elétricos. O que impede que São Paulo, a cidade mais rica do Brasil, faça também essa mudança?
Para o atual prefeito da cidade, Ricardo Nunes, falta infraestrutura. O político, entretanto, responsabiliza a empresa Enel, e afirma que a instituição não entregou pontos de carregamento elétrico para a compra de mais ônibus de energia limpa. De qualquer maneira, é uma urgência eletrificar os ônibus de São Paulo. Em parte, é necessário cumprir com o Acordo de Paris, que foi assinado em 2015, e visava impedir o aumento da temperatura da terra; em outra parte, a sistematização elétrica permite que os custos com transporte público diminuam a longo prazo. “Eletrificar a frota de ônibus, além de ser um grande caminho para reduzir a emissão de carbono, também é um caminho para democratizar o direito ao transporte público. Porque o ônibus elétrico, pode chegar a ser 50% mais barato do que o ônibus a diesel”, explica Boulos.
O que são cidades sustentáveis
A definição de cidades sustentáveis se baseia no intuito de cuidar do meio ambiente para garantir um futuro global mais promissor. Por meio de políticas públicas propostas pela administração, tem como pilar principal a responsabilidade ambiental, vitalidade cultural e o ideal de economia sustentável. Seu conceito está associado a uma visão que preza pelo equilíbrio das atividades socioeconômicas e ambientais de uma população.
Ao redor do mundo, famosas metrópoles aderiram ao conceito de cidade sustentável e demonstraram melhoria no funcionamento de seus ecossistemas. Essa iniciativa gerou benefícios tanto nos aspectos ambientais como na área da saúde e da economia. Na Dinamarca, a cidade de Copenhague tem se mobilizado cada vez mais para contribuir com essa iniciativa, com a construção de estradas voltadas especificamente para a prática do ciclismo e a venda de bicicletas elétricas a baixo custo. Zurique, na Suíça, é responsável por reciclar mais de 40% de seus resíduos hoje e mais de 80% de seus hotéis possuem certificado de sustentabilidade. Já Tóquio, no Japão, possui um dos sistemas de transporte público que tem a menor emissão de carbono mundial.
Assim como todas essas cidades, São Paulo necessita que o poder público e os provedores de serviços adotem essa mentalidade sustentável. O professor Célio enfatiza essa necessidade: “O poder público pode e deve dar sua contribuição, com políticas públicas indutoras nessa direção. Entretanto, além do governo e da população, cabe às indústrias, comércio e serviços de transportes (rodoviário, ferroviário, marítimo, aeroviário) darem também sua contribuição, pois são os assim denominados ‘setores produtivos’ os principais responsáveis pelos danos ambientais, que comprometem a existência de todos os seres vivos no nosso planeta.”
O Estado, até então, tem se mantido omisso em relação ao tema e à implementação dessas práticas sustentáveis no país. A ausência de ações de combate à destruição ambiental, acarretam no surgimento, cada vez mais frequente, de desafios a serem enfrentados futuramente.
Transição energética, redução do tempo de deslocamento espacial e melhoria da segurança pública. Esses foram os três itens trazidos e discutidos pelo deputado federal e pré-candidato à prefeitura de São Paulo Guilherme Boulos (PSOL-SP), que podem transformar a capital paulista em uma nova metrópole. O evento, que ocorreu na última quinta-feira (25) na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), foi uma aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Governanças Globais e Formulação de Políticas Internacionais da Universidade.
Guilherme Boulos fala das possibilidades para as metrópoles. Foto: Giovanna Takamatsu."Esse debate de cidades inovadoras precisa ser uma inspiração para nossa cidade e para poder fazer São Paulo voltar a ser o que ela, historicamente, foi"
As pautas levantadas são problemas urbanos enfrentados diariamente pelos paulistanos e, para Boulos, é necessária a participação pública. “Tem soluções que não precisam de bilhões de dólares. São de vontade pública. São de uma decisão de ver a cidade como um espaço para as pessoas e não só um espaço para valorização do dinheiro”, afirmou o deputado. São Paulo é a maior cidade da América Latina e a mais rica do Brasil.
Transição energética
O deputado começou sua fala com o exemplo de Xangai na China e de Santiago no Chile. Ambas as cidades são pioneiras na transição energética urbana. Isso significa que os transportes públicos são, em sua maioria, movidos por energia elétrica, limpa de aditivos químicos e fósseis.
São Paulo inseriu a circulação de ônibus elétricos para algumas linhas, mas os números são baixíssimos. Apenas 84 veículos de pelo menos 12 mil são de energia limpa. Em comparação, Xangai possui 14.700 ônibus elétricos de uma frota de 15 mil automóveis, o que equivale a 98% de carros sustentáveis.
Essa solução não impacta apenas na redução da emissão de carbono da cidade, mas também diminui o custo estatal com transportes públicos. “O ônibus elétrico, em média, pode chegar a ser 40% a 50% mais barato do que o ônibus a diesel. A gente ganha no tema ambiental e ganha também no custo do sistema. Isso está acontecendo hoje no mundo. Citei duas cidades que eu tive a oportunidade de conhecer, mas está acontecendo em várias cidades do mundo, mas aqui não”, aponta o pré-candidato à Prefeitura de São Paulo.
Para além dos benefícios econômicos e ambientais, a sistematização elétrica colabora para a diminuição da poluição sonora na metrópole. Os ônibus à diesel tendem a produzir, em média, 76,7 decibeis (dB) – ruídos acima de 60 dB já causam problemas de saúde -, segundo estudo da Proteste em parceria com a Sociedade Brasileira de Otologia, enquanto um veículo elétrico é silencioso.
Segurança pública e reocupação da cidade
Boulos declara que o maior problema de segurança em São Paulo é decorrente da desigualdade social. “Nenhum país que tem a desigualdade como nós temos é um país com uma sociedade tranquila, pacificada, que as pessoas saem às ruas e se dão as mãos.”, enfatiza o político.
A cidade possui muitas falhas básicas de segurança pública. O maior problema é o abandono de propriedades, especialmente no centro, que, por causa da falta de manutenção, aumenta o risco de colapso estrutural e proliferação de doenças.
O abandono também incita violência. De acordo com a Teoria da Janela Quebrada, desenvolvida por Kelling e Wilson, em 1982, o vandalismo atrai o vandalismo. “O centro de São Paulo hoje está marcado pelo abandono. Saiu o IBGE agora, mês passado, um a cada cinco imóveis do centro está abandonado. O espaço que é marcado pelo abandono se torna um espaço perigoso”, afirma Boulos, que se utilizou dos dados do Censo de 2022, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgado em março.
O trabalho longe de casa e os serviços nas regiões periféricas
O terceiro e último tópico discutido na aula foi o deslocamento dos paulistanos até seus locais de trabalho.
Um estudo feito pela Confederação Nacional da Indústria revela que 36% dos brasileiros passam mais de uma hora por dia em transportes públicos. Isso ocorre especialmente com aqueles que moram nas periferias das cidades e precisam se deslocar para os centros urbanos, onde se concentram os comércios.
“Aqui do lado, na Barra Funda, nós temos 400 empregos para cada 100 moradores. No extremo leste, Jardim Iguatemi, São Mateus, Cidade de Tiradentes, nós temos oito empregos para cada 100 moradores. De 400 vai para oito. Qual é o resultado disso? Quem é do bairro São Mateus sai todo dia de manhã para vir para cá [zona oeste], com duas horas no trânsito, com ônibus lotado, um monte de automóvel individual, com mais poluição, com piora na qualidade de vida”, explica o deputado sobre a desigualdade de oportunidades de empregos por habitante.
O político do PSOL exemplificou como Paris, que também é uma metrópole, lidou com a diminuição do tempo de deslocamento com o projeto “Cidade de 15 Minutos”. O governo realizou a reapropriação do centro parisiense, o que impediu a especulação imobiliária, e possibilitou a realocação dos moradores para esses locais. Além disso, estimulou financeiramente empresas públicas e privadas a se expandirem para regiões periféricas.