Por Natália Matvyenko
O cheiro do café se mistura ao das ervas secando num canto da sala, mulheres e homens de todas as idades correm de um lado pro outro, amarram panos coloridos ou brancos, colocam as guias, colares de conta confeccionadas para suas entidades, uma celebração está prestes a começar, causa frio na barriga até pro mais cético dos seres vivos. Gabrielly, de vinte e seis anos, ajeita os panos brancos dobrados sobre uma mesa simples e diz, com calma, que tudo o que aprendeu na vida veio do chão do terreiro.
Cresceu entre rezas, cantos e gestos que, mais do que rituais, ensinaram a olhar o outro com respeito. Desde cedo entendeu que fé, para quem carrega o axé, é também uma forma de trabalho, de paciência e de cuidado. A primeira lembrança vem da infância. Aos oito anos, ainda pequena, acompanhava a mãe numa gira de umbanda. Ficava no canto, observando os cambones – aqueles que auxiliam as entidades – e sentia um chamado que não sabia nomear. Com o tempo, passou a ajudar também. Aprendeu a servir a água, a acender a vela, a estar presente. Aos dezesseis, rodou pela primeira vez – rodar é quando o santo desce, toma teu corpo e você abre espaço pra que ele ou ela cheguem – recebeu uma entidade cigana que marcaria o início de sua caminhada. Foi ali que compreendeu que mediunidade não era um dom extraordinário, mas uma entrega cotidiana. O nome de sua entidade é um segredo, é o íntimo que muitos de religião de matriz africana carregam.

É curioso ver como esse mundo atrai dos evangélicos mais intolerantes e católicos. Mesmo condenando por aí, o misticismo e o segredo atraem o conselho malandro, o samba da casa, a comida gostosa. Toda gira está lá, com olhos curiosos e procurando algo que não encontram em suas religiões maternas, fervorosas e rígidas.
Entre as batidas dos atabaques e o silêncio das madrugadas de preparo, Gabrielly Orrani construiu o que chama de família de axé. Dirige hoje uma casa simples, com poucos filhos de santo. Não fala em liderança, mas em convivência. Diz que aprender com os mais velhos é o que mantém a tradição viva, em suma conservada oralmente, e que o respeito é o alicerce de qualquer caminho espiritual. Tem sete anos de candomblé, mas não é ialorixá, prefere não se apressar. Diz que a gente nunca para de aprender, mesmo depois dos sete anos, ainda tem muito pra entender sobre o mundo e sobre a gente.
A rotina da casa é marcada por gestos de cuidado. Uma vez por ano, Gabrielly e seus filhos se juntam para preparar doações. Fazem comida, recolhem cobertores, visitam moradores de rua. Não há publicidade nem câmeras, só o desejo de retribuir o que se recebe. Esse gesto, para eles, é extensão do que aprendem no terreiro: olhar o outro como parte de si. A fé que praticam é feita de afeto, não de milagres. Quando alguém adoece, os filhos da casa correm, acendem vela, reza, passam pipoca – ritual para tirar doenças e males, associado ao orixá Obaluaê, o que adoece mas também cura – chamam o preto velho pra conversar. Tudo isso é cuidado, é a medicina dos velhos, de quem foi trazido a força para Pindorama e de quem já estava aqui, explica. Para quem vive a umbanda, o sagrado está justamente nessa capacidade de enxergar o outro com empatia.
Angela, uma figura carismática e de conversa deliciosa, daquelas que você senta pra ouvir, já trabalhou de tudo nessa vida, principalmente o trabalho braçal, até caminhoneira já foi, é mais velha de religião, acompanha Gabrielly há anos, que é sua filha de sangue e de santo. Foi com ela que aprendeu a importância do silêncio e da escuta. As duas compartilham o mesmo entendimento: a religião é feita de gente, sem comuna não se faz nada. Ela diz que aprendeu mais com as entidades do que com qualquer pessoa. Fala que elas ensinaram o que é ser paciente, carinhosa e atenciosa, mas que a maior lição veio do convívio humano, religião é união, é comprometimento. É quando a gente entende que ajudar o outro é também se curar, é o que vale no fim do dia.
Os dias no terreiro são atravessados por cansaço e alegria, contam que cuidar também consome energia, não só física. Muitos dos filhos de Orrani trabalham fora, e ainda assim chegam ao final da tarde para preparar as festas e as obrigações. O corpo cansado encontra repouso na força coletiva. Há quem chegue direto do serviço, ainda de uniforme, para ajudar nos ebós e nos preparos. Às vezes, nem dá tempo de voltar pra casa. Eles brincam dizendo que vivem em “jornada dupla”: trabalho e terreiro, terreiro e trabalho. Entre o suor e a fé, constroem uma rede de apoio que se fortalece a cada encontro, ali compartilham dificuldades, segredos de cozinha – onde os elementos utilizados nas festas e giras são feitos – brincadeiras e muita risada.
Abdicar de certos prazeres é parte do caminho. Muitas vezes, um toque coincide com o aniversário de um parente, uma festa ou um descanso merecido. E mesmo assim, estão lá, de branco, prontos para servir. Não se veem como mártires, mas como quem encontrou sentido em ajudar. É escolha e entrega, ressalta Angela. Estar no axé gente é abrir mão de estar em outros lugares pra estar aqui, fazendo pelo outro. E isso não é castigo pra quem aconselha – as entidades pedem um abraço aos consulentes, que são os visitantes da casa mas não possuem obrigações, oferecem um cigarro, um trago no cachimbo ou um golinho do marafo, que a gente conhece como cachaça – é amor.
Entre a fumaça do incenso, a alfazema que banha o corpo dos convidados e dos filhos, do benjoim, da defumação que embaça o ambiente, barulho das panelas, a casa de axé se transforma num espaço de homenagem e conforto, tire seu sapato, suje seus pés e dance. Crianças brincam do lado de fora enquanto os adultos conversam. Não há luxo, casinhas de madeira com chão de terra batida, mas há pertencimento. Cada canto guarda uma história, cada vela acesa carrega o nome de alguém vivo, ou pra quem acredita, morto. A fé ali se vive sem receio, no toque dos ogans – responsáveis pelos batuques e pontos que balançam os corpos e chamam as pombagiras, malandros, caboclos e boiadeiros – eles diferente dos outros filhos da casa, não incorporam, mas são tão respeitados como os outros.
No fim do dia, quando o som dos atabaques cessa e o terreiro se esvazia, Gabrielly apaga as velas e sorri. Diz que o silêncio também é reza. E que, se há uma palavra capaz de resumir o que é viver dentro da umbanda, essa palavra é amor – o tipo de amor que se aprende com o tempo, nas pequenas tarefas, no convívio, no olhar. Um amor que não pede nada em troca, apenas segue, como o som que ecoa depois da última batida do tambor. A palavra mais dita pelas pessoas de axé, seja no candomblé, umbanda, tambor de mina, jurema sagrada é essa: comuna.

Por Amanda Campos
Nos últimos anos, o cigarro eletrônico deixou de ser uma excentricidade importada para se tornar parte do cotidiano urbano. Em festas, universidades e até nas pausas do trabalho, o vape aparece como símbolo de modernidade: um acessório que mistura estética minimalista, cheiro doce e promessas de “menos dano”. O discurso é sedutor: a tecnologia teria finalmente “melhorado” o hábito de fumar. O vape veste a linguagem da inovação, mas repete a lógica do vício: transformar um produto nocivo em estilo de vida. Só que, por trás do design futurista e das nuvens de vapor perfumado, o que se vende é uma sensação de controle. O usuário acredita poder dosar, escolher o sabor, pausar quando quiser. Mas o que as pesquisas começam a mostrar é o oposto: a nicotina líquida, altamente concentrada e de rápida absorção, torna a dependência mais sutil e mais intensa. Segundo estudos recentes da Fiocruz, o consumo entre adolescentes brasileiros quase triplicou desde 2019, mesmo com a venda proibida no País pela Anvisa.
A propaganda do cigarro eletrônico raramente fala sobre a nicotina. Fala de liberdade. De sabores tropicais, de autonomia, de um “novo estilo de respirar”. Os dispositivos são finos, coloridos, discretos e, no imaginário coletivo, pertencem a um futuro limpo e tecnológico, distante do cheiro amargo e da imagem decadente do cigarro tradicional. Nas redes sociais, o vape virou performance visual: fumaças densas e coloridas se espalham em vídeos de poucos segundos, acompanhadas por trilhas eletrônicas e legendas sobre “bem-estar”. É a estética da leveza, da personalização, da escolha. O marketing atua em silêncio, sem precisar de comerciais na TV. Influenciadores, streamers e até artistas pop exibem o vape como extensão de seu estilo de vida. O produto se infiltra nas narrativas de autenticidade e modernidade, e a fronteira entre prazer e vício vai se tornando cada vez mais nebulosa.
Ao se apresentar como um dispositivo tecnológico, portátil e inovador, o vape herda o prestígio da inovação. É pequeno, recarregável, controlado por sensores, tudo o que a linguagem contemporânea associa ao progresso. A mensagem é sutil, mas poderosa: se tem tecnologia, deve ser seguro.Porém, a própria natureza do vape contradiz essa lógica. Estudos do Instituto Nacional do Câncer (Inca) apontam que os líquidos usados nesses dispositivos contêm nicotina em concentrações até três vezes superiores às de um cigarro comum, além de substâncias como propilenoglicol e metais pesados. Mesmo sem combustão, há impactos respiratórios e cardiovasculares já documentados. Essa ideia de neutralidade social faz parte de sua força simbólica: o vape pode ser usado em lugares fechados, durante o trabalho, no carro, na festa. O gesto de fumar, antes associado à culpa e ao risco, retorna como experiência estética e tecnológica. O problema é que essa aparente leveza mascara uma dependência silenciosa.
Em meio a esse cenário, a história de Marina, analista de marketing de 28 anos, ajuda a ilustrar o alcance dessa contradição. Marina começou a usar cigarro eletrônico aos 21, em uma festa, quando o dispositivo ainda era uma novidade. Ela acreditava estar fazendo uma escolha mais saudável: o sabor era agradável, o cheiro não incomodava, e a portabilidade tornava o hábito quase imperceptível. Em poucos meses, o vape passou a acompanhá-la em todos os momentos, era discreto, prático, aparentemente inofensivo.
Marina ainda se lembra do som metálico do primeiro click que deu início ao hábito. “Era bonito, sabe? Parecia coisa de filme. Luzinha azul, vapor cheirando a pêssego. “Eu me senti moderna.” Ela fala com a voz calma, mas entrecortada por pausas longas, como quem mede o ar antes de continuar. No início, o vape era um adereço, quase um amuleto, algo que combinava com sua rotina corrida, o coworking envidraçado e as festas de sexta à noite. Marina representava o público-alvo perfeito: jovem, conectada, atenta às tendências e acostumada com a lógica das notificações instantâneas. “A gente vive cercado de telas, dados, algoritmos. O vape parecia só mais uma extensão disso, uma forma de aliviar o estresse com estilo.”
A transição foi sutil. O dispositivo estava sempre por perto, entre o notebook e o copo de café gelado, no carro, na bolsa, no bolso do casaco. Em reuniões, ela desligava as câmeras e tragava, soltando uma névoa quase invisível. Podia parar quando quisesse. Mas não parava. Os primeiros sintomas vieram como pequenos alarmes ignorados. Uma tosse seca que ela atribuía ao ar-condicionado. Um cansaço que parecia só mais uma consequência da rotina. Até o dia em que o ar faltou de repente, no meio do trabalho. “Foi como tentar respirar por um canudo entupido”, lembra. Na emergência, a cena parecia sair de um contraste cruel: a mulher acostumada a algoritmos de eficiência agora presa a um inalador, tentando aprender de novo o gesto de respirar. O diagnóstico de pneumonite química desmontou o discurso da leveza. “Meu pulmão tinha partículas metálicas.”
O diagnóstico veio acompanhado de um alerta: sinais de bronquite crônica em formação e vestígios de partículas metálicas no tecido pulmonar. Marina ficou internada por dois dias e precisou de tratamento com corticosteróides e antibióticos. A recuperação foi lenta. Durante os meses seguintes, enfrentou tremores, irritabilidade e insônia – sintomas da abstinência de nicotina. Desde então, faz acompanhamento regular com um pneumologista e sessões de fisioterapia respiratória. Hoje, Marina está há mais de um ano e meio sem usar o dispositivo, porém ela relata que ainda sente falta de ar ao subir escadas.
Marina se tornou, sem querer, o retrato de uma geração que trocou a fumaça amarelada do cigarro tradicional por uma névoa digitalizada e doce. O mesmo gesto, só que com branding atualizado. Ela representa a dissonância de uma era em que tecnologia e dependência andam lado a lado, e o vício ganha embalagem de futuro.
O amanhecer em Ibiúna, no interior de São Paulo, começa silencioso. A neblina que costumava cobrir os morros já não permanece por muito tempo, e o ar parece mais seco do que o habitual. Maria da Paixão, agricultora de 66 anos, observa o céu enquanto ajeita o chapéu gasto pelo sol. O tempo, diz ela, anda diferente. As chuvas deixaram de seguir o calendário que a memória do campo conhecia. As estações, que antes marcavam o ritmo da colheita, agora se misturam num descompasso difícil de entender. Maria aprendeu a plantar com o pai, que lia o vento e o comportamento dos pássaros antes de prever a chuva. Hoje, essas referências já não bastam. Ela tenta manter a plantação de alface e couve que sustenta a família, mas o solo endurece com o calor e o excesso de sol. Em alguns meses, a seca atrasa o crescimento; em outros, a enxurrada arranca tudo de uma vez. O tempo, que antes era aliado, se tornou um mistério para boa parte dos cientistas do planeta.
Às vezes, enquanto cuida dos canteiros, Maria comenta que o campo perdeu parte das certezas que costumavam guiar a vida de quem planta. Diz que o cheiro da terra mudou, que a poeira sobe mais cedo e que até os animais parecem confusos, aparecendo fora de época ou sumindo do nada. Ela lembra que, quando era jovem, bastava observar onde as formigas faziam os carreadores ou como as nuvens se acumulavam no horizonte para saber quando viria a chuva forte. Hoje, até esses sinais se tornaram menos confiáveis, como se a natureza estivesse desaprendendo a falar a própria língua. À noite, antes de dormir, ela ainda tenta decifrar essas mudanças, observando a lua, o vento, os sons da mata — mas tudo parece falar em códigos que já não conhece tão bem.
Enquanto ela trabalha na roça, o mundo discute novas formas de interferir no clima. À medida que se aproxima a COP30, conferência que reunirá líderes e governos em Belém, cresce o debate sobre geo-engenharia, um conjunto de tecnologias que pretende manipular o sistema climático do planeta, seja refletindo parte da luz do sol, seja retirando gases de efeito estufa da atmosfera.
Mas esse debate ficou mais intenso nos últimos anos, especialmente após ondas de calor recordes e eventos extremos. Entre as propostas mais discutidas está a injeção de aerossóis na estratosfera, uma técnica que imitaria o efeito de grandes erupções vulcânicas ao espalhar partículas capazes de refletir a luz solar. Outra aposta é o clareamento de nuvens marinhas, que busca aumentar a luminosidade refletida pelos oceanos. Há ainda projetos de fertilização dos mares, captura direta de carbono e até manipulação da composição das nuvens de chuva para tentar estimular precipitações em áreas secas.
Apesar da ambição dessas ideias, Maria dificilmente se vê em qualquer uma dessas conversas. Para ela, mexer no céu parece como tentar arrumar um bordado puxando os fios errados. Cientistas também alertam que essas soluções carregam riscos imensos: resfriar demais algumas regiões, alterar padrões de chuvas em continentes inteiros ou criar dependências tecnológicas difíceis de controlar. Uma decisão tomada em laboratório poderia, por exemplo, secar ainda mais certas áreas da África, provocar chuvas intensas no Sudeste Asiático ou afetar diretamente regiões agrícolas brasileiras.
A promessa é conter o aquecimento global, mas, entre cientistas e ambientalistas, o consenso ainda está longe. Há quem enxergue nessas ideias uma tentativa de corrigir o desequilíbrio causado pela ação humana. Outros alertam que, ao tentar controlar o céu, a humanidade corre o risco de aprofundar desigualdades antigas.
Países ricos, capazes de financiar esses experimentos, teriam um poder inédito: decidir quanto sol cada região receberia, ou quais áreas poderiam ficar mais secas ou mais úmidas. Alguns especialistas chamam isso de “governança climática assimétrica”, um termo que, no fim das contas, significa que quem tem mais dinheiro também teria mais controle sobre o clima do planeta. E é justamente isso que preocupa Maria quando ouve falar dessas soluções distantes. Para ela, se já é difícil ser ouvida em debates sobre água e agricultura na própria cidade, imaginar que alguém possa mexer no céu sem consultar quem vive dele parece quase inimaginável.
Na prática, as consequências desse tipo de intervenção ainda são incertas, porque uma mudança no regime de ventos, uma alteração nas chuvas ou no comportamento das nuvens pode transformar realidades inteiras. E são justamente os que vivem da terra, agricultores, pescadores, povos tradicionais, os primeiros a sentir o impacto de decisões tomadas longe de suas casas.
Muitas organizações indígenas e rurais têm participado dos debates internacionais justamente para alertar que o clima não é apenas um sistema físico, mas também cultural, espiritual e histórico. Para esses grupos, alterar o comportamento do céu é tocar em algo que estrutura modos de vida inteiros, e não apenas mexer em variáveis matemáticas. Maria, mesmo sem usar essas palavras, expressa a mesma preocupação quando diz que o tempo não é para ser domado, mas para ser respeitado.
A cada dia que passa Maria sente e percebe um distanciamento ao ouvir falar de soluções globais, mas segue enfrentando o sol que racha o chão e a falta d’água que ameaça a lavoura. Para ela, o clima não é uma ideia abstrata: é o que decide se haverá alimento na mesa, se a safra dará certo, se o trabalho valerá a pena. Ela acredita que quem vive do campo entende o tempo de outro modo, não como algo a ser controlado, mas como um parceiro com quem é preciso aprender a conviver.
Nos últimos anos, Maria também aprendeu a adaptar o plantio, trocando algumas sementes, reduzindo áreas e apostando em sistemas simples de captação de água da chuva, quando ela vem. Diz que nunca imaginou que precisaria reinventar métodos que aprendeu desde a infância, mas que não há outra escolha. Afinal, quem depende da terra sabe que teimosia não faz brotar nada — é preciso observar, experimentar e aceitar que a natureza tem seus próprios planos. Ela também conta que, algumas vezes, pensa no futuro das próximas gerações e teme que os jovens do campo encontrem ainda mais incertezas do que ela encontrou ao longo da vida.
Enquanto os governantes se reúnem para discutir o futuro climático em auditórios climatizados, a vida de quem depende da terra segue em movimento. No interior, Maria se prepara para mais um dia de plantio. Ajusta o sistema de irrigação improvisado e observa o céu, tentando reconhecer nela algum sinal familiar. Ainda que o tempo pareça confuso, ela insiste em acreditar que a natureza, de algum modo, sempre responde.
E, enquanto espera por essa resposta, segue em frente — confiando no pouco de previsibilidade que resta, nas lições que herdou e na esperança de que, mesmo diante de tantas mudanças, a terra ainda tenha força para ensinar o caminho. Às vezes, ao final da tarde, ela se senta na sombra do barracão, observa os campos ao redor e imagina como seria se o clima voltasse a ter o ritmo de antes. Pensa nos anos em que a chuva vinha na hora certa, nos tempos em que bastava olhar para o céu para saber o que fazer no dia seguinte. Mesmo sabendo que esse cenário talvez não volte, guarda dentro de si uma resistência silenciosa: a certeza de que o campo sempre encontrou maneiras de sobreviver — e que ela, assim como seus antepassados, também vai encontrar.
Por Julia Sena
No bairro da Vila dos Remédios, na zona oeste de São Paulo, seu Francisco, de 68 anos, já se acostumou com o barulho de galhos batendo contra os fios de energia nos dias de vento forte. Diz que na rua, quando chove, já sabe que vai faltar luz. Ele já fez inúmeros pedidos de poda à prefeitura, mas as respostas, quando vêm, demoram meses. A cena se repete em muitos bairros da cidade, árvores plantadas há décadas, sem planejamento e monitoramento. Além de crescidas demais, raízes que invadem calçadas, rompem fios e danificam tubulações. A falta de gestão eficiente da arborização urbana torna-se ao mesmo tempo um problema de segurança e um desafio ambiental. Foi diante desse cenário que um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo desenvolveu o projeto Poda, uma iniciativa que usa inteligência artificial e softwares de modelagem ecológica para apoiar o poder público na tomada de decisões sobre o manejo de árvores nas cidades.
A iniciativa nasceu dentro do Instituto de Biociências da USP, sob coordenação do professor Marcos Buckeridge, especialista em fisiologia vegetal e diretor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (INCT Bioetanol). A ideia surgiu de uma pergunta simples sobre se seria possível usar dados científicos para prever quais árvores precisam de poda antes que se tornem um risco. Para ele, o manejo das árvores urbanas ainda é muito reativo, a poda acontece depois que o problema aparece. O que se pretende é criar um sistema preventivo, capaz de indicar quando e onde agir, usando informações sobre o crescimento das espécies, o clima e as condições do solo.
O sistema desenvolvido pela equipe combina imagens de satélite, modelos de crescimento vegetal e dados climáticos locais. A partir disso, os pesquisadores conseguem estimar o ritmo de desenvolvimento das árvores e identificar áreas de risco, como regiões onde há alta densidade de copas próximas à rede elétrica.
Um dos diferenciais do projeto é a criação de modelos preditivos que consideram o impacto das mudanças climáticas no comportamento das árvores. Com o aumento das temperaturas e das chuvas intensas, algumas espécies têm crescido mais rápido e de forma desordenada, o que aumenta a chance de quedas e rompimentos. O software já permite prever o comportamento das árvores ao longo do tempo. Isso ajuda o poder público a planejar melhor as podas e reduzir custos com emergências.
A proposta da Poda é tornar a arborização urbana mais sustentável e integrada à rotina das prefeituras. O sistema já foi testado em áreas piloto de São Paulo e pode, futuramente, ser adaptado a outras cidades brasileiras. E o objetivo não é apenas tecnológico, mas também social,. pois o que está em jogo quando se pensa em árvores é preciso considerar sombras, em conforto térmico, em qualidade do ar. Mas se não houver manejo, esses benefícios se perdem.
De volta à Vila dos Remédios, seu Francisco ouve falar do projeto com esperança. Ele considera que se tiver um jeito de a Prefeitura saber antes que a árvore vai cair, já ajuda muito, porque esperar cair em cima do carro ninguém quer.
A equipe da USP também trabalha em uma interface pública, que permitirá aos cidadãos acompanhar o mapeamento das árvores de suas regiões e reportar problemas diretamente pelo sistema. Assim, o ciclo se completa: da denúncia à prevenção, com base em dados e participação popular. “Cuidar das árvores é cuidar das pessoas”, resume Buckeridge. E agora, com a ajuda da ciência é possível fazer isso de maneira mais inteligente.
Por Júlia Polito
Em Pinheiros, na cidade de São Paulo, João Vittor vive em um apartamento que é automatizado. Sensores ajustam a iluminação conforme a hora do dia, cortinas se abrem com comandos, assistentes de voz controlam aparelhos e robôs percorrem o chão cuidando da limpeza. Cada detalhe parece antecipar suas necessidades, do café da manhã à preparação da sala para o trabalho remoto. Mas, apesar de toda essa tecnologia, o jovem nunca imaginou abrir mão de uma vida sem Lurdes, a senhora que cuida da casa, o viu nascer e acompanha a família há mais de vinte anos. Para ele, a presença dela representa mais do que cuidado, é um vínculo afetivo que nenhuma máquina consegue reproduzir. Ele lembra de chegar da escola e encontrar a senhora organizando as suas coisas, garantindo que cada detalhe estivesse pronto, cada espaço cuidado, cada tarefa cumprida com uma atenção silenciosa.

O laço entre os dois foi se fortalecendo com o passar dos anos, ultrapassando a relação de trabalho. Quando João concluiu o ensino médio, ela fez questão de estar presente em sua formatura. A senhora o viu crescer, acompanhou cada fase de sua vida e, naquele dia, emocionou-se ao vê-lo subir ao palco para receber o diploma. Para João, a presença dela ali simbolizava não apenas o carinho, mas a cumplicidade construída ao longo de décadas, uma espécie de segunda família que se formou em gestos, histórias e afeto compartilhados. Hoje, mesmo com a casa automatizada, esse cuidado permanece, e João sente que a presença de Lurdes transforma a casa em um lar, mantendo vivos os hábitos, lembranças e histórias que carregam décadas de convivência. Desde que se formou em Tecnologia da Informação, o jovem decidiu aplicar seu conhecimento em automação residencial. Ele descreve a satisfação de chegar em casa e perceber que a iluminação, a temperatura, as cortinas e até os aparelhos de som já se ajustaram automaticamente. O robô aspirador percorreu todos os cômodos enquanto ele estava fora, e o assistente virtual enviou lembretes de tarefas e compromissos no celular. Para ele, a tecnologia é prática, eficiente e intuitiva, mas reconhece que tudo isso ainda carece de percepção humana. A automação executa tarefas mecânicas, mas não observa detalhes que mudam a experiência da casa, como um objeto fora do lugar, uma planta que precisa de cuidado ou pequenas alterações na rotina. Lurdes, enxerga o que o sistema não percebe, e age com sensibilidade, antecipando necessidades e solucionando problemas antes que se tornem evidentes.
A rotina diária da casa combina tecnologia e cuidado humano de forma complementar. Pela manhã, ela prepara o café, organiza a cozinha e arruma a mesa, enquanto a casa ajusta a temperatura e a iluminação de acordo com o horário. Durante o dia, João trabalha em seu computador, enquanto as automações da casa funcionam. Ainda assim, são os gestos que definem o ritmo do lar. Ela percebe quando um detalhe da casa precisa de atenção, quando alguma encomenda chegou e deve ser conferida, ou quando algo fora da rotina precisa ser ajustado. Sem ela, a casa seria eficiente, mas fria e impessoal, sem a dimensão humana que transforma uma residência em lar.
O avanço da automação doméstica reflete uma tendência mais ampla que tem impactos profundos no mercado de trabalho brasileiro. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, o emprego doméstico formal no país caiu 18,1% entre 2015 e 2024, o que representa uma perda de cerca de 300 mil vínculos empregatícios, passando de 1.640.609 para 1.343.787 registros. Esse cenário se desenha num contexto mais amplo de insegurança para muitas trabalhadoras domésticas, especialmente as mais vulneráveis: a maioria são mulheres (89% dos vínculos formais em 2024), muitas delas já em faixa etária mais alta, 45% têm 50 anos ou mais. A automação tende a reforçar uma das dinâmicas que já pressionam esse segmento: menos trabalhos formais, maior risco de descarte e menor valorização social, abrindo um dilema sobre como combinar progresso tecnológico com justiça social no lar da população.
A tecnologia pode automatizar tarefas, mas não tem memória emocional nem vínculo com a história da família. Lurdes, por outro lado, mantém viva a memória do lar, garantindo que cada canto continue carregando afeto, cuidado e atenção. João também percebe que a automação trouxe mudanças na rotina dela, liberando-a para tarefas mais complexas e estratégicas. Com os sistemas inteligentes cuidando das coisas mecânicas, ela pode focar em organizar detalhes da casa, preparar refeições com mais atenção e cuidar de aspectos que exigem percepção e sensibilidade. A experiência do jovem demonstra que casas inteligentes não precisam eliminar o humano, mas podem coexistir com ele. A tecnologia libera tempo, simplifica tarefas e proporciona conforto, mas ainda depende da inteligência emocional e da experiência de pessoas como Lurdes para que o lar funcione de forma completa. Ele relata que cada gesto da senhora representa atenção e cuidado que a tecnologia não consegue alcançar, desde pequenos ajustes na organização até perceber sinais não verbais da família. Essa convivência entre humano e máquina reflete a ideia de que o futuro da automação deve valorizar o papel de quem traz sensibilidade, memória e afeto para o espaço doméstico.


