Por Lucas Gomes (texto) e Matheus Marcolino (audiovisual)
Jhonatan Barbosa cresceu e passou grande parte de sua vida adulta em Cidade Tiradentes, extremo da Zona Leste de São Paulo. O dia a dia na periferia não era fácil. Ele começou a trabalhar aos 14, em buffets nas festas dos ricos do centro da capital. Já que a rotina de horas e horas dentro do transporte público era extremamente desgastante, sonhava em viver em um grande centro. E esse sonho é antigo: quando criança, nos anos 1990, sua mãe costumava levá-lo a um consultório médico na avenida Paulista. No caminho, passavam por hospitais e grandes monumentos da cidade, além da Marginal Pinheiros, que margeia o rio. Ele via os prédios na região da Vila Olímpia com espanto. Parecia uma outra realidade.
Em 2019, Jhonatan conheceu sua atual esposa. Na época, ela morava numa kitnet em Santo Amaro, Zona Sul da capital. Com o início da pandemia, em 2020, ele decidiu se mudar para lá. O sul oferecia a Jhonatan o que o leste não tinha: além de conseguir morar perto do trabalho, agora ele e a companheira tinham opções de lazer, como as margens do Rio Pinheiros, que vive um processo de despoluição há quatro anos. Inaugurou-se um programa de casal: andar de bicicleta, caminhar, ou até mesmo fazer yoga no recém-inaugurado Parque Bruno Covas. Criou-se uma relação com um rio que estava morto.
O Rio Pinheiros sempre fez parte da história de São Paulo. Ele foi navegável até o início do século passado, quando o interesse do setor energético impulsionou uma mudança: o curso do Pinheiros mudou, e o rio passou a correr em direção à represa Billings, construída para servir como um reservatório para geração de energia hidrelétrica. Nos quase 100 anos que se passaram desde então, o Pinheiros foi um dos rios mais violentados pela população e pelo poder público, e se tornou sinônimo de sujeira, mau cheiro e descaso.
Em 2019, João Dória, então governador do Estado de São Paulo, fez uma promessa bastante ambiciosa: despoluir o Rio Pinheiros até o fim de 2022. O programa “Novo Rio Pinheiros” previa o investimento de mais de R$ 1,5 bilhão, que focaria no tratamento de esgoto para impedir que lixo e dejetos continuassem chegando ao rio.
O mapeamento “Observando os Rios”, da ONG SOS Mata Atlântica, acompanha a situação do Rio Pinheiros e dá uma nota para a qualidade da água em três pontos de medição: Ponte João Dias, Ponte do Jaguaré e Ponte da Cidade Jardim. Desde o início do monitoramento mensal, em agosto de 2021, somente em duas vezes os pontos de medição não receberam a nota mínima (péssimo): em outubro de 2021, João Dias recebeu nota “ruim”, sendo o mesmo caso da Ponte Cidade Jardim, em janeiro deste ano.
César Pegoraro, biólogo e integrante da Equipe de Água da SOS Mata Atlântica, conta que, passados quatro anos desde o início do programa Novo Rio Pinheiros, os avanços são inegáveis, mas a situação segue calamitosa. Foram registradas 650 mil ligações de domicílios à rede de esgoto, diminuiu-se a carga orgânica do rio, mas o estado da água do Pinheiros ainda é horrível. “A gente ressuscitou um rio e conseguiu devolver esse rio à UTI. Ele não é um rio saudável”, explica. Na visão de César, João Dória cometeu um erro ao estipular uma data de entrega, já que a natureza tem um tempo próprio - e, às vezes, resultados concretos podem demorar a chegar.
A principal métrica usada no mundo para medir a limpeza de um rio é a de DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio). Ela determina quanto oxigênio é consumido em cada litro de água por causa da poluição. Em 2022, a gestão Dória afirmou que a meta estava sendo cumprida. “Dos 13 pontos de monitoramento do rio, 11 já apresentaram o chamado DBO abaixo de 30 mg/L, quantidade mínima para que a água não tenha odor, melhore a turbidez e permita vida aquática”, relata, em nota, a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (SEMIL) do Governo do Estado de SP.
José Carlos Mierzwa, chefe do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Escola Politécnica (POLI) da USP, conta que um DBO de 30 mg/L não é o ideal para um rio vivo. Segundo ele, para que haja vida aquática é necessário um DBO na faixa dos 5 mg/L. O projeto de despoluição é coordenado pela SEMIL-SP e conta com participações da Sabesp e da Cetesb.
Os órgãos e empresas citadas foram procurados, mas não responderam até o fechamento da reportagem.
O CHEIRO
Jhonatan conta que sentiu uma melhora no odor vindo do rio Pinheiros durante os últimos anos. O cheiro não incomoda seu trajeto para o trabalho ou quando ele sai com sua companheira para caminhar no Parque Bruno Covas, por exemplo. Na estação Cidade Universitária, da Linha 9-Esmeralda, porém, a história é outra: um odor forte de esgoto é notado pelos usuários do transporte público. A estudante Ana Carolina diz que o cheiro se intensifica em dias de chuva ou de calor, que estão se tornando cada vez mais comuns na capital.
Pegoraro explica que as diferenças entre os diferentes pontos do rio se dão pelos muitos afluentes do Pinheiros e do processo de saneamento nas regiões atendidas por eles. Enquanto nos arredores do Parque Bruno Covas o rio é mais verde e o tratamento de esgoto é localizado e avançado, regiões como a da estação Cidade Universitária ou do Parque Villa-Lobos sofrem para tratar grandes quantidades de esgoto. Os rios Pirajussara e Jaguaré, principais afluentes dessas localidades, ainda têm uma carga orgânica maior - o que acaba deixando o cheiro mais forte.
A IMPORTÂNCIA DO RIO
Um rio vivo impacta a comunidade de seu entorno de muitas formas, mas duas são as mais destacáveis. O primeiro - e mais imediato - aspecto é o da oferta de lazer. O Rio Pinheiros, por exemplo, teve suas margens revitalizadas, e pessoas como Jhonatan e outros moradores da Zona Sul ganharam uma nova opção de convívio com a família, amigos e natureza, mesmo que nem todo ambiente esteja próprio para isso. A despoluição de rios é uma boa oportunidade para o setor de turismo, e o caso do Rio Sena, na Europa, chama atenção: antes tido como “morto”, o canal francês agora é favorito a receber competições de natação nas Olimpíadas de Paris, em 2024.
O segundo aspecto impactado por um rio vivo é a saúde física e mental da população. A baixa qualidade da água dos rios vem, principalmente, do mau tratamento de esgoto - que afeta especialmente os mais pobres. Um relatório da OMS, divulgado em 2013, apontou que cada dólar investido em saneamento gera 4,3 dólares de economia na saúde global. “Saneamento é qualidade de vida e saúde pública”, afirma José Carlos Mierzwa, que acredita que o investimento do poder público nesse sentido é extremamente necessário.
A saúde mental também não fica para trás. Publicado em 2010, um estudo da Universidade de Chiba (JAP) aponta que a convivência com áreas verdes reduz o estresse e a pressão arterial. “Teríamos muito mais saúde se tivéssemos rios mais limpos. (...) Ajudariam muito a melhorar a saúde mental das pessoas e a diminuir a violência urbana”, aponta Pegoraro.
Apesar dos avanços tímidos nos quatro anos do Novo Rio Pinheiros, o poder público e a sociedade civil devem continuar engajados no processo de recuperação do rio. Assim, quem sabe, o próximo passo pode ser tirar o Pinheiros da UTI.
Por Amanda Tescari (texto) e Fernanda Querne (audiovisual)
A modernização contínua das sociedades atuais a partir dos avanços tecnológicos alavancou diversos questionamentos acerca dos rumos da coletividade. No âmbito político, o neoliberalismo se alia ao fator tecnológico, formando uma nova forma de enxergar a realidade que nos cerca: a tecnocracia. Essa sistemática se dá com base na credibilidade da atuação do Estado alicerçada no conhecimento técnico enquanto verdade científica, de modo que esta se mistura com a ideologia política.
Por mais que esteja vestido sob os trajes de neutralidade, este estudo teórico continua submetido à estrutura mercadológica, sujeito aos interesses de quem a controla - as big techs - razão pela qual é de grande importância a regulamentação do meio digital, viabilizando uma maior segurança dos dados e informações fornecidos online.
É possível entender a virada tecnológica feita pelas grandes corporações a partir do livro “A cidade Inteligente: Tecnologias urbanas e democracia”. Os autores são Evgeny Morozov e Francesa Bria. Morozov publicou Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política. Já a edição de 2018 da Forbes citou Bria como uma das cinquenta mulheres mais influentes da Tecnologia pelos seus projetos focados em democracia digital.
O livro explica como o neoliberalismo faz parte do conceito das cidades inteligentes, as quais continuarão buscando soluções digitais corporativas - em especial das plataformas digitais, dando magnitude aos nossos dados a partir dos sistemas algoritmos - lugares de controle e modulação de comportamentos. Surge então o questionamento sobre a ideia de neutralidade tecnológica e modernização constante. Isso porque as smarts cities se beneficiam deste tipo de governo, no qual a sua administração passa por uma descentralização. Assim, mesmo tendo que seguir alguns dispositivos regulatórios de governança, há uma ausência de regulamentação das plataformas.
Legenda: Carro elétrico em Yokohama, Japão Foto: Smart Cities World
No universo das redes sociais, essa regulação também assume um papel primordial. Isso porque, em razão da rapidez exacerbada inerente aos tempos atuais, os indivíduos acabam por experienciar cada vez mais a sensação de pressa e inquietação. Decorrente disso, as redes sociais acabam por ocupar um papel de “poupar” o nosso tempo, e dentro deste contexto, tornam-se o meio mais prático de observar e compreender o que está acontecendo no mundo.
Sobre o tema, o professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) Marcus Bastos opina, dizendo sobre a importância do regulamento das redes sociais, já que estas se transformam em um vetor dominante da construção do imaginário das pessoas e podem ser extremamente problemáticas em função da polarização, discursos de ódio e das fake news.
Não apenas ele, o advogado especializado em direito digital Bruno Bícego também destaca a importância da regulação dos ambientes online. Atuando de maneira próximo ao universo aqui elucidado, ele evidencia a questão sob seu aspecto político, enfatizando que a regulamentação em nada se confunde com o impedimento da liberdade de expressão, direito assegurado aos cidadãos brasileiros.
Ao contrário disso, Bruno ainda expõe, em uma conversa realizada também digitalmente, sobre como a regulamentação precisa visar responsabilizar estas big techs, que atuam promovendo e investindo em campanhas em massa de propagação de fake news, de discurso de ódio ou até manipulação da opinião pública e de processos eleitorais e, consequentemente, colocando em risco a nossa democracia.
A questão política resta, então, cada vez mais sensível dentro deste cenário. Os nossos dados são valiosos para o algoritmo e, dentro de um ciclo quase que interminável, os conceitos de informação e propaganda política se misturam na formação da opinião pública. Através da coleta e análise de dados de maneira extremamente personalizada, é possível delimitar perfis cada vez mais assíduos dos usuários, o que faz com que as grandes corporações estejam até mais íntimas de cada indivíduo do que eles mesmos.
Para o professor, isso implica numa grande capacidade de manipulação em termos de marketing ou propaganda política. Durante a conversa, ele versa também sobre o fenômeno da pós -verdade e das fake news, destacando que, inicialmente, a pós verdade surge no sentido de derrubar narrativas que expliquem o mundo de forma absoluta.
Contudo, a disputa de narrativas leva a uma dificuldade de encontrar consensos objetivos sobre muitas coisas - inclusive, às vezes, sobre fatos nomeadamente incontroversos. Com o algoritmo cada vez mais direcionado aos próprios interesses de cada um, torna-se mais palatável acreditar em tudo aquilo que aparece em nossos feeds, e, desta maneira, a checagem dos fatos torna-se cada vez mais acessória no processo de consumo e compartilhamento de informações.
Conforme as pessoas ficam cada vez mais restritas a seus círculos e bolhas, essa dinâmica se acentua, pois elas perdem o acesso ao contraditório, fazendo com que se tornem cada vez mais convictas de suas visões de mundo. A discussão acerca da importância da regulação das redes sociais é de suma importância nessa geração tão tecnológica. No Brasil, entre as discussões no Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, o debate sobre o tema aguarda os próximos capítulos para que tenha seus detalhes mais bem delineados.
Após o sucesso estrondoso da rede social chinesa Tiktok, durante a pandemia de Covid-19, a plataforma ultrapassou seu posto de postagens de danças, entretenimento e brincadeiras para uma rede em que as fake news e a disseminação de conteúdos ofensivos e mentirosos dominaram os perfis dos usuários. Desde desinformações sobre política, cultura, ciência e até sobre a manipulação de vozes e imagens através da inteligência artificial. Um caso recente foi a recriação da voz do ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama se defendendo de uma nova e explosiva teoria da conspiração sobre a morte repentina de seu ex-chefe de cozinha, em uma falsificação convincente para criar narrativas falsas na internet. “Embora eu não consiga compreender a base das alegações feitas contra mim, peço a todos que se lembrem da importância da união, da compreensão e de não se precipitar em julgamentos”, diz a voz.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop), em 2023, apontou para uma preocupação entre os jovens: a desconfiança na ciência. E um dos grandes motivos seria a forte propagação de fake news nas redes sociais, principalmente no TikTok. Por meio de vídeos rápidos, com muita imagem, áudios e legendas claras, usuários que não se identificam e criam perfis sem nomes reais, disseminam uma série de conteúdos falsos, utilizando de imagens adulteradas e inverdades para convencer o público, principalmente os jovens que ainda estão em formação estudantil. A “Geração Tik Tok”, como ficou conhecida, se torna refém, uma vez que elas nascem sabendo mexer nos celulares, computadores e são experts nas redes sociais. Isso faz com que esses jovens se informem somente das plataformas digitais, não leem um livro, jornal ou revista, todo o conhecimento deles vem das informações expostas nessas plataformas em que as fake news e teorias da conspiração dominam os conteúdos.
Um exemplo é o atual conflito de Israel X Hamas, que dominou a internet e o Tiktok vem sendo acusado de espalhar desinformação e conteúdos ilegais em sua plataforma. Vídeos de outras guerras antigas, áudios de outros conflitos e informações falsas sobre a cultura desses povos são espalhados rapidamente tendo um alto alcance em todo o mundo. Recentemente um comentarista político francês Jackson Kinkle fez uma postagem via Twitter alegando que estaria acontecendo protestos na França Pró-Palestina compartilhando um vídeo que alegava ser o protesto. Após internautas checarem a veracidade, foi constatado que o vídeo se tratava da torcida do time brasileiro de futebol Palmeiras em uma comemoração durante um partida contra o Boca Juniors.
Após casos de fake news, preconceito cultural e muita desinformação, o comissário europeu Thierry Breton enviou uma carta direcionada ao CEO da plataforma, Shou Zi Chew, em que o Tiktok teria 24 horas para remover conteúdos irregulares divulgados na plataforma ou deverá arcar financeiramente com multas. Segundo Breton, a rede social deve ser “oportuna, diligente e objetiva” na remoção de informações erradas. “Em primeiro lugar, dado que a sua plataforma é amplamente utilizada por crianças e adolescentes, você tem uma obrigação especial de protegê-los de conteúdo violento que retrata a tomada de reféns e outros vídeos explícitos que supostamente circulam amplamente na sua plataforma, sem as devidas salvaguardas”, escreveu Breton.
Por se tratar de uma plataforma 100% gratuita e que proporciona um alto alcance e monetização aos usuários que tiverem seus vídeos viralizados, o sensacionalismo acaba dominando os conteúdos. Através de imagens explícitas, efeitos de voz, sonoplastia e pouca fiscalização, o deep fake publicado alcance pessoas ao redor do mundo de diferentes idades, fazendo com que segundos se torne fatal para a desinformação generalizada.
Segundo um estudo da NewsGuard, empresa de segurança dos Estados Unidos, 20% das buscas no Tiktok trazem desinformação. O estudo do “pesquisar” do aplicativo foi constatado que dos 540 vídeos analisados, 105 foram classificados como conteúdos contendo informações falsas. Executivos do Google reconheceram o Tiktok como mecanismo de busca padrão da Geração Z, esse fato explica a falta de informação verdadeira propagada pelos jovens.
Contratado no dia 21 de abril de 2023, o treinador brasileiro Alexi Stival, o Cuca, chegava ao Corinthians após a demissão do técnico Fernando Lázaro. Com um passado "obscuro", Stival foi contratado sob protestos não só da torcida do Corinthians, mas até mesmo de torcedores rivais. Acusado de estuprar uma garota de 13 anos em 1987, quando era jogador do Grêmio Football Club Porto Alegrense, em uma excursão do clube gaúcho à Alemanha, Cuca nunca pagou pelo crime. Depois de mais de 25 anos, Cuca voltou a ganhar notoriedade no futebol brasileiro. Agora como treinador, o brasileiro liderou o Clube Atlético Mineiro a sua primeira conquista da Copa Libertadores da América, em 2013. Na época, poucas pessoas tinham conhecimento do episódio de 1987, permitindo com que o Alexi tivesse sua passagem por Belo Horizonte quase que despercebida por seus atos.

Três anos após liderar o Galo ao título da América, Cuca é contratado pela Sociedade Esportiva Palmeiras com o objetivo de liderar a equipe a conquistar o campeonato brasileiro, conquista que não vinha à sala de troféus do clube paulista desde 1994. Mais uma vez com pouca ciência da população e protestos quase que isolados nas redes sociais, Stival saiu do clube mais uma vez impune por seus atos passados. Depois de algum tempo fora dos holofotes, Cuca leva o Santos Futebol Clube à final da edição de 2020 da Copa Libertadores da América, cuja a equipe da baixada foi derrotada pelo Palmeiras por 1 a 0. No ano seguinte, ele volta ao Atlético Mineiro e lidera o clube a conquista do Campeonato Brasileiro, depois de 50 anos de seca, e da Copa do Brasil, sete anos após o último título do clube. Alegando problemas de saúde, o treinador deixou o cargo no final da temporada. Apesar do sucesso, a evolução das redes sociais e do conhecimento do caso de 1987 pelos apaixonados pelo futebol aumentou, e pela primeira vez, Cuca viu a pauta voltar a ser parte de sua vida.
Foi quando, em abril de 2023, o Corinthians, após demitir Fernando Lázaro, contratou Cuca. Conhecido por ser um clube abertamente ligado a causas sociais e democráticas, o Timão deu "um tiro no próprio pé" ao assinar com o treinador. Não demorou muito para que as manifestações contra o vínculo recém assinado acontecessem. Menos de 30 minutos após o anúncio, era possível ver centenas de pessoas na porta do Centro de Treinamento Joaquim Grava protestando contra o novo treinador e o presidente Duílio Monteiro Alves.

Cuca estreou no comando técnico do Corinthians diante do Goiás. A partida em Goiânia colocou em cheque todo o legado da famosa e histórica Democracia Corinthiana, movimento que lutou contra a Ditadura Militar, entre os anos de 1982 e 1984, liderada pelo Doutor Sócrates e companheiros de equipe. Na ocasião, o clube paulista foi derrotado pelo esmeraldino por 3 a 1. Na quarta-feira (26), o Corinthians tinha uma missão complicada. Reverter a dura derrota contra o Remo-PA por 2 a 0 era uma missão complicada dentro de campo, e com os milhares de protestos nas redes e arquibancadas, o Corinthians teria mais um adversário: a relação entre Cuca e o torcedor.
Com gols de Adson e Roger Guedes, o Corinthians conseguiu empatar o confronto no último lance do tempo regulamentar. A equipe paulista conquistou a vaga às oitavas de final da Copa do Brasil nos pênaltis. Na entrevista coletiva, Cuca anunciou, uma semana após assumir o cargo, que não era mais o treinador do Corinthians. Alexi também revelou que os atletas não apoiaram a decisão do profissional e queriam que ele permanecesse no clube. A relação, inclusive, gerou protestos da equipe feminina do Timão, que fez publicações nas redes sociais contra Cuca. Em setembro de 2021, o Corinthians, em parceria com a Nike, lançou a campanha "Respeita as Minas". Após a contratação de Cuca, a equipe se sentiu "atacada" pela diretoria do clube e pela falta de luta pelos direitos das mulheres.

A situação foi um ataque, não só ao legado da Democracia Corinthiana, mas a tudo que o clube acreditou e construiu durante seus 113 anos de história. Segundo o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, que nunca veio ao Brasil, mas por meio do seu livro "Infocracia", a demissão do técnico pode ser explicada por uma crise geral da democracia, devido à evolução das redes. Para Han, a “nuvem” expõe apenas aquilo que o usuário gostaria de ver através do algoritmo, mas tem o poder de manipular o que o usuário recebe, que pode ser utilizado para mudanças de opinião. Entretanto, quando assuntos, principalmente delicados, deixam sua “bolha”, as reações nas redes são inúmeras. No caso de Cuca, a esmagadora maioria pedia que o treinador cumprisse um período na prisão, enquanto uma breve minoria pedia para que a história fosse deixada no passado.
O novo dilema das redes, que controla e consegue até mesmo “mudar” resultados de eleições presidenciais, como foi no caso das fake news na eleição de Donald Trump, em 2016, tem o poder de expandir informações e histórias para diferentes grupos, que, teoricamente, não receberiam essas mensagens por não fazerem parte da “bolha”. Em entrevista para a AGEMT, o torcedor do Corinthians Bruno Spade afirmou que foi contra a contratação do treinador e afirmou que o acordo “manchou tudo aquilo que o Corinthians lutou e prezou desde os primeiros anos de sua história”. O jovem de 18 anos também disse que torceu para a equipe ser eliminada pelo Remo na Copa do Brasil e que não comemorou a classificação: “Pela primeira vez torci para que o meu time fosse amassado, que a gente não conseguisse se classificar pra esse pesadelo acabar logo”.
Para Bruno, a decisão de Cuca rescindir com o Timão aconteceu pelos grandes protestos na porta do centro de treinamento e pelas redes sociais: “ Acredito que se não fossem os protestos tanto no CT, quanto nas redes sociais, ele teria continuado no Corinthians. Ainda bem que a torcida abraçou as causas que o clube sempre defendeu e conseguiu tirá-lo em uma longa e dolorida semana para o apaixonado pelo Timão”. Como ensina Han, a forte mudança do comportamento das manifestações públicas das mídias sociais permite que a sociedade seja manipulada pelo algoritmo, mas que também possa usá-la para trazer justiça a quem mereça.
Por Ian Valente (texto) e Rodolfo Dias (audiovisual)
Capadócia, o Red Canyon, o Mar Morto e as cachoeiras Tortum são alguns pontos de alto valor que facilmente se acha em agências especializadas em turismo, estas regiões tem algo em comum, são todas encantos estonteantes do oriente médio. As infinidades de desertos e regiões áridas dão uma coloração avermelhada que não se assemelha a nenhum outro lugar no mundo. Porém, estas belezas são ofuscadas pelo "calor" politico que se instaura a quase um século, que marca e denuncia conflitos que estigmatizam muitos países ricos e exuberantes. O destaque fica entre Israel e o grupo palestino, Hamas protagonizam tais situações que necessitam cuidado e atenção.
A relação conflituosa tem raízes históricas complexas que surgiram desde a proclamação da república de Israel apoiada pelos EUA. No entanto, um dos momentos-chave que marcou o início de uma série de conflitos significativos ocorreu em 2006, com as eleições legislativas palestinas e a subsequente tomada do controle da Faixa de Gaza pelo Hamas em 2007. Isso levou a um aumento nas tensões entre o Hamas, que governa Gaza, e Israel. Desde então, houve diversos conflitos armados entre Israel e o Hamas, mas em maio de 2021, foi observado um aumento acentuado na violência entre eles, quando confrontos em Jerusalém Oriental, disputas sobre o acesso à Mesquita de Al-Aqsa e a expulsão de famílias palestinas de suas casas em Sheikh Jarrah desencadearam um conflito em grande escala. O Hamas lançou foguetes em direção a Israel, e Israel respondeu com ataques aéreos em Gaza. Esse conflito durou cerca de 11 dias antes de um cessar-fogo mediado pelo Egito entrar em vigor. Em outubro deste ano, o Hamas arquitetou o maior ataque já realizado ao Estado de Israel. A organização de origem palestina lançou em 7 de outubro um ataque surpresa, matando aproximadamente 800 soldados e 400 civis israelitas cerca de 1.200, não 1.400, como anunciado inicialmente, além da captura de reféns. Como resposta, os israelitas lançaram diversos bombardeios à Faixa de Gaza, porém com muito mais armamento e estratégia que o Hamas. Tais ataques de Israel já mataram mais de oito mil palestinos, dentre eles muitos são crianças e mulheres, visto que os ataques foram direcionados a hospitais e áreas residenciais, além das bases do Hamas. Israel alega que os ataques foram feitos para atingir somente o Hamas, e que os “terroristas” usam a população de Gaza como escudos humanos.
Logo a notícia se espalhou pelo mundo, com uma ampla cobertura da mídia hegemônica causando reações diversas àqueles que sabiam como o confronto se sucedeu. Aí surgem as redes-sociais como importante fonte de informação sobre o conflito. Vídeos e fotos dos resultados dos ataques, com crianças e civis muito machucados, moldaram como as pessoas enxergam esse conflito. A influência das redes sociais na formação de opinião sobre o conflito entre Israel e o Hamas é significativa e complexas, estas plataformas têm um papel crucial na disseminação de informações, mas também na amplificação de pontos de vista polarizados e na propagação de discursos extremados. Por um lado, as redes sociais oferecem acesso a uma variedade de perspectivas, permitindo que indivíduos de diferentes partes do mundo expressem suas opiniões e compartilhem informações. Isso pode enriquecer a compreensão do conflito ao expor usuários a narrativas diversas e vozes que, de outra forma, poderiam não ser ouvidas. Além disso, as plataformas digitais têm sido usadas para mobilizar apoio e conscientização sobre questões humanitárias associadas ao conflito, impulsionando movimentos de solidariedade e ativismo.
No entanto, as redes sociais também têm sido criticadas por amplificar polarizações e disseminar desinformação. Por meio de algoritmos que mostram conteúdo com o qual os usuários já concordam, criam-se bolhas de filtro que reforçam pontos de vista existentes, dificultando a exposição a diferentes perspectivas. Isso pode levar a uma compreensão limitada e distorcida do conflito, contribuindo para uma visão unilateral e extremada. É crucial que os usuários estejam cientes do papel das redes sociais na formação de opinião e busquem fontes diversas e confiáveis de informação para compreender a complexidade do conflito entre Israel e o Hamas. Estar consciente dos filtros e algoritmos das plataformas pode ajudar na busca por uma visão mais abrangente e informada sobre esse assunto delicado e multifacetado.
Foi apontado como as redes sociais podem distorcer fatos e pendular para um lado da história. Uma estudante judia da PUC, que preferiu não se identificar acredita que as redes são um veículo importante devido o alcance, ela busca usar o seu Instagram para mostrar como os judeus e descendentes israelitas sofrem preconceito, mesmo não possuindo nenhuma relação com os crimes de guerra que o Estado de Israel vem cometendo contra o povo palestino. Ela realça que a guerra deu abertura às pessoas antissemitas de espalharem seu ódio sem pudor. A estudante compreende que os mais afetados devido todo o processo histórico, são os palestinos, mas que preconceito é inaceitável em qualquer circunstância e que ao invés de nos tornamos fanáticos e como torcidas de futebol se tornarem inimigo, devemos aproveitar a tecnologia e esse espaço para abrir um diálogo entre os dois lados e entendermos o que cada um sofre, ajudando uns aos outros nesse momento delicado.