Quanto mais mediado por telas se torna o cotidiano, mais o encontro com o real transforma o teatro em uma experiência intensa e necessária
por
Manoella Marinho
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30/03/2026 - 12h

A relação da geração atual com o mundo passa, inevitavelmente, pelas telas. Celulares, redes sociais e plataformas de vídeo moldam não apenas a forma de comunicação, mas também a percepção da realidade. “O teatro é o presente, é o agora, é o sentimento”, afirma Marcello Drummond, diretor do Teatro Oficina, em entrevista à AGEMT. A fala sintetiza uma das principais diferenças entre o teatro e as mídias digitais: enquanto a internet permite o acesso ilimitado e instantâneo a conteúdos, o teatro exige presença, tempo e entrega. Isso torna-se ainda mais evidente quando se observa o impacto físico da cena.

“Quando você vê um ator na tua frente […] é uma coisa viva”, diz Drummond. Ao contrário da imagem mediada por uma tela, o corpo em cena carrega falhas, respiração, improviso, entregam elementos que tornam cada apresentação única. É essa imprevisibilidade que intensifica a experiência do espectador. Ao mesmo tempo, o ambiente digital tem produzido uma mudança significativa nos hábitos culturais. “As pessoas têm pouco contato com o que não é vídeo”, aponta o diretor. A predominância do audiovisual transforma a forma como a arte é consumida, muitas vezes reduzindo a experiência a fragmentos rápidos e descartáveis.

Créditos: Manoella Marinho Teatro Oficina

 

Ainda assim, o impacto da tecnologia não é apenas negativo. “O digital […] está fazendo com que os teatros fiquem mais cheios”, observa Drummond, conversando com AGEMT dentro do espaço do Teatro Oficina. O fenômeno revela um paradoxo: quanto mais imersas no virtual, mais as pessoas parecem buscar experiências concretas. A saturação de estímulos, característica do cotidiano online, gera uma espécie de cansaço que encontra no teatro um espaço de pausa e intensidade.

Esse movimento ajuda a explicar por que o teatro provoca um efeito tão marcante na geração atual. “A gente tem contato com tela […] mas o vivo toca muito”, resume o diretor. O impacto não está apenas no conteúdo da peça, mas na experiência sensorial completa: o silêncio da plateia, a proximidade com os atores, a impossibilidade de pausar ou voltar a cena. Historicamente, o teatro sempre se construiu a partir dessa relação direta. Encenações como “O Rei da Vela”, marco do Teatro Oficina, ou montagens contemporâneas que rompem a divisão entre palco e plateia, evidenciam a potência do encontro ao vivo. Ao eliminar a chamada “quarta parede”, essas obras convidam o espectador a participar ativamente, transformando-o em parte da cena.

Nesse contexto, o teatro também reafirma seu caráter político. “O fato de estar em cena já é um ato político”, diz Drummond. Em um ambiente digital marcado pela circulação massiva de discursos, muitas vezes superficiais ou polarizados, o teatro oferece um espaço de reflexão mais profunda, onde o tempo e a presença permitem a elaboração crítica. Por outro lado, a própria internet carrega contradições. “Tem coisas muito boas […] e coisas muito ruins que se espalharam”, reconhece o diretor. Se por um lado ela democratiza o acesso à informação e à arte, por outro amplia a circulação de desinformação e discursos problemáticos. Nesse cenário, o teatro se destaca como um espaço de construção coletiva e diálogo direto. A diferença fundamental está na experiência. Enquanto o digital tende à repetição e à reprodução infinita, o teatro se ancora no instante. Cada sessão é única, irrepetível. É nesse sentido que o impacto se intensifica: o espectador não apenas assiste no automático mas vivencia, estimulando análise crítica e sensação.

Em um mundo em que o contato com o real se torna cada vez mais mediado, o teatro reafirma a importância do corpo, do encontro e da presença. Mais do que sobreviver à era digital, ele parece ganhar novo sentido dentro dela. Um espaço onde o humano, finalmente, deixa de ser apenas imagem e volta a ser experiência.

 

Lei que proíbe uso de celulares entrou em vigor em janeiro de 2025, mas o uso iletrado de inteligência artificial expõe brechas na infraestrutura das escolas
por
Sophia Aquino
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30/03/2026 - 12h

Há um ano, a proibição do uso de celulares nas escolas brasileiras entrou em vigor. A lei número 15.100/2025, gerou reações diversas de professores e alunos tanto favoráveis quanto contrárias. De um lado, quem defende que o aparelho era uma fonte constante de distração; do outro, quem questiona se banir o celular resolve de fato os problemas de aprendizado. Porém, a lei abre exceção para o uso pedagógico, o que leva a uma outra discussão em relação ao uso da Inteligência Artificial nas escolas.  

Em entrevista à AGEMT,  o estrategista britânico em digital learning, Matt Lovegrove,  discute que “as escolas precisam investir em inteligência artificial (IA). Se eles querem ajudar os alunos a terem o máximo de educação e investir em letramento de Inteligência Artificial, a melhor coisa é fornecer dispositivos one to one (modelo em que cada aluno tem acesso ao próprio  laptop ou tablet)", explica Matt. 

Matt Lovegrove. Fonte: Acervo de fotos pessoal
Matt Lovegrove. Fonte: Acervo de fotos pessoal 

Matt reconhece que nem todas as escolas têm condições de bancar isso. Para esses casos, ele sugere dispositivos compartilhados — e só em último recurso, o uso controlado do celular, restrito a momentos específicos da aula. "Se as escolas forem fazer isso, tem que ser muito cuidadosamente controlado", afirma. Para ele, o celular não deve vazar para os momentos sociais: recreio, almoço, intervalos. A sociabilidade cara a cara, diz ele, é parte essencial do que a escola oferece. No Reino Unido, onde atua, políticas de restrição de celulares coexistem com forte investimento em infraestrutura tecnológica escolar, permitindo que a proibição de dispositivos pessoais não signifique exclusão digital.

No Brasil, a realidade é diferente. Pesquisa do CETIC.br revela que 60% dos estudantes brasileiros já usam inteligência artificial fora da escola, principalmente para realizar tarefas e responder dúvidas. Dentro das escolas, porém, o cenário é de desigualdade: apenas 30,4% das instituições públicas tinham conexão de internet adequada em 2025, contra 54,3% das privadas. Enquanto estudantes de escolas particulares tem mais chances de ter acesso orientado à tecnologia, grande parte dos alunos da rede pública aprende a usar essas ferramentas sozinho, sem mediação de professores e sem nenhum critério pedagógico. 

Guilherme Cintra, diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann, é uma das vozes mais ativas nesse debate. Para ele, o ponto de partida já ficou para trás. "A discussão já não é mais sobre aceitar ou não o uso dessas tecnologias, mas definir limites éticos e seguros para essa implementação", afirmou em artigo publicado pela Fundação Lemann. Cintra também explica o papel dos professores nesse processo de aprendizagem com a I.A em que destaca a capacidade de profissionais de criar uma troca entre os alunos.

"A nossa capacidade de criar e manter relações verdadeiras será o que nos distinguirá das máquinas" diz também Cintra em entrevista a CNN Brasil e acrescenta "Não podemos esperar que os professores assumam sozinhos a responsabilidade de toda essa mudança".

Claudia Oliveira relatou formas de lidar com esse medo da tecnologia de substituição
por
Anna Sofia Carsughi
Olivia Ferreira
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30/03/2026 - 12h

“A transformação é inevitável: algumas funções mais operacionais tendem a ser reduzidas, mas, ao mesmo tempo, surgem novas carreiras, mais estratégicas e analíticas". Em entrevista à AGEMT, Claudia Oliveira, que trabalha na eCOMEX,  contou, na última semana (24), os desafios ligados ao uso crescente da IA no âmbito do trabalho. A profissional, que está inserida em uma empresa de tecnologia para o comércio exterior, traz diariamente soluções inovadoras para gestão, automação e compliance- e busca, em sua logística, uma maneira de se adaptar às mudanças dessa nova tecnologia empresarialUm estudo feito pela Harvard Business Review em 2023, revelou que inteligências artificiais não substituem nenhum humano, mas os humanos com IA substituirão os humanos sem IA.

Esse artigo expõe que quanto mais as pessoas esperam que as empresas ofereçam experiências perfeitas desenvolvidas por IA, mais os líderes precisarão adotar essas tecnologias em seus negócios. Essas tecnologias cada vez mais estarão presentes no cotidiano de todos os seres humanos e  existirá também uma remodelação dos setores, processos, eficiências e diminuição dos erros humanos. Isso porque quem as adota tem a expectativa de impulsionar cada vez mais a produtividade e a inovação, transformando a dinâmica do mercado de trabalho. 

 

União humanos e IA
Reprodução/ Fia Inteligência Artificial 

 

A substituição dos empregos à medida que as inteligências assumem as tarefas repetitivas é algo discutido pelas grandes empresas, em que certamente existirá mudanças internas que exigirão adaptação das mudanças tecnológicas. A IA está presente não para substituir completamente a capacidade humana, mas sim para completá-la trazendo mais oportunidades de desenvolvimento profissional. "Isso não se trata de eliminação pura e simples, mas de uma migração de competências. O profissional que se adaptar terá oportunidades ainda maiores”, afirmou Claudia.

O crescimento no Brasil

A inserção da tecnologia no mercado de trabalho é um tema que cresce diariamente e não deve ser negligenciado. Discutir o caráter ambivalente das IAS permite uma forma de compreender os seus impactos no cotidiano e as possíveis maneiras para amenizar os seus prejuízos. Se por um lado essa novidade traz uma maior automatização do trabalho, com respostas eficientes às perguntas, por outro lado, substitui grande parte da mão de obra física empresarial. O que entra em discussão é um dilema entre facilidade x temor dentro do mercado de trabalho. 

 

Brasil e o uso da IA
Reprodução/ Lets Go Bahia

O crescimento exponencial das recentes tecnologias vêm surgindo com o desembarque dessa geração tecnológica que se preocupa com resultados rápidos e diversos, na qual as IAs generativas entregam isso de forma acessível e fácil. Para Cláudia, “o interesse das empresas brasileiras por Inteligência Artificial cresce porque ela proporciona ganhos reais de eficiência, escalabilidade e competitividade”.

Essa facilidade dentro do mercado de trabalho pode trazer benefícios como a praticidade e maior produtividade, mas também riscos, como a demissão de trabalhadores devido à automatização de serviços. Apesar disso, ela acredita que o Brasil deva investir em inteligências degenerativas, já que a adoção de tais já é uma realidade presente em grandes potências econômicas globais, tais quais China e Estados Unidos. "Ignorar esse movimento pode significar perda de espaço no mercado global”, relatou ela.

As novas tecnologias substituem determinados tipos de trabalhos, mas indivíduos e empresas que souberem utilizar a IA para ampliar a produtividade e diversificar os serviços ofertados certamente terão vantagens competitivas. Para que esse processo seja levado durante as novas gerações, é necessário que o sistema educacional se adapte para essa nova realidade formando e preparando profissionais qualificados. Para a profissional, não é possível frear o avanço da tecnologia, que cresce diariamente. A fórmula correta seria a da substituição, isso é, o profissional deve usar a seu favor a tecnologia, a partir de uma mudança de postura dentro do trabalho. 

“Funções repetitivas e de baixo valor tendem a perder espaço no mercado de trabalho, mas profissionais que souberem integrar a tecnologia ao seu dia a dia terão grande vantagem competitiva. O ponto central não é temer a IA, mas aprender a utilizá-la como ferramenta para ampliação de capacidades humanas”, diz ela.

Dessa forma, o jeito é aprender a lidar com essa tecnologia, ao desenvolver conhecimentos a seu respeito. Para Cláudia, a melhor forma é investir continuamente em atualização. “Quanto maior o domínio sobre a tecnologia, maior o potencial de utilizá-la como diferencial competitivo. Preparação, curiosidade e adaptação serão determinantes para aproveitar plenamente essa fase de transformação”, falou ela. 

A concentração de infraestrutura nas mãos de poucas empresas de IA amplia impactos climáticos e desafia a integridade de processos democráticos
por
Julia de Sá Ribeiro
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30/03/2026 - 12h

O avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA) consolidou um oligopólio corporativo que, ao priorizar a busca por uma "superinteligência" utópica, agrava crises ambientais, éticas e geopolíticas no presente. Distante da promessa inicial de emancipação tecnológica, o setor aprofunda a desigualdade, a exploração de dados e a concentração de poder global. 

No Vale do Silício dos anos 1990, a tecnologia era vista como o motor do progresso humano, centrada no empreendedorismo e na genialidade individual, livre de interferências estatais. Contudo, a evolução desse cenário resultou no aprofundamento da desigualdade digital e na consolidação de um modelo neoliberal. Atualmente, a crença de que a inovação resolveria problemas sociais abriu caminho para visões ainda mais ambiciosas, que encaram a IA não como uma ferramenta, mas como um destino civilizatório. 

Pesquisadores como Timnit Gebru e Émile Torres classificam o arcabouço ideológico que guia os atuais líderes tecnológicos sob a sigla TESCREAL (Transumanismo, Extropianismo, Singularitarianismo, Cosmismo, Racionalismo, Altruísmo Efetivo e Longoprazismo). Esse conjunto de crenças normaliza a corrida pela superinteligência como um fim inevitável. O objetivo central dessa vertente deixa de ser a melhoria da condição humana para buscar a sua superação física e mental.  

Na prática, a realidade operacional da tecnologia difere dessas promessas filosóficas. Plataformas de Inteligência Artificial Generativa (IAG), como ChatGPT, Gemini, DeepSeek e Grok, operam com algoritmos focados em tarefas específicas e cálculos probabilísticos. Esses sistemas não possuem compreensão real de significados ou relações sociais. Além disso, a dependência governamental e corporativa dessas tecnologias consolida o controle da infraestrutura global nas mãos de poucas empresas, que se posicionam como guardiãs do futuro. 

Sob a lógica do capitalismo de vigilância, o aprimoramento desses sistemas depende da extração contínua de dados comportamentais. O reflexo imediato desse processamento é a geração de conteúdos hiper-realistas, como deepfakes. O emprego dessa tecnologia para produzir discursos de ódio e notícias falsas tornou-se um dos principais desafios contemporâneos, afetando diretamente o pensamento crítico e a integridade de processos democráticos. 

 

Governador da California, Gavin Newsom. Foto: Sheila Fitzgerald / Shutterstock  

É o impacto prático dessa falta de controle que tem forçado as primeiras reações governamentais. Em 2025, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, promulga lei de regulação para grandes modelos de IA exigindo testes de segurança e transparência nos protocolos de prevenção de abusos. A medida enfrenta resistência de gigantes do setor, que temem impacto na competitividade global. A União Europeia também avança com legislações mais rígidas, enquanto países do G20 discutem padrões internacionais de governança. 

"Temos visto exemplos realmente horríveis e trágicos de jovens prejudicados pela tecnologia não regulamentada, e não ficaremos de braços cruzados enquanto as empresas continuam sem limites necessários e sem prestar contas", diz em comunicado o governador Newson ao promulgar a lei. No âmbito geopolítico, a IA redefine as fronteiras dos conflitos armados. Decisões estratégicas passam a ser mediadas por sistemas algorítmicos, e especialistas em segurança apontam que a guerra moderna tende a favorecer forças com maior poder computacional. O conflito atual envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã evidencia essa assimetria: enquanto Washington e Tel Aviv operam sistemas avançados de defesa automatizada, análise em tempo real e vigilância baseada em IA, o Irã depende de capacidades tecnológicas mais limitadas. A disparidade reforça o desequilíbrio militar global e ilustra como a superioridade computacional se torna elemento central na definição de poder e na condução de operações militares. 

A crise atinge, portanto, o campo ético. A pesquisadora e engenheira elétrica, graduada pela Universidade São Francisco e pós-graduada pela Unicamp, Marcilene Ribeiro, realizou pesquisas sobre a Inteligência Artificial durante os anos de 2024 e 2025 nos Estados Unidos e afirma que, desenvolvida sob interesses corporativos e geopolíticos, a IA tende a perpetuar hierarquias econômicas, políticas e biológicas. 

 

Pesquisadora Marcilene Ribeiro. Foto: Linkedin

 

"Ao focar nas promessas de erradicação futura da pobreza ou reversão climática a partir da superinteligência, o modelo atual de desenvolvimento da IA falha em apresentar soluções práticas para o presente, correndo o risco de justificar o agravamento das crises atuais em nome de um amanhã idealizado.", finaliza Marcilene.  

Com a simplificação do uso dos prompts, compreender as ameaças e aprender a usar a IA torna-se essencial
por
Chiara Abreu
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24/03/2026 - 12h

Com a rápida evolução das Inteligências Artificiais (IA), desde a primeira versão do ChatGPT em novembro de 2022, o mundo se encontra em um estado de vulnerabilidade constante. Enquanto a tecnologia coloca um poder imenso nas mãos de qualquer usuário, a sociedade enfrenta a dificuldade para lidar com as consequências dessa facilidade. A desinformação em massa, o surgimento de relações emocionais com algoritmos e a perda de escolhas cotidianas são apenas reflexo dessa falta de preparo.

Vídeos feitos por IA tem se tornado cada vez mais comuns nas redes sociais. Gatos cantando, utensílios de cozinha contando curiosidades culinárias e até mesmo dramas familiares como espécies de brigadeiros são publicados diariamente, ganhando muitas visualizações. Nestes casos, é claro perceber que aqueles vídeos não condizem com a realidade, mas com o avanço de tecnologias como Sora2, VEO3 e Kling V2.1, vídeos ultrarrealistas têm disputado cada vez mais tempo nas telas do público, que encontra uma dificuldade crescente em diferenciar o que é real, e o que não é.

Anteriormente, esses deepfakes existiam, mas eram complexos de serem feitos. Com a ajuda das ferramentas proporcionadas pela computação cognitiva, qualquer pessoa pode criar com facilidade esses vídeos. A população tem um grande instrumento em mãos, mas não possui um preparo devido, o que gera muitas vezes, uma desinformação em massa. Segundo Renato Pereira, administrador especialista em data sciense e analytics pela USP, “as pessoas perderam um pouco a dimensão do quão pernicioso é isso, e o impacto que isso pode ter”, ressalta Pereira.

As principais empresas de tecnologia têm investido muito dinheiro criando softwares que carimbam os vídeos produzidos por suas IAs, através de marcas d’água invisíveis, assim, ao passar por uma verificação, rapidamente são identificados como conteúdo produzido por máquinas. O Gemini do Google, por exemplo, possui um serviço gratuito de investigação, feito para que usuários possam ter certeza no que confiar. Programas do tipo devolvem um pouco do senso crítico que a atualidade vem removendo. Contudo, não são muitos que utilizam essas plataformas.

As múltiplas personalidades que os computadores podem ter também são perigosas. A cada dia que passa se torna mais recorrente ver jovens se apaixonando por Inteligências Artificiais e as utilizando para fazer sessões de terapia, por exemplo. Websites como POE apresentam uma vasta gama de caracteres possíveis, desde extremamente gentis a até mesmo superagressivos, e que constantemente xingam o humano. Já empresas de venda de soluções utilizam prompts preparados para o trabalho com o público, em que a assistente da loja acaba influenciando compras muitas vezes desnecessárias para o consumidor. Elas sabem exatamente o que recomendar porque analisam os clientes, através de históricos de pesquisa, e histórico de compras. 

Pereira acrescenta  que “tem agora programas de IA que compram o seu pão de cada dia, indicam os melhores restaurantes e padarias. Essas parecem decisões inofensivas, mas elas podem destruir os mercadinhos de bairro, gerar desemprego. São decisões que podem afetar muito a nossa sociedade”. Apesar dos riscos, o administrador acredita que impedir as pessoas de acessar prompts não é uma solução viável. Para ele, o crucial é entender até onde podemos contar com a ajuda da IA. “A  inteligência artificial não deveria tomar decisão por ninguém, nem servir para analisar. Isso que a gente deveria estar preocupado: impedir que ela tome decisões e faça análises por nós”. Compreender as limitações da máquina e como ela opera é a melhor forma de se defender contra seus riscos. 

Os hormônios chamados bioidênticos têm sido usados no tratamento de sintomas da menopausa.
por
manuela schenk scussiato
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17/11/2025 - 12h

Por: Manuela Schenk

 

Maria Rosa é moradora de um bairro tranquilo em Belo Horizonte e tem 58 anos. Vivia dias que pareciam sempre nublados. A menopausa havia chegado silenciosa, mas dominando cada detalhe de sua rotina: noites interrompidas por ondas de calor, cansaço persistente e um humor tão instável quanto o clima da cidade. Professora aposentada, ela se viu pela primeira vez incapaz de organizar sua própria vida, como se o corpo tivesse assumido o comando sem pedir permissão.

Os meses seguintes foram marcados por idas e vindas a médicos, tentativas de adaptar a rotina e conversas demoradas com amigas que compartilhavam experiências semelhantes. Nada parecia surtir efeito, até que ouviu falar de uma abordagem que ganhava espaço em consultórios especializados: a terapia com hormônios bioidênticos. Curiosa e cansada de sentir que estava vivendo apenas no piloto automático, Maria decidiu buscar uma avaliação completa para entender se aquela alternativa poderia ser adequada para ela.

A equipe médica analisou seu histórico e, após uma explicação detalhada sobre os possíveis benefícios e limitações, apresentou a reposição hormonal bioidêntica como uma opção. Maria aceitou iniciar o tratamento, não como uma promessa de solução mágica, mas como a possibilidade de reencontrar a si mesma. Nos dias seguintes, seu ceticismo dividia espaço com uma esperança tímida, que ela mal ousava verbalizar.

As mudanças começaram de forma sutil. As noites tornaram-se menos turbulentas, os suores repentinos diminuíram e, com o sono mais estável, veio também uma energia que Maria acreditava ter perdido para sempre. Pequenas vitórias foram se acumulando: a disposição para caminhar pela manhã, o prazer em preparar o próprio café e até a vontade de retomar projetos que havia abandonado quando os sintomas apertavam.

Com o passar dos meses, a melhora deixou de ser apenas física, ela sentiu seu mundo voltando a ter cor. Amigos próximos notaram o brilho renovado no olhar, e Maria passou a falar abertamente sobre sua experiência, sempre destacando que cada mulher tem sua trajetória e que o acompanhamento profissional é indispensável. Para ela, a reposição hormonal bioidêntica representou mais do que um tratamento: foi a reconquista de uma vida que parecia ter escapado pelas frestas do tempo.

Hoje, Maria Rosa caminha pela praça do bairro com passos firmes, como quem recuperou não só o controle do próprio corpo, mas também o entusiasmo pelos dias que virão. Sua história é uma entre tantas que ilustram a complexidade da menopausa e a importância de abordar o tema com informação, cuidado e sensibilidade. E, enquanto observava o movimento ao redor, ela resumiu sua jornada com simplicidade dizendo que a menopausa tentou paralisá-la mas aos poucos ela aprendeu que existe sempre um caminho para voltar a florescer.

Com o tempo, Maria foi percebendo que a melhora não se refletia apenas no cotidiano, mas também em suas relações. Ela voltou a frequentar rodas de leitura, retomou encontros semanais com antigas colegas de profissão e até se animou a planejar pequenas viagens. “Parece que eu reencontrei minha própria companhia”, comentou certa vez, rindo com a naturalidade que havia deixado de sentir. O que antes era medo de enfrentar os dias transformou-se em vontade de ocupar novamente os espaços que sempre foram seus.

Seu marido, Antônio, também testemunhou essa transformação de perto. Ele lembra que, antes do tratamento, as noites eram marcadas por inquietação e cansaço, e as conversas acabavam ofuscadas pela exaustão. Agora, o casal redescobre uma rotina mais leve, com caminhadas ao entardecer e longas conversas na cozinha. Para ambos, a mudança de Maria representou não apenas um avanço individual, mas uma renovação de laços, mostrando como o bem-estar de uma mulher reverbera por toda a família.

Os hormônios desempenham papéis essenciais no equilíbrio do organismo, regulando funções como metabolismo, humor, sono e, quando falamos em reposição hormonal, especialmente para mulheres na menopausa, é comum surgirem dúvidas sobre a diferença entre hormônios tradicionais (sintéticos) e hormônios bioidênticos. Embora ambos tenham o objetivo de aliviar sintomas decorrentes da queda hormonal, eles se distinguem principalmente pela estrutura química e pela forma como o corpo os reconhece.

Os hormônios tradicionais, frequentemente chamados de sintéticos ou não bioidênticos, são produzidos em laboratório, mas não necessariamente possuem a mesma estrutura molecular dos hormônios humanos. Apesar de eficazes para muitas mulheres, podem apresentar respostas variáveis no organismo porque sua interação com os receptores hormonais nem sempre ocorre da mesma forma que com os hormônios naturais. Isso pode influenciar tanto os efeitos desejados quanto o perfil de efeitos colaterais.

Já os hormônios bioidênticos são formulados para terem estrutura molecular idêntica à dos hormônios produzidos naturalmente pelo corpo humano. Por esse motivo, o organismo costuma reconhecê-los e metabolizá-los de maneira mais semelhante aos hormônios endógenos. Essa similaridade é o principal argumento de profissionais e pacientes que relatam maior tolerabilidade e adaptação, embora a resposta possa variar de pessoa para pessoa.

A reposição hormonal feita com hormônios bioidênticos pode oferecer benefícios para mulheres na menopausa, como alívio de ondas de calor, melhora da qualidade do sono, redução da irritabilidade, maior lubrificação vaginal e, em alguns casos, melhora da vitalidade e do bem-estar geral. Algumas mulheres relatam que os bioidênticos promovem um equilíbrio mais suave, possivelmente por serem metabolizados de forma mais natural pelo organismo.

Além disso, especialistas ressaltam que os hormônios bioidênticos podem ser formulados de maneira personalizada, ajustando dosagens e combinações conforme as necessidades individuais de cada mulher, sempre com supervisão de profissionais qualificados. Essa possibilidade de personalização é um dos pontos que costumam atrair pacientes que buscam uma abordagem mais adaptada ao próprio corpo, embora continue sendo fundamental o acompanhamento regular, exames periódicos e avaliação cuidadosa dos resultados.

Apesar das vantagens relatadas, é importante lembrar que qualquer terapia hormonal exige acompanhamento médico, independentemente de ser feita com hormônios sintéticos ou bioidênticos. A combinação adequada de hormônios, a forma de administração e o monitoramento regular são fundamentais para garantir segurança e eficácia. Cada mulher possui necessidades individuais, e somente um profissional qualificado pode orientar a melhor abordagem para cada caso.


 

Vídeos curtos e a mudança no ritmo dos conteúdos infantis têm impactado profundamente o foco e o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes.
por
AMANDA CAMPOS
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17/11/2025 - 12h

Por Amanda Campos

 

Paula, atualmente com 35 anos, é mãe de Júlia, que tem um ano e dez meses. Desde a gravidez, ela se aprofundou em estudos sobre desenvolvimento infantil, neurociência e práticas de criação que priorizam presença, silêncio e estímulos naturais. Inspirada pelas recomendações da Organização Mundial da Saúde e pela literatura especializada, decidiu que a filha não teria contato com telas nos primeiros anos de vida. Não se tratava apenas de evitar o celular durante as refeições; Paula escolheu construir um cotidiano totalmente livre de telas, algo raro na geração atual.

A casa dela reflete essa decisão: poucos brinquedos, todos acessíveis, com texturas reais, madeira, tecidos, objetos simples do dia a dia. Júlia passa longos períodos apenas observando, manipulando ou tentando entender um único objeto. A ausência de estímulos digitais permitiu que ela desenvolvesse uma tolerância incomum ao tédio para sua idade, algo que chama a atenção de quem convive com a criança. Ela observa detalhes, mantém contato visual intenso, sustenta brincadeiras por vários minutos sem se distrair. Paula percebe esse ritmo mais calmo como consequência direta de suas escolhas diárias, não como um dom natural.

Paula comentou que a ausência de telas não tornou seus dias mais fáceis, mas sim mais presentes. Ela descobriu que, sem o recurso rápido de um vídeo para silenciar o choro ou interromper uma birra, precisou desenvolver uma escuta mais profunda da filha, entendendo seus limites, seu ritmo, suas necessidades reais. Um exemplo que a mãe contou é o uso de músicas da banda Falamansa, principalmente Xote dos Milagres, som usado para acalmar a pequena. Júlia, por consequência, se tornou uma criança que resolve frustrações pelo corpo: às vezes senta no chão para observar as próprias mãos, outras vezes abraça um brinquedo até se acalmar, outras simplesmente espera. O que poderia parecer exaustivo transformou o vínculo entre as duas em algo mais íntimo, quase visceral. Paula acredita que essa conexão é, em grande parte, resultado da rotina desacelerada que construiu, uma rotina em que o tempo existe sem interrupções artificiais e em que a curiosidade da filha pode florescer no próprio compasso.

Nos últimos anos, neuropediatras e especialistas em desenvolvimento infantil têm registrado um fenômeno preocupante: crianças e adolescentes apresentando dificuldades crescentes de atenção, impulsividade acentuada e uma incapacidade quase física de lidar com o silêncio, o tédio e a lentidão. Esse quadro, cada vez mais recorrente em consultórios e escolas, não é apenas coincidência. Ele acompanha o avanço do consumo de telas, especialmente vídeos rápidos e hiperestimulantes. Segundo levantamentos da USP (Universidade de São Paulo) o tempo médio que uma criança de 4 a 7 anos passa diante de telas subiu de uma hora e vinte minutos por dia em 2010 para quatro horas e quinze minutos em 2024. O consumo de vídeos curtos, como Reels, TikTok e YouTube Shorts, aumentou mais de 600% entre crianças de 5 a 10 anos.

A Era da Tecnologia foi responsável por essa mudança nos conteúdos consumidos por crianças, quem cresceu nos anos 2000 e 2010 lembra dos episódios longos e de narrativa lenta de desenhos como Peixonauta, Os Backyardigans, Dora Aventureira, Pocoyo e Charlie e Lola. Esses programas tinham ritmo cadenciado, pausas, repetições e até momentos de silêncio — elementos essenciais para o desenvolvimento da atenção e importantes para a construção da linguagem e da concentração. Hoje, o consumo predominante nas infâncias é formado por cortes acelerados, animações com troca constante de plano, músicas repetitivas em alta frequência e vídeos que não duram mais do que alguns segundos. Esse excesso de estímulos reorganiza o sistema de recompensa e treina o cérebro infantil a esperar novidade permanente, criando dificuldade na atenção sustentada.

Enquanto isso, a trajetória de Lucas, irmão mais novo de Paula, de 28 anos, seguiu por outro caminho. Ele é pai de Davi, atualmente com 6 anos, e quando o menino nasceu, Lucas não imaginava que permitir o uso do celular poderia gerar impactos tão profundos. Na rotina apertada, o aparelho se tornou ferramenta de conveniência: primeiro para que o filho comesse com tranquilidade, depois para distraí-lo no carro, depois para acalmá-lo antes de dormir. O que parecia um recurso eventual se tornou hábito, e o hábito se transformou em dependência. Aos poucos, Lucas percebeu que Davi reagia com irritação quando ficava sem o celular, que passava de um vídeo para outro em poucos segundos, que não conseguia acompanhar sequer um desenho infantil tradicional. A concentração fragmentada se agravou com o tempo. Hoje, Davi tem dificuldade de completar tarefas simples, perde o interesse em atividades que não envolvem estímulos rápidos, demonstra inquietação e apresenta sinais claros de déficit de atenção. Um neuropediatra o avaliou e apontou que os padrões comportamentais estavam fortemente associados ao uso excessivo de telas nos primeiros anos de vida, justamente o período mais sensível do desenvolvimento cerebral.

A diferença entre Júlia e Davi aparece de forma quase simbólica quando as famílias se reúnem. Júlia explora objetos, empilha blocos e observa o ambiente com calma; Davi, por outro lado, demonstra inquietação constante, toca em tudo, busca estímulos imediatos e, muitas vezes, abandona qualquer brincadeira em poucos segundos. Paula enxerga esse contraste com cuidado, sem julgamento. Ela entende que Lucas fez escolhas comuns à maior parte dos pais da geração atual. Lucas, por sua vez, carrega uma mistura de culpa e vontade de mudança. Ele tem tentado iniciar um processo de redução das telas, introduzindo brincadeiras mais estruturadas, atividades ao ar livre e momentos de leitura compartilhada, ainda que o caminho seja lento e cercado de desafios.

A história dos dois irmãos ajuda a ilustrar um fenômeno nacional: o País vive uma geração de crianças que raramente experimentam o silêncio, a pausa, o ócio e o tempo real das coisas. Crescem em meio a estímulos que não refletem o ritmo da vida, e quando o mundo não se movimenta na velocidade do algoritmo, o cérebro não sabe como reagir. Ao observar Paula, Lucas, Júlia e Davi, fica claro que a infância digitalizada não é destino inevitável. A cada gesto, a cada limite estabelecido, a cada momento de presença, os adultos definem o tipo de infância que as próximas gerações irão viver. Entre a velocidade artificial das telas e o ritmo humano da vida real, existe um espaço possível, e urgente,de equilíbrio, cuidado e reconstrução.

A pediatra Helena Marcondes acompanha há mais de uma década a evolução do comportamento infantil em meio às mudanças tecnológicas. Ela conta que em suas consultas, é comum receber pais que acreditavam estar diante de problemas de comportamento isolados e descobrem, pela análise detalhada da médica, que a raiz de muitos desses desafios está no excesso de estímulos digitais. Helena costuma explicar que a neuroplasticidade infantil, especialmente nos primeiros cinco anos de vida, é intensa e sensível; quando o ambiente oferece estímulos rápidos e constantes, o cérebro passa a buscá-los como única forma de interesse. Ela observa que crianças que crescem assistindo vídeos curtos apresentam uma aceleração artificial do ritmo interno, uma urgência constante por novidade e uma queda significativa na qualidade da atenção.

Essa transformação pode ser percebida de forma quase didática quando se observa a história de dois irmãos: Paula e Lucas. Embora tenham crescido na mesma casa, seguiram caminhos completamente distintos ao construir as rotinas dos próprios filhos, caminhos que, hoje, revelam impactos opostos no desenvolvimento de cada criança.

 

 

O meio musical se reinventa no TikTok, mas perde simbolismo pela "trend"
por
JESSICA AMANDA CASTRO
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14/11/2025 - 12h

Por Jessica Castro

O cenário musical mudou drasticamente, especificamente com a criação do TikTok. A plataforma, com seu modelo de vídeos rápidos e altamente compartilháveis, serviu como palco para novos artistas e hits, além de revolucionar a carreira de cantores já consagrados. Mas esse impacto não é necessariamente só positivo ou negativo: ele também trouxe discussões sobre a velocidade da indústria, a efemeridade dos sucessos e a transformação da forma como consumimos música.

É comum que a música acompanhe a evolução humana de forma extremamente próxima, por meio das tendências geracionais e sociais. Nos anos 1950, o rock encarnava o espírito rebelde do pós-guerra, representado por ícones como Elvis Presley, que não só moldaram o som da época como também estabeleceram a base da cultura pop moderna. Já nas décadas de 1990 e 2000, o fenômeno dos girl groups, como Spice Girls e Destiny’s Child, ditava moda, comportamento e até mesmo valores de empoderamento, se consolidando como símbolos de uma geração e permanecendo relevantes até hoje nas plataformas digitais.

No Brasil, exemplos não faltam: o funk carioca dos anos 2000, nascido da Miami Bass e do soul americano, ganhou força com equipes como a Furacão 2000. Mais tarde, o sertanejo universitário da década de 2010, liderado por nomes como Luan Santana e Cristiano Araújo, marcou uma nova era de consumo e identidade musical. Esses movimentos mostram que a música, além de acompanhar, também impulsiona transformações sociais e culturais.

A indústria musical, por ser uma das manifestações artísticas mais populares da atualidade, não se deixa ficar para trás. Assim como gigantes da tecnologia, as gravadoras e produtoras seguem o “cheiro do dinheiro” e a corrida pela atenção.

Em entrevista com o jornalista e ex-editor da Rolling Stone, Pablo Miyazawa, a lógica fica clara. O jornalista conta como todo mundo está concorrendo pelo tempo das pessoas. A Netflix compete com a Nintendo que compete com o TikTok. Ele ressalta que a nova geração tem uma atenção cada vez mais limitada, e isso força a criação de produtos culturais condensados, rápidos e facilmente compartilháveis. O resultado é um consumo musical cada vez mais moldado por algoritmos que priorizam a dopamina e a instantaneidade.

Esse fenômeno também revela a dependência da música em relação às grandes plataformas digitais. Assim como o rádio moldou carreiras no século XX e o YouTube foi decisivo na década de 2010, hoje o TikTok ocupa esse espaço central. O problema é que o domínio de uma única rede social cria um tipo de monocultura: se um artista não viraliza ali, muitas vezes sua chance de alcançar o grande público diminui.

Esse modelo favorece a criação dos chamados “hits de momento”: músicas produzidas quase sob medida para viralizar. Cada detalhe, seja a melodia, harmonia, ritmo e até as palavras-chave da letra, é pensado para o algoritmo, priorizando a simplicidade e a facilidade de reprodução.

Um exemplo é a faixa Resenha do Arrocha, de Eskine, que acumula mais de 34,7 mil publicações no TikTok. O sucesso não está em sua profundidade lírica, mas na repetição, nos trechos fáceis de decorar e na nostalgia, citando tendências já conhecidas. Outro caso é “Descer Pra BC”, da dupla Brenno & Matheus, que ganhou projeção graças a um meme e a um título inusitado, facilitando a pesquisa e a viralização. Nesse cenário, o lirismo tradicional cede espaço à praticidade: no TikTok, a chance de criar uma trend vale muito mais do que uma letra sofisticada.

No Brasil, nomes como Anitta, Ludmilla e Gloria Groove também perceberam o poder da plataforma. Canções como “Envolver”, que gerou o famoso “El paso de Anitta”, só alcançaram o topo das paradas globais porque foram amplamente reproduzidas no TikTok, em coreografias que se espalharam pelo mundo. O mesmo aconteceu com “Vermelho”, de Gloria Groove, que ganhou vida nova com dancinhas e memes, ultrapassando os limites do público já estabelecido.

A velocidade de consumo musical também se transformou. Miyazawa lembra que antigamente você precisava esperar o álbum sair, gastar o seu dinheiro e depois ouvir as músicas daquele artista. Mas hoje em dia tudo é muito rápido.

Até 2021, os vídeos da plataforma eram limitados a três minutos, o que estimulava ciclos de consumo infinitos. Somado à pandemia de Covid-19, quando milhões de pessoas se trancaram em casa, esse formato fomentou ainda mais a indústria da pressa. Muitos artistas independentes encontraram aí uma alternativa acessível para divulgar seu trabalho sem precisar de grandes gravadoras.

Esse período marcou a ascensão de carreiras inteiras. Jovens que gravavam músicas em seus quartos, muitas vezes sem recursos, passaram a ser descobertos por gravadoras depois que viralizaram no TikTok. É o caso do cantor JVKE, que ganhou visibilidade global com “Golden Hour”, ou mesmo de artistas brasileiros que conseguem alcançar estes marcos de maneira espontânea, como a dupla Os Barões da Pisadinha, que virou trilha sonora de milhões de vídeos durante a pandemia.

Cantores como Doja Cat souberam usar esse novo mercado. Hits como “Say So” (7,6 milhões de conteúdos virais) e “Kiss Me More” (1,5 milhão de usos) consolidaram sua imagem global. O rapper canadense bbno$, por sua vez, conquistou a comunidade de edição com músicas como “Edamame” (955 mil publicações), transformando-se em um nome presente nos trends semanais.

Mas não foram apenas novos artistas: velhos sucessos também renasceram. O clássico “Pretty Little Baby”, de Connie Francis, voltou às paradas quase 60 anos após seu lançamento, acumulando mais de 2,2 milhões de vídeos. Isso mostra que o TikTok não cria apenas novidades, mas recontextualiza o passado, transformando músicas esquecidas em fenômenos para novas gerações.

Outro exemplo é “Dreams”, do Fleetwood Mac, que viralizou em 2020 com o vídeo de um homem andando de skate enquanto bebia suco de cranberry. O clipe transformou uma música de 1977 em hit contemporâneo, provando que o TikTok pode atuar como máquina do tempo cultural.

Algoritmo

Ainda assim, esse sucesso não é totalmente orgânico. O algoritmo é cuidadosamente projetado para manter o padrão de consumo acelerado, como lembra a pesquisadora Isabela Andrade. Para ela a rede de algoritmos não é um organismo vivo, ele é formado por elementos neoliberais, onde a venda da imagem e do som se tornam o produto central.

Isso cria desigualdades. Quem não se adapta às regras da plataforma perde espaço. O caso da sueca Zara Larsson é ilustrativo: mesmo com 13 anos de carreira, acabou relegada ao posto de artista de abertura da turnê Miss Possessive em 2025, enquanto a canadense Tate McRae, que cresceu dentro da lógica do TikTok, se tornou headliner global em menos de uma década. Sua música “Greedy” já soma mais de 1,8 milhão de publicações.

O desequilíbrio também afeta a forma como os fãs se relacionam com a música. Ao mesmo tempo em que o TikTok permite uma conexão direta entre público e artista, ele cria um vínculo muitas vezes superficial, baseado em fragmentos de 15 segundos. Essa relação, altamente volátil, pode transformar carreiras da noite para o dia, mas também pode deixá-las esquecidas tão rápido quanto surgiram.

A grande questão que emerge é: até que ponto a música continua sendo arte, e quando se transforma apenas em produto? O TikTok trouxe novas oportunidades, mas também colocou em xeque a durabilidade das carreiras. Se antes o sucesso era medido em álbuns, turnês e fidelidade de fãs, hoje a métrica está em cliques, curtidas e número de vídeos criados.

Ao mesmo tempo, há espaço para reflexão: será que essa velocidade mata a criatividade, ou apenas abre caminhos diferentes de expressão? Assim como Elvis, as Spice Girls e o funk carioca moldaram gerações, talvez o TikTok esteja apenas cumprindo o papel que sempre coube à música: traduzir o espírito de seu tempo, agora marcado pela pressa, pela viralização e pelo consumo imediato.

 

Estudo indica que uso excessivo das plataformas está associado a 45% dos casos de ansiedade em jovens de 15 a 29 anos
por
Luiza Zequim
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18/11/2025 - 12h

Por Luiza Zequim

 

O primeiro gesto da manhã, antes mesmo de escovar os dentes, é verificar o celular. A última coisa antes de dormir é uma rolagem final pelo feed, muitas vezes prolongada até a madrugada. Esta é a rotina de Sofia Molim, uma estudante paulista de 21 anos da faculdade de administração da FGV (Fundação Getúlio Vargas). Essa prática descreve um ciclo vicioso que muitos jovens e  adultos não conseguem escapar na era digital. O que começou como entretenimento se tornou uma fonte de ansiedade e perda de produtividade sem fim. Uma pausa no almoço para relaxar se torna mais 15 minutos vidrada em uma tela com vídeos super estimulantes. E a dependência digital vem acompanhada da constante sensação de estar perdendo algo, a popular "FOMO" (Fear of Missing Out).

A jovem descreve como a sua autoestima se tornou submissa à validação digital, às curtidas e aos comentários. Para ela, ver a vida aparentemente “perfeita” de colegas e influenciadores gera uma comparação exaustiva que afeta seu bem-estar. Porém, ela compartilha que o impacto mais concreto é no seu desempenho acadêmico. Horas que deveriam ser dedicadas aos estudos de gestão e finanças são perdidas em filmagens curtas e discussões banais online. A questão se tornou um problema diário quando o consumo de produtos digitais começou a ser incontrolável e inconsciente. Sempre há espaço para um checada nas mensagens, nas fotos no Instagram ou nos vídeos rápidos do TikTok.  

Embora comum, o caso da estudante não é isolado. O Brasil é o terceiro país do mundo onde as pessoas passam mais tempo em redes sociais, o enraizamento da doença acaba acarretando um aumento considerável nos laudos psiquiátricos e no consumo de remédios com efeito calmante. Um levantamento do Instituto Cactus, em parceria com a AtlasIntel, revelou que o uso excessivo das plataformas está associado a 45% dos casos de ansiedade em jovens de 15 a 29 anos.

O aumento na procura por ajuda é visível. Ambulatórios especializados em dependência digital, como o da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), registraram um aumento de 400% no número de atendimentos entre 2023 e 2024. Agora, a adversidade até ganhou um nome: nomofobia, o medo irracional de ficar sem o celular. Os sintomas relatados por cidadãos ao redor do mundo são claros: ansiedade, irritabilidade quando desconectado e uma incapacidade de controlar o tempo gasto nas telas.

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Vício em celular afeta bem-estar mental de jovens e cria dependência dos aparelhos eletrônicos. Foto: Freepik

 

Hoje em dia, as plataformas são desenhadas para o engajamento máximo, utilizando algoritmos que fornecem doses constantes e escassas de dopamina para que o cérebro sempre queira mais do que é possível consumir e isso torna quase impossível conseguir uma solução por conta própria

A estudante paulista conta que já tentou se afastar, desinstalando aplicativos, mas a pressão social e o sentimento de exclusão a fizeram voltar. Ainda que tenha nome e seja reconhecida por órgãos competentes, os afetados pela condição nociva sofrem com um fator indispensável: o silêncio. Muitas vezes, este novo vício não é sonoro como o alcoolismo ou a compulsão por drogas. Os pacientes sofrem de forma silenciosa e muitos demoram a identificar a origem do cansaço extremo, da falta de atenção, da queda na produtividade, do estresse constante e da falta de um estímulo em atividades do mundo real. Embora ainda seja difícil para muitos aceitar e acolher a questão, ela deve ser tratada pelo que é: um vício. Uma adicção não é curada rapidamente e os afetados por ela estão sempre sujeitos a recaídas, mas ignorar o problema  invalida a exaustão mental e faz com que a vida de quem lida com ele diariamente seja ainda mais complexa. 

A flor do norte que quebra o concreto cinza e duro de São Paulo
por
Natália Matvyenko Maciel Almeida
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18/11/2025 - 12h

Por Natália Matvyenko 

 

Sob o sol de Rondônia, entre o barulho dos carros e o som distante das caixas de som que raramente tocavam funk, Catharina Lebre cresceu. Faltavam bailes, mas não vontade. Ela sempre sentiu que o corpo pedia movimento. Conta que anos atrás, Rondônia nunca teve a cena musical em destaque que o Pará teve, e muito menos a força de um Rio ou São Paulo, mas foi ali, no meio das ausências, que Catharina aprendeu a desenhar seus caminhos, estudante de medicina e uma menina que o que tem de cabelos longos tem de simpática e atenciosa. Nasceu e cresceu em Porto Velho. Morou primeiro num condomínio simples e depois num conjunto habitacional. Estudou em escola particular, mas sempre via a diferença entre sua realidade e a dos colegas mais ricos. Esse contraste foi o primeiro contato com o que mais tarde ela perceberia como desigualdade de origem.

Ela fala de um DJ chamado D. Silvestre com brilho nos olhos. D. Silvestre, DJ que viralizou no Tik Tok e Instagram nas festas de São Paulo, é de Rondônia ao contrário do que sudestinos achavam, por mais underground que sejam, caem no lugar de achar exótico, como se arte subversiva só brotasse do solo cinza da capital paulista. Há também o DJ Argel, do Pará, um tipo de artista que mistura o rock doido com o mandela e transforma o som em viagem. Uma vez, ele precisou levar uma caixa de som de barco até uma cidadezinha encravada no interior, o tipo de coisa que explica bem o corre de quem faz cultura na Amazônia.

menina sentada em barco olhando ao longe pro rio
Foto Reprodução: Catharina Lebre

A diferença entre os estados do Norte se sente até pela música. O Pará tem as aparelhagens, o tecnobrega, as festas que viraram lenda e que quem é da periferia paulistana tem contato. Rondônia de certa forma em divulgaço engatinha, parece que está sempre um passo atrás, como se o relógio cultural lá rodasse mais devagar. Catharina sabe que não é uma questão de atraso, mas de estrutura. O Pará é mais antigo, mais turístico, tem tradição. Rondônia ainda precisa lutar pra existir em qualquer conversa. Ela mesma viveu isso de perto. Na própria cidade, não há bailes de rua nem fechados. Quando muito, aparecem encontros de som automotivo no centro, sem o corpo coletivo da periferia dançando junto, sem o calor que transforma o som em comunhão. O que domina a cidade é o sertanejo, e quando o funk aparece, é o comercial. A cena mais alternativa quase não tem espaço.

Cath lembra de um lugar chamado Bar Esconderijo, o nome é autoexplicativo. Era o ponto de encontro de quem não cabia em lugar nenhum, gente preta, LGBT, periférica, artistas, curiosos. Lá, o som era resistência. Até que a festa foi invadida por um grupo bem emblemático que estrutura esse abafamento da cultura. A polícia entrou, levou tudo, caixas, fios, a esperança de mais uma noite sem medo. O bar fechou. E ela entendeu, como tantos, que até o pouco que se constrói é "brecado" quando vem das margens. Mesmo assim, não deixam de existir. Lebre entra no assunto da dança do funk paulista, manda links, vídeos, sons pra mostrar o que se ouve no Norte contrastando com o som estourado que tocam nas festas em galpões da Barra Funda, Luz e centro. Fala do rock doido do Pará, das danças, do carimbó. O carimbó, ela aprendeu a dançar, ritmo que é uma fusão da cultura originária e de povos de África. É dessas heranças que tatuam no corpo. Tudo se mistura. Quando viaja, busca o baile, qualquer baile. Foi em São Paulo que entrou num pela primeira vez. Depois veio o Rio, e cada cidade trouxe um ritmo diferente. Em São Paulo, ela sentiu o peso das chacinas, das memórias de Paraisópolis, das notícias que quase fizeram os bailes de rua de funk paulista perder o fôlego.

Tem repertório pra dar e vender, talvez seja por isso que o nome de D. Silvestre a toque tanto. Ele rompeu com a visão do sudeste, mostrou que dá pra sair de onde tudo parece longe e, ainda assim, fazer revolução com música, diga-se de passagem, um som muito autêntico. Mostra o caminho de quem precisou deixar o território pra florescer, como tantos artistas do Norte e de outras regiões, que só encontram espaço quando partem da sua casa pra conseguir espaço ironicamente até virtual. É bonito e triste ao mesmo tempo, como as coisas da vida que são subjetivas.

Voltando no nome do DJ Argel, que faz festas na rua, gratuitas. Mostra na fala que o norte é vasto, diverso demais pra caber num rótulo. E ainda assim, quando se fala em periferia, o imaginário corre pra São Paulo, pro Rio, pras favelas de concreto. Pouco se pensa nas periferias amazônicas, nas quebradas de madeira, nos corpos caboclos, pretos, indígenas que vivem outras distâncias. Catharina repete que a Amazônia é gigante, que não há uma só realidade. São mundos inteiros entre rios e poeira vermelha, gente que constrói cultura sem palco, sem investimento, sem holofote.

Quando fala de dança, a conversa muda de tom. Foi pela dança que ela entrou no funk, e é pela dança que se reconhece. Desde pequena, o corpo respondia ao som. Dançava Shakira em frente à reza, misturava gestos de devoção e gingado. A professora já debochou, dizendo que parecia cachorro se mexendo. Ela tinha doze anos. Ouviu piadas, enfrentou assédio, comentários que sexualizavam seu corpo infantil. Mesmo assim, continuou. Gravava vídeos, postava, insistia. A internet era o lugar onde podia existir. Rebolar virou resposta. O que era ofensa se transformou em força, já que, qual a melhor arma contra quem caçoa do que ser você mesma?

Lebre conta que ela e sua família ouviam bastante os clássicos da Furação 2000. O funk chegou como aquela visita que já é de casa. O que começou como diversão virou trabalho. Hoje, ela dança em shows, produz conteúdo, estuda a cultura que a formou e fala de assuntos muito pertinentes como preconceito sudestino no meio da cena de São Paulo, apagamento de povos originários e assuntos que passam batido para a maioria das pessoas, mas para Cath não. Fala com o cuidado de quem entende o valor de uma tradição oral. Pesquisa, entrevista, registra, pra que as vozes do Norte não se percam.

E mesmo com a rotina apertada, não para. Trabalha nos fins de semana como dançarina e performer nos palcos com a DJ Bonekinha Irakiana, nome forte da cena das DJ’s de funk bruxaria, estuda nos intervalos, se equilibra entre mundos que raramente se encontram. A cabeça de quem veio do Norte e o corpo de quem ocupa espaços onde poucos iguais chegaram.

Quando diz que faz medicina, o espanto aparece no rosto dos outros. Não porque duvidem da capacidade, mas porque não esperam ver uma mulher cabocla, artista, do norte do país, dentro de um curso cercado por privilégios. Catharina não precisa afirmar nada, o simples fato de existir ali já é resposta suficiente. Ela não esconde o cansaço, mas fala com serenidade. 

Entre o batuque distante de um som automotivo e o silêncio do quarto onde grava seus vídeos cheios de energia, expressa o que é jovem. Não precisa de palco, nem de baile pra ativar o que mais sua alma pede. Ainda assim, sonha com o dia em que Rondônia terá o seu espaço. Onde meninas como ela poderão dançar sem medo, onde o corpo não será motivo de piada ou fetiche, mas de liberdade. Ela sabe que esse dia ainda demora, mas não deixa de dançar. Porque o movimento é também uma forma de oração. O corpo que insiste é o mesmo que transforma o chão duro em pista de dança. Quando fala da mãe, volta a reconhecer de onde veio. Diz que se alguém merece uma entrevista, é ela. A mãe estudava, trabalhava e cuidava dos filhos ao mesmo tempo. Foi com esse exemplo que aprendeu o que é esforço e constância, coisas que hoje sustentam sua própria trajetória entre a dança, o estudo e o trabalho. E, de algum modo, ela sempre encontra um jeito de fazer o som continuar.