Avanço dos deepfakes transforma a percepção das imagens nas redes sociais e levanta questionamentos sobre verdade e cultura digital
por
Carolina Nader
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28/04/2026 - 12h

Vídeos capazes de simular discursos e expressões que nunca aconteceram deixaram de ser experimentos tecnológicos para se tornarem uma preocupação crescente no ambiente digital. Produzidos com o uso de Inteligência Artificial (IA), os chamados deepfakes ampliam desafios para a informação pública e acendem alertas sobre a disseminação da desinformação, especialmente em períodos eleitorais.

Mais do que uma inovação técnica, esses materiais circulam em um ambiente digital marcado pela velocidade do compartilhamento e pelo peso das emoções na propagação de informações. Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), publicado em 2018 na revista Science, mostrou que informações falsas podem se espalhar até seis vezes mais rápido do que conteúdos verdadeiros nas redes sociais, ampliando desafios para jornalistas, pesquisadores e usuários diante da desinformação online.

Em períodos eleitorais, essa dinâmica torna-se ainda mais relevante. Ao navegar pelas redes, eleitores são expostos a publicações virais que, antes mesmo de serem verificadas ou desmentidas, alcançam grande circulação e passam a influenciar percepções sobre candidatos e acontecimentos políticos. Houve casos como o da deputada Tabata Amaral, que teve suas imagens adulteradas com montagens pornográficas em 2024.

De acordo com João Henrique Martins, advogado especialista em Direito Digital e mestre em IA pela PUC-SP, o principal desafio está na diferença de ritmo entre tecnologia e instituições. “Há um problema diagnosticado de que o processo legislativo não acompanha a mesma velocidade com que a tecnologia evolui. Enquanto a desinformação circula em um ritmo exponencial, a lógica processual possui ritmo muito menor.”

Segundo o especialista, a expansão dos deepfakes também está ligada à democratização das ferramentas de inteligência artificial. O que antes exigia conhecimento técnico avançado passou a estar acessível a qualquer pessoa capaz de utilizar plataformas digitais, ampliando significativamente o potencial de criação e disseminação de materiais manipulados durante campanhas eleitorais.

Martins destaca ainda que a legislação eleitoral brasileira já prevê responsabilização para casos de desinformação. De acordo com ele, a punição pode atingir tanto quem produz quanto quem compartilha conteúdos sabidamente falsos, já que o foco da lei está no ato de divulgar informações inverídicas capazes de influenciar o eleitorado. Ainda assim, a velocidade da circulação digital impõe dificuldades práticas para a aplicação das normas existentes.

A rapidez das redes sociais também contribui para o impacto dos deepfakes ao se conectar diretamente às emoções humanas. As plataformas digitais são estruturadas para priorizar publicações que geram reação imediata nos indivíduos. Para o psicanalista João Bosco, “a racionalidade exige tempo e o ambiente digital valoriza a velocidade.”

Além disso, o especialista afirma que conteúdos extremos rompem a sensação de normalidade. Para ele, o ser humano não está apto a viver em um ambiente onde imagens podem mentir. Durante a maior parte da evolução humana, “ver” era sinônimo de acreditar, e a confiança na percepção visual foi fundamental para a sobrevivência. Agora, com a possibilidade de manipulação total das imagens, esse princípio é abalado, gerando um conflito psicológico. “Esse desalinhamento pode causar ansiedade, insegurança e até uma sensação constante de dúvida em relação à realidade”, afirma.

As consequências ultrapassam o campo individual e passam a afetar diretamente as relações sociais e a confiança coletiva, especialmente em contextos eleitorais. O relatório do World Economic Forum de 2024 apontou a desinformação impulsionada por IA como um dos principais riscos globais de curto prazo, destacando o potencial impacto sobre processos democráticos. Segundo João Bosco, quando as pessoas passam a duvidar sistematicamente do que veem, ocorre uma “erosão da confiança perceptiva”. Isso pode levar a dois extremos: acreditar em tudo pela emoção ou não acreditar em nada pelo ceticismo excessivo. No longo prazo, o impacto atinge não apenas a informação, mas a própria construção de sentidos sobre o mundo.

Diante do avanço dos deepfakes, plataformas digitais e autoridades eleitorais têm ampliado medidas de identificação, por meio da exigência de rotulagem de conteúdos gerados artificialmente, monitoramento, remoção de conteúdo irregular e multas eleitorais. Especialistas alertam, porém, que o desafio não é apenas tecnológico. A dificuldade em distinguir o que é real pode gerar cansaço informacional e afastamento do debate público - fenômeno associado ao aumento da apatia política.

Em um cenário em que imagens já não garantem automaticamente a verdade, o pensamento crítico passa a ocupar papel central na construção da confiança pública e no funcionamento da democracia.

Evento DARUA fomenta arte e cultura periférica independente em São Paulo
por
Evandro Tortolani
João Pedro Amador Pinheiro
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09/04/2026 - 12h

O amplo cenário artístico independente, também conhecido como “cena underground”, possui segmentos diversos em suas expressões e manifestações, com simbologias e modos únicos de comunicação com o público. Dentre as múltiplas camadas, há os movimentos artísticos periféricos, com identidade própria e linguagem característica. Porém, a falta de infraestrutura, a desigualdade social e questões culturais são adversidades enfrentadas por esses coletivos artísticos, sendo fatores antagônicos à realização de movimentos culturais do público periférico.

O Evento de Arte e Cultura DARUA, realizado no dia 22 de março dentro da casa de shows Porta Maldita, localizado no bairro paulistano de Pinheiros, apresentou diversos modos de expressões artísticas periféricas em um lugar só, com interação de variados segmentos de arte independente, como desenhos à mão, exposições, música e agricultura. Essa forma de ação coletiva em um bairro nobre da cidade de São Paulo evidencia a força dos movimentos artísticos independentes, mesmo com empecilhos logísticos e socioeconômicos.

A organizadora do evento e artista visual Luísa Moretti (22) em entrevista, afirmou: “Mesmo com muitos festivais underground sendo feitos em Pinheiros, vem muita galera da periferia, que faz o bagulho acontecer. O intuito do DARUA é esse, tirar essa visão elitizada da arte. Aqui hoje muita gente tá expondo a arte pela primeira vez. Se não fosse o DARUA demoraria para acontecer. Mesmo sem verba, abrimos a porta para nós mesmos e fizemos acontecer. O Porta é um lugar que abraça diversos eventos, então por que não fazer um evento como esse? ”

Público do Evento de Arte e Cultura DARUA
Jovens prestigiando o evento DARUA. Foto: Reprodução/ Matheus Cerullo/@daruafest

A artista independente, além de estar na linha de frente da organização do evento, expôs suas produções artísticas, chamadas de “Psicodelia Marginal” , com desenhos feitos à mão. “Tornou-se uma forma de expressar o que eu sinto. Levou um tempo para eu poder me comunicar com o público por meio da minha arte, que eu chamo de psicodelia marginal. É muito difícil para mim me expressar com palavras, então uso esses meios diferentes para me expressar” , pontuou a artífice.

A cena artística independente nas periferias, apesar de possuir uma vasta riqueza cultural, é, de certo modo, negligenciada e invisibilizada na sociedade. Luísa apontou que muitos artistas vêm de regiões periféricas e possuem dificuldades de integração em bairros de alto padrão. Diante disso, para democratizar o acesso à cultura, diversos movimentos culturais são realizados em áreas menos abastadas. “A cena underground na quebrada é muito unida, mas pouco reconhecida. Tem muita feira de arte, casa de cultura...tem muito mais evento cultural na quebrada do que em Pinheiros, mas quem é de fora não fica sabendo. Se não tem como vir até Pinheiros, você faz seu Pinheiros, monta sua cena. Se a galera não abre a porta pra gente, a gente arromba. O DARUA veio pra isso. ”

O radialista e pesquisador Victor Hugo Valente (27) também teceu comentários sobre a importância da cena independente para a cultura periférica. “Eu acredito que buscamos hoje razões pra gente existir, e isso piora muito quando você tem um contingente de pessoas negras e periféricas, que são colocadas à marginalidade. Na minha visão, eu vejo a cena como uma cena de pessoas pobres, é uma cena de pessoas à margem. Então, a cena cria um ambiente confortável para as pessoas serem o que elas verdadeiramente querem ser, e serem entendidas como elas querem ser. eu, como um homem branco, me dou o prazer de não saber o que eu sou. Mas o Lengue, baixista do Nigéria Futebol Clube, pode ter rótulos muito piores do que simplesmente não existir. Que é existir como periférico, como possível bandido. Então, é muito importante ver os caras do Nigéria tocando o que eles acham justo, o que eles acham que é arte e serem ovacionados por pares de pessoas que moram em Guarulhos, Osasco; que estão todas ali, concentradas e olhando. ”

Movimentos independentes com foco em produções periféricas, como o DARUA, evidenciam a importância do uso da arte para visibilizar grupos socialmente marginalizados, que possuem poucas oportunidades de acesso à cultura e lazer. Além disso, o contato com essas eventos pode ser uma forma de conexão com a identidade e representatividade de jovens negligenciados pela sociedade, por serem manifestações artísticas criadas por indivíduos que enfrentam questões sociais parecidas. Esse evento é um exemplo de como a arte independente pode resultar no fortalecimento do sentimento comunitário em regiões pouco requisitadas pela sociedade paulistana.

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Eventos variados, exposições, shows e festivais movimentam os espaços culturais da cidade
por
Victória da Silva
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09/04/2026 - 12h

Após as águas de março fecharem o verão e o outono começar no país, o mês de abril chega com uma vasta programação cultural para os paulistas e visitantes da cidade curtirem. Confira aqui algumas atrações interessantes para visitar na capital paulista:

SP-Arte

A SP-Arte é a maior feira de arte e design do Brasil. O encontro promove conversas e lançamentos editoriais. Nesta edição, o evento promete ter uma exposição sobre árvores, abordar o mobiliário moderno, mostrar o retrato da cena atual do design brasileiro, além de prêmios para artistas e designers.

Quando: De 8 a 12 de abril.

Onde: Pavilhão da Bienal, Parque Ibirapuera.

Ingressos: Inteira - R$120,00 e Meia Entrada - R$60,00 (+ taxas de conveniência).

Noite das Livrarias

No dia Mundial do Livro, o evento celebra a literatura em várias livrarias espalhadas por São Paulo. A partir das 18h os interessados podem descobrir espaços novos, trocar experiências, fazer oficinas, participar de festas do pijama e ainda, conhecer outros amantes de livros.

Quando: 23 de abril.

Onde: Conferir livrarias participantes no site oficial do evento (https://noitedaslivrarias.com.br/livrarias

Ingressos: Entrada Gratuita.

Cine Minhocão

O festival de cinema ao ar livre no Elevado João Goulart conta com sessões competitivas de 21 curtas-metragens brasileiros e internacionais, com votação do público e premiação.

Quando: De 25 de abril a 3 de maio - Sessões às 18h e 19h.

Onde: Minhocão

Ingressos: Inteira - R$120,00 e Meia Entrada - R$60,00 (+ taxas de conveniência).

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As obras refletem a pluralidade de linguagens que marcaram a arte brasileira na primeira metade do século XX. Foto: Divulgação/Governo de São Paulo

Exposições:

Anita e os Modernistas

Com curadoria de Renata Rocco, a exposição conta com um acervo de 23 obras de Anita Malfatti. A mostra retrata o Modernismo no Brasil e também reúne obras de outros artistas modernistas que participaram da Semana de Arte Moderna de 1922, como Di Cavalcanti, Bruno Giorgi, Paulo Rossi Osir, Ismael Nery, Regina Gomide Graz, Alfredo Volpi e Alberto da Veiga Guignard.

Quando: De 6 de abril até 31 de agosto.

Onde: Palácio dos Bandeirantes.

Ingressos: Entrada Gratuita.

Janis Joplin

A mostra trará mais de 300 itens da lendária cantora, compositora e multi-instrumentista norte-americana Janis Joplin, ícone do rock mundial. Dentre os destaques, estão diversas cartas e bilhetes escritos por Janis, fotos de apresentações, além de peças de roupa e adereços da artista.

Quando: A partir de 16 de abril.

Onde: Museu da Imagem e do Som.

Ingressos: Inteira - R$60,00 e Meia Entrada - R$30,00.

Nova Órbita - Nucle1

O centro integrado de artes de quatro andares e dois subsolos foi pensado para promover uma experiência em cada salão. Com exposições em variados espaços, intervenções e um cinema underground, a “Nova Órbita” propõe não apenas uma visita, mas sim uma imersão.

Quando: Até 28 de maio. Quarta à sexta - 12h às 20h. Sábado e domingo - 10h às 18h.

Onde: Nucleum - Rua Muniz de Souza, 809 - Aclimação.

Ingressos: Entrada gratuita.

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Festival Wine&Jazz encanta com a mistura de música e gastronomia. Foto: Divulgação/Governo de São Paulo

Festivais:

Wine & Jazz Sessions

O festival de música ao ar livre reúne jazz, gastronomia e vinho em uma experiência diferenciada. Serão dois dias de shows de Jazz e Soul, área gastronômica com a participação de chefs e seus restaurantes, empório artesanal, além de vinícolas e importadoras de vinho consagradas.

Quando: 11 e 12 de abril. 

Onde: Parque Villa-Lobos.

Ingressos: Entrada gratuita. Para participar do Wine&Jazz nas alturas (na Roda Rico) os preços variam entre R$60,00 e R$120,00.

Gop Tun Festival 2026

O festival acontece em um final de semana inteiro e celebra a cidade de São Paulo unindo artistas da música eletrônica alternativa. Em sua 5ª edição, o público poderá prestigiar a line-up que conta com Jayda G, Optimo (Espacio), Mount Kimbie Dj, Yu Su, Chaos In The Cbd, Moxie, Omoloko, Brenda & Maria Manuela, Sherelle e Aerobica.

Quando: 11 e 12 de abril 

Programação diurna: 13h às 22h30

Programação noturna: 21h30 às 6h em espaço exclusivo.

Onde: Complexo do Pacaembu

Ingressos: Variam entre R$280,00 e R$550,00.

Shows:

Marina Sena - Coisas Naturais

A artista Marina Sena retorna à São Paulo com um novo capítulo da era "Coisas Naturais”, para um show atualizado e repaginado. Entre o setlist da apresentação, está a faixa "Carnaval" que atravessou a estação e se tornou um dos hits mais tocados de fevereiro.

Quando: 17 de abril.

Onde: Espaço Unimed.

Ingressos: A partir de R$130,00.

Jackson Wang - MAGICMAN 2 WORLD TOUR

Jackson Wang, que é integrante do grupo de kpop Got7, retorna para um show em São Paulo e outro show de estreia no Rio de Janeiro, promovendo a turnê “MAGICMAN 2 WORLD TOUR”. Os shows são aguardados pelos fãs que desejam apreciar pessoalmente o alter ego “Magic Man”, criado para expressar a versão mais autêntica do artista.

Quando: 23 de abril.

Onde: Suhai Music Hall.

Ingressos: Variam entre R$470,00 e R$980,00.

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“You seem pretty sad for a girl so in love” retoma a carreira da cantora após três anos de seu último lançamento
por
Jeórgia Sophia
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07/04/2026 - 12h

Na última quinta-feira (2), a cantora Olivia Rodrigo anunciou seu novo álbum, “You seem pretty sad for a girl so in love” — “Você parece muito triste para uma garota tão apaixonada”, em tradução livre para o português. O título do projeto quebrou a expectativa dos fãs, que especulavam uma palavra com 4 letras que nem nos outros discos. A capa também muda a estética roxa e o lilás dos álbuns anteriores,usando o rosa como cor principal.

Com lançamento marcado para o dia 12 de junho, data que coincide com o Dia dos Namorados no Brasil, o álbum aumenta a ansiedade dos fãs após três anos de espera. O projeto já está disponível para pré-venda em diversos formatos, como vinis, CDs e cassetes.

Pela manhã de quinta, logo após deletar todas as fotos de seu perfil oficial no Instagram, a cantora oficializou a chegada do novo álbum. “O meu terceiro álbum ‘You seem pretty sad for a girl so in love’ sai em 12 de junho. Não importa o quanto eu tente escrever músicas de amor, elas sempre vêm cobertas por um pouco de melancolia. Estou tão orgulhosa desse disco e mal posso esperar para que vocês escutem”, escreveu na publicação.

Dona de dois álbuns de grande sucesso, SOUR (2021) rendeu singles como “good 4 u”, “deja vu” e “traitor”. Ela foi nomeada “Mulher do Ano” pela Billboard em 2022, uma honra rara para uma artista tão jovem. Dois anos depois, Olivia lançou GUTS (2023), mostrando seu amadurecimento no mercado, com sucessos como “vampire” e “bad idea right?”.

Os dois álbuns somam três Grammys, sete Billboard Music Awards, quatro VMAs e um American Music Award. Olivia Rodrigo veio ao Brasil pela primeira vez como atração do Lollapalooza 2025, em São Paulo, e fez um show único de sua turnê “Guts World Tour” em Curitiba, Paraná.

Olívia Rodrigo na “Guts Word Tour” em 2025 Foto: Instagram @oliviarodrigo
Olivia Rodrigo na “Guts Word Tour” Foto: Instagram @oliviarodrigo

 

A artista pop de 22 anos confirmou, em entrevista à Vogue, que seu novo projeto é um álbum de amor. “As teorias dos fãs estavam certas: são todas músicas de amor, mas especificamente sobre obsessão e ansiedade — ou a depressão quando seu amante vai embora. São músicas tristes de amor”, disse Olívia 

 

 

 

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Quanto mais mediado por telas se torna o cotidiano, mais o encontro com o real transforma o teatro em uma experiência intensa e necessária
por
Manoella Marinho
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30/03/2026 - 12h

A relação da geração atual com o mundo passa, inevitavelmente, pelas telas. Celulares, redes sociais e plataformas de vídeo moldam não apenas a forma de comunicação, mas também a percepção da realidade. “O teatro é o presente, é o agora, é o sentimento”, afirma Marcello Drummond, diretor do Teatro Oficina, em entrevista à AGEMT. A fala sintetiza uma das principais diferenças entre o teatro e as mídias digitais: enquanto a internet permite o acesso ilimitado e instantâneo a conteúdos, o teatro exige presença, tempo e entrega. Isso torna-se ainda mais evidente quando se observa o impacto físico da cena.

“Quando você vê um ator na tua frente […] é uma coisa viva”, diz Drummond. Ao contrário da imagem mediada por uma tela, o corpo em cena carrega falhas, respiração, improviso, entregam elementos que tornam cada apresentação única. É essa imprevisibilidade que intensifica a experiência do espectador. Ao mesmo tempo, o ambiente digital tem produzido uma mudança significativa nos hábitos culturais. “As pessoas têm pouco contato com o que não é vídeo”, aponta o diretor. A predominância do audiovisual transforma a forma como a arte é consumida, muitas vezes reduzindo a experiência a fragmentos rápidos e descartáveis.

Créditos: Manoella Marinho Teatro Oficina

 

Ainda assim, o impacto da tecnologia não é apenas negativo. “O digital […] está fazendo com que os teatros fiquem mais cheios”, observa Drummond, conversando com AGEMT dentro do espaço do Teatro Oficina. O fenômeno revela um paradoxo: quanto mais imersas no virtual, mais as pessoas parecem buscar experiências concretas. A saturação de estímulos, característica do cotidiano online, gera uma espécie de cansaço que encontra no teatro um espaço de pausa e intensidade.

Esse movimento ajuda a explicar por que o teatro provoca um efeito tão marcante na geração atual. “A gente tem contato com tela […] mas o vivo toca muito”, resume o diretor. O impacto não está apenas no conteúdo da peça, mas na experiência sensorial completa: o silêncio da plateia, a proximidade com os atores, a impossibilidade de pausar ou voltar a cena. Historicamente, o teatro sempre se construiu a partir dessa relação direta. Encenações como “O Rei da Vela”, marco do Teatro Oficina, ou montagens contemporâneas que rompem a divisão entre palco e plateia, evidenciam a potência do encontro ao vivo. Ao eliminar a chamada “quarta parede”, essas obras convidam o espectador a participar ativamente, transformando-o em parte da cena.

Nesse contexto, o teatro também reafirma seu caráter político. “O fato de estar em cena já é um ato político”, diz Drummond. Em um ambiente digital marcado pela circulação massiva de discursos, muitas vezes superficiais ou polarizados, o teatro oferece um espaço de reflexão mais profunda, onde o tempo e a presença permitem a elaboração crítica. Por outro lado, a própria internet carrega contradições. “Tem coisas muito boas […] e coisas muito ruins que se espalharam”, reconhece o diretor. Se por um lado ela democratiza o acesso à informação e à arte, por outro amplia a circulação de desinformação e discursos problemáticos. Nesse cenário, o teatro se destaca como um espaço de construção coletiva e diálogo direto. A diferença fundamental está na experiência. Enquanto o digital tende à repetição e à reprodução infinita, o teatro se ancora no instante. Cada sessão é única, irrepetível. É nesse sentido que o impacto se intensifica: o espectador não apenas assiste no automático mas vivencia, estimulando análise crítica e sensação.

Em um mundo em que o contato com o real se torna cada vez mais mediado, o teatro reafirma a importância do corpo, do encontro e da presença. Mais do que sobreviver à era digital, ele parece ganhar novo sentido dentro dela. Um espaço onde o humano, finalmente, deixa de ser apenas imagem e volta a ser experiência.

 

Os hormônios chamados bioidênticos têm sido usados no tratamento de sintomas da menopausa.
por
manuela schenk scussiato
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17/11/2025 - 12h

Por: Manuela Schenk

 

Maria Rosa é moradora de um bairro tranquilo em Belo Horizonte e tem 58 anos. Vivia dias que pareciam sempre nublados. A menopausa havia chegado silenciosa, mas dominando cada detalhe de sua rotina: noites interrompidas por ondas de calor, cansaço persistente e um humor tão instável quanto o clima da cidade. Professora aposentada, ela se viu pela primeira vez incapaz de organizar sua própria vida, como se o corpo tivesse assumido o comando sem pedir permissão.

Os meses seguintes foram marcados por idas e vindas a médicos, tentativas de adaptar a rotina e conversas demoradas com amigas que compartilhavam experiências semelhantes. Nada parecia surtir efeito, até que ouviu falar de uma abordagem que ganhava espaço em consultórios especializados: a terapia com hormônios bioidênticos. Curiosa e cansada de sentir que estava vivendo apenas no piloto automático, Maria decidiu buscar uma avaliação completa para entender se aquela alternativa poderia ser adequada para ela.

A equipe médica analisou seu histórico e, após uma explicação detalhada sobre os possíveis benefícios e limitações, apresentou a reposição hormonal bioidêntica como uma opção. Maria aceitou iniciar o tratamento, não como uma promessa de solução mágica, mas como a possibilidade de reencontrar a si mesma. Nos dias seguintes, seu ceticismo dividia espaço com uma esperança tímida, que ela mal ousava verbalizar.

As mudanças começaram de forma sutil. As noites tornaram-se menos turbulentas, os suores repentinos diminuíram e, com o sono mais estável, veio também uma energia que Maria acreditava ter perdido para sempre. Pequenas vitórias foram se acumulando: a disposição para caminhar pela manhã, o prazer em preparar o próprio café e até a vontade de retomar projetos que havia abandonado quando os sintomas apertavam.

Com o passar dos meses, a melhora deixou de ser apenas física, ela sentiu seu mundo voltando a ter cor. Amigos próximos notaram o brilho renovado no olhar, e Maria passou a falar abertamente sobre sua experiência, sempre destacando que cada mulher tem sua trajetória e que o acompanhamento profissional é indispensável. Para ela, a reposição hormonal bioidêntica representou mais do que um tratamento: foi a reconquista de uma vida que parecia ter escapado pelas frestas do tempo.

Hoje, Maria Rosa caminha pela praça do bairro com passos firmes, como quem recuperou não só o controle do próprio corpo, mas também o entusiasmo pelos dias que virão. Sua história é uma entre tantas que ilustram a complexidade da menopausa e a importância de abordar o tema com informação, cuidado e sensibilidade. E, enquanto observava o movimento ao redor, ela resumiu sua jornada com simplicidade dizendo que a menopausa tentou paralisá-la mas aos poucos ela aprendeu que existe sempre um caminho para voltar a florescer.

Com o tempo, Maria foi percebendo que a melhora não se refletia apenas no cotidiano, mas também em suas relações. Ela voltou a frequentar rodas de leitura, retomou encontros semanais com antigas colegas de profissão e até se animou a planejar pequenas viagens. “Parece que eu reencontrei minha própria companhia”, comentou certa vez, rindo com a naturalidade que havia deixado de sentir. O que antes era medo de enfrentar os dias transformou-se em vontade de ocupar novamente os espaços que sempre foram seus.

Seu marido, Antônio, também testemunhou essa transformação de perto. Ele lembra que, antes do tratamento, as noites eram marcadas por inquietação e cansaço, e as conversas acabavam ofuscadas pela exaustão. Agora, o casal redescobre uma rotina mais leve, com caminhadas ao entardecer e longas conversas na cozinha. Para ambos, a mudança de Maria representou não apenas um avanço individual, mas uma renovação de laços, mostrando como o bem-estar de uma mulher reverbera por toda a família.

Os hormônios desempenham papéis essenciais no equilíbrio do organismo, regulando funções como metabolismo, humor, sono e, quando falamos em reposição hormonal, especialmente para mulheres na menopausa, é comum surgirem dúvidas sobre a diferença entre hormônios tradicionais (sintéticos) e hormônios bioidênticos. Embora ambos tenham o objetivo de aliviar sintomas decorrentes da queda hormonal, eles se distinguem principalmente pela estrutura química e pela forma como o corpo os reconhece.

Os hormônios tradicionais, frequentemente chamados de sintéticos ou não bioidênticos, são produzidos em laboratório, mas não necessariamente possuem a mesma estrutura molecular dos hormônios humanos. Apesar de eficazes para muitas mulheres, podem apresentar respostas variáveis no organismo porque sua interação com os receptores hormonais nem sempre ocorre da mesma forma que com os hormônios naturais. Isso pode influenciar tanto os efeitos desejados quanto o perfil de efeitos colaterais.

Já os hormônios bioidênticos são formulados para terem estrutura molecular idêntica à dos hormônios produzidos naturalmente pelo corpo humano. Por esse motivo, o organismo costuma reconhecê-los e metabolizá-los de maneira mais semelhante aos hormônios endógenos. Essa similaridade é o principal argumento de profissionais e pacientes que relatam maior tolerabilidade e adaptação, embora a resposta possa variar de pessoa para pessoa.

A reposição hormonal feita com hormônios bioidênticos pode oferecer benefícios para mulheres na menopausa, como alívio de ondas de calor, melhora da qualidade do sono, redução da irritabilidade, maior lubrificação vaginal e, em alguns casos, melhora da vitalidade e do bem-estar geral. Algumas mulheres relatam que os bioidênticos promovem um equilíbrio mais suave, possivelmente por serem metabolizados de forma mais natural pelo organismo.

Além disso, especialistas ressaltam que os hormônios bioidênticos podem ser formulados de maneira personalizada, ajustando dosagens e combinações conforme as necessidades individuais de cada mulher, sempre com supervisão de profissionais qualificados. Essa possibilidade de personalização é um dos pontos que costumam atrair pacientes que buscam uma abordagem mais adaptada ao próprio corpo, embora continue sendo fundamental o acompanhamento regular, exames periódicos e avaliação cuidadosa dos resultados.

Apesar das vantagens relatadas, é importante lembrar que qualquer terapia hormonal exige acompanhamento médico, independentemente de ser feita com hormônios sintéticos ou bioidênticos. A combinação adequada de hormônios, a forma de administração e o monitoramento regular são fundamentais para garantir segurança e eficácia. Cada mulher possui necessidades individuais, e somente um profissional qualificado pode orientar a melhor abordagem para cada caso.


 

Vídeos curtos e a mudança no ritmo dos conteúdos infantis têm impactado profundamente o foco e o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes.
por
AMANDA CAMPOS
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17/11/2025 - 12h

Por Amanda Campos

 

Paula, atualmente com 35 anos, é mãe de Júlia, que tem um ano e dez meses. Desde a gravidez, ela se aprofundou em estudos sobre desenvolvimento infantil, neurociência e práticas de criação que priorizam presença, silêncio e estímulos naturais. Inspirada pelas recomendações da Organização Mundial da Saúde e pela literatura especializada, decidiu que a filha não teria contato com telas nos primeiros anos de vida. Não se tratava apenas de evitar o celular durante as refeições; Paula escolheu construir um cotidiano totalmente livre de telas, algo raro na geração atual.

A casa dela reflete essa decisão: poucos brinquedos, todos acessíveis, com texturas reais, madeira, tecidos, objetos simples do dia a dia. Júlia passa longos períodos apenas observando, manipulando ou tentando entender um único objeto. A ausência de estímulos digitais permitiu que ela desenvolvesse uma tolerância incomum ao tédio para sua idade, algo que chama a atenção de quem convive com a criança. Ela observa detalhes, mantém contato visual intenso, sustenta brincadeiras por vários minutos sem se distrair. Paula percebe esse ritmo mais calmo como consequência direta de suas escolhas diárias, não como um dom natural.

Paula comentou que a ausência de telas não tornou seus dias mais fáceis, mas sim mais presentes. Ela descobriu que, sem o recurso rápido de um vídeo para silenciar o choro ou interromper uma birra, precisou desenvolver uma escuta mais profunda da filha, entendendo seus limites, seu ritmo, suas necessidades reais. Um exemplo que a mãe contou é o uso de músicas da banda Falamansa, principalmente Xote dos Milagres, som usado para acalmar a pequena. Júlia, por consequência, se tornou uma criança que resolve frustrações pelo corpo: às vezes senta no chão para observar as próprias mãos, outras vezes abraça um brinquedo até se acalmar, outras simplesmente espera. O que poderia parecer exaustivo transformou o vínculo entre as duas em algo mais íntimo, quase visceral. Paula acredita que essa conexão é, em grande parte, resultado da rotina desacelerada que construiu, uma rotina em que o tempo existe sem interrupções artificiais e em que a curiosidade da filha pode florescer no próprio compasso.

Nos últimos anos, neuropediatras e especialistas em desenvolvimento infantil têm registrado um fenômeno preocupante: crianças e adolescentes apresentando dificuldades crescentes de atenção, impulsividade acentuada e uma incapacidade quase física de lidar com o silêncio, o tédio e a lentidão. Esse quadro, cada vez mais recorrente em consultórios e escolas, não é apenas coincidência. Ele acompanha o avanço do consumo de telas, especialmente vídeos rápidos e hiperestimulantes. Segundo levantamentos da USP (Universidade de São Paulo) o tempo médio que uma criança de 4 a 7 anos passa diante de telas subiu de uma hora e vinte minutos por dia em 2010 para quatro horas e quinze minutos em 2024. O consumo de vídeos curtos, como Reels, TikTok e YouTube Shorts, aumentou mais de 600% entre crianças de 5 a 10 anos.

A Era da Tecnologia foi responsável por essa mudança nos conteúdos consumidos por crianças, quem cresceu nos anos 2000 e 2010 lembra dos episódios longos e de narrativa lenta de desenhos como Peixonauta, Os Backyardigans, Dora Aventureira, Pocoyo e Charlie e Lola. Esses programas tinham ritmo cadenciado, pausas, repetições e até momentos de silêncio — elementos essenciais para o desenvolvimento da atenção e importantes para a construção da linguagem e da concentração. Hoje, o consumo predominante nas infâncias é formado por cortes acelerados, animações com troca constante de plano, músicas repetitivas em alta frequência e vídeos que não duram mais do que alguns segundos. Esse excesso de estímulos reorganiza o sistema de recompensa e treina o cérebro infantil a esperar novidade permanente, criando dificuldade na atenção sustentada.

Enquanto isso, a trajetória de Lucas, irmão mais novo de Paula, de 28 anos, seguiu por outro caminho. Ele é pai de Davi, atualmente com 6 anos, e quando o menino nasceu, Lucas não imaginava que permitir o uso do celular poderia gerar impactos tão profundos. Na rotina apertada, o aparelho se tornou ferramenta de conveniência: primeiro para que o filho comesse com tranquilidade, depois para distraí-lo no carro, depois para acalmá-lo antes de dormir. O que parecia um recurso eventual se tornou hábito, e o hábito se transformou em dependência. Aos poucos, Lucas percebeu que Davi reagia com irritação quando ficava sem o celular, que passava de um vídeo para outro em poucos segundos, que não conseguia acompanhar sequer um desenho infantil tradicional. A concentração fragmentada se agravou com o tempo. Hoje, Davi tem dificuldade de completar tarefas simples, perde o interesse em atividades que não envolvem estímulos rápidos, demonstra inquietação e apresenta sinais claros de déficit de atenção. Um neuropediatra o avaliou e apontou que os padrões comportamentais estavam fortemente associados ao uso excessivo de telas nos primeiros anos de vida, justamente o período mais sensível do desenvolvimento cerebral.

A diferença entre Júlia e Davi aparece de forma quase simbólica quando as famílias se reúnem. Júlia explora objetos, empilha blocos e observa o ambiente com calma; Davi, por outro lado, demonstra inquietação constante, toca em tudo, busca estímulos imediatos e, muitas vezes, abandona qualquer brincadeira em poucos segundos. Paula enxerga esse contraste com cuidado, sem julgamento. Ela entende que Lucas fez escolhas comuns à maior parte dos pais da geração atual. Lucas, por sua vez, carrega uma mistura de culpa e vontade de mudança. Ele tem tentado iniciar um processo de redução das telas, introduzindo brincadeiras mais estruturadas, atividades ao ar livre e momentos de leitura compartilhada, ainda que o caminho seja lento e cercado de desafios.

A história dos dois irmãos ajuda a ilustrar um fenômeno nacional: o País vive uma geração de crianças que raramente experimentam o silêncio, a pausa, o ócio e o tempo real das coisas. Crescem em meio a estímulos que não refletem o ritmo da vida, e quando o mundo não se movimenta na velocidade do algoritmo, o cérebro não sabe como reagir. Ao observar Paula, Lucas, Júlia e Davi, fica claro que a infância digitalizada não é destino inevitável. A cada gesto, a cada limite estabelecido, a cada momento de presença, os adultos definem o tipo de infância que as próximas gerações irão viver. Entre a velocidade artificial das telas e o ritmo humano da vida real, existe um espaço possível, e urgente,de equilíbrio, cuidado e reconstrução.

A pediatra Helena Marcondes acompanha há mais de uma década a evolução do comportamento infantil em meio às mudanças tecnológicas. Ela conta que em suas consultas, é comum receber pais que acreditavam estar diante de problemas de comportamento isolados e descobrem, pela análise detalhada da médica, que a raiz de muitos desses desafios está no excesso de estímulos digitais. Helena costuma explicar que a neuroplasticidade infantil, especialmente nos primeiros cinco anos de vida, é intensa e sensível; quando o ambiente oferece estímulos rápidos e constantes, o cérebro passa a buscá-los como única forma de interesse. Ela observa que crianças que crescem assistindo vídeos curtos apresentam uma aceleração artificial do ritmo interno, uma urgência constante por novidade e uma queda significativa na qualidade da atenção.

Essa transformação pode ser percebida de forma quase didática quando se observa a história de dois irmãos: Paula e Lucas. Embora tenham crescido na mesma casa, seguiram caminhos completamente distintos ao construir as rotinas dos próprios filhos, caminhos que, hoje, revelam impactos opostos no desenvolvimento de cada criança.

 

 

O meio musical se reinventa no TikTok, mas perde simbolismo pela "trend"
por
JESSICA AMANDA CASTRO
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14/11/2025 - 12h

Por Jessica Castro

O cenário musical mudou drasticamente, especificamente com a criação do TikTok. A plataforma, com seu modelo de vídeos rápidos e altamente compartilháveis, serviu como palco para novos artistas e hits, além de revolucionar a carreira de cantores já consagrados. Mas esse impacto não é necessariamente só positivo ou negativo: ele também trouxe discussões sobre a velocidade da indústria, a efemeridade dos sucessos e a transformação da forma como consumimos música.

É comum que a música acompanhe a evolução humana de forma extremamente próxima, por meio das tendências geracionais e sociais. Nos anos 1950, o rock encarnava o espírito rebelde do pós-guerra, representado por ícones como Elvis Presley, que não só moldaram o som da época como também estabeleceram a base da cultura pop moderna. Já nas décadas de 1990 e 2000, o fenômeno dos girl groups, como Spice Girls e Destiny’s Child, ditava moda, comportamento e até mesmo valores de empoderamento, se consolidando como símbolos de uma geração e permanecendo relevantes até hoje nas plataformas digitais.

No Brasil, exemplos não faltam: o funk carioca dos anos 2000, nascido da Miami Bass e do soul americano, ganhou força com equipes como a Furacão 2000. Mais tarde, o sertanejo universitário da década de 2010, liderado por nomes como Luan Santana e Cristiano Araújo, marcou uma nova era de consumo e identidade musical. Esses movimentos mostram que a música, além de acompanhar, também impulsiona transformações sociais e culturais.

A indústria musical, por ser uma das manifestações artísticas mais populares da atualidade, não se deixa ficar para trás. Assim como gigantes da tecnologia, as gravadoras e produtoras seguem o “cheiro do dinheiro” e a corrida pela atenção.

Em entrevista com o jornalista e ex-editor da Rolling Stone, Pablo Miyazawa, a lógica fica clara. O jornalista conta como todo mundo está concorrendo pelo tempo das pessoas. A Netflix compete com a Nintendo que compete com o TikTok. Ele ressalta que a nova geração tem uma atenção cada vez mais limitada, e isso força a criação de produtos culturais condensados, rápidos e facilmente compartilháveis. O resultado é um consumo musical cada vez mais moldado por algoritmos que priorizam a dopamina e a instantaneidade.

Esse fenômeno também revela a dependência da música em relação às grandes plataformas digitais. Assim como o rádio moldou carreiras no século XX e o YouTube foi decisivo na década de 2010, hoje o TikTok ocupa esse espaço central. O problema é que o domínio de uma única rede social cria um tipo de monocultura: se um artista não viraliza ali, muitas vezes sua chance de alcançar o grande público diminui.

Esse modelo favorece a criação dos chamados “hits de momento”: músicas produzidas quase sob medida para viralizar. Cada detalhe, seja a melodia, harmonia, ritmo e até as palavras-chave da letra, é pensado para o algoritmo, priorizando a simplicidade e a facilidade de reprodução.

Um exemplo é a faixa Resenha do Arrocha, de Eskine, que acumula mais de 34,7 mil publicações no TikTok. O sucesso não está em sua profundidade lírica, mas na repetição, nos trechos fáceis de decorar e na nostalgia, citando tendências já conhecidas. Outro caso é “Descer Pra BC”, da dupla Brenno & Matheus, que ganhou projeção graças a um meme e a um título inusitado, facilitando a pesquisa e a viralização. Nesse cenário, o lirismo tradicional cede espaço à praticidade: no TikTok, a chance de criar uma trend vale muito mais do que uma letra sofisticada.

No Brasil, nomes como Anitta, Ludmilla e Gloria Groove também perceberam o poder da plataforma. Canções como “Envolver”, que gerou o famoso “El paso de Anitta”, só alcançaram o topo das paradas globais porque foram amplamente reproduzidas no TikTok, em coreografias que se espalharam pelo mundo. O mesmo aconteceu com “Vermelho”, de Gloria Groove, que ganhou vida nova com dancinhas e memes, ultrapassando os limites do público já estabelecido.

A velocidade de consumo musical também se transformou. Miyazawa lembra que antigamente você precisava esperar o álbum sair, gastar o seu dinheiro e depois ouvir as músicas daquele artista. Mas hoje em dia tudo é muito rápido.

Até 2021, os vídeos da plataforma eram limitados a três minutos, o que estimulava ciclos de consumo infinitos. Somado à pandemia de Covid-19, quando milhões de pessoas se trancaram em casa, esse formato fomentou ainda mais a indústria da pressa. Muitos artistas independentes encontraram aí uma alternativa acessível para divulgar seu trabalho sem precisar de grandes gravadoras.

Esse período marcou a ascensão de carreiras inteiras. Jovens que gravavam músicas em seus quartos, muitas vezes sem recursos, passaram a ser descobertos por gravadoras depois que viralizaram no TikTok. É o caso do cantor JVKE, que ganhou visibilidade global com “Golden Hour”, ou mesmo de artistas brasileiros que conseguem alcançar estes marcos de maneira espontânea, como a dupla Os Barões da Pisadinha, que virou trilha sonora de milhões de vídeos durante a pandemia.

Cantores como Doja Cat souberam usar esse novo mercado. Hits como “Say So” (7,6 milhões de conteúdos virais) e “Kiss Me More” (1,5 milhão de usos) consolidaram sua imagem global. O rapper canadense bbno$, por sua vez, conquistou a comunidade de edição com músicas como “Edamame” (955 mil publicações), transformando-se em um nome presente nos trends semanais.

Mas não foram apenas novos artistas: velhos sucessos também renasceram. O clássico “Pretty Little Baby”, de Connie Francis, voltou às paradas quase 60 anos após seu lançamento, acumulando mais de 2,2 milhões de vídeos. Isso mostra que o TikTok não cria apenas novidades, mas recontextualiza o passado, transformando músicas esquecidas em fenômenos para novas gerações.

Outro exemplo é “Dreams”, do Fleetwood Mac, que viralizou em 2020 com o vídeo de um homem andando de skate enquanto bebia suco de cranberry. O clipe transformou uma música de 1977 em hit contemporâneo, provando que o TikTok pode atuar como máquina do tempo cultural.

Algoritmo

Ainda assim, esse sucesso não é totalmente orgânico. O algoritmo é cuidadosamente projetado para manter o padrão de consumo acelerado, como lembra a pesquisadora Isabela Andrade. Para ela a rede de algoritmos não é um organismo vivo, ele é formado por elementos neoliberais, onde a venda da imagem e do som se tornam o produto central.

Isso cria desigualdades. Quem não se adapta às regras da plataforma perde espaço. O caso da sueca Zara Larsson é ilustrativo: mesmo com 13 anos de carreira, acabou relegada ao posto de artista de abertura da turnê Miss Possessive em 2025, enquanto a canadense Tate McRae, que cresceu dentro da lógica do TikTok, se tornou headliner global em menos de uma década. Sua música “Greedy” já soma mais de 1,8 milhão de publicações.

O desequilíbrio também afeta a forma como os fãs se relacionam com a música. Ao mesmo tempo em que o TikTok permite uma conexão direta entre público e artista, ele cria um vínculo muitas vezes superficial, baseado em fragmentos de 15 segundos. Essa relação, altamente volátil, pode transformar carreiras da noite para o dia, mas também pode deixá-las esquecidas tão rápido quanto surgiram.

A grande questão que emerge é: até que ponto a música continua sendo arte, e quando se transforma apenas em produto? O TikTok trouxe novas oportunidades, mas também colocou em xeque a durabilidade das carreiras. Se antes o sucesso era medido em álbuns, turnês e fidelidade de fãs, hoje a métrica está em cliques, curtidas e número de vídeos criados.

Ao mesmo tempo, há espaço para reflexão: será que essa velocidade mata a criatividade, ou apenas abre caminhos diferentes de expressão? Assim como Elvis, as Spice Girls e o funk carioca moldaram gerações, talvez o TikTok esteja apenas cumprindo o papel que sempre coube à música: traduzir o espírito de seu tempo, agora marcado pela pressa, pela viralização e pelo consumo imediato.

 

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Estudo indica que uso excessivo das plataformas está associado a 45% dos casos de ansiedade em jovens de 15 a 29 anos
por
Luiza Zequim
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18/11/2025 - 12h

Por Luiza Zequim

 

O primeiro gesto da manhã, antes mesmo de escovar os dentes, é verificar o celular. A última coisa antes de dormir é uma rolagem final pelo feed, muitas vezes prolongada até a madrugada. Esta é a rotina de Sofia Molim, uma estudante paulista de 21 anos da faculdade de administração da FGV (Fundação Getúlio Vargas). Essa prática descreve um ciclo vicioso que muitos jovens e  adultos não conseguem escapar na era digital. O que começou como entretenimento se tornou uma fonte de ansiedade e perda de produtividade sem fim. Uma pausa no almoço para relaxar se torna mais 15 minutos vidrada em uma tela com vídeos super estimulantes. E a dependência digital vem acompanhada da constante sensação de estar perdendo algo, a popular "FOMO" (Fear of Missing Out).

A jovem descreve como a sua autoestima se tornou submissa à validação digital, às curtidas e aos comentários. Para ela, ver a vida aparentemente “perfeita” de colegas e influenciadores gera uma comparação exaustiva que afeta seu bem-estar. Porém, ela compartilha que o impacto mais concreto é no seu desempenho acadêmico. Horas que deveriam ser dedicadas aos estudos de gestão e finanças são perdidas em filmagens curtas e discussões banais online. A questão se tornou um problema diário quando o consumo de produtos digitais começou a ser incontrolável e inconsciente. Sempre há espaço para um checada nas mensagens, nas fotos no Instagram ou nos vídeos rápidos do TikTok.  

Embora comum, o caso da estudante não é isolado. O Brasil é o terceiro país do mundo onde as pessoas passam mais tempo em redes sociais, o enraizamento da doença acaba acarretando um aumento considerável nos laudos psiquiátricos e no consumo de remédios com efeito calmante. Um levantamento do Instituto Cactus, em parceria com a AtlasIntel, revelou que o uso excessivo das plataformas está associado a 45% dos casos de ansiedade em jovens de 15 a 29 anos.

O aumento na procura por ajuda é visível. Ambulatórios especializados em dependência digital, como o da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), registraram um aumento de 400% no número de atendimentos entre 2023 e 2024. Agora, a adversidade até ganhou um nome: nomofobia, o medo irracional de ficar sem o celular. Os sintomas relatados por cidadãos ao redor do mundo são claros: ansiedade, irritabilidade quando desconectado e uma incapacidade de controlar o tempo gasto nas telas.

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Vício em celular afeta bem-estar mental de jovens e cria dependência dos aparelhos eletrônicos. Foto: Freepik

 

Hoje em dia, as plataformas são desenhadas para o engajamento máximo, utilizando algoritmos que fornecem doses constantes e escassas de dopamina para que o cérebro sempre queira mais do que é possível consumir e isso torna quase impossível conseguir uma solução por conta própria

A estudante paulista conta que já tentou se afastar, desinstalando aplicativos, mas a pressão social e o sentimento de exclusão a fizeram voltar. Ainda que tenha nome e seja reconhecida por órgãos competentes, os afetados pela condição nociva sofrem com um fator indispensável: o silêncio. Muitas vezes, este novo vício não é sonoro como o alcoolismo ou a compulsão por drogas. Os pacientes sofrem de forma silenciosa e muitos demoram a identificar a origem do cansaço extremo, da falta de atenção, da queda na produtividade, do estresse constante e da falta de um estímulo em atividades do mundo real. Embora ainda seja difícil para muitos aceitar e acolher a questão, ela deve ser tratada pelo que é: um vício. Uma adicção não é curada rapidamente e os afetados por ela estão sempre sujeitos a recaídas, mas ignorar o problema  invalida a exaustão mental e faz com que a vida de quem lida com ele diariamente seja ainda mais complexa. 

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A flor do norte que quebra o concreto cinza e duro de São Paulo
por
Natália Matvyenko Maciel Almeida
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18/11/2025 - 12h

Por Natália Matvyenko 

 

Sob o sol de Rondônia, entre o barulho dos carros e o som distante das caixas de som que raramente tocavam funk, Catharina Lebre cresceu. Faltavam bailes, mas não vontade. Ela sempre sentiu que o corpo pedia movimento. Conta que anos atrás, Rondônia nunca teve a cena musical em destaque que o Pará teve, e muito menos a força de um Rio ou São Paulo, mas foi ali, no meio das ausências, que Catharina aprendeu a desenhar seus caminhos, estudante de medicina e uma menina que o que tem de cabelos longos tem de simpática e atenciosa. Nasceu e cresceu em Porto Velho. Morou primeiro num condomínio simples e depois num conjunto habitacional. Estudou em escola particular, mas sempre via a diferença entre sua realidade e a dos colegas mais ricos. Esse contraste foi o primeiro contato com o que mais tarde ela perceberia como desigualdade de origem.

Ela fala de um DJ chamado D. Silvestre com brilho nos olhos. D. Silvestre, DJ que viralizou no Tik Tok e Instagram nas festas de São Paulo, é de Rondônia ao contrário do que sudestinos achavam, por mais underground que sejam, caem no lugar de achar exótico, como se arte subversiva só brotasse do solo cinza da capital paulista. Há também o DJ Argel, do Pará, um tipo de artista que mistura o rock doido com o mandela e transforma o som em viagem. Uma vez, ele precisou levar uma caixa de som de barco até uma cidadezinha encravada no interior, o tipo de coisa que explica bem o corre de quem faz cultura na Amazônia.

menina sentada em barco olhando ao longe pro rio
Foto Reprodução: Catharina Lebre

A diferença entre os estados do Norte se sente até pela música. O Pará tem as aparelhagens, o tecnobrega, as festas que viraram lenda e que quem é da periferia paulistana tem contato. Rondônia de certa forma em divulgaço engatinha, parece que está sempre um passo atrás, como se o relógio cultural lá rodasse mais devagar. Catharina sabe que não é uma questão de atraso, mas de estrutura. O Pará é mais antigo, mais turístico, tem tradição. Rondônia ainda precisa lutar pra existir em qualquer conversa. Ela mesma viveu isso de perto. Na própria cidade, não há bailes de rua nem fechados. Quando muito, aparecem encontros de som automotivo no centro, sem o corpo coletivo da periferia dançando junto, sem o calor que transforma o som em comunhão. O que domina a cidade é o sertanejo, e quando o funk aparece, é o comercial. A cena mais alternativa quase não tem espaço.

Cath lembra de um lugar chamado Bar Esconderijo, o nome é autoexplicativo. Era o ponto de encontro de quem não cabia em lugar nenhum, gente preta, LGBT, periférica, artistas, curiosos. Lá, o som era resistência. Até que a festa foi invadida por um grupo bem emblemático que estrutura esse abafamento da cultura. A polícia entrou, levou tudo, caixas, fios, a esperança de mais uma noite sem medo. O bar fechou. E ela entendeu, como tantos, que até o pouco que se constrói é "brecado" quando vem das margens. Mesmo assim, não deixam de existir. Lebre entra no assunto da dança do funk paulista, manda links, vídeos, sons pra mostrar o que se ouve no Norte contrastando com o som estourado que tocam nas festas em galpões da Barra Funda, Luz e centro. Fala do rock doido do Pará, das danças, do carimbó. O carimbó, ela aprendeu a dançar, ritmo que é uma fusão da cultura originária e de povos de África. É dessas heranças que tatuam no corpo. Tudo se mistura. Quando viaja, busca o baile, qualquer baile. Foi em São Paulo que entrou num pela primeira vez. Depois veio o Rio, e cada cidade trouxe um ritmo diferente. Em São Paulo, ela sentiu o peso das chacinas, das memórias de Paraisópolis, das notícias que quase fizeram os bailes de rua de funk paulista perder o fôlego.

Tem repertório pra dar e vender, talvez seja por isso que o nome de D. Silvestre a toque tanto. Ele rompeu com a visão do sudeste, mostrou que dá pra sair de onde tudo parece longe e, ainda assim, fazer revolução com música, diga-se de passagem, um som muito autêntico. Mostra o caminho de quem precisou deixar o território pra florescer, como tantos artistas do Norte e de outras regiões, que só encontram espaço quando partem da sua casa pra conseguir espaço ironicamente até virtual. É bonito e triste ao mesmo tempo, como as coisas da vida que são subjetivas.

Voltando no nome do DJ Argel, que faz festas na rua, gratuitas. Mostra na fala que o norte é vasto, diverso demais pra caber num rótulo. E ainda assim, quando se fala em periferia, o imaginário corre pra São Paulo, pro Rio, pras favelas de concreto. Pouco se pensa nas periferias amazônicas, nas quebradas de madeira, nos corpos caboclos, pretos, indígenas que vivem outras distâncias. Catharina repete que a Amazônia é gigante, que não há uma só realidade. São mundos inteiros entre rios e poeira vermelha, gente que constrói cultura sem palco, sem investimento, sem holofote.

Quando fala de dança, a conversa muda de tom. Foi pela dança que ela entrou no funk, e é pela dança que se reconhece. Desde pequena, o corpo respondia ao som. Dançava Shakira em frente à reza, misturava gestos de devoção e gingado. A professora já debochou, dizendo que parecia cachorro se mexendo. Ela tinha doze anos. Ouviu piadas, enfrentou assédio, comentários que sexualizavam seu corpo infantil. Mesmo assim, continuou. Gravava vídeos, postava, insistia. A internet era o lugar onde podia existir. Rebolar virou resposta. O que era ofensa se transformou em força, já que, qual a melhor arma contra quem caçoa do que ser você mesma?

Lebre conta que ela e sua família ouviam bastante os clássicos da Furação 2000. O funk chegou como aquela visita que já é de casa. O que começou como diversão virou trabalho. Hoje, ela dança em shows, produz conteúdo, estuda a cultura que a formou e fala de assuntos muito pertinentes como preconceito sudestino no meio da cena de São Paulo, apagamento de povos originários e assuntos que passam batido para a maioria das pessoas, mas para Cath não. Fala com o cuidado de quem entende o valor de uma tradição oral. Pesquisa, entrevista, registra, pra que as vozes do Norte não se percam.

E mesmo com a rotina apertada, não para. Trabalha nos fins de semana como dançarina e performer nos palcos com a DJ Bonekinha Irakiana, nome forte da cena das DJ’s de funk bruxaria, estuda nos intervalos, se equilibra entre mundos que raramente se encontram. A cabeça de quem veio do Norte e o corpo de quem ocupa espaços onde poucos iguais chegaram.

Quando diz que faz medicina, o espanto aparece no rosto dos outros. Não porque duvidem da capacidade, mas porque não esperam ver uma mulher cabocla, artista, do norte do país, dentro de um curso cercado por privilégios. Catharina não precisa afirmar nada, o simples fato de existir ali já é resposta suficiente. Ela não esconde o cansaço, mas fala com serenidade. 

Entre o batuque distante de um som automotivo e o silêncio do quarto onde grava seus vídeos cheios de energia, expressa o que é jovem. Não precisa de palco, nem de baile pra ativar o que mais sua alma pede. Ainda assim, sonha com o dia em que Rondônia terá o seu espaço. Onde meninas como ela poderão dançar sem medo, onde o corpo não será motivo de piada ou fetiche, mas de liberdade. Ela sabe que esse dia ainda demora, mas não deixa de dançar. Porque o movimento é também uma forma de oração. O corpo que insiste é o mesmo que transforma o chão duro em pista de dança. Quando fala da mãe, volta a reconhecer de onde veio. Diz que se alguém merece uma entrevista, é ela. A mãe estudava, trabalhava e cuidava dos filhos ao mesmo tempo. Foi com esse exemplo que aprendeu o que é esforço e constância, coisas que hoje sustentam sua própria trajetória entre a dança, o estudo e o trabalho. E, de algum modo, ela sempre encontra um jeito de fazer o som continuar.

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