Por Inaiá Misnerovicz
Pesquisadores da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) desenvolveram um canudo descartável que muda de cor ao detectar metanol em bebidas. O dispositivo biodegradável é capaz de identificar, em poucos segundos, a presença do álcool tóxico responsável por graves casos de intoxicação no País. A proposta é permitir que qualquer pessoa reconheça o risco antes de consumir uma bebida adulterada, sem precisar de equipamentos ou conhecimentos técnicos.
O projeto é coordenado por David Douglas, professor e pesquisador do Departamento de Química da UEPB. A ideia surgiu a partir da preocupação com o aumento dos casos de envenenamento por bebidas falsificadas, muitas vezes vendidas em festas, bares e eventos. O grupo buscava uma solução acessível, de baixo custo e uso imediato. Assim nasceu o canudo que muda de cor ao entrar em contato com o metanol.
O metanol é um tipo de produto que oferece um risco silencioso. À primeira vista, parece inofensivo: é incolor, tem cheiro fraco e se mistura facilmente ao etanol, o álcool comum das bebidas. Mas é altamente tóxico. Mesmo em pequenas quantidades, pode causar cegueira, coma e morte. Usado na indústria como solvente e combustível, o metanol jamais deveria estar presente em bebidas alcoólicas. Quando ingerido, o corpo o transforma em substâncias que atacam o sistema nervoso e os olhos, provocando danos irreversíveis.
Douglas explica que o canudo foi projetado para ser usado de maneira simples e intuitiva. . Em seu interior, há uma fita com reagentes químicos sensíveis ao metanol que, ao entrar em contato com a bebida, provoca uma reação capaz de alterar a cor do canudo, geralmente do amarelo para o vermelho. O processo é rápido, dura apenas alguns segundos e dispensa o uso de qualquer aparelho complementar. A ideia central é permitir que qualquer pessoa possa testar a bebida antes de consumi-la, sem precisar ter conhecimento técnico.
Segundo o pesquisador, o objetivo principal é oferecer um produto barato e eficaz. A equipe estima que cada unidade custe menos de dois reais, o que permitiria sua distribuição em larga escala. O canudo foi pensado para ser usado em bares, festas e eventos, mas também por órgãos de fiscalização e vigilância sanitária. Os testes vêm sendo realizados com diferentes tipos de bebidas, como cachaças, vodcas e licores artesanais, para garantir que a reação funcione em todas as composições.
O projeto começou em 2023, nos laboratórios da UEPB, em Campina Grande, e desde então tem recebido apoio de estudantes de graduação e pós-graduação. O grupo trabalha agora na padronização dos resultados, no registro de patente e na busca por parceiros que viabilizem a produção em escala comercial. Paralelamente, a universidade pretende promover campanhas de conscientização sobre os riscos do metanol, incentivando o consumo responsável e a compra de produtos de origem confiável.
O consumo de bebidas adulteradas é um problema de saúde pública no Brasil. O metanol, por ser mais barato que o etanol, é usado ilegalmente na fabricação clandestina. Essa prática ainda causa tragédias em várias regiões do país. Em 2025, surtos de intoxicação foram registrados em estados do Nordeste e do Sul, com dezenas de vítimas. A ausência de métodos simples de detecção e a dificuldade de fiscalização contribuem para o aumento dos casos.
Para David, o canudo funciona como uma ferramenta de prevenção e alerta. Ele não substitui a análise laboratorial, mas serve como um primeiro passo para evitar o consumo da bebida contaminada e estimular denúncias às autoridades. O pesquisador destaca que o ideal seria que ninguém precisasse recorrer a esse tipo de recurso, mas que, diante da realidade do mercado informal, oferecer um meio de defesa à população se torna essencial.
Os sintomas de envenenamento por metanol podem aparecer entre meia hora e doze horas após a ingestão. Entre os mais comuns estão visão turva, dor de cabeça, tontura, náuseas, dificuldade para respirar e, em casos graves, convulsões e coma. O tratamento precisa ser feito rapidamente em ambiente hospitalar.
O desenvolvimento da pesquisa também mostra a força da ciência feita em universidades públicas regionais. Para o pesquisador, o projeto demonstra que é possível criar soluções inovadoras e de impacto social fora dos grandes centros de pesquisa. Ele destaca que o trabalho coletivo, envolvendo alunos e técnicos, é o que torna o resultado possível. O grupo já estuda novas aplicações para a tecnologia, como o desenvolvimento de palitos, adesivos e fitas reagentes capazes de identificar outros tipos de adulterantes, como solventes e corantes ilegais.
Douglas lembra que, em outros países, iniciativas parecidas ainda são raras e muitas vezes caras. O diferencial da equipe paraibana está no foco na simplicidade. O canudo é barato, descartável e usa materiais que não agridem o meio ambiente. É uma tecnologia pensada para o cotidiano, para chegar a quem mais precisa. A pesquisa tem despertado o interesse de instituições de ensino e de agências de fomento científico. O grupo da UEPB já foi convidado a apresentar os resultados preliminares em eventos acadêmicos e feiras de inovação. A expectativa é que, até o final de 2026, o produto esteja disponível comercialmente, após os testes de segurança e a aprovação dos órgãos reguladores.
Além da inovação química, o canudo também levanta um debate sobre educação científica e cidadania. O pesquisador acredita que a disseminação da informação é essencial para reduzir o número de casos de intoxicação e para valorizar o papel da ciência pública no enfrentamento de problemas sociais. A equipe planeja, junto à Pró-Reitoria de Extensão da UEPB, criar oficinas educativas em escolas e comunidades, unindo ciência, saúde e responsabilidade social.
Casos de intoxicação por metanol têm sido recorrentes no mundo todo. Em 2022, um surto na Índia matou mais de 40 pessoas após o consumo de uma bebida clandestina. No México, dezenas foram hospitalizadas em festas locais. No Brasil, os registros se multiplicam, especialmente em períodos de festas populares. Apesar disso, são raros os métodos de detecção acessíveis ao público. O canudo criado na Paraíba surge como uma inovação com potencial global, justamente por unir simplicidade, baixo custo e impacto social.
Enquanto o produto não chega ao mercado, os pesquisadores reforçam a importância de comprar bebidas apenas de fontes confiáveis, com rótulo e registro. Preços muito baixos e embalagens improvisadas são sinais de alerta. O pesquisador também destaca que as autoridades precisam intensificar a fiscalização, especialmente em períodos de festas populares e feriados prolongados.
Por Júlia Polito
Andreia Basílio tem 38 anos e trocou o escritório pela mesa da sala, onde passa a maior parte do dia diante do notebook. O conforto do trabalho remoto logo revelou um custo: o corpo começou a dar sinais de alerta. Nos últimos tempos, Andreia tem sentido dores constantes no pescoço e percebeu que sua postura piorou significativamente desde que começou a trabalhar de casa. Ainda assim, não buscou atendimento médico, tentando lidar sozinha com o incômodo que se tornou parte da rotina. O que começou como uma solução prática para flexibilizar o trabalho tornou-se um desafio para o corpo humano.
O aumento do home office e a presença constante das telas na rotina de profissionais de diferentes áreas transformaram o modo de trabalhar e, junto com isso, surgiram novos problemas de saúde. Entre as queixas mais comuns estão as dores musculares, o cansaço visual e as lesões por esforço repetitivo, todas agravadas pela falta de uma estrutura ergonômica adequada. Por conta disso, Andreia tentou pequenas adaptações ao longo do dia, ajustando a cadeira ou apoiando o computador em livros, mas admite que o improviso não substitui um ambiente pensado para o bem-estar físico. Mesmo com pausas para tomar um café ou ir até a portaria, as tensões nos ombros e a rigidez no pescoço continuam a aparecer com frequência, especialmente nos dias em que passa mais tempo diante das telas.
Foi o que também observou a fisioterapeuta Soraya, especialista em ortopedia, com 25 anos de formação e mais de duas décadas de atuação clínica. No consultório, ela percebeu que o número de pacientes com dores posturais aumentou consideravelmente desde que o trabalho remoto se tornou rotina após a covid 19. Ela comenta que as alterações posturais, tendinites, lombalgias e cervicalgias cresceram junto com o home office, e não foi por acaso. Segundo ela, a ergonomia doméstica ainda é precária: muitas pessoas trabalham na cadeira da sala, no sofá ou até mesmo na cama, posições que sobrecarregam o sistema musculoesquelético e, ao longo do tempo, geram dor e inflamação.

No Brasil, a Norma Regulamentadora nº 17 (NR-17) estabelece parâmetros para adaptar as condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores. Criada pelo Ministério do Trabalho, ela determina que as empresas devem oferecer mobiliário, equipamentos e condições ambientais adequadas, além de instruções ergonômicas que garantam conforto, segurança e desempenho eficiente. Mas, na prática, grande parte das empresas ainda descumpre essas diretrizes — especialmente quando se trata do home office.
Soraya conta que já atendeu diversos pacientes cujo quadro de dor se agravou por causa da má postura. Muitos deles já apresentavam algum problema ortopédico anterior, como um desvio de coluna, bursite ou início de hérnia de disco, e acabaram piorando com o trabalho remoto. Ela lembra de um caso mais grave: um homem que passava o dia em reuniões, mal acomodado em uma cadeira comum. O quadro evoluiu para uma lesão lombar séria, quase cirúrgica. Com muita fisioterapia, RPG e pilates, o paciente conseguiu reverter o problema — mas apenas depois de adaptar sua casa com aparelhos corretos.
A posição errada durante longas horas pode comprometer músculos, articulações e até estruturas da coluna. Além disso, o uso de notebooks sem teclado e monitor separados exige que o usuário mantenha o olhar voltado para baixo por muito tempo, forçando pescoço e ombros e gerando sobrecarga. Assim, trabalhar em casa sem o suporte físico de um ambiente projetado para o corpo faz com que muitos repitam diariamente posturas prejudiciais. Com o tempo, o que começa como uma dor passageira pode evoluir para problemas crônicos, como hérnias de disco e tendinites.
Para Soraya, quem já está estabelecido no modelo remoto precisa transformar um canto da casa em um espaço realmente pensado para o trabalho. Ela reforça que é essencial ajustar a altura da mesa, da tela e do apoio de braços e pés, além de investir em uma cadeira adequada. Segundo a fisioterapeuta, ficar muito tempo na mesma posição pode causar compressões nervosas, como no ciático e levar a fraquezas musculares, desvios posturais e hérnias de disco. Também alerta para o aumento de tendinites, bursites e outras patologias que atingem o sistema musculoesquelético.
Apesar do desconforto, Andreia costuma encarar as dores como algo temporário. Enquanto busca maneiras de equilibrar produtividade e bem-estar, tenta reorganizar o espaço em casa para torná-lo mais confortável. O trabalho remoto, que trouxe praticidade, também a fez repensar a importância de cuidar da própria saúde. Essa consciência, reforçada pelas orientações de profissionais como Soraya, tem sido o que a motiva a incluir atividades físicas na rotina e a se mover mais entre uma tarefa e outra.
E ela não está sozinha. Em cada casa transformada em escritório há um corpo aprendendo a negociar seus limites com as demandas do trabalho. O silêncio das paredes é cortado pelo som contínuo do teclado, e a dor, aos poucos, se torna um idioma comum entre os que vivem diante das telas. Um desses corpos é o de Roberto Antonio, 58 anos, corretor de seguros. Desde que começou a trabalhar em casa, há cinco anos, ele sente que o corpo passou a dar sinais contra a rotina. As dores começaram discretas, um incômodo nas costas depois de longas horas sentado. Depois, o pescoço começou a endurecer, o braço a doer e o pulso a inchar.
Quando o diagnóstico de tendinite veio, não houve surpresa, apenas a constatação de algo que ele já pressentia: o corpo havia chegado ao limite. Ele descreve o dia como uma sucessão de pequenos desconfortos que se acumulam até se tornarem insuportáveis. A cadeira da sala, usada na mesa de jantar, já perdeu o estofado. A mesa é baixa demais, obrigando-o a curvar os ombros. A luz do teto projeta uma sombra incômoda sobre o teclado, e ele precisa se inclinar ainda mais para enxergar a tela. Cada gesto — digitar, clicar, mover o mouse — é repetido muitas vezes por dia, como um ritual de desgaste. O corpo, antes invisível, torna-se o centro da experiência de trabalhar.
Antes da pandemia, o corretor trabalhava presencialmente, em uma sala alugada, com mobiliário adequado e estrutura ergonômica correta. Com a chegada do vírus e o isolamento, devolveu as chaves e transformou o lar em escritório. O corpo humano, feito para o movimento, foi aprisionado em cadeiras estáticas e mesas improvisadas. A promessa de liberdade que o home office trouxe se tornou, para muitos, uma nova forma de confinamento. O trabalho saiu do escritório, mas as exigências ficaram e, sem fronteiras claras entre o que é casa e o que é expediente, o corpo passou a não saber mais quando descansar.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a ergonomia como fator essencial para a saúde ocupacional. De acordo com um relatório recente, as lesões por esforço repetitivo (LER/DORT) já estão entre as dez principais causas de afastamento do trabalho no mundo, afetando especialmente profissionais de escritório e tecnologia. A OMS alerta que o número de casos de dor crônica em trabalhadores remotos cresceu 30% nos últimos cinco anos, e que a tendência é de alta se não houver mudanças estruturais. Enquanto isso, as empresas ainda vagam entre o discurso e a prática. A Norma Regulamentadora nº 17, que obriga o empregador a garantir condições ergonômicas mesmo fora do ambiente físico, é frequentemente ignorada.
Andreia e Roberto representam dois lados de uma mesma história: a tentativa de adaptar o humano ao digital sem medir as consequências físicas dessa transição. Ambos buscam maneiras de sobreviver à rotina que a tecnologia prometeu simplificar, mas que o corpo insiste em complicar. Como lembra Soraya, o corpo não entende de metas nem de prazos, entende de dor. E ela é, talvez, a forma mais honesta de resistência diante de um mundo que pede produtividade constante.
No fim do dia, quando o computador se apaga e o silêncio volta, fica o eco das dores que o trabalho remoto espalhou pelas casas. Andreia e Roberto são apenas dois exemplos de um mal que grande parte da sociedade sofre. Ela estica o pescoço, ele massageia o pulso. Ambos respiram fundo e continuam a rotina, afinal, a vida não para. O trabalho passou, mas a dor insiste em ficar.
Por Luiza Zequim
A sensação de que o celular está lendo mentes tornou-se cada vez mais presente nas novas gerações, mas, para o sociólogo Alexandre Simões, não há mágica nisso. É o trabalho de um mecanismo complexo: o algoritmo. A inundação de anúncios de tênis ou destinos de viagem logo após uma conversa casual é a ponta visível de um problema profundo. Para o especialista, esses códigos invisíveis e onipresentes são hoje os principais agentes do imaginário coletivo. Projetados para conseguir engajamento a todo custo, eles têm um efeito colateral que, na análise de Simões, molda ativamente como a sociedade consome, se comporta e prefere determinados temas. O que começa como uma simples personalização de conteúdo, mostrando mais vídeos de culinária ou notícias de futebol, evolui rapidamente para um complexo sistema de filtragem ideológica.
Para entender a ferramenta por trás disso, Antonio Pereira, estudante de Tecnologia da Informação da UFF (Universidade Federal Fluminense), oferece uma visão prática. Ele explica que o algoritmo não é uma entidade mística, mas sim um conjunto de regras lógicas, como uma receita de bolo extremamente detalhada.
Na cozinha, a receita diz quando adicionar a farinha, na Internet, o algoritmo diz ao sistema como agir e o que responder à interação do usuário. Nas redes sociais, Pereira detalha que essa "receita" é alimentada em tempo real. Cada clique, cada segundo que o olho se detém em uma foto, cada like e até mesmo as hesitações do usuário são ingredientes. O objetivo dessa metodologia é prever o que o consumidor quer ver no próximo segundo. Antônio explica que o sistema realiza testes constantes, em milissegundos, para ver qual variação de conteúdo — qual cor de botão, qual manchete, qual vídeo — segura a atenção por mais uma fração de segundo. É um processo de otimização que não visa o bem-estar do usuário ou a veracidade da informação, mas apenas a métrica de "tempo de tela".
Enquanto Pereira foca no "como" técnico, o sociólogo Alexandre foca no "porquê" social. Para Simões, o objetivo dessa "receita" é mais profundo: decidir o que você vê e com que frequência. O sociólogo adverte que este é um ciclo vicioso. A problematização central é que ao nos tornarmos peritos em apenas consumir o que gostamos, o algoritmo para de nos mostrar o que não estamos interessados, ou simplesmente o que é diferente. É a entrada no que o sociólogo define como “Bolha de Filtro”, um processo algorítmico e passivo. Os aplicativos, como TikTok e Instagram, aprendem os padrões do consumidor digital e, com base nessa coleta de dados, começam a "protegê-lo" de conteúdo que possa repeli-lo do programa. Simões alerta que o resultado desse sistema complexo é a eliminação de visões de mundo opostas e discussões aprofundadas.
Como consequência, entramos na Câmara de Eco, um processo que o especialista descreve como ativo e social. É neste ambiente digital que pequenos grupos escolhem se reunir e reforçar mutuamente suas crenças nichadas. O espaço não só valida a informação que a bolha de filtro selecionou, como também reforça e blinda aquele público específico.
A bolha não apenas nos isola do "outro", mas também congela a nossa própria identidade. O crescimento pessoal e a empatia nascem da dissonância cognitiva, do desafio e do pensamento crítico. Ao eliminar esse atrito, a internet cria indivíduos mais rígidos, menos criativos e nada tolerantes.

Além disso, as bolhas são as incubadoras ideais para a desinformação proliferar, seja na saúde ou na política. O mecanismo funciona através da erosão da confiança. Dentro desses grupos, o usuário é alimentado com um fluxo constante de informações que confirmam suas suspeitas pré-existentes. Quando uma fake news surge, ela não choca. A nota é recebida como a "peça que faltava" no quebra-cabeça, confirmando o que as pessoas já acreditavam.
Na raiz de tudo, Simões identifica uma lógica econômica implacável. O produto vendido não é realmente o conteúdo, mas a atenção do usuário. Similar ao processo de valorização de uma garrafa de água, o preço equivale ao material do plástico que envolve a bebida, e não ao líquido por si só. O modelo de negócios da "economia da atenção" exige que as plataformas maximizem o tempo de tela a qualquer custo. Isso significa que os algoritmos são incentivados a explorar fraquezas psicológicas e transformá-las em consumo monetário.
Diante desse cenário, não há uma solução fácil, mas um caminho duplo. Por um lado, temos a responsabilidade das próprias plataformas, que não devem ser isentadas. Por outro, entender que o feed não é uma janela para o mundo, mas um espelho distorcido e curado para prender a atenção, é a noção essencial para que o indivíduo consiga ter consciência de qual sistema está inserido e como deve, de vez em quando, furar sua película de proteção.
Por Enrico Peres
Todas as manhãs, milhares de paulistanos atravessam a cidade guiados por um mesmo ritual: acordar cedo, caminhar até o ponto, esperar um ônibus que talvez não chegue na hora prometida e torcer para que o Bilhete Único não trave no validador. É um percurso repetido à exaustão, um caminho longo que não aparece em mapa algum, o caminho emocional de quem depende do transporte público para manter a própria vida funcionando. Na prática, a mobilidade de São Paulo se tornou uma prova diária de resistência, onde a tecnologia, tão celebrada nos discursos oficiais, muitas vezes funciona como mais um obstáculo.
Enquanto a cidade repete mantras sobre inovação, sustentabilidade e modernização, o cotidiano segue preso a falhas antigas. São Paulo gosta de se apresentar como referência global, exibir sua frota de ônibus elétricos, seus aplicativos integrados e seus planos de transformação digital. Mas quem depende do transporte sabe que há um abismo entre o anúncio e a realidade. Em março de 2025, uma falha generalizada no Bilhete Único deixou multidões em filas intermináveis para regularizar cartões bloqueados. O mesmo sistema que, na teoria, deveria descomplicar o acesso ao transporte. A cidade parece operar em duas velocidades: a da vitrine tecnológica e a da vida comum, onde o simples ato de embarcar em um ônibus pode virar mais um golpe para quem já vive no limite.
Esse contraste cresce em um momento de instabilidade institucional. A proposta do prefeito Ricardo Nunes de extinguir a SPTrans, órgão responsável por planejar e monitorar o sistema há mais de três décadas, e transferir suas funções para a SP Regula, agência sem tradição no setor, trouxe insegurança para quem acompanha a mobilidade pública da cidade. A crise não é só administrativa: é simbólica. Coloca em risco o conhecimento acumulado por profissionais que construíram o transporte paulistano e abre espaço para decisões desconectadas da complexidade operacional da frota. Para quem depende do ônibus, essa incerteza não aparece em discursos, aparece no atraso, na catraca travada, no trajeto que demora o dobro do tempo.
Tecnologias que deveriam aproximar o usuário do sistema acabam criando novas barreiras. O aplicativo da SPTrans promete orientar trajetos e horários em tempo real, mas falha em localizar ônibus, atrasa informações e tem interface pouco acessível. Para quem não possui smartphone, crédito de internet ou familiaridade digital, ele simplesmente não existe. O Bilhete Único, outro símbolo da modernização, se tornou instável: validações que falham, máquinas de recarga sem funcionamento, cartões bloqueados sem explicação. Quando isso acontece no meio da viagem, o usuário não vê um “erro técnico” vê o custo emocional e financeiro de depender de um sistema que não o reconhece plenamente.
Outras iniciativas reforçam essa sensação de desconexão com a realidade das ruas. A bilhetagem via QR Code exige celular, câmera e internet. Ferramentas inacessíveis para uma parte significativa dos passageiros. A biometria facial, testada como promessa de segurança, levanta dúvidas sobre privacidade e eficácia em uma rede que ainda não consegue garantir previsibilidade básica. E a suspensão da plataforma SMGO, que monitoraria a frota em tempo real, deixou um vácuo operacional: sem dados confiáveis, o planejamento se perde, e o usuário paga a conta na forma de atrasos e ônibus lotados.
Até esforços positivos, como a introdução de ônibus elétricos, acabam ofuscados pela falta de infraestrutura. Eles representam menos de 7% da frota total e enfrentam dificuldades de manutenção e recarga, tornando o discurso ambiental um símbolo mais político do que funcional. Há modernização sim, mas ela vem em parcelas pequenas, incapaz de equilibrar a balança entre promessa e experiência real.
No fim, a mobilidade urbana em São Paulo revela um paradoxo: a tecnologia está presente, mas não está a serviço de quem mais precisa. O sistema deveria reduzir distâncias, mas muitas vezes cria outras. Deveria facilitar a vida, mas frequentemente a atravanca. Deveria acolher todos os perfis de usuários, mas exclui quem não se encaixa no padrão digitalizado que a cidade insiste em impor.
O futuro da mobilidade paulistana não depende apenas de novos aplicativos, ônibus elétricos ou mecanismos de biometria. Depende de reconhecer que dignidade e acesso são tão importantes quanto inovação. E que, antes de anunciar soluções futuristas, São Paulo precisa garantir o básico: fazer o ônibus chegar, fazer o cartão funcionar, fazer o passageiro sentir que o sistema realmente foi feito para ele.
Por Wanessa Celina
Na madrugada do dia 20 de outubro, uma grande instabilidade no Amazon Web Services (AWS), plataforma de computação em nuvem da Amazon, derrubou um número significativo de sites e aplicativos. Mais de 500 sistemas ficaram temporariamente fora do ar, entre os serviços atingidos estiveram os próprios produtos da Amazon, como a assistente virtual Alexa e o streaming Prime Video, o jogo Fortnite e Duolingo.
O problema se concentrou na região us‑east‑1 (Norte da Virgínia, EUA), principal centro de dados da AWS, e provocou interrupções em grandes redes sociais, plataformas de jogos e serviços financeiros. Foram registrados cerca de 6,5 milhões de alertas de falhas logo na manhã de segunda-feira.
O apagão da AWS reacende um histórico recente de falhas em grandes provedores de nuvem. Em junho de 2025, uma pane global no Google Cloud provocou queda de plataformas que dependem da gigante americana, afetando serviços do Spotify, Snapchat, Discord e outros por cerca de duas horas. Na ocasião, o Google solucionou o problema em poucas horas e prometeu divulgar uma análise posterior. A Microsoft Azure também passou por incidentes graves: em janeiro de 2023, uma falha de conectividade derrubou o Azure globalmente, suspendendo o funcionamento de serviços do Office 365 como Teams e Outlook por várias horas.
A AGEMT, para entender mais sobre como essa instabilidade foi causada, conversou com o Analista de Tecnologia de Informação, Bruno Azuma Balzano. A falha ocorrida foi em um servidor específico da Amazon, que, por ter um custo mais baixo, é o mais utilizado pelas empresas. Balzano explica que as falhas são raras, “esses serviços de nuvem têm vários data centers interligados, mas relativamente isolados, uma falha de uma, geralmente, não afeta a outra.”
Um data center bem construído tem uma diferença de tempo resposta do aplicativo pela localização imperceptível pelo usuário comum. Isso faz com que as empresas escolham, com mais facilidade, um serviço mais estável e com um custo menor, o que explica a grande dependência das grandes empresas, inclusive brasileiras, nessas áreas que foram afetadas pelo apagão.
Os data centers, explica o analista Bruno, têm um alto custo para manutenção e para ter um ambiente adequado para eles. “Se as empresas, especialmente startups, forem esperar ter esse tipo de infraestrutura antes de começar o negócio, vai invalidar o próprio negócio, porque ele é um custo muito alto logo no início, que você não sabe nem se a sua ideia de aplicativo, de negócio, é válida ou não”, explica.
Assim entra a vantagem de ter uma nuvem, pagando um aluguel para alguém que já mantém esse ambiente e tem um especialista para bancar, as empresas conseguem um ambiente robusto, a um preço baixo do que eles dedicariam em um próprio data center. Para empresas de varejo, cita Balzano, a nuvem tem extrema importância, porque durante os picos de acesso, como o Natal e Black Friday, é possível aumentar a capacidade de processamento nesses dias e depois reduzir.
Enquanto alguns especialistas olham para o apagão como uma falha na economia digital, Bruno observa de outra forma. Para ele, esse apagão pode ser visto como uma característica da economia definida como monopólio natural. ”Quando tem um serviço que é muito caro para um novo competidor entrar no mercado e, ao mesmo tempo, é muito barato para alguém que já está estabelecido ampliar um pouco a sua capacidade de conseguir mais clientes”, assim, entende Balzano, que o fornecimento de serviços na mão de um ou de poucos fornecedores, o que acontece com a nuvem, é o que resulta esse plano em várias dependências.
Um único ponto de falha ou uma decisão unilateral por parte desses gigantes da tecnologia pode desencadear consequências catastróficas, como evidenciado pelo "apagão". Mesmo assim, existem formas que cada empresa pode fazer para mitigar os efeitos, caso haja uma outra falha.
Bruno Balzano descreveu três estratégias que poderiam ser eficientes para as empresas: utilizar mais de uma região da própria nuvem, a chamada redundância, a replicação do aplicativo e dos dados em outra região. A segunda estratégia semelhante, dada pelo analista, é a contratação de mais de um provedor, tendo, assim, uma arquitetura de aplicação, “você coloca o mesmo sistema na Amazon e na Google, por exemplo, e aí se a Amazon tiver uma falha, você está seguro com a Google e vice-versa.”, demonstra Bruno. A terceira estratégia é a da empresa ter seu próprio data center, não abandonando a nuvem para os dias de altas demandas, como o Natal, assim, você garante um funcionamento mínimo com o seu data center, fazendo a arquitetura de aplicação.
Em algumas empresas, a terceira estratégia está sendo mais utilizada, nos últimos anos, assim que os negócios se consolidam, as empresas montam seus próprios data center e abandonam a dependência nas nuvens. Mas, é preciso ficar atento, ter um data center não é a única garantia: contratar uma boa consultoria de tecnologia e melhorar a robustez da infraestrutura os serviços, especialmente em empresas Astech, é fundamental para Bruno Balzano, “precisa ter um olhar mais atento para essas questões de infraestrutura de continuidade do serviço quando o objeto final deles dependem do serviço funcionando”.


