Sequência resgata personagens icônicos e revisita a moda na era digital
por
Carolina Nader
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08/05/2026 - 12h

O filme O Diabo Veste Prada 2, produzido por David Frankel, estreou dia 30 de abril nos cinemas. 20 anos após o primeiro lançamento, a continuação do clássico retoma o universo da revista de moda “Runway”, agora inserido em um contexto marcado por transformações digitais da indústria e pelo crescimento das redes sociais. Protagonizado por grandes nomes do cinema como Meryl Streep, Anne Hathaway e Emily Blunt, a retomada contou com a distribuição da Disney Pictures, que aposta na força da nostalgia ao mesmo tempo em que dialoga com uma nova geração.

Cartaz de divulgação do filme “O Diabo Veste Prada 2.” Foto: @odiabovesteprada2 / Instagram
Cartaz de divulgação do filme “O Diabo Veste Prada 2.” Foto: @odiabovesteprada2 / Instagram 

Frankel mantém o olhar atento para os bastidores do mundo da moda e do jornalismo, adicionando discussões éticas sobre a profissão. Em meio à pressão por relevância e engajamento, o drama levanta questionamentos sobre o que a indústria editorial escolhe mostrar e o que prefere ocultar. A narrativa explora também o contraste entre tradição e inovação, evidenciando o esforço da “Runway” para se manter ativa sem abandonar os valores que a consolidaram, mesmo diante de um mercado cada vez mais liderado por interesses comerciais. 

Ainda assim, o roteiro preserva o humor ácido característico da franquia, equilibrando essas reflexões com momentos leves que mantêm vivo o charme do universo fashion. 

Miranda Priestly, representada por Meryl Streep, continua sendo a figura misteriosa que marca a memória do público. Sua presença, mais uma vez, cativa a atenção dos fãs, com diálogos irônicos e uma mistura de frieza e elegância. Ao mesmo tempo, sua personagem se vê diante do desafio de recuperar a relevância da revista e preservar suas tradições em um cenário que parece constantemente ameaçá-las. 

Anne Hathaway retorna como Andy Sachs, agora em uma posição mais consolidada profissionalmente, o que cria um contraponto interessante em relação à jovem insegura do primeiro longa. A dinâmica entre as duas personagens ganha novas camadas, marcada menos pela hierarquia direta e mais por conflitos de visão, valores e trajetórias. 

 

Meryl Streep e Anne Hathaway na Coreia do Sul para evento global relacionado ao lançamento do filme. Foto: @tiziano.raw / Instagram
Meryl Streep e Anne Hathaway na Coreia do Sul para evento global relacionado ao lançamento do filme. Foto: @tiziano.raw / Instagram 

A obra também ressalta as relações de lealdade no trabalho, destacando o ambiente competitivo da imprensa. Parcerias, rivalidades e escolhas profissionais se conectam, reforçando a ideia de que o sucesso, nesse meio, raramente é construído de forma isolada ou sem conflitos. 

Visualmente, o longa mantém uma estética glamourosa, com figurinos que continuam desempenhando papel fundamental na construção dos personagens e na ambientação da indústria da moda. Ao mesmo tempo, a montagem incorpora elementos contemporâneos, como telas de celular e fluxos digitais, evidenciando a mudança de época.  

O lançamento dessa continuação foi acompanhado por uma forte estratégia de marketing que ampliou sua presença para além das salas de cinema. Grandes marcas do mercado atual participaram na divulgação, criando produtos temáticos que instantaneamente se tornaram itens de desejo entre os fãs. Canecas, copos, chaveiros, itens de maquiagem e outros objetos colecionáveis reforçam o apelo comercial da produção e mostram como o universo da revista “Runway” ultrapassa a ficção e se insere diretamente na lógica de consumo contemporânea. 

Meryl Streep e Anna Wintour - ex-editora chefe da Vogue e suposta inspiração para a personagem Miranda -  protagonizaram um encontro para um vídeo promocional, que foi produzido pela revista Vogue americana. Esse material fez parte da divulgação da edição de maio da revista e serviu como uma ação de promoção estratégica para a estreia de O Diabo Veste Prada 2.   

A recepção crítica tem sido mista, variando entre o entusiasmo dos fãs e análises mais criteriosas por parte da imprensa especializada. Muitos elogiam o carisma do elenco e a tentativa de atualizar o debate sobre o mundo da moda e do jornalismo, enquanto outros apontam que a narrativa, em certos momentos, depende excessivamente da  nostalgia. Ainda assim, há consenso de que o filme consegue recuperar parte do brilho do original, especialmente nas cenas conduzidas por Meryl Streep. 

O site Rotten Tomatos possui avaliações e comentários sobre obras cinematográficas, feitas por fãs e especialistas. De acordo com a Sara Michelle Fetters, crítica de cinema, “o novo filme é como uma visita agradável com velhos amigos; só não entre nele antecipando nada mais do que isso.” Na plataforma, o longa teve 76% de aprovação dos críticos e 86% do público.

A mudança de tom em relação ao primeiro filme é perceptível. Antes a história focava na iniciação de Andy em um ambiente exigente, agora o conflito gira em torno da permanência e da reinvenção. A trilha sonora acompanha essa transição, mesclando referências modernas com sons do passado, reafirmando o diálogo entre tradição e inovação que atravessa toda a obra. Runway, de Lagy Gaga e Doechii, aparece como destaque no lançamento, enquanto que, no primeiro, Suddenly I See de KT Tunstall é considerada a principal música da obra. Entretanto, ambos apresentam a canção Vogue de Madonna, mesmo que de forma discreta. 

Mais do que revisitar personagens icônicos, O Diabo Veste Prada 2 propõe questionamentos atuais: até que ponto é possível equilibrar ética e mercado? É viável manter tradições em um cenário que exige constante renovação? E, sobretudo, qual é o preço de permanecer no topo? Ao levantar essas questões, o filme se apoia na familiaridade de seu universo para construir uma narrativa que, apesar de imperfeita, encontra espaço para se conectar com o presente. 

Protagonizado pelo sobrinho do cantor, o longa celebra o legado do artista e aposta na nostalgia para conquistar os espectadores
por
Mariana Araujo Correia
|
29/04/2026 - 12h

A cinebiografia de Michael Jackson estreou nesta quinta-feira (23). “Michael”, dirigido por Antoine Fuqua e produzido por Graham King (conhecido pela produção de Bohemian Rhapsody), tem duração de pouco mais de duas horas e aborda a trajetória do cantor desde o início do grupo Jackson Five até a apresentação do álbum “Bad”, em 1988. Cercado por expectativas, o longa chega aos cinemas com uma divisão entre crítica e público: enquanto especialistas apontam superficialidade, fãs elogiam a emoção e a fidelidade da produção.

A trama se desenvolve em meio à criatividade do artista, explorando não apenas sua carreira, mas também sua vida pessoal. O filme evidencia os conflitos e a relação difícil com o pai, Joe Jackson, retratado como uma figura rígida e abusiva. Em diversos momentos, ele reforça a frase “ou vocês são vencedores ou perdedores” e faz comentários ofensivos sobre a aparência do filho. Essas cenas ajudam a explicar inseguranças que acompanharam o cantor ao longo da vida.

A produção também destaca a generosidade de Michael e sua dedicação na criação de cada música e clipe, evidenciando o cuidado que tinha antes de qualquer lançamento. O filme reforça a busca incessante pelo perfeccionismo e a excelência que ajudaram a consolidar o título de “Rei do Pop”. A cinebiografia apresenta ainda shows e momentos icônicos, permitindo ao espectador vivenciar a emoção de uma apresentação do artista.

A narrativa também se aprofunda muito na questão de “Neverland”, mostrando sua paixão pela história e o desejo de acolher e ajudar o maior número possível de pessoas. Nesse contexto, o longa também mostra a relação afetuosa com os animais, aos quais ele não chamava de “bichos de estimação”, mas sim de “amigos”.

O filme ainda relembra um marco importante da cultura pop: o momento em que Michael rompeu barreiras raciais na indústria musical ao se tornar o primeiro artista negro a ter um videoclipe completo e em alta rotação exibido na MTV, com “Billie Jean”. 

O filme é protagonizado por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor. As expressões, os passos de dança e, principalmente, a voz, muito semelhante à de Michael, são pontos fortes. 

O elenco conta também com Miles Teller, no papel de John Branca; Colman Domingo, como Joe Jackson; e Nia Long interpretando Katherine Jackson. Entre os momentos marcantes, está a cena em que John Branca, a pedido de Michael, demite Joe Jackson por fax. Outro destaque é quando Katherine confronta o marido e afirma que ele não pode mais agredir ninguém, já que Michael é um homem adulto.

O roteiro funciona bem como uma obra nostálgica e emocional, como um tributo ao artista. No entanto, falta profundidade em alguns pontos, algo comum em cinebiografias devido ao tempo limitado. Temas importantes da carreira de Michael não são muito explorados ou sequer aparecem, como o projeto da canção “We Are The World” organizado por Michael Jackson e Lionel Richie.

A fotografia aposta em contrastes marcantes e cores densas, com uma iluminação projetada para recriar a experiência de um show, evitando uma abordagem documental. O filme prefere exaltar a performance do artista em vez de adotar um tom mais neutro.

Os figurinos criados pelo figurinista Marci Rodgers, são um dos pontos altos da produção. A nostalgia visual é bem trabalhada com peças fiéis e marcantes, como as icônicas jaquetas da Victory Tour (1984) e de Thriller.
 

Figurino do Michael na última apresentação da “Victory Tour”. Foto: Reprodução/Instagram/@jaafarjackson
Figurino do Michael na última apresentação da “Victory Tour”. Foto: Reprodução/Instagram/@jaafarjackson 

A trilha sonora é, sem dúvida, um dos principais elementos do filme. Reunindo grandes sucessos de diferentes fases da carreira, utiliza gravações originais, preservando a essência da voz única de Michael Jackson.

A recepção da crítica foi negativa. No site Rotten Tomatoes, o filme conta com cerca de 38% de aprovação. Muitos críticos consideraram a obra clichê e criticaram a ausência das acusações de pedofilia envolvendo o cantor. A decisão de encerrar a narrativa em 1988 foi interpretada por parte dos críticos como uma forma de driblar controvérsias que marcaram a imagem pública de Michael Jackson nos anos seguintes. A produção teria investido US$ 10 milhões em regravações e ajustes para eliminar o terceiro ato inicialmente previsto.

O crítico Nicholas Barber, da BBC, afirmou: “o diálogo funcional tem toda a nuance de uma placa de trânsito”. Em contrapartida, TJ Jackson saiu em defesa do longa dizendo: “ Nunca deem ouvidos aos críticos ‘profissionais’ quando se trata da minha família. Nunca.“

Já o público teve uma reação bastante positiva, com cerca de 96% de aprovação, evidenciando uma forte conexão emocional com a obra. 
 

Audiência tem 96% de aprovação. Foto: Reprodução/Instagram/@michaelmovie
Audiência tem 96% de aprovação. Foto: Reprodução/Instagram/@michaelmovie 

“Michael” (2026) não reinventa a cinebiografia como o cantor reinventou a música, mas ainda assim emociona e carrega significado. O encerramento sugere uma possível continuação para contar os próximos passos de sua vida. O filme é ideal para fãs do artista e para aqueles que desejam conhecer mais sobre sua trajetória. Afinal, Michael Jackson sempre foi digno do título de “Rei do Pop”.
 

 

Segredos sombrios do passado transformam a perspectiva do casamento em um campo minado emocional
por
Marina Garcia
Anna Cândida
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21/04/2026 - 12h

                                                        

 Imagem do pôster do filme The Drama - Foto: @thedrama / Instagram
Imagem do pôster do filme The Drama. Foto: Reprodução/@thedrama 

O filme The Drama, dirigido e roteirizado por Kristoffer Borgli, chegou aos cinemas brasileiros no dia 9 de abril de 2026. A proposta mergulha em dinâmicas emocionais complexas intensificadas pela iminência de um casamento. Distribuído pela Diamond Films e produzido pela A24, o longa despertou interesse por reunir nomes de peso e pela estética característica da produtura, como Zendaya e Robert Pattinson. 

Conhecido por trabalhos como O Homem dos Sonhos, Borgli mantém aqui sua abordagem provocativa e, por vezes, desconfortável, explorando os aspectos do comportamento humano com um olhar irônico e crítico. Em The Drama, essa assinatura se traduz em uma narrativa que oscila entre o íntimo e o estranho, desafiando o espectador a interpretar não apenas os acontecimentos, mas também os silêncios do filme. 

No centro da trama estão os personagens vividos por Zendaya e Robert Pattinson, ambos os atores preocupados em consolidar carreiras marcadas por escolhas autorais. Zendaya, cuja carreira revela versatilidade em produções que vão do pop ao drama contido, apresenta uma atuação repleta de particularidades expressivas e ricas em detalhes. Enquanto Pattinson reforça sua trajetória em filmes independentes, apostando em personagens complexos e emocionalmente instáveis. 

A química entre os protagonistas sustenta grande parte da narrativa. O público é convidado a vivenciar o dilema interior dos personagens por meio de cortes rápidos, cenários imaginados e sons abafados. Ao mesmo tempo, o filme constroi um ritmo narrativo que gera angústia e tensão por meio da falha de comunicação dos personagens. Ainda assim, esse recurso contribui para a construção de uma atmosfera densa, elemento recorrente nas produções da A24 – estúdio que se consolidou por investir em projetos autorais e esteticamente marcantes, como Hereditário e Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.

Robert Pattinson e Zendaya como protagonistas do filme The Drama - Foto: @thedrama / Instagram
Robert Pattinson e Zendaya como protagonistas do filme The Drama. Foto: Reprodução/@thedrama

A recepção crítica de The Drama tem destacado justamente sua habilidade em desconstruir expectativas narrativas. Muitos espectadores apontam que o filme começa com a aparência de uma comédia romântica, mas gradualmente introduz um desconforto sutil que se intensifica até o desfecho, criando uma experiência marcada pela mistura de diversão, drama e certo caos emocional. Esse movimento também é reforçado pela crítica especializada: no Rotten Tomatoes, diferentes análises descrevem o filme como profundamente desconfortável, capaz de provocar “risos nervosos” e gerar debates após a sessão, evidenciando seu caráter provocativo. 

A mudança de tom ao longo da trama é frequentemente citada como um dos principais acertos da direção de Kristoffer Borgli, especialmente pela forma como a trilha sonora acompanha essa transformação, tornando as cenas progressivamente mais tensas e angustiantes. A crítica também ressalta o envolvimento proporcionado pelos personagens imperfeitos e humanos, além de reforçar o equilíbrio entre o drama e toques de comédia, sustentado pelos protagonistas, que ajudam a dar profundidade aos temas abordados. 

O longa propõe reflexões desconfortáveis como: O quanto você conhece seu parceiro? O que você seria capaz de perdoar? Qual é a pior coisa que você já fez? A fragilidade dos personagens, suas dúvidas e medos, os tornam verossímeis. O filme é atual, sem tornar-se artificial, desde o figurino até a ambientação dos cenários, constrói-se uma atmosfera contemporânea. Elementos do cotidiano, como o Google Docs ou o Spotify não parecem forçados, mas parte de um dilema que poderia acontecer com qualquer um. 


 

“Frankenstein” de Guillermo Del Toro, traz uma perspectiva sensível sobre o clássico
por
Isabelli Albuquerque
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03/11/2025 - 12h

A nova adaptação cinematográfica do clássico da literatura gótica, “Frankenstein”, chegou aos cinemas brasileiros no dia 25 de outubro por um curto período de tempo. O filme, dirigido pelo ganhador do Oscar, Guillermo Del Toro, é uma produção da Netflix e será lançado mundialmente na plataforma dia 7 de novembro. A produção traz uma nova perspectiva sobre a história, contando com a sensibilidade de Del Toro, que é especialista em mostrar o lado humano de criaturas assustadoras.

 

Alerta de Spoiler!

 

A trama é dividida em três partes: um curto prólogo, o ponto de vista do Dr. Victor Frankenstein (Oscar Isaac) e, por fim, o ponto de vista do Monstro (Jacob Elordi). Já no prólogo, podemos ter uma ideia da relação de Victor com sua criação, por mais que essa primeira impressão se prova errada ao longo da história.

Primeiramente, o público é introduzido à uma embarcação presa no gelo, cuja tripulação tenta desesperadamente libertá-la. Em meio ao caos de homens trabalhando duro, o corpo inconsciente de Victor é avistado e imediatamente transportado para a cabine do capitão. Após seu resgate, a criatura ressurge em meio ao deserto congelado e ataca o navio durante um acesso de raiva, enquanto seu frágil e ferido criador se encolhe na cabine e implora ao capitão para ser sacrificado em prol de seus marinheiros. Essa introdução engana a audiência propositalmente, mostrando um Monstro desregulado e violento que faz de seu pobre criador sua vítima.

Após o caos ser controlado, Victor começa a narrar sua história de vida e explica o que o levou a criar o Monstro. De uma criança sensível a um adulto enlouquecido com ideais de grandeza, nós somos introduzidos à natureza narcisista do doutor aos poucos.

Sua maior motivação em seus estudos é a morte de sua mãe no parto e o fato de que seu pai - outro grande médico, outro mesquinho Victor - não conseguiu salvá-la de seu destino. O até então doce garoto, cresce com uma raiva reprimida que se torna seu combustível ao desenvolver ideias malucas e apresentá-las em frente a outros doutores em busca de financiamento.

 

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Oscar Isaac caracterizado como Victor. Foto: Divulgação/Netflix

Nessa sequência, somos introduzidos a outro personagem, Heinrich Harlender, um rico nobre e entusiasta da medicina que passa a apoiar Frankenstein em seu projeto. Herr Harlender patrocina o cientista e cede uma torre inóspita para seus experimentos.

Após cerca de 30 minutos do longa, um instrumental romântico toca ao fundo enquanto a câmera aos poucos se aproxima de Elizabeth Harlander (Mia Goth), a curiosa sobrinha de seu patrocinador, que cativa Victor com suas opiniões fortes e interesses “não-femininos” em ciência e política.

Durante o desenvolvimento da relação de ambos os personagens, já é possível perceber a presunção de Victor, que se apaixona por Elizabeth por mais que ela seja noiva de seu irmão mais novo, Will (Felix Kammerer). Os dois possuem uma natureza semelhante, obscura e melancólica, que faz com que se aproximem mais do que deveriam. Em seguida, ao confessar seu amor pela cunhada, o conde se zanga ao receber uma negativa.

O diálogo da cena é muito interessante e reflete sobre os papéis de gênero numa sociedade inglesa do século XIX. Elizabeth até possuía os mesmos sentimentos românticos que Victor expressou em sua confissão, porém fez a escolha segura de se casar com Will ao ver a propensão obsessiva do cunhado por seus projetos.

É na torre que Victor dá vida à sua obra-prima, o Monstro. O primeiro contato dos dois é lindo de se ver, uma criatura tão grande agindo como uma criança perante seu entusiasmado criador poderia ser cômico se não fosse uma obra de Del Toro.

O diretor é conhecido por abordar temáticas fantásticas com criaturas monstruosas, submergindo as regras e transformando essas bestas em seres lindos e humanizados. Afinal, “Frankenstein” é sobre isso. Um ser de aparência assustadora sendo tudo aquilo que seu belo e nobre criador nunca conseguiu:, um ser humano sensível.

O estilo de Del Toro continua ao longo de toda essa parte, mostrando as diferenças de comportamento entre Victor e o Monstro: o primeiro um homem bonito e inteligente que age com violência, e o segundo uma junção de partes humanas de aparência medonha que possuí mais alma que o doutor.

Um dos momentos mais significativos do filme é quando a criatura diz sua primeira palavra: Victor. Essa única palavra que contéêm tantos sentimentos por trás se torna a sina de Frankenstein. O que antes demonstrava ternura, virou a prova de sua falha como criador.

A partir deste momento que a loucura começa a sangrar pela bela fachada. Victor se mostra um homem violento e frustrado, descontando toda sua raiva em sua criação. Destaca-se a atuação de Oscar Isaac nos momentos de loucura de seu personagem, que interpreta um cientista paranóico com maestria. Em seus expressivos olhos é possível enxergar a mente perturbada do doutor, que fere a criatura sem motivos e causa nojo na audiência.

A atuação de Goth também é excepcional, em especial na cena mencionada anteriormente e no momento em que encontra a criatura pela primeira vez. Sua personagem é uma mulher inteligente e sensível, sendo retratada como uma figura materna em contraste com a paternidade tóxica de Victor. 

O primeiro contato que ela tem com o Monstro é doce, gentil e emocionante. Imediatamente ela evoca um sentimento de ternura misturado com raiva pelas ações de Victor. Mais um ponto importante é a química entre Goth e Elordi, que atuam com uma leveza e naturalidade juntos, se encaixando perfeitamente com o objetivo da cena: montar um cenário para o futuro romance.

 

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O primeiro encontro da criatura com Elizabeth. Foto: Divulgação/Netflix

 

No auge de sua loucura e raiva, evocada pelas opiniões de Elizabeth sobre seus métodos, Victor ateia fogo na torre de Harlender após a visita de seu irmão e da noiva. O gesto impulsivo é rapidamente arrependido, mas já é tarde para salvar sua criação.

Quem duvidou da capacidade de atuação de Elordi como o Monstro, foi positivamente surpreendido com sua retratação, sendo um dos pontos altos do filme. Desde os maneirismos da criatura ao nascer, remetente aos movimentos de um filhote que está conhecendo o mundo, à raiva melancólica que cresce por seu criador ao longo da película.

Seu capítulo, mesmo sendo mais curto que o de seu criador, mostra como é crescer num mundo onde tudo é novo sendo diferente dos demais. O telespectador é transportado para a mente do personagem imediatamente após Victor atear fogo à torre e vê a pobre criatura desesperada para se libertar do fim iminente. Assim, presa às correntes, ela se assemelha a um animal trancafiado em uma cela, lutando ao máximo para se libertar de seu captor.

A fuga é bem sucedida e o Monstro se depara com o mundo fora da torre escura pela primeira vez. A sensação da terra abaixo de seus pés, a luz do sol, tudo é novo para ele, que compartilha uma cena adorável com um cervo na floresta ao alimentar o animal.

Entretanto, sua inocência é repentinamente abalada quando encara a morte pela primeira vez e é atacado por outros seres humanos. Ele foge de seus caçadores e se esconde no celeiro de uma casa de camponeses, onde rapidamente desenvolve uma afeição por seus anfitriões, os ajudando secretamente. Esses camponeses são os mesmos que o atacaram anteriormente, mas a criatura, em sua inocente gentileza, cuida dos moradores sem esperar nada em troca. 

Mais para a frente, uma amizade entre ele e o ancião da casa nasce, e essa sequência é essencial para a formação do caráter da criatura. O velho possui um grande interesse por literatura, e ensina a besta a ler e escrever, além de ensinamentos importantes sobre filosofia e religião, que abrem a mente do Monstro e o ajudam a amadurecer.

Após uma tragédia acontecer na pequena casa, a criatura enfrenta sua própria mortalidade ao fugir mais uma vez. A percepção de que é imortal a devasta, ao ponto de ir atrás de Victor suplicar pela criação de uma companhia para sua alma solitária. O confronto acontece na noite do casamento de Elizabeth e Will e, ao ter o pedido negado pelo conde - que têm o ego ferido ao enfrentar sua obra falha - o Monstro destrói a cerimônia e leva sua paixão, Elizabeth, consigo.

 

A arte por trás das câmeras

 

A cenografia do longa é excepcional e foi assinada por Dan Lausteen, que já colaborou com Del Toro em outras obras. As cores são utilizadas de forma muito inteligente e esteticamente satisfatórias, tons vibrantes (como o vestido vermelho da mãe de Victor) em meio a cenários pálidos e quase que monocromáticos, criam um contraste belíssimo que valorizam e ajudam a contar a história sem a necessidade de diálogos.

A cena da criação do Monstro é multissensorial, desde a beleza dos cenários ao design de som, que juntos provocam uma explosão de sentimentos na audiência, que observa maravilhada pai dar vida ao filho em meio a uma tempestade torrencial.

Del Toro afirmou em uma entrevista no Festival de Veneza - onde o filme teve seu lançamento - que era muito importante para ele a utilização de cenários reais e efeitos práticos. "Sempre esperei que o filme fosse feito nas condições certas, criativamente, em termos de atingir o escopo necessário, para torná-lo diferente, para fazê-lo em uma escala que permitisse reconstruir o mundo inteiro", contou. Essa exigência do diretor foi essencial para o ar surrealista do longa, que conta com explosões e cenários ricos em detalhes. O laboratório do Dr. Frankenstein, por exemplo, remete ao Palácio de Esmeraldas de Oz, com seus tons de verde brilhante e arquitetura.

 

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Os cenários do filme foram todos construídos, exigência do diretor. Foto: Divulgação/Netflix

 

O diálogo final, entre Elordi e Isaac, é poderoso e tocante. Enfim, ambos deixam a raiva um pelo outro de lado e aceitam seus respectivos papéis: Frankenstein como pai e o Monstro como filho. A última fala da criatura no filme é “Victor”, o nome de quem ao mesmo tempo o trouxe ao mundo e se tornou seu mundo.

O filme é finalizado com um frame da criatura de costas observando o nascer do sol após a morte de seu criador. Além de visualmente fantástica, é uma perfeita representação do arco do personagem no longa, que passa de uma criatura que foi presa por quem a deu vida, para alguém livre para ver o mundo como quiser, com a alvorada trazendo um mundo de recomeços.

Entretanto, certos aspectos causam alguns incômodos. A obra chama a atenção por seus visuais impressionantes, mas faltou criatividade nos jogos de câmera, que não fazem juz à beleza do cenário. Em sua maioria, são quadros fechados focando apenas no objeto central da cena, sem explorar os arredores.

Outro ponto que desagrada, foi a obviedade de ser um filme para a TV. Produções da Netflix possuem estéticas parecidas, e precisam ser filmadas de certa forma para a imagem imprimir bem em uma televisão. Infelizmente, essa formatação é bem notável no longa, que, mesmo sendo uma obra incrível de experienciar no cinema, se encaixa melhor numa tela de 40 polegadas. “Frankenstein” é uma adaptação única e sensível sobre um clássico já conhecido no imaginário popular, uma perspectiva interessante que com certeza vale a pena ser presenciada numa tela de cinema. E, quem sabe, até mudar a visão do público sobre a verdadeira natureza humana.

Sob o foco de um olhar revolucionário, em sua primeira grande retrospectiva no Brasil, o IMS Paulista apresenta a obra multifacetada de Gordon Parks, artista que usou a imagem para expor injustiças e humanizar histórias silenciadas.
por
Anna Cândida Xavier
Manuela Amaral
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27/10/2025 - 12h

Imagem retirada do arquivo de fotografia - Fundação Gordon Parks

Quando Gordon Parks escolheu a fotografia como linguagem, não foi por acaso, foi por urgência. Afro-americano em um país que institucionalizava a exclusão, ele transformou a câmera em meio de combate, compreensão e memória. A partir deste mês de outubro, o público brasileiro tem a chance inédita de conhecer esse legado de perto.

A exposição "Gordon Parks: A América sou eu", em cartaz no Instituto Moreira Salles, na Avenida Paulista, entre os dias 4 de outubro de 2025 e 1º de março de 2026, reúne cerca de 200 obras que atravessam décadas da história dos Estados Unidos, e revelam como a arte pode ser um testemunho radical do seu tempo.

Entre fotografias, vídeos, publicações e documentos raros, a mostra percorre os anos de 1940 a 1970 com um foco preciso: revelar as marcas da desigualdade racial, os bastidores da luta por direitos civis e os pequenos gestos cotidianos que resistem à opressão. Através de sua lente, Parks não só documentou uma era, ele nos desafia a revê-la sob outra perspectiva.

Imagem retirada do arquivo de fotografia - Fundação Gordon Parks

Quem foi Gordon Parks

Nascido em 1912, no Kansas, Gordon Parks enfrentou a pobreza e o racismo desde muito jovem. Sem formação formal em fotografia, aprendeu por conta própria e, com uma mistura de talento, persistência e urgência política, se tornou o primeiro fotógrafo negro a trabalhar para revistas como Life e Vogue.

Seu trabalho ultrapassou as páginas editoriais e assumiu contornos de manifesto. Parks não registrava apenas o que via, ele buscava o que precisava ser visto. Sua lente alcançou desde os bastidores da luta pelos direitos civis até os lares da população marginalizada, revelando a vida com rara empatia e senso de justiça.

Mas Gordon Parks não era apenas fotógrafo. Dirigiu filmes (como o cultuado Shaft, de 1971), compôs trilhas sonoras, escreveu romances e memórias. Essa multiplicidade criativa se reflete na exposição, que apresenta não só sua obra visual, mas o pensamento e o ativismo que moldaram sua trajetória.

 

A exposição: 

 

· Escopo e curadoria

 A curadoria, assinada por Janaina Damaceno (curadora‑chefe) e Iliriana Fontoura Rodrigues (assistente) do IMS, foi organizada em parceria com a The Gordon Parks Foundation, que detém e preserva o acervo do fotógrafo.

 A mostra ocupa os 7º e 8º andares da sede paulista do IMS, com entrada gratuita, de terça-feira a domingo (10h às 20h), exceto às segundas-feiras.

 · Conteúdo e destaques

Cerca de 200 obras entre fotografias, filmes, matérias de revistas e livros;

Imagens de grandes personalidades do movimento pelos direitos civis dos EUA, como Martin Luther King Jr., Malcolm X e Muhammad Ali.

Séries que documentam a segregação racial e o cotidiano das comunidades negras, sobretudo no sul dos EUA.

Surpresa brasileira: imagens de Parks no Brasil, em 1961, onde ele fotografou em favelas cariocas a convite da revista Life. 

  · Por que visitar

 Porque a mostra combina excelência estética com peso histórico e político. É uma oportunidade não apenas de ver belas fotografias, mas de se inserir em narrativas cruciais da modernidade, racismo, dignidade, arte e memória.

A exposição assume uma relevância atual enorme: registrando o olhar de um fotógrafo negro sobre o próprio povo negro, em tempos de segregação e resistência, Gordon Parks coloca‑se na linha de frente da arte comprometida. 

 A presença de imagens no Brasil, que muitas vezes não são tão conhecidas, amplia o alcance da narrativa: mostra que o fotógrafo não se limitou aos EUA, mas teve também diálogo com o Brasil e sua própria complexidade social.

 Para o público contemporâneo, a mostra questiona: como lidamos hoje com as desigualdades raciais, que formas de visibilidade permitimos e quais vozes continuamos a silenciar? A arte de Parks nos convida a olhar de frente.

Imagem retirada do arquivo de fotografia - Fundação Gordon Parks

Como aproveitar sua visita

Verifique o horário de funcionamento: terças a domingos e feriados, 10h às 20h. Última admissão 30 minutos antes do fechamento. 

Local: IMS Paulista, Av. Paulista 2424, São Paulo (SP).

A entrada é gratuita.

Dica: dedique tempo para observar não só o “clique” famoso, mas as legendas, contexto histórico, objetos de revista ou filme que complementam as imagens.

Leve algum espaço para reflexão pessoal, ao ver uma fotografia de segregação, de infância, de cotidiano, vale pensar: “O que essa imagem me provoca? Qual história ela conta ou esconde?”

“A América sou eu” é muito mais do que uma exposição de fotografias: é um convite ao encontro com uma das vozes visuais mais poderosas do século XX, que articulou arte, denúncia, beleza e humanidade. Ver Gordon Parks é ver, e reconhecer a complexidade da vida negra, e a força de quem escolheu empunhar a câmera como arma de luz e de memória.

 

Após sua visita à exposição, teste seu conhecimento nesse quiz!

https://pt.quizur.com/trivia/a-vida-e-obra-de-gordon-parks-1r6mV

Peça de Antônio Fagundes e Christiane Torloni tem temporada prevista até dezembro
por
Giovanna Montanhan
|
01/10/2024 - 12h

A estreia da peça ‘Dois de Nós’ ocorreu no dia 05 de setembro, no Teatro TUCA. O elenco reúne grandes nomes do teatro e da televisão brasileira, como Christiane Torloni, Antônio Fagundes, Thiago Fragoso e Alexandra Martins. É dirigido por José Possi Neto, e concebido e escrito por Gustavo Pinheiro, jornalista que também assinou os textos de ‘Antes do Ano que Vem’ e ‘A Lista’. O palco do Teatro TUCA foi escolhido para ser a primeira casa do espetáculo, que ficará em cartaz até dia 15 de dezembro.

A premissa é de um mesmo casal, retratado em dois momentos distintos de suas vidas - na juventude, sendo interpretados por Alexandra e Thiago e na velhice, por Christiane e Antônio. Em um determinado momento, ambas as versões se encontram em um mesmo quarto de hotel, onde o passado e o futuro se entrelaçam, revelando segredos, frustrações e sonhos. O choque entre duas perspectivas de si mesmos desencadeia uma série de revelações e questionamentos. 

elenco
Elenco da peça 'Dois de Nós' - Reprodução: Instagram @doisdenosteatro

 

A química e o entrosamento entre os atores é um ponto de destaque na peça. Alguns membros do elenco da peça já haviam trabalhado juntos anteriormente, como Torloni e Fagundes, que contracenaram juntos em ‘Amizade Colorida’ (1981), ‘Besame Mucho’ (1987) ‘Louco Amor’ (1983),  ‘A Viagem’ (1994) e ‘Velho Chico’ (2016).

Alexandra Martins explicou, em entrevista à AGEMT, que o texto foi escolhido pelo próprio Gustavo Pinheiro, e escrito especificamente no elenco atual. Ela se apaixonou imediatamente pela obra assim que teve o primeiro contato com o roteiro, que discute a questão geracional nos relacionamentos. 

Antonio Fagundes afirmou, também para a AGEMT, que o texto é “perfeito para o momento atual, em um período em que tantas pessoas estão se afastando umas das outras em meio à polarização”.

Para ele, a peça traz uma mensagem importante de união. Ao comentar sobre suas contribuições ao personagem, mencionou que “todo ator sempre contribui para além do que está no texto de alguma forma”. 

Já Thiago Fragoso explicou que, embora o texto normalmente seja o primeiro fator a atrair um ator, foi o convite de Fagundes que o motivou para o trabalho. Segundo ele, que já havia trabalhado com o ator na televisão, a parceria no teatro seria um próximo passo. Rasgou elogios a Antônio, o reverenciando como “uma lenda do ofício”, como alguém que “continua a se superar”.

Por fim, mencionou que o encontro é uma honra e uma experiência muito especial, e, também fez questão de reafirmar a genialidade do texto. 

A peça utiliza do recurso da metalinguagem e leva o público para uma reflexão sobre as relações humanas e suas imperfeições, mostrando como elas são, na verdade, perfeitas em sua complexidade.Ao contrário das idealizações trazidas pelas comédias românticas norte-americanas, o espetáculo confronta o espectador com a realidade.

O espetáculo é recheado de momentos de gargalhadas intensas e emoções profundas, proporcionados por uma escrita atual e sagaz, que retrata os desafios da modernidade de maneira leve e divertida. O humor, aliado à reflexão, faz também com que o público não apenas se divirta com as situações cotidianas encenadas no palco, mas também se enxergue nelas, como um autorretrato. 

Os ingressos estão disponíveis na bilheteria do Teatro TUCA e também no site/app do Sympla. Os valores começam a partir de R$80. Entretanto, docentes e discentes da PUC-SP pagam R$20. 

Também é possível adquirir uma visita guiada pelos próprios atores aos bastidores, camarins e coxias por R$100 a mais. 

Ao fim de cada sessão, há um bate-papo onde os atores interagem com a plateia e respondem respectivas dúvidas e impressões sobre o espetáculo apresentado.

 

O grupo de super-heróis, expondo assuntos como genocídio e preconceito, é elevado a outro patamar
por
Matheus Henrique
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14/06/2024 - 12h

A Marvel, após enfrentar recepções mornas em longas como Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania (2023) e As Marvels (2023), e experimentar séries igualmente rejeitadas pelo público e crítica, como Invasão Secreta (2023) e She-Hulk (2022) conseguiu oferecer em X-Men '97 uma visão madura e consciente da sociedade, redimindo-se de suas últimas produções frequentemente criticadas pelo tom infantil e despolitizado.

A história se inicia um ano após o fim da quinta temporada da série clássica dos anos 90, na qual Charles Xavier supostamente morreu devido a um atentado de Henry Peter Gyrich, um dos vilões clássicos da série. Simultaneamente, o grupo ainda lida com extremistas que visam o extermínio da raça mutante. O ódio anti-mutante adquire aqui um pano de fundo político, simbolizando a aversão a qualquer minoria. Com a quase morte de Xavier, Scott Summers, o Ciclope, assume a liderança da equipe, que posteriormente é transferida para Erik Magnus Lehnsherr, o Magneto.

A repulsa, que também é o principal fio condutor da série, se demonstra nessa sociedade fictícia como algo brutal, em que visões de mundo, mesmo desejando o melhor para sua espécie, se chocam, convidando o público a tomar um lado. Em um polo, temos a ideologia de Magneto, que aposta na segregação de sua espécie mutante para cessar o ódio contra eles, enquanto Xavier, pacifista, idealizava a coexistência da raça evoluída com os seres humanos. Magneto, ao ser posto como líder do grupo, tenta assumir uma postura próxima à de Xavier, mesmo sendo recebido com desconfiança por líderes mundiais e pelos próprios X-Men.

No quinto episódio da temporada, intitulado "Lembre-se Disso", ocorre o genocídio mutante em Genosha, um evento devastador que resultou na morte de Gambit, um dos X-Men, e de milhares de outras vítimas. Genosha, originalmente apresentada na série clássica dos anos 90 como uma base para trabalho escravo, foi reinterpretada em X-Men '97 como uma criação de Magneto, destinada a ser um lar acolhedor para milhares de mutantes de diversas origens e habilidades.

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Vampira chora abraçada ao corpo de Gambit, que morreu após o massacre - Fonte: Disney

Além disso, os vilões da série também contribuem para a alegoria explorada. Bastion é retratado como o responsável pelo massacre de mutantes, incluindo crianças, que ocorreu com o aval da ONU. Paralelamente, há a presença de um lunático eugenista, cujo discurso se assemelha ao do nazismo, personificado na figura do Dr. Sinistro. Esses elementos reforçam a temática complexa da série e instiga os espectadores a refletirem sobre questões étnicas.

A animação faz questão de apresentar os problemas que essa sociedade enfrenta, desde um médico que se recusa a realizar um parto mutante por aversão a raça, até uma comunidade conservadora que rejeita a inclusão dos mutantes na sociedade, com medo de perder seus empregos, já que eles são vistos como superiores devido aos seus poderes, e representam uma ameaça ao estado de bem-estar dessa população, numa clara metáfora à xenofobia estadunidense. Este é um dos maiores acertos da Marvel, que nesta produção não teme criticar temas como conservadorismo e reacionarismo.

Personagens como Tempestade, que perde seus poderes no início da temporada e parte em uma jornada de autodescoberta, ou Madelyne Pryor, que reflete preocupações com o preconceito que sua prole mutante enfrentaria, simbolizam, respectivamente, questões ligadas à negritude, ao feminismo e à maternidade. Aqui, os X-Men são pensados não apenas como um coletivo, mas também através de histórias individuais, com suas nuances.

A primeira temporada da saga está completa no Disney+, e é criada e roteirizada por Beau DeMayo (The Witcher: A Lenda do Lobo). Nessa primeira leva de episódios, se mostra melhor amarrada em comparação à série original, em que o estilo de aventura procedural, com conflitos resolvidos em cada episódio, é deixado de lado para entregar uma narrativa coesa e muito bem construída, desenvolvida ao longo de toda a temporada.

A animação em si é um dos pontos altos da série, extremamente colorida, enérgica e com uma excelente trilha sonora inspirada em Michael Jackson e na banda Radiohead, com presença marcante de sintetizadores, que demarca bem a trilha de cada um dos personagens. As referências de época são outro ponto de destaque, como no quarto episódio, em que a série brinca com a estética noventista, referenciando jogos de 8 e 16 bits, populares na época, oferecendo uma experiência agradável e nostálgica de assistir.

Comparada a outras séries, X-Men '97 se destaca por seu enfoque crítico e principalmente político, no qual se alegoriza aos mutantes questões minoritárias integrado de forma coesa à narrativa, sem parecer forçado. É fácil perceber que a série dialoga com o que ocorre na realidade, como o próprio criador e roteirista da série fez questão de mencionar. DeMayo escreveu em uma postagem no X, antigo Twitter, que se inspirou em eventos reais, como os ataques em Tulsa, na boate Pulse e às Torres Gêmeas, para criação do quinto episódio.

A série, através de personagens complexos e temas relevantes, estabelece um novo padrão para animações de super-heróis. Ao utilizar os personagens como metáfora para temas como autoaceitação e preconceito, demonstra não temer uma experiência provocativa e que leve seu público à reflexão. A segunda temporada do seriado está em estágio de produção, com uma terceira confirmada pela Marvel Studios.

Pabllo Vittar celebra suas raízes no tecnobrega e forró ao resgatar hinos que fizeram parte da sua formação musical.
por
Pedro da Silva Menezes
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11/04/2024 - 12h

Na tarde desta terça-feira (09) Pabllo Vittar realizou uma listening party para mais de 300 pessoas, em parceria com a Apple Music, para iniciar a divulgação de “Batidão Tropical Vol. 2”, novo álbum da artista. Ingressos foram distribuídos através da sua central no X para os fãs ouvirem o álbum horas antes do lançamento oficial no Cinema Marquise junto a Drag Queen.

Fãs com Pabllo Vittar no cinema após a audição do álbum.
Fãs com Pabllo Vittar após a audição do álbum. FOTO: Divulgação /Central Pabllo Vittar

O álbum é a sequência do “Batidão Tropical”, obra lançada durante a pandemia, que surpreendeu os fãs ao trazer músicas com características das sonoridades do norte e nordeste do país. Estão presentes ritmos como o tecnobrega com a energética “Triste com T” e regravações de canções de bandas locais, como a de “Zap Zum” da Companhia do Calypso. Música que viralizou durante as Olimpíadas de Tóquio em 2021 através de vídeos feitos pelo jogador Douglas Souza do time brasileiro de vôlei, chegando até a tocar durante um dos jogos da seleção.

Eleito um dos melhores álbuns de 2021 pela APCA, o disco agradou público e crítica e iniciou um movimento nas redes pedindo sua continuação. Após dois anos do lançamento do original, o volume dois chegou e os vittarlovers conferiram as 11 faixas, incluindo duas já conhecidas pelo público, “Pede Pra Eu Ficar (Listen To Your Heart)” e “Ai Ai Ai Mega Príncipe”, uma inédita, “Idiota” e a gravação ainda conta com 3 músicas bloqueadas.

Na audição Vittar se mostrou alegre com resultado dos vídeos que ilustram a atmosfera construída pela sonoridade e resgata visuais dos anos 2000, época em que as composições repaginadas no volume dois se popularizaram. A Queen afirmou, em uma rodada de perguntas dos fãs durante o evento, que as 3 canções bloqueadas são colaborações. O cantor Nattanzinho já confirmou por meio de seu Instagram que irá lançar algo com a drag gerando expectativas sobre sua participação em uma das canções. Além disso, ela disse que seu visualizer favorito de gravar foi “Me Usa”, originalmente da Banda Magníficos.

O ponto alto do álbum é a nova “Idiota”. Em entrevista ao Papel Pop, Pabllo conta que a faixa está pronta a dois anos, contudo, a produção inicialmente era um sertanejo, mas teve um trecho vazado a um ano atrás. O que foi sua motivação para mudar o ritmo e transformá-la em um melancólico e ao mesmo tempo energético forró que fez todos os ouvintes levantarem de suas poltronas durante a audição no cinema para apreciar finalmente - e oficialmente - o que os fãs chamaram de hino.

A artista demonstra sua originalidade e visão em “Não Desligue o Telefone”, originalmente de Tony Guerra. Na sua versão, ela não se limita em reproduzir o original e imprime sua identidade fundindo suas referências pop eletrônicas com o forró. Uma excelente regravação que evoca os trabalhos de Charli XCX, se esta tivesse nascido no Maranhão nos anos 90, assim como a cantora pop brasileira.

O “Batidão Tropical vol. 2” cumpre uma função cultural ao preservar ritmos populares brasileiros e composições que já foram regravadas anteriormente. Como é o caso de “Rubi”, da Banda Ravelly que ficou famosa em todo Brasil na voz da Banda Djavu e agora ressurge para uma nova geração pela voz de Pabllo Vittar. Com o álbum, Vittar mantém viva a memória sem abdicar da sua assinatura pessoal, mostrando seu poder ao reinventar clássicos, seja em suas performances vibrantes, sonoridades únicas ou clipes inovadores.

Best-seller de Carla Madeira tornou-se um dos livros de ficção mais vendidos do país
por
Bruna Quirino Alves
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14/11/2023 - 12h

“Tudo é rio” é o romance de estreia de Carla Madeira. Publicado pela editora Record, está na seleta lista dos livros brasileiros de ficção mais vendidos. Em 2021 e 2022, a obra vem dividindo com Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (o mais vendido da categoria no Brasil), a atenção de leitores e críticos. Também pela Record, a autora lançou Véspera (2021), o terceiro e inédito romance, e relançou A Natureza da Mordida (2022), o segundo, que havia sido publicado em 2018.

Tudo é rio de Carla Madeira é um livro sobre transbordamento, como a própria autora define. O processo de leitura te leva em uma montanha-russa onde o amor, o ódio e o perdão se misturam em um rio de sentimentos, os quais não se pode controlar.

A história traz três personagens principais: Lucy, prostituta da cidade, e o casal Dalva e Venâncio. Eles, até então muito apaixonados, tiveram o casamento marcado por uma tragédia, que mudou completamente a dinâmica entre eles, a partir desse momento Lucy atravessa a história dos dois e é atravessada por eles com a mesma intensidade.

Carla Madeira constrói camadas sem uma régua moral e seus personagens apresentam complexidade e profundidade, enquanto fogem de maniqueísmos. Ao longo do livro, o leitor se vê em uma posição de confusão constante e a autora provoca essa sensação intencionalmente, e com excelência.

Inventivo na forma, o romance organiza-se por capítulos que desobedecem a ordem cronológica e vão e voltam, tal como uma série televisiva em que a câmera muda a cada cena. O tema do amor e da tragédia não tem nada de original, mas o grande trunfo de Carla Madeira é a forma pela qual sua linguagem poética, suave, nos conta essa história.

A obra é questionadora e provocante em uma essência, mas o principal questionamento gira em torno do perdão: Como perdoar o imperdoável e lidar com o amor que permanece?

Carla não se atém à superficialidade ao narrar detalhadamente o quão excruciante é a dor que Dalva, a personagem principal, vivencia em sua jornada pelo luto, até o perdão. A escolha de repetir certas cenas durante a narrativa é proposital e enfatiza como a dor pode ser paralisante, se manter em um ciclo destrutivo parece ser a única escolha.

A violência doméstica é retratada a partir de uma perspectiva diferente. A autora se afasta do julgamento e demonstra empatia com as mulheres que não conseguem sair desse tipo de situação, o que pode ser visto no seguinte trecho da obra:

“Dalva poderia tantas coisas se pudesse. Mas só pôde o que fez. Quem vê de fora faz arranjos melhores, mas é dentro, bem no lugar que a gente não vê, que o não dar conta ocupa tudo.”

Após receber críticas por “romantizar” a agressão, a autora afirma que o intuito nunca foi esse. Ela explora a sua própria curiosidade que permeia as motivações que levam uma mulher violentada à escolher ficar.

Tudo é rio é uma investigação sobre a água, ou seja, sobre tudo aquilo que é tão potente que não se pode limitar à qualquer coisa além de seguir o próprio fluxo. O amor, o ódio, a raiva, são sentimentos que, quando represados, tensionam o sujeito que sente e acabam transbordando. Aqui temos uma obra que permanece ressonando no leitor, mas não em sua mente racional, mas nesse intangível lugar onde mora aquilo que não conseguimos traduzir em palavras, só sentir.

Jão reúne 12 mil fãs em uma audição exclusiva do seu novo álbum que busca referências oitentistas e exalta sua versatilidade.
por
Romulo Santana
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15/08/2023 - 12h

Depois de “Lobos” representando a terra, “Anti-Herói” o ar e “Pirata” a água, chega a vez de “Super”: o álbum de fogo. João Vitor Romania Balbino (28), mais conhecido como Jão, começou sua carreira com o lançamento de covers na internet, enquanto era graduando de publicidade e propaganda na USP. Com 5 anos de carreira, ele se tornou um nome em ascensão no cenário do pop nacional. Sua última turnê “Pirata”, contou com 40 apresentações — sendo 6 dessas esgotadas no Espaço das Américas. Já a “Super Turnê”, seu novo projeto, começa no dia 10 de Janeiro de 2024, no Allianz Parque, com a proposta de ser uma tour de estádios e arenas. Antes disso, Jão se apresenta no festival The Town no dia 2 de Setembro. “Coisas gigantes estarão presentes”, disse ele durante a audição exclusiva do álbum “Super”.

Um homem branco de cabelos platinados veste uma regata branca e uma calça jeans azul e está sentado em cima de uma cerca de madeira
Tracklist do álbum "Super". Imagem: Gabriel Vorbon. Reprodução Instagram

 

Seu novo lançamento tem referências oitentistas aparentes em sua sonoridade, trazendo novas histórias de amor nas composições inéditas, que também exploram a vida amorosa do cantor. No “lado a”, o disco busca ser mais leve, com instrumentais mais animados, como forma de revisitar sua juventude no interior, mas também suas histórias na atualidade, finalizando com a sétima faixa “Julho” – sendo também o lado mais comercial do disco.  Os destaques deste lado do projeto ficam para “Escorpião”, que cria uma atmosfera intensa que permeia a gravação e “Gameboy”, quando o cantor exibe sua autoestima dentro de um relacionamento e como toda aquela situação parece um jogo que ele está disposto a jogar. Já o “lado b”, abraça composições mais sóbrias e sombrias – como por exemplo sua mudança do interior para a cidade de São Paulo em 2015 – além de muitas referências aos seus lançamentos anteriores. Destaca-se “Eu posso ser como você”, com outro ponto de vista da história da faixa anterior “Julho” e também uma resposta faixa “Eu quero ser como você”, do seu disco de estreia.


 

Na imagem há um banner vermelho com os dizeres "Jão Super, audição" à frente do Ginásio do Ibirapuera
Entrada da audição exclusiva no Ginásio do Ibirapuera. Imagem: Romulo Santana

 

O artista disse que já escolheu o single que iniciará a divulgação do álbum, mas que o clipe ainda não foi gravado. A audição exclusiva do “Super” ocorreu no dia 13/08, no Ginásio do Ibirapuera – com 12 mil ingressos distribuídos de forma gratuita pelo cantor. O evento foi apresentado pela jornalista Valentina Pulgarin, amiga pessoal do cantor. Ao fim da apresentação do trailer do disco, a apresentadora iniciou uma contagem regressiva para a 1ª audição do material inédito com vizualizers. Após a escuta do material, o artista agradeceu emocionado a recepção dos fãs e foi entrevistado por Pulgarin. Jão diz não ter tido férias após a última turnê e que “Super” foi sua prioridade, uma vez que o trabalho só faz sentido quando chega à seus fãs. Seu novo trabalho chegou às plataformas digitais na última Segunda (14).

Em um telão, Jão, um homem branco de cabelos platinados secando os olhos
Jão emocionado, após a audição de "Super". Imagem: Romulo Santana