Médicos poerão prescrever o medicamento para pacientes com mais de 10 anos
por
Vitória Teles
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30/04/2026 - 12h

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou na quarta-feira (22) o uso de canetas com o princípio ativo da Tirzepatida para crianças e adolescentes que possuem diabetes tipo 2. Antes, o uso só era possível para adultos diagnosticados com diabetes e para tratamentos contra obesidade. Agora, jovens a partir de 10 anos também poderão utilizar com prescrição médica. 

As canetas imitam um hormônio do corpo chamado Glucagon-like peptide-1 (GLP-1), que ajuda a controlar o açúcar no sangue, diminuir o apetite e retardar a digestão, levando à perda de peso. A decisão da Anvisa surgiu a partir de um grande índice de crianças que sofrem com obesidade e diabetes, já que o Brasil é quarto país no mundo com crianças e adolescentes, de 0 a 19 anos, com diabetes tipo 1, podendo evoluir para o tipo 2. No ranking dos países com mais pessoas que possuem essa condição, o Brasil é o sexto no mundo, segundo dados de 2025 da 11ª edição do Diabetes Atlas, divulgado pela Federação Internacional de Diabetes (IDF).

No ranking de casos de crianças com diabetes tipo 1, o Brasil fica atrás apenas de Índia, Estados Unidos e China. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
No ranking de casos de crianças com diabetes tipo 1, o Brasil fica atrás apenas de Índia, Estados Unidos e China. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Ao mesmo tempo que esse uso específico foi aprovado, a Anvisa também proibiu canetas irregulares vendidas pela internet, já que o orientado é apenas o uso com prescrição médica, além de aumentar a fiscalização e exigir regras mais rígidas para a manipulação.

Apesar de ser um caminho eficaz, que apresenta bons resultados, há também controvérsias. Partindo do ponto de vista socioeconômico, muitas famílias sofrem com diabetes tipo 2, em níveis avançados, e não possuem renda para investirem em tratamentos como as canetas emagrecedoras, que tem um valor bastante elevado no mercado, custando entre R$1.400 a R$2.400, podendo variar de acordo com a farmácia. 

Em entrevista à AGEMT, a nutricionista Juliane Pacheco, que atua no mercado nutricional há mais de 6 anos, enfatizou que a Tirzepatida possa sim ser uma boa alternativa para tratar dessa patologia, apesar do medicamento estar muito banalizado no Brasil para fins estéticos e não apenas para tratamento de obesidade. “Para as crianças, é essencial que a medicação seja utilizada apenas com indicação médica e tenha acompanhamento com uma equipe multidisciplinar”, comenta a profissional. 

Sobre os efeitos colaterais na vida das crianças, como náuseas, diarreias e vômitos, Juliane afirma que é necessário fazer a indicação com muita cautela e não banalizar o uso para todas as crianças e adolescentes. Segundo a profissional, a alimentação também é um caminho que traz bons resultados para o tratamento de diabetes, mas que também requer atenção e cuidado. “O que fará mais diferença é a presença dos pais durante todo o tratamento. No final, são eles que compram os alimentos para seus filhos e preparam as refeições, então se não tiver um cuidado, a diabetes não é tratada”, afirma.

 

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Fatores como rotina urbana, excesso de telas e falta de atividade física contribuem para o avanço do problema no país
por
Guilherme Romero
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28/04/2026 - 12h

O Brasil enfrenta um cenário preocupante quando se trata sobre o sedentarismo. De acordo com divulgação da OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 47% da população não atinge os níveis recomendados de atividade física, colocando o país entre os mais sedentários do mundo. Para a nutricionista Patrícia Prado Dias Peres, em entrevista à AGEMT, esse comportamento está cada vez mais comum desde a infância, diretamente ligado ao aumento de doenças como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares, além de afetar a saúde mental. Segundo ela, os hábitos sedentários começam cedo e tendem a se perpetuar a longo prazo na vida.

Crianças que passam grande parte do tempo diante de telas, seja em celulares, videogames ou redes sociais, acabam reduzindo atividades físicas essenciais no tempo livre para o desenvolvimento. Esse padrão se intensifica na adolescência, especialmente entre jovens de 11 a 17 anos, faixa etária apontada como a mais afetada. Mesmo com medidas como a restrição do uso de celulares em ambientes escolares, o comportamento sedentário persiste fora das instituições de ensino, impulsionado pela facilidade de acesso à tecnologia e pela diminuição de espaços adequados para o lazer.  A falta de atividade física provoca uma série de alterações no organismo. Sem movimentação corporal, o gasto energético é reduzido e entra em um “estado de economia”, o que pode desregular processos metabólicos importantes. Entre as consequências mais comuns estão o aumento do peso corporal, o desenvolvimento de massa de gordura corporal e alterações hormonais que afetam a sensação de saciedade. “Esse desequilíbrio favorece um ciclo difícil de romper, em que o excesso de peso torna a prática de exercícios mais cansativa, levando à desmotivação e à manutenção do sedentarismo”, diz Peres. 

Patrícia Prado Dias Peres nutricionista do CEPEUSP (Centro de Práticas Esportivas da USP)
Patrícia Prado Dias Peres nutricionista do CEPEUSP (Centro de Práticas Esportivas da USP)

Os impactos do sedentarismo vão além da questão estética ou do condicionamento físico, também está associado a doenças metabólicas, como diabetes e dislipidemias, além de problemas cardiovasculares, como hipertensão, infarto e acidente vascular cerebral. Também há prejuízos para o sistema musculoesquelético, com aumento de dores, perda de massa muscular e maior risco de osteoporose. Na saúde mental, os efeitos incluem ansiedade, depressão, insônia e até declínio cognitivo, evidenciando que a inatividade física afeta o corpo humano de forma ampla. Segundo Peres, a falta da prática de atividades físicas deve ser tratada como uma questão de saúde pública, porque suas consequências geram impactos diretos e indiretos, desde o aumento dos gastos com tratamentos médicos até a redução da produtividade da população.

O problema também sobrecarrega os sistemas de saúde, que precisam lidar com o crescimento de doenças crônicas associadas ao estilo de vida. Estimativas globais apontam que milhões de mortes poderiam ser evitadas todos os anos com a adoção de hábitos mais ativos. Apesar do cenário preocupante, a mudança de comportamento é possível e pode começar com medidas simples. De acordo com Peres, não é necessário iniciar com atividades intensas: a recomendação é acumular entre 150 e 300 minutos semanais de exercícios moderados, ou de 75 a 150 minutos de atividades mais vigorosas. Mesmo práticas leves já apresentam benefícios quando comparadas à inatividade total. O mais importante, segundo a nutricionista, é encontrar uma atividade que possa ser mantida a longo prazo e incorporada à rotina. 

 A alimentação também desempenha um papel fundamental nesse processo. Peres aponta que dietas equilibradas com base em alimentos in natura ou minimamente processados, contribuem para o controle do peso e para o bom funcionamento do organismo. A redução do consumo de ultraprocessados, ricos em açúcares, gorduras e sódio, é apontada como uma estratégia essencial para prevenir doenças e melhorar a qualidade de vida, disse a especialista. Além disso, manter regularidade nas refeições ajuda a evitar picos de fome e o consumo excessivo de calorias. Diante desse cenário, Peres reforça que o enfrentamento do sedentarismo exige ações que vão além da iniciativa individual. Incentivar hábitos saudáveis desde a infância, ampliar o acesso a espaços públicos seguros para a prática de atividades físicas e promover a conscientização sobre os riscos da inatividade são medidas fundamentais. Para ela, pequenas mudanças na rotina, aliadas a uma alimentação equilibrada e à prática regular de exercícios, podem gerar impactos significativos na saúde e melhora na qualidade e expectativa de vida da população brasileira.

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Campanha alerta o cuidado com a saúde intestinal e incentiva o diagnóstico precoce
por
Carolina Nader
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24/03/2026 - 12h

Durante o mês de março, período em que ocorrem campanhas importantes de conscientização a algumas doenças, a campanha Março Azul-Marinho mobiliza instituições de saúde, médicos e órgãos públicos em ações de conscientização e prevenção do câncer colorretal, ampliando o acesso da população à informação e aos cuidados preventivos.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 45 mil novos casos da doença por ano, conforme estimativas do órgão para o período de 2023 a 2025. O câncer colorretal está entre os tipos que mais causam mortes no país, reforçando a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.

O que é o câncer colorretal?

O câncer colorretal é um tipo de tumor que se desenvolve no intestino grosso (cólon) ou no reto, parte final do sistema digestivo responsável pela formação e eliminação das fezes. A doença ocorre quando células dessa região passam a crescer de forma desordenada, formando lesões que podem se tornar malignas.

Na maioria dos casos, o tumor surge a partir de pólipos intestinais - pequenas alterações inicialmente benignas que podem evoluir para câncer ao longo do tempo, especialmente quando não são identificadas e removidas precocemente. Em entrevista à AGEMT, o médico especialista em diagnóstico por imagem, Carlos Eduardo de Souza, explica que “o diagnóstico precoce possibilita tratamentos menos invasivos, como a biópsia excisional das lesões polipoides durante a realização da colonoscopia”.

O câncer colorretal é mais frequente em pessoas a partir dos 45 anos, faixa etária considerada de maior risco, com maior incidência entre adultos e idosos. Por esse motivo e também por apresentar evolução lenta e, muitas vezes, sem sintomas nas fases iniciais, entidades médicas recomendam a realização de exames preventivos regulares mesmo na ausência de queixas, como forma de identificar alterações precocemente e aumentar as chances de tratamento eficaz. As orientações são destacadas pelo INCA e por sociedades médicas ligadas à oncologia e à gastroenterologia.

Nos últimos anos, especialistas também têm observado um crescimento gradual no número de diagnósticos entre pessoas com menos de 45 anos, embora a maioria dos casos ainda esteja concentrada nas faixas etárias mais altas. De acordo com dados divulgados pelo INCA, fatores como mudanças nos hábitos alimentares, maior consumo de alimentos ultraprocessados, sedentarismo e obesidade estão associados a esse aumento, ampliando o alerta para a importância da atenção aos sintomas também entre adultos mais jovens.

Principais sintomas e sinais de alerta

O câncer colorretal pode apresentar poucos ou nenhum sintoma nas fases iniciais, o que torna o diagnóstico precoce mais desafiador e reforça a importância dos exames preventivos. Quando surgem, os sinais costumam estar relacionados a alterações no funcionamento do intestino.

Entre os principais sintomas estão:

  • Presença de sangue nas fezes;
  • Mudanças persistentes no hábito; intestinal, como episódios frequentes; de diarreia ou prisão de ventre; 
  • Dor ou desconforto abdominal contínuo; 
  • Perda de peso sem causa aparente; 
  • Sensação de evacuação incompleta e cansaço frequente.

Segundo Carlos, esses sinais não indicam necessariamente câncer, mas devem ser investigados por um profissional de saúde, principalmente quando persistem por várias semanas.

O INCA também alerta que grande parte dos casos é diagnosticada apenas após o aparecimento de sintomas, o que pode dificultar o tratamento. Com isso, os exames precoces permitem identificar lesões ainda em estágios iniciais, aumentando significativamente as chances de cura, que podem ultrapassar 90% quando descoberto rapidamente.

Barreiras à prevenção

Na prática clínica, existem desafios para a prevenção do câncer colorretal. “Atualmente, barreiras socioeconômicas, culturais, tabus e o desconhecimento de fatores de risco dificultam a prevenção”, explica o doutor Carlos Eduardo. Além disso, muitos pacientes têm medo do exame devido à possibilidade de dor ou perfuração intestinal. O especialista reforça que “o procedimento é indolor, sendo realizado sob sedação e analgesia, sem causar prejuízos ao paciente”.

Fatores de risco associados à doença

Diversos fatores podem aumentar o risco de desenvolvimento do câncer colorretal. Entre os principais estão hábitos de vida e condições de saúde que influenciam o funcionamento do organismo ao longo do tempo.

Segundo o INCA e a Organização Mundial da Saúde (OMS), a alimentação rica em carnes processadas e ultraprocessados, aliada ao baixo consumo de fibras, está diretamente associada ao aumento do risco da doença. Estudos da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, apontam que o consumo frequente de carnes processadas pode aumentar em cerca de 18% o risco de câncer colorretal.

O sedentarismo e a obesidade também são fatores relevantes. Dados da OMS indicam que a prática regular de atividade física pode reduzir o risco de câncer de intestino em cerca de 20% a 30%. Além disso, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e o tabagismo contribuem para o desenvolvimento de diversos tipos de câncer, incluindo o colorretal.

Pessoas com histórico familiar da doença ou com doenças inflamatórias intestinais devem manter acompanhamento médico regular, já que apresentam maior predisposição ao desenvolvimento do tumor, conforme orientações de sociedades médicas de oncologia e gastroenterologia.

Prevenção e exames ajudam a reduzir casos

Especialistas apontam que grande parte dos casos de câncer colorretal pode ser evitada por meio da adoção de hábitos saudáveis e da realização de exames preventivos. A manutenção de uma alimentação equilibrada, rica em fibras, frutas, verduras e legumes, aliada à prática regular de atividade física, está entre as principais medidas recomendadas para reduzir o risco da doença.

Entre os principais exames utilizados está a colonoscopia, considerada o método mais eficaz para detectar alterações no intestino grosso e no reto. O exame permite não apenas identificar lesões suspeitas, mas também realizar a retirada de pólipos durante o procedimento. O teste de sangue oculto nas fezes também é utilizado como estratégia inicial de rastreamento.

 

Profissionais de saúde do SUS. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Exames de prevenção como a colonoscopia podem ser feitos no SUS. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

 

De acordo com recomendações médicas e orientações do Ministério da Saúde, pessoas a partir dos 45 anos - ou antes, em casos de histórico familiar - devem procurar avaliação médica para orientação sobre o rastreamento. Parte desses exames pode ser realizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mediante encaminhamento profissional.

Ao reforçar a importância da informação e do cuidado contínuo com a saúde intestinal, a campanha Março Azul-Marinho busca incentivar a população a adotar medidas preventivas e a procurar atendimento médico diante de sinais persistentes, contribuindo para a redução da mortalidade causada pelo câncer colorretal.

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Campanha destaca a importância da vacinação contra o HPV e do diagnóstico precoce
por
Carolina Nader
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19/03/2026 - 12h

Unidades de saúde de todo o país intensificam, ao longo do mês de março, ações de prevenção e conscientização sobre o câncer de colo do útero como parte da campanha Março Lilás. A iniciativa busca ampliar o acesso à vacinação contra o HPV, à realização do exame preventivo e à informação, medidas essenciais para o diagnóstico precoce e a redução dos casos da doença.

De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 17 mil novos casos de câncer de colo do útero por ano entre 2023 e 2025. Apesar de ser considerado amplamente prevenível, o tumor ainda provoca aproximadamente seis mil mortes anuais no país.

A doença está associada principalmente à infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV), vírus transmitido sobretudo por contato sexual. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os tipos 16 e 18 do HPV são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer cervical.

Desigualdades regionais 

No Brasil, a incidência do câncer de colo do útero também apresenta desigualdades regionais. Dados do INCA indicam que as regiões Norte e Nordeste concentram as maiores taxas da doença, cenário frequentemente associado a desafios no acesso aos exames preventivos, desigualdades socioeconômicas e dificuldades no acompanhamento regular em saúde. 

Em entrevista à AGEMT, a ginecologista Laís Panaino explica que fatores sociais e comportamentais ainda dificultam a prevenção. Segundo ela, a falta de acesso ao exame preventivo em algumas regiões, a baixa cobertura vacinal e o estigma quanto ao assunto contribuem para o diagnóstico tardio. "Talvez falte mais campanhas em escolas, para a conscientização. O problema é que algumas pessoas pensam que falar sobre o assunto e estimular campanhas de vacinação induz crianças a pensarem em sexo", relata a médica. 

Além disso, ela explica que o medo e a vergonha contribuem para a diminuição da realização dos exames cautelares entre as pacientes. "No posto de saúde onde trabalho existem casos em que elas não querem colher o preventivo com a enfermeira, pois acham que receberão comentários sobre suas partes íntimas, medo de sair piadas com os nomes delas", comenta. 

Importância do diagnóstico precoce

Diferentemente de outros tipos de câncer, o tumor costuma se desenvolver lentamente na região inferior do útero ao longo de vários anos, geralmente sem apresentar sintomas nas fases iniciais. Esse intervalo permite que exames preventivos identifiquem alterações celulares antes da formação do câncer, tornando possível o tratamento precoce e aumentando significativamente as chances de cura.

De acordo com Panaino, o exame Papanicolau é essencial nesse processo, pois detecta alterações celulares precoces e lesões causadas pelo HPV que podem evoluir para o câncer caso não sejam tratadas. 

Sinais de alerta para o câncer de colo do útero:

  • Sangramento fora do período menstrual ou após relações sexuais
     
  • Dor ou desconforto durante relações sexuais
     
  • Corrimento vaginal persistente ou com odor forte
     

Em caso de qualquer alteração, a orientação é procurar avaliação médica. Embora esses sintomas possam estar associados a diferentes condições ginecológicas, a investigação é importante para descartar doenças mais graves. 

Vacinação e prevenção  

A vacina contra o HPV é considerada uma das principais estratégias de prevenção, já que possui papel fundamental no bloqueio dos tipos responsáveis pela maior parte dos casos.

A vacina contra o HPV está disponível em qualquer Unidade Básica de Saúde. Foto: Marcelo Camargo (Agência Brasil)
A vacina contra o HPV está disponível em qualquer Unidade Básica de Saúde. Foto: Marcelo Camargo (Agência Brasil) 

Experiências internacionais reforçam a eficácia da vacinação. No Reino Unido, um estudo publicado na revista científica The Lancet apontou redução de até 87% nos casos de câncer de colo do útero entre mulheres que foram vacinadas ainda na adolescência. 

No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, o exame preventivo Papanicolau é indicado para mulheres entre 25 e 64 anos e está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Já a vacina contra o HPV é oferecida para meninas e meninos de 9 a 14 anos e para grupos de pessoas imunossuprimidas - indivíduos com sistema imunológico enfraquecido - como forma de prevenir a infecção pelos tipos do vírus mais associados a esse tipo de câncer. 

Diante de uma doença amplamente evitável, Laís reforça que o acesso à informação, a vacinação contra o HPV e o acompanhamento médico regular são estratégias essenciais para reduzir a mortalidade no país. “Apesar da promessa de acabar com as lesões de colo de útero, muitas pessoas não aderiram, às vezes por desinformação ou pela falta de serem lembradas", afirma. 

Ao incentivar a conscientização e o cuidado contínuo com a saúde, a campanha Março Lilás reforça que a prevenção e o diagnóstico precoce permanecem como as estratégias mais eficazes para reduzir novos casos e salvar vidas.

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Transformando a vida de milhões de pessoas todo ano, merece mais reconhecimento e recursos para manter o Brasil vivo
por
Vítor Nhoatto
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28/11/2025 - 12h

Por Vítor Nhoatto

 

Uma das poucas certezas de todo ser humano, tal qual a morte, é a doença. Sabe aquele resfriado que vem junto ao seco do frio, uma ferida que infecciona depois de cair de bicicleta, até aquelas mais sérias que podem aparecer. Fato é que sem saúde não se vive, sendo um direito constitucional não por acaso. Sendo assim, é preciso que o acesso a essa necessidade tão básica quanto respirar e se alimentar seja universal, e não um bem a se comprar apenas por aqueles que podem.

Para isso então que existe o Sistema Único de Saúde (SUS), tão falado e muito mais presente na vida do que alguns podem sequer imaginar, ou querer. Para se ter uma ideia, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão regulador dos medicamentos disponíveis no país, de controle alimentar e hídrico, faz parte do SUS. Regulamentado em 1990, é responsável pelas vacinas e desenvolvimento científico ainda, e sabe os planos de saúde, a Agência Nacional de Saúde (ANS), que os regula, também é integrante do sistema.

Para falar dessa diferença real na vida, antes é preciso até olhar nos papéis para lembrar já a quanto tempo ele é médico, enfermeiro, farmácia. De cabelos curtos hoje, depois de uma repaginada no visual devido ao câncer de pulmão que teve justamente na pandemia de COVID-19, Léia Marisa celebra que há dois anos consegue receber na AME Maria Zélia o micofenolato de Mofetila. Pois é, muitas vezes quando o nome é chique o preço é alto, uns R$500 por caixa, mil reais por mês gastos antes da papelada ficar pronta e ser aceita em 30 de novembro de 2023, já que a doença não espera os trâmites e filas.

A ex-professora, atual dona de casa e empresária a distância do seu restaurante, conta como o período de descoberta e tratamento do câncer, que levou até questões reumatológicas, e ajudou a descobrir uma artrite reumatoide, foi muito difícil. Entre dezenas de idas ao hospital de 2020 até 2023 até chegar ao diagnóstico, foram dias desgastantes, assustadores, e toda ajuda foi essencial, principalmente com os custos de sobreviver à doença. No caso dela, o tratamento do tumor foi feito em rede privada graças ao seu plano de saúde empresarial, que custa salgados R$5 mil reais ao mês. Só aqui são quase quatro salários mínimos, um privilégio muito grande, como ela destaca, olhando para um país em que apenas 7,60% da população ganha entre 5 e 10 salários como o Censo de 2022 do Instituto brasileiro de Geografia e Estatística revela. 

Se aprofundando mais ainda nos fatos, de acordo com o estudo “Quanto custa o câncer” de 2023 do Observatório de Oncologia, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE) e do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, os custos de tratamento da doença quadruplicaram nos últimos três anos. Uma sessão de radioterapia ou quimioterapia custava quase R$800 em 2022, e dezenas são necessárias na maioria das vezes. Acrescentando nessa conta, consultas, tomografias e biópsias, mil reais ali e cinco acolá, o custo chega facilmente ultrapassa dezenas de milhares de reais. Isso é ainda mais preocupante tendo em conta a incidência do câncer na população, que segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA) entre 2023 e 2025, 704 mil pessoas terão a doença como Marisa. 

E com isso que o SUS se mostra como algo tão relevante, oferecendo tratamento integral e gratuito contra todos os tipos de cânceres. Claro que muitos problemas existem, como destaca Marisa ao lembrar que quando estava no meio do tratamento enfrentou problemas com o plano de saúde, mas que só o medo de depender da demora do SUS caso fosse preciso, a preocupava muito. A saúde é o bem mais precioso para, o que para todos provavelmente deva ser, e por isso justamente que em 2012 a lei 12.732/12 obriga que o tratamento contra o câncer tem que ser iniciado em até 60 dias após o diagnóstico. 

Mas além disso, com os olhos marejados depois de navegar novamente no mar agitado que foi a jornada até a vida que tem hoje, curada e com o diagnóstico da sua doença crônica, ela volta e lembra que a diferença que não ter que pagar pelo Micofenolato que a mantém respirando faz.  Quando tinha que arcar com as despesas era como um fardo a mais imposto a ela, que considera a saúde hoje como o bem mais valioso. As idas mensais  ao posto são um alívio hoje para ela, destacando que o seu medicamento nunca faltou até então, mas que já presenciou pessoas na situação contrária e que não tinham como arcar pessoalmente com os gastos. Essa é uma realidade infelizmente, segundo fiscalização de 2023 da secretaria de contas do Estado de São Paulo, em quase metade dos postos visitados faltavam algum medicamento.

papéis
A cada seis meses Marisa tem que renovar a receita e toda a papelada para solicitação do seu medicamento junto a AME - Foto: Vítor Nhoatto

Milhões de uns

Mesmo que falte muito, afinal, só 4,16% do orçamento federal foi destinado à saúde em 2024 segundo o Painel do Orçamento Federal, a porcentagem vem aumentando desde 2022, e milhões de brasileiros são atendidos todos os dias. O Brasil é o único país do mundo com mais de 100 milhões de habitantes com um sistema universal de saúde, e 213 milhões dependem diretamente do SUS, segundo o Ministério da Saúde, que contabiliza em média 2,8 bilhões de atendimentos por ano, empregando 3,5 milhões de profissionais.

E mais um desses uns é Valdir Sousa, que do alto de seus 63 anos de idade é um típico caso brasieleiro. Com diabetes do tipo II há 20 anos e hipertenso, conta que se não fosse o acesso ao sistema gratuito, sua vida seria muito diferente, obviamente pelo lado financeiro, e muito também pelo bem-estar. O mineiro nascido em São João do Paraíso e que vive em São Paulo há décadas já viu tanto na vida, e com o passar do tempo o que todos querem e merecem é justamente qualidade de vida. Essa no caso, em grande parte possível graças a insulina que busca no posto na Freguesia do Ó e os comprimidos que cuidam do seu coração acelerado.

Justamente essa hipertensão que é a doença mais presente nos peitos animados dos brasileiros, e 52% da população é diagnosticada com alguma DCNTs, como revela a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019. Além disso, segundo dados de 2020 da Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) como as de Valdir são tecnicamente chamadas, são as mais comuns no mundo e no Brasil, com o diabetes inclusive tendo aumentado 70% entre 2000 e 2019. 

Para contextualização, nos Estados Unidos existe há alguns anos o movimento nas redes sociais insulin4all, criado pela organização sem fins lucrativos T1 International, que denuncia os altos custos da insulina no país, onde um frasco de 10ml gira em torno de U$330. Tal situação vem levando inclusive pessoas a racionarem o medicamento, o que pode levar a complicações e até a morte em casos mais graves. Já no Brasil, o mesmo remédio é disponibilizado pelo SUS, e o preço máximo permitido por lei é de R$125,30. 

Diante desses dados e o envelhecimento da população fica claro como a saúde vai ser cada vez mais necessária, tal qual destaca o jovem de espírito Valdir, que já foi pedreiro e auxiliar de manutenção geral em uma lanchonete, justamente no Hospital das Clínicas. As histórias que já viu na maior referência de saúde pública brasileira enchem a sua mente, e as palavras saem inquietas sobre as melhorias que o SUS precisa e as pessoas merecem. Ele conta em meio a suspiros que quando precisa de exames mais urgentes, ou consultas em meio a crises, tem que recorrer ao plano de saúde da sua esposa, do qual é dependente, já que as unidades de saúde estão sempre cheias e a fila de espera passa de meses algumas vezes. 

Foi nessas passagens obrigadas pela rede privada que ele inclusive descobriu mais um integrante do seu pacote, a doença renal crônica há um ano. Porém, é no SUS que o acompanhamento com nutricionista, nefrologista e endocrinologista foi possível, uma rotina de cuidados essenciais para uma boa qualidade de vida para quem tem a condição. É graças a essa rede de profissionais e a farmácia popular que Valdir vai aproveitando com os dois filhos e a mulher os seus dias, frisando com a voz até meia trêmula, que sem isso não poderia se ter o seu direito de viver com saúde exercido plenamente.

medicamentos
São graças a compostos como esses que tanto Marisa ou Valdir, e os mais de 100 milhões de brasileiros com doenças crônicas podem viver bem tal qual a constituição garante - Foto: Vítor Nhoatto

 

Em sua quarta edição, ação reforça a importância da informação e do apoio às famílias
por
João Pedro Lindolfo
Lucca Andreoli
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04/06/2025 - 12h

 

Fotografia: Wellington Freitas  Reprodução/Instagram: @35elementos
Fotografia: Wellington Freitas 
Reprodução/Instagram: @35elementos

A caminhada de conscientização sobre a síndrome Cri Du Chat - ou Síndrome do Choro do Gato, uma alteração genética rara que afeta o desenvolvimento físico e intelectual - aconteceu no sábado (17), no Parque Villa Lobos, em São Paulo.

A doença, presente em uma a cada 50 mil pessoas, ocorre quando uma parte do cromossomo cinco é perdida, o que causa características como a face arredondada, olhos separados, mandíbula pequena, orelhas baixas e um choro agudo parecido com um miado de gato, de onde vem o apelido.

O diagnóstico é realizado através da genética clínica, com testes que avaliam os cromossomos, e o teste de FISH ou CGH-array, que detectam a deleção do cromossomo cinco.

A síndrome impacta diretamente a rotina das famílias, exigindo acompanhamento contínuo com diferentes especialistas. Por isso, a disseminação de informações confiáveis e o estímulo ao diagnóstico precoce são fundamentais para promover mais qualidade de vida às crianças e a quem cuida delas.

A importância do diagnóstico precoce vai além do aspecto clínico: ele abre caminhos para que as famílias se organizem emocionalmente e encontrem apoio em redes especializadas, fortalecendo a jornada de cuidado e inclusão. O conhecimento da síndrome, associado à troca de experiências entre famílias, é um passo decisivo para transformar desafios em conquistas diárias.

Em 2022 foi lançado o primeiro livro a respeito da síndrome no Brasil, intitulado de "Síndrome de Cri du Chat: mais amor, realidade e esperança” (EFeditores e Literare Books International, 264 págs., R$ 72), além de ser o ano da primeira edição da caminhada dedicada a pessoas que convivem com a síndrome.

A publicação veio a partir da vivência de famílias e do engajamento de profissionais que acompanham de perto os desafios do diagnóstico e do tratamento. O livro se tornou referência para quem busca compreender não só os aspectos clínicos da condição, mas também as realidades sociais, emocionais e educacionais enfrentadas por quem convive com ela.

Com entrevistas de profissionais médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e psicólogos, a obra de Sandra Doria Xavier, Fernando da Silva Xavier e Monica Levy Andersen traz também uma perspectiva que auxilia familiares e profissionais que trabalham com portadores da síndrome.

Capa do livro: Síndrome Cri Du Chat: mais amor, realidade e esperança  Instagram: @criduchatbrasil
Capa do livro: Síndrome Cri Du Chat: mais amor, realidade e esperança 
Instagram: @criduchatbrasil

A publicação do livro e a realização da caminhada refletem o compromisso com a visibilidade da condição. Ao longo dos últimos anos, a entidade tem promovido ações que unem acolhimento, informação e mobilização social, contribuindo para a construção de uma rede de apoio mais sólida e atuante.

Em meio a esse esforço coletivo, o aspecto emocional e comunitário da Caminhada se destaca. “Encontrar outras famílias na Caminhada Cri Du Chat é encontrar a sua tribo”, define Juliane Gehm, mãe do Martin. “É um momento onde todos podem ser livres para ser quem são!”

Agora em sua quarta edição, a “Caminhada Cri Du Chat 2025” apresentou uma programação com atividades inclusivas, como áreas sensoriais (massinha, slime, bolha de sabão), desenhos e pinturas, pinturas faciais e tatuagens de adesivo, além de recreação com palhaços e personagens infantis.

Através do ato de conscientização, familiares, profissionais e portadores trouxeram luz ao tema. 

Segundo a neuropsicóloga Bianca Balbueno, a estimulação precoce é a chave: “Nos primeiros anos de vida, o cérebro da criança está num pico de neuroplasticidade, ou seja, a capacidade de aprendizagem é mais potente neste período, sendo assim, a estimulação precoce aproveita essa fase para promover o desenvolvimento de áreas centrais, como motor, cognitivo e social.” 

“Intervenção precoce promove o desenvolvimento redirecionando e fortalecendo trilhas de aprendizagem que podem estar em risco, especialmente em casos de alterações do neurodesenvolvimento”, ela acrescenta. 

Essa também foi a percepção de Lilian Lima, engenheira de software e mãe do Heitor Monteiro Lima, de 7 anos. O diagnóstico veio aos 19 dias de vida e aos 30 dias ele já iniciou a fisioterapia. “Com 2 anos e 9 meses ele andou. Hoje ele corre, chuta bola, arremessa para a cesta, ensaia quicar e treina saques de vôlei”, conta Lilian. Ela lembra que, no início, havia muitos medos — do desconhecido, do futuro e de como seria criar um filho com um prognóstico tão incerto. Mas reforça que o acesso a terapias e os estímulos desde cedo fizeram toda a diferença. “A fisioterapia foi essencial nos primeiros anos de vida, e os estímulos fizeram toda a diferença.”

Ainda sobre o plano de tratamento, Bianca afirma que deve ser individualizado “pois cada criança terá uma necessidade diferente, mesmo tendo o mesmo diagnóstico. Leva-se em consideração não apenas características da síndrome, mas áreas gerais de desenvolvimento, comportamentos desafiadores, excessos e déficits comportamentais, bem como a rede de apoio da família e o suporte fornecido pela escola”.

Participantes exploram atividades sensoriais durante a Caminhada. Fotografia: Wellington Freitas Reprodução/Instagram: @35elementos
Participantes exploram atividades sensoriais durante a Caminhada.
Fotografia: Wellington Freitas
Reprodução/Instagram: @35elementos
Caminhada tem presença de personagens infantis e momentos de interação Imagem: Wellington Freitas  Reprodução/Instagram: @35elementos
Caminhada tem presença de personagens infantis e momentos de interação
Imagem: Wellington Freitas 
Reprodução/Instagram: @35elementos
Espaço de desenho e pintura incentiva a criatividade  Fotografia: Wellington Freitas  Instagram: @35elementos
Espaço de desenho e pintura incentiva a criatividade 
Fotografia: Wellington Freitas 
Instagram: @35elementos
Cabo de guerra e outras dinâmicas de grupo promovem inclusão  Fotografia: Wellington Freitas  Instagram: @35elementos
Cabo de guerra e outras dinâmicas de grupo promovem inclusão 
Fotografia: Wellington Freitas 
Instagram: @35elementos

 

Após dois anos da concessão pública, Pérola Byington tem conflitos na administração da Organização Social Seconci
por
Daniella Ramos
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15/05/2025 - 12h

O Centro de Referência em Saúde da Mulher, do estado de São Paulo, trocou a humanização no atendimento pelo cumprimento de metas a serem batidas. Isso é o que garantem os funcionários que acompanharam a mudança vivida pelo hospital nos últimos três anos.

Em setembro de 2022, o Hospital Pérola Byington mudou de nome e local. Foi da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, na região central, para a Avenida Rio Branco, nos Campos Elíseos, região conhecida como Cracolândia. E passou a se chamar “Hospital da Mulher”.

Após concessão do Estado para a Seconci, o local passou a ser uma Parceria Público-Privada (PPP). A enfermeira Denise Souza, funcionária pública que continua no hospital após a privatização, relata que no Pérola havia um comprometimento com um atendimento mais humanizado aos paciente, mas a atual organização social se preocupa mais com as metas que devem ser batidas pelos funcionários.

“Na primeira vez, achei tudo muito bonito e limpo, apesar das pessoas em situação de rua ao redor do hospital”, afirma Áurea Suda, tia de uma paciente em início de tratamento. Ela reclama da falta de assentos na recepção para aguardar atendimento.

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Fachada do Hospital da Mulher na Avenida Rio Branco. Foto: Daniella Ramos


Hoje, o hospital ainda atende pelo SUS. Após a PPP, funcionários públicos e privados passaram a trabalhar juntos. O número de leitos de UTI quadruplicou e essa melhoria veio junto ao aumento de cirurgias para bater metas, segundo relato de Denise. No Pérola Byington, havia apenas 5 leitos, o que quase causou a morte da paciente Edma Dias, internada para remoção de um nódulo. Ela relata ter ido mais de 3 vezes para o centro cirúrgico: "voltava, pois não conseguia realizar a cirurgia devido à falta de leito de UTI".

Denise ainda diz sentir falta de trabalhar em um hospital de referência como o Pérola Byington. Ela lamenta que o atual Hospital da Mulher ainda não tenha conquistado o destaque devido. “A notoriedade não é feita apenas com equipamentos, temos que contar com uma boa gestão da Organização”, reitera a enfermeira. 

Entramos em contato com a assessoria da Secretaria da Saúde, mas não tivemos retorno até a publicação da matéria.

 

 

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Entenda os danos causados por fake news sobre a alimentação
por
Laura Petroucic
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08/05/2025 - 12h

Com o acesso ilimitado à internet, atualmente é fácil encontrar informações sobre nutrição. Basta um clique para que as pessoas se informem sobre dietas e calorias pelo Instagram, TikTok ou X (antigoTwitter). Mas é preciso tomar muito cuidado com a fonte desses dados. Clickbaits como “arroz dá câncer”, “o açúcar das frutas faz mal” e “emagreça cinco quilos tomando essa sopa” parecem absurdos, porém muitas pessoas acabam tomando essas frases como verdadeiras. A nutricionista Fernanda Zanon, em entrevista à AGEMT, explica: “Informações nutricionais falsas podem levar a deficiências nutricionais, problemas hormonais e queda de imunidade”. E acrescenta: "os danos de misturar desinformação com alimentação não são apenas físicos, mas também psicológicos. A relação com a comida fica deturpada e confusa, podendo até gerar distúrbios alimentares em pessoas que buscavam melhorar sua alimentação", explica Zanon.

Um dos grandes responsáveis pela onda de desinformação nutricional são influenciadores com milhões de seguidores que, mesmo sem nenhuma formação na área, fazem postagens indicando dietas e produtos sem eficácia comprovada. Vitaminas e chás milagrosos são vendidos sem nenhum tipo de fiscalização por parte das big techs — e quem sofre o prejuízo são os consumidores.

E por que as pessoas compartilham esse tipo de desinformação na internet? Fernanda afirma que "algumas dessas pessoas acreditam porque tiveram alguma experiência pessoal que funcionou para elas — e acabam generalizando, como se aquilo fosse uma verdade universal. O que funciona para um pode ser prejudicial para outro. Outras, infelizmente, estão mais interessadas em ganhar visibilidade e engajamento, mesmo sabendo que o que divulgam não tem respaldo científico”, diz. 

Fernanda também comenta sobre o motivo de a população preferir buscar soluções online: “ainda existe uma barreira de acesso, seja por questões financeiras, falta de informação ou até pela ideia de que só se deve procurar um nutricionista quando se quer emagrecer. Isso faz com que muita gente recorra à internet em busca de respostas rápidas e fáceis — o famoso milagre!”. Em um país cuja acessibilidade à saúde ainda é segregada, a conscientização sobre o impacto negativo da desinformação é essencial para criar um ambiente mais seguro e saudável para todos, como aponta Fernanda. 

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Políticas públicas devem assegurar o direto à saúde de quem sofrem com essa condição, ainda pouco estudada
por
Khadijah Calil
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28/04/2025 - 12h

A regulamentação da Lei 32/2025, sancionada em 27 de março em Portugal, representa o reconhecimento dos direitos das pessoas com endometriose. A nova legislação estabelece que quem tiver o diagnóstico da doença têm direito a até três dias de faltas mensais justificadas no trabalho ou na escola, sem prejuízo da remuneração e de outros direitos trabalhistas ou estudantis. Segundo o Diário da República, a norma entra em vigor a partir de abril deste ano e requer a apresentação de um laudo médico mensal para ter sua ausência abonada.  

O contexto social em que essa regulamentação surge é o de enfrentamento a preconceitos relacionados à menstruação e à saúde reprodutiva das pessoas com útero. De acordo com o portal SciElo em um estudo sobre os efeitos da masculinidade tóxica, o machismo estrutural, entendido como um fenômeno social que se manifesta por meio de normas, práticas e instituições, gera estigmas de fragilidade ou incapacidade sobre quem enfrenta esses sintomas. Servindo de exemplo para outros países, a nova medida portuguesa rompe com a lógica de que essas pessoas devem se adaptar ao ambiente de trabalho sem levar em consideração suas condições de saúde.  

A advogada brasileira e especialista trabalhista Ingrid Raunaimer, explica algumas das medidas descritas na nova lei estrangeira: respeitar os afastamentos devidamente justificados por motivos de saúde, incluindo aqueles relacionados ao ciclo menstrual, sem retaliações ou descontos indevidos; garantir o sigilo e respeito à intimidade, evitando constrangimentos; criar políticas internas de acolhimento e orientação para promover um ambiente livre de preconceitos; e adotar uma abordagem inclusiva, considerando medidas como flexibilidade de horários, possibilidade de trabalho remoto ou reposição de aulas/atividades, sempre que possível. 

“Essa regulamentação é, portanto, não apenas um instrumento jurídico, mas também um marco simbólico e político, pois reconhece que dores menstruais incapacitantes não devem ser normalizadas e nem ignoradas em nenhum lugar do mundo”, explica Ingrid. 

Cenário Brasileiro  

O ginecologista Thiago Pareja, membro da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Estado de São Paulo, explica que a endometriose afeta cerca de 10% das pessoas que menstruam e estão em idade reprodutiva no Brasil, o que representa aproximadamente 8 milhões de pacientes. A doença, caracterizada pela presença de tecido endometrial fora do útero, pode causar dor intensa, infertilidade e outros sintomas debilitantes, comprometendo significativamente a qualidade de vida de quem recebe o diagnóstico. 

Kizzy Novicov Silva, ex-agente de turismo e paciente com endometriose, compartilha sua experiência com o SUS e o INSS. Após três processos de afastamento, Kizzy recorreu à ajuda de um advogado para provar sua incapacidade de trabalhar devido à doença. “É desumano ter que provar sua dor para quem nunca a sentiu”, afirmou a paciente, que passou por sete cirurgias sem conseguir alívio para a dor crônica da endometriose. 

Ela também conta que sua rotina e sua saúde era um quebra-cabeça de tratamentos, frustrações e burocracias. As consequências foram além do físico: perdeu empregos por faltas constantes, se afastou da faculdade e viu momentos de lazer serem interrompidos por crises abruptas.  

Ingrid Raunaimer acredita que o Brasil precisa integrar mais os direitos trabalhistas com a política pública de saúde para que casos como os de Kizzy não sejam normalizados. A criação de campanhas de conscientização e a capacitação de profissionais de saúde são necessárias para garantir que os direitos previstos em lei cheguem de fato a quem precisa. 

No Brasil, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 1.069/2023, que propõe incluir a endometriose como manifestação incapacitante no rol de doenças que dispensam o período de carência para a concessão de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez. Contudo, a concessão desses benefícios ainda dependerá da comprovação médica da incapacidade laboral, conforme os critérios estabelecidos pela Previdência Social. 

Visto que uma das maiores problemáticas desse quadro ginecológico é o diagnostico tardio, as políticas públicas ainda são insuficientes e imaturas.  Segundo a CNN, a média no Brasil é de 8 a 10 anos até a descoberta da doença, o que não só intensifica os sintomas, mas também a progressão da doença. 

Além de ser uma questão de saúde, a endometriose também é uma questão de direitos humanos. A Constituição prevê o direito à saúde, à dignidade da pessoa humana e à igualdade de gênero a todas as pessoas, sem distinção, conforme os artigos 1º, inciso III e 5º, no inciso I, respectivamente. O Brasil precisa assegurar que quem sofre com a endometriose não enfrente preconceitos ou penalizações por sua condição médica, implementando políticas públicas que permitam o acesso adequado à saúde e o cumprimento de seus direitos trabalhistas. 

 

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A profissão de professor é uma das mais afetadas por transtornos mentais. Entenda o que tem impactado a vida dessas pessoas
por
Guilbert Inácio
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19/05/2025 - 12h

Segundo pesquisa Atuação Docente em Múltiplas Escolas no Brasil, divulgada em 2024 pela Fundação Carlos Chagas (FCC), aproximadamente 460 mil professores e professoras da educação básica trabalham em mais de uma escola no país. Os dados acendem um alerta para o cuidado da saúde mental dessas pessoas.

Ao fundo há um quadro com ilustrações de gráficos. No centro da imagem, há uma mulher de óculos segurando papeis com a mão esquerda e com a mão direita no queixo, demonstrando cansaço. Ela está com ambos os cotovelos encostados em uma mesa, que tem um xícara e um notebook em cima.
Falta de tempo é algo recorrente no magistério / Fonte: Freepik

De acordo com o estudo, que usou dados do Censo Escolar 2023, docentes que atuam em jornadas extensas têm maiores chances de se ausentarem do trabalho por causa da saúde, em especial por questões psicológicas e relativas à voz, além de não conseguirem administrar o tempo, gerando estresse e menor participação em atividades coletivas, o que vai impactar diretamente na educação dos e das estudantes. 

Segundo a Pesquisa Saúde Mental dos Educadores, realizada pela Nova Escola, em 2022, 21,5% de educadores e educadoras consideravam sua saúde mental ruim ou muito ruim. As consequências mais citadas foram sentimentos intensos e frequentes de ansiedade (60,1%), baixo rendimento e cansaço excessivo (48,1%) e problemas com sono (41,1%). Para lidar com a pressão, 40,4% relataram que fazer atividade física ou ao ar livre pode ajudar e 36,8% destacam o contato com amigos e familiares que ofereçam apoio emocional. 

Exercícios físicos e contatos sociais requerem uma certa disponibilidade, porém o cenário atual não contribui. Os dados obtidos pela FCC mostram que a creche é o segmento com menor proporção de profissionais em mais de uma escola: 12,7%. Mas o número aumenta nas próximas fases, até chegar em 36,4% no Ensino Médio. 

A hipótese é que nos anos iniciais de ensino, as professoras – em sua maioria – são polivalentes e passam todo o turno com uma turma. Nos anos finais, os e as docentes são especialistas, lecionando, de acordo com sua formação, um ou dois componentes curriculares, portanto não passam todo o turno com uma mesma turma. Para cumprir a carga horária necessária, esse grupo assume várias classes, o que aumenta as chances de uma atuação em mais de uma escola. 

De acordo com o exemplo da nota técnica da FCC, um docente em uma jornada de 40h semanais, com um terço do tempo para as atividades extraclasse, leciona, no máximo, por 26 horas e 40 minutos por semana. Se considerar redes de ensino com aulas de 50 minutos e que o componente curricular só tenha duas aulas por semana, esse profissional pode chegar a lecionar 32 aulas por semana para 16 turmas diferentes.  

Se usarmos uma média de 30 alunos por turma, docentes, na situação do exemplo, dão aulas para 480 estudantes, o que significa uma alta demanda para quem vai ter que explicar a mesma coisa várias vezes, tirar dúvidas, corrigir lições e trabalhos, além de se deslocar entre as turmas e escolas. 

A partir da pesquisa, a FCC traçou o perfil de profissionais nessa situação - docentes do sexo masculino que lecionam disciplinas com menor carga curricular, como biologia, física, filosofia, entre outras. A hipótese levantada pela FCC sobre isso, é que há concentração de docentes masculinos na etapa em que isso mais ocorre, enquanto as mulheres estão mais distribuídas nas etapas de ensino - Censo Escolar 2022: 90% de docentes das creches e da educação infantil são mulheres. Além de que os dados demonstrem menor disponibilidade de tempo por parte das mulheres para acumular mais escolas, em comparação com os homens, tendo em vista que, segundo o IBGE 2024, mulheres dedicam quase o dobro das horas do que os homens, em média, para afazeres domésticos e cuidados familiares.

A ilustração apresenta um fundo cinza com os dizeres a frente: 29,8% de professores atuam em mais de uma escola (143.940 de 482.984) 16,8% de professoras atuam em mais de uma escola (364.364 de 1.871.210)
Recorte por gênero / Fonte: Fundação Carlos Chagas (FCC) / Arte: Guilbert Inácio

Em entrevista à AGEMT, o Dr. Marcelo Afonso Ribeiro, professor do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Serviço de Orientação Profissional (SOPI) e do Laboratório de Estudos do Trabalho e Orientação Profissional (LABOR) da USP, destacou que a saúde mental requer condições dignas de vida, respeito, reconhecimento e autonomia. “A falta de condições de trabalho com sobrecarga de tarefas, uma organização do trabalho centrada na produtividade e uma falta de reconhecimento social e econômico do professor tendem a levar ao adoecimento, não como condição individual, mas como resposta a este conjunto de condições insatisfatórias de trabalho.”, comenta o professor. 

Adoecimento profissional

Segundo Marcelo, os principais dilemas contemporâneos da profissão estão em três campos:

  • Questões pessoais e profissionais: Há falta de limite entre vida pessoal e profissional, insatisfação versus realização e falta de sentido no que faz. 

  • Questões estruturais e organizacionais: Falta de condições dignas de trabalho, ampliação e sobrecarga do trabalho, defasagem entre trabalho prescrito e trabalho real, assédio moral, demanda ao lidar com tecnologia e mundo digital, além de autorresponsabilização por problemas estruturais. 

  • Questões sociais: Falta de reconhecimento, declínio no discurso de autoridade, falta de autonomia, conflito entre o discurso de formador e doutrinador, pressão das famílias dos e das discentes e dos ambientes públicos.

Dados obtidos pela TV Globo, por meio da Lei de Acesso à Informação, revelam que no primeiro semestre de 2023, 20.173 docentes da rede estadual de São Paulo foram afastados do trabalho por questões relacionadas à saúde mental, como depressão, ansiedade e crise do pânico. Os dados demostram um aumento de 15% em comparação ao mesmo período de 2022 e que, em média, 112 profissionais são afastados por dia. Este ano, o G1 obteve, por meio da mesma lei, dados da Secretaria de Estado da Educação (Seduc-SP) que revelam que Campinas (SP) teve 3.421 docentes afastados por transtornos mentais de 2022 para cá. 

Cruzando os dados acima com a pesquisa da FCC, 12,9% da rede municipal de Campinas e 23,5% de docentes da rede estadual de São Paulo trabalham em múltiplas escolas. Segundo o Dr. Odair Furtado, professor de psicologia e coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trabalho e Ação Social (NTAS) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), profissionais da educação básica recebem salários incompatíveis com a sua função social e por isso optam por uma dupla ou tripla jornada desumana para conseguirem sobreviver e isso é catastrófico. 

A questão salarial foi pauta do antigo Plano Nacional de Educação (PNE), 2014-2024, que tinha como meta equiparar, até 2024, a remuneração média de docentes com as demais profissões que requerem Ensino Superior. Contudo, o piso salarial atual (2025) para professores do ensino básico da rede pública é de R$ 4.867,77 para exercício de 40h mínimas; representando 68,6% de R$ 7.094,17; salário médio de uma pessoa com graduação, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

Devido à crise econômica, principalmente depois da pandemia, não só educadores, mas todas as profissões passaram por uma precarização. Dentre os fatores, Odair Furtado, aponta a crescente utilização da Inteligência Artificial (IA) nas atividades profissionais que aumentaram a produtividade, mas também a pressão em cima do trabalhador, que acumula estresse e, consequentemente, pode gerar ansiedade e depressão. “Trabalhadores sabem que se buscarem atendimento, são afastados do trabalho e isso leva, inexoravelmente, à demissão. Então, essas pessoas suportam até surtarem”, comenta o professor. 

O Brasil passa por uma epidemia de doenças relacionadas à saúde mental no ambiente profissional. De acordo com o Ministério da Previdência Social, em 2024, cerca de 470 mil trabalhadores foram afastados do emprego por causa de transtornos mentais. Os dados representam, em comparação com 2023, um aumento de 68% de licenças concedidas, além de ser o maior desde 2014. As duas doenças mais diagnosticadas foram ansiedade e depressão.

A ilustração demonstra um gráfico com os dados da Previdência Social sobre afastamentos do trabalho por causa de doenças mentais. O gráfico inicia em 2014 com 221.721 casos. Os dados caem em 2015 e sobem até 2018, quando voltam a cair até 2020. Após isso, os dados sobem muito rápido, chegando em 472.328, em 2024.
Dados do Ministério da Previdência Social / Arte: Guilbert Inácio 

Caminhos futuros 

No dia 26 de maio de 2025, riscos psicossociais serão incluídos na NR-1, norma que apresenta as diretrizes de saúde no ambiente do trabalho. Após a inclusão, o Ministério do Trabalho passa a fiscalizar os riscos psicossociais no processo de gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (SST), o que pode acarretar penalizações às empresas, caso sejam identificadas questões como: 

  • Metas excessivas 

  • Jornadas extensas 

  • Ausência de suporte 

  • Assédio moral 

  • Conflitos interpessoais 

  • Falta de autonomia no trabalho 

  • Condições precárias de trabalho 

Quanto à valorização da carreira docente, em junho do ano passado, o novo PNE, 2024-2034, foi encaminhado ao Congresso Nacional. A pasta prevê 18 objetivos a serem cumpridos nos próximos dez anos. O Plano será prioridade da Bancada da Educação em 2025. 

Confira outras propostas defendidas pela Bancada ao longo do ano que dizem respeito à profissão:

Ilustração em formato de pergaminho na cor cinza. Há os dizeres: SNE - Sistema Nacional de Educação;  PEC 169/19- permite ao professor acumular cargos públicos,  PL 3628/2024 - visa garantir que as diretrizes já estabelecidas pela Lei nº 14.817 sejam implementadas em todo o país;  PL 2387/23 - inclui os professores de Educação Infantil como profissionais do magistério;  PL 3824/23 - estabelece a Política Nacional de Indução à Docência na Educação Básica
Projetos em tramitação / Arte: Guilbert Inácio ​​​​​​

Em janeiro de 2025, o Governo Federal lançou o programa Mais Professores, com o objetivo de incentivar estudantes a seguirem a carreira docente. Dentre as medidas está o Pé-de-Meia Licenciaturas que concedera uma bolsa mensal de R$1.050 por mês para quem tirar mais de 650 pontos no ENEM e ingressar na licenciatura via Sisu, Prouni ou Fies Social. 

A medida é um ponto importante para aumentar a atratividade da carreira, pois, em 2022, uma pesquisa do Instituto Semesp projetou que, em 2040, o Brasil enfrentará um “apagão” na educação básica - a projeção é de que faltarão 235 mil docentes nas escolas do país. 

Segundo Marcelo Afonso, para mudar o cenário de precarização da carreira docente, as políticas públicas precisam se centrar em: “valorizar mais o professor e a professora, oferecer melhores condições de trabalho, remunerar melhor, oferecer qualificação contínua e, acima de tudo, construir um ambiente de respeito para formação de seres humanos.”.