Robótica, inteligência artificial e novas ferramentas já fazem parte da prática médica, mas formação profissional, custos e desigualdade ainda limitam sua expansão
por
Amanda Furniel
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19/10/2026 - 12h

Por Amanda Furniel

 

A medicina do futuro talvez não tenha chegado exatamente como foi imaginada. Não há, necessariamente, um robô tomando o lugar do médico ou uma inteligência artificial decidindo sozinha o destino de um paciente. O que existe é algo mais silencioso: telas substituindo livros, algoritmos auxiliando decisões, imagens cada vez mais precisas e braços mecânicos entrando nas salas de cirurgia. Aos poucos, a tecnologia deixa de ser promessa e passa a fazer parte da rotina de quem está aprendendo a cuidar de pessoas.

É o caso de Vitória Santana, estudante de medicina pela Universidade de Salvador (UNIFACS), Ela conta que essa transformação começa antes mesmo de vestir o jaleco. A biblioteca, que durante décadas esteve associada às estantes cheias de livros e às longas horas de consulta, agora cabe dentro de uma tela. Livros físicos deram lugar aos e-books, artigos científicos podem ser acessados em poucos segundos e aplicativos oferecem desde calculadoras médicas até plataformas de preparação para as provas de residência.

A tecnologia, portanto, já não aparece como um elemento externo à formação médica. Ela é parte dela. É uma presença tão constante que se tornou, nas palavras da estudante, indissociável da formação de um médico. Mas existe uma diferença entre aprender com a tecnologia e aprender a trabalhar com ela. Apesar de estar cercada por ferramentas digitais durante a graduação, Vitória percebe que a formação ainda não acompanha a velocidade com que essas ferramentas surgem. A grade curricular de sua faculdade, por exemplo, não contempla de maneira suficiente disciplinas voltadas à tecnologia. A experiência com cirurgia robótica tampouco costuma fazer parte do percurso obrigatório. Quando acontece, muitas vezes é porque o próprio estudante decidiu procurar atividades extracurriculares.

É nesse intervalo entre o que a medicina já consegue fazer e aquilo que os futuros médicos estão aprendendo, que surge uma das questões centrais dessa transformação. A tecnologia avança em ritmo acelerado. Mas a formação, nem sempre. Ainda não há um levantamento nacional que mostre quantas faculdades de Medicina incluem a cirurgia robótica como disciplina obrigatória. O que se observa, nas instituições que já oferecem contato específico com a tecnologia, é que esse aprendizado costuma aparecer como disciplina optativa, atividade extensivas ou treinamento em simuladores.

episódio de greys anatomy
Cena do episódio 22, da temporada 10, mostra um exemplo claro da tecnologia sendo usada dentro da medicina.

Na sala de cirurgia, entretanto, essa velocidade pode representar ganhos concretos. A cirurgia robótica permite ao profissional realizar movimentos com um grau elevado de precisão, alcançando determinadas estruturas por caminhos mais específicos e reduzindo a possibilidade de atingir tecidos que não deveriam ser afetados. O resultado pode ser uma intervenção menos invasiva e, consequentemente, uma recuperação mais rápida para o paciente.

O robô, porém, não opera sozinho. Por trás dos braços mecânicos existe uma equipe. E, por trás da equipe, existe um profissional tomando decisões. É justamente nesse ponto que a estudante enxerga um limite importante para a expansão tecnológica. Para ela, inteligência artificial, cirurgia robótica ou qualquer outra ferramenta não substituem o médico. São extensões de suas habilidades. A conduta continua dependendo da avaliação humana, assim como o raciocínio clínico necessário para compreender um paciente para além dos dados que aparecem em uma tela. Essa fronteira se torna ainda mais importante quando a tecnologia deixa a sala de cirurgia e encontra o paciente.

Vitória ainda tem dificuldade para imaginar como será, no futuro, a relação entre médico, paciente e tecnologia. Mas há algo que ela sabe que não gostaria de perder: o contato humano. Uma consulta não é feita apenas de sintomas, exames e diagnósticos. Existe aquilo que o paciente diz e também aquilo que não consegue dizer. Existem demandas que aparecem em um gesto, em uma hesitação ou na maneira como alguém conta o que está sentindo. Ela entende que a tecnologia não pode criar uma distância onde antes existia vínculo. Afinal, a relação entre médico e paciente também interfere na adesão ao tratamento e na capacidade do profissional de perceber necessidades que não aparecem nos exames.

A medicina tecnológica carrega a promessa de tornar os procedimentos mais precisos mas, paradoxalmente, ela também traz uma indagação menos tecnológica sobre quem terá acesso a esse tipo de procedimento. No Brasil, incorporar um dos avanços mais significativos da área médica, a cirurgia robótica, ao sistema público não significa simplesmente comprar um robô. É preciso ter um hospital capaz de receber o equipamento, infraestrutura adequada, manutenção e profissionais preparados para utilizá-lo. E a capacitação não termina no cirurgião. Instrumentadores e outros integrantes da equipe também precisam aprender a trabalhar com aquela tecnologia. A formação adequada vai muito além apenas de quem usa o jaleco, ela passa por cada profissional que atua no hospital. Esse conjunto de exigências transforma o preço do equipamento em apenas uma parte da discussão. O desafio está em criar condições para que a tecnologia funcione de fato.

A estudante acredita que esse processo ainda pode levar alguns anos, mas vê na robótica possibilidades que vão além do ambiente dos hospitais privados. A telecirurgia, por exemplo, permite imaginar um cenário em que especialistas possam participar de procedimentos realizados a distância, com o apoio de uma equipe presencial. Para ela, essa possibilidade deveria entrar também na conta dos gestores quando se pensa em orçamento e acesso à saúde.

Entretanto democratizar a tecnologia não significa distribuí-la de maneira aleatória. Antes de decidir qual equipamento deve chegar a um hospital público, seria necessário olhar para duas coisas: a capacidade daquela instituição de receber a tecnologia e as necessidades da população que ela atende. Vitória entende que não faria sentido instalar uma estrutura caríssima para cirurgias robóticas ortopédicas em uma região cuja principal demanda seja por procedimentos urológicos, por exemplo.

A medicina do futuro, nesse sentido, também precisaria aprender a olhar para o presente. A inovação só faria sentido se respondesse às necessidades reais dos pacientes. Caso contrário, corre o risco de se transformar em mais um marcador de desigualdade: uma tecnologia sofisticada disponível para poucos enquanto grande parte da população permanece distante dela.

Para a nova geração de médicos, talvez esse seja justamente um dos maiores desafios. Não basta aprender a utilizar as ferramentas que já existem. Será necessário acompanhar aquelas que ainda estão sendo criadas, atualizar-se constantemente e entender até onde cada recurso pode contribuir para o trabalho médico.

Porém, ao mesmo tempo, existe o risco inverso: confiar demais na tecnologia.

Vitória defende que o futuro médico precisa ser capaz de desenvolver seu próprio raciocínio clínico mesmo quando não houver uma ferramenta disponível ao lado. Uma inteligência artificial pode oferecer uma informação rapidamente. Um equipamento pode produzir uma imagem com precisão. Um robô pode executar movimentos que seriam mais difíceis para as mãos humanas. Nenhum deles, porém, deveria retirar do médico a autonomia para compreender o caso e decidir o caminho a seguir.

Talvez seja justamente nessa autonomia que esteja uma das fronteiras da medicina tecnológica. Porque, enquanto máquinas podem calcular, ampliar, localizar, movimentar e até sugerir, ainda existe algo que a tecnologia não aprendeu a fazer: sentir.

Para a estudante, a empatia continuará sendo indispensável. O paciente não é apenas um organismo que apresenta sintomas. É alguém atravessado por questões psicológicas, sociais e emocionais. É nesse território que a medicina deixa de ser apenas técnica e volta a ser encontro entre pessoas. O desafio dos futuros médicos não parece ser escolher entre o jaleco e o robô, é aprender a usar o robô sem esquecer quem está do outro lado da mesa de cirurgia.

A medicina brasileira caminha para um cenário em que tecnologia e cuidado precisarão coexistir. O avanço dos equipamentos pode tornar procedimentos mais precisos e menos invasivos, enquanto a inteligência artificial e outras ferramentas prometem ampliar as possibilidades de diagnóstico e tratamento. Mas a velocidade dessa transformação não garante que ela será igualmente acessível.

Entre o hospital equipado e aquele que ainda não possui estrutura, entre o estudante que encontra uma atividade extracurricular e aquele que nunca teve contato com a robótica, existe uma distância que a tecnologia, sozinha, não consegue atravessar. É nessa distância que se encontra a verdadeira questão sobre a medicina do futuro: não apenas até onde as máquinas serão capazes de chegar, mas até onde o sistema de saúde brasileiro, mesmo com todos os desafios, conseguirá levá-las, e para quem elas serão oferecidas.

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Pesquisadores documentam falhas graves em chatbots usados para terapia
por
Rafael Jorge
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28/09/2026 - 12h

Por Rafael Jorge

 

Marina abre o aplicativo às 23h47min. A tela ilumina o teto do quarto, e ela digita devagar, como quem ainda está decidindo se vale a pena continuar acordada só para falar sozinha, embora, tecnicamente, não esteja. A resposta chega em menos de três segundos. É gentil, bem construída, sem pressa nenhuma, o tipo de calma que ninguém tem à meia-noite de uma terça-feira. A IA valida o que ela sente, pergunta com delicadeza sobre o que Marina lembra do pai, sugere técnicas de respiração para quando a culpa aperta o peito. Marina se sente ouvida. É a quarta noite seguida que ela conversa assim.

Marina tinha uma psicóloga, pelo plano de saúde, uma sessão por semana havia dois anos. Depois da morte do pai, ela pediu para aumentar a frequência. A operadora negou duas sessões mensais era o limite do plano básico, e mudar de categoria significava esperar noventa dias de carência. A psicóloga particular que ela pesquisou cobrava o equivalente a um terço do salário de Marina por mês. Ela fez as contas, adiou a decisão, e uma noite, sem premeditação, abriu o aplicativo de IA que já usava para revisar e-mails de trabalho.

Essa combinação, acesso limitado a profissionais, custo alto, disponibilidade zero de plantão emocional, é exatamente o que pesquisadores apontam como motor do fenômeno. Um levantamento da Harvard Business Review, divulgado em 2025, colocou "terapia e companhia virtual" no topo da lista dos dez usos mais comuns de inteligência artificial generativa no mundo, à frente de tarefas como redigir textos ou programar. Não é um uso marginal, é, hoje, um dos motivos centrais pelos quais as pessoas abrem esses aplicativos.

A explicação não é misteriosa. A tecnologia oferece coisas que o sistema de saúde mental, sobrecarregado em quase todos os países, frequentemente não consegue oferecer como resposta imediata, ausência aparente de julgamento e custo zero. Para uma geração que já resolve boa parte da vida prática pelo celular, conversar com um chatbot às vezes parece menos custoso socialmente, do que ligar para alguém e admitir que a noite está difícil.

Nas primeiras semanas, a experiência de Marina com a IA foi, à primeira vista, positiva. As respostas são organizadas, empáticas, cheias de validação, "faz muito sentido você sentir isso", "é completamente compreensível", "você está sendo gentil consigo mesma ao reconhecer isso". Ela nunca se sente julgada. Nunca é interrompida. Nunca precisa esperar uma semana para desabafar de novo.

É exatamente aqui que pesquisadores identificam o primeiro risco relevante, a validação automática excessiva. Um chatbot de uso geral é, em boa medida, otimizado para manter a pessoa engajada na conversa, o que na prática costuma significar concordar, acolher, suavizar qualquer atrito. Isso é agradável, mas pode ser o oposto do que uma análise de verdade frequentemente exige, que é também confrontar padrões de pensamento, questionar narrativas e, por vezes, gerar um desconforto que é parte do processo terapêutico. Um estudo apresentado neste ano na Conferência AAAI/ACM sobre Inteligência Artificial, Ética e Sociedade, conduzido por pesquisadores da Universidade Brown, mapeou quinze riscos éticos distintos em chatbots que atuam como conselheiros de saúde mental. A equipe reuniu sete conselheiros treinados em terapia cognitivo-comportamental para conduzir sessões simuladas com sistemas como o ChatGPT, o Claude e o Llama, usando como base conversas reais de aconselhamento humano, psicólogos clínicos licenciados revisaram depois as transcrições em busca de violações éticas. Entre os problemas identificados estavam justamente respostas que reforçavam, em vez de questionar.

Marina não sabe nada disso. Para ela, a validação constante é só um alívio depois de meses tensos. É difícil perceber um risco que se parece, ponto a ponto, com aquilo que ela mais precisava, alguém que não a interrompesse.

Numa quinta-feira, algumas semanas depois da primeira conversa, Marina escreve algo diferente. Não é um pedido de ajuda explícito, é uma frase solta no meio de um desabafo mais longo, "às vezes eu queria só dormir”. A IA responde com empatia, sugere técnicas de manejo de ansiedade, pergunta como ela está se sentindo agora. Não pergunta diretamente o que ela está pensando. Não menciona um número de apoio. Não sinaliza, de forma clara, a gravidade daquela frase.

Nada de irreversível acontece com Marina naquela noite. Ela fecha o aplicativo, dorme mal, acorda cansada. Mas o episódio é um acidente que, multiplicado por milhões de conversas ao redor do mundo, revela por que organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiram tratar o tema com urgência, em janeiro deste ano, a entidade reuniu pesquisadores, gestores públicos e profissionais de saúde para discutir especificamente o uso de IA em contextos de saúde mental, e elaborou recomendações que incluem avaliar o impacto psicológico dessas ferramentas antes da liberação ao público.

Passado o susto daquela noite, Marina continua usando o aplicativo, só que com mais cautela, evitando tocar de novo naquele assunto. O que muda, sem que ela perceba claramente, é o entorno da sua vida. A irmã liga, Marina atende, mas as conversas ficam mais curtas, porque ela já "desabafou" à noite, com a IA. A psicóloga, que ela ainda vê uma vez por semana, comenta que Marina parece mais fechada nas sessões, como se já tivesse processado tudo sozinha antes de chegar ali.

Há mais uma camada, menos visível no dia a dia de Marina, mas presente em quase todos os relatos sobre o tema, a privacidade. Nas conversas de madrugada, ela compartilhou informações extremamente íntimas, luto, culpa, pensamentos e detalhes da relação com o pai que nunca contou a ninguém além da psicóloga. Dependendo da plataforma e de suas políticas de uso de dados, esse tipo de conteúdo pode ser armazenado, processado ou, em alguns casos, utilizado para aprimorar versões futuras do próprio sistema, uma condição que a maioria dos usuários aceita em termos de uso que raramente lê até o fim.

Essa é, talvez, a linha mais difícil de enxergar quando se está do outro lado da tela, às 23h47min, sem ninguém mais para conversar. Marina não fez nada de errado. Ela só usou a ferramenta que estava disponível, gratuita e sempre acordada. O problema nunca esteve inteiramente nela, está na distância entre o que a tecnologia parece oferecer e o que ela não sabe fazer, reconhecer uma crise, dizer um "não" que ajude, e insistir para que alguém procure, de verdade, o cuidado humano que nenhuma resposta gerada em três segundos consegue substituir.

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Pesquisas da UNICAMP e de uma universidade da Espanha comprovam que consumidores acham produtos com proteína mais saudáveis sem ver sua composição nutricional
por
martim tarifa
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28/09/2026 - 12h

Por Martim Tarifa

 

Fábio tem 26 anos e desde criança quase sempre esteve acima do peso. Com o passar do tempo e principalmente durante a pandemia, Fábio se tornou obeso devido a um período difícil em questão de sua saúde mental. Ele terminou a escola durante a quarentena e se viu sem chances de ingressar em uma universidade ou arranjar um emprego. 
Com o fim da pandemia, o principal objetivo era recuperar sua saúde física e mental,  para depois pensar o que fazer da vida.

Fábio fez da academia um hábito. Executava os exercícios corretamente e se mantinha disciplinado na dieta, mas não via grandes resultados. Assim ele acabou transferindo a culpa para si mesmo e voltou a ter depressão, deixou de frequentar a academia e começou a focar apenas no emprego que havia arrumado a pouco tempo. 

Foi apenas cerca de 1 ano depois que Fábio decidiu se consultar com uma nutricionista presencialmente. Apresentando toda a sua rotina da época em que estava praticando atividade física regularmente, ficou claro para a profissional que o problema estava na alimentação. Apesar da dieta estar correta, toda proteína consumida por Fábio vinha de alimentos ultra processados e ou altos em gordura e açúcar. Algo que o jovem nem tinha parado para pensar, pois imaginava que por ter proteína e ser indicado por pessoas do mundo fitness, esse produto seria saudável. Depois disso Fábio retomou a musculação e o acompanhamento nutricional com profissionais que estavam o auxiliando de verdade e mantinham contato presencial.

 

Com o crescimento da recente moda de adição de proteína em alimentos comuns, o consumidor deve ficar alerta em como isso é uma estratégia de marketing das empresas. Ter proteína extra não torna um alimento necessariamente saudável. Um produto ultra-processado com altos índices de açúcar e ou sódio não se torna bom para a nossa saúde apenas por ter mais proteína. Porém o consumidor ainda não percebeu isso e as empresas do ramo alimentício estão aproveitando essa oportunidade. 

Uma pesquisa realizada pela FCA da UNICAMP (Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade de Campinas) entrevistou 412 pessoas para entender como essa adição de proteína principalmente destacada nos rótulos dos produtos afetava a preferência de compra dos consumidores. E os resultados confirmam a tese de que um produto ultra-processado ganha uma nova chance com os consumidores apenas por possuir no rótulo o selo light, fit, saudável e proteico. Todos os entrevistados se mostraram afetados por esse padrão. Até mesmo os consumidores que dizem não se importar com a saúde, disseram escolher alimentos com essa característica, por mais que sem saber, a fórmula continuasse a mesma em muitos casos. 

Outro estudo, publicado na revista científica Nutrients, e conduzido por pesquisadores da Universidad Complutense de Madrid, analisou 36 produtos processados enriquecidos com proteína vendidos em supermercados da Espanha. O nível de proteína desses produtos variava de 10% a 88%, mostrando o quanto essa "dose extra" pode ser exagerada. Segundo a pesquisa, apenas uma porção de alguns desses produtos, somada a 150g de carne no dia, já é suficiente para ultrapassar toda a recomendação diária de proteína de uma pessoa, chegando a até 306% do necessário em mulheres e 232% em homens. O consumidor pode estar exagerando no consumo sem nem perceber, apenas por confiar no rótulo. O estudo também aponta riscos desse excesso: o risco de pré-diabetes e diabetes tipo 2 pode aumentar entre 20% e 40% a cada 10g de proteína consumida além do necessário, além de possíveis efeitos negativos na microbiota intestinal e até ganho de peso, quando o excesso de proteína não vem acompanhado de uma redução de carboidratos ou gorduras na dieta.

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Barras de proteína são o principal alimento ultra processado do mundo fitness. 


No caso de Fábio foram as dicas de exercício, dieta e suplementos que o auxiliaram. Disse que sabia nada de academia, dieta e proteína. Tudo aprendeu na Internet. Hoje está conseguindo emagrecer e tem uma saúde mental estável para enfrentar o dia-a-dia.

Por isso é essencial que o consumidor aprenda a checar o rótulo corretamente antes de confiar apenas no que está estampado na embalagem. O primeiro passo é ignorar as chamadas na frente do produto, como "rico em proteína" ou "fit", e ir direto para a tabela nutricional e a lista de ingredientes. Nessa lista, os ingredientes aparecem em ordem decrescente de quantidade, ou seja, os primeiros da lista são os que mais compõem o produto. Se açúcar, xarope de glucose ou gordura vegetal aparecerem entre os primeiros, é um sinal de alerta, mesmo que a proteína esteja em destaque na embalagem. Outro ponto importante é observar o tamanho da porção usada como referência na tabela nutricional, já que muitas vezes as empresas calculam os valores para porções pequenas, fazendo o produto parecer mais saudável do que realmente é quando consumido na quantidade real. Por fim, vale comparar o produto "fit" com a versão tradicional do mesmo alimento, olhando lado a lado os valores de açúcar, sódio e gordura saturada, para entender se a diferença é real ou apenas uma estratégia de marketing.
    

    

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Consultas, cirurgias e anos de dor fazem parte da rotina de mulheres com endometriose, que enfrentam o desafio de serem levadas a sério
por
Maria Clara Palmeira
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28/09/2026 - 12h

Por Maria Clara Palmeira

 

Antes mesmo de saber o nome da doença, Carolina já conhecia a dor e Liliane Lima  levou quase sete anos para descobrir o que provocava as crises que a faziam abandonar o trabalho e procurar o pronto-socorro. Separadas por décadas e por experiências muito diferentes de acesso à informação e ao atendimento médico, as duas têm em comum uma doença que pode transformar a menstruação em um obstáculo para a vida cotidiana. A endometriose, caracterizada pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio fora do útero, ainda pode levar anos para ser diagnosticada e, nesse intervalo, muitas mulheres aprendem a conviver com uma dor que nem sempre é levada a sério.

A doença inflamatória e crônica que ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio, camada que reveste o interior do útero, se desenvolve em outras regiões do organismo. As lesões podem atingir os ovários, as trompas, o intestino, a bexiga e outras estruturas da região pélvica. A doença pode provocar cólicas intensas, sangramento, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais e urinárias e dificuldades para engravidar. A intensidade dos sintomas varia entre as pacientes, mas, nos casos mais graves, a dor pode deixar de ser apenas um sintoma associado à menstruação e passar a determinar a rotina de quem convive com ela.

Carolina menstruou pela primeira vez aos 13 anos. As dores, porém, já faziam parte de sua vida antes mesmo da primeira menstruação. Quando o ciclo chegou, a intensidade dos sintomas deixou de parecer apenas uma característica da adolescência, o fluxo era muito intenso, as cólicas eram fortes e os dias de menstruação passaram a interferir na rotina. 

A família conhecia a doença por conta do seu histórico familiar e, por isso, Carolina teve acesso desde cedo a uma ginecologista que já acompanhava sua mãe. Aos 14 ou 15 anos, depois de passar por exames, recebeu a confirmação, o diagnóstico chegou cedo, mas não significou que o tratamento seria simples. Diz que sempre se sentiu muito segura (com a ginecologista), ainda mais por a conhecer desde pequena. Sua mãe já fazia acompanhamento com ela, por isso cresceu tendo essa referência. Quando começou a sentir tudo aquilo, já sabia que podia ser endometriose e conseguiu investigar mais rápido.

Durante o tratamento, Carolina passou por aproximadamente sete anticoncepcionais diferentes até encontrar um que conseguisse controlar os sintomas. Por cerca de três anos, emendou as cartelas e deixou de menstruar, a estratégia permitiu que mantivesse uma rotina que, durante os períodos de crise, ficava praticamente impossível. Ela conta que era praticamente impossível ter ciclo, porque sempre Carolina parava no hospital. Quando menstruava, não conseguia seguir a vida normalmente, mas, finalmente, encontrou um anticoncepcional que funcionava, foi importante para que ela conseguisse voltar a ter uma rotina.

A endometriose afeta cerca de 7 a 8 milhões de mulheres no Brasil, o que representa entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva
A endometriose afeta cerca de 7 a 8 milhões de mulheres no Brasil, o que representa entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva

A história de Liliane seguiu por outra direção, em 1999, aos 28 anos, ela começou a sentir dores fortes antes, durante e depois da menstruação. Moradora da Vila Brasilândia, na zona norte de São Paulo, procurou os serviços públicos de saúde da região. Passou por postos, foi encaminhada para outros atendimentos e chegou à Santa Casa, entretanto, não recebeu um diagnóstico. A cada novo ciclo, a resposta era voltada para o alívio imediato da dor.

A menstruação de Liliane durava sete dias e vinha acompanhada de sangramento intenso e muitos coágulos e em algumas ocasiões, o sangue atravessava a roupa enquanto ela estava trabalhando e era preciso voltar para casa. A perda frequente de sangue provocava anemia e, nas crises mais fortes, ela precisava receber Tramal pela veia. Ela conta que sua menstruação durava sete dias, sempre muito intensa e com coágulos. Por quase sete anos, ela procurou uma resposta. A encontrou apenas em 2006, depois de conseguir um plano de saúde e na primeira consulta com um novo ginecologista, a possibilidade de endometriose foi levantada e os exames confirmaram a doença. O diagnóstico chegou quando o quadro já estava avançado. No ano seguinte, Liliane passou pela primeira cirurgia. O médico encontrou uma grande quantidade de aderências e precisou interromper o procedimento diante do risco de atingir outros órgãos. Em 2008, passou por uma segunda cirurgia, desta vez por videolaparoscopia, para retirar parte das aderências.

Foi durante esse processo que ouviu dos médicos que teria menos de 1% de chance de engravidar, a possibilidade de não ser mãe foi uma das partes mais difíceis do tratamento. Liliane queria muito ser mãe e quando o médico fala que a possibilidade de engravidar é praticamente nenhuma, mexe com o psicológico daquela mulher, as vezes até mais que a própria dor física. Precisar trabalhar o psicológico, o emocional, fazer o tratamento, passar por cirurgia e, ao mesmo tempo, saber que talvez não consiga realizar um sonho é difícil. A dor voltou ainda mais forte em 2009. Depois de enfrentar outras complicações de saúde, Liliane finalmente passou por uma histerectomia em outubro daquele ano. A cirurgia marcou uma mudança na relação com a dor que havia acompanhado sua vida durante uma década. Depois que tirou o útero, as dores praticamente cessaram. Liliane comenta que é uma diferença muito grande para quem passou tantos anos vivendo com dor. Mesmo depois com toda a adaptação, ela conta que existem outras fases como a menopausa, da alimentação, da atividade física. Apesar disso, quela dor que fazia parte da rotina praticamente deixou de existir.

Enquanto Liliane atravessava anos de consultas sem diagnóstico, Carolina tinha uma trajetória marcada pelo acompanhamento desde a adolescência. Ainda assim, anos depois, também precisou voltar ao ponto de partida: a dor. Em 2025, uma crise levou Carolina ao hospital. Ela havia procurado atendimento para receber medicação, mas sua médica decidiu solicitar uma ressonância magnética diante da suspeita de que a endometriose pudesse estar comprometendo outras estruturas. A cirurgia, que já estava prevista para acontecer em algum momento, acabou sendo antecipada.

A procura por respostas também levou Carolina a buscar outros médicos. Em uma dessas consultas, ouviu que a dor poderia ser psicológica, a fala teve um peso diferente porque vinha depois de uma cirurgia e de anos de acompanhamento médico. Liliane também conhece a sensação de procurar ajuda e não encontrar acolhimento, durante os anos em que utilizou o sistema público de saúde, ela diz que ninguém conseguiu investigar a origem das dores. Para ela, mesmo que determinados exames não estivessem disponíveis naquele momento, uma orientação poderia ter mudado o percurso.

As duas relatam que endometriose atravessou a vida para além dos consultórios e hospitais. A dor interferia no trabalho, nos compromissos e na possibilidade de planejar atividades simples. Apesar do transtorno, depois do diagnóstico, Liliane passou a falar mais sobre a doença quando amigas relataram cólicas fortes. Algumas procuraram ginecologistas e descobriram também a mesma doença. Para ela, falar sobre o assunto é também uma maneira de evitar que outras mulheres passem anos sem entender o que acontece com o próprio corpo. Ela alerta, que se a cólica é tão forte que você não consegue trabalhar, não consegue sair da cama, não consegue fazer a sua vida, procure um ginecologista e investigue.

É nesse intervalo entre a primeira queixa e a investigação que as histórias de Carolina e Liliane se encontram. Uma teve a possibilidade de investigar cedo por conhecer a doença dentro de casa, a outra precisou atravessar quase sete anos de consultas e crises até ouvir o diagnóstico. Entre as duas, permanece uma questão que ultrapassa a experiência individual: quanto tempo uma mulher precisa sentir dor até que alguém decida investigar o que seu corpo está tentando dizer?

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As pessoas relatam porque ainda não foram ao posto de saúde se proteger
por
Daniella Ramos
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28/09/2026 - 12h

Por Daniella Ramos

 

Paola Barbosa, 26 anos, moradora da Zona Leste de São Paulo, enfrenta dificuldade para conseguir se vacinar contra o sarampo. Até o momento, o estado de São Paulo registrou 37 casos e precisou ampliar sua vacinação.  Ela acorda às 5h da manhã todos os dias, sai para o trabalho às 6h e só volta para a casa às 23h, os postos de saúde costumam abrir às 7h e fechar às 19h, logo, a estudante de publicidade, se vê sem opções: sai de casa antes do posto abrir e volta depois que ele já fechou. 

Além da rotina exaustiva, os finais de semana servem como um respiro para conseguir aguentar mais uma nova semana intensa. Paola se vê entre escolher ter dinheiro para sobreviver ou ter tempo para cuidar de sua saúde. O capitalismo que move o mundo, acaba remoendo a vida da estudante em seu cotidiano e nos seus costumes. Em razão disso ela só foi ter noção de como estavam as condições da população sobre a vacinação do sarampo através de amigos que contaram para ela, em conversas descontraídas, que tinham se vacinado, pois no seu dia a dia e nas suas redes sociais, Paola não teve acesso a essa informação.

Para entender porque Paola não teve acesso à essa informação de interesse público, basta entender a lógica dos algoritmos. Um conjunto de sistemas automatizados aprenderam o que prende a atenção de cada pessoa e, a partir dessas informações, esse sistema consegue montar, em frações de segundo, um feed personalizado para cada usuário. 

O algoritmo de Paola não trouxe à ela uma informação que é de necessidade pública, que precisaria ser passada a todos, mas que não é de interesse capital, principalmente para META e o X, o que faz com que nas redes ela não tenha tão facilmente esse acesso ao que estava ocorrendo. Mas não só ela foi afetada.

Nathalia Ayub, 24 anos, publicitária da zona sul de São Paulo, passa pelo mesmo problema. Sai de casa antes do posto de saúde abrir e volta quando ele já está fechado, mas relata um diferencial: embora se tenha tentado se planejar para tomar a vacina no horário de almoço. percebeu que não havia nenhum posto de saúde perto o suficiente para ir dentro do período liberado.  Ayub ainda chegou a ter atenção nas propagandas dos relógios de rua, pois dentro do ônibus viu de longe a mensagem que os postos funcionariam aos sábados para tentar atender a população, mas com os trabalhos freelancers que ela exerce para ter uma renda extra, também não conseguiria ir no final de semana.

Ainda interessada pela vacina, Nathalia faz questão de ressaltar possibilidades para melhoria da vacinação em seu bairro de forma que ela pudesse ser contemplada também: para além da vacinação em algumas estações de metrô, ela sugere que sejam em várias estações por vários dias e tentar parcerias com supermercados, padarias e farmácias para que houvessem mais opções de lugares para se prevenir contra o sarampo. 

Assim como Paola, o algoritmo de Nathalia em nenhum momento chegou a sugerir para ela qualquer tipo de informação sobre a vacinação. Se a publicitária não tivesse a curiosidade de olhar para fora na janela de ônibus, talvez nem soubesse quais meios de poderia usar para se vacinar.

Entre 3 e 19 de agosto, a Secretaria Municipal da Saúde registrou a aplicação de 1.045.758 doses em um estado que tem 46.179.008 pessoas. 

Uma pesquisa do DataSenado aponta de 54% dos brasileiros têm meios digitais como principal fonte de notícias. Para as entrevistadas, o melhor seria uma maior amplitude de divulgação nas redes sociais e no cotidiano dos transportes públicos a fim de ajudar a Secretaria da Saúde levar o contexto da vacinação para a população.

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Os hormônios chamados bioidênticos têm sido usados no tratamento de sintomas da menopausa.
por
manuela schenk scussiato
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17/11/2025 - 12h

Por: Manuela Schenk

 

Maria Rosa é moradora de um bairro tranquilo em Belo Horizonte e tem 58 anos. Vivia dias que pareciam sempre nublados. A menopausa havia chegado silenciosa, mas dominando cada detalhe de sua rotina: noites interrompidas por ondas de calor, cansaço persistente e um humor tão instável quanto o clima da cidade. Professora aposentada, ela se viu pela primeira vez incapaz de organizar sua própria vida, como se o corpo tivesse assumido o comando sem pedir permissão.

Os meses seguintes foram marcados por idas e vindas a médicos, tentativas de adaptar a rotina e conversas demoradas com amigas que compartilhavam experiências semelhantes. Nada parecia surtir efeito, até que ouviu falar de uma abordagem que ganhava espaço em consultórios especializados: a terapia com hormônios bioidênticos. Curiosa e cansada de sentir que estava vivendo apenas no piloto automático, Maria decidiu buscar uma avaliação completa para entender se aquela alternativa poderia ser adequada para ela.

A equipe médica analisou seu histórico e, após uma explicação detalhada sobre os possíveis benefícios e limitações, apresentou a reposição hormonal bioidêntica como uma opção. Maria aceitou iniciar o tratamento, não como uma promessa de solução mágica, mas como a possibilidade de reencontrar a si mesma. Nos dias seguintes, seu ceticismo dividia espaço com uma esperança tímida, que ela mal ousava verbalizar.

As mudanças começaram de forma sutil. As noites tornaram-se menos turbulentas, os suores repentinos diminuíram e, com o sono mais estável, veio também uma energia que Maria acreditava ter perdido para sempre. Pequenas vitórias foram se acumulando: a disposição para caminhar pela manhã, o prazer em preparar o próprio café e até a vontade de retomar projetos que havia abandonado quando os sintomas apertavam.

Com o passar dos meses, a melhora deixou de ser apenas física, ela sentiu seu mundo voltando a ter cor. Amigos próximos notaram o brilho renovado no olhar, e Maria passou a falar abertamente sobre sua experiência, sempre destacando que cada mulher tem sua trajetória e que o acompanhamento profissional é indispensável. Para ela, a reposição hormonal bioidêntica representou mais do que um tratamento: foi a reconquista de uma vida que parecia ter escapado pelas frestas do tempo.

Hoje, Maria Rosa caminha pela praça do bairro com passos firmes, como quem recuperou não só o controle do próprio corpo, mas também o entusiasmo pelos dias que virão. Sua história é uma entre tantas que ilustram a complexidade da menopausa e a importância de abordar o tema com informação, cuidado e sensibilidade. E, enquanto observava o movimento ao redor, ela resumiu sua jornada com simplicidade dizendo que a menopausa tentou paralisá-la mas aos poucos ela aprendeu que existe sempre um caminho para voltar a florescer.

Com o tempo, Maria foi percebendo que a melhora não se refletia apenas no cotidiano, mas também em suas relações. Ela voltou a frequentar rodas de leitura, retomou encontros semanais com antigas colegas de profissão e até se animou a planejar pequenas viagens. “Parece que eu reencontrei minha própria companhia”, comentou certa vez, rindo com a naturalidade que havia deixado de sentir. O que antes era medo de enfrentar os dias transformou-se em vontade de ocupar novamente os espaços que sempre foram seus.

Seu marido, Antônio, também testemunhou essa transformação de perto. Ele lembra que, antes do tratamento, as noites eram marcadas por inquietação e cansaço, e as conversas acabavam ofuscadas pela exaustão. Agora, o casal redescobre uma rotina mais leve, com caminhadas ao entardecer e longas conversas na cozinha. Para ambos, a mudança de Maria representou não apenas um avanço individual, mas uma renovação de laços, mostrando como o bem-estar de uma mulher reverbera por toda a família.

Os hormônios desempenham papéis essenciais no equilíbrio do organismo, regulando funções como metabolismo, humor, sono e, quando falamos em reposição hormonal, especialmente para mulheres na menopausa, é comum surgirem dúvidas sobre a diferença entre hormônios tradicionais (sintéticos) e hormônios bioidênticos. Embora ambos tenham o objetivo de aliviar sintomas decorrentes da queda hormonal, eles se distinguem principalmente pela estrutura química e pela forma como o corpo os reconhece.

Os hormônios tradicionais, frequentemente chamados de sintéticos ou não bioidênticos, são produzidos em laboratório, mas não necessariamente possuem a mesma estrutura molecular dos hormônios humanos. Apesar de eficazes para muitas mulheres, podem apresentar respostas variáveis no organismo porque sua interação com os receptores hormonais nem sempre ocorre da mesma forma que com os hormônios naturais. Isso pode influenciar tanto os efeitos desejados quanto o perfil de efeitos colaterais.

Já os hormônios bioidênticos são formulados para terem estrutura molecular idêntica à dos hormônios produzidos naturalmente pelo corpo humano. Por esse motivo, o organismo costuma reconhecê-los e metabolizá-los de maneira mais semelhante aos hormônios endógenos. Essa similaridade é o principal argumento de profissionais e pacientes que relatam maior tolerabilidade e adaptação, embora a resposta possa variar de pessoa para pessoa.

A reposição hormonal feita com hormônios bioidênticos pode oferecer benefícios para mulheres na menopausa, como alívio de ondas de calor, melhora da qualidade do sono, redução da irritabilidade, maior lubrificação vaginal e, em alguns casos, melhora da vitalidade e do bem-estar geral. Algumas mulheres relatam que os bioidênticos promovem um equilíbrio mais suave, possivelmente por serem metabolizados de forma mais natural pelo organismo.

Além disso, especialistas ressaltam que os hormônios bioidênticos podem ser formulados de maneira personalizada, ajustando dosagens e combinações conforme as necessidades individuais de cada mulher, sempre com supervisão de profissionais qualificados. Essa possibilidade de personalização é um dos pontos que costumam atrair pacientes que buscam uma abordagem mais adaptada ao próprio corpo, embora continue sendo fundamental o acompanhamento regular, exames periódicos e avaliação cuidadosa dos resultados.

Apesar das vantagens relatadas, é importante lembrar que qualquer terapia hormonal exige acompanhamento médico, independentemente de ser feita com hormônios sintéticos ou bioidênticos. A combinação adequada de hormônios, a forma de administração e o monitoramento regular são fundamentais para garantir segurança e eficácia. Cada mulher possui necessidades individuais, e somente um profissional qualificado pode orientar a melhor abordagem para cada caso.


 

É importante saber até onde ela esbarra no limite da ética científica
por
Chloé Dana
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18/11/2025 - 12h

Por Chloé Dana

 

Em "A Condição Humana", Hannah Arendt analisa de que maneira a época moderna alterou a centralidade da experiência humana. No passado, a política era o ambiente onde as pessoas se reuniam para construir um mundo compartilhado, um espaço vibrante de debate, divergências e criação coletiva. Atualmente, ela afirma que a política se transformou na gestão da vida orgânica. O foco mudou para a preservação do corpo, aumentando sua longevidade e minimizando seu sofrimento. Assim, a vida pública foi substituída pela luta pela sobrevivência. É nesse cenário que a bioética surge como uma resposta aos desafios que reconfiguram a visão que a humanidade tem de si mesma. Ela facilita discussões sobre o começo e o término da vida, a qualidade da vivência humana, os limites éticos dos experimentos científicos e as implicações das decisões relacionadas ao corpo. Baseia-se em valores como autonomia, dignidade e justiça, tornando-se um guia essencial em um mundo em que a ciência pode interferir de maneira cada vez mais profunda na nossa essência.

A vastidão desse domínio reflete a complexidade da vida atual, envolvendo discussões sobre aborto, euthanasia, objeção de consciência, maternidade substitutiva, tecnologias reprodutivas, decisões médicas influenciadas por crenças religiosas, modificações genéticas e os efeitos ambientais sobre os organismos vivos. A bioética surge porque a ciência contemporânea ganhou a capacidade de editar genes, escolher embriões, manipular dados pessoais, prolongar vidas e transformar corpos. Questionar “até onde a ciência deve ir” é, na essência, perguntar como proteger a humanidade que reside por trás das inovações. É assegurar autonomia, privacidade, proteção dos vulneráveis e igualdade no acesso aos benefícios da biotecnologia. Contudo, essas questões não se restringem apenas à filosofia. Elas se materializam nos consultórios, onde ciência e vulnerabilidade humana se encontram diariamente.

É nesse contexto que a vivência do geneticista Elias Monteiro ilumina, com seu corpo e voz, aquilo que muitas vezes permanece no abstrato. Uma pessoa que carrega, sem alardear, a serena responsabilidade de lidar diariamente com escolhas complicadas. Seu dia inicia cedo, sempre com exames dispostos sobre a mesa, fragmentos de DNA organizados como se fossem pequenas cartas enviadas pelo corpo humano. Cada laudo gera indagações, cada sequência genética oferece uma nova possibilidade, cada variante pode alterar o rumo de uma vida.

Entre esses documentos, aparecem histórias concretas: famílias que buscam esclarecimentos após anos de dúvidas, casais que tentam planejar o futuro com menor temor, adultos que carregam desde a infância incertezas que nunca foram nomeadas. A rotina dele é composta por precisão técnica, mas também por gestos sensíveis. A genética, em suas mãos, não se restringe à análise molecular; se transforma também em tradução, convertendo a linguagem científica em algo que alguém possa utilizar para respirar melhor, entender mais e viver de forma mais plena.

E ao discutir os limites éticos na ciência, é perceptível uma leve alteração em sua perspectiva. Não se trata de medo; é clareza mental. Ele percebe que a tecnologia vigente tem o potencial de modificar estruturas que antes eram imutáveis: realizar edições genéticas, selecionar traços, alterar direções que vão além da vida de quem está na sua frente. Para ele, tal poder requer mais cautela do que entusiasmo. Interferir no DNA de um indivíduo afeta também o futuro de gerações que ainda estão por vir. Por essa razão, ele argumenta que todo progresso deve ser acompanhado por dignidade, autonomia e justiça, pilares fundamentais para que a ciência mantenha sua integridade moral.

A genética, em sua visão, representa um domínio onde a precisão se alia à sensibilidade. Não há imparcialidade diante de um diagnóstico que pode reconfigurar a vida de uma família inteira. Cada explicação, cada resultado e cada previsão traz um impacto emocional que um algoritmo não consegue prever. Para ele, sua função não se encerra ao descobrir uma mutação; é aí que realmente começa. E talvez seja isso que faz sua presença parecer a de alguém que transita entre dois mundos: a exatidão dos dados e a fragilidade humana, a rigidez do código e a empatia da experiência. Seguindo suas considerações, torna-se claro que a bioética não é um território isolado da vida cotidiana, mas uma demanda urgente que permeia cada exame, cada consulta e cada decisão. Pois enquanto a ciência evolui, a ética deve avançar simultaneamente, não como entrave, mas como salvaguarda.

A manipulação genética em humanos traz à tona esse desafio em sua forma mais intensa. Alterar o código que forma a identidade de um ser envolve riscos imprevisíveis e consequências que podem se estender por gerações. Há também a tentação de empregar essas tecnologias para fins não terapêuticos: melhorar a aparência, a capacidade cognitiva, a força física, aumentando desigualdades, criando distinções artificiais, convertendo diferenças em produtos. Portanto, estabelecer limites éticos e legais se mostra essencial para resguardar a dignidade humana e assegurar que o futuro não fique moldado apenas pelos anseios dos mais favorecidos.

Ao considerar todos esses aspectos, desde as inquietações filosóficas de Arendt até os dilemas éticos que a genética contemporânea propõe, torna-se claro que estamos em um ponto crucial da trajetória humana. Nunca tivemos tanta influência sobre a vida e nunca fomos tão responsáveis por decidir como utilizá-la. A ciência avança, rompendo barreiras que antes eram sagradas; a bioética tenta acompanhar esse movimento, lembrando que nenhuma descoberta é isenta de influência, e que qualquer intervenção na vida deve ser feita com cuidado, prudência e compaixão.

O debate acerca da edição genética transcende uma mera questão técnica. é uma reflexão sobre a humanidade que almejamos ser. É nossa responsabilidade, tanto como indivíduos quanto como coletividade, determinar se iremos criar um mundo impulsionado pela urgência de aprimorar a existência ou pela compreensão de sua preservação. Nesse contexto, a bioética aparece não como um obstáculo, mas sim como um guia: uma ferramenta para assegurar que, ao alterarmos elementos do código da vida, não negligenciamos a conservação daquilo que nos caracteriza como seres humanos.

 

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Com impacto semelhante ao da depressão, a dor persistente atinge 37% dos brasileiros acima de 50 anos.
por
Wanessa Celina
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17/11/2025 - 12h

Por Wanessa Celina

No Brasil, em 2023, o Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos (ELSI-Brasil)  apontou que 37% dos adultos com mais de 50 anos possuem dores crônicas. Além do desconforto físico elas afetam a saúde mental dos pacientes. Em março de 2025, uma pesquisa feita por Johns Hopkins Medicine revelou que, aproximadamente, 40% dos adultos com dor crônica manifestam sintomas clinicamente significativos de depressão e ansiedade.

Dores crônicas são definidas como aquelas que duram mais de três meses e que devem ser tratadas para sempre. Podem ser fibromialgia, dor lombar crônica, enxaqueca crônica, hipertensão, diabetes e outras outras doenças, explica o reumatologista da Secretaria de Saúde do Governo do Estado de São Paulo, José Eduardo Martinez. Segundo afirma, existe uma ligação direta entre dores crônicas e o estado emocional do paciente, sendo que um influência o outro. 

Do ponto de vista da neurofisiologia, a correlação é facilmente explicada. O cérebro humano percebe a dor após uma série de modificações nos nervos que caminham pelo sistema nervoso periférico – o que  transmite informações dos órgãos para o cérebro – , algumas das áreas cerebrais que precipitam a dor são, também, as que são ativadas nas questões emocionais, explica Martinez. 

Para tratamentos de dores crônicas, a associação entre os tratamentos com médicos e  fisioterapeutas em conjunto com um apoio psicológico, pode ter uma boa ação no quadro dos pacientes. Em outubro de 2023, foi sancionada a Lei nº 14.705/2023 que oferece a pacientes com fibromialgia, síndrome da fadiga crônica ou síndrome complexa de dor regional, um atendimento multidisciplinar – como fisioterapia, psicoterapias e medicina –  feito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). 

Mesmo com esses outros apoios psicológicos, o impacto que a doença traz na relação social também afeta o paciente. Segundo José Martinez, uma das principais queixas dos pacientes que têm doenças que geram dor é não serem compreendidas como doentes. Muitas pessoas não percebem que estão convivendo com alguém que esteja sofrendo de dor crônica e o tratamento acaba por ser mais difícil para o paciente.

Isso é um caso de Giovana, que possui enxaqueca crônica. Com apenas 23 anos, ela gosta de sair e se divertir com os amigos, mas muitas vezes fica incapaz de sair de casa por causa das dores. Quando era adolescente suas dores começavam leves e aumentavam até ser uma dor insuportável, depois de adulta, as dores começaram a ser sempre as mesmas, começavam a doer muito forte de uma vez.  

Muitas vezes, quando ia sair com seus amigos e as dores começavam fortes, Giovana teve que desmarcar os encontros. “A dor que sinto é tão forte que só quero ficar deitada na cama, um dos fatores que me atrapalha muito é a iluminação, então lugares muito iluminados, com luzes piscantes acabam piorando minha dor”, relata a jovem. Muitas vezes, seus amigos achavam que ela só estava sendo “frescurenta” e ficavam chateados, assim, o seu tratamento começou a ficar solitário, não ia mais para as aulas, se isolava, e comparava com “pessoas mais saudáveis que eu”, declara.

O reconhecimento da enxaqueca crônica como uma doença pelos seus amigos seria fundamental para Giovana. “Muitas pessoas ainda dizem coisas do tipo "Eu faço várias coisas com dor de cabeça, trabalho com dor de cabeça, vou pra aula, é só tomar um remédio que passa", mas a enxaqueca é uma dor totalmente diferente, chega a ser insuportável”, diz. Giovana é uma entre as milhares de pessoas que entendem que tratar doenças não necessita só dos médicos e dos medicamentos, mas, também, de uma colaboração com toda a população.

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Mesmo após avanços na ciência, a saúde feminina continua sub-representada em pesquisas e consultas. O corpo das mulheres segue sendo tratado como exceção.
por
Helena Costa Haddad
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27/10/2025 - 12h

Por Helena Haddad

 

Apesar de representarem metade da população mundial, as mulheres continuam sub-representadas nas pesquisas médicas. A lacuna nos ensaios clínicos compromete a eficácia, a segurança e a equidade dos tratamentos disponíveis hoje. Segundo levantamento publicado na Nature Medicine (2024), menos de 35% dos estudos clínicos globais incluem dados diferenciados por sexo, e apenas 20% consideram como os medicamentos afetam homens e mulheres de forma distinta. Até 1993, o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH) proibia a participação de mulheres em idade fértil em ensaios clínicos, sob o argumento de proteger possíveis gestações. O resultado foi uma medicina construída sobre o corpo masculino como padrão universal: dosagens, efeitos colaterais e até sintomas de doenças graves, como o infarto, foram definidos a partir de corpos de homens jovens e brancos.

Durante décadas, o corpo feminino foi visto como instável, hormonal e difícil de estudar — uma percepção que moldou uma ciência que não representa as mulheres. Até hoje, muitos sintomas femininos são subestimados ou confundidos com causas psicológicas, explica a psiquiatra Maria Franco.

Casos recentes reforçam a urgência dessa discussão. Um exemplo é o medicamento Zolpidem, usado para insônia. Estudos mostraram que as mulheres metabolizam a substância mais lentamente, o que faz com que acordem ainda sob efeito sedativo — aumentando o risco de acidentes. A FDA já havia reduzido pela metade a dose recomendada para mulheres em 2013, e, em 2024, a Anvisa atualizou as bulas no Brasil após relatos de efeitos adversos graves, como sonambulismo e confusão mental.

Um estudo publicado na Biology of Sex Differences em 2024, analisou 86 medicamentos aprovados pela FDA: em 76 deles, as mulheres apresentaram maior concentração da substância no sangue, e em 96% dos casos isso estava associado a maior incidência de reações adversas — como náusea, tontura e arritmia. Em resumo, a maioria dos remédios vendidos hoje ainda é testada e dosada para corpos masculinos.

O corpo feminino possui diferenças de massa magra, gordura e metabolismo hepático. Essas variáveis interferem diretamente na absorção e eliminação de medicamentos, explica a psiquiatra.

A desigualdade de gênero também aparece no atendimento médico. Em 2024, um levantamento do Instituto Patrícia Galvão apontou que 61% das mulheres brasileiras afirmam não se sentirem ouvidas por profissionais de saúde. As queixas vão de dores crônicas desconsideradas a diagnósticos errados de doenças cardíacas, endometriose e lúpus. Casos como o de Lidiane Vieira Frazão, que morreu 22 dias após o parto durante a pandemia de Covid-19, sem atendimento adequado, ilustram o impacto disso. A família denunciou o hospital por violência obstétrica e negligência médica. 

O viés masculino na medicina é tão antigo quanto a própria ciência. A partir do século XIX, o corpo feminino passou a ser tratado como “anômalo” — sujeito a histerias, desequilíbrios hormonais e instabilidade emocional. Essa visão ainda ecoa em práticas clínicas e diagnósticos enviesados. A Organização Mundial da Saúde reconhece que o viés de gênero é uma das principais causas de erro de diagnóstico no mundo. Não basta incluir mais mulheres nos testes. É preciso mudar o olhar, considerar o ciclo hormonal, a gravidez e a menopausa, conclui a Dra. Franco.

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Apesar da eficácia na prevenção do HIV, mulheres têm acesso limitado à medicação
por
Maria Dantas Macedo
Pedro da Silva Menezes
Yan Gutterres Ricardi
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24/09/2025 - 12h

Desde 2017, o Brasil oferece gratuitamente a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), método de prevenção eficaz contra o vírus HIV, disponível no Sistema Único de Saúde para qualquer pessoa sexualmente ativa, maior de 15 anos de idade. Na prática, o remédio é amplamente divulgado entre homens, especialmente da comunidade LGBTQIA+, enquanto as mulheres ficam excluídas dessa prevenção. 

Segundo dados do Ministério da Saúde publicados no Boletim Epidemiológico sobre HIV em 2023, 35% dos brasileiros que continham o vírus do HIV eram mulheres, representando cerca de um terço dos novos casos no Brasil todos os anos. Além disso, 80% dos casos de infecção por HIV entre mulheres se deu em relações heterossexuais, evidenciando uma vulnerabilidade específica. 

A PrEP é uma ferramenta promissora para elas, que podem usar o remédio para prevenir a infecção pelo HIV. Tanto as solteiras quanto as que estão em um relacionamento mas não sabem do histórico de testagem para infecções sexualmente transmissíveis do parceiro ou parceira correm o risco de infecção quando fazem sexo sem camisinha. 

Porém, neste ano, somente 8,8% dos usuários de PrEP foram mulheres cisgênero e 3,2% mulheres trans. A infectologista Camila Bicalho explica: “As mulheres não têm informação ou conhecimento sobre a prevenção, que pode ser utilizada por elas”. 

“Por muito tempo, a utilização do preservativo como único método de evitar casos de HIV era a única saída. Hoje, a prevenção passa por várias medidas, uma delas é a PrEP. Se utilizada corretamente reduz o risco de contrair o HIV por meio de relação sexual em até 90%, e por meio de compartilhamento de drogas injetáveis em até 70%.Quando pensamos em saúde pública, o impacto da PrEP é a diminuição de novos casos de HIV”, segundo doutora Camila. 

O QUE É PrEP? 

A Profilaxia Pré-Exposição prevê o uso de um comprimido usado antes da relação sexual que impede que o HIV se multiplique no organismo. O comprimido combina dois medicamentos (tenofovir e entricitabina) que bloqueiam alguns “caminhos” que o vírus usa para infectar o organismo. Assim, mesmo que a pessoa entre em contato, a infecção não se instala. A utilização pode ser diária ou sob demanda (somente quando a pessoa tiver uma possível exposição de risco ao vírus). 

É recomendado o uso da prevenção para pessoas que estão em um relacionamento sexual com um parceiro ou parceira que vive com HIV, não use preservativos regularmente, tem um ou mais parceiros sexuais com status de HIV desconhecido, estão envolvidos em um trabalho sexual comercial, teve uma doença sexualmente transmissível bacteriana recente ou usou drogas injetáveis ​​nos últimos seis meses. 

Mulheres cisgênero, pessoas trans ou não binárias designadas como sexo feminino ao nascer,  e qualquer pessoa em uso de hormônio a base de estradiol, que queiram fazer o uso de PrEP oral diária, devem tomar o medicamento por pelo menos 7 (sete) dias para atingir níveis de proteção ideais. 

A PrEP sob demanda deve ser utilizada com a tomada de 2 comprimidos de 2 a 24 horas antes da relação sexual,  +1 comprimido 24 horas após a dose inicial de dois comprimidos +1 comprimido 24 horas após a segunda dose. 

É possível pegar o medicamento em serviços de saúde do SUS, como UBSs, bem como em farmácias da rede privada com receita médica. Em São Paulo, pode usar o aplicativo e-saúdeSP para encontrar a PrEP ou pegar em máquinas de distribuição nas estações de metrô. 

O ESTIGMA 

Apesar da relevância preventiva, muitas mulheres não aderem ao medicamento ou nem sabem o que é. A doutora Camila explica que, até a revisão de 2022, a PrEP foi direcionada sobretudo a “populações vulneráveis”, o que na prática priorizou homens que fazem sexo com homens e travestis/trans. “As mulheres, até 2022, não eram consideradas como população vulnerável para uso de PrEP”, diz a médica.

Ainda assim, segundo a doutora, a histórica sub-representação das mulheres em pesquisas sobre a PrEP pode ter sido um dos fatores que contribuíram para a baixa adesão: “Algumas hipóteses foram levantadas, como, por exemplo, o fato de as mulheres cisgênero não terem sido incluídas nos primeiros estudos de avaliação da PrEP, inclusive com retratação de alguns laboratórios que se comprometeram a incluir mulheres cisgênero nas próximas avaliações.”

Ensaios clínicos como o VOICE e o Fem-PrEP mostraram resultados positivos pouco expressivos em mulheres. Isso ocorreu principalmente pelo uso inconsistente da medicação e a falta de campanhas voltadas ao público feminino. Mais do que limitar conclusões científicas, essa realidade contribuiu para alimentar a ideia equivocada de que a PrEP “não era para mulheres”, quando o que faltava era suporte à adesão e estratégias de comunicação adequadas. 

Mas, ainda segundo a infectologista Camila, ainda há muitas outras possibilidades para a baixa adesão das mulheres “como o fato delas se sentirem seguras em uma relação heterossexual e abandonarem a utilização do preservativo, sem buscar outra forma de prevenir as infecções pelo HIV”. “Além disso, os serviços ginecológicos, onde as mulheres frequentam anualmente para fazer o papanicolau e também a mamografia, não discutem com essas mulheres a possibilidade da PrEP.”, acrescenta ela. Os profissionais de saúde, quando não são devidamente treinados, deixam de mencionar a opção ou o fazem de forma estigmatizante, afastando as pacientes.

Para Myrt Cruz, professora e doutora em Ciências Sociais da PUC SP, essa falta de conhecimento sobre a prevenção tem a ver com uma barreira social: “Não é uma decisão deliberada de uma mulher não acessar a sua própria saúde, aos recursos disponíveis para a sua própria saúde; mas há um julgamento moral, há um machismo estrutural que impede e dificulta que ela acesse esses recursos.”

A professora explica que “o machismo estrutural faz com que essa mulher, muitas vezes, confie cegamente nesse parceiro com quem se relaciona, sem ter uma visão crítica de que esse parceiro pode estar tendo relacionamentos sexuais com outras pessoas. Essa é uma ideia muito estigmatizada e complicada, que foi, durante décadas, dissuadida pela mídia. Então, há um desconhecimento, uma ignorância em torno do que se trata e a necessidade de desconstruir esse estigma”.

Em contextos de violência de gênero, dependência econômica ou restrição de autonomia, a capacidade de negociar o uso do preservativo é limitada, e o acesso a alternativas como a PrEP fica ainda mais comprometido. Desigualdades de renda, baixa educação em saúde sexual e reprodutiva também influenciam negativamente a busca e a permanência no uso da medicação.

Assim, barreiras sociais e culturais limitam o acesso das mulheres ao diagnóstico e tratamento precoce do HIV. A ausência de campanhas voltadas ao público feminino reforça a falta de informação, enquanto o estigma em torno do uso, frequentemente associado à promiscuidade ou a práticas sexuais consideradas de risco, acaba gerando receio e vergonha.

“Há necessidade de que as universidades, centros de pesquisa, centros comunitários se apropriem desse discurso, do conhecimento e trabalhem de um jeito que chegue até essa mulher, de forma clara, objetiva, que atinja elas”, declara Myrt. 

A PrEP é uma ferramenta poderosa, mas que só cumprirá seu papel se estiver acessível a todas as pessoas que dela necessitam, especialmente aquelas que historicamente foram invisibilizadas. Incluir as mulheres é uma questão de justiça social e de saúde pública. O combate ao HIV precisa ser coletivo e livre de preconceitos. E isso começa com o reconhecimento de que a prevenção também é e deve ser para elas. 

 

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