Quanto mais mediado por telas se torna o cotidiano, mais o encontro com o real transforma o teatro em uma experiência intensa e necessária
por
Manoella Marinho
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30/03/2026 - 12h

A relação da geração atual com o mundo passa, inevitavelmente, pelas telas. Celulares, redes sociais e plataformas de vídeo moldam não apenas a forma de comunicação, mas também a percepção da realidade. “O teatro é o presente, é o agora, é o sentimento”, afirma Marcello Drummond, diretor do Teatro Oficina, em entrevista à AGEMT. A fala sintetiza uma das principais diferenças entre o teatro e as mídias digitais: enquanto a internet permite o acesso ilimitado e instantâneo a conteúdos, o teatro exige presença, tempo e entrega. Isso torna-se ainda mais evidente quando se observa o impacto físico da cena.

“Quando você vê um ator na tua frente […] é uma coisa viva”, diz Drummond. Ao contrário da imagem mediada por uma tela, o corpo em cena carrega falhas, respiração, improviso, entregam elementos que tornam cada apresentação única. É essa imprevisibilidade que intensifica a experiência do espectador. Ao mesmo tempo, o ambiente digital tem produzido uma mudança significativa nos hábitos culturais. “As pessoas têm pouco contato com o que não é vídeo”, aponta o diretor. A predominância do audiovisual transforma a forma como a arte é consumida, muitas vezes reduzindo a experiência a fragmentos rápidos e descartáveis.

Créditos: Manoella Marinho Teatro Oficina

 

Ainda assim, o impacto da tecnologia não é apenas negativo. “O digital […] está fazendo com que os teatros fiquem mais cheios”, observa Drummond, conversando com AGEMT dentro do espaço do Teatro Oficina. O fenômeno revela um paradoxo: quanto mais imersas no virtual, mais as pessoas parecem buscar experiências concretas. A saturação de estímulos, característica do cotidiano online, gera uma espécie de cansaço que encontra no teatro um espaço de pausa e intensidade.

Esse movimento ajuda a explicar por que o teatro provoca um efeito tão marcante na geração atual. “A gente tem contato com tela […] mas o vivo toca muito”, resume o diretor. O impacto não está apenas no conteúdo da peça, mas na experiência sensorial completa: o silêncio da plateia, a proximidade com os atores, a impossibilidade de pausar ou voltar a cena. Historicamente, o teatro sempre se construiu a partir dessa relação direta. Encenações como “O Rei da Vela”, marco do Teatro Oficina, ou montagens contemporâneas que rompem a divisão entre palco e plateia, evidenciam a potência do encontro ao vivo. Ao eliminar a chamada “quarta parede”, essas obras convidam o espectador a participar ativamente, transformando-o em parte da cena.

Nesse contexto, o teatro também reafirma seu caráter político. “O fato de estar em cena já é um ato político”, diz Drummond. Em um ambiente digital marcado pela circulação massiva de discursos, muitas vezes superficiais ou polarizados, o teatro oferece um espaço de reflexão mais profunda, onde o tempo e a presença permitem a elaboração crítica. Por outro lado, a própria internet carrega contradições. “Tem coisas muito boas […] e coisas muito ruins que se espalharam”, reconhece o diretor. Se por um lado ela democratiza o acesso à informação e à arte, por outro amplia a circulação de desinformação e discursos problemáticos. Nesse cenário, o teatro se destaca como um espaço de construção coletiva e diálogo direto. A diferença fundamental está na experiência. Enquanto o digital tende à repetição e à reprodução infinita, o teatro se ancora no instante. Cada sessão é única, irrepetível. É nesse sentido que o impacto se intensifica: o espectador não apenas assiste no automático mas vivencia, estimulando análise crítica e sensação.

Em um mundo em que o contato com o real se torna cada vez mais mediado, o teatro reafirma a importância do corpo, do encontro e da presença. Mais do que sobreviver à era digital, ele parece ganhar novo sentido dentro dela. Um espaço onde o humano, finalmente, deixa de ser apenas imagem e volta a ser experiência.

 

Lei que proíbe uso de celulares entrou em vigor em janeiro de 2025, mas o uso iletrado de inteligência artificial expõe brechas na infraestrutura das escolas
por
Sophia Aquino
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30/03/2026 - 12h

Há um ano, a proibição do uso de celulares nas escolas brasileiras entrou em vigor. A lei número 15.100/2025, gerou reações diversas de professores e alunos tanto favoráveis quanto contrárias. De um lado, quem defende que o aparelho era uma fonte constante de distração; do outro, quem questiona se banir o celular resolve de fato os problemas de aprendizado. Porém, a lei abre exceção para o uso pedagógico, o que leva a uma outra discussão em relação ao uso da Inteligência Artificial nas escolas.  

Em entrevista à AGEMT,  o estrategista britânico em digital learning, Matt Lovegrove,  discute que “as escolas precisam investir em inteligência artificial (IA). Se eles querem ajudar os alunos a terem o máximo de educação e investir em letramento de Inteligência Artificial, a melhor coisa é fornecer dispositivos one to one (modelo em que cada aluno tem acesso ao próprio  laptop ou tablet)", explica Matt. 

Matt Lovegrove. Fonte: Acervo de fotos pessoal
Matt Lovegrove. Fonte: Acervo de fotos pessoal 

Matt reconhece que nem todas as escolas têm condições de bancar isso. Para esses casos, ele sugere dispositivos compartilhados — e só em último recurso, o uso controlado do celular, restrito a momentos específicos da aula. "Se as escolas forem fazer isso, tem que ser muito cuidadosamente controlado", afirma. Para ele, o celular não deve vazar para os momentos sociais: recreio, almoço, intervalos. A sociabilidade cara a cara, diz ele, é parte essencial do que a escola oferece. No Reino Unido, onde atua, políticas de restrição de celulares coexistem com forte investimento em infraestrutura tecnológica escolar, permitindo que a proibição de dispositivos pessoais não signifique exclusão digital.

No Brasil, a realidade é diferente. Pesquisa do CETIC.br revela que 60% dos estudantes brasileiros já usam inteligência artificial fora da escola, principalmente para realizar tarefas e responder dúvidas. Dentro das escolas, porém, o cenário é de desigualdade: apenas 30,4% das instituições públicas tinham conexão de internet adequada em 2025, contra 54,3% das privadas. Enquanto estudantes de escolas particulares tem mais chances de ter acesso orientado à tecnologia, grande parte dos alunos da rede pública aprende a usar essas ferramentas sozinho, sem mediação de professores e sem nenhum critério pedagógico. 

Guilherme Cintra, diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann, é uma das vozes mais ativas nesse debate. Para ele, o ponto de partida já ficou para trás. "A discussão já não é mais sobre aceitar ou não o uso dessas tecnologias, mas definir limites éticos e seguros para essa implementação", afirmou em artigo publicado pela Fundação Lemann. Cintra também explica o papel dos professores nesse processo de aprendizagem com a I.A em que destaca a capacidade de profissionais de criar uma troca entre os alunos.

"A nossa capacidade de criar e manter relações verdadeiras será o que nos distinguirá das máquinas" diz também Cintra em entrevista a CNN Brasil e acrescenta "Não podemos esperar que os professores assumam sozinhos a responsabilidade de toda essa mudança".

Claudia Oliveira relatou formas de lidar com esse medo da tecnologia de substituição
por
Anna Sofia Carsughi
Olivia Ferreira
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30/03/2026 - 12h

“A transformação é inevitável: algumas funções mais operacionais tendem a ser reduzidas, mas, ao mesmo tempo, surgem novas carreiras, mais estratégicas e analíticas". Em entrevista à AGEMT, Claudia Oliveira, que trabalha na eCOMEX,  contou, na última semana (24), os desafios ligados ao uso crescente da IA no âmbito do trabalho. A profissional, que está inserida em uma empresa de tecnologia para o comércio exterior, traz diariamente soluções inovadoras para gestão, automação e compliance- e busca, em sua logística, uma maneira de se adaptar às mudanças dessa nova tecnologia empresarialUm estudo feito pela Harvard Business Review em 2023, revelou que inteligências artificiais não substituem nenhum humano, mas os humanos com IA substituirão os humanos sem IA.

Esse artigo expõe que quanto mais as pessoas esperam que as empresas ofereçam experiências perfeitas desenvolvidas por IA, mais os líderes precisarão adotar essas tecnologias em seus negócios. Essas tecnologias cada vez mais estarão presentes no cotidiano de todos os seres humanos e  existirá também uma remodelação dos setores, processos, eficiências e diminuição dos erros humanos. Isso porque quem as adota tem a expectativa de impulsionar cada vez mais a produtividade e a inovação, transformando a dinâmica do mercado de trabalho. 

 

União humanos e IA
Reprodução/ Fia Inteligência Artificial 

 

A substituição dos empregos à medida que as inteligências assumem as tarefas repetitivas é algo discutido pelas grandes empresas, em que certamente existirá mudanças internas que exigirão adaptação das mudanças tecnológicas. A IA está presente não para substituir completamente a capacidade humana, mas sim para completá-la trazendo mais oportunidades de desenvolvimento profissional. "Isso não se trata de eliminação pura e simples, mas de uma migração de competências. O profissional que se adaptar terá oportunidades ainda maiores”, afirmou Claudia.

O crescimento no Brasil

A inserção da tecnologia no mercado de trabalho é um tema que cresce diariamente e não deve ser negligenciado. Discutir o caráter ambivalente das IAS permite uma forma de compreender os seus impactos no cotidiano e as possíveis maneiras para amenizar os seus prejuízos. Se por um lado essa novidade traz uma maior automatização do trabalho, com respostas eficientes às perguntas, por outro lado, substitui grande parte da mão de obra física empresarial. O que entra em discussão é um dilema entre facilidade x temor dentro do mercado de trabalho. 

 

Brasil e o uso da IA
Reprodução/ Lets Go Bahia

O crescimento exponencial das recentes tecnologias vêm surgindo com o desembarque dessa geração tecnológica que se preocupa com resultados rápidos e diversos, na qual as IAs generativas entregam isso de forma acessível e fácil. Para Cláudia, “o interesse das empresas brasileiras por Inteligência Artificial cresce porque ela proporciona ganhos reais de eficiência, escalabilidade e competitividade”.

Essa facilidade dentro do mercado de trabalho pode trazer benefícios como a praticidade e maior produtividade, mas também riscos, como a demissão de trabalhadores devido à automatização de serviços. Apesar disso, ela acredita que o Brasil deva investir em inteligências degenerativas, já que a adoção de tais já é uma realidade presente em grandes potências econômicas globais, tais quais China e Estados Unidos. "Ignorar esse movimento pode significar perda de espaço no mercado global”, relatou ela.

As novas tecnologias substituem determinados tipos de trabalhos, mas indivíduos e empresas que souberem utilizar a IA para ampliar a produtividade e diversificar os serviços ofertados certamente terão vantagens competitivas. Para que esse processo seja levado durante as novas gerações, é necessário que o sistema educacional se adapte para essa nova realidade formando e preparando profissionais qualificados. Para a profissional, não é possível frear o avanço da tecnologia, que cresce diariamente. A fórmula correta seria a da substituição, isso é, o profissional deve usar a seu favor a tecnologia, a partir de uma mudança de postura dentro do trabalho. 

“Funções repetitivas e de baixo valor tendem a perder espaço no mercado de trabalho, mas profissionais que souberem integrar a tecnologia ao seu dia a dia terão grande vantagem competitiva. O ponto central não é temer a IA, mas aprender a utilizá-la como ferramenta para ampliação de capacidades humanas”, diz ela.

Dessa forma, o jeito é aprender a lidar com essa tecnologia, ao desenvolver conhecimentos a seu respeito. Para Cláudia, a melhor forma é investir continuamente em atualização. “Quanto maior o domínio sobre a tecnologia, maior o potencial de utilizá-la como diferencial competitivo. Preparação, curiosidade e adaptação serão determinantes para aproveitar plenamente essa fase de transformação”, falou ela. 

A concentração de infraestrutura nas mãos de poucas empresas de IA amplia impactos climáticos e desafia a integridade de processos democráticos
por
Julia de Sá Ribeiro
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30/03/2026 - 12h

O avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA) consolidou um oligopólio corporativo que, ao priorizar a busca por uma "superinteligência" utópica, agrava crises ambientais, éticas e geopolíticas no presente. Distante da promessa inicial de emancipação tecnológica, o setor aprofunda a desigualdade, a exploração de dados e a concentração de poder global. 

No Vale do Silício dos anos 1990, a tecnologia era vista como o motor do progresso humano, centrada no empreendedorismo e na genialidade individual, livre de interferências estatais. Contudo, a evolução desse cenário resultou no aprofundamento da desigualdade digital e na consolidação de um modelo neoliberal. Atualmente, a crença de que a inovação resolveria problemas sociais abriu caminho para visões ainda mais ambiciosas, que encaram a IA não como uma ferramenta, mas como um destino civilizatório. 

Pesquisadores como Timnit Gebru e Émile Torres classificam o arcabouço ideológico que guia os atuais líderes tecnológicos sob a sigla TESCREAL (Transumanismo, Extropianismo, Singularitarianismo, Cosmismo, Racionalismo, Altruísmo Efetivo e Longoprazismo). Esse conjunto de crenças normaliza a corrida pela superinteligência como um fim inevitável. O objetivo central dessa vertente deixa de ser a melhoria da condição humana para buscar a sua superação física e mental.  

Na prática, a realidade operacional da tecnologia difere dessas promessas filosóficas. Plataformas de Inteligência Artificial Generativa (IAG), como ChatGPT, Gemini, DeepSeek e Grok, operam com algoritmos focados em tarefas específicas e cálculos probabilísticos. Esses sistemas não possuem compreensão real de significados ou relações sociais. Além disso, a dependência governamental e corporativa dessas tecnologias consolida o controle da infraestrutura global nas mãos de poucas empresas, que se posicionam como guardiãs do futuro. 

Sob a lógica do capitalismo de vigilância, o aprimoramento desses sistemas depende da extração contínua de dados comportamentais. O reflexo imediato desse processamento é a geração de conteúdos hiper-realistas, como deepfakes. O emprego dessa tecnologia para produzir discursos de ódio e notícias falsas tornou-se um dos principais desafios contemporâneos, afetando diretamente o pensamento crítico e a integridade de processos democráticos. 

 

Governador da California, Gavin Newsom. Foto: Sheila Fitzgerald / Shutterstock  

É o impacto prático dessa falta de controle que tem forçado as primeiras reações governamentais. Em 2025, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, promulga lei de regulação para grandes modelos de IA exigindo testes de segurança e transparência nos protocolos de prevenção de abusos. A medida enfrenta resistência de gigantes do setor, que temem impacto na competitividade global. A União Europeia também avança com legislações mais rígidas, enquanto países do G20 discutem padrões internacionais de governança. 

"Temos visto exemplos realmente horríveis e trágicos de jovens prejudicados pela tecnologia não regulamentada, e não ficaremos de braços cruzados enquanto as empresas continuam sem limites necessários e sem prestar contas", diz em comunicado o governador Newson ao promulgar a lei. No âmbito geopolítico, a IA redefine as fronteiras dos conflitos armados. Decisões estratégicas passam a ser mediadas por sistemas algorítmicos, e especialistas em segurança apontam que a guerra moderna tende a favorecer forças com maior poder computacional. O conflito atual envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã evidencia essa assimetria: enquanto Washington e Tel Aviv operam sistemas avançados de defesa automatizada, análise em tempo real e vigilância baseada em IA, o Irã depende de capacidades tecnológicas mais limitadas. A disparidade reforça o desequilíbrio militar global e ilustra como a superioridade computacional se torna elemento central na definição de poder e na condução de operações militares. 

A crise atinge, portanto, o campo ético. A pesquisadora e engenheira elétrica, graduada pela Universidade São Francisco e pós-graduada pela Unicamp, Marcilene Ribeiro, realizou pesquisas sobre a Inteligência Artificial durante os anos de 2024 e 2025 nos Estados Unidos e afirma que, desenvolvida sob interesses corporativos e geopolíticos, a IA tende a perpetuar hierarquias econômicas, políticas e biológicas. 

 

Pesquisadora Marcilene Ribeiro. Foto: Linkedin

 

"Ao focar nas promessas de erradicação futura da pobreza ou reversão climática a partir da superinteligência, o modelo atual de desenvolvimento da IA falha em apresentar soluções práticas para o presente, correndo o risco de justificar o agravamento das crises atuais em nome de um amanhã idealizado.", finaliza Marcilene.  

Com a simplificação do uso dos prompts, compreender as ameaças e aprender a usar a IA torna-se essencial
por
Chiara Abreu
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24/03/2026 - 12h

Com a rápida evolução das Inteligências Artificiais (IA), desde a primeira versão do ChatGPT em novembro de 2022, o mundo se encontra em um estado de vulnerabilidade constante. Enquanto a tecnologia coloca um poder imenso nas mãos de qualquer usuário, a sociedade enfrenta a dificuldade para lidar com as consequências dessa facilidade. A desinformação em massa, o surgimento de relações emocionais com algoritmos e a perda de escolhas cotidianas são apenas reflexo dessa falta de preparo.

Vídeos feitos por IA tem se tornado cada vez mais comuns nas redes sociais. Gatos cantando, utensílios de cozinha contando curiosidades culinárias e até mesmo dramas familiares como espécies de brigadeiros são publicados diariamente, ganhando muitas visualizações. Nestes casos, é claro perceber que aqueles vídeos não condizem com a realidade, mas com o avanço de tecnologias como Sora2, VEO3 e Kling V2.1, vídeos ultrarrealistas têm disputado cada vez mais tempo nas telas do público, que encontra uma dificuldade crescente em diferenciar o que é real, e o que não é.

Anteriormente, esses deepfakes existiam, mas eram complexos de serem feitos. Com a ajuda das ferramentas proporcionadas pela computação cognitiva, qualquer pessoa pode criar com facilidade esses vídeos. A população tem um grande instrumento em mãos, mas não possui um preparo devido, o que gera muitas vezes, uma desinformação em massa. Segundo Renato Pereira, administrador especialista em data sciense e analytics pela USP, “as pessoas perderam um pouco a dimensão do quão pernicioso é isso, e o impacto que isso pode ter”, ressalta Pereira.

As principais empresas de tecnologia têm investido muito dinheiro criando softwares que carimbam os vídeos produzidos por suas IAs, através de marcas d’água invisíveis, assim, ao passar por uma verificação, rapidamente são identificados como conteúdo produzido por máquinas. O Gemini do Google, por exemplo, possui um serviço gratuito de investigação, feito para que usuários possam ter certeza no que confiar. Programas do tipo devolvem um pouco do senso crítico que a atualidade vem removendo. Contudo, não são muitos que utilizam essas plataformas.

As múltiplas personalidades que os computadores podem ter também são perigosas. A cada dia que passa se torna mais recorrente ver jovens se apaixonando por Inteligências Artificiais e as utilizando para fazer sessões de terapia, por exemplo. Websites como POE apresentam uma vasta gama de caracteres possíveis, desde extremamente gentis a até mesmo superagressivos, e que constantemente xingam o humano. Já empresas de venda de soluções utilizam prompts preparados para o trabalho com o público, em que a assistente da loja acaba influenciando compras muitas vezes desnecessárias para o consumidor. Elas sabem exatamente o que recomendar porque analisam os clientes, através de históricos de pesquisa, e histórico de compras. 

Pereira acrescenta  que “tem agora programas de IA que compram o seu pão de cada dia, indicam os melhores restaurantes e padarias. Essas parecem decisões inofensivas, mas elas podem destruir os mercadinhos de bairro, gerar desemprego. São decisões que podem afetar muito a nossa sociedade”. Apesar dos riscos, o administrador acredita que impedir as pessoas de acessar prompts não é uma solução viável. Para ele, o crucial é entender até onde podemos contar com a ajuda da IA. “A  inteligência artificial não deveria tomar decisão por ninguém, nem servir para analisar. Isso que a gente deveria estar preocupado: impedir que ela tome decisões e faça análises por nós”. Compreender as limitações da máquina e como ela opera é a melhor forma de se defender contra seus riscos. 

O Brasil é pioneiro na criação de um medicamento que regenere a medula óssea de pacientes
por
manuela schenk scussiato
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03/11/2025 - 12h

Por Manuela Schenk

 

Não fora uma sexta-feira qualquer para Júlia. A caminho do ponto de ônibus para voltar para sua casa após um dia de aula na faculdade um motorista embriagado atropelou-a e fugiu sem prestar socorro que mudou sua vida para sempre quando tinha apenas 19 anos. Júlia teve lesões nas vértebras T8, T9 e T10 que a deixaram paraplégica depois de cinco dias em coma quando recebeu a notícia de que jamais andaria novamente.

Hoje Júlia tem 22 anos e teve que reaprender a viver. Coisas que jamais imaginou ter dificuldades agora são grandes conquistas, como quando conseguiu tomar banho sozinha pela primeira vez ou quando pode se deitar na própria cama sem auxílio. Escadas se tornaram rampas, seu restaurante favorito virou delivery, já que não possui acessibilidade para que ela consiga entrar na cadeira de rodas. As festas que frequentava semanalmente agora são eventos anuais, pois a locomoção dentro de uma balada é quase impossível para alguém que não consegue usar as próprias pernas.

No início se adaptar parecia impossível, noites mal dormidas quando chorava no travesseiro até seus olhos cederem. Depois de receber alta do hospital ela foi encaminhada para terapia, consultas três vezes por semana que depois de dois anos se tornaram duas. A fisioterapia que antes era uma tortura aos poucos se tornou um momento divertido.

Nos anos que se passaram Júlia conheceu mais pessoas na mesma situação que ela e de pouco a pouco sua nova vida se tornou mais tolerável, mas mesmo depois de quase 4 anos do acidente ela ainda tem dias ruins, sua autoestima nunca mais foi a mesma já que por muito tempo não conseguia se arrumar como antes. Júlia conta que o momento mais difícil da vida dela foi descobrir que seu caso não tinha cura. Sem possibilidade de tratamento ou cirurgia, uma menina que antes era ativa, amava se exercitar, sair com suas amigas, passear com sua cachorrinha, agora se vê forçada a reaprender a viver.   

É possível perceber as dificuldades que marcam a vida das pessoas que são afetadas pela paraplegia. Infelizmente muitos casos não são reversíveis, mas graças a estudos de um grupo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o mundo pode estar mais próximo de encontrar uma cura para uma deficiência que interrompe a vida de tantas pessoas.

A pesquisa, desenvolvida no Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, representa um marco para a medicina brasileira. O medicamento experimental chamado Polilaminina foi criado a partir de uma proteína natural da placenta humana, capaz de estimular a regeneração das células nervosas. Em estudos com animais, especialmente cães que haviam perdido os movimentos, o tratamento apresentou resultados impressionantes: alguns conseguiram voltar a andar mesmo após anos de paralisia. Esse avanço chamou a atenção da comunidade científica internacional e fez com que o Ministério da Saúde e a Anvisa classificassem o estudo como de prioridade absoluta no País.

A equipe liderada por Tatiana Sampaio começou o estudo da eficiência polilaminina para promover a regeneração de fibras nervosas/axônios e reconectar áreas lesadas da medula espinhal começou em 2007, embasado em outro estudo da faculdade que iniciou em 1998. São quase três décadas de trabalho árduo que trouxeram a equipe ao sucesso que é exposto para o mundo hoje, com seis dos oito pacientes humanos recuperando, parcial ou completamente, os movimentos que lhes foram tomados. 

Além dos testes clínicos em andamento, o projeto da UFRJ tem recebido apoio de instituições públicas e privadas, como o Laboratório Cristália, que colabora na etapa de desenvolvimento farmacêutico e produção em larga escala da substância. O próximo passo dos pesquisadores é a realização de estudos em uma quantidade maior de voluntários, o que permitirá avaliar com mais precisão a segurança e a eficácia do medicamento. Caso os resultados se confirmem, o Brasil poderá ser o primeiro país a oferecer um tratamento realmente regenerativo para lesões medulares, uma conquista inédita na história da ciência.

Para Júlia e milhares de pessoas que convivem com a paraplegia, essa descoberta reacende uma esperança que parecia perdida. Mesmo que o caminho até a cura ainda seja longo, cada passo da pesquisa representa uma vitória contra a limitação imposta pela lesão medular. A história de Júlia mostra a força de quem se reinventa diante da adversidade. O que a ciência da UFRJ faz agora é provar que o impossível pode estar mais perto do que se imagina. Aquilo que antes era apenas sonho, agora começa a ganhar forma nas mãos de pesquisadores brasileiros dedicados a devolver o movimento e com ele a liberdade a tantas vidas interrompidas.

Com jornadas mais longas e ganhos instáveis, cresce o número de pessoas que fazem dos apps seu principal meio de sustento
por
Tamara Ferreira Santos
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17/11/2025 - 12h

Por Tamara Ferreira

 

Nicolas pilotava sua moto pelas ruas de São Paulo e a única coisa que o importava era o vento batendo no rosto. Aos 22 anos, o entregador do iFood aprendeu a gostar da cidade de um jeito diferente. Com o céu cinza da cidade, pelas ruas estreitas e pelo vai e vem de pedidos que, para ele, significam liberdade. “Gosto de sentir o vento”, repete, como quem encontra no movimento uma forma de vida. Mas, neste ano, a rotina ganhou outro ritmo. Além das entregas, Nicolas passou a trabalhar com carteira assinada. O contraste entre os dois mundos opostos,  o fez analisar os lados diferentes, em um deles, ele ter patrão, um horário fixo e salário mensal, mas quando fazia apenas entrega, não tem uma pessoa cobrando, uma equipe ou meta.

A realidade de Nicolas não é isolada. Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na última quinta-feira (17), o número de trabalhadores de plataformas digitais cresceu 25% em dois anos. De acordo com a pesquisa, no terceiro trimestre de 2024, cerca de 1,7 milhão de pessoas utilizaram o trabalho por aplicativos como principal fonte de renda. O rendimento médio mensal desse grupo foi de R$ 2.996, valor acima da média do mercado, embora essas pessoas trabalhem, em média, 5,5 horas a mais por semana. O levantamento identificou quatro tipos de aplicativos usados como fonte de renda: transporte particular de passageiros (exceto táxi), entrega de comida e produtos, plataformas de serviços gerais ou profissionais e aplicativos voltados para taxistas.

Enquanto Nicolas tenta equilibrar os dois empregos, pensando única e exclusivamente em ter os benefícios garantidos, uma nova geração já observa o trabalho de longe com um estranhamento incomum.

Homem trabalhando de bicicleta para o IFood. Foto: Reprodução
Homem trabalhando de bicicleta para o iFood. Foto: Reprodução

Recentemente, o número de adolescentes que rejeitam a ideia de trabalhar com carteira assinada cresceu. Em um vídeo publicado no TikTok, a influenciadora Fabiana Sobrinho, mais conhecida como Fabi Bubu, aparece ao lado da Valentina, sua filha de 12 anos, que afirma não querer ser CLT para não precisar “andar de ônibus” ou estar “em um ambiente com muitas pessoas e com um chefe mandando nela”.

Enquanto Valentina pensa assim, José Carlos, de 68 anos, formou-se em Economia, mas, como não conseguiu emprego na área, passou a trabalhar com corridas de táxi, de forma autônoma. Nas ruas desde 1989, ele tem diabetes e, mesmo não podendo ficar muito tempo sentado, já chegou a trabalhar 30 horas seguidas, porque, apesar de estar aposentado, o dinheiro que recebe não é suficiente para suprir suas necessidades — como contas médicas e despesas diárias. As dores na perna são constantes, mas José relata que trabalha muito por necessidade, para poder arcar com as suas despesas, comer e comprar os remédios que precisa. No último domingo, foram 16 horas sem descanso. O dinheiro da aposentadoria não dá para remédios, contas, comida. Sentar por tantas horas agrava sua condição, mas parar não parece uma opção.

Entre correrias e recibos, José vive o oposto da liberdade que atrai Nicolas e em um “tão tão distante” em relação ao mundo que Valentina imagina estar. A rotina dupla de Nicolas tem aumentado o cansaço.  O jovem revelou que sua rotina anda mais estressante e menos lucrativa, sendo cansativo trabalhar em dois empregos. Apesar de ainda achar que, com as entregas, pode ganhar mais, já que quanto mais produz, mais recebe, hoje ele enxerga no trabalho com carteira assinada uma maior estabilidade, por saber que tem direitos garantidos e um salário fixo. Mesmo gerando certa ansiedade por ser um valor menor do que o que recebia apenas com as entregas, o modelo CLT lhe traz conforto e segurança. Esse foi, inclusive, um dos motivos pelos quais Nicolas decidiu aceitar um emprego de carteira assinada e manter as entregas no restante do dia.

Entre as diferentes gerações, expectativas e necessidades, o trabalho segue se reinventando, para uns por por prazer, para outros por sobrevivência — alguns fazem por liberdade, outros por urgência.

Local de ensino, pesquisa e mobilização social para a conservação do cerrado em Ituiutaba
por
JESSICA AMANDA CASTRO
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17/11/2025 - 12h

Por Jessica Castro

 

A cidade de Ituiutaba - MG guarda, bem ao lado do campus da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), campus Pontal, um tesouro ambiental. O Parque Municipal Doutor Petrônio Rodrigues Chaves, mais conhecido como Parque do Goiabal, é um dos últimos refúgios do cerrado em meio à malha urbana da cidade localizada no Triângulo Mineiro. Criado em 1977 para preservar a fauna, a flora e as nascentes da região, o parque hoje cumpre um papel que vai muito além da recreação: tornou-se um laboratório vivo para o ensino, a pesquisa e a extensão universitária.

Com cerca de 37 hectares, o Goiabal abriga uma rica diversidade de espécies nativas e cumpre um papel essencial na regulação do microclima urbano. O local já viveu dias de intensa movimentação: nos anos 1980 e 1990, era ponto de encontro para famílias e abrigava quadras, lagos e até um pequeno zoológico. Mas o tempo e a falta de manutenção por parte da gestão do município de Ituiutaba transformaram o cenário. O parque, abandonado, enfrenta atualmente diversos desafios como o avanço de moradias para dentro de sua demarcação, queimadas e poluição.  

Foi nesse contexto que a comunidade acadêmica percebeu o potencial científico do espaço. Professores e alunos da UFU, campus Pontal, começaram a utilizar o parque para aulas de campo, levantamentos ambientais e pesquisas científicas sobre o cerrado urbano. Aos poucos, o Goiabal ressurgiu como uma sala de aula a céu aberto.

Essa conexão com o local envolve cada pessoa que resolve estudar seu ambiente. O parque, hoje categorizado como APA pela Prefeitura, tem uma aparência clara de cerradão. Árvores grandes que hora se adensam, hora se esvaem em pequenas clareiras que servem de lar a uma comunidade pequena de macacos-prego, que já são levemente habituados com a presença humana.

A proximidade física entre a UFU e o parque é simbiótica. Separados apenas por uma rua, os dois espaços se complementam. Estudantes de Ciências Biológicas, Geografia e Química realizam ali desde monitoramentos de solo e vegetação até estudos de biodiversidade, erosão, fungos e musgos. Trabalhos de conclusão de curso e iniciações científicas utilizam o parque como base empírica, contribuindo para a produção de dados locais e para o fortalecimento da consciência ambiental na região.

Mais do que um campo de estudos, o Goiabal virou um símbolo de resistência: um espaço onde a ciência se entrelaça à comunidade, e o cerrado, tão ameaçado no Triângulo Mineiro, encontra defensores apaixonados. Em 2018, um grupo de alunos da UFU decidiu transformar o incômodo em ação. Nascia o Coletivo Goiabal Vivo, uma rede de voluntários comprometida em reativar o parque como espaço de educação ambiental e mobilização social.

A bióloga formada pela Universidade Federal de Uberlândia e membro fundadora do coletivo, Karen Evangelista Marques, fez parte do grupo durante 7 anos e neste tempo, lutou com os demais integrantes para chamar atenção à importância do parque para a comunidade. Karen relembra como foi o primeiro momento do coletivo: no início, em 2018, houve uma forte conexão entre as pessoas. Todos ansiavam pela reabertura e reestruturação do Parque do Goiabal e, a partir da iniciativa, surgiu uma aliança de amizade. O grupo passava horas e horas da semana pensando e planejando formas de desenvolver atividades de cunho ambiental que chamassem a atenção do público, ao mesmo tempo em que se reuniam nas casas uns dos outros para momentos de lazer e entrosamento. Era a partir desses encontros que as ideias surgiam.

Entre as atividades, os membros realizam mutirões, trilhas educativas, projetos de extensão e oficinas em escolas. Também produziu o documentário chamado “Um Olhar para o Cerrado” (2021), que retrata a luta pela conservação do bioma e o renascimento do parque.

 

 

 

No mesmo ano da produção do documentário, membros do coletivo descobriram que a prefeitura havia feito a recategorização oficial do parque, que agora era considerado uma Área de Proteção Ambiental (APA), categoria que permite o uso sustentável dos recursos naturais. Na prática, isso significa que atividades humanas podem ocorrer no local, desde que respeitem os critérios de conservação e garantam o equilíbrio entre o meio ambiente e a presença das comunidades.

A mudança, porém, trouxe uma flexibilização significativa nas regras de preservação. Diferente da antiga classificação de Parque, que proibia construções e moradias dentro da área, a categoria de APA admite esses usos sob determinadas condições. Karen e os demais integrantes ficaram bastante preocupados na época, pois não havia sido comunicada à população a nova classificação do Goiabal. A designação como APA abriu brechas para que alterações antrópicas fossem realizadas dentro do espaço.  A maior preocupação foi como essas mudanças poderiam impactar a vida silvestre local, especialmente a fauna e a flora.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, MMA, existem doze classificações de Unidades de conservação, UCs, sendo estas divididas em dois grupos: Proteção integral e Uso sustentável. Essas nomenclaturas são o que determinam sobre qual conjunto legislativo de proteção ambiental aquele ambiente estará sujeito.

 

Pandemia

Anos após a pandemia, algo natural ocorreu: os antigos membros do Coletivo seguiram caminhos diferentes, o grupo se desfez e novas pessoas, com ideias e metodologias distintas, passaram a integrá-lo. A principal diferença para mim foram, de fato, as novas direções metodológicas que surgiram, mas sempre mantendo o mesmo ideal.

O Goiabal Vivo tornou-se, assim, um elo entre poder público, universidade e comunidade mostrando que a defesa do meio ambiente é também um ato de cidadania. Os estudos realizados no parque são múltiplos e contínuos. Pesquisas de diagnóstico socioambiental, levantamento de espécies nativas, análise de solo e água e projetos de educação ambiental já renderam publicações e apresentações em congressos científicos.

Em uma das trilhas, é possível observar o contraste entre as árvores retorcidas do cerrado e os muros da cidade que avançam cada vez mais próximos. Esse cenário faz do Goiabal um espaço perfeito para compreender os impactos da urbanização sobre o bioma e para desenvolver estratégias de manejo sustentável em áreas urbanas. O parque é um grande laboratório de ensino-aprendizagem. Ele permite que o estudante veja, toque e sinta o cerrado, algo que nenhum slide poderia substituir. 

Parque do Goiaba, Ituiutaba - MG
Trilha educativa. Foto: Acervo Coletivo Goiabal Vivo

Palco de projetos de extensão, o local é protagonista em ações que envolvem crianças e adolescentes das escolas de Ituiutaba com o objetivo de apresentar para a geração mais nova o potencial ambiental que ali existe. O objetivo é reconectar a comunidade ao território, resgatando a ideia de que o Goiabal é um bem coletivo. Durante as oficinas, os alunos aprendem a identificar espécies de fauna e flora, a reconhecer o valor das nascentes e a entender como o cerrado regula o equilíbrio climático da cidade. Em algumas atividades, o coletivo leva até as crianças frutos secos, jogos educativos como jogo da memória com as espécies existentes no parque e palestras que aguçam a curiosidade científica.

 

Parque do Goiaba, Ituiutaba - MG
Palestra na escola municipal Maria de Barros, 2025. Foto: Acervo Coletivo Goiabal Vivo

 

Apesar dos avanços, o parque ainda enfrenta desafios: falta de infraestrutura, riscos frequentes de queimadas, lixo acumulado e pressões urbanas ao redor. A gestão pública é um dos gargalos. Sem estrutura formal de administração e com nenhuma verba, o parque sobrevive muito mais pela dedicação dos voluntários e da universidade do que por políticas efetivas. Por isso, o coletivo defende a criação de um conselho gestor participativo e a transformação do parque em uma unidade de conservação municipal reconhecida, com plano de manejo e investimentos contínuos.

Incêndio

Em 2024, uma tragédia atingiu o Goiabal em cheio. Na noite de 27 de outubro, uma quarta-feira, ocorreu um incêndio em parte da vegetação do parque, com fortes suspeitas de intencional. Segundo o Corpo de bombeiros e a polícia militar da região, cerca de 15 mil metros quadrados de vegetação foram devastados no processo. O coletivo verificou os danos causados pelo fogo, quase um ano depois do ocorrido, determinando que a situação continua deplorável. Segundo sua análise, várias partes do parque, se encontram amontoadas de lixo e com permanência de animais de cunho doméstico, como cavalos, prejudicando a vida dos outros animais nativos do cerrado. Além da persistência de outros problemas antigos, como a falta de cerceamento do perímetro e o descarte ilegal de carcaça pela área.

Parque do Goiaba, Ituiutaba - MG
Brigadistas e membros do coletivo apagando o fogo. Foto: Acervo Coletivo Goiabal Vivo.

O bioma cerrado constitui cerca de 23% do território nacional segundo a última análise do IBGE. O bioma que percorre o estado mineiro é constituído, em sua maior parte, pelo cerrado, porém com base no último estudo feito pela SEMAD, Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, a taxa de desmatamento do cerrado segue em queda sendo em 2023 duzentos e quatro mil quilômetros quadrados de desmatamento comparados ao índice de sessenta e sete mil quilômetros em 2024. 

Essa queda vem sendo representada há pelo menos seis anos, porém áreas mais afastadas como Ituiutaba acabam não sendo o centro do radar da Secretaria. Entre os animais que vivem ou frequentam o perímetro do parque, se destacam espécies ameaçadas de extinção como, Lobo Guará.

O Goiabal é considerado um dos últimos redutos de vegetação nativa do Cerrado em Ituiutaba, o que o torna um espaço de relevância ecológica e científica inestimável. Em meio a um território cada vez mais pressionado pelo avanço urbano e pela expansão agropecuária, o parque preserva fragmentos de flora e fauna que já desapareceram em outras áreas do município. Sua cobertura vegetal abriga espécies típicas do Cerrado mineiro, árvores retorcidas, gramíneas adaptadas à seca e uma fauna diversa que inclui aves, insetos polinizadores e pequenos mamíferos, configurando-se como um verdadeiro refúgio biológico em meio ao concreto e às plantações.

A importância do parque, porém, contrasta com o histórico de negligência e omissão institucional. Diversos planos e propostas de manejo ambiental elaborados por estudantes e moradores locais seguem sem implementação efetiva, revelando uma distância preocupante entre o discurso oficial de sustentabilidade e as ações concretas de preservação. O abandono do Goiabal é reflexo de uma lógica regional marcada pelo predomínio do agronegócio e da monocultura, setores que moldam a economia do Triângulo Mineiro e frequentemente impõem uma visão utilitarista da terra, reduzindo o valor ambiental a um obstáculo ao desenvolvimento econômico.

Esse contexto evidencia uma disputa simbólica e política em torno do território: de um lado, a perspectiva produtivista que privilegia a exploração do solo e a expansão de fronteiras agrícolas; de outro, a resistência ambiental que tenta manter viva a memória natural de Ituiutaba. Assim, o Goiabal torna-se não apenas um espaço físico de preservação, mas também um símbolo de resistência contra o apagamento ambiental e o silenciamento das vozes comunitárias que lutam pela sua proteção.

Mais do que uma área verde, o Parque Doutor Petrônio Chaves é um espelho da relação entre sociedade, ciência e natureza. É nele que estudantes aprendem sobre o cerrado e cidadãos redescobrem o valor do ambiente natural dentro da cidade, um lembrete de que o cerrado ainda resiste, e que a gente pode resistir junto com ele.

O CPF se tornou ferramenta de identificação e registros revelam a perda da privacidade nas redes
por
Juliana Salomão
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17/11/2025 - 12h

Entre esmaltes, conversas e o som constante das notificações do celular, a profissional de manicure Maria Conceição percebe como o mundo digital exige das pessoas mais do que apenas tempo. Ela comenta que cada compra, seja no supermercado, no aplicativo da farmácia ou em uma loja virtual, envolve uma troca silenciosa. Ao digitar o CPF, os consumidores oferecem informações que raramente sabem como serão utilizadas, permitindo acesso a dados como e-mail, endereço, histórico de consumo e preferências de compra. Para Maria, cada registro é uma troca invisível: uma oferta aqui, um dado pessoal ali. Ela dizia que muitas pessoas inseriam o CPF quase no automático, sem perceber que aquele pequeno gesto revelava muito mais sobre elas do que imaginavam. Comentava que grande parte dos consumidores nem fazia ideia da quantidade de informações que alimentava diariamente, enquanto acreditava estar apenas concluindo uma compra comum.

Ela reflete sobre como o CPF deixou de ser apenas um registro fiscal e passou a se tornar uma das principais chaves de identificação no universo digital. Informações coletadas, armazenadas e organizadas alimentam um mercado bilionário de dados pessoais. Empresas especializadas, conhecidas como data brokers, compram e vendem perfis segmentados por idade, renda, localização, hábitos de consumo e até opiniões políticas.

Os dados obtidos a partir de ações cotidianas, como uma simples compra, se transformam em ferramentas estratégicas para marketing e publicidade, mas também podem moldar decisões importantes na vida das pessoas. Assim, anúncios se tornam mais precisos, campanhas publicitárias mais eficientes, e empresas conseguem atingir públicos específicos. Maria, no entanto, lembra que essa eficiência tem um lado preocupante. Vazamentos, perfis incorretos ou discriminatórios podem influenciar decisões de crédito, oportunidades de emprego e acesso a serviços. Para ela, cada clique deixa rastros que alimentam um poder silencioso, capaz de moldar trajetórias de vida de forma quase invisível.

Em seus atendimentos, ela também costumava mencionar que, se uma simples compra era capaz de revelar gostos e hábitos, outras ações provavelmente forneciam ainda mais detalhes. Para ela, essa sensação constante de estar sendo observada era silenciosa, mas presente, e quase nunca chegava de forma clara ao conhecimento do público. Acrescentava que, quando algum problema de dados vinha à tona, muitas vezes o dano já estava feito.

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) busca equilibrar essa relação, determinando que empresas coletem apenas o necessário e informem claramente para que os dados serão utilizados. A legislação garante direitos de acesso, correção e exclusão de informações, além de prever sanções que podem chegar a 2% do faturamento da empresa, limitadas a R$ 50 milhões. Mesmo com essas regras, Maria percebe que muitas pessoas desconhecem seus direitos e permanecem vulneráveis. Empresas já foram multadas por vender contatos telefônicos para campanhas eleitorais e por comercializar informações sem consentimento. Vazamentos em larga escala, como o da Netshoes, expuseram milhões de registros, mostrando que a vulnerabilidade digital pode afetar diretamente a vida de cidadãos comuns. Cada notícia desse tipo reforça que o que parece banal, como informar o CPF, carrega consequências invisíveis já previstas em legislação vigente. Ela lembrava de casos amplamente divulgados, comentando que, se empresas gigantes tinham dificuldades para proteger informações, as menores estariam ainda mais vulneráveis. Observava que o consumidor confiava nas plataformas sem saber exatamente onde estava pisando, o que tornava essa relação ainda mais frágil.

O Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) complementa a LGPD ao definir princípios sobre privacidade, neutralidade da rede e guarda de registros online, mas especialistas apontam que a fiscalização ainda enfrenta desafios diante da rapidez das novas tecnologias. Maria observa que a ética na coleta de dados é essencial: o consentimento precisa ser claro e informado, evitando que usuários aceitem termos sem compreender totalmente o que estão autorizando. Apenas o estritamente necessário deve ser coletado e tratado com responsabilidade, sobretudo quando eles podem ser usados para outras finalidades. Ela reconhecia que quase ninguém lia os termos de uso e políticas de privacidade. Dizia que ela mesma raramente parava para analisar aqueles textos extensos, o que a fazia questionar se não estava autorizando mais do que deveria ao aceitar rapidamente as condições impostas pelas plataformas.

O uso de dados não se limita à publicidade e ao comércio. Ele se expande para o campo político, influenciando comportamentos e campanhas eleitorais. Nos Estados Unidos, empresas como Twitter e Meta foram investigadas por falhas na proteção de dados e pelo uso indevido de informações em campanhas de desinformação. No Brasil, a regulação busca evitar que práticas semelhantes comprometam a privacidade e a integridade do debate público. A dimensão desse impacto mostra que ações cotidianas, como digitar um número de CPF, fazem parte de um sistema muito maior, que conecta indivíduos e políticas em uma rede complexa de informação.

Durante o episódio do bloqueio da plataforma X, ela comentava que a situação parecia distante, mas afetava diretamente a rotina das pessoas. Observava como a dependência das redes sociais era profunda e como qualquer instabilidade mostrava a vulnerabilidade de trabalhadores e usuários, que dependiam desses espaços para vender, divulgar serviços e se comunicar. Foi o caso do episódio do bloqueio da plataforma X em 2024 que evidencia essa complexidade. A suspensão determinada pelo Supremo Tribunal Federal afetou o fluxo de dados, o mercado publicitário e levantou questões sobre a proteção de informações pessoais armazenadas em servidores estrangeiros. Durante cerca de 40 dias, a plataforma controlada por Elon Musk permaneceu inacessível, mostrando que a dependência de plataformas internacionais pode colocar em risco tanto dados quanto oportunidades de negócios. Mesmo em decisões legais, cada dado armazenado carrega implicações reais na vida de milhões de pessoas.

Cada CPF digitado, cada clique e cada registro digital deixam um rastro invisível que conecta o cotidiano à estrutura global de informações, já que por trás de números e algoritmos, ainda existem pessoas. A tecnologia sem transparência transforma-se em poder silencioso, e a privacidade se torna uma moeda invisível que circula entre empresas, plataformas digitais e cidadãos, exigindo atenção, consciência e reflexão sobre o valor de nossos próprios dados.

No fim de suas reflexões, ela afirmava que o mundo digital exigia aprendizado constante e que a proteção de dados deveria ser uma preocupação diária. Para ela, se as pessoas não se responsabilizassem pelos próprios dados, ninguém faria isso por elas. Acrescentava que, assim como cuidava das unhas das clientes com precisão e cuidado, acreditava que cada pessoa deveria tratar seus dados com a mesma atenção.

Entre desafios e avanços, escolas brasileiras reinventam o ensino com tecnologia sem abrir mão do papel do professor.
por
Carolina Hernandez
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23/11/2025 - 12h

Por Carolina Hernandez

 

No corredor silencioso de uma escola em São Paulo, ainda ecoam lembranças de um tempo em que o giz era soberano. Antes de 2020, a tecnologia entrava na sala de aula apenas de mansinho, um laboratório de informática esquecido no fim do pátio, algumas plataformas de apoio pedagógico que poucos exploravam, um projetor que funcionava quando queria. Era uma educação ancorada no papel, no toque, na presença. Até que o mundo parou, e a escola precisou se reinventar em velocidade de queda livre.

Quando as portas fecharam, a sala de aula se espraiou pelas cozinhas, quartos, varandas e mesas improvisadas pelo país. Professores descobriram o peso de falar para uma tela vazia, estudantes sentiram o cansaço de aprender sozinhos e pais se viram mediadores do impossível. A educação brasileira, de uma hora para outra, atravessou um portal digital para o qual ninguém estava realmente preparado.

Em meio ao caos, brotaram gestos de tentativa e erro. Professores aprendiam a usar plataformas enquanto davam aula, vasculhando botões, tentando compartilhar telas, improvisando explicações quando a conexão falhava. Entre eles, Ana Paula, do Colégio Santo Agostinho, relembra aqueles dias corridos como quem remexe um caderno antigo. Conta que o período parecia um mergulho no escuro: ao mesmo tempo em que descobria novas ferramentas, tentava não perder alunos que lutavam para acompanhar a aula pelo celular emprestado da mãe, com o sinal oscilando na janela.

Aos poucos, a tecnologia deixou de ser muleta e virou parte da rotina. Mesmo depois do retorno presencial, Ana Paula segue combinando lousa e plataforma digital, e encontra na inteligência artificial um apoio para preparar materiais, adaptar atividades para estudantes neurodivergentes e acompanhar ritmos de aprendizado antes difíceis de perceber. A docente, no entanto, insiste que nada disso elimina o papel do professor: o gesto humano, diz ela, ainda é o que dá sentido à tecnologia.

Mas o salto digital expôs um problema que não cabe numa tela: a desigualdade. A pesquisa TIC Educação 2023 mostrou que mais de um terço das escolas públicas enfrenta sérias limitações de conectividade. Em muitas delas, o único ponto de acesso à internet se resume a um roteador frágil que pouco alcança. Há instituições em que o laboratório de informática virou depósito e estudantes seguem tentando assistir a videoaulas pelo único celular da casa.

Enquanto algumas escolas particulares investem em ambientes de realidade virtual e plataformas capazes de simular experiências históricas, muitas escolas públicas seguem à margem dessa revolução. Apenas 58% das instituições urbanas possuem banda larga de qualidade, e boa parte dos estudantes depende de um pacote de dados limitado para participar da aula. A tecnologia, que poderia democratizar, ainda funciona como um filtro social.

Nas universidades, o movimento também se espalha. Pedro Silva, estudante de pedagogia, vive o modelo híbrido todos os dias e afirma que não há mais caminho de volta: quem nasceu conectado espera que a escola dialogue com esse ritmo. Ele vê nas plataformas digitais a chance de personalizar o ensino, acompanhar com precisão as dificuldades de cada aluno e criar trilhas que avancem no tempo de cada um, algo que, no modelo tradicional, exigia uma atenção quase impossível.

Mas o entusiasmo vem acompanhado de alertas. Especialistas lembram que a tecnologia precisa de regras claras, proteção de dados e políticas que garantam acesso igualitário. Lembram também que ela não substitui a mediação pedagógica, nem cria, sozinha, pensamento crítico. A educação, afinal, não é apenas transmissão de conteúdo: é encontro, é vínculo, é interpretação do mundo.

O mercado global segue acelerando, prevendo mais de 400 bilhões de dólares investidos em soluções educacionais até 2030. Mas a pergunta que ecoa nas salas de aula brasileiras é outra: quem poderá acompanhar esse futuro?

A pandemia forçou a porta. O que era emergência virou estrutura. Hoje, a sala de aula não termina mais na parede; ela se estende pela tela, pelo laboratório de realidade virtual, pelo aplicativo que avisa o desempenho, pelo vídeo que explica o que faltou na explicação anterior. Ainda assim, nenhum algoritmo substitui o olhar que percebe o silêncio de um aluno perdido, nem a mão que redesenha uma explicação até que faça sentido.

A educação brasileira segue nesse entremeio, metade digital, metade analógica, inteiramente humana. O futuro já chegou, dizem. Mas ainda precisa aprender a incluir todos que vivem no presente.