Paróquias da cidade têm programação junina, reunindo fiéis e moradores em festas com comidas típicas, brincadeiras e atrações para toda a família
por
Raissa Santos
|
23/06/2026 - 12h

O mês de junho sempre traz consigo o cheirinho agradável do vinho quente, decorações com bandeirinhas coloridas e festividades que movimentam comunidades religiosas por todo país. Em São Caetano do Sul, sete das 11 paróquias que compõem a Forania da cidade preparam quermesses que reúnem fiéis em celebrações marcadas por comidas típicas, música e atividades para toda a família. 

As festividades, que começaram em maio com a quermesse da Paróquia São Bento — já encerrada — se estendem até o fim de julho, tomando conta dos pátios das igrejas espalhadas pela cidade. No Centro, a festa da Matriz Sagrada Família segue até o dia 28 de junho, sempre das 16h às 22h. O cardápio oferece aos visitantes opções clássicas como cachorro-quente, espetinhos, milho-verde, além de bebidas típicas como quentão, vinho quente e o tradicional chá do padre. 

No bairro Jardim São Caetano, a Paróquia Santo Antônio também segue com a quermesse até o dia 28, quando realizará o seu tradicional bingão. Voluntária desde 2023, Milena Drudi, de 22 anos, destaca que participar da organização da festa é uma experiência desafiadora e divertida ao mesmo tempo. Neste ano, após deixar a coordenação da barraca das brincadeiras, ela passou a colaborar em diferentes setores da quermesse. Segundo ela, a mudança permitiu conhecer novas funções e ter mais contato com o público. “Foi muito divertido trabalhar como voluntária e também exercitar minhas habilidades sociais. A experiência no caixa foi uma das mais desafiadoras e, ao mesmo tempo, uma das mais divertidas”, conta. 

Já a Paróquia Nossa Senhora da Candelária, no bairro Cerâmica, mantém sua quermesse até o dia 5 de julho, oferecendo ao público as tradicionais barracas de comidas típicas e um ambiente de confraternização para a comunidade. O mesmo acontece na Paróquia São João Batista, que também segue com sua programação até 5 de julho, mantendo seu tradicional bingo e reunindo fiéis e moradores para celebrar o período junino. 

Domitila Barbosa, de 15 anos, conta que frequenta a São João Batista com a família desde 2008, e participa da barraca do bingo junto de seu pai desde que ele assumiu a coordenação em 2018. “No nosso bingo, quase todo final de semana, temos uma rodada que sorteia um bicho de pelúcia gigante e as crianças ficam super animadas pedindo para os pais participarem do bingo”, destaca.

Frequentadores em bingo da Paróquia São João Batista. Foto: Reprodução / Instagram Paróquia São João Batista SCS
Frequentadores em bingo da Paróquia São João Batista. Foto: Reprodução / Instagram Paróquia São João Batista SCS 

Na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, as festividades acontecem até o dia 5 de julho, das 18h às 22h. Além das comidas e bebidas típicas que marcam as quermesses, a paróquia preparou atrações especiais para o público. Entre os destaques estão o posto de troca de figurinhas e um telão que transmitirá os jogos do Brasil na Copa. Heitor Souza Móda, de 15 anos, frequenta a paróquia desde os 10 anos de idade e esteve na quermesse durante o jogo do Brasil contra o Marrocos ao lado dos amigos do grupo de jovens. “É um ambiente gostoso que podemos conviver, é legal ver o jogo com a família, mas com todo o pessoal aqui e as comidas, tudo fica melhor” contou ele. 

Foto 2
Quermesse da Paróquia Nossa Senhora Aparecida. Foto: Jaqueline Borges

Encerrando a programação, a Paróquia Nossa Senhora das Graças realiza sua quermesse até o dia 26 de julho, sempre das 18h às 22h. Além dos tradicionais lanches, doces e bebidas típicas, a festa também incorporou ao cardápio opções de tempurá de legumes e camarão, oferecendo um diferencial gastronômico aos visitantes.

Com opções espalhadas por diferentes bairros e datas que se estendem até o final de julho, às quermesses de São Caetano do Sul surgem como uma oportunidade para reunir a família, estreitar laços e fortalecer a convivência comunitária, mantendo viva uma das tradições mais populares do calendário brasileiro.

Tags:
Ele é o responsável por manter o padrão de qualidade e credibilidade de alguns veículos de imprensa de grande circulação no país
por
Julia Jorge de Oliveira
|
08/06/2026 - 12h

O profissional de edição atua em redações jornalísticas e realiza suas funções em equipe. Sua responsabilidade é verificar, filtrar e hierarquizar as informações que chegam aos veículos de imprensa. O objetivo é transformar essas informações em um produto, ou seja, a notícia final, para ser comercializada e entregue ao público de maneira clara e objetiva. O editor de vídeo Gabriel Neri Reis, 26, trabalha na redação da Revista Oeste desde 2022 e afirma que, desde criança, sonhava em ser editor de vídeo em um  veículo de comunicação do país. Aos 11 anos, iniciou sua trajetória na fotografia, mas logo migrou para a área de edição em razão do grande volume de trabalho gerado pela internet, principalmente após o surgimento do YouTube. 

Segundo Reis, as habilidades mais importantes para trabalhar na área são ter boas referências sobre os assuntos abordados, muita paciência e um olhar preciso e sensível para as imagens utilizadas em uma edição de vídeo. Ele complementa que existem diferentes tipos de edição no mercado jornalístico, como a edição de documentários, filmes e telejornais. Esta última é mais objetiva e busca apresentar informações, relatos e imagens reais. 

Reis declara que a profissão é voltada para pessoas que não estão em busca de reconhecimento imediato, afinal, o nome dos editores aparece discretamente ao final dos trabalhos. O editor não é apenas o responsável por criar projetos audiovisuais, mas também por aprimorar o conteúdo gravado e adaptá-lo aos formatos das redes sociais. Três grandes projetos marcaram sua trajetória profissional. O primeiro foi uma série documental de investigação sobre a morte de Marielle Franco, no GloboPlay; o segundo, um documentário sobre o cinema; e o terceiro, um documentário sobre as chuvas que atingiram e devastaram diversas famílias no Rio Grande do Sul. 

O especialista em edição afirma que a Inteligência Artificial não tende a eliminar a função do editor de vídeo, mas a transformá-la. Tarefas consideradas repetitivas e operacionais podem ser automatizadas, à medida que cresce a demanda por profissionais capazes de interpretar dados e tomar decisões editoriais complexas. Ao mesmo tempo, surgem preocupações relacionadas à redução de postos de trabalho em atividades mais rotineiras e à necessidade de requalificação profissional, pois nossa principal responsabilidade é transformar imagens brutas, entrevistas e materiais gravados em uma narrativa clara, objetiva e informativa, respeitando os critérios editoriais e éticos de cada veículo de comunicação. 

A tendência no jornalismo brasileiro é a valorização do trabalho do editor como verificador e gestor da qualidade editorial. Em vez de substituir esse profissional, a Inteligência Artificial tende a ampliar sua capacidade de trabalho, exigindo novas competências ligadas à tecnologia e à análise de dados. É importante destacar que a credibilidade, o julgamento humano e a sensibilidade jornalística continuam sendo elementos essenciais para a atividade editorial no jornalismo brasileiro.

Tags:
Em outubro, o cantor apresenta o espetáculo “Alquimia Popular Brasileira” no Nubank Parque
por
Thais Oliveira
|
03/06/2026 - 12h

O cantor e compositor Jorge Ben Jor, 87, retorna aos palcos paulistas no dia 17 de outubro com o espetáculo “Alquimia Popular Brasileira”. A apresentação acontece no Nubank Parque, o antigo Allianz Parque, em São Paulo, e propõe uma celebração da trajetória do artista por meio de um repertório que atravessa diferentes fases da sua carreira.

Com produção da 30e, o show vai reunir clássicos que marcaram gerações, como “País Tropical”, “Mas Que Nada” e “Taj Mahal”. O título do espetáculo faz referência à mistura de ritmos e influências que caracterizam a obra de Jorge Ben Jor, desde os anos 1960. Ao longo da carreira, o artista consolidou uma linguagem musical única ao unir samba, soul, funk, rock e elementos da música afro-brasileira.

Pôster de divulgação do novo show 'Alquimia Popular Brasileira', de Jorge Ben Jor. (Foto: Divulgação/Eventim)
Pôster de divulgação do novo show 'Alquimia Popular Brasileira', de Jorge Ben Jor Foto: Divulgação/Eventim ​​​​​

 

Com mais de seis décadas de carreira, Jorge Ben construiu uma trajetória marcada por sucessos que permanecem entre os mais conhecidos na música popular brasileira. Desde os anos 1960, o artista acumula canções que seguem presentes no imaginário popular e continuam sendo regravadas por outros artistas, mantendo o repertório em circulação até os dias atuais.

A dimensão de sua trajetória também se reflete nos palcos. Em 1993, Jorge Ben Jor e Tim Maia reuniram cerca de três milhões de pessoas em um show de Réveillon na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, um dos maiores públicos já registrados para uma apresentação musical no Brasil. O show entrou para a história  e permanece como um dos momentos mais emblemáticos da trajetória do cantor. 

Em comunicado à imprensa, Jorge Ben Jor destacou a importância da troca com o público durante as apresentações ao vivo. Segundo o artista, o show em São Paulo será uma oportunidade de celebrar sua trajetória musical por meio de canções que marcaram diferentes momentos de sua carreira.

A apresentação no Nubank Parque será a única passagem do espetáculo “Alquimia Popular Brasileira” por São Paulo e integra uma série de shows especiais previstos para 2026.

Ingressos

O show na capital paulista será realizado no Nubank Parque, na Zona Oeste, no dia 17 de outubro. A abertura dos portões está programada para as 15h. A classificação etária é de 16 anos. Menores de idade têm acesso permitido apenas acompanhados pelos pais ou responsáveis legais.

Os ingressos para o público geral estão à venda pela plataforma Eventim. Os valores variam de R$ 147,50 a R$ 1.295,00, de acordo com o setor da arena.

Tags:
Baseada no texto da dramaturga britânica Amanda Wilkin, a peça acompanha uma mulher que decide reconstruir a própria vida após sucessivas rupturas
por
Daniela Monteiro Marinho
|
02/06/2026 - 12h

Após uma temporada de sucesso no Rio de Janeiro, “Mudando de Pele" estreia em São Paulo no dia 4 de junho e segue em cartaz até 5 de julho no Sesc 14 Bis. A montagem marca o retorno de Taís Araújo aos palcos e apresenta ao público uma história sobre transformação, pertencimento e a coragem de recomeçar.

Inspirada no texto “Shedding a Skin”, da dramaturga britânica Amanda Wilkin, a peça acompanha Mayah, uma mulher prestes a completar 40 anos que decide romper com um relacionamento desgastado, abandonar um emprego marcado pelo racismo estrutural e reconstruir a própria vida. O que poderia se tornar apenas mais uma narrativa sobre dor e resistência ganha contornos mais complexos: a obra escolhe falar sobre liberdade, cura, ancestralidade e pertencimento.  

No palco, Taís conduz essa transformação com naturalidade impressionante. Sua interpretação evita exageros e aposta em pequenos gestos, silêncios e mudanças de energia que revelam as múltiplas camadas da personagem. O resultado é uma atuação que aproxima o público de Mayah e faz com que suas inquietações pareçam universais.

  

A atriz Taís Araújo durante apresentação de Mudando de Pele, em São Paulo
A atriz Taís Araújo durante apresentação de Mudando de Pele, em São Paulo. / Foto: Nana Moraes 

 

Embora seja apresentado como um solo, “Mudando de Pele” nunca parece solitário. A presença das musicistas Dani Nega e Layla adiciona textura à narrativa. A música executada ao vivo funciona como uma extensão das emoções da protagonista, criando momentos de delicadeza e força que ampliam a experiência sensorial do espetáculo.  

Outro destaque é a direção de Yara de Novaes, que constrói uma encenação elegante e fluida. Sem recorrer a grandes efeitos, a montagem aposta na força do texto, na expressividade do corpo e na simbologia do figurino para representar as sucessivas “peles” que Mayah abandona ao longo da história.  

A delicadeza é um dos principais acertos do espetáculo. Ao acompanhar uma protagonista em meio a sucessivas transformações, a peça aborda questões sociais e políticas de forma orgânica, sem didatismos, e encontra força justamente nos silêncios, nas ambiguidades e nas emoções que atravessam a narrativa.

 

Serviço

Sesc 14 Bis – Teatro Raul Cortez
Temporada: de 4 de junho a 5 de julho de 2026
Horários: quinta a sábado, às 20h; domingos, às 18h
Sessões especiais da Copa: 13/6, 19/6 e 5/7, às 15h
Ingressos: R$ 80 (inteira), R$ 40 (meia) e R$ 24 (credencial plena Sesc)
Classificação: 14 anos
Duração: 80 minutos  

 

Tags:
Tradicional cinema de rua sofre despejo e movimento de resistência se inicia nas redes sociais
por
Beatriz Foz
|
25/05/2026 - 12h

 

Na quinta-feira, 14 de maio, foi cumprida uma medida de reintegração de posse do anexo Espaço Petrobras de Cinema, estabelecida pela Justiça de São Paulo. Caminhões chegaram no local pela manhã e desativaram as salas 4 e 5 do espaço, e o Café Fellini, anexado ao local, congelou suas atividades. Poltronas e equipamentos foram retirados, além de esvaziado o espaço do café.

O Espaço Petrobras de Cinema é um dos cinemas de rua mais antigos da cidade de São Paulo. O anexo funciona em um casarão da década de 1930 e antes de se tornar um espaço de cinema o imóvel abrigava o Instituto Goethe, que foi um local importante na formação de cineastas brasileiros. Eleito um dos melhores cinemas da cidade, conta com cinco salas de exibição que priorizam produções nacionais, cinema de arte e filmes independentes. O cinema era mantido através de um acordo de patrocínio com a Petrobras, via Lei de Incentivo à Cultura, com o objetivo de fortalecer a exibição do cinema brasileiro e internacional na cidade de São Paulo. 

Anexo ao Espaço Petrobras, o Café Fellini era um dos cafés mais tradicionais da cidade e funcionou por mais de 30 anos junto ao cinema. O café ganhou o prêmio de “Melhor Café e Bomboniere dos Cinemas de São Paulo” pelo Guia Folha por oito anos consecutivos. Na última semana o café fechou as portas. 

A luta pela permanência do local começou em 2022, quando o imóvel foi vendido a uma construtora que tinha a intenção de construir um prédio residencial no local. No mesmo ano, a comunidade de cinéfilos que frequentava o anexo organizou um abaixo assinado defendendo a preservação do cinema. Cerca de 50 mil assinaturas foram conquistadas na primeira campanha e o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo) intitulou o terreno como “Zona Especial de Preservação Cultural”, classificando o anexo como um patrimônio afetivo e cultural da cidade. Tal categorização não impede a demolição, mas obriga a incorporadora a manter o uso cultural do espaço mesmo com a reforma. Na prática, a empresa poderá demolir o espaço, desde que ceda duas salas de cinema e um espaço para o Café Fellini após as obras. 

No entanto, tais mobilizações não foram suficientes para proteger o espaço da batalha judicial. Na última semana, a ordem de reintegração de posse pedida pela Rec Vila 15 Empreendimentos Imobiliários foi cumprida. A incorporadora adquiriu o imóvel da Arteplex, responsável pela operação do cinema.

Um novo abaixo assinado foi criado pelo Café Fellini, reiterando o apelo pela permanência do estabelecimento e do anexo do Espaço Petrobras, já tendo conquistado mais de 90 mil assinaturas. Em um comunicado oficial postado nas redes sociais do café (@cinecafefellini), o estabelecimento agradece o engajamento dos clientes na luta pela permanência e declara que “precisamos defender espaços de convivência abertos para a cidade e para as pessoas”. 

O Espaço Petrobras de Cinema também publicou nas redes uma nota oficial à imprensa, destacando que todas as medidas legais cabíveis para buscar a reversão da situação estão sendo adotadas:  

  • “Seguimos comprometidos com a defesa de uma cidade mais equilibrada, culturalmente rica e voltada às pessoas, às suas formas de convivência e às experiências coletivas que também encontram expressão no cinema de rua.”

Letícia Souza, estudante e ávida frequentadora do Espaço Petrobras de Cinema, lamenta o despejo e o interpreta como uma perda da memória coletiva da cidade de São Paulo: “eu fico muito triste porque cada vez mais a gente vai vendo os cinemas de rua falindo e eu acho que eles fazem parte da memória dos cidadãos de São Paulo”. Letícia destaca que os cinemas de rua encontram dificuldades em se manter ativos com a popularização dos cinemas comerciais. “É difícil competir com algumas redes de cinema que ficam em shoppings como Cinemark, Kinoplex, Cinépolis… quando as pessoas pensam em ir ao cinema elas não pensam mais em ir aos cinemas de rua, mas pensam nesses de shoppings”, acrescenta a estudante. 

A hashtag “#anexofica” foi criada nas redes sociais como forma de protesto contra as medidas jurídicas estabelecidas. Diversos posts destacam a importância cultural do espaço e tratam o despejo como uma forma de descaso com a história da cidade. Outros tradicionais cinemas de rua como o CineSala, localizado em Pinheiros, expressaram seu apoio à luta do anexo através da hashtag. 

 

Publicação da página oficial do CineSala em apoio à permanência do anexo. Reprodução/ (@cinesala).
Publicação da página oficial do CineSala em apoio à permanência do anexo. Reprodução/ (@cinesala). 

As salas 1, 2 e 3 do Espaço Petrobras continuam com a programação usual, porém a direção do espaço ainda tenta a reativação das salas 4 e 5. O café permanece fora de atividade. 

 

Tags:
A flor do norte que quebra o concreto cinza e duro de São Paulo
por
Natália Matvyenko Maciel Almeida
|
18/11/2025 - 12h

Por Natália Matvyenko 

 

Sob o sol de Rondônia, entre o barulho dos carros e o som distante das caixas de som que raramente tocavam funk, Catharina Lebre cresceu. Faltavam bailes, mas não vontade. Ela sempre sentiu que o corpo pedia movimento. Conta que anos atrás, Rondônia nunca teve a cena musical em destaque que o Pará teve, e muito menos a força de um Rio ou São Paulo, mas foi ali, no meio das ausências, que Catharina aprendeu a desenhar seus caminhos, estudante de medicina e uma menina que o que tem de cabelos longos tem de simpática e atenciosa. Nasceu e cresceu em Porto Velho. Morou primeiro num condomínio simples e depois num conjunto habitacional. Estudou em escola particular, mas sempre via a diferença entre sua realidade e a dos colegas mais ricos. Esse contraste foi o primeiro contato com o que mais tarde ela perceberia como desigualdade de origem.

Ela fala de um DJ chamado D. Silvestre com brilho nos olhos. D. Silvestre, DJ que viralizou no Tik Tok e Instagram nas festas de São Paulo, é de Rondônia ao contrário do que sudestinos achavam, por mais underground que sejam, caem no lugar de achar exótico, como se arte subversiva só brotasse do solo cinza da capital paulista. Há também o DJ Argel, do Pará, um tipo de artista que mistura o rock doido com o mandela e transforma o som em viagem. Uma vez, ele precisou levar uma caixa de som de barco até uma cidadezinha encravada no interior, o tipo de coisa que explica bem o corre de quem faz cultura na Amazônia.

menina sentada em barco olhando ao longe pro rio
Foto Reprodução: Catharina Lebre

A diferença entre os estados do Norte se sente até pela música. O Pará tem as aparelhagens, o tecnobrega, as festas que viraram lenda e que quem é da periferia paulistana tem contato. Rondônia de certa forma em divulgaço engatinha, parece que está sempre um passo atrás, como se o relógio cultural lá rodasse mais devagar. Catharina sabe que não é uma questão de atraso, mas de estrutura. O Pará é mais antigo, mais turístico, tem tradição. Rondônia ainda precisa lutar pra existir em qualquer conversa. Ela mesma viveu isso de perto. Na própria cidade, não há bailes de rua nem fechados. Quando muito, aparecem encontros de som automotivo no centro, sem o corpo coletivo da periferia dançando junto, sem o calor que transforma o som em comunhão. O que domina a cidade é o sertanejo, e quando o funk aparece, é o comercial. A cena mais alternativa quase não tem espaço.

Cath lembra de um lugar chamado Bar Esconderijo, o nome é autoexplicativo. Era o ponto de encontro de quem não cabia em lugar nenhum, gente preta, LGBT, periférica, artistas, curiosos. Lá, o som era resistência. Até que a festa foi invadida por um grupo bem emblemático que estrutura esse abafamento da cultura. A polícia entrou, levou tudo, caixas, fios, a esperança de mais uma noite sem medo. O bar fechou. E ela entendeu, como tantos, que até o pouco que se constrói é "brecado" quando vem das margens. Mesmo assim, não deixam de existir. Lebre entra no assunto da dança do funk paulista, manda links, vídeos, sons pra mostrar o que se ouve no Norte contrastando com o som estourado que tocam nas festas em galpões da Barra Funda, Luz e centro. Fala do rock doido do Pará, das danças, do carimbó. O carimbó, ela aprendeu a dançar, ritmo que é uma fusão da cultura originária e de povos de África. É dessas heranças que tatuam no corpo. Tudo se mistura. Quando viaja, busca o baile, qualquer baile. Foi em São Paulo que entrou num pela primeira vez. Depois veio o Rio, e cada cidade trouxe um ritmo diferente. Em São Paulo, ela sentiu o peso das chacinas, das memórias de Paraisópolis, das notícias que quase fizeram os bailes de rua de funk paulista perder o fôlego.

Tem repertório pra dar e vender, talvez seja por isso que o nome de D. Silvestre a toque tanto. Ele rompeu com a visão do sudeste, mostrou que dá pra sair de onde tudo parece longe e, ainda assim, fazer revolução com música, diga-se de passagem, um som muito autêntico. Mostra o caminho de quem precisou deixar o território pra florescer, como tantos artistas do Norte e de outras regiões, que só encontram espaço quando partem da sua casa pra conseguir espaço ironicamente até virtual. É bonito e triste ao mesmo tempo, como as coisas da vida que são subjetivas.

Voltando no nome do DJ Argel, que faz festas na rua, gratuitas. Mostra na fala que o norte é vasto, diverso demais pra caber num rótulo. E ainda assim, quando se fala em periferia, o imaginário corre pra São Paulo, pro Rio, pras favelas de concreto. Pouco se pensa nas periferias amazônicas, nas quebradas de madeira, nos corpos caboclos, pretos, indígenas que vivem outras distâncias. Catharina repete que a Amazônia é gigante, que não há uma só realidade. São mundos inteiros entre rios e poeira vermelha, gente que constrói cultura sem palco, sem investimento, sem holofote.

Quando fala de dança, a conversa muda de tom. Foi pela dança que ela entrou no funk, e é pela dança que se reconhece. Desde pequena, o corpo respondia ao som. Dançava Shakira em frente à reza, misturava gestos de devoção e gingado. A professora já debochou, dizendo que parecia cachorro se mexendo. Ela tinha doze anos. Ouviu piadas, enfrentou assédio, comentários que sexualizavam seu corpo infantil. Mesmo assim, continuou. Gravava vídeos, postava, insistia. A internet era o lugar onde podia existir. Rebolar virou resposta. O que era ofensa se transformou em força, já que, qual a melhor arma contra quem caçoa do que ser você mesma?

Lebre conta que ela e sua família ouviam bastante os clássicos da Furação 2000. O funk chegou como aquela visita que já é de casa. O que começou como diversão virou trabalho. Hoje, ela dança em shows, produz conteúdo, estuda a cultura que a formou e fala de assuntos muito pertinentes como preconceito sudestino no meio da cena de São Paulo, apagamento de povos originários e assuntos que passam batido para a maioria das pessoas, mas para Cath não. Fala com o cuidado de quem entende o valor de uma tradição oral. Pesquisa, entrevista, registra, pra que as vozes do Norte não se percam.

E mesmo com a rotina apertada, não para. Trabalha nos fins de semana como dançarina e performer nos palcos com a DJ Bonekinha Irakiana, nome forte da cena das DJ’s de funk bruxaria, estuda nos intervalos, se equilibra entre mundos que raramente se encontram. A cabeça de quem veio do Norte e o corpo de quem ocupa espaços onde poucos iguais chegaram.

Quando diz que faz medicina, o espanto aparece no rosto dos outros. Não porque duvidem da capacidade, mas porque não esperam ver uma mulher cabocla, artista, do norte do país, dentro de um curso cercado por privilégios. Catharina não precisa afirmar nada, o simples fato de existir ali já é resposta suficiente. Ela não esconde o cansaço, mas fala com serenidade. 

Entre o batuque distante de um som automotivo e o silêncio do quarto onde grava seus vídeos cheios de energia, expressa o que é jovem. Não precisa de palco, nem de baile pra ativar o que mais sua alma pede. Ainda assim, sonha com o dia em que Rondônia terá o seu espaço. Onde meninas como ela poderão dançar sem medo, onde o corpo não será motivo de piada ou fetiche, mas de liberdade. Ela sabe que esse dia ainda demora, mas não deixa de dançar. Porque o movimento é também uma forma de oração. O corpo que insiste é o mesmo que transforma o chão duro em pista de dança. Quando fala da mãe, volta a reconhecer de onde veio. Diz que se alguém merece uma entrevista, é ela. A mãe estudava, trabalhava e cuidava dos filhos ao mesmo tempo. Foi com esse exemplo que aprendeu o que é esforço e constância, coisas que hoje sustentam sua própria trajetória entre a dança, o estudo e o trabalho. E, de algum modo, ela sempre encontra um jeito de fazer o som continuar.

Tags:
O axé é também uma forma de trabalho, de paciência e de cuidado.
por
Natália Matvyenko Maciel Almeida
|
17/11/2025 - 12h

Por Natália Matvyenko 


 O cheiro do café se mistura ao das ervas secando num canto da sala, mulheres e homens de todas as idades correm de um lado pro outro, amarram panos coloridos ou brancos, colocam as guias, colares de conta confeccionadas para suas entidades, uma celebração está prestes a começar, causa frio na barriga até pro mais cético dos seres vivos. Gabrielly, de vinte e seis anos, ajeita os panos brancos dobrados sobre uma mesa simples e diz, com calma, que tudo o que aprendeu na vida veio do chão do terreiro. 

Cresceu entre rezas, cantos e gestos que, mais do que rituais, ensinaram a olhar o outro com respeito. Desde cedo entendeu que fé, para quem carrega o axé, é também uma forma de trabalho, de paciência e de cuidado. A primeira lembrança vem da infância. Aos oito anos, ainda pequena, acompanhava a mãe numa gira de umbanda. Ficava no canto, observando os cambones – aqueles que auxiliam as entidades – e sentia um chamado que não sabia nomear. Com o tempo, passou a ajudar também. Aprendeu a servir a água, a acender a vela, a estar presente. Aos dezesseis, rodou pela primeira vez – rodar é quando o santo desce, toma teu corpo e você abre espaço pra que ele ou ela cheguem – recebeu uma entidade cigana que marcaria o início de sua caminhada. Foi ali que compreendeu que mediunidade não era um dom extraordinário, mas uma entrega cotidiana. O nome de sua entidade é um segredo, é o íntimo que muitos de religião de matriz africana carregam.

moça dançando incorporada de cigana
Foto reprodução: Gabrielly Orrani


É curioso ver como esse mundo atrai dos evangélicos mais intolerantes e católicos. Mesmo condenando por aí, o misticismo e o segredo atraem o conselho malandro, o samba da casa, a comida gostosa. Toda gira está lá, com olhos curiosos e procurando algo que não encontram em suas religiões maternas, fervorosas e rígidas.
    

Entre as batidas dos atabaques e o silêncio das madrugadas de preparo, Gabrielly Orrani construiu o que chama de família de axé. Dirige hoje uma casa simples, com poucos filhos de santo. Não fala em liderança, mas em convivência. Diz que aprender com os mais velhos é o que mantém a tradição viva, em suma conservada oralmente, e que o respeito é o alicerce de qualquer caminho espiritual. Tem sete anos de candomblé, mas não é ialorixá, prefere não se apressar. Diz que a gente nunca para de aprender, mesmo depois dos sete anos, ainda tem muito pra entender sobre o mundo e sobre a gente.

A rotina da casa é marcada por gestos de cuidado. Uma vez por ano, Gabrielly e seus filhos se juntam para preparar doações. Fazem comida, recolhem cobertores, visitam moradores de rua. Não há publicidade nem câmeras, só o desejo de retribuir o que se recebe. Esse gesto, para eles, é extensão do que aprendem no terreiro: olhar o outro como parte de si. A fé que praticam é feita de afeto, não de milagres. Quando alguém adoece, os filhos da casa correm, acendem vela, reza, passam pipoca – ritual para tirar doenças e males, associado ao orixá Obaluaê, o que adoece mas também cura – chamam o preto velho pra conversar. Tudo isso é cuidado, é a medicina dos velhos, de quem foi trazido a força para Pindorama e de quem já estava aqui, explica. Para quem vive a umbanda, o sagrado está justamente nessa capacidade de enxergar o outro com empatia.

Angela, uma figura carismática e de conversa deliciosa, daquelas que você senta pra ouvir, já trabalhou de tudo nessa vida, principalmente o trabalho braçal, até caminhoneira já foi, é mais velha de religião, acompanha Gabrielly há anos, que é sua filha de sangue e de santo. Foi com ela que aprendeu a importância do silêncio e da escuta. As duas compartilham o mesmo entendimento: a religião é feita de gente, sem comuna não se faz nada. Ela diz que aprendeu mais com as entidades do que com qualquer pessoa. Fala que elas ensinaram o que é ser paciente, carinhosa e atenciosa, mas que a maior lição veio do convívio humano, religião é união, é comprometimento. É quando a gente entende que ajudar o outro é também se curar, é o que vale no fim do dia.

Os dias no terreiro são atravessados por cansaço e alegria, contam que cuidar também consome energia, não só física. Muitos dos filhos de Orrani trabalham fora, e ainda assim chegam ao final da tarde para preparar as festas e as obrigações. O corpo cansado encontra repouso na força coletiva. Há quem chegue direto do serviço, ainda de uniforme, para ajudar nos ebós e nos preparos. Às vezes, nem dá tempo de voltar pra casa. Eles brincam dizendo que vivem em “jornada dupla”: trabalho e terreiro, terreiro e trabalho. Entre o suor e a fé, constroem uma rede de apoio que se fortalece a cada encontro, ali compartilham dificuldades, segredos de cozinha – onde os elementos utilizados nas festas e giras são feitos – brincadeiras e muita risada.

Abdicar de certos prazeres é parte do caminho. Muitas vezes, um toque coincide com o aniversário de um parente, uma festa ou um descanso merecido. E mesmo assim, estão lá, de branco, prontos para servir. Não se veem como mártires, mas como quem encontrou sentido em ajudar. É escolha e entrega, ressalta Angela. Estar no axé gente é abrir mão de estar em outros lugares pra estar aqui, fazendo pelo outro. E isso não é castigo pra quem aconselha – as entidades pedem um abraço aos consulentes, que são os visitantes da casa mas não possuem obrigações, oferecem um cigarro, um trago no cachimbo ou um golinho do marafo, que a gente conhece como cachaça – é amor.

Entre a fumaça do incenso, a alfazema que banha o corpo dos convidados e dos filhos, do benjoim, da defumação que embaça o ambiente, barulho das panelas, a casa de axé se transforma num espaço de homenagem e conforto, tire seu sapato, suje seus pés e dance. Crianças brincam do lado de fora enquanto os adultos conversam. Não há luxo, casinhas de madeira com chão de terra batida, mas há pertencimento. Cada canto guarda uma história, cada vela acesa carrega o nome de alguém vivo, ou pra quem acredita, morto. A fé ali se vive sem receio, no toque dos ogans – responsáveis pelos batuques e pontos que balançam os corpos e chamam as pombagiras, malandros, caboclos e boiadeiros – eles diferente dos outros filhos da casa, não incorporam, mas são tão respeitados como os outros.

No fim do dia, quando o som dos atabaques cessa e o terreiro se esvazia, Gabrielly apaga as velas e sorri. Diz que o silêncio também é reza. E que, se há uma palavra capaz de resumir o que é viver dentro da umbanda, essa palavra é amor – o tipo de amor que se aprende com o tempo, nas pequenas tarefas, no convívio, no olhar. Um amor que não pede nada em troca, apenas segue, como o som que ecoa depois da última batida do tambor. A palavra mais dita pelas pessoas de axé, seja no candomblé, umbanda, tambor de mina, jurema sagrada é essa: comuna.
 

pessoas dançando com roupas sagradas da umbanda
Foto reprodução: Gabrielly Orrani

 

Tags:
Entre o cheiro doce das essências e a promessa de modernidade, a fumaça do futuro também pode sufocar.
por
AMANDA CAMPOS
|
17/11/2025 - 12h

Por Amanda Campos

 

Nos últimos anos, o cigarro eletrônico deixou de ser uma excentricidade importada para se tornar parte do cotidiano urbano. Em festas, universidades e até nas pausas do trabalho, o vape aparece como símbolo de modernidade: um acessório que mistura estética minimalista, cheiro doce e promessas de “menos dano”. O discurso é sedutor: a tecnologia teria finalmente “melhorado” o hábito de fumar. O vape veste a linguagem da inovação, mas repete a lógica do vício: transformar um produto nocivo em estilo de vida. Só que, por trás do design futurista e das nuvens de vapor perfumado, o que se vende é uma sensação de controle. O usuário acredita poder dosar, escolher o sabor, pausar quando quiser. Mas o que as pesquisas começam a mostrar é o oposto: a nicotina líquida, altamente concentrada e de rápida absorção, torna a dependência mais sutil e mais intensa. Segundo estudos recentes da Fiocruz, o consumo entre adolescentes brasileiros quase triplicou desde 2019, mesmo com a venda proibida no País pela Anvisa.

A propaganda do cigarro eletrônico raramente fala sobre a nicotina. Fala de liberdade. De sabores tropicais, de autonomia, de um “novo estilo de respirar”. Os dispositivos são finos, coloridos, discretos e, no imaginário coletivo, pertencem a um futuro limpo e tecnológico, distante do cheiro amargo e da imagem decadente do cigarro tradicional. Nas redes sociais, o vape virou performance visual: fumaças densas e coloridas se espalham em vídeos de poucos segundos, acompanhadas por trilhas eletrônicas e legendas sobre “bem-estar”. É a estética da leveza, da personalização, da escolha. O marketing atua em silêncio, sem precisar de comerciais na TV. Influenciadores, streamers e até artistas pop exibem o vape como extensão de seu estilo de vida. O produto se infiltra nas narrativas de autenticidade e modernidade, e a fronteira entre prazer e vício vai se tornando cada vez mais nebulosa.

Ao se apresentar como um dispositivo tecnológico, portátil e inovador, o vape herda o prestígio da inovação. É pequeno, recarregável, controlado por sensores, tudo o que a linguagem contemporânea associa ao progresso. A mensagem é sutil, mas poderosa: se tem tecnologia, deve ser seguro.Porém, a própria natureza do vape contradiz essa lógica. Estudos do Instituto Nacional do Câncer (Inca) apontam que os líquidos usados nesses dispositivos contêm nicotina em concentrações até três vezes superiores às de um cigarro comum, além de substâncias como propilenoglicol e metais pesados. Mesmo sem combustão, há impactos respiratórios e cardiovasculares já documentados. Essa ideia de neutralidade social faz parte de sua força simbólica: o vape pode ser usado em lugares fechados, durante o trabalho, no carro, na festa. O gesto de fumar, antes associado à culpa e ao risco, retorna como experiência estética e tecnológica. O problema é que essa aparente leveza mascara uma dependência silenciosa.

Em meio a esse cenário, a história de Marina, analista de marketing de 28 anos, ajuda a ilustrar o alcance dessa contradição. Marina começou a usar cigarro eletrônico aos 21, em uma festa, quando o dispositivo ainda era uma novidade. Ela acreditava estar fazendo uma escolha mais saudável: o sabor era agradável, o cheiro não incomodava, e a portabilidade tornava o hábito quase imperceptível. Em poucos meses, o vape passou a acompanhá-la em todos os momentos, era discreto, prático, aparentemente inofensivo.

Marina ainda se lembra do som metálico do primeiro click que deu início ao hábito. “Era bonito, sabe? Parecia coisa de filme. Luzinha azul, vapor cheirando a pêssego. “Eu me senti moderna.” Ela fala com a voz calma, mas entrecortada por pausas longas, como quem mede o ar antes de continuar. No início, o vape era um adereço, quase um amuleto, algo que combinava com sua rotina corrida, o coworking envidraçado e as festas de sexta à noite. Marina representava o público-alvo perfeito: jovem, conectada, atenta às tendências e acostumada com a lógica das notificações instantâneas. “A gente vive cercado de telas, dados, algoritmos. O vape parecia só mais uma extensão disso, uma forma de aliviar o estresse com estilo.”

A transição foi sutil. O dispositivo estava sempre por perto, entre o notebook e o copo de café gelado, no carro, na bolsa, no bolso do casaco. Em reuniões, ela desligava as câmeras e tragava, soltando uma névoa quase invisível. Podia parar quando quisesse. Mas não parava. Os primeiros sintomas vieram como pequenos alarmes ignorados. Uma tosse seca que ela atribuía ao ar-condicionado. Um cansaço que parecia só mais uma consequência da rotina. Até o dia em que o ar faltou de repente, no meio do trabalho. “Foi como tentar respirar por um canudo entupido”, lembra. Na emergência, a cena parecia sair de um contraste cruel: a mulher acostumada a algoritmos de eficiência agora presa a um inalador, tentando aprender de novo o gesto de respirar. O diagnóstico de pneumonite química desmontou o discurso da leveza. “Meu pulmão tinha partículas metálicas.”

O diagnóstico veio acompanhado de um alerta: sinais de bronquite crônica em formação e vestígios de partículas metálicas no tecido pulmonar. Marina ficou internada por dois dias e precisou de tratamento com corticosteróides e antibióticos. A recuperação foi lenta. Durante os meses seguintes, enfrentou tremores, irritabilidade e insônia – sintomas da abstinência de nicotina. Desde então, faz acompanhamento regular com um pneumologista e sessões de fisioterapia respiratória. Hoje, Marina está há mais de um ano e meio sem usar o dispositivo, porém ela relata que ainda sente falta de ar ao subir escadas.

Marina se tornou, sem querer, o retrato de uma geração que trocou a fumaça amarelada do cigarro tradicional por uma névoa digitalizada e doce. O mesmo gesto, só que com branding atualizado. Ela representa a dissonância de uma era em que tecnologia e dependência andam lado a lado, e o vício ganha embalagem de futuro.

 

Tags:
Agricultores como Maria da Paixão enfrentam um clima cada vez mais imprevisível enquanto o mundo discute soluções tecnológicas que podem alterar o futuro do planeta
por
Juliana Salomão
|
04/11/2025 - 12h

O amanhecer em Ibiúna, no interior de São Paulo, começa silencioso. A neblina que costumava cobrir os morros já não permanece por muito tempo, e o ar parece mais seco do que o habitual. Maria da Paixão, agricultora de 66 anos, observa o céu enquanto ajeita o chapéu gasto pelo sol. O tempo, diz ela, anda diferente. As chuvas deixaram de seguir o calendário que a memória do campo conhecia. As estações, que antes marcavam o ritmo da colheita, agora se misturam num descompasso difícil de entender. Maria aprendeu a plantar com o pai, que lia o vento e o comportamento dos pássaros antes de prever a chuva. Hoje, essas referências já não bastam. Ela tenta manter a plantação de alface e couve que sustenta a família, mas o solo endurece com o calor e o excesso de sol. Em alguns meses, a seca atrasa o crescimento; em outros, a enxurrada arranca tudo de uma vez. O tempo, que antes era aliado, se tornou um mistério para boa parte dos cientistas do planeta.

Às vezes, enquanto cuida dos canteiros, Maria comenta que o campo perdeu parte das certezas que costumavam guiar a vida de quem planta. Diz que o cheiro da terra mudou, que a poeira sobe mais cedo e que até os animais parecem confusos, aparecendo fora de época ou sumindo do nada. Ela lembra que, quando era jovem, bastava observar onde as formigas faziam os carreadores ou como as nuvens se acumulavam no horizonte para saber quando viria a chuva forte. Hoje, até esses sinais se tornaram menos confiáveis, como se a natureza estivesse desaprendendo a falar a própria língua. À noite, antes de dormir, ela ainda tenta decifrar essas mudanças, observando a lua, o vento, os sons da mata — mas tudo parece falar em códigos que já não conhece tão bem.

Enquanto ela trabalha na roça, o mundo discute novas formas de interferir no clima. À medida que se aproxima a COP30, conferência que reunirá líderes e governos em Belém, cresce o debate sobre geo-engenharia, um conjunto de tecnologias que pretende manipular o sistema climático do planeta, seja refletindo parte da luz do sol, seja retirando gases de efeito estufa da atmosfera.

Mas esse debate ficou mais intenso nos últimos anos, especialmente após ondas de calor recordes e eventos extremos. Entre as propostas mais discutidas está a injeção de aerossóis na estratosfera, uma técnica que imitaria o efeito de grandes erupções vulcânicas ao espalhar partículas capazes de refletir a luz solar. Outra aposta é o clareamento de nuvens marinhas, que busca aumentar a luminosidade refletida pelos oceanos. Há ainda projetos de fertilização dos mares, captura direta de carbono e até manipulação da composição das nuvens de chuva para tentar estimular precipitações em áreas secas.

Apesar da ambição dessas ideias, Maria dificilmente se vê em qualquer uma dessas conversas. Para ela, mexer no céu parece como tentar arrumar um bordado puxando os fios errados. Cientistas também alertam que essas soluções carregam riscos imensos: resfriar demais algumas regiões, alterar padrões de chuvas em continentes inteiros ou criar dependências tecnológicas difíceis de controlar. Uma decisão tomada em laboratório poderia, por exemplo, secar ainda mais certas áreas da África, provocar chuvas intensas no Sudeste Asiático ou afetar diretamente regiões agrícolas brasileiras.

A promessa é conter o aquecimento global, mas, entre cientistas e ambientalistas, o consenso ainda está longe. Há quem enxergue nessas ideias uma tentativa de corrigir o desequilíbrio causado pela ação humana. Outros alertam que, ao tentar controlar o céu, a humanidade corre o risco de aprofundar desigualdades antigas.

Países ricos, capazes de financiar esses experimentos, teriam um poder inédito: decidir quanto sol cada região receberia, ou quais áreas poderiam ficar mais secas ou mais úmidas. Alguns especialistas chamam isso de “governança climática assimétrica”, um termo que, no fim das contas, significa que quem tem mais dinheiro também teria mais controle sobre o clima do planeta. E é justamente isso que preocupa Maria quando ouve falar dessas soluções distantes. Para ela, se já é difícil ser ouvida em debates sobre água e agricultura na própria cidade, imaginar que alguém possa mexer no céu sem consultar quem vive dele parece quase inimaginável.

Na prática, as consequências desse tipo de intervenção ainda são incertas, porque uma mudança no regime de ventos, uma alteração nas chuvas ou no comportamento das nuvens pode transformar realidades inteiras. E são justamente os que vivem da terra, agricultores, pescadores, povos tradicionais, os primeiros a sentir o impacto de decisões tomadas longe de suas casas.

Muitas organizações indígenas e rurais têm participado dos debates internacionais justamente para alertar que o clima não é apenas um sistema físico, mas também cultural, espiritual e histórico. Para esses grupos, alterar o comportamento do céu é tocar em algo que estrutura modos de vida inteiros, e não apenas mexer em variáveis matemáticas. Maria, mesmo sem usar essas palavras, expressa a mesma preocupação quando diz que o tempo não é para ser domado, mas para ser respeitado.

A cada dia que passa Maria sente e percebe um distanciamento ao ouvir falar de soluções globais, mas segue enfrentando o sol que racha o chão e a falta d’água que ameaça a lavoura. Para ela, o clima não é uma ideia abstrata: é o que decide se haverá alimento na mesa, se a safra dará certo, se o trabalho valerá a pena. Ela acredita que quem vive do campo entende o tempo de outro modo, não como algo a ser controlado, mas como um parceiro com quem é preciso aprender a conviver.

Nos últimos anos, Maria também aprendeu a adaptar o plantio, trocando algumas sementes, reduzindo áreas e apostando em sistemas simples de captação de água da chuva, quando ela vem. Diz que nunca imaginou que precisaria reinventar métodos que aprendeu desde a infância, mas que não há outra escolha. Afinal, quem depende da terra sabe que teimosia não faz brotar nada — é preciso observar, experimentar e aceitar que a natureza tem seus próprios planos. Ela também conta que, algumas vezes, pensa no futuro das próximas gerações e teme que os jovens do campo encontrem ainda mais incertezas do que ela encontrou ao longo da vida.

Enquanto os governantes se reúnem para discutir o futuro climático em auditórios climatizados, a vida de quem depende da terra segue em movimento. No interior, Maria se prepara para mais um dia de plantio. Ajusta o sistema de irrigação improvisado e observa o céu, tentando reconhecer nela algum sinal familiar. Ainda que o tempo pareça confuso, ela insiste em acreditar que a natureza, de algum modo, sempre responde.

E, enquanto espera por essa resposta, segue em frente — confiando no pouco de previsibilidade que resta, nas lições que herdou e na esperança de que, mesmo diante de tantas mudanças, a terra ainda tenha força para ensinar o caminho. Às vezes, ao final da tarde, ela se senta na sombra do barracão, observa os campos ao redor e imagina como seria se o clima voltasse a ter o ritmo de antes. Pensa nos anos em que a chuva vinha na hora certa, nos tempos em que bastava olhar para o céu para saber o que fazer no dia seguinte. Mesmo sabendo que esse cenário talvez não volte, guarda dentro de si uma resistência silenciosa: a certeza de que o campo sempre encontrou maneiras de sobreviver — e que ela, assim como seus antepassados, também vai encontrar.

O Software da Poda quer monitorar as condições das árvores pelos bairros de São Paulo
por
Julia Sena
|
03/11/2025 - 12h

Por Julia Sena

 

No bairro da Vila dos Remédios, na zona oeste de São Paulo, seu Francisco, de 68 anos, já se acostumou com o barulho de galhos batendo contra os fios de energia nos dias de vento forte. Diz que na rua, quando chove, já sabe que vai faltar luz. Ele já fez inúmeros pedidos de poda à prefeitura, mas as respostas, quando vêm, demoram meses. A cena se repete em muitos bairros da cidade, árvores plantadas há décadas, sem planejamento e monitoramento. Além de crescidas demais, raízes que invadem calçadas, rompem fios e danificam tubulações. A falta de gestão eficiente da arborização urbana torna-se ao mesmo tempo um problema de segurança e um desafio ambiental. Foi diante desse cenário que um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo desenvolveu o projeto Poda, uma iniciativa que usa inteligência artificial e softwares de modelagem ecológica para apoiar o poder público na tomada de decisões sobre o manejo de árvores nas cidades.

A iniciativa nasceu dentro do Instituto de Biociências da USP, sob coordenação do professor Marcos Buckeridge, especialista em fisiologia vegetal e diretor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (INCT Bioetanol). A ideia surgiu de uma pergunta simples sobre se seria possível usar dados científicos para prever quais árvores precisam de poda antes que se tornem um risco. Para ele, o manejo das árvores urbanas ainda é muito reativo, a poda acontece depois que o problema aparece. O que se pretende é criar um sistema preventivo, capaz de indicar quando e onde agir, usando informações sobre o crescimento das espécies, o clima e as condições do solo.

O sistema desenvolvido pela equipe combina imagens de satélite, modelos de crescimento vegetal e dados climáticos locais. A partir disso, os pesquisadores conseguem estimar o ritmo de desenvolvimento das árvores e identificar áreas de risco, como regiões onde há alta densidade de copas próximas à rede elétrica.

Um dos diferenciais do projeto é a criação de modelos preditivos que consideram o impacto das mudanças climáticas no comportamento das árvores. Com o aumento das temperaturas e das chuvas intensas, algumas espécies têm crescido mais rápido e de forma desordenada, o que aumenta a chance de quedas e rompimentos. O software já permite prever o comportamento das árvores ao longo do tempo. Isso ajuda o poder público a planejar melhor as podas e reduzir custos com emergências.

A proposta da Poda é tornar a arborização urbana mais sustentável e integrada à rotina das prefeituras. O sistema já foi testado em áreas piloto de São Paulo e pode, futuramente, ser adaptado a outras cidades brasileiras. E o objetivo não é apenas tecnológico, mas também social,. pois o que está em jogo quando se pensa em árvores é preciso considerar sombras, em conforto térmico, em qualidade do ar. Mas se não houver manejo, esses benefícios se perdem.

De volta à Vila dos Remédios, seu Francisco ouve falar do projeto com esperança. Ele considera que se tiver um jeito de a Prefeitura saber antes que a árvore vai cair, já ajuda muito, porque esperar cair em cima do carro ninguém quer.

A equipe da USP também trabalha em uma interface pública, que permitirá aos cidadãos acompanhar o mapeamento das árvores de suas regiões e reportar problemas diretamente pelo sistema. Assim, o ciclo se completa: da denúncia à prevenção, com base em dados e participação popular. “Cuidar das árvores é cuidar das pessoas”, resume Buckeridge. E agora, com a ajuda da ciência é possível fazer isso de maneira mais inteligente.