Segundo volume de “O que separa os homens dos meninos” do rapper aborda temas como saúde mental e amor ao seu filhol
por
Laila Santos
Wanessa Celina
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30/09/2026 - 12h

Mais de uma década após o lançamento do primeiro volume, Sant volta com  “O Que Separa os Homens dos Meninos, Vol. 2”, lançado em 16 de setembro. Com 11 faixas, o álbum reúne participações de diferentes gerações, como Emicida, KL Jay, Derxan, Duquesa, 2ZDinizz, L7NNON, Bia Ferreira, ADL, Tiago Mac, Céu, Cipriano, Lil Whind, Clara Lima, Pecaos e Nego Damoé.


Como uma continuação da conversa do primeiro volume, Sant explora o seu amadurecimento, a saúde mental, as ruas, os caminhos para conquistar os seus sonhos, o amor ao primogênito e os desafios das periferias brasileiras. A obra também teve uma produção audiovisual lançada antes do álbum, em 7 de setembro. Com esse trabalho, o rapper buscou trazer, cinematograficamente, os sentimentos do álbum, além de homenagear dois amigos mortos em abril deste ano: Kauan "Faraó" de Souza Marques da Silva e Leonardo "KBL" Abrão de Aquino.

cartaz do filme
Cartaz do filme “Isso é Exatamente O Que Separa Os Homens dos Meninos II” (Divulgação: Instagram @aqueminina)

O artista e seu território 


Ser da Zona Norte do Rio de Janeiro, mais especificamente do bairro de Pilares, não é só uma curiosidade de Sant. No curta-metragem, além de muitas imagens, alguns cortes das faixas do projeto e diálogos importantes para o artista, como a dificuldade financeira, a falta de perspectivas nas comunidades, um acontecimento entre ele e seu pai que o tocou profundamente e trouxe uma reação que ele não quer mais encontrar ou ser engatilhado para ter e a cultura e festa do bate-bola. 
Músicas como “Fronteira”, que divide com o cantor de pagode Nego Damoé, e em “Meio”, que divide com o rapper L7NNON e produção de MC Marechal, mentor de Sant no início da carreira, o espaço é o principal personagem da história. A Zona Norte é tratada como um lugar tão sagrado quanto Jerusalém, mas que vive “sob a paz da Síria”, que vive em constante instabilidade após o fim da guerra civil.


Se o primeiro trabalho dessa futura trilogia registrou a revolta, as perguntas, a mágoa e o começo da construção de carreira, em “Meio”, mostra o homem que ele se tornou, agora, pai, com algumas perdas e ganhos no caminho e com a mentalidade de revisitar o passado e olhar para o presente conjuntamente sem a necessidade de se autojustificar, ver as mudanças e entender que já não é mais o mesmo. Sant, que se denomina “filho do meio”, observa os males dos mais velhos e dos mais novos, ele entende que o medo é o empecilho nas ruas. 


Na parte de L7NNON, que cresceu na Zona Oeste do Rio de Janeiro, quando percebe as semelhanças entre as duas zonas, ele traz o entendimento de que o que separa os homens dos meninos nas duas regiões é ver que não importa quanto corra atrás de um sonho, ainda não está perto. L7 vê que para viver no território o dinheiro é indispensável, mas vencer nem sempre é ser o primeiro.  


“Tеrapia é pra quem não tem conta pra engolir choro”


Um fator importante para a trajetória de Sant, tanto pessoal quanto artística, e que está bem presente no disco de ponta a ponta, é a saúde mental. Para o compositor, esse tema foi excepcional para o seu amadurecimento e evolução para esta nova era.  Na segunda faixa do álbum, “Sobrevivente”, Sant aborda a saúde mental, ou melhor, a falta dela em pessoas periféricas. Na música, sobreviver é mais importante do que pensar no bem-estar psíquico. Sant questiona como demonstrar vulnerabilidade mental quando se aprende que não se pode desistir. Na música, Sant rima “Não finjo ser forte, eu tive de ser a força/ Porque o que dignifica a honra é somente o esforço, né?”.


Entretanto, logo que a faixa acaba, surge o “Interlúdio (estratégia mental e emocional de libertação)”, em que Cipriano pensa em outra forma de ver a saúde mental de pessoas negras em um país que historicamente mata, explora e vive do suor e sangue da população negra. O que o terapeuta mostra é que não basta a população negra sobreviver, que é necessário, por meio  da terapia, encontrar margens para a libertação. 


Onze anos depois, vem o amadurecimento


Em “O que separa os homens dos meninos 2”, faixa principal em colaboração com o rapper Emicida e com a produção de LP Beatzz, Sant traz a continuação da sua música “O Que Separa Os Homens Dos Meninos Vol. 1”, lançada em 2015. Onze anos depois, o artista mostra um olhar mais amadurecido sobre sua relação familiar, relação consigo e seu trabalho. Mais calmo e menos autopunitivo, Sant agora é o adulto olhando para o percurso de sua vida.

Capa do álbum do Sant
Capa do álbum “O Que Separa Os Homens dos Meninos Vol.2”  (Divulgação: Instagram @originalsant)


Sant usa a ideia de que era um incendiário e se tornou bombeiro. Esse trabalho nos mostra outra linha de raciocínio: o amadurecimento do rapper. Ainda em busca de respostas e trazendo novos questionamentos sobre o nome do álbum, o artista troca a revolta da primeira parte por paternidade, saúde mental e perdão, a partir dos acontecimentos pessoais nesse intervalo entre os dois ”mundos”. 


Com referência a artistas mulheres brasileiras, Emicida complementa a música afirmando que o seu rap é uma forma de lançar à periferia a ideia de sonhar. O paulista, por fim, lembra que um homem, na verdade, é o resultado daquilo que fizeram com um menino. 


Sant, Pecaos, 2ZDinizz, Duquesa, ADL e Clara Lima se juntam para fazer a sétima faixa do álbum, “Corre”. Na música, o amadurecimento é contado com a história pela perspectiva dos outros rappers. Nas rimas, o tema principal é o movimento. “Só que parar também é movimento”, a letra toca numa realidade não restrita aos artistas, mas uma realidade vista muitas vezes na periferia, onde se movimentar é uma das principais regras para nunca ser “devorado” pelo mundo.


“Esse é meu testamento, as outras cartas são rascunhos”


“Cartas de Amor”, quinta faixa do álbum, mostra uma versão mais apaixonada de Sant. Escrita como uma carta para o seu filho, Arthur, a faixa exprime sua vontade de ser alguém melhor para o filho. Como um testemunho, os versos mostram a delicadeza com com que o amor pelo primogênito mudou as escolhas de sua vida.
 

Rapper Sant posando para foto
Rapper Sant em foto de divulgação do álbum “O que Separa Os Homens dos Meninos Vol.2”. Foto: Ciro Neves/Divilgação

“Ônus”, a última faixa do álbum, é mais do que um pós-crédito. Mais do que um mero agradecimento, Sant termina o curta e o álbum agradecendo a pessoas importantes para a realização do curta e fazendo fazendo uma declaração a moradores e moradoras de bairros da Zona Norte. Ônus vem como uma “lição de moral”, assim como nos contos infantis, mostrando que ainda não é o fim de uma história em constante movimento.
 

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Cineasta responsável por “A Batalha do Chile” sofreu uma parada cardiorrespiratória
por
Enrico Peres
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17/09/2026 - 12h

Na madrugada da última terça-feira (15), o documentarista chileno Patrício Guzmán faleceu após uma parada cardiorrespiratória. O cineasta estava internado em um hospital em Paris, cidade em que residia. 

Guzmán é reconhecido como um dos grandes nomes do cinema documental na América Latina, e ficou marcado principalmente por seus trabalhos relacionados à ditadura militar chilena, iniciada em setembro de 1973. Entre suas obras, a de maior destaque foi “A Batalha do Chile”, filme dividido em três partes que documenta o final do governo de Salvador Allende, a pressão opositora financiada pelos Estados Unidos e o golpe que pôs fim à utopia que chegara ao poder pelas urnas. Inicialmente, a ideia do documentário seria a de acompanhar o terceiro ano de governo da UP, a Unidade Popular. O filme, cujas filmagens foram iniciadas em 1972 até depois do golpe de estado, foi montado como uma trilogia em que cada parte retrata diferentes aspectos da organização popular e do golpe. 

A primeira parte, intitulada de “A insurreição da burguesia”, apresenta o cenário das eleições parlamentares no país e as tentativas falhas da burguesia chilena de derrubar o governo de Allende. A segunda, “O golpe de Estado”, segue mostrando os prelúdios da derrubada até culminar no dia 11 de Setembro de 1973, com o golpe e a morte de Allende. A última parte, “O poder popular”, foca nos movimentos sociais do país antes e depois da tomada do governo. Guzmán foi exilado e teve que finalizar o filme em Cuba.

Mais tarde em sua filmografia, o documentarista procurou produzir seus filmes sobre o período ditatorial no Chile, como em “Nostalgia da Luz”, em que acompanha mulheres que procuram corpos de seus parentes mortos pela ditadura. Na biografia de “Salvador Allende”, ele parte de uma perspectiva de revisitação, isto é, produz um cinema de memória, nomeado pelo próprio Guzmán como Cinema Testemunhal.

Patricio Guzmán seguiu fazendo filmes até 2022, quando lançou sua última obra, “Meu país imaginário”, que registra os protestos em Santiago, capital de seu país, mirando o futuro da democracia chilena.

 

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Com quase sete décadas de carreira, cantora morreu após enfrentar um câncer nos últimos meses
por
Luis Henrique Oliveira
Natália Matvyenko
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28/08/2026 - 12h

A cantora e compositora americana Dolly Parton morreu aos 80 anos nesta terça-feira (25), no hospital Vanderbilt-Ingram Cancer Center, em Nashville, Tennessee, nos Estados Unidos. A informação foi divulgada nas redes sociais da artista por um vídeo de seu sobrinho e chefe de segurança, Brian Seaver: “Esse anúncio em vídeo é algo que Dolly me pediu há anos, antes que eu tivesse absorvido totalmente como uma realidade no futuro. [...] Dolly viveu na luz e está nos braços de Jesus, certamente recebida por Carl [Thomas Dean], seus pais e inúmeras outras pessoas que a observaram e ansiaram por encontrá-la nos céus”

Em comunicado para a revista People, a assessoria da artista revelou que Parton havia recebido um diagnóstico de câncer nos últimos meses, travando uma “breve batalha” contra a doença, e passou os momentos finais cercada da família e amigos. Mais detalhes não foram revelados. 

Em maio, a cantora cancelou uma série de shows que faria em Las Vegas para focar em sua saúde, que estava debilitada desde a morte de seu marido, Carl Thomas Dean, em março do último ano.

Cantora country Dolly Parton sorrindo em frente à bandeira americana.
Dolly Parton é a terceira mulher com mais indicações na história do Grammy. Foto: Instagram/@DollyParton

Conhecida por suas perucas loiras, voz única e figurinos extravagantes, Dolly construiu uma carreira de quase sete décadas marcada por hits como “Jolene”, “9 to 5” e “I Will Always Love You”, eternizado na voz de Whitney Houston em 1992, acumulando um total de 11 Grammys, além de indicações ao Oscar, Emmy e Tony.

Nascida em janeiro de 1946, em uma cabana de apenas um cômodo às margens do rio Little Pigeon, Dolly Rebecca Parton era a quarta entre 12 filhos de dois agricultores sem terra e cresceu em situação de extrema pobreza rural. Sem acesso a energia elétrica ou encanamento, a mãe costurava seus vestidos com restos de pano, experiência que resultou na canção “Coat Of Many Colors”. “Essa música significa muito para mim de tantas maneiras e por tantos motivos. É mais uma filosofia do que uma música”, explicou em entrevista para a Rolling Stone, em 2021.

Sua entrada no mundo artístico aconteceu em 1959, aos 13 anos, influenciada pela família que possuía fortes raízes musicais. Contudo, foi apenas em 1967 que sua ocupação atingiu um novo patamar, quando integrou a equipe do programa do cantor Porter Wagoner e firmou uma parceria com este, resultando em 13 álbuns de estúdio antes da separação oficial.

Em 1980, Parton resolveu se aventurar nas telonas, marcando sua estreia como atriz na comédia Como Eliminar Seu Chefe (9 to 5, dir. Colin Higgins). O filme rendeu para a musicista três indicações ao Globo de Ouro por sua atuação como a secretária Doralee Rhodes e uma indicação ao Oscar em Melhor Música Original pela canção homônima 9 to 5.

Dois anos mais tarde, renovou a parceria com Higgins e integrou o elenco do musical A Melhor Casa Suspeita do Texas (The Best Little Whorehouse in Texas) como a protagonista Mona Stangley. O papel lhe trouxe outra indicação ao Globo de Ouro em Melhor Atriz em Comédia ou Musical. Após isso, sua filmografia foi ganhando novos títulos como Rhinestone: Um Brilho na Noite (Rhinestone, dir. Bob Clark), em 1984, e o romance "Flores de Aço" (Steel Magnolias, dir. Herbert Ross), em 1989.

Cantora country Dolly Parton sorrindo em frente um fundo azul, usando roupas verdes e unhas pintadas de vermelho
“I Will Always Love You” foi o primeiro single de Dolly Parton à chegar no topo das paradas country. Foto: Instagram/@DollyParton

Muito mais do que apenas uma figura do entretenimento, Dolly Parton também era reconhecida por seus projetos filantrópicos. Em 1988, criou a Fundação Dollywood, instituição que tem como intuito reduzir a evasão escolar e incentivar a educação infantil. Alguns anos mais tarde, começou a financiar o projeto Dolly Parton's Imagination Library, que envia mensalmente livros de forma gratuita para crianças com até cinco anos.

Mas seu feito mais conceituado veio durante a pandemia do COVID-19. Em 2020, a cantora doou US$1 milhão para o Centro Médico da Universidade Vanderbilt, em Nashville, ajudando a financiar as etapas primárias da vacina produzida pela farmacêutica Moderna.

A notícia sobre seu falecimento provocou uma onda de homenagens entre fãs e artistas. Dentre eles, nomes como Taylor Swift, Miley Cyrus, Stevie Nicks, Paul McCartney e Beyoncé prestaram seus tributos à Dolly nas redes sociais, destacando a admiração que sentiam e sua importância, tanto para a indústria cultural quanto para as causas sociais.

Miley Cyrus, afilhada de Parton, publicou uma despedida emocionada, afirmando que os momentos mais especiais com sua “tia Dolly” permaneceriam privados “por trás do glamour e guardados entre nossos corações”.

“O que eu sei é que Dolly gostaria que eu sentisse tudo isso, escrevesse uma música sobre isso e depois seguisse em frente, sendo forte. Tenho um anjo ao meu lado. Sempre tive. Uma das nossas últimas conversas foi sobre música e metamorfose.”

Miley Cyrus e Dolly Parton, respectivamente, sorrindo em foto
Dolly Parton fez participação especial em Hannah Montana, série protagonizada por Miley. Foto: Instagram/@mileycyrus

Consciente de seu legado, Dolly Parton ainda possui uma última música para ser lançada futuramente, em 2046, quando fizer 100 anos. Intitulada “My Place in History”, a faixa está enterrada em uma caixa de madeira no hotel Dollywood Dreammore Resort e contém cópias físicas em CD e fitas cassetes, junto de aparelhos próprios para ouvi-la.

“Eu tive que escrever essa música que ninguém ia ouvir até então. E eu te digo, você não tem ideia de como isso me incomodou. Eu quero muito desenterrá-la e pensar: 'Bem, eu preciso usar essa música', porque ela é... é uma música muito boa.”, explicou.

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Paróquias da cidade têm programação junina, reunindo fiéis e moradores em festas com comidas típicas, brincadeiras e atrações para toda a família
por
Raissa Santos
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23/06/2026 - 12h

O mês de junho sempre traz consigo o cheirinho agradável do vinho quente, decorações com bandeirinhas coloridas e festividades que movimentam comunidades religiosas por todo país. Em São Caetano do Sul, sete das 11 paróquias que compõem a Forania da cidade preparam quermesses que reúnem fiéis em celebrações marcadas por comidas típicas, música e atividades para toda a família. 

As festividades, que começaram em maio com a quermesse da Paróquia São Bento — já encerrada — se estendem até o fim de julho, tomando conta dos pátios das igrejas espalhadas pela cidade. No Centro, a festa da Matriz Sagrada Família segue até o dia 28 de junho, sempre das 16h às 22h. O cardápio oferece aos visitantes opções clássicas como cachorro-quente, espetinhos, milho-verde, além de bebidas típicas como quentão, vinho quente e o tradicional chá do padre. 

No bairro Jardim São Caetano, a Paróquia Santo Antônio também segue com a quermesse até o dia 28, quando realizará o seu tradicional bingão. Voluntária desde 2023, Milena Drudi, de 22 anos, destaca que participar da organização da festa é uma experiência desafiadora e divertida ao mesmo tempo. Neste ano, após deixar a coordenação da barraca das brincadeiras, ela passou a colaborar em diferentes setores da quermesse. Segundo ela, a mudança permitiu conhecer novas funções e ter mais contato com o público. “Foi muito divertido trabalhar como voluntária e também exercitar minhas habilidades sociais. A experiência no caixa foi uma das mais desafiadoras e, ao mesmo tempo, uma das mais divertidas”, conta. 

Já a Paróquia Nossa Senhora da Candelária, no bairro Cerâmica, mantém sua quermesse até o dia 5 de julho, oferecendo ao público as tradicionais barracas de comidas típicas e um ambiente de confraternização para a comunidade. O mesmo acontece na Paróquia São João Batista, que também segue com sua programação até 5 de julho, mantendo seu tradicional bingo e reunindo fiéis e moradores para celebrar o período junino. 

Domitila Barbosa, de 15 anos, conta que frequenta a São João Batista com a família desde 2008, e participa da barraca do bingo junto de seu pai desde que ele assumiu a coordenação em 2018. “No nosso bingo, quase todo final de semana, temos uma rodada que sorteia um bicho de pelúcia gigante e as crianças ficam super animadas pedindo para os pais participarem do bingo”, destaca.

Frequentadores em bingo da Paróquia São João Batista. Foto: Reprodução / Instagram Paróquia São João Batista SCS
Frequentadores em bingo da Paróquia São João Batista. Foto: Reprodução / Instagram Paróquia São João Batista SCS 

Na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, as festividades acontecem até o dia 5 de julho, das 18h às 22h. Além das comidas e bebidas típicas que marcam as quermesses, a paróquia preparou atrações especiais para o público. Entre os destaques estão o posto de troca de figurinhas e um telão que transmitirá os jogos do Brasil na Copa. Heitor Souza Móda, de 15 anos, frequenta a paróquia desde os 10 anos de idade e esteve na quermesse durante o jogo do Brasil contra o Marrocos ao lado dos amigos do grupo de jovens. “É um ambiente gostoso que podemos conviver, é legal ver o jogo com a família, mas com todo o pessoal aqui e as comidas, tudo fica melhor” contou ele. 

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Quermesse da Paróquia Nossa Senhora Aparecida. Foto: Jaqueline Borges

Encerrando a programação, a Paróquia Nossa Senhora das Graças realiza sua quermesse até o dia 26 de julho, sempre das 18h às 22h. Além dos tradicionais lanches, doces e bebidas típicas, a festa também incorporou ao cardápio opções de tempurá de legumes e camarão, oferecendo um diferencial gastronômico aos visitantes.

Com opções espalhadas por diferentes bairros e datas que se estendem até o final de julho, às quermesses de São Caetano do Sul surgem como uma oportunidade para reunir a família, estreitar laços e fortalecer a convivência comunitária, mantendo viva uma das tradições mais populares do calendário brasileiro.

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Ele é o responsável por manter o padrão de qualidade e credibilidade de alguns veículos de imprensa de grande circulação no país
por
Julia Jorge de Oliveira
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08/06/2026 - 12h

O profissional de edição atua em redações jornalísticas e realiza suas funções em equipe. Sua responsabilidade é verificar, filtrar e hierarquizar as informações que chegam aos veículos de imprensa. O objetivo é transformar essas informações em um produto, ou seja, a notícia final, para ser comercializada e entregue ao público de maneira clara e objetiva. O editor de vídeo Gabriel Neri Reis, 26, trabalha na redação da Revista Oeste desde 2022 e afirma que, desde criança, sonhava em ser editor de vídeo em um  veículo de comunicação do país. Aos 11 anos, iniciou sua trajetória na fotografia, mas logo migrou para a área de edição em razão do grande volume de trabalho gerado pela internet, principalmente após o surgimento do YouTube. 

Segundo Reis, as habilidades mais importantes para trabalhar na área são ter boas referências sobre os assuntos abordados, muita paciência e um olhar preciso e sensível para as imagens utilizadas em uma edição de vídeo. Ele complementa que existem diferentes tipos de edição no mercado jornalístico, como a edição de documentários, filmes e telejornais. Esta última é mais objetiva e busca apresentar informações, relatos e imagens reais. 

Reis declara que a profissão é voltada para pessoas que não estão em busca de reconhecimento imediato, afinal, o nome dos editores aparece discretamente ao final dos trabalhos. O editor não é apenas o responsável por criar projetos audiovisuais, mas também por aprimorar o conteúdo gravado e adaptá-lo aos formatos das redes sociais. Três grandes projetos marcaram sua trajetória profissional. O primeiro foi uma série documental de investigação sobre a morte de Marielle Franco, no GloboPlay; o segundo, um documentário sobre o cinema; e o terceiro, um documentário sobre as chuvas que atingiram e devastaram diversas famílias no Rio Grande do Sul. 

O especialista em edição afirma que a Inteligência Artificial não tende a eliminar a função do editor de vídeo, mas a transformá-la. Tarefas consideradas repetitivas e operacionais podem ser automatizadas, à medida que cresce a demanda por profissionais capazes de interpretar dados e tomar decisões editoriais complexas. Ao mesmo tempo, surgem preocupações relacionadas à redução de postos de trabalho em atividades mais rotineiras e à necessidade de requalificação profissional, pois nossa principal responsabilidade é transformar imagens brutas, entrevistas e materiais gravados em uma narrativa clara, objetiva e informativa, respeitando os critérios editoriais e éticos de cada veículo de comunicação. 

A tendência no jornalismo brasileiro é a valorização do trabalho do editor como verificador e gestor da qualidade editorial. Em vez de substituir esse profissional, a Inteligência Artificial tende a ampliar sua capacidade de trabalho, exigindo novas competências ligadas à tecnologia e à análise de dados. É importante destacar que a credibilidade, o julgamento humano e a sensibilidade jornalística continuam sendo elementos essenciais para a atividade editorial no jornalismo brasileiro.

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Vídeos curtos e a mudança no ritmo dos conteúdos infantis têm impactado profundamente o foco e o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes.
por
AMANDA CAMPOS
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17/11/2025 - 12h

Por Amanda Campos

 

Paula, atualmente com 35 anos, é mãe de Júlia, que tem um ano e dez meses. Desde a gravidez, ela se aprofundou em estudos sobre desenvolvimento infantil, neurociência e práticas de criação que priorizam presença, silêncio e estímulos naturais. Inspirada pelas recomendações da Organização Mundial da Saúde e pela literatura especializada, decidiu que a filha não teria contato com telas nos primeiros anos de vida. Não se tratava apenas de evitar o celular durante as refeições; Paula escolheu construir um cotidiano totalmente livre de telas, algo raro na geração atual.

A casa dela reflete essa decisão: poucos brinquedos, todos acessíveis, com texturas reais, madeira, tecidos, objetos simples do dia a dia. Júlia passa longos períodos apenas observando, manipulando ou tentando entender um único objeto. A ausência de estímulos digitais permitiu que ela desenvolvesse uma tolerância incomum ao tédio para sua idade, algo que chama a atenção de quem convive com a criança. Ela observa detalhes, mantém contato visual intenso, sustenta brincadeiras por vários minutos sem se distrair. Paula percebe esse ritmo mais calmo como consequência direta de suas escolhas diárias, não como um dom natural.

Paula comentou que a ausência de telas não tornou seus dias mais fáceis, mas sim mais presentes. Ela descobriu que, sem o recurso rápido de um vídeo para silenciar o choro ou interromper uma birra, precisou desenvolver uma escuta mais profunda da filha, entendendo seus limites, seu ritmo, suas necessidades reais. Um exemplo que a mãe contou é o uso de músicas da banda Falamansa, principalmente Xote dos Milagres, som usado para acalmar a pequena. Júlia, por consequência, se tornou uma criança que resolve frustrações pelo corpo: às vezes senta no chão para observar as próprias mãos, outras vezes abraça um brinquedo até se acalmar, outras simplesmente espera. O que poderia parecer exaustivo transformou o vínculo entre as duas em algo mais íntimo, quase visceral. Paula acredita que essa conexão é, em grande parte, resultado da rotina desacelerada que construiu, uma rotina em que o tempo existe sem interrupções artificiais e em que a curiosidade da filha pode florescer no próprio compasso.

Nos últimos anos, neuropediatras e especialistas em desenvolvimento infantil têm registrado um fenômeno preocupante: crianças e adolescentes apresentando dificuldades crescentes de atenção, impulsividade acentuada e uma incapacidade quase física de lidar com o silêncio, o tédio e a lentidão. Esse quadro, cada vez mais recorrente em consultórios e escolas, não é apenas coincidência. Ele acompanha o avanço do consumo de telas, especialmente vídeos rápidos e hiperestimulantes. Segundo levantamentos da USP (Universidade de São Paulo) o tempo médio que uma criança de 4 a 7 anos passa diante de telas subiu de uma hora e vinte minutos por dia em 2010 para quatro horas e quinze minutos em 2024. O consumo de vídeos curtos, como Reels, TikTok e YouTube Shorts, aumentou mais de 600% entre crianças de 5 a 10 anos.

A Era da Tecnologia foi responsável por essa mudança nos conteúdos consumidos por crianças, quem cresceu nos anos 2000 e 2010 lembra dos episódios longos e de narrativa lenta de desenhos como Peixonauta, Os Backyardigans, Dora Aventureira, Pocoyo e Charlie e Lola. Esses programas tinham ritmo cadenciado, pausas, repetições e até momentos de silêncio — elementos essenciais para o desenvolvimento da atenção e importantes para a construção da linguagem e da concentração. Hoje, o consumo predominante nas infâncias é formado por cortes acelerados, animações com troca constante de plano, músicas repetitivas em alta frequência e vídeos que não duram mais do que alguns segundos. Esse excesso de estímulos reorganiza o sistema de recompensa e treina o cérebro infantil a esperar novidade permanente, criando dificuldade na atenção sustentada.

Enquanto isso, a trajetória de Lucas, irmão mais novo de Paula, de 28 anos, seguiu por outro caminho. Ele é pai de Davi, atualmente com 6 anos, e quando o menino nasceu, Lucas não imaginava que permitir o uso do celular poderia gerar impactos tão profundos. Na rotina apertada, o aparelho se tornou ferramenta de conveniência: primeiro para que o filho comesse com tranquilidade, depois para distraí-lo no carro, depois para acalmá-lo antes de dormir. O que parecia um recurso eventual se tornou hábito, e o hábito se transformou em dependência. Aos poucos, Lucas percebeu que Davi reagia com irritação quando ficava sem o celular, que passava de um vídeo para outro em poucos segundos, que não conseguia acompanhar sequer um desenho infantil tradicional. A concentração fragmentada se agravou com o tempo. Hoje, Davi tem dificuldade de completar tarefas simples, perde o interesse em atividades que não envolvem estímulos rápidos, demonstra inquietação e apresenta sinais claros de déficit de atenção. Um neuropediatra o avaliou e apontou que os padrões comportamentais estavam fortemente associados ao uso excessivo de telas nos primeiros anos de vida, justamente o período mais sensível do desenvolvimento cerebral.

A diferença entre Júlia e Davi aparece de forma quase simbólica quando as famílias se reúnem. Júlia explora objetos, empilha blocos e observa o ambiente com calma; Davi, por outro lado, demonstra inquietação constante, toca em tudo, busca estímulos imediatos e, muitas vezes, abandona qualquer brincadeira em poucos segundos. Paula enxerga esse contraste com cuidado, sem julgamento. Ela entende que Lucas fez escolhas comuns à maior parte dos pais da geração atual. Lucas, por sua vez, carrega uma mistura de culpa e vontade de mudança. Ele tem tentado iniciar um processo de redução das telas, introduzindo brincadeiras mais estruturadas, atividades ao ar livre e momentos de leitura compartilhada, ainda que o caminho seja lento e cercado de desafios.

A história dos dois irmãos ajuda a ilustrar um fenômeno nacional: o País vive uma geração de crianças que raramente experimentam o silêncio, a pausa, o ócio e o tempo real das coisas. Crescem em meio a estímulos que não refletem o ritmo da vida, e quando o mundo não se movimenta na velocidade do algoritmo, o cérebro não sabe como reagir. Ao observar Paula, Lucas, Júlia e Davi, fica claro que a infância digitalizada não é destino inevitável. A cada gesto, a cada limite estabelecido, a cada momento de presença, os adultos definem o tipo de infância que as próximas gerações irão viver. Entre a velocidade artificial das telas e o ritmo humano da vida real, existe um espaço possível, e urgente,de equilíbrio, cuidado e reconstrução.

A pediatra Helena Marcondes acompanha há mais de uma década a evolução do comportamento infantil em meio às mudanças tecnológicas. Ela conta que em suas consultas, é comum receber pais que acreditavam estar diante de problemas de comportamento isolados e descobrem, pela análise detalhada da médica, que a raiz de muitos desses desafios está no excesso de estímulos digitais. Helena costuma explicar que a neuroplasticidade infantil, especialmente nos primeiros cinco anos de vida, é intensa e sensível; quando o ambiente oferece estímulos rápidos e constantes, o cérebro passa a buscá-los como única forma de interesse. Ela observa que crianças que crescem assistindo vídeos curtos apresentam uma aceleração artificial do ritmo interno, uma urgência constante por novidade e uma queda significativa na qualidade da atenção.

Essa transformação pode ser percebida de forma quase didática quando se observa a história de dois irmãos: Paula e Lucas. Embora tenham crescido na mesma casa, seguiram caminhos completamente distintos ao construir as rotinas dos próprios filhos, caminhos que, hoje, revelam impactos opostos no desenvolvimento de cada criança.

 

 

O meio musical se reinventa no TikTok, mas perde simbolismo pela "trend"
por
JESSICA AMANDA CASTRO
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14/11/2025 - 12h

Por Jessica Castro

O cenário musical mudou drasticamente, especificamente com a criação do TikTok. A plataforma, com seu modelo de vídeos rápidos e altamente compartilháveis, serviu como palco para novos artistas e hits, além de revolucionar a carreira de cantores já consagrados. Mas esse impacto não é necessariamente só positivo ou negativo: ele também trouxe discussões sobre a velocidade da indústria, a efemeridade dos sucessos e a transformação da forma como consumimos música.

É comum que a música acompanhe a evolução humana de forma extremamente próxima, por meio das tendências geracionais e sociais. Nos anos 1950, o rock encarnava o espírito rebelde do pós-guerra, representado por ícones como Elvis Presley, que não só moldaram o som da época como também estabeleceram a base da cultura pop moderna. Já nas décadas de 1990 e 2000, o fenômeno dos girl groups, como Spice Girls e Destiny’s Child, ditava moda, comportamento e até mesmo valores de empoderamento, se consolidando como símbolos de uma geração e permanecendo relevantes até hoje nas plataformas digitais.

No Brasil, exemplos não faltam: o funk carioca dos anos 2000, nascido da Miami Bass e do soul americano, ganhou força com equipes como a Furacão 2000. Mais tarde, o sertanejo universitário da década de 2010, liderado por nomes como Luan Santana e Cristiano Araújo, marcou uma nova era de consumo e identidade musical. Esses movimentos mostram que a música, além de acompanhar, também impulsiona transformações sociais e culturais.

A indústria musical, por ser uma das manifestações artísticas mais populares da atualidade, não se deixa ficar para trás. Assim como gigantes da tecnologia, as gravadoras e produtoras seguem o “cheiro do dinheiro” e a corrida pela atenção.

Em entrevista com o jornalista e ex-editor da Rolling Stone, Pablo Miyazawa, a lógica fica clara. O jornalista conta como todo mundo está concorrendo pelo tempo das pessoas. A Netflix compete com a Nintendo que compete com o TikTok. Ele ressalta que a nova geração tem uma atenção cada vez mais limitada, e isso força a criação de produtos culturais condensados, rápidos e facilmente compartilháveis. O resultado é um consumo musical cada vez mais moldado por algoritmos que priorizam a dopamina e a instantaneidade.

Esse fenômeno também revela a dependência da música em relação às grandes plataformas digitais. Assim como o rádio moldou carreiras no século XX e o YouTube foi decisivo na década de 2010, hoje o TikTok ocupa esse espaço central. O problema é que o domínio de uma única rede social cria um tipo de monocultura: se um artista não viraliza ali, muitas vezes sua chance de alcançar o grande público diminui.

Esse modelo favorece a criação dos chamados “hits de momento”: músicas produzidas quase sob medida para viralizar. Cada detalhe, seja a melodia, harmonia, ritmo e até as palavras-chave da letra, é pensado para o algoritmo, priorizando a simplicidade e a facilidade de reprodução.

Um exemplo é a faixa “Resenha do Arrocha”, de Eskine, que acumula mais de 34,7 mil publicações no TikTok. O sucesso não está em sua profundidade lírica, mas na repetição, nos trechos fáceis de decorar e na nostalgia, citando tendências já conhecidas. Outro caso é “Descer Pra BC”, da dupla Brenno & Matheus, que ganhou projeção graças a um meme e a um título inusitado, facilitando a pesquisa e a viralização. Nesse cenário, o lirismo tradicional cede espaço à praticidade: no TikTok, a chance de criar uma trend vale muito mais do que uma letra sofisticada.

No Brasil, nomes como Anitta, Ludmilla e Gloria Groove também perceberam o poder da plataforma. Canções como “Envolver”, que gerou o famoso “El paso de Anitta”, só alcançaram o topo das paradas globais porque foram amplamente reproduzidas no TikTok, em coreografias que se espalharam pelo mundo. O mesmo aconteceu com “Vermelho”, de Gloria Groove, que ganhou vida nova com dancinhas e memes, ultrapassando os limites do público já estabelecido.

A velocidade de consumo musical também se transformou. Miyazawa lembra que antigamente você precisava esperar o álbum sair, gastar o seu dinheiro e depois ouvir as músicas daquele artista. Mas hoje em dia tudo é muito rápido.

Até 2021, os vídeos da plataforma eram limitados a três minutos, o que estimulava ciclos de consumo infinitos. Somado à pandemia de Covid-19, quando milhões de pessoas se trancaram em casa, esse formato fomentou ainda mais a indústria da pressa. Muitos artistas independentes encontraram aí uma alternativa acessível para divulgar seu trabalho sem precisar de grandes gravadoras.

Esse período marcou a ascensão de carreiras inteiras. Jovens que gravavam músicas em seus quartos, muitas vezes sem recursos, passaram a ser descobertos por gravadoras depois que viralizaram no TikTok. É o caso do cantor JVKE, que ganhou visibilidade global com “Golden Hour”, ou mesmo de artistas brasileiros que conseguem alcançar estes marcos de maneira espontânea, como a dupla Os Barões da Pisadinha, que virou trilha sonora de milhões de vídeos durante a pandemia.

Cantores como Doja Cat souberam usar esse novo mercado. Hits como “Say So” (7,6 milhões de conteúdos virais) e “Kiss Me More” (1,5 milhão de usos) consolidaram sua imagem global. O rapper canadense bbno$, por sua vez, conquistou a comunidade de edição com músicas como “Edamame” (955 mil publicações), transformando-se em um nome presente nos trends semanais.

Mas não foram apenas novos artistas: velhos sucessos também renasceram. O clássico “Pretty Little Baby”, de Connie Francis, voltou às paradas quase 60 anos após seu lançamento, acumulando mais de 2,2 milhões de vídeos. Isso mostra que o TikTok não cria apenas novidades, mas recontextualiza o passado, transformando músicas esquecidas em fenômenos para novas gerações.

Outro exemplo é “Dreams”, do Fleetwood Mac, que viralizou em 2020 com o vídeo de um homem andando de skate enquanto bebia suco de cranberry. O clipe transformou uma música de 1977 em hit contemporâneo, provando que o TikTok pode atuar como máquina do tempo cultural.

Algoritmo

Ainda assim, esse sucesso não é totalmente orgânico. O algoritmo é cuidadosamente projetado para manter o padrão de consumo acelerado, como lembra a pesquisadora Isabela Andrade. Para ela a rede de algoritmos não é um organismo vivo, ele é formado por elementos neoliberais, onde a venda da imagem e do som se tornam o produto central.

Isso cria desigualdades. Quem não se adapta às regras da plataforma perde espaço. O caso da sueca Zara Larsson é ilustrativo: mesmo com 13 anos de carreira, acabou relegada ao posto de artista de abertura da turnê Miss Possessive em 2025, enquanto a canadense Tate McRae, que cresceu dentro da lógica do TikTok, se tornou headliner global em menos de uma década. Sua música “Greedy” já soma mais de 1,8 milhão de publicações.

O desequilíbrio também afeta a forma como os fãs se relacionam com a música. Ao mesmo tempo em que o TikTok permite uma conexão direta entre público e artista, ele cria um vínculo muitas vezes superficial, baseado em fragmentos de 15 segundos. Essa relação, altamente volátil, pode transformar carreiras da noite para o dia, mas também pode deixá-las esquecidas tão rápido quanto surgiram.

A grande questão que emerge é: até que ponto a música continua sendo arte, e quando se transforma apenas em produto? O TikTok trouxe novas oportunidades, mas também colocou em xeque a durabilidade das carreiras. Se antes o sucesso era medido em álbuns, turnês e fidelidade de fãs, hoje a métrica está em cliques, curtidas e número de vídeos criados.

Ao mesmo tempo, há espaço para reflexão: será que essa velocidade mata a criatividade, ou apenas abre caminhos diferentes de expressão? Assim como Elvis, as Spice Girls e o funk carioca moldaram gerações, talvez o TikTok esteja apenas cumprindo o papel que sempre coube à música: traduzir o espírito de seu tempo, agora marcado pela pressa, pela viralização e pelo consumo imediato.

 

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Estudo indica que uso excessivo das plataformas está associado a 45% dos casos de ansiedade em jovens de 15 a 29 anos
por
Luiza Zequim
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18/11/2025 - 12h

Por Luiza Zequim

 

O primeiro gesto da manhã, antes mesmo de escovar os dentes, é verificar o celular. A última coisa antes de dormir é uma rolagem final pelo feed, muitas vezes prolongada até a madrugada. Esta é a rotina de Sofia Molim, uma estudante paulista de 21 anos da faculdade de administração da FGV (Fundação Getúlio Vargas). Essa prática descreve um ciclo vicioso que muitos jovens e  adultos não conseguem escapar na era digital. O que começou como entretenimento se tornou uma fonte de ansiedade e perda de produtividade sem fim. Uma pausa no almoço para relaxar se torna mais 15 minutos vidrada em uma tela com vídeos super estimulantes. E a dependência digital vem acompanhada da constante sensação de estar perdendo algo, a popular "FOMO" (Fear of Missing Out).

A jovem descreve como a sua autoestima se tornou submissa à validação digital, às curtidas e aos comentários. Para ela, ver a vida aparentemente “perfeita” de colegas e influenciadores gera uma comparação exaustiva que afeta seu bem-estar. Porém, ela compartilha que o impacto mais concreto é no seu desempenho acadêmico. Horas que deveriam ser dedicadas aos estudos de gestão e finanças são perdidas em filmagens curtas e discussões banais online. A questão se tornou um problema diário quando o consumo de produtos digitais começou a ser incontrolável e inconsciente. Sempre há espaço para um checada nas mensagens, nas fotos no Instagram ou nos vídeos rápidos do TikTok.  

Embora comum, o caso da estudante não é isolado. O Brasil é o terceiro país do mundo onde as pessoas passam mais tempo em redes sociais, o enraizamento da doença acaba acarretando um aumento considerável nos laudos psiquiátricos e no consumo de remédios com efeito calmante. Um levantamento do Instituto Cactus, em parceria com a AtlasIntel, revelou que o uso excessivo das plataformas está associado a 45% dos casos de ansiedade em jovens de 15 a 29 anos.

O aumento na procura por ajuda é visível. Ambulatórios especializados em dependência digital, como o da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), registraram um aumento de 400% no número de atendimentos entre 2023 e 2024. Agora, a adversidade até ganhou um nome: nomofobia, o medo irracional de ficar sem o celular. Os sintomas relatados por cidadãos ao redor do mundo são claros: ansiedade, irritabilidade quando desconectado e uma incapacidade de controlar o tempo gasto nas telas.

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Vício em celular afeta bem-estar mental de jovens e cria dependência dos aparelhos eletrônicos. Foto: Freepik

 

Hoje em dia, as plataformas são desenhadas para o engajamento máximo, utilizando algoritmos que fornecem doses constantes e escassas de dopamina para que o cérebro sempre queira mais do que é possível consumir e isso torna quase impossível conseguir uma solução por conta própria

A estudante paulista conta que já tentou se afastar, desinstalando aplicativos, mas a pressão social e o sentimento de exclusão a fizeram voltar. Ainda que tenha nome e seja reconhecida por órgãos competentes, os afetados pela condição nociva sofrem com um fator indispensável: o silêncio. Muitas vezes, este novo vício não é sonoro como o alcoolismo ou a compulsão por drogas. Os pacientes sofrem de forma silenciosa e muitos demoram a identificar a origem do cansaço extremo, da falta de atenção, da queda na produtividade, do estresse constante e da falta de um estímulo em atividades do mundo real. Embora ainda seja difícil para muitos aceitar e acolher a questão, ela deve ser tratada pelo que é: um vício. Uma adicção não é curada rapidamente e os afetados por ela estão sempre sujeitos a recaídas, mas ignorar o problema  invalida a exaustão mental e faz com que a vida de quem lida com ele diariamente seja ainda mais complexa. 

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A flor do norte que quebra o concreto cinza e duro de São Paulo
por
Natália Matvyenko Maciel Almeida
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18/11/2025 - 12h

Por Natália Matvyenko 

 

Sob o sol de Rondônia, entre o barulho dos carros e o som distante das caixas de som que raramente tocavam funk, Catharina Lebre cresceu. Faltavam bailes, mas não vontade. Ela sempre sentiu que o corpo pedia movimento. Conta que anos atrás, Rondônia nunca teve a cena musical em destaque que o Pará teve, e muito menos a força de um Rio ou São Paulo, mas foi ali, no meio das ausências, que Catharina aprendeu a desenhar seus caminhos, estudante de medicina e uma menina que o que tem de cabelos longos tem de simpática e atenciosa. Nasceu e cresceu em Porto Velho. Morou primeiro num condomínio simples e depois num conjunto habitacional. Estudou em escola particular, mas sempre via a diferença entre sua realidade e a dos colegas mais ricos. Esse contraste foi o primeiro contato com o que mais tarde ela perceberia como desigualdade de origem.

Ela fala de um DJ chamado D. Silvestre com brilho nos olhos. D. Silvestre, DJ que viralizou no Tik Tok e Instagram nas festas de São Paulo, é de Rondônia ao contrário do que sudestinos achavam, por mais underground que sejam, caem no lugar de achar exótico, como se arte subversiva só brotasse do solo cinza da capital paulista. Há também o DJ Argel, do Pará, um tipo de artista que mistura o rock doido com o mandela e transforma o som em viagem. Uma vez, ele precisou levar uma caixa de som de barco até uma cidadezinha encravada no interior, o tipo de coisa que explica bem o corre de quem faz cultura na Amazônia.

menina sentada em barco olhando ao longe pro rio
Foto Reprodução: Catharina Lebre

A diferença entre os estados do Norte se sente até pela música. O Pará tem as aparelhagens, o tecnobrega, as festas que viraram lenda e que quem é da periferia paulistana tem contato. Rondônia de certa forma em divulgaço engatinha, parece que está sempre um passo atrás, como se o relógio cultural lá rodasse mais devagar. Catharina sabe que não é uma questão de atraso, mas de estrutura. O Pará é mais antigo, mais turístico, tem tradição. Rondônia ainda precisa lutar pra existir em qualquer conversa. Ela mesma viveu isso de perto. Na própria cidade, não há bailes de rua nem fechados. Quando muito, aparecem encontros de som automotivo no centro, sem o corpo coletivo da periferia dançando junto, sem o calor que transforma o som em comunhão. O que domina a cidade é o sertanejo, e quando o funk aparece, é o comercial. A cena mais alternativa quase não tem espaço.

Cath lembra de um lugar chamado Bar Esconderijo, o nome é autoexplicativo. Era o ponto de encontro de quem não cabia em lugar nenhum, gente preta, LGBT, periférica, artistas, curiosos. Lá, o som era resistência. Até que a festa foi invadida por um grupo bem emblemático que estrutura esse abafamento da cultura. A polícia entrou, levou tudo, caixas, fios, a esperança de mais uma noite sem medo. O bar fechou. E ela entendeu, como tantos, que até o pouco que se constrói é "brecado" quando vem das margens. Mesmo assim, não deixam de existir. Lebre entra no assunto da dança do funk paulista, manda links, vídeos, sons pra mostrar o que se ouve no Norte contrastando com o som estourado que tocam nas festas em galpões da Barra Funda, Luz e centro. Fala do rock doido do Pará, das danças, do carimbó. O carimbó, ela aprendeu a dançar, ritmo que é uma fusão da cultura originária e de povos de África. É dessas heranças que tatuam no corpo. Tudo se mistura. Quando viaja, busca o baile, qualquer baile. Foi em São Paulo que entrou num pela primeira vez. Depois veio o Rio, e cada cidade trouxe um ritmo diferente. Em São Paulo, ela sentiu o peso das chacinas, das memórias de Paraisópolis, das notícias que quase fizeram os bailes de rua de funk paulista perder o fôlego.

Tem repertório pra dar e vender, talvez seja por isso que o nome de D. Silvestre a toque tanto. Ele rompeu com a visão do sudeste, mostrou que dá pra sair de onde tudo parece longe e, ainda assim, fazer revolução com música, diga-se de passagem, um som muito autêntico. Mostra o caminho de quem precisou deixar o território pra florescer, como tantos artistas do Norte e de outras regiões, que só encontram espaço quando partem da sua casa pra conseguir espaço ironicamente até virtual. É bonito e triste ao mesmo tempo, como as coisas da vida que são subjetivas.

Voltando no nome do DJ Argel, que faz festas na rua, gratuitas. Mostra na fala que o norte é vasto, diverso demais pra caber num rótulo. E ainda assim, quando se fala em periferia, o imaginário corre pra São Paulo, pro Rio, pras favelas de concreto. Pouco se pensa nas periferias amazônicas, nas quebradas de madeira, nos corpos caboclos, pretos, indígenas que vivem outras distâncias. Catharina repete que a Amazônia é gigante, que não há uma só realidade. São mundos inteiros entre rios e poeira vermelha, gente que constrói cultura sem palco, sem investimento, sem holofote.

Quando fala de dança, a conversa muda de tom. Foi pela dança que ela entrou no funk, e é pela dança que se reconhece. Desde pequena, o corpo respondia ao som. Dançava Shakira em frente à reza, misturava gestos de devoção e gingado. A professora já debochou, dizendo que parecia cachorro se mexendo. Ela tinha doze anos. Ouviu piadas, enfrentou assédio, comentários que sexualizavam seu corpo infantil. Mesmo assim, continuou. Gravava vídeos, postava, insistia. A internet era o lugar onde podia existir. Rebolar virou resposta. O que era ofensa se transformou em força, já que, qual a melhor arma contra quem caçoa do que ser você mesma?

Lebre conta que ela e sua família ouviam bastante os clássicos da Furação 2000. O funk chegou como aquela visita que já é de casa. O que começou como diversão virou trabalho. Hoje, ela dança em shows, produz conteúdo, estuda a cultura que a formou e fala de assuntos muito pertinentes como preconceito sudestino no meio da cena de São Paulo, apagamento de povos originários e assuntos que passam batido para a maioria das pessoas, mas para Cath não. Fala com o cuidado de quem entende o valor de uma tradição oral. Pesquisa, entrevista, registra, pra que as vozes do Norte não se percam.

E mesmo com a rotina apertada, não para. Trabalha nos fins de semana como dançarina e performer nos palcos com a DJ Bonekinha Irakiana, nome forte da cena das DJ’s de funk bruxaria, estuda nos intervalos, se equilibra entre mundos que raramente se encontram. A cabeça de quem veio do Norte e o corpo de quem ocupa espaços onde poucos iguais chegaram.

Quando diz que faz medicina, o espanto aparece no rosto dos outros. Não porque duvidem da capacidade, mas porque não esperam ver uma mulher cabocla, artista, do norte do país, dentro de um curso cercado por privilégios. Catharina não precisa afirmar nada, o simples fato de existir ali já é resposta suficiente. Ela não esconde o cansaço, mas fala com serenidade. 

Entre o batuque distante de um som automotivo e o silêncio do quarto onde grava seus vídeos cheios de energia, expressa o que é jovem. Não precisa de palco, nem de baile pra ativar o que mais sua alma pede. Ainda assim, sonha com o dia em que Rondônia terá o seu espaço. Onde meninas como ela poderão dançar sem medo, onde o corpo não será motivo de piada ou fetiche, mas de liberdade. Ela sabe que esse dia ainda demora, mas não deixa de dançar. Porque o movimento é também uma forma de oração. O corpo que insiste é o mesmo que transforma o chão duro em pista de dança. Quando fala da mãe, volta a reconhecer de onde veio. Diz que se alguém merece uma entrevista, é ela. A mãe estudava, trabalhava e cuidava dos filhos ao mesmo tempo. Foi com esse exemplo que aprendeu o que é esforço e constância, coisas que hoje sustentam sua própria trajetória entre a dança, o estudo e o trabalho. E, de algum modo, ela sempre encontra um jeito de fazer o som continuar.

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O axé é também uma forma de trabalho, de paciência e de cuidado.
por
Natália Matvyenko Maciel Almeida
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17/11/2025 - 12h

Por Natália Matvyenko 


 O cheiro do café se mistura ao das ervas secando num canto da sala, mulheres e homens de todas as idades correm de um lado pro outro, amarram panos coloridos ou brancos, colocam as guias, colares de conta confeccionadas para suas entidades, uma celebração está prestes a começar, causa frio na barriga até pro mais cético dos seres vivos. Gabrielly, de vinte e seis anos, ajeita os panos brancos dobrados sobre uma mesa simples e diz, com calma, que tudo o que aprendeu na vida veio do chão do terreiro. 

Cresceu entre rezas, cantos e gestos que, mais do que rituais, ensinaram a olhar o outro com respeito. Desde cedo entendeu que fé, para quem carrega o axé, é também uma forma de trabalho, de paciência e de cuidado. A primeira lembrança vem da infância. Aos oito anos, ainda pequena, acompanhava a mãe numa gira de umbanda. Ficava no canto, observando os cambones – aqueles que auxiliam as entidades – e sentia um chamado que não sabia nomear. Com o tempo, passou a ajudar também. Aprendeu a servir a água, a acender a vela, a estar presente. Aos dezesseis, rodou pela primeira vez – rodar é quando o santo desce, toma teu corpo e você abre espaço pra que ele ou ela cheguem – recebeu uma entidade cigana que marcaria o início de sua caminhada. Foi ali que compreendeu que mediunidade não era um dom extraordinário, mas uma entrega cotidiana. O nome de sua entidade é um segredo, é o íntimo que muitos de religião de matriz africana carregam.

moça dançando incorporada de cigana
Foto reprodução: Gabrielly Orrani


É curioso ver como esse mundo atrai dos evangélicos mais intolerantes e católicos. Mesmo condenando por aí, o misticismo e o segredo atraem o conselho malandro, o samba da casa, a comida gostosa. Toda gira está lá, com olhos curiosos e procurando algo que não encontram em suas religiões maternas, fervorosas e rígidas.
    

Entre as batidas dos atabaques e o silêncio das madrugadas de preparo, Gabrielly Orrani construiu o que chama de família de axé. Dirige hoje uma casa simples, com poucos filhos de santo. Não fala em liderança, mas em convivência. Diz que aprender com os mais velhos é o que mantém a tradição viva, em suma conservada oralmente, e que o respeito é o alicerce de qualquer caminho espiritual. Tem sete anos de candomblé, mas não é ialorixá, prefere não se apressar. Diz que a gente nunca para de aprender, mesmo depois dos sete anos, ainda tem muito pra entender sobre o mundo e sobre a gente.

A rotina da casa é marcada por gestos de cuidado. Uma vez por ano, Gabrielly e seus filhos se juntam para preparar doações. Fazem comida, recolhem cobertores, visitam moradores de rua. Não há publicidade nem câmeras, só o desejo de retribuir o que se recebe. Esse gesto, para eles, é extensão do que aprendem no terreiro: olhar o outro como parte de si. A fé que praticam é feita de afeto, não de milagres. Quando alguém adoece, os filhos da casa correm, acendem vela, reza, passam pipoca – ritual para tirar doenças e males, associado ao orixá Obaluaê, o que adoece mas também cura – chamam o preto velho pra conversar. Tudo isso é cuidado, é a medicina dos velhos, de quem foi trazido a força para Pindorama e de quem já estava aqui, explica. Para quem vive a umbanda, o sagrado está justamente nessa capacidade de enxergar o outro com empatia.

Angela, uma figura carismática e de conversa deliciosa, daquelas que você senta pra ouvir, já trabalhou de tudo nessa vida, principalmente o trabalho braçal, até caminhoneira já foi, é mais velha de religião, acompanha Gabrielly há anos, que é sua filha de sangue e de santo. Foi com ela que aprendeu a importância do silêncio e da escuta. As duas compartilham o mesmo entendimento: a religião é feita de gente, sem comuna não se faz nada. Ela diz que aprendeu mais com as entidades do que com qualquer pessoa. Fala que elas ensinaram o que é ser paciente, carinhosa e atenciosa, mas que a maior lição veio do convívio humano, religião é união, é comprometimento. É quando a gente entende que ajudar o outro é também se curar, é o que vale no fim do dia.

Os dias no terreiro são atravessados por cansaço e alegria, contam que cuidar também consome energia, não só física. Muitos dos filhos de Orrani trabalham fora, e ainda assim chegam ao final da tarde para preparar as festas e as obrigações. O corpo cansado encontra repouso na força coletiva. Há quem chegue direto do serviço, ainda de uniforme, para ajudar nos ebós e nos preparos. Às vezes, nem dá tempo de voltar pra casa. Eles brincam dizendo que vivem em “jornada dupla”: trabalho e terreiro, terreiro e trabalho. Entre o suor e a fé, constroem uma rede de apoio que se fortalece a cada encontro, ali compartilham dificuldades, segredos de cozinha – onde os elementos utilizados nas festas e giras são feitos – brincadeiras e muita risada.

Abdicar de certos prazeres é parte do caminho. Muitas vezes, um toque coincide com o aniversário de um parente, uma festa ou um descanso merecido. E mesmo assim, estão lá, de branco, prontos para servir. Não se veem como mártires, mas como quem encontrou sentido em ajudar. É escolha e entrega, ressalta Angela. Estar no axé gente é abrir mão de estar em outros lugares pra estar aqui, fazendo pelo outro. E isso não é castigo pra quem aconselha – as entidades pedem um abraço aos consulentes, que são os visitantes da casa mas não possuem obrigações, oferecem um cigarro, um trago no cachimbo ou um golinho do marafo, que a gente conhece como cachaça – é amor.

Entre a fumaça do incenso, a alfazema que banha o corpo dos convidados e dos filhos, do benjoim, da defumação que embaça o ambiente, barulho das panelas, a casa de axé se transforma num espaço de homenagem e conforto, tire seu sapato, suje seus pés e dance. Crianças brincam do lado de fora enquanto os adultos conversam. Não há luxo, casinhas de madeira com chão de terra batida, mas há pertencimento. Cada canto guarda uma história, cada vela acesa carrega o nome de alguém vivo, ou pra quem acredita, morto. A fé ali se vive sem receio, no toque dos ogans – responsáveis pelos batuques e pontos que balançam os corpos e chamam as pombagiras, malandros, caboclos e boiadeiros – eles diferente dos outros filhos da casa, não incorporam, mas são tão respeitados como os outros.

No fim do dia, quando o som dos atabaques cessa e o terreiro se esvazia, Gabrielly apaga as velas e sorri. Diz que o silêncio também é reza. E que, se há uma palavra capaz de resumir o que é viver dentro da umbanda, essa palavra é amor – o tipo de amor que se aprende com o tempo, nas pequenas tarefas, no convívio, no olhar. Um amor que não pede nada em troca, apenas segue, como o som que ecoa depois da última batida do tambor. A palavra mais dita pelas pessoas de axé, seja no candomblé, umbanda, tambor de mina, jurema sagrada é essa: comuna.
 

pessoas dançando com roupas sagradas da umbanda
Foto reprodução: Gabrielly Orrani

 

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