Paróquias da cidade têm programação junina, reunindo fiéis e moradores em festas com comidas típicas, brincadeiras e atrações para toda a família
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Raissa Santos
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23/06/2026 - 12h

O mês de junho sempre traz consigo o cheirinho agradável do vinho quente, decorações com bandeirinhas coloridas e festividades que movimentam comunidades religiosas por todo país. Em São Caetano do Sul, sete das 11 paróquias que compõem a Forania da cidade preparam quermesses que reúnem fiéis em celebrações marcadas por comidas típicas, música e atividades para toda a família. 

As festividades, que começaram em maio com a quermesse da Paróquia São Bento — já encerrada — se estendem até o fim de julho, tomando conta dos pátios das igrejas espalhadas pela cidade. No Centro, a festa da Matriz Sagrada Família segue até o dia 28 de junho, sempre das 16h às 22h. O cardápio oferece aos visitantes opções clássicas como cachorro-quente, espetinhos, milho-verde, além de bebidas típicas como quentão, vinho quente e o tradicional chá do padre. 

No bairro Jardim São Caetano, a Paróquia Santo Antônio também segue com a quermesse até o dia 28, quando realizará o seu tradicional bingão. Voluntária desde 2023, Milena Drudi, de 22 anos, destaca que participar da organização da festa é uma experiência desafiadora e divertida ao mesmo tempo. Neste ano, após deixar a coordenação da barraca das brincadeiras, ela passou a colaborar em diferentes setores da quermesse. Segundo ela, a mudança permitiu conhecer novas funções e ter mais contato com o público. “Foi muito divertido trabalhar como voluntária e também exercitar minhas habilidades sociais. A experiência no caixa foi uma das mais desafiadoras e, ao mesmo tempo, uma das mais divertidas”, conta. 

Já a Paróquia Nossa Senhora da Candelária, no bairro Cerâmica, mantém sua quermesse até o dia 5 de julho, oferecendo ao público as tradicionais barracas de comidas típicas e um ambiente de confraternização para a comunidade. O mesmo acontece na Paróquia São João Batista, que também segue com sua programação até 5 de julho, mantendo seu tradicional bingo e reunindo fiéis e moradores para celebrar o período junino. 

Domitila Barbosa, de 15 anos, conta que frequenta a São João Batista com a família desde 2008, e participa da barraca do bingo junto de seu pai desde que ele assumiu a coordenação em 2018. “No nosso bingo, quase todo final de semana, temos uma rodada que sorteia um bicho de pelúcia gigante e as crianças ficam super animadas pedindo para os pais participarem do bingo”, destaca.

Frequentadores em bingo da Paróquia São João Batista. Foto: Reprodução / Instagram Paróquia São João Batista SCS
Frequentadores em bingo da Paróquia São João Batista. Foto: Reprodução / Instagram Paróquia São João Batista SCS 

Na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, as festividades acontecem até o dia 5 de julho, das 18h às 22h. Além das comidas e bebidas típicas que marcam as quermesses, a paróquia preparou atrações especiais para o público. Entre os destaques estão o posto de troca de figurinhas e um telão que transmitirá os jogos do Brasil na Copa. Heitor Souza Móda, de 15 anos, frequenta a paróquia desde os 10 anos de idade e esteve na quermesse durante o jogo do Brasil contra o Marrocos ao lado dos amigos do grupo de jovens. “É um ambiente gostoso que podemos conviver, é legal ver o jogo com a família, mas com todo o pessoal aqui e as comidas, tudo fica melhor” contou ele. 

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Quermesse da Paróquia Nossa Senhora Aparecida. Foto: Jaqueline Borges

Encerrando a programação, a Paróquia Nossa Senhora das Graças realiza sua quermesse até o dia 26 de julho, sempre das 18h às 22h. Além dos tradicionais lanches, doces e bebidas típicas, a festa também incorporou ao cardápio opções de tempurá de legumes e camarão, oferecendo um diferencial gastronômico aos visitantes.

Com opções espalhadas por diferentes bairros e datas que se estendem até o final de julho, às quermesses de São Caetano do Sul surgem como uma oportunidade para reunir a família, estreitar laços e fortalecer a convivência comunitária, mantendo viva uma das tradições mais populares do calendário brasileiro.

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Ele é o responsável por manter o padrão de qualidade e credibilidade de alguns veículos de imprensa de grande circulação no país
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Julia Jorge de Oliveira
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08/06/2026 - 12h

O profissional de edição atua em redações jornalísticas e realiza suas funções em equipe. Sua responsabilidade é verificar, filtrar e hierarquizar as informações que chegam aos veículos de imprensa. O objetivo é transformar essas informações em um produto, ou seja, a notícia final, para ser comercializada e entregue ao público de maneira clara e objetiva. O editor de vídeo Gabriel Neri Reis, 26, trabalha na redação da Revista Oeste desde 2022 e afirma que, desde criança, sonhava em ser editor de vídeo em um  veículo de comunicação do país. Aos 11 anos, iniciou sua trajetória na fotografia, mas logo migrou para a área de edição em razão do grande volume de trabalho gerado pela internet, principalmente após o surgimento do YouTube. 

Segundo Reis, as habilidades mais importantes para trabalhar na área são ter boas referências sobre os assuntos abordados, muita paciência e um olhar preciso e sensível para as imagens utilizadas em uma edição de vídeo. Ele complementa que existem diferentes tipos de edição no mercado jornalístico, como a edição de documentários, filmes e telejornais. Esta última é mais objetiva e busca apresentar informações, relatos e imagens reais. 

Reis declara que a profissão é voltada para pessoas que não estão em busca de reconhecimento imediato, afinal, o nome dos editores aparece discretamente ao final dos trabalhos. O editor não é apenas o responsável por criar projetos audiovisuais, mas também por aprimorar o conteúdo gravado e adaptá-lo aos formatos das redes sociais. Três grandes projetos marcaram sua trajetória profissional. O primeiro foi uma série documental de investigação sobre a morte de Marielle Franco, no GloboPlay; o segundo, um documentário sobre o cinema; e o terceiro, um documentário sobre as chuvas que atingiram e devastaram diversas famílias no Rio Grande do Sul. 

O especialista em edição afirma que a Inteligência Artificial não tende a eliminar a função do editor de vídeo, mas a transformá-la. Tarefas consideradas repetitivas e operacionais podem ser automatizadas, à medida que cresce a demanda por profissionais capazes de interpretar dados e tomar decisões editoriais complexas. Ao mesmo tempo, surgem preocupações relacionadas à redução de postos de trabalho em atividades mais rotineiras e à necessidade de requalificação profissional, pois nossa principal responsabilidade é transformar imagens brutas, entrevistas e materiais gravados em uma narrativa clara, objetiva e informativa, respeitando os critérios editoriais e éticos de cada veículo de comunicação. 

A tendência no jornalismo brasileiro é a valorização do trabalho do editor como verificador e gestor da qualidade editorial. Em vez de substituir esse profissional, a Inteligência Artificial tende a ampliar sua capacidade de trabalho, exigindo novas competências ligadas à tecnologia e à análise de dados. É importante destacar que a credibilidade, o julgamento humano e a sensibilidade jornalística continuam sendo elementos essenciais para a atividade editorial no jornalismo brasileiro.

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Em outubro, o cantor apresenta o espetáculo “Alquimia Popular Brasileira” no Nubank Parque
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Thais Oliveira
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03/06/2026 - 12h

O cantor e compositor Jorge Ben Jor, 87, retorna aos palcos paulistas no dia 17 de outubro com o espetáculo “Alquimia Popular Brasileira”. A apresentação acontece no Nubank Parque, o antigo Allianz Parque, em São Paulo, e propõe uma celebração da trajetória do artista por meio de um repertório que atravessa diferentes fases da sua carreira.

Com produção da 30e, o show vai reunir clássicos que marcaram gerações, como “País Tropical”, “Mas Que Nada” e “Taj Mahal”. O título do espetáculo faz referência à mistura de ritmos e influências que caracterizam a obra de Jorge Ben Jor, desde os anos 1960. Ao longo da carreira, o artista consolidou uma linguagem musical única ao unir samba, soul, funk, rock e elementos da música afro-brasileira.

Pôster de divulgação do novo show 'Alquimia Popular Brasileira', de Jorge Ben Jor. (Foto: Divulgação/Eventim)
Pôster de divulgação do novo show 'Alquimia Popular Brasileira', de Jorge Ben Jor Foto: Divulgação/Eventim ​​​​​

 

Com mais de seis décadas de carreira, Jorge Ben construiu uma trajetória marcada por sucessos que permanecem entre os mais conhecidos na música popular brasileira. Desde os anos 1960, o artista acumula canções que seguem presentes no imaginário popular e continuam sendo regravadas por outros artistas, mantendo o repertório em circulação até os dias atuais.

A dimensão de sua trajetória também se reflete nos palcos. Em 1993, Jorge Ben Jor e Tim Maia reuniram cerca de três milhões de pessoas em um show de Réveillon na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, um dos maiores públicos já registrados para uma apresentação musical no Brasil. O show entrou para a história  e permanece como um dos momentos mais emblemáticos da trajetória do cantor. 

Em comunicado à imprensa, Jorge Ben Jor destacou a importância da troca com o público durante as apresentações ao vivo. Segundo o artista, o show em São Paulo será uma oportunidade de celebrar sua trajetória musical por meio de canções que marcaram diferentes momentos de sua carreira.

A apresentação no Nubank Parque será a única passagem do espetáculo “Alquimia Popular Brasileira” por São Paulo e integra uma série de shows especiais previstos para 2026.

Ingressos

O show na capital paulista será realizado no Nubank Parque, na Zona Oeste, no dia 17 de outubro. A abertura dos portões está programada para as 15h. A classificação etária é de 16 anos. Menores de idade têm acesso permitido apenas acompanhados pelos pais ou responsáveis legais.

Os ingressos para o público geral estão à venda pela plataforma Eventim. Os valores variam de R$ 147,50 a R$ 1.295,00, de acordo com o setor da arena.

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Baseada no texto da dramaturga britânica Amanda Wilkin, a peça acompanha uma mulher que decide reconstruir a própria vida após sucessivas rupturas
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Daniela Monteiro Marinho
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02/06/2026 - 12h

Após uma temporada de sucesso no Rio de Janeiro, “Mudando de Pele" estreia em São Paulo no dia 4 de junho e segue em cartaz até 5 de julho no Sesc 14 Bis. A montagem marca o retorno de Taís Araújo aos palcos e apresenta ao público uma história sobre transformação, pertencimento e a coragem de recomeçar.

Inspirada no texto “Shedding a Skin”, da dramaturga britânica Amanda Wilkin, a peça acompanha Mayah, uma mulher prestes a completar 40 anos que decide romper com um relacionamento desgastado, abandonar um emprego marcado pelo racismo estrutural e reconstruir a própria vida. O que poderia se tornar apenas mais uma narrativa sobre dor e resistência ganha contornos mais complexos: a obra escolhe falar sobre liberdade, cura, ancestralidade e pertencimento.  

No palco, Taís conduz essa transformação com naturalidade impressionante. Sua interpretação evita exageros e aposta em pequenos gestos, silêncios e mudanças de energia que revelam as múltiplas camadas da personagem. O resultado é uma atuação que aproxima o público de Mayah e faz com que suas inquietações pareçam universais.

  

A atriz Taís Araújo durante apresentação de Mudando de Pele, em São Paulo
A atriz Taís Araújo durante apresentação de Mudando de Pele, em São Paulo. / Foto: Nana Moraes 

 

Embora seja apresentado como um solo, “Mudando de Pele” nunca parece solitário. A presença das musicistas Dani Nega e Layla adiciona textura à narrativa. A música executada ao vivo funciona como uma extensão das emoções da protagonista, criando momentos de delicadeza e força que ampliam a experiência sensorial do espetáculo.  

Outro destaque é a direção de Yara de Novaes, que constrói uma encenação elegante e fluida. Sem recorrer a grandes efeitos, a montagem aposta na força do texto, na expressividade do corpo e na simbologia do figurino para representar as sucessivas “peles” que Mayah abandona ao longo da história.  

A delicadeza é um dos principais acertos do espetáculo. Ao acompanhar uma protagonista em meio a sucessivas transformações, a peça aborda questões sociais e políticas de forma orgânica, sem didatismos, e encontra força justamente nos silêncios, nas ambiguidades e nas emoções que atravessam a narrativa.

 

Serviço

Sesc 14 Bis – Teatro Raul Cortez
Temporada: de 4 de junho a 5 de julho de 2026
Horários: quinta a sábado, às 20h; domingos, às 18h
Sessões especiais da Copa: 13/6, 19/6 e 5/7, às 15h
Ingressos: R$ 80 (inteira), R$ 40 (meia) e R$ 24 (credencial plena Sesc)
Classificação: 14 anos
Duração: 80 minutos  

 

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Tradicional cinema de rua sofre despejo e movimento de resistência se inicia nas redes sociais
por
Beatriz Foz
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25/05/2026 - 12h

 

Na quinta-feira, 14 de maio, foi cumprida uma medida de reintegração de posse do anexo Espaço Petrobras de Cinema, estabelecida pela Justiça de São Paulo. Caminhões chegaram no local pela manhã e desativaram as salas 4 e 5 do espaço, e o Café Fellini, anexado ao local, congelou suas atividades. Poltronas e equipamentos foram retirados, além de esvaziado o espaço do café.

O Espaço Petrobras de Cinema é um dos cinemas de rua mais antigos da cidade de São Paulo. O anexo funciona em um casarão da década de 1930 e antes de se tornar um espaço de cinema o imóvel abrigava o Instituto Goethe, que foi um local importante na formação de cineastas brasileiros. Eleito um dos melhores cinemas da cidade, conta com cinco salas de exibição que priorizam produções nacionais, cinema de arte e filmes independentes. O cinema era mantido através de um acordo de patrocínio com a Petrobras, via Lei de Incentivo à Cultura, com o objetivo de fortalecer a exibição do cinema brasileiro e internacional na cidade de São Paulo. 

Anexo ao Espaço Petrobras, o Café Fellini era um dos cafés mais tradicionais da cidade e funcionou por mais de 30 anos junto ao cinema. O café ganhou o prêmio de “Melhor Café e Bomboniere dos Cinemas de São Paulo” pelo Guia Folha por oito anos consecutivos. Na última semana o café fechou as portas. 

A luta pela permanência do local começou em 2022, quando o imóvel foi vendido a uma construtora que tinha a intenção de construir um prédio residencial no local. No mesmo ano, a comunidade de cinéfilos que frequentava o anexo organizou um abaixo assinado defendendo a preservação do cinema. Cerca de 50 mil assinaturas foram conquistadas na primeira campanha e o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo) intitulou o terreno como “Zona Especial de Preservação Cultural”, classificando o anexo como um patrimônio afetivo e cultural da cidade. Tal categorização não impede a demolição, mas obriga a incorporadora a manter o uso cultural do espaço mesmo com a reforma. Na prática, a empresa poderá demolir o espaço, desde que ceda duas salas de cinema e um espaço para o Café Fellini após as obras. 

No entanto, tais mobilizações não foram suficientes para proteger o espaço da batalha judicial. Na última semana, a ordem de reintegração de posse pedida pela Rec Vila 15 Empreendimentos Imobiliários foi cumprida. A incorporadora adquiriu o imóvel da Arteplex, responsável pela operação do cinema.

Um novo abaixo assinado foi criado pelo Café Fellini, reiterando o apelo pela permanência do estabelecimento e do anexo do Espaço Petrobras, já tendo conquistado mais de 90 mil assinaturas. Em um comunicado oficial postado nas redes sociais do café (@cinecafefellini), o estabelecimento agradece o engajamento dos clientes na luta pela permanência e declara que “precisamos defender espaços de convivência abertos para a cidade e para as pessoas”. 

O Espaço Petrobras de Cinema também publicou nas redes uma nota oficial à imprensa, destacando que todas as medidas legais cabíveis para buscar a reversão da situação estão sendo adotadas:  

  • “Seguimos comprometidos com a defesa de uma cidade mais equilibrada, culturalmente rica e voltada às pessoas, às suas formas de convivência e às experiências coletivas que também encontram expressão no cinema de rua.”

Letícia Souza, estudante e ávida frequentadora do Espaço Petrobras de Cinema, lamenta o despejo e o interpreta como uma perda da memória coletiva da cidade de São Paulo: “eu fico muito triste porque cada vez mais a gente vai vendo os cinemas de rua falindo e eu acho que eles fazem parte da memória dos cidadãos de São Paulo”. Letícia destaca que os cinemas de rua encontram dificuldades em se manter ativos com a popularização dos cinemas comerciais. “É difícil competir com algumas redes de cinema que ficam em shoppings como Cinemark, Kinoplex, Cinépolis… quando as pessoas pensam em ir ao cinema elas não pensam mais em ir aos cinemas de rua, mas pensam nesses de shoppings”, acrescenta a estudante. 

A hashtag “#anexofica” foi criada nas redes sociais como forma de protesto contra as medidas jurídicas estabelecidas. Diversos posts destacam a importância cultural do espaço e tratam o despejo como uma forma de descaso com a história da cidade. Outros tradicionais cinemas de rua como o CineSala, localizado em Pinheiros, expressaram seu apoio à luta do anexo através da hashtag. 

 

Publicação da página oficial do CineSala em apoio à permanência do anexo. Reprodução/ (@cinesala).
Publicação da página oficial do CineSala em apoio à permanência do anexo. Reprodução/ (@cinesala). 

As salas 1, 2 e 3 do Espaço Petrobras continuam com a programação usual, porém a direção do espaço ainda tenta a reativação das salas 4 e 5. O café permanece fora de atividade. 

 

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Tecnologia que facilita a rotina pode também substituir empregos, mas para alguns, a presença humana continua insubstituível
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Júlia Polito
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18/11/2025 - 12h

Por Júlia Polito

 

Em Pinheiros, na cidade de São Paulo, João Vittor vive em um apartamento que é automatizado. Sensores ajustam a iluminação conforme a hora do dia, cortinas se abrem com comandos, assistentes de voz controlam aparelhos e robôs percorrem o chão cuidando da limpeza. Cada detalhe parece antecipar suas necessidades, do café da manhã à preparação da sala para o trabalho remoto. Mas, apesar de toda essa tecnologia, o jovem nunca imaginou abrir mão de uma vida sem Lurdes, a senhora que cuida da casa, o viu nascer e acompanha a família há mais de vinte anos. Para ele, a presença dela representa mais do que cuidado, é um vínculo afetivo que nenhuma máquina consegue reproduzir. Ele lembra de chegar da escola e encontrar a senhora organizando as suas coisas, garantindo que cada detalhe estivesse pronto, cada espaço cuidado, cada tarefa cumprida com uma atenção silenciosa.

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            (Foto/Reprodução: Arquivo pessoal)

O laço entre os dois foi se fortalecendo com o passar dos anos, ultrapassando a relação de trabalho. Quando João concluiu o ensino médio, ela fez questão de estar presente em sua formatura. A senhora o viu crescer, acompanhou cada fase de sua vida e, naquele dia, emocionou-se ao vê-lo subir ao palco para receber o diploma. Para João, a presença dela ali simbolizava não apenas o carinho, mas a cumplicidade construída ao longo de décadas, uma espécie de segunda família que se formou em gestos, histórias e afeto compartilhados. Hoje, mesmo com a casa automatizada, esse cuidado permanece, e João sente que a presença de Lurdes transforma a casa em um lar, mantendo vivos os hábitos, lembranças e histórias que carregam décadas de convivência. Desde que se formou em Tecnologia da Informação, o jovem decidiu aplicar seu conhecimento em automação residencial. Ele descreve a satisfação de chegar em casa e perceber que a iluminação, a temperatura, as cortinas e até os aparelhos de som já se ajustaram automaticamente. O robô aspirador percorreu todos os cômodos enquanto ele estava fora, e o assistente virtual enviou lembretes de tarefas e compromissos no celular. Para ele, a tecnologia é prática, eficiente e intuitiva, mas reconhece que tudo isso ainda carece de percepção humana. A automação executa tarefas mecânicas, mas não observa detalhes que mudam a experiência da casa, como um objeto fora do lugar, uma planta que precisa de cuidado ou pequenas alterações na rotina. Lurdes, enxerga o que o sistema não percebe, e age com sensibilidade, antecipando necessidades e solucionando problemas antes que se tornem evidentes.
 

A rotina diária da casa combina tecnologia e cuidado humano de forma complementar. Pela manhã, ela prepara o café, organiza a cozinha e arruma a mesa, enquanto a casa ajusta a temperatura e a iluminação de acordo com o horário. Durante o dia, João trabalha em seu computador, enquanto as automações da casa funcionam. Ainda assim, são os gestos que definem o ritmo do lar. Ela percebe quando um detalhe da casa precisa de atenção, quando alguma encomenda chegou e deve ser conferida, ou quando algo fora da rotina precisa ser ajustado. Sem ela, a casa seria eficiente, mas fria e impessoal, sem a dimensão humana que transforma uma residência em lar.

O avanço da automação doméstica reflete uma tendência mais ampla que tem impactos profundos no mercado de trabalho brasileiro. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, o emprego doméstico formal no país caiu 18,1% entre 2015 e 2024, o que representa uma perda de cerca de 300 mil vínculos empregatícios, passando de 1.640.609 para 1.343.787 registros. Esse cenário se desenha num contexto mais amplo de insegurança para muitas trabalhadoras domésticas, especialmente as mais vulneráveis: a maioria são mulheres (89% dos vínculos formais em 2024), muitas delas já em faixa etária mais alta, 45% têm 50 anos ou mais. A automação tende a reforçar uma das dinâmicas que já pressionam esse segmento: menos trabalhos formais, maior risco de descarte e menor valorização social, abrindo um dilema sobre como combinar progresso tecnológico com justiça social no lar da população.

A tecnologia pode automatizar tarefas, mas não tem memória emocional nem vínculo com a história da família. Lurdes, por outro lado, mantém viva a memória do lar, garantindo que cada canto continue carregando afeto, cuidado e atenção. João também percebe que a automação trouxe mudanças na rotina dela, liberando-a para tarefas mais complexas e estratégicas. Com os sistemas inteligentes cuidando das coisas mecânicas, ela pode focar em organizar detalhes da casa, preparar refeições com mais atenção e cuidar de aspectos que exigem percepção e sensibilidade. A experiência do jovem demonstra que casas inteligentes não precisam eliminar o humano, mas podem coexistir com ele. A tecnologia libera tempo, simplifica tarefas e proporciona conforto, mas ainda depende da inteligência emocional e da experiência de pessoas como Lurdes para que o lar funcione de forma completa. Ele relata que cada gesto da senhora representa atenção e cuidado que a tecnologia não consegue alcançar, desde pequenos ajustes na organização até perceber sinais não verbais da família. Essa convivência entre humano e máquina reflete a ideia de que o futuro da automação deve valorizar o papel de quem traz sensibilidade, memória e afeto para o espaço doméstico. 

 

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Invenção desenvolvida por cientistas da Universidade Estadual da Paraíba identifica, em segundos, a presença da substância tóxica usada em bebidas adulteradas
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Inaiá Fernandes Misnerovicz
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27/10/2025 - 12h

Por Inaiá Misnerovicz

 

Pesquisadores da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) desenvolveram um canudo descartável que muda de cor ao detectar metanol em bebidas. O dispositivo  biodegradável é capaz de identificar, em poucos segundos, a presença do álcool tóxico responsável por graves casos de intoxicação no País. A proposta é permitir que qualquer pessoa reconheça o risco antes de consumir uma bebida adulterada, sem precisar de equipamentos ou conhecimentos técnicos.

O projeto é coordenado por David Douglas, professor e pesquisador do Departamento de Química da UEPB. A ideia surgiu a partir da preocupação com o aumento dos casos de envenenamento por bebidas falsificadas, muitas vezes vendidas em festas, bares e eventos. O grupo buscava uma solução acessível, de baixo custo e uso imediato. Assim nasceu o canudo que muda de cor ao entrar em contato com o metanol.

O metanol é um tipo de produto que oferece um risco silencioso. À primeira vista, parece inofensivo: é incolor, tem cheiro fraco e se mistura facilmente ao etanol, o álcool comum das bebidas. Mas é altamente tóxico. Mesmo em pequenas quantidades, pode causar cegueira, coma e morte. Usado na indústria como solvente e combustível, o metanol jamais deveria estar presente em bebidas alcoólicas. Quando ingerido, o corpo o transforma em substâncias que atacam o sistema nervoso e os olhos, provocando danos irreversíveis.

Douglas explica que o canudo foi projetado para ser usado de maneira simples e intuitiva. . Em seu interior, há uma fita com reagentes químicos sensíveis ao metanol que, ao entrar em contato com a bebida, provoca uma reação capaz de alterar a cor do canudo, geralmente do amarelo para o vermelho. O processo é rápido, dura apenas alguns segundos e dispensa o uso de qualquer aparelho complementar. A ideia central é permitir que qualquer pessoa possa testar a bebida antes de consumi-la, sem precisar ter conhecimento técnico.

Segundo o pesquisador, o objetivo principal é oferecer um produto barato e eficaz. A equipe estima que cada unidade custe menos de dois reais, o que permitiria sua distribuição em larga escala. O canudo foi pensado para ser usado em bares, festas e eventos, mas também por órgãos de fiscalização e vigilância sanitária. Os testes vêm sendo realizados com diferentes tipos de bebidas, como cachaças, vodcas e licores artesanais, para garantir que a reação funcione em todas as composições.

O projeto começou em 2023, nos laboratórios da UEPB, em Campina Grande, e desde então tem recebido apoio de estudantes de graduação e pós-graduação. O grupo trabalha agora na padronização dos resultados, no registro de patente e na busca por parceiros que viabilizem a produção em escala comercial. Paralelamente, a universidade pretende promover campanhas de conscientização sobre os riscos do metanol, incentivando o consumo responsável e a compra de produtos de origem confiável.

O consumo de bebidas adulteradas é um problema de saúde pública no Brasil. O metanol, por ser mais barato que o etanol, é usado ilegalmente na fabricação clandestina. Essa prática ainda causa tragédias em várias regiões do país. Em 2025, surtos de intoxicação foram registrados em estados do Nordeste e do Sul, com dezenas de vítimas. A ausência de métodos simples de detecção e a dificuldade de fiscalização contribuem para o aumento dos casos.

Para David, o canudo funciona como uma ferramenta de prevenção e alerta. Ele não substitui a análise laboratorial, mas serve como um primeiro passo para evitar o consumo da bebida contaminada e estimular denúncias às autoridades. O pesquisador destaca que o ideal seria que ninguém precisasse recorrer a esse tipo de recurso, mas que, diante da realidade do mercado informal, oferecer um meio de defesa à população se torna essencial.

Os sintomas de envenenamento por metanol podem aparecer entre meia hora e doze horas após a ingestão. Entre os mais comuns estão visão turva, dor de cabeça, tontura, náuseas, dificuldade para respirar e, em casos graves, convulsões e coma. O tratamento precisa ser feito rapidamente em ambiente hospitalar. 

O desenvolvimento da pesquisa também mostra a força da ciência feita em universidades públicas regionais. Para o pesquisador, o projeto demonstra que é possível criar soluções inovadoras e de impacto social fora dos grandes centros de pesquisa. Ele destaca que o trabalho coletivo, envolvendo alunos e técnicos, é o que torna o resultado possível. O grupo já estuda novas aplicações para a tecnologia, como o desenvolvimento de palitos, adesivos e fitas reagentes capazes de identificar outros tipos de adulterantes, como solventes e corantes ilegais.

Douglas lembra que, em outros países, iniciativas parecidas ainda são raras e muitas vezes caras. O diferencial da equipe paraibana está no foco na simplicidade. O canudo é barato, descartável e usa materiais que não agridem o meio ambiente. É uma tecnologia pensada para o cotidiano, para chegar a quem mais precisa. A pesquisa tem despertado o interesse de instituições de ensino e de agências de fomento científico. O grupo da UEPB já foi convidado a apresentar os resultados preliminares em eventos acadêmicos e feiras de inovação. A expectativa é que, até o final de 2026, o produto esteja disponível comercialmente, após os testes de segurança e a aprovação dos órgãos reguladores.

Além da inovação química, o canudo também levanta um debate sobre educação científica e cidadania. O pesquisador acredita que a disseminação da informação é essencial para reduzir o número de casos de intoxicação e para valorizar o papel da ciência pública no enfrentamento de problemas sociais. A equipe planeja, junto à Pró-Reitoria de Extensão da UEPB, criar oficinas educativas em escolas e comunidades, unindo ciência, saúde e responsabilidade social.

Casos de intoxicação por metanol têm sido recorrentes no mundo todo. Em 2022, um surto na Índia matou mais de 40 pessoas após o consumo de uma bebida clandestina. No México, dezenas foram hospitalizadas em festas locais. No Brasil, os registros se multiplicam, especialmente em períodos de festas populares. Apesar disso, são raros os métodos de detecção acessíveis ao público. O canudo criado na Paraíba surge como uma inovação com potencial global, justamente por unir simplicidade, baixo custo e impacto social.

Enquanto o produto não chega ao mercado, os pesquisadores reforçam a importância de comprar bebidas apenas de fontes confiáveis, com rótulo e registro. Preços muito baixos e embalagens improvisadas são sinais de alerta. O pesquisador também destaca que as autoridades precisam intensificar a fiscalização, especialmente em períodos de festas populares e feriados prolongados.

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Trabalho remoto intensifica problemas posturais e as dores musculares causadas pelo uso prolongado de telas sem o cuidado necessário.
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Júlia Polito
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17/11/2025 - 12h

Por Júlia Polito

 

Andreia Basílio tem 38 anos e trocou o escritório pela mesa da sala, onde passa a maior parte do dia diante do notebook. O conforto do trabalho remoto logo revelou um custo: o corpo começou a dar sinais de alerta. Nos últimos tempos, Andreia tem sentido dores constantes no pescoço e percebeu que sua postura piorou significativamente desde que começou a trabalhar de casa. Ainda assim, não buscou atendimento médico, tentando lidar sozinha com o incômodo que se tornou parte da rotina. O que começou como uma solução prática para flexibilizar o trabalho tornou-se um desafio para o corpo humano.

O aumento do home office e a presença constante das telas na rotina de profissionais de diferentes áreas transformaram o modo de trabalhar e, junto com isso, surgiram novos problemas de saúde. Entre as queixas mais comuns estão as dores musculares, o cansaço visual e as lesões por esforço repetitivo, todas agravadas pela falta de uma estrutura ergonômica adequada. Por conta disso, Andreia tentou pequenas adaptações ao longo do dia, ajustando a cadeira ou apoiando o computador em livros, mas admite que o improviso não substitui um ambiente pensado para o bem-estar físico. Mesmo com pausas para tomar um café ou ir até a portaria, as tensões nos ombros e a rigidez no pescoço continuam a aparecer com frequência, especialmente nos dias em que passa mais tempo diante das telas.

Foi o que também observou a fisioterapeuta Soraya, especialista em ortopedia, com 25 anos de formação e mais de duas décadas de atuação clínica. No consultório, ela percebeu que o número de pacientes com dores posturais aumentou consideravelmente desde que o trabalho remoto se tornou rotina após a covid 19. Ela comenta que as alterações posturais, tendinites, lombalgias e cervicalgias cresceram junto com o home office, e não foi por acaso. Segundo ela, a ergonomia doméstica ainda é precária: muitas pessoas trabalham na cadeira da sala, no sofá ou até mesmo na cama, posições que sobrecarregam o sistema musculoesquelético e, ao longo do tempo, geram dor e inflamação.

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                        (Foto/Reprodução: Arquivo pessoal)

 

No Brasil, a Norma Regulamentadora nº 17 (NR-17) estabelece parâmetros para adaptar as condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores. Criada pelo Ministério do Trabalho, ela determina que as empresas devem oferecer mobiliário, equipamentos e condições ambientais adequadas, além de instruções ergonômicas que garantam conforto, segurança e desempenho eficiente. Mas, na prática, grande parte das empresas ainda descumpre essas diretrizes — especialmente quando se trata do home office.

Soraya conta que já atendeu diversos pacientes cujo quadro de dor se agravou por causa da má postura. Muitos deles já apresentavam algum problema ortopédico anterior, como um desvio de coluna, bursite ou início de hérnia de disco, e acabaram piorando com o trabalho remoto. Ela lembra de um caso mais grave: um homem que passava o dia em reuniões, mal acomodado em uma cadeira comum. O quadro evoluiu para uma lesão lombar séria, quase cirúrgica. Com muita fisioterapia, RPG e pilates, o paciente conseguiu reverter o problema — mas apenas depois de adaptar sua casa com aparelhos corretos.

A posição errada durante longas horas pode comprometer músculos, articulações e até estruturas da coluna. Além disso, o uso de notebooks sem teclado e monitor separados exige que o usuário mantenha o olhar voltado para baixo por muito tempo, forçando pescoço e ombros e gerando sobrecarga. Assim, trabalhar em casa sem o suporte físico de um ambiente projetado para o corpo faz com que muitos repitam diariamente posturas prejudiciais. Com o tempo, o que começa como uma dor passageira pode evoluir para problemas crônicos, como hérnias de disco e tendinites.

Para Soraya, quem já está estabelecido no modelo remoto precisa transformar um canto da casa em um espaço realmente pensado para o trabalho. Ela reforça que é essencial ajustar a altura da mesa, da tela e do apoio de braços e pés, além de investir em uma cadeira adequada. Segundo a fisioterapeuta, ficar muito tempo na mesma posição pode causar compressões nervosas, como no ciático e levar a fraquezas musculares, desvios posturais e hérnias de disco. Também alerta para o aumento de tendinites, bursites e outras patologias que atingem o sistema musculoesquelético.

Apesar do desconforto, Andreia costuma encarar as dores como algo temporário. Enquanto busca maneiras de equilibrar produtividade e bem-estar, tenta reorganizar o espaço em casa para torná-lo mais confortável. O trabalho remoto, que trouxe praticidade, também a fez repensar a importância de cuidar da própria saúde. Essa consciência, reforçada pelas orientações de profissionais como Soraya, tem sido o que a motiva a incluir atividades físicas na rotina e a se mover mais entre uma tarefa e outra.

E ela não está sozinha. Em cada casa transformada em escritório há um corpo aprendendo a negociar seus limites com as demandas do trabalho. O silêncio das paredes é cortado pelo som contínuo do teclado, e a dor, aos poucos, se torna um idioma comum entre os que vivem diante das telas. Um desses corpos é o de Roberto Antonio, 58 anos, corretor de seguros. Desde que começou a trabalhar em casa, há cinco anos, ele sente que o corpo passou a dar sinais contra a rotina. As dores começaram discretas, um incômodo nas costas depois de longas horas sentado. Depois, o pescoço começou a endurecer, o braço a doer e o pulso a inchar.

Quando o diagnóstico de tendinite veio, não houve surpresa, apenas a constatação de algo que ele já pressentia: o corpo havia chegado ao limite. Ele descreve o dia como uma sucessão de pequenos desconfortos que se acumulam até se tornarem insuportáveis. A cadeira da sala, usada na mesa de jantar, já perdeu o estofado. A mesa é baixa demais, obrigando-o a curvar os ombros. A luz do teto projeta uma sombra incômoda sobre o teclado, e ele precisa se inclinar ainda mais para enxergar a tela. Cada gesto — digitar, clicar, mover o mouse — é repetido muitas vezes por dia, como um ritual de desgaste. O corpo, antes invisível, torna-se o centro da experiência de trabalhar.

Antes da pandemia, o corretor trabalhava presencialmente, em uma sala alugada, com mobiliário adequado e estrutura ergonômica correta. Com a chegada do vírus e o isolamento, devolveu as chaves e transformou o lar em escritório. O corpo humano, feito para o movimento, foi aprisionado em cadeiras estáticas e mesas improvisadas. A promessa de liberdade que o home office trouxe se tornou, para muitos, uma nova forma de confinamento. O trabalho saiu do escritório, mas as exigências ficaram e, sem fronteiras claras entre o que é casa e o que é expediente, o corpo passou a não saber mais quando descansar.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a ergonomia como fator essencial para a saúde ocupacional. De acordo com um relatório recente, as lesões por esforço repetitivo (LER/DORT) já estão entre as dez principais causas de afastamento do trabalho no mundo, afetando especialmente profissionais de escritório e tecnologia. A OMS alerta que o número de casos de dor crônica em trabalhadores remotos cresceu 30% nos últimos cinco anos, e que a tendência é de alta se não houver mudanças estruturais. Enquanto isso, as empresas ainda vagam entre o discurso e a prática. A Norma Regulamentadora nº 17, que obriga o empregador a garantir condições ergonômicas mesmo fora do ambiente físico, é frequentemente ignorada.

Andreia e Roberto representam dois lados de uma mesma história: a tentativa de adaptar o humano ao digital sem medir as consequências físicas dessa transição. Ambos buscam maneiras de sobreviver à rotina que a tecnologia prometeu simplificar, mas que o corpo insiste em complicar. Como lembra Soraya, o corpo não entende de metas nem de prazos, entende de dor. E ela é, talvez, a forma mais honesta de resistência diante de um mundo que pede produtividade constante.

No fim do dia, quando o computador se apaga e o silêncio volta, fica o eco das dores que o trabalho remoto espalhou pelas casas. Andreia e Roberto são apenas dois exemplos de um mal que grande parte da sociedade sofre. Ela estica o pescoço, ele massageia o pulso. Ambos respiram fundo e continuam a rotina, afinal, a vida não para. O trabalho passou, mas a dor insiste em ficar.

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Por trás de algoritmos racionais, a criatividade e a perda do senso crítico se tornam a mira de big techs
por
Luiza Zequim
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17/11/2025 - 12h

Por Luiza Zequim

 

A sensação de que o celular está lendo mentes tornou-se cada vez mais presente nas novas gerações, mas, para o sociólogo Alexandre Simões, não há mágica nisso. É o trabalho de um mecanismo complexo: o algoritmo. A inundação de anúncios de tênis ou destinos de viagem logo após uma conversa casual é a ponta visível de um problema profundo. Para o especialista, esses códigos invisíveis e onipresentes são hoje os principais agentes do imaginário coletivo. Projetados para conseguir engajamento a todo custo, eles têm um efeito colateral que, na análise de Simões, molda ativamente como a sociedade consome, se comporta e prefere determinados temas. O que começa como uma simples personalização de conteúdo, mostrando mais vídeos de culinária ou notícias de futebol, evolui rapidamente para um complexo sistema de filtragem ideológica.

Para entender a ferramenta por trás disso, Antonio Pereira, estudante de Tecnologia da Informação da UFF (Universidade Federal Fluminense), oferece uma visão prática. Ele explica que o algoritmo não é uma entidade mística, mas sim um conjunto de regras lógicas, como uma receita de bolo extremamente detalhada. 

Na cozinha, a receita diz quando adicionar a farinha, na Internet, o algoritmo diz ao sistema como agir e o que responder à interação do usuário. Nas redes sociais, Pereira detalha que essa "receita" é alimentada em tempo real. Cada clique, cada segundo que o olho se detém em uma foto, cada like e até mesmo as hesitações do usuário são ingredientes. O objetivo dessa metodologia é prever o que o consumidor quer ver no próximo segundo.  Antônio explica que o sistema realiza testes constantes, em milissegundos, para ver qual variação de conteúdo — qual cor de botão, qual manchete, qual vídeo — segura a atenção por mais uma fração de segundo. É um processo de otimização que não visa o bem-estar do usuário ou a veracidade da informação, mas apenas a métrica de "tempo de tela".

Enquanto Pereira foca no "como" técnico, o sociólogo Alexandre foca no "porquê" social. Para Simões, o objetivo dessa "receita" é mais profundo: decidir o que você vê e com que frequência. O sociólogo adverte que este é um ciclo vicioso. A problematização central é que ao nos tornarmos peritos em apenas consumir o que gostamos, o algoritmo para de nos mostrar o que não estamos interessados, ou simplesmente o que é diferente. É a entrada no que o sociólogo define como “Bolha de Filtro”, um processo algorítmico e passivo. Os aplicativos, como TikTok e Instagram, aprendem os padrões do consumidor digital e, com base nessa coleta de dados, começam a "protegê-lo" de conteúdo que possa repeli-lo do programa. Simões alerta que o resultado desse sistema complexo é a eliminação de visões de mundo opostas e discussões aprofundadas.

Como consequência, entramos na Câmara de Eco, um processo que o especialista descreve como ativo e social. É neste ambiente digital que pequenos grupos escolhem se reunir e reforçar mutuamente suas crenças nichadas. O espaço não só valida a informação que a bolha de filtro selecionou, como também reforça e blinda aquele público específico.

A bolha não apenas nos isola do "outro", mas também congela a nossa própria identidade. O crescimento pessoal e a empatia nascem da dissonância cognitiva, do desafio e do pensamento crítico. Ao eliminar esse atrito, a internet cria indivíduos mais rígidos, menos criativos e nada tolerantes. 

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Manchetes políticas que ilustram o resultado de uma sociedade dividida em bolhas sociais intolerantes. Foto: Google/CartaCapital/InfoMoney

 

Além disso, as bolhas são as incubadoras ideais para a desinformação proliferar, seja na saúde ou na política. O mecanismo funciona através da erosão da confiança. Dentro desses grupos, o usuário é alimentado com um fluxo constante de informações que confirmam suas suspeitas pré-existentes. Quando uma fake news surge, ela não choca. A nota é recebida como a "peça que faltava" no quebra-cabeça, confirmando o que as pessoas já acreditavam.

Na raiz de tudo, Simões identifica uma lógica econômica implacável. O produto vendido não é realmente o conteúdo, mas a atenção do usuário. Similar ao processo de valorização de uma garrafa de água, o preço equivale ao material do plástico que envolve a bebida, e não ao líquido por si só. O modelo de negócios da "economia da atenção" exige que as plataformas maximizem o tempo de tela a qualquer custo. Isso significa que os algoritmos são incentivados a explorar fraquezas psicológicas e transformá-las em consumo monetário. 

Diante desse cenário, não há uma solução fácil, mas um caminho duplo. Por um lado, temos a responsabilidade das próprias plataformas, que não devem ser isentadas. Por outro, entender que o feed não é uma janela para o mundo, mas um espelho distorcido e curado para prender a atenção, é a noção essencial para que o indivíduo consiga ter consciência de qual sistema está inserido e como deve, de vez em quando, furar sua película de proteção.

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Mudanças tecnológicas e institucionais não têm melhorado a experiência dos usuários na capital paulista.
por
Enrico Peres
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20/11/2025 - 12h

Por Enrico Peres

 

Todas as manhãs, milhares de paulistanos atravessam a cidade guiados por um mesmo ritual: acordar cedo, caminhar até o ponto, esperar um ônibus que talvez não chegue na hora prometida e torcer para que o Bilhete Único não trave no validador. É um percurso repetido à exaustão, um caminho longo que não aparece em mapa algum, o caminho emocional de quem depende do transporte público para manter a própria vida funcionando. Na prática, a mobilidade de São Paulo se tornou uma prova diária de resistência, onde a tecnologia, tão celebrada nos discursos oficiais, muitas vezes funciona como mais um obstáculo.

Enquanto a cidade repete mantras sobre inovação, sustentabilidade e modernização, o cotidiano segue preso a falhas antigas. São Paulo gosta de se apresentar como referência global, exibir sua frota de ônibus elétricos, seus aplicativos integrados e seus planos de transformação digital. Mas quem depende do transporte sabe que há um abismo entre o anúncio e a realidade. Em março de 2025, uma falha generalizada no Bilhete Único deixou multidões em filas intermináveis para regularizar cartões bloqueados. O mesmo sistema que, na teoria, deveria descomplicar o acesso ao transporte. A cidade parece operar em duas velocidades: a da vitrine tecnológica e a da vida comum, onde o simples ato de embarcar em um ônibus pode virar mais um golpe para quem já vive no limite.

Esse contraste cresce em um momento de instabilidade institucional. A proposta do prefeito Ricardo Nunes de extinguir a SPTrans, órgão responsável por planejar e monitorar o sistema há mais de três décadas, e transferir suas funções para a SP Regula, agência sem tradição no setor, trouxe insegurança para quem acompanha a mobilidade pública da cidade. A crise não é só administrativa: é simbólica. Coloca em risco o conhecimento acumulado por profissionais que construíram o transporte paulistano e abre espaço para decisões desconectadas da complexidade operacional da frota. Para quem depende do ônibus, essa incerteza não aparece em discursos, aparece no atraso, na catraca travada, no trajeto que demora o dobro do tempo.

Tecnologias que deveriam aproximar o usuário do sistema acabam criando novas barreiras. O aplicativo da SPTrans promete orientar trajetos e horários em tempo real, mas falha em localizar ônibus, atrasa informações e tem interface pouco acessível. Para quem não possui smartphone, crédito de internet ou familiaridade digital, ele simplesmente não existe. O Bilhete Único, outro símbolo da modernização, se tornou instável: validações que falham, máquinas de recarga sem funcionamento, cartões bloqueados sem explicação. Quando isso acontece no meio da viagem, o usuário não vê um “erro técnico” vê o custo emocional e financeiro de depender de um sistema que não o reconhece plenamente.

Outras iniciativas reforçam essa sensação de desconexão com a realidade das ruas. A bilhetagem via QR Code exige celular, câmera e internet. Ferramentas inacessíveis para uma parte significativa dos passageiros. A biometria facial, testada como promessa de segurança, levanta dúvidas sobre privacidade e eficácia em uma rede que ainda não consegue garantir previsibilidade básica. E a suspensão da plataforma SMGO, que monitoraria a frota em tempo real, deixou um vácuo operacional: sem dados confiáveis, o planejamento se perde, e o usuário paga a conta na forma de atrasos e ônibus lotados.

Até esforços positivos, como a introdução de ônibus elétricos, acabam ofuscados pela falta de infraestrutura. Eles representam menos de 7% da frota total e enfrentam dificuldades de manutenção e recarga, tornando o discurso ambiental um símbolo mais político do que funcional. Há modernização sim, mas ela vem em parcelas pequenas, incapaz de equilibrar a balança entre promessa e experiência real.

No fim, a mobilidade urbana em São Paulo revela um paradoxo: a tecnologia está presente, mas não está a serviço de quem mais precisa. O sistema deveria reduzir distâncias, mas muitas vezes cria outras. Deveria facilitar a vida, mas frequentemente a atravanca. Deveria acolher todos os perfis de usuários, mas exclui quem não se encaixa no padrão digitalizado que a cidade insiste em impor.

O futuro da mobilidade paulistana não depende apenas de novos aplicativos, ônibus elétricos ou mecanismos de biometria. Depende de reconhecer que dignidade e acesso são tão importantes quanto inovação. E que, antes de anunciar soluções futuristas, São Paulo precisa garantir o básico: fazer o ônibus chegar, fazer o cartão funcionar, fazer o passageiro sentir que o sistema realmente foi feito para ele.