Artista também é terceira mulher a vencer a categoria de Melhor Álbum de Rap no Grammy
por
Beatriz Alencar
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14/03/2025 - 12h

A cantora Doechii foi nomeada a Mulher do Ano de 2025 pela Billboard, com o anúncio feito nesta segunda-feira (10). Com o título, a artista norte-americana tornou-se a segunda rapper a ganhar a honraria no mundo da música, a primeira foi a Cardi B, premiada em 2020.

A revista da Billboard descreveu Doechii como uma das principais artistas da atualidade a “redefinir o que é ser uma precursora na indústria musical”. Ela será homenageada em um evento da Billboard no final deste mês.

Foto: Divulgação álbum “Alligator Nites Never Heal” | Reprodução: Redes sociais | Fotógrafo: John Jay

Foto: Divulgação álbum “Alligator Nites Never Heal” | Reprodução: Redes sociais | Fotógrafo: John Jay

A rapper, de apenas 26 anos, fortaleceu mais a carreira musical em 2024, com o lançamento do álbum “Alligator Bites Never Heal”, uma aposta de mistura entre os gêneros R & B e hip-hop. O mixtape foi indicado para três categorias do Grammy, entre eles o Melhor Álbum de Rap, marcando a primeira vez desse estilo de faixa feito por uma mulher a alcançar essa indicação.

Apesar disso, após a indicação de Melhor Álbum de Rap, Doechii foi convidada para fazer parte da faixa “Baloon” do álbum “Chromakopia”, do rapper Tyler, The Creator. A participação aumentou a visibilidade da artista que começou a fazer apresentações virais em festivais e em programas de rádio e televisão.

As composições de Doechii já viralizavam nas redes sociais desde 2020, com músicas como “What It Is” e "Yucky Blucky Fruitcake", mas as músicas não eram associadas com a imagem da artista. Foi somente após o espaço na mídia tradicional e o convite de Tyler que a rapper foi reconhecida.

Em fevereiro deste ano, Doechii se tornou a terceira mulher a vencer a categoria de Melhor Álbum de Rap no Grammy ao sair vitoriosa na edição de 2025, novamente, seguindo a história de Cardi B.

Foto: sessão de fotos para a revista The Cut - edição de fevereiro | Fotógrafo: Richie Shazam

Foto: sessão de fotos para a revista The Cut - edição de fevereiro | Fotógrafo: Richie Shazam

A apresentação da artista norte-americana na premiação, ocorrida no dia 2 de fevereiro, também foi classificada pela Billboard, como a melhor da noite. A versatilidade, modernidade e o fato de ser uma mulher preta na indústria da música, aparecem tanto nas faixas de Doechii quanto nas roupas e shows, fixando essas características como um dos pontos principais da identidade da artista.

A rapper tem planos de lançar o próximo álbum ainda em 2025, e definiu os últimos meses como um "florescer de um trabalho longo", em declaração a jornalistas na saída do Grammy.

Pesquisa do Datafolha evidencia a complexidade das percepções raciais no país
por
Letícia Alcântara
Sophia Razel
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03/12/2024 - 12h
Garotas negras em pé e sentadas em um corredor
Jovens reunidos em um espaço que reflete a diversidade  Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Na última terça-feira de novembro (25), uma pesquisa conduzida pelo Instituto DataFolha e divulgada na mesma semana revelou dados significativos sobre a percepção racial no Brasil. O levantamento mostrou que 6 em cada 10 pessoas que se autodeclaram pardas não se consideram negras, evidenciando uma desconexão entre a autodeclaração oficial e a forma como essas pessoas percebem sua identidade racial. Por outro lado, entre os brasileiros que se identificam como pretos, 96% se reconhecem como negros, enquanto 4% não compartilham dessa visão.

Em relação a preconceito e racismo, a mesma pesquisa revelou que 59% dos brasileiros consideram que a maioria da população é racista, 30% considera que apenas uma minoria, 5% que toda a população seria, 4% que ninguém seria, enquanto 2% não souberam responder. Entre os gêneros, 74% das mulheres  acreditam que todos ou a maioria dos brasileiros são racistas. Por sua vez, entre os homens, esse percentual cai para 45%.

 

Percepção e Vivências do Racismo no Brasil

Ainda sobre a percepção referente ao racismo no Brasil, para 45% da população o racismo aumentou ao longo dos anos, enquanto 35% acreditam que o cenário  permanece o mesmo. Apenas 20% dos entrevistados enxergam uma redução nos casos de discriminação.

Quando perguntados em relação ao contexto onde o racismo está mais presente, a maioria dos brasileiros, 56%, aponta que as atitudes das pessoas são a principal manifestação do problema. Outros 27% acreditam que ele está mais evidente nas estruturas institucionais, como empresas e governos, enquanto 13% consideram que o racismo está igualmente distribuído entre comportamentos individuais e sistemas institucionais. Por fim, 4% dos participantes não souberam opinar sobre a questão.

A pesquisa também abordou vivências individuais de discriminação. Entre os entrevistados que se identificam como pretos, 56% relataram já ter sofrido preconceito relacionado à cor da pele. Esse percentual é significativamente maior entre os pardos, dos quais 17% relataram ter enfrentado situações semelhantes. Já entre os brancos, o índice cai para 7%.

Realizado em 113 municípios brasileiros, o estudo contou com a participação de aproximadamente 2.004 pessoas e buscou compreender as nuances entre autodeclaração racial e identidade, além de explorar como os brasileiros enxergam o racismo na sociedade. O objetivo do levantamento é fomentar debates mais aprofundados sobre a questão racial no país. 

Homenagens a figuras importantes buscam eternizar legados, mas memórias ainda enfrentam apagamento e negligência
por
Majoí Costa
Nicole Conchon
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22/11/2024 - 12h

 

As ruas, avenidas e praças que cruzamos diariamente não são apenas caminhos, mas também registros históricos. Seus nomes, frequentemente memorando políticos, militares, religiosos ou escritores, carregam a tentativa de manter viva a memória de pessoas importantes. O que poucas pessoas sabem é que as principais ruas da cidade carregam nomes de famílias negras que ajudaram a moldar a história de São Paulo e do Brasil como um todo. 

 

Avenida Rebouças, nome em homenagem à família negra de prestígio / Foto: Mariana Orsi
Avenida Rebouças, nome em homenagem à família negra de prestígio / Foto: Mariana Orsi

Historicamente, figuras negras de renome sofreram um processo de embranquecimento a fim de tentar esconder ao máximo sua conexão com a negritude. Quando essa estratégia não funciona, o apagamento entra. Por conta disso, essas homenagens nem sempre têm a visibilidade ou o reconhecimento merecidos. Portanto, relembrar essas histórias é um convite à memória, resistência e celebração das contribuições históricas de figuras negras que ajudaram a moldar o país.

Confira as principais ruas com nomes de pessoas negras na cidade e onde se localizam:

Rua Luiz Gama (Cambuci)

Luiz Gama foi um intelectual negro do século 19, jornalista e advogado autodidata. Ele conquistou sua própria liberdade e dedicou sua vida à defesa do fim da escravidão. Sua atuação foi essencial para libertar centenas de escravizados por vias legais.

Rua Cruz e Souza (Aclimação)

Inaugurada em 1936, essa rua homenageia o poeta Cruz e Souza, também chamado de Cisne Negro, por criar o movimento simbolista no Brasil do século XIX que que buscava expressar emoções e ideias abstratas por meio de imagens sugestivas e místicas. Filho de pessoas escravizadas, o autor deixou sua marca na literatura brasileira ao lançar obras que desafiaram as convenções de sua época.

Avenida Rebouças (Zona oeste)

O nome homenageia uma família negra de prestígio no século 19. O patriarca, Antônio Pereira Rebouças, foi conselheiro de Dom Pedro II. Seus filhos, André e Antônio Rebouças, se destacaram como engenheiros responsáveis por grandes obras de infraestrutura no país. Seus principais trabalhos foram o novo plano de abastecimento de água do Rio de Janeiro após a seca em 1870 e a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá que liga a capital paranaense ao porto de Paranaguá.

Rua Teodoro Sampaio (Pinheiros)

Teodoro Sampaio foi engenheiro, geógrafo e historiador. Suas contribuições no mapeamento e na construção de obras públicas ajudaram a moldar o território brasileiro.

Avenida Mário de Andrade (Barra Funda)

Inaugurada em 1978, a avenida homenageia o poeta e escritor Mário de Andrade, figura central do modernismo brasileiro e defensor da diversidade cultural e racial do país.

Rua Machado de Assis (Vila Mariana)

Desde 1912, essa rua leva o nome de Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros. Fundador da Academia Brasileira de Letras, ele foi pioneiro ao explorar temas raciais, sociais e psicológicos em suas obras.

 

Entretanto, esses nomes ainda são exceções em uma cidade onde a maioria das homenagens em ruas é destinada a pessoas brancas. Pressionar por mais representatividade nas nomenclaturas urbanas é uma maneira de manter viva a memória de heróis negros e negras, ampliando sua visibilidade e reconhecimento. 

Recentemente, debates sobre questões raciais no espaço público ganharam força, como a polêmica envolvendo as luminárias do bairro da Liberdade, reacendendo discussões sobre a valorização da história afro-brasileira.

Bairro da liberdade em 1998
Bairro da liberdade em 1998 / Foto: Greg Salibian 

A identidade do bairro foi moldada, com forte ênfase na cultura japonesa desde os anos 1970, enquanto sua história negra foi sendo aos poucos ofuscada. O bairro, que já abrigou uma significativa população negra e foi palco de importantes eventos históricos, como por exemplo execuções públicas de escravizados, viu sua memória alterada pela instalação dessas luminárias e apagamento de símbolos de herança afro-brasileira. O debate recente destaca a necessidade de valorizar e lembrar essa parte da história, ao invés de apagá-la ou tentar escondê-la com outras questões.​

Homenagens como essas dadas a pessoas negras em vias e ruas importantes da cidade ajudam a construir uma metrópole mais inclusiva e consciente de sua diversidade histórica.

Torcedores do Valencia são condenados a oito meses de prisão por conta dos ataques racistas contra o jogador.
por
Julia Sena
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01/07/2024 - 12h

 

Atuando pelo Real Madrid e pela Seleção Brasileira, Vinicius Jr. é um exemplo de excelência dentro e fora de campo. O “Caso Vinicius Jr.” ganhou ainda mais destaque no mês de junho devido a condenação de três torcedores do Valencia por ataques racistas cometidos durante uma partida em maio de 2023 no estádio Mestalla. 

Vini Jr. está com um dos braços levantados e punho cerrado em gesto de resistência, a torcida encontra-se atrás em desfoque e um jogador do time adversário tembém em desfoque mais a frente.
Em reencontro com a torcida do Valencia, Vini Jr. comemora gol com gesto de resistência. Foto: Jose Jordan/AFP

 

No dia 21 daquele ano, acontecia a partida que foi o estopim para a mudança de posicionamento da Justiça Espanhola, quando o Valencia enfrentava o Real Madrid pela 35º rodada do Campeonato Espanhol. Durante uma confusão após falta marcada em cima do então camisa 20 do Real, torcedores do time adversário começaram a proferir diversos ataques racistas contra o brasileiro, incluindo gestos e gritos de “mono”  - que se traduz “macaco” em espanhol. Ainda que apontados imediatamente por Vini assim que percebidos, a partida seguiu. 

Após mais de um ano do ocorrido, três torcedores do Valencia foram condenados a oito meses de prisão, além de terem de arcar com multas e estarem impedidos de entrar em estádios de futebol por dois anos. É a primeira condenação desse tipo por parte da Justiça Espanhola. Em suas redes sociais, Vini comenta o caso, comemorando a decisão e salientando a importância de continuar denunciando atos racistas. 

Os ataques contra o jogador existem mesmo antes da sua saída do Flamengo, clube que o revelou, mas foi na Espanha que os insultos se intensificaram. 

O primeiro caso a ser noticiado ocorreu em 2021 em uma partida contra o Barcelona no estádio Camp Nou. Torcedores que não foram identificados também gritaram “macaco” em direção ao jogador. Depois desse ocorrido, a onda de ódio contra Vini nas partidas e fora delas foi crescendo cada vez mais, o arquivamento do caso serviu como uma forma de estímulo a essas práticas, já que os envolvidos acabaram isentos de punição.

 

Após diversos episódios criminosos, pode se constatar que não é de hoje que Vinícius vem se demonstrando um grande agente de mudança na luta anti racista mesmo fora das quatro linhas. Alguns dias depois do anúncio da prisão dos três torcedores, o  Projeto de lei “Vini Jr.” proposto pela deputada Luciana Genro (PSOL) foi aprovado por unanimidade pela Assembleia Legislativa do Rio Grande Do Sul, a fim de combater o racismo nos estádios. 

 

O projeto prevê que a partida seja interrompida até que os atos suspeitos sejam descontinuados. Caso isso não aconteça, os atletas devem se retirar do campo por dez minutos. Por fim, se a situação não for resolvida, a partida deverá ser encerrada. Já no caso dos ataques acontecerem antes do apito inicial, o jogo pode ser cancelado pelo árbitro a depender da gravidade do caso. 

Vinicius Jr. com um sorriso no rosto ergue a taça da Champions League 2024
Vini Jr. ergue a taça da Champions League 2024, da qual foi eleito pela UEFA o melhor em campo. Foto: Glyn Kirk/AFP

Em entrevista à AGEMT, o estudante Tiago Nascimento, 20, relata a importância de Vini para a comunidade negra. “Há muito tempo não se via um jogador ter tanto impacto fora de campo. Para mim é importante ter um representante do que eu e minha família vivemos diariamente e o Vinicius faz isso com excelência.”  

 

Tiago ainda destaca a importância desse tipo de representatividade dentro do futebol, já que o esporte possui um enorme alcance e está enraizado na cultura brasileira. “Todo mundo consome futebol no Brasil, mesmo que indiretamente, tudo o que acontece possui impacto, então é muito interessante esse fator político e social que podemos observar acontecendo”, declara o estudante.  

 

Vinicius Jr - em suas próprias palavras um algoz de racistas, foi duas vezes campeão da Champions League e é favorito à Bola de Ouro 2024. Como se não bastasse, luta por uma causa que vai além do futebol, vindo de um país que tem o esporte em questão amplamente difundido. Vini motiva e enche de esperança milhares de crianças que têm o sonho de ser jogador de futebol, mostrando que independente de onde vieram ou de sua cor, tudo é possível. 

 

Conhecido pela estética e cultura oriental, o bairro renomeado em 2023 para Liberdade África-Japão carrega história ainda desconhecida
por
Vinícus Evangelista
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08/05/2024 - 12h

Famoso por suas icônicas luminárias japonesas e por abrigar a maior comunidade asiática do Brasil, o bairro da Liberdade, em São Paulo, atrai cerca de 20 mil visitantes todos os fins de semana, conforme dados da APECC (Associação Paulista dos Empreendedores do Circuito das Compras). Muitos, cativados pela culinária, produtos e atmosfera oriental que permeia as ruas, desconhecem a origem negra do bairro e pouco têm acesso a essa história quando caminham sob a região próxima ao centro da cidade.

 

Foto 1
Os dias mais movimentados do bairro são sábado e domingo, quando acontece a "Feira de Arte, Artesanato e Cultura da Praça da Liberdade", popularmente conhecida como "feirinha da Liberdade", criada em 1975, que percorre toda a rua Galvão Bueno. Foto: Vinícius Evangelista.
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Foto 2
A estética do bairro tal qual conhecemos hoje começou a se moldar em 1970, quando foram instaladas as primeiras famosas lanternas japonesas. Foto: Vinícius Evangelista

 

Foto 2
Em meio ao movimento da feira na atual Praça da Sé, antes Largo da Forca, está a "igreja de Santa Cruz das Almas dos Enforcados", fundada em 1891, no local onde antes se erguia uma cruz em memória das execuções de Joaquim José Cotindiba e Francisco José das Chagas, militares negros condenados a enforcamento por liderarem um motim que exigia, durante o governo Imperial, igualdade salarial entre soldados brasileiros e portugueses, além do pagamento atrasos remuneratórios. Joaquim foi morto, porém Francisco, conhecido como Chaguinhas. sobreviveu por três vezes à forca e foi morto a paulada. A cruz e a mesa com velas postas no local, foram sendo deslocadas conforme a região foi sendo habitada, até parar onde hoje está a igreja. Foto: Vinícius Evangelista.
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Foto 3
Antes de ser considerado centro, na então Vila de São Paulo, o bairro era denominado de "bairro da pólvora", uma simples periferia afastada o suficiente para ser construída ali, num dos largos, em 1754, a "Casa da Pólvora", um depósito de explosivos projetado para minimizar danos em caso de acidentes. Apesar da demolição do armazém, o local manteve o mesmo nome e foi transformado em um jardim oriental. Foto: Vinícius Evangelista.
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Monumento instalado, em 2018, rememorando os então 110 anos da imigração japonesa ao bairro e saudando a neta mais velha do então imperador japonês, Akihito, "sua alteza imperial Princesa Mako", que em 2021 abriu mão de seu título real para se casar com um plebeu e ir morar em Nova York. Foto: Vinícius Evangelista.

 

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No jardim, rodeado por bustos, estátuas e monumentos que contam a história da ocupação asiática no bairro, esta é a única placa que rememora o que era o largo antes da imigração. Foto: Vinícius Evangelista
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Antes chamado de "Largo do Pelourinho", o Largo de 7 Setembro foi renomeado em 1865, até quando havia um pelourinho no local, um poste de madeira para açoitamento público de escravizados, previstos no “Código Criminal do Império” de 1830, e na famigerada “Lei da Morte” de 1835. Os escravizados condenados a morte eram açoitados no pelourinho e iam caminhando até o Largo da Forca para a execussão. Foto: Vinícius Evangelista.
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Foi apenas em 2019 que uma pequena placa foi instalada na região memorando o fato. Foto: Vinícius Evangelista
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Apesar das poucas lembranças institucionais, os grafites e expressões populares tratam de lembrar a história de Chaguinhas e a resistência negra, em meio aos vislumbres da estética japonesa que compõe o bairro. Foto: Vinícius Evangelista.

 

A importância do Movimento Negro Unificado e outras entidades para a história e autoestima do povo negro para a criação de uma sociedade antirracista.
por
Maria Luisa Lisboa Alves
Natália Oliveira Perez
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09/11/2023 - 12h
Manifestação do Movimento Negro Unificado na frente do Theatro Municipal de São Paulo
Protesto do Movimento Negro Unificado (MNU),  no Theatro Municipal de São Paulo. 
Imagem: Reprodução/MNU/Lei de acesso à informação. 

 

"Hoje, a juventude negra anda olhando para o horizonte. E como diz o Miltão (Milton Barbosa): a nossa vitória é certa”, diz Regina Santos, coordenadora estadual do MNU em São Paulo. O movimento luta há 45 anos para garantir os direitos da população afrodescendente brasileira. Em sua criação a participação de diferentes personalidades negras foi fundamental. 

O Movimento Negro Unificado foi fundado em 18 de junho de 1978 no Centro de Cultura e Arte Negra e lançado a público 19 dias depois, em 7 de julho nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo. Três casos funcionaram como fator decisivo final: a discriminação de jogadores negros de vôlei pelo Clube Regatas do Tietê; a prisão e assassinato do feirante Robson Silveira da Luz; e o assassinato do operário Milton Lourenço por forças policiais.  

“Já havia uma discussão com gente do Rio e de Salvador acerca de que era necessário atingir um outro patamar na luta de combate ao racismo” explicou Regina Lúcia dos Santos, filiada há 28 anos é militante exclusiva e coordenadora estadual do MNU. “Colocamos na pauta política a discussão racial e isso não é qualquer coisa, porque faz parte da manutenção do racismo o encobrimento da nossa história.” 

 

Páginas da ata original da formação do Movimento Negro Unificado.
Páginas da ata original da formação do Movimento Negro Unificado. Imagem: Acervo Privado concedido pela família de Antonio Leite. 

 

Por ocorrer no período de ditadura, os membros buscaram apoio da mídia já desgastada pela censura e tentaram contato com o secretário de segurança do estadual da época, Erasmo Dias. “Eles sabiam que ia haver provocação da polícia no entorno, mesmo assim, o pessoal que estava no ato resistiu, não foi para cima das provocações porque era importante que o MNU fosse lançado.”   

O ativista Milton Barbosa, atual parceiro de Regina, foi figura central para o encontro de tantos ativistas e intelectuais para a assinatura da ata na escadaria do Municipal. Entre eles Eduardo Oliveira, poeta e primeiro vereador negro eleito pela capital paulista. Lélia González, referência nos estudos e debate de raça, gênero e classe no Brasil e no mundo, além de Antônio Leite, empresário e representante da Associação dos Empresários Negros.  

“Antes do MNU, em 1972, meu pai criou um grupo de trabalho de profissionais liberais universitários negros. O objetivo era trabalhar a autoestima das pessoas negras para que elas continuassem na educação formal e estivessem nas universidades, já que era a única forma de ascensão social da época” contou Elizabete Scheibmayr, a advogada e ativista é filha de Antonio Leite, militante do Movimento Negro Unificado. 

 

Antônio Leite durante ato público do MNU.
Antonio Leite durante ato público do MNU. Foto: Jesus Carlos via BBC News Brasil. 

 

Ações Afirmativas 

56% da população brasileira se declara negra, mas há pouca representatividade destas pessoas em cargos de liderança. Conforme pesquisa divulgada pelo Instituto Ethos, em 2018, apenas 4,7%, estão em uma posição de gerenciamento nas 500 maiores empresas do país, só 0,4% são de mulheres negras executivas. As ações afirmativas nas empresas vêm para representar a sociedade brasileira. “O racismo no Brasil tem essa peculiaridade: a gente se acostumou com ele, normalizou situações inaceitáveis como a ausência de pessoas negras nos espaços. E ninguém percebe que tem uma anormalidade nisso.” 

Para combater isso, junto de sua irmã, Elizabete fundou a Uzoma: empresa de consultoria focada na inclusão e diversidade no mercado de trabalho. “Há hoje uma pressão de mercado. As empresas as vezes não conseguem créditos internacionalmente por falta de diversidade. Se não é pelo amor e pelo que é certo, então será pelo dinheiro.”  

Logo do Uzoma e ao lado suas fundadoras, as irmãs Elizabete e Eliane Leite.
Logo do Uzoma e ao lado suas fundadoras, as irmãs Elizabete e Eliane Leite. Imagens: Uzoma Diversidade Educação e Cultura/Divulgação. 

Houve uma questão histórica que impediu que pessoas negras alcançassem certos espaços, para a mudança é preciso agir de uma forma intencional. “O Uzoma veio da questão: como vamos letrar pessoas não negras em empresas para que elas comecem a pensar na inclusão e ascensão de pessoas negras no mercado de trabalho” especifica ela. 

 

 

 

 

 

 

Legado 

“Quem não conhece seu passado não tem história e quem não tem história, não existe.” pontua Regina. No dia 4 de novembro de 1978, o MNU soltou um manifesto propondo que o dia 20 de novembro se transforme no Dia Nacional da Consciência Negra, para lembrar a importância da história de luta e da herança cultural do povo negro. Apesar da mobilização que ocorre desde o século passado para o dia de conscientização, apenas em 2011 a data foi oficialmente instituída. 

“A gente não veio do nada, é a história de um povo que sempre lutou por seus direitos, nada foi dado. Precisamos nos orgulhar da nossa história e de tudo que construímos.” - opina a filha de Leite – “É preciso conhecer e ter esse orgulho da jornada que nós trilhamos e vamos trilhar. Não é o começo, mas também não é o fim. Há uma jornada para a mudança, para termos uma sociedade em que as pessoas sejam respeitadas pelo que elas são.” 

“Meus sonhos e minhas lutas começaram a muito tempo antes da minha chegada’”, no documentário, ‘Emicida: AmarElo - É Tudo Pra Ontem’, o cantor lembra da importância de reconhecer a história dos que o antecederam. No longa ele traça a herança cultural do povo negro e lembra da relevância do MNU, e de personagens que marcaram a história como Ruth de Souza, Lélia Gonzales, entre outros. 

Regina, seu parceiro Milton Barbosa e outros militantes do MNU foram homenageados na apresentação que o rapper fez no Theatro Municipal, em que ocorreu a manifestação e fundação oficial do Movimento Negro Unificado. Emicida, em seu documentário, faz questão de lembrar a história e a importância deste grupo que luta pelos direitos dos afrodescendentes no Brasil. 

Elizabete ainda completa: “Acho que é um privilégio ter essa história, esse legado e ter vivenciado isso no seu dia a dia e como isso faz diferença. Nosso posicionamento hoje é muito mais forte. Por menor que seja, meu pai influenciou a história. E isso é motivo de orgulho. E temos a responsabilidade de não deixar isso morrer.” 

 

Ativistas do MNU homenageados no show do Emicida no Theatro Municipal de São Paulo
Ativistas do MNU homenageados por Emicida em seu show no Theatro Municipal de São Paulo. Imagem: Reprodução/AmarElo 

 

Futuro de lutas e vitórias 

“O futuro é ainda de muita luta e de muitas conquistas”. A militante lembra pautas importantes que devem ser discutidas, como a reparação histórica ao povo negro e aos povos originários. 

Para a ativista a educação é fundamental, o letramento racial é necessário para que a população compreenda as relações estabelecidas no Brasil e para que esta se dê de uma melhor forma. O ensino da história da cultura e dos povos africanos é pauta do MNU desde 1978, porém só foi promulgado em 2003. 

“Os jovens negros contam histórias negras, narram a resistência de suas famílias em batalhas de rap”, a militante conta como é importante para os jovens terem as suas culturas validadas, e como o movimento negro foi fundamental para a autoestima dos jovens, que assumem a sua negritude. “Não é à toa que o símbolo do MNU é uma lança”, para Regina o MNU lança e abre caminhos para esta população. 

“Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje”, ditado iorubá que é citado por Emicida no seu documentário para lembrar aos espectadores que a sociedade que foi construída de forma racista, pode ser modificada hoje, a hora de mudar é agora. 

 

Com a aposentadoria de Rosa Weber, a pressão é para uma jurista negra ocupe seu assento no STF
por
Geovana Bosak
Isabelli Albuquerque
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26/10/2023 - 12h
Foto oficial da composição do STF (03-08-2023). Foto: Fellipe Sampaio/ SCO/STF

“Sou uma juíza de Direito, mas sou uma juíza de Direito negra. Isso é um fator importante, porque eu sou praticamente a única e a sociedade tem que prestar atenção nisso”, declara a juíza Karen Luise de Souza para o Brasil de Fato no ano de 2020. Três anos depois o cenário não está muito diferente, porém, com a abertura de um novo cargo de ministra no STF, as esperanças estão altas para que a posição seja tomada por uma mulher negra. 

 

Dentre as indicadas, estão a jurista e professora da faculdade de Direito da PUC-SP, Lucineia Rosa dos Santos. Quando soube do abaixo-assinado realizado pelos alunos da instituição, Lucineia diz ter se sentido muito emocionada e surpresa.  

 

Durante a entrevista – realizada em uma ligação pela plataforma Teams -, a professora compartilhou um ocorrido muito significativo. Os funcionários da copa da PUC-SP a procuraram para poder assinar o abaixo-assinado a seu favor. “Eu me senti muito grata de também ver trabalhadores, pessoas do nosso convívio, irem me procurar para me apoiar”, relatou Lucineia. 

Professora Lucineia Rosa dos Santos, na PUC-SP Foto: Carine Wallauer, Diego Bresani e Maiara Cerqueira

De acordo com a plataforma Justa - criada para ser um observatório do sistema de justiça brasileiro, para cada juíza negra, existem 7,4 juízes brancos no país. Essa discrepância é um reflexo da sociedade no Brasil, e levanta uma questão: como a justiça deve ser igualitária se os responsáveis por elas são todos do mesmo grupo social? Karen Luise apontou esse problema em sua entrevista ao BdF: “Se você só tem homens brancos na magistratura, você só vai ter a visão, a vivência e a experiência do homem branco no mundo” 

 
As mulheres negras constituem a maioria da população no Brasil, porém formam o grupo mais marginalizado e ignorado pela sociedade. “Ter uma mulher negra no STF vai além da representatividade, traz também uma mudança de pensamento dentro do sistema jurídico brasileiro”, apontou Lucineia. 

 

Segundo o IBGE, mulheres negras praticam duas vezes mais abortos do que mulheres brancas, e, como o procedimento não é legalizado no Brasil, mulheres negras arriscam suas vidas duas vezes mais do que mulheres brancas. “Você criminalizar uma mulher que aborta, é criminalizar uma mulher pobre, periférica, preta, mãe solo e que colocou em risco sua vida por não ter condições de realizar um aborto seguro”, afirmou a professora, deixando claro que a descriminalização do aborto é mais do que necessária no país. 

 

A exclusão do povo preto, principalmente das mulheres, se faz presente no país desde sua fundação. Lucineia explicou, “Por mais que tenhamos participado e contribuído na história do país, não nos viram fazendo parte do desenvolvimento pleno econômico”, e ainda acrescenta que “os espaços de poder desse país sempre centralizaram nas mãos dos mesmos”. 

 

Esperançosa de que o presidente Lula indique uma mulher negra para o cargo de ministra, a professora finalizou a entrevista desejando que daqui para a frente mais mulheres, de qualquer raça e classe social, consigam posições de poder e representem a população brasileira, que, em sua maioria, é constituída por pessoas do sexo feminino. 

João Santana propõe programas que promovam igualdade racional nas escolas
por
Giovanna Astolfi Stevano
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09/11/2023 - 12h

João Santana é uma voz forte e dedicada na luta contra o racismo no Brasil. Ele deu uma palestra em um painél de discussão sobre pautas antirracistas, no último dia 20/10, em um espaço comunitário no centro de São Paulo com a participação de acadêmicos, ativistas e líderes comunitários, que compartilharam suas experiências. Fez essa palestra com um intuito de promover a conscientização e a ação contra o racismo.

João é uma figura que inspira. Em uma conversa, ele compartilhou sua jornada pessoal na busca por igualdade e justiça. “Minha jornada na luta contra o racismo começou cedo. Eu percebi as desigualdades gritantes que afetam a comunidade negra no Brasil. Cresci em uma família que sempre enfatizou a importância de se orgulhar de nossa herança afro-brasileira e de lutar por igualdade. Desde então, tenho trabalhado incansavelmente para desafiar os estereótipos e as estruturas racistas que permeiam nossa sociedade.”

João enfatizou a importância da educação na luta contra o racismo. “Devemos investir em programas educacionais que promovam a igualdade racial, ensinando a história real do Brasil, que é profundamente enraizada na contribuição afro-brasileira. Além disso, é crucial que as empresas e instituições adotem políticas de inclusão e diversidade, proporcionando igualdade de oportunidades para todos os brasileiros, independentemente de sua cor de pele.”

O papel das manifestações e da conscientização pública também foi discutido. João ressaltou que essas ações desempenham um papel fundamental na luta antirracista, chamando a atenção para as questões muitas vezes ignoradas. “As vozes dos manifestantes devem ser ouvidas e levadas a sério pelas autoridades e pela sociedade em geral. Além disso, a conscientização precisa se transformar em ações concretas, como políticas antidiscriminatórias e medidas que garantam a igualdade de oportunidades.”

Para aqueles que desejam se envolver na luta antirracista, mas não sabem por onde começar, João ofereceu orientações. “Começar na luta antirracista pode parecer avassalador, mas cada pequeno esforço faz a diferença. Comece educando-se, lendo livros e artigos sobre o tema. Converse com pessoas negras e ouça suas experiências. Participe de grupos e organizações que trabalham pela igualdade racial. E, acima de tudo, não tenha medo de confrontar o racismo quando o encontrar, mesmo que seja desconfortável. A mudança começa com a conscientização e a ação individual.”

Ao concluir a entrevista, João expressou seu agradecimento por ter a oportunidade de compartilhar suas ideias e experiências. “A luta antirracista é uma jornada contínua, e espero que possamos trabalhar juntos para criar um Brasil mais justo e igualitário para todos.”

Lucineia Rosa dos Santos e Mônica de Mello, docentes da PUC-SP, estão entre as cotadas para vaga no Supremo Tribunal Federal
por
Julia Barbosa
Helena Saigh
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23/10/2023 - 12h

“As mulheres são mais da metade da população, as pessoas negras no Brasil são 56%. Então, ter representatividade nos órgãos de poder significa ter mais democracia.” declara Mônica de Melo, a professora e pró-reitora de Cultura e Relações Comunitárias na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Além disso, ao lado de Lucineia Rosa dos Santos, ela é uma das mulheres negras cotada para assumir a cadeira de Rosa Weber na mais alta cúpula do judiciário, o STF. 

A ministra, que se aposentou oficialmente em 2 de outubro aos 75 anos de idade, destacou em seu discurso de despedida a desigualdade de gênero na corte, que antes contava com apenas outra mulher, Cármen Lúcia. Também deve ser levado em consideração a ausência de ministros negros na atual constituição do STF.

A partir dessa falta de diversidade, o presidente Lula enfrenta hoje uma pressão dos movimentos sociais para que uma mulher negra seja indicada ao cargo. Em sua primeira indicação, o presidente ignorou os apelos da campanha e a própria representatividade do povo no governo na simbólica caminhada pela rampa do Palácio do Planalto em sua posse, ao indicar Cristiano Zanin, um homem branco, que atuou em sua defesa nos processos da Lava-Jato. 

Lucineia Rosa dos Santos é Doutora em Direitos Humanos pela PUC-SP e docente universitária na área jurídica. Hoje, além de atuar como advogada, é professora e ministra disciplinas de Direitos Humanos, Direitos Humanos dos Refugiados, Direito da Criança e do Adolescente, bem como Direito de Igualdade de Gênero e Racial, na Pontifícia.

“O que se debate hoje, já era posto em casa há muitos anos. Eu era criança, mas ouvia”, conta Lucineia sobre o contato com discussões pautadas em sindicatos ainda quando era criança através de seus tios. Desde muito jovem, entendeu que o ensino poderia transformar a sua realidade, e expõe que, “No Brasil, o racismo ditava meus espaços e minha ascensão profissional.”

Para Lucineia, a ausência de alguém negro na corte não impede que questões raciais sejam discutidas, porém, a ponderação das demandas são debatidas sem a consciência e a experiência do que é ser uma pessoa negra no Brasil. A jurista afirma ainda que, somente com essa consciência no debate, é possível modificarmos a estrutura.

A entrevistada declara também que “se o Lula quer, de fato, mudar o que temos há séculos, o poder institucional nas mãos dos mesmos, é agora.”. 

Mônica de Melo é a outra mulher cotada para a vaga no STF, e, além da vida acadêmica, é defensora pública. A professora de direito constitucional pertence também a várias organizações que têm como pauta principal a defesa dos direitos das mulheres, combate a discriminação racial e a democratização do sistema de justiça. 

Ao falarmos da representatividade negra em um ambiente mais próximo como o da universidade, Mônica conta sobre o projeto que prevê a contratação de mais docentes negros e afirma: “Eu estive à frente desse projeto. Acho que é super importante para a universidade, porque a gente tem um quadro docente majoritariamente branco”, e acrescenta “, é uma forma de buscarmos o enegrecimento da PUC. “

 

"O objetivo é celebrar o povo preto na gastronomia e deixar claro que a gente não faz só comida de África. Somos plurais, fortes e bons em técnica e ancestralidade", afirma Breno Cruz, fundador.
por
Livia Vilela
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21/10/2023 - 12h

Sucesso em sua primeira edição, o Prêmio Gastronomia Preta se torna, em 2023, um evento nacional. Desta vez, acompanhado de um festival que celebra o trabalho e a ancestralidade do povo preto na gastronomia nos dias 25 e 26 de Novembro, no Rio de Janeiro. “São 30 stands, que vão da confeitaria até a cozinha quente, passando pelo churrasco e pelo baião de dois. É a nossa gastronomia e é isso que estamos celebrando. Nãé só comida de África, queremos mostrar que essas pessoas são plurais e diversas, com muito conhecimento e técnica também”, conta Breno Cruz, idealizador e organizador do evento.

O Premio Gastronomia Preta surge em 2022 como uma proposta local no Rio de Janeiro, com o intuito promover a diversidade e evidenciar as pessoas pretas no universo gastronômico, dentro de 23 categorias. Breno Cruz, que tambéé professor de gastronomia da UFRJ, dá inicio ao prêmio com a proposta de passar a mensagem para todo o Brasil que as pessoas pretas estão presentes na cozinha profissional e precisam ser reconhecidasPara o povo preto nunca foi fácil, né? A gente acredita, a gente é resistência, tem que fazer para ser visto. As dificuldades são grandes mas está acontecendo, muito com a ajuda dos patrocinadores que acreditam no projeto. É extremamente importante a gente compreender que as pessoas pretas fazem a gastronomia acontecer mas que muitas vezes não são vistas.

Assim como a iniciativa, o investimento na ideia foi primeiramente do próprio Breno. “É muito difícil fazer um evento desse acontecer. Primeiro tem o meu investimento financeiro, de tempo e de trabalho. Em 2022 o prêmio aconteceu sem nenhum patrocínio financeiro, eu investi o dinheiro sozinho por acreditar e poder fazer acontecer naquele momento.” Após muitas recusas, o Prêmio Gastronomia Preta, e agora o Festival, conquistaram parceiros importantes:  Nestlé, Secretaria do Meio Ambiente do Rio de Janeiro, o Ministério Público do Trabalho, a marca Cacildis, que é a bebida oficial do evento, além da Globo como uma parceira de mídia.

A escolha dos finalistas e vencedores do Prêmio tambéé feita de maneira estratégica. Há um edital e a primeira fase é por indicação popular. Depois desta primeira seleção, os profissionais, são analisados de acordo com a sua determinada categoria por um time de seis curadores, que leem as histórias de vida e trajetórias profissionais dos inscritos. A partir desta consideração, são selecionados três finalistas para cada categoria, que passam por entrevistas e provas práticas. Somente depois de todo este processo, os jurados, que não são os curadores, determinam o vencedor do prêmio. A questão da justiça para mim é muito importante, eu já fui injustiçado no passado. Então pensando nisso existe toda uma metodologia tanto para a indicação dos finalistas como para a escolha final. A coisa é muito bem feita para sermos o mais justos possível. Vai ganhar quem realmente se destacar na entrevista e na prova prática.

O Festival Gastronomia Preta, que acompanha o prêmio, terá sua primeira edição este ano e estão confirmadas diversas atrações. “É um festival maravilhoso feito com muito amor e carinho. Vamos ter como foco o samba, que conta muito bem a nossa trajetória e tem relação com a comida. Fechando o evento no segundo dia teremos a bateria da Beija Flor de Nilópolis, que é a escola oficial do festival. A banda arruda vai estar presente nos dois dias de evento.” O espaço conta também com a presença do Movimento Mães Negras pelo Brasil, falando sobre África e ancestralidade para o público infantil e a Cozinha Show Benê Ricardo, homenageando a primeira mulher a receber um diploma de chef de cozinha no Brasil. “É um evento completo. Olhem para a gente. A gente existe e faz um trabalho lindo neste país. Vamos celebrar essas pessoas e a nossa ancestralidade, reforça Breno.

 

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Prêmio Gatronomia Preta. Foto: Divulgação