Do ativismo negro às capas de disco, conheça o legado do fotógrafo mineiro que fez (e registrou) história
por
Mariana Luccisano Coelho
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01/12/2022 - 12h

Por Mariana Luccisano Coelho

 

  Januário Garcia Filho nasceu em 1943 em Belo Horizonte, Minas Gerais e viveu sua primeira infância nas periferias da capital mineira com seus pais e seus três irmãos. A imagem sempre o despertou interesse e chamou sua atenção de um jeito que ele sempre dizia ser inexplicável. Antes mesmo de aprender a ler, se lembra de ter posto suas mãos em um exemplar da revista infantil O Tico-Tico e ter descoberto o passo a passo para fazer um projetor de imagens com uma pequena caixa de madeira. Ia ao cinema do bairro todas as manhãs posteriores às exibições e levava para casa as tiras de filmes que eram jogadas fora, projetando-as em sua casa em uma parede pintada de branco.

   Aos 4 anos Januário perde seu pai e oito anos depois, sua mãe. Desamparado e sem norte, decide então sair sem rumo e chega ao Rio de Janeiro, aos 13 anos, onde passa a viver entre ruas e abrigos. Com 16, Januário foi levado ao Serviço de Amparo ao Menor (SAM) e aos 17 se voluntariou para servir a Tropa de Paraquedistas do Exército, completando em paralelo o ensino fundamental e médio. Foi nesse momento que tomou uma das suas mais importantes decisões: comprar sua primeira câmera fotográfica, uma Olympus, para fotografar seus colegas de quartel.

   Os anos se passaram, Januário deixou o quartel, a vida traçou seus caminhos, ele sobreviveu de bicos e outras atividades e se casou com Ana Maria Felipe, que em 1970 o incentivou a resgatar o velho hábito da fotografia, mas, dessa vez, profissionalmente, com uma Pentax Spotimac II. É assim que Januário inicia sua preciosa e brilhante carreira foto-jornalística, fotografando para jornais alternativos da época e fazendo pequenos trabalhos para a grande imprensa, começando pelo jornal Tribuna da Imprensa e posteriormente ganhando as demais redações, passando pelo O Globo, Jornal do Brasil, O Dia, A Notícia, Revista JB e fazendo alguns trabalhos para a Editora Bloch.

  A arte atravessa seu caminho na fotografia quando recebe o convite para participar da fundação Photo Galeria, organização voltada para venda de fotografia de arte. A experiencia foi enriquecedora e de uma importância inenarrável para Januário no aprimoramento de técnicas e estudos, alavancando sua carreira e consolidando seu trabalho. Decide então montar um estúdio e trabalhar com publicidade e se vê diante do racismo (escancarado, velado e institucional) ao exercer uma profissão fora dos setores reservados á negros pela sociedade da época. Depois de anos fotografando para publicidades e atendendo agencias pelo Rio de Janeiro, decide mudar seus rumos e procurar gravadoras para entrar no mercado de capas de discos.

   Depois de árduas tentativas, por se tratar de um mercado extremamente nichado com fotógrafos já consolidados, consegue fotografar sua primeira capa para o grupo de rock O peso, que ficou muito emocionado e satisfeito, fazendo com que o mineiro recebesse elogios do diretor de arte e deslanchasse no meio. Foi então que surgiram trabalhos com grandes nomes da música popular brasileira como Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque, Fagner, Belchior, Fafá de Belém, Leci Brandão, Raul Seixas e Edu Lobo.

 

Interface gráfica do usuário, Aplicativo

Descrição gerada automaticamente

Algumas das capas fotografadas por Januário. Reprodução G1.

Brasil perdeu Januário Garcia para a Covid-19

Milton Nascimento, Chico Buarque e Januário. Reprodução Site Januário Garcia

 

    O primeiro contato de Januário Garcia com a militância das causas negras foi em 1975, quando entrou para o Movimento Negro Carioca, a partir de um encontro no Centro de Estudos Afro-asiáticos na Universidade Candido Mendes, em Ipanema. Passou a fotografar as reuniões como um trabalho pessoal, mas essa documentação se tornou uma ferramenta importantíssima de participação na luta e na história do Movimento Negro Brasileiro.

 

Reunião IPCN- Januário Garcia- Covid-19- Brasil perdeu

Reunião da diretoria do IPCN – 1986. Reprodução Instagram Januário Garcia

 

   O fotógrafo passou a participar ativamente de atos, reuniões e manifestações políticas registrando massivamente e concretizando a memória da luta negra brasileira nas décadas de 70 e 80. Em entrevista certa vez disse: “Na minha geração, ninguém vai poder falar que o negro não tem memória, porque vai ter. Eu vou fazer essa memória.” Esse é um dos maiores legados de Januário, eternizar cultura e vivencias negras, conhecido por “registrar a beleza de ser negro”.

 

Brasil perdeu Januário Garcia para a Covid-19

Januário Garcia – Carnaval 1978. Foto por Mauricio Valladares.

No Orun: morre o fotógrafo Januário Garcia - Geledés

Marcha da Falsa abolição

 

Foto preta e branca de pessoas na frente de uma loja

Descrição gerada automaticamente

Marcha Zumbi está Vivo, Rio de Janeiro  - 1983.

 

   Outro marco de sua trajetória foi a fundação do Centro Brasileiro de Informação do Artista Negro (CIDAN), junto com a atriz Zezé Motta. Catalogou atores e atrizes negras por todo o Brasil, desbancando o discurso mentiroso e racista de que a ausência de personalidades afrodescendentes na televisão se dava por falta de profissionais.

   Para o fotógrafo e entusiasta do fotojornalismo ativista Ricardo de Castro, personalidades como Januário Garcia são indispensáveis na luta antirracista no Brasil: “É preciso dar voz e eternizar movimentos de lutas negras no país onde a história do povo preto é invisibilizada desde sempre.”

   No dia 1 de julho de 2021, Januário Garcia faleceu decorrente de complicações da Covid-19. O fotógrafo deixa um legado riquíssimo e de suma importância para história nacional. Um legado de luta, de beleza e arte que ressoa e ressoará por anos, servindo de inspiração e representatividade.

  

 

 

 

Tarso Sarraf, ganhador do prêmio Vladimir Herzog conta sua experiência em fotografar Amazônia na pandemia”
por
Ana Beatriz Assis
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06/07/2022 - 12h

“Eu nasci no bairro mais perigoso de Belém do Pará, Guamá, aqui é um lugar em que as pessoas acham que a gente não sabe nada. Ninguém olha de verdade para o Norte. Eu tive um sonho e graças a Deus pude realizar. Meu sonho era fazer uma olimpíada, eu fiz uma olimpíada! Tive um sonho de fazer uma Copa do Mundo, eu fiz uma copa do mundo. Eu tinha como maior sonho ganhar um Vladimir Herzog, e depois de bater na trave duas vezes, realizei esse sonho” Tarso Sarraf, fotojornalista de 45 anos, ganhador da 43° edição do Vladimir Herzog, narra sua carreira em entrevista para a Agemt.

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Tarso Sarraf exercendo profissão (Via: Facebook)

 

Sarraf ganhou o prêmio em 2021 na categoria fotografia, com seu trabalho cobrindo a covid nas extremidades da Amazônia, “Paradoxo amazônico: 66% dos piores municípios do Brasil estão na Amazônia”, matéria do jornal O liberal.

 O profissional teve seu primeiro contato com a fotografia aos 14 anos. Ele conta que desde pequeno tinha um sentido aguçado para o gênero jornalístico, porém nunca correu atrás de trabalhar em um jornal de fato. Em 2006 junto com a paternidade veio seu primeiro convívio com o mundo corriqueiro da fotografia informativa no Diário do Pará. Lembra-se bem, que sua primeira cobertura foi fotografando um incêndio, novidade dupla para ele, já que também não tinha experiência com máquinas fotográficas da Canon, ponto que cita com certo humor, pois hoje usa com quase exclusividade câmeras da marca.

Em 2011 começou sua carreira no jornal O liberal, do grupo Globo. Sete anos depois, em 2018, Tarso cita que vivía um ano de muitas mudanças, saiu do liberal e viajou rumo a Rússia, para fotografar a copa do mundo. Após isso, Sarraf cita com orgulho e gratidão seu período de 1 ano fotografando para a agência internacional France Presse, oportunidade que lhe trouxe muitas experiências inesquecíveis. “Sendo sincero, nunca imaginei voltar para dentro de uma redação”, admite, quando conta sobre sua volta ao jornal O Liberal depois do tempo de colaboração com a agência internacional. Hoje em dia, Tarso continua no Liberal, agora sendo coordenador de audiovisual, cuidando das mídias físicas e digitais, além de coordenar fotógrafos, editores e estagiários. “Eu amo o que faço, não trabalho por dinheiro. Eu dou graças a Deus todos dos dias, pois vivo a profissão que amo. Eu gosto disso, gosto da adrenalina. Hoje tem site, rede social, hoje é tudo online, tem muito mais cobrança.

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Fotos de Tarso. Olimpíadas 2016 e copa 2018 respectivamente (Via: instagram) 

 

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Tarso com 14 anos fotografando junto de seu mestre, Miguel Takao em 1990 (via:Facebook)

 

 

 

 

 

 

 

 

Prêmios 

Tarso em suas redes, possui 14 prêmios, mas na entrevista, lembra-se que na verdade são 16. Dentro deles estão: Prêmio Abril 2011, prêmio Fiepa de melhor repórter fotográfico 2013 entre outros. “Sempre fui muito catita em prêmios, sempre entrei em prêmio. Não tenho medo do não. O não eu já tenho, só tenho que ir atrás do sim. Hoje já me centralizo no que eu quero.”

1- Lembra de qual foi seu primeiro prêmio?

Lembro bem, foi o prêmio da Veja. A Veja tinha um prêmio interno dela, troféu lindo, tenho ele até hoje na minha estante. Todo jornalista queria ter. Eu era fotografo da Veja, fiz um especial sobre menores que bebiam em festa, foi uma matéria muito grande. [..]Pra mim, foi magnífico.

2 - Qual foi o prêmio mais marcante para você?

Vladimir Herzog. Eu já ganhei vários prêmios, mas a repercussão que esse teve para mim, foi muito mais que todas[..] no site do prêmio, se for ver, está Sarraf, Daniel Nardin, Renato Tavares e Cleo Soares, mas quem são essas pessoas? Daniel porque é meu diretor, é coração do jornal. Renato diagramou a capa do jornal e Cleo é a repórter que escreveu a matéria. O prêmio é de fotografia? É, só que o conjunto da obra são várias pessoas. Todos os prêmios que me inscrevo boto o nome da equipe toda, ao nível de botar até o motorista.

 

Da Amazônia direto para Vladimir Herzog

“Quando eu tirei foto da Copa eu achei que aquilo era o auge da minha profissão. Quando eu fui para Rússia, foram 22 brasileiros e eu fui o único do Norte que foi credenciado. Mas aí eu te digo, o ápice da minha profissão mudou com a covid. Se pegar minha profissão em 2020 para baixo eu tenho mais publicações de 2020 para frente” Tarso, teve grande reconhecimento após suas produções durante a pandemia, mas, enfatiza que seu objetivo nunca foi ganhar prêmios. “A gente precisava dar informação pro mundo”

Tarso, em 2020 no ápice da pandemia, quando ainda não tinha perspectiva de vacinação, escolheu retratar a doença no arquipélago de Marajó, um dos piores IDH (índice de desenvolvimento humano) do Brasil, passou quase um mês no local, registrando histórias de vida e morte. Sarraf foi fotografar covid, um tempo depois dele mesmo ficar em estado grave por conta da doença. “No começo da covid eu estava em casa. Primeiro caso de caso em Belém foi 18 de março de 2020, desde aquele momento eu me isolei por causa dos meus pais. Acredito que peguei covid de ifood. Quase bati as botas, fiquei muito mal por sinal, mas graças a Deus melhorei”

O trabalho do fotógrafo, rendeu matéria para a realização de uma série nos principais jornais de Belém, todas as imagens foram de sua autoria. A série “A covid-19 no Marajó” foi dividida em três partes, cada uma focada em uma cidade: Breves, Melgaço e Portel.

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Médicos visitando senhora em sua casa (foto: Tarso Sarraf)

1 - Como foi a decisão de fotografar covid em terras amazônicas?

 Estava vendo material fotográfico dos meus amigos, do mundo todo, quando fiquei bem da covid, coloquei na minha cabeça que ia fotografar a pandemia. Fotografei um cemitério, depois os comércios fechados, outro dia fotografei dentro de um necrotério. No fim de semana, já fiquei agoniado com a mesmice. Comecei a pesquisar, as imagens no mundo todo eram de hospital ou cemitério, pessoas chorando, morrendo [..]. Já conhecia um pouco a região de Melgaço, fiz a primeira pauta para France-presse e o editor de fotografia do Brasil ficou: “que isso Tarso? Fotos de covid no meio da Amazônia?” Cara, eles piraram”

“Foram dois dias de tempestade para chegar em Melgaço.” Tarso narra as dificuldades para chegar no arquipélago. “Estava na Amazônia, o navio que sai de Belém seis horas da tarde, chega seis horas da manhã em breves, doze horas de viagem. Depois de breves pega uma lancha para Melgaço. [..]” Ele prossegue falando da situação da cidade ao chegar: “A gente está falando de comunidades, quando eu ia com a equipe de saúde, não entendia o que estava acontecendo, uma cidade que parece que não existe.  A Galera não estava recebendo auxílio nem nada.”

2- Como sua família reagiu a esse projeto?

Minha mãe quase morre, falei que ia fotografar covid, já tinha comprado a passagem, mas não falei que ia viajar. Fui para breves na cara e na coragem. Cheguei no meio da cidade, não tinha carro, me lembro que quem me levou para a cidade foi o vigia do aeroporto, fui com ele de moto. O avião só levava carga, viajei em um avião de carga. Minha mãe me ligava todo dia, e só eu sei, que eu não dizia muita coisa para ela, preservei muito ela, poucas vezes eu colocava foto minha. A france-presse, me deu todo o aparato e roupa especial.

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Tarso com aparato de proteção em um cemitério (foto: Wesley Marcelino)

3 - Onde você dormia e descansava?

Minha mãe pensava que eu estava dormindo em hotel. Dormi em porto, em navio, no chão, em porta de hospital. Ao ponto que me emociono, porque as pessoas não têm ideia do que a gente passa, a foto é linda e maravilhosa, mas não sabe o trabalho por trás. Vi um amigo meu falando isso (Marcos Nunes), como a gente tem que se valorizar. As pessoas não têm ideia do que passamos, eu te falo, passei um couro muito grande.

 

 

Os desafios intrapessoais em fotografar uma pandemia

Tarso cita também, os desafios de seguir um trabalho tão delicado e em um momento de calamidade: “Naquele momento não sabia se covid pegava de novo. Falo isso como um depoimento, uma coisa que não falo para todo mundo, porque acho que é proposito de Deus. A gente tem um presidente que dizia que era uma gripezinha, eu vi, várias pessoas morrendo na minha frente.”

Sarraf foi questionado sobre a questão do medo me cobrir casos de covid tão de perto, supreendentemente, ele alega que teve que procurar terapia para sentir novamente medo da doença, após de certa forma “acostumar-se” com o ambiente médico: “Teve um momento que tive que fazer terapia, para entender que covid dava medo. Eu não estava mais com medo, de tão normal, de tanto que entrei em hospital, cemitério, enfim, tive que entender que precisava ter medo.”

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Médica e leitos de um lado do vidro com televisão refletindo falas de Bolsonaro (foto: Tarso Sarraf)

 

1 -Como era sua abordagem para chegar até as pessoas que você fotografava? Pessoas estas que estavam passando por um momento tão desagradável?

 Assim, todo mundo fragilizado. Não tinha muita família na época, porque não podia. Quando vinha família, falava meus pêsames, contava do meu trabalho, alguns falavam não, outros sim, mas sempre com autorização. Não entrei em nenhum hospital sem autorização.

Sarraf adiciona ainda, sobre como era a relação com os profissionais para tirar uma boa fotografia: “Cemitério por exemplo, tu tens que ser amigo do coveiro, ele que passa as informações para ti. Me apresento, pego o contato, e ele me dizia quando tem enterro. Eu chegava sempre antes, ficava no meu cantinho”  

2 - Como você lidou com seus sentimentos durante seu trabalho?

Eu soube de uma notícia que um amigo meu de infância tinha morrido de covid, para mim foi um baque. Me lembro que tive mais ou menos doze enterros, imagina, só aquelas músicas tristes de igreja. Assim, desabei, lembrei da situação do meu amigo. Mas aí tu tens que se repor, se repor para o trabalho.

 O fotografo adiciona a entrevista, um dos casos que marcou sua passagem á Melgaço: “Logo no começo da covid, fiz um enterro, nesse dia, era um domingo, até hoje não esqueço, cheguei no cemitério, fiquei esperando. Chegou uma kombi, logo comecei a fotografar, perguntei se era homem ou mulher, o moço responsável me disse que era uma criança de oito anos. Eu tenho um filho de anos, eu tenho dois filhos um de oito e de quatorze. Eu não fotografei nada, parei naquele momento. Travei.

 

As fotografias

 Tarso tirou em toda sua caminhada, fotos que carregam beleza e ao mesmo tempo elementos que nos fazem refletir. A foto abaixo ganhou medalha de ouro no prêmio “fotografe de 2021, Sarraf comenta: “Essa foto foi o menino dos olhos da france-presse. Foi em um dos meus últimos dias de trabalho em Melgaço. Esse momento era lockdown, era por volta de umas cinco e meia, seis horas da tarde, sabe quando a luz está caindo? No Pará é assim, do nada cai, ou é cinza ou preto, mas existe um negócio bem no meio que traz esse azulado. Estava tão escuro que não dava nem foco. Essa luz dentro da cabine é meu celular, eu joguei ele com a lanterna para dentro, para colocar essa luz, foi desespero mesmo. Clareou comecei a fotografar, olhei para máquina e falei “caraca que foto linda”.  Quando ergui o olho de novo, acabou o azul, não tinha. “

 

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Ambulancha e médicos no fim de tarde (foto: Tarso Sarraf)
 

“Cara, eu nunca tinha visto uma foto minha publicar tanto, Eu acho que se tiver umas 1000 publicação é pouco. Te digo francamente, fui agraciada numa coisa que nunca imaginei na minha vida, que é tá no livro da france-presse anual, só os magnatas que tão lá, ano passado teve três fotos minhas lá, essa inclusive." Uma das fotos que está incluída no livro é da primeira quilombola a ser vacinada: "Tive uma grande sorte na minha vida, de fotografar a primeira quilombola do brasil sendo vacinada".

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Senhora quilombola sendo vacinada (foto: Tarso Sarraf)

 

Foto ganhadora do prêmio

“Essa foto foi capa do jornal, mas, originalmente a capa não era essa. Era a foto de uma criança metade de rosto para fora e metade o rosto dentro da água. Mais tarde depois da reunião de fechamento, era uma sexta-feira, o diretor (Daniel Nardin) me liga e fala que queria mudar a capa do jornal. A foto originalmente não era preta e branca.” Traso cita que se a foto fosse colorida, talvez não tivesse ganhado o prêmio.  “Ele (diretor) quando viu, falou que a capa ia ganhar o prêmio. E no final, ganhamos o prêmio do Vladmir Herzog.

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Senhora conversando com profissional da saúde (foto: Tarso Sarraf)

Novos projetos

“Uma das coisas mais surreais que eu já fiz, foi que de certa forma eu fiz dois partos, um da criança quando nasceu e no outro dois anos depois. Ela tinha 17 anos na época, estava com covid, era de menor, e precisava da autorização, eu esqueci da autorização, fui ao hospital novamente e encontrei ela e a avó, e dei a foto de presente.” Tarso cita foto que faz parte do projeto em que ele voltou para Marajó, para registrar as mesmas pessoas dois anos depois. A volta dele foi dia seis de maio de 2022, rendeu registros emocionantes.

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Antes e depois de mãe e filho (foto: Tarso Sarraf) 
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Antes e depois de dona Shirley (foto: Tarso Sarraf)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Antes e depois de senhora que estrelou foto ganhadora do prêmio (foto: Tarso Sarraf)

 

 

 

Ele, fazendo jus à fama de catita em prêmios, colocou mais fotos para competir no prêmio Vladimir Herzog de 2022. Sarraf finaliza a entrevista com um recado para futuros jornalistas: "Acreditar em sonho é essencial, tem que persistir e correr atrás. Pior coisa que tem é quando você é funcionário de uma empresa de comunicação e espera ser pautado, hoje é você que tem que ir pautado para empresa. Sempre gostei de fazer pauta importante e faço até hoje." 

Debate jornalístico busca desmistificar o olhar estereotipado da fotografia na periferia
por
Milena Camargo
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22/11/2021 - 12h

​​​​​Obra de Jéssica Batan compartilhada em seu Instagram "Dá ponte pra cá: o olhar fotojornalístico das periferias”, esse foi o tema abordado na mesa ocorrida terça-feira (9), das 19h às 21h. Cristiano Burmester foi o mediador da roda de conversa, que foi composta por cinco fotógrafos “periféricos”: Daniel Eduardo, Ton Valentim, Josiane Santana e Jessica Batan. O evento aconteceu de forma remota, através da plataforma de vídeo Zoom, e contou com apoio de interpretação de libras - entendendo que esse recurso é indispensável para inclusão.

Jéssica Batan, foi a primeira a se posicionar. A jornalista, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explicou que o hábito da fotografia foi herdado da mãe, que também é fotógrafa. Entretanto, o olhar documental foi adquirido durante os anos de universidade, quando a também moradora do bairro de Realengo – RJ, apreciava e registrava, através da objetiva, o trajeto da Urca - RJ – localidade da cidade universitária - até sua casa.

Nossa vida diária não são só as mazelas que o Estado nos dá”. Batan, iniciou uma grande crítica, que foi não só aprovada, mas complementada por todos da roda. O olhar estereotipado da precariedade e miséria das periferias é algo que incomoda e precisa ser revisto: “As pessoas passam a mensagem de que a favela é só isso”, completou: “não é o que me define”.

​​​​​Obra de Daniel Eduardo compartilhada em seu Instagram

quebrar a taxação da favela como algo ruim” esse também é o objetivo de Daniel Eduardo, 26, morador de Paraisópolis - bairro favelizado da cidade de São Paulo. O fotógrafo explicou que enxergava a fotografia como uma realidade muito distante. A mãe de Daniel foi a percursora direta e indireta desse grande sonho. Direta por impulsionar e incentivar; indireta por ser faxineira de uma grande fotógrafa, que abriu caminhos para esse sonho. Como aprendiz da patroa da mãe, o fotógrafo começou a se desenvolver na área, e viu ali, a oportunidade de mudar sua vida – realmente mudou. E mais que isso: é inspiração para os seus.

@projetoclicknafavela, esse é o user do instaram, de um grande projeto que incentiva e proporciona oportunidade de desenvolvimento, profissional fotográfico, para milhares de crianças e adolescentes da favela de Paraisópolis. Daniel, afirmou que o projeto também tem a preocupação de salientar que: “Pessoas de favela, têm que mostrar pessoas de favela”, isso é importante para que o estigma da periferia como algo ruim deixe de atingir os moradores. Ou seja, o projeto busca a auto valorização do espaço e das pessoas que ali vivem.

​​​​​Obra de Josiane Santana compartilhada em seu Instagram

Josiane Santana, moradora do Complexo do Alemão - bairro que abriga um dos maiores conjuntos de favelas no Rio de Janeiro – foi salva por um projeto cujo intuito era o mesmo do citado acima. “Até os 25 anos, não tinha perspectiva. Casada, mãe, vivendo para o marido e para casa: descobri uma traição”. Diante desse contexto, a mãe solteira viu seu chão se abrir, desempregada, foi abandonada, e acabou voltando para a casa da mãe. Assim começa mais uma grande história sobre o empoderamento da mulher periférica. Josiane começou a trabalhar como recepcionista em uma ONG, que oferecia diversos cursos gratuitos para os moradores do Alemão. Aproveitou a oportunidade e se inscreveu no curso de fotografia, decisão que reverberou mudanças e conquistas extraordinárias.

Fotos publicadas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), no Instituto Tomie Ohtake, participação no Cannes em 2017, e bolsa integral no curso de jornalismo da Facha – universidade de Elite do Rio de Janeiro. Josiane, entende que é uma inspiração e exemplo de empoderamento para muitas pessoas, e, diante disso, um ponto importante de seu olhar fotográfico e consequentemente do que ela busca inspirar, foi colocado: "Optei por mostrar o outro lado. O lado da potência, da arte e do cotidiano riquíssimo de um lugar tão complexo, chamado Alemão”. A fotógrafa também faz parte de um grande projeto chamado Favela Grafia (@favelagrafia – user do Instagram), cujo intuito é também inspirar pessoas e quebrar as normativas contra hegemônicas, destruindo o preconceito.

O diretor do Favela Grafia, Anderson Valentim, ou, Ton Valentim – seu nome artístico-, foi o último a se colocar na roda. Morador do Morro do Borel – comunidade localizada no bairro da tijuca na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro-, afirmou que desde criança possui um fascínio pelo visual. “A rotina e a necessidade de ganhar dinheiro nos deixam entre os sonhos e a vivência”, afirmou Ton, ao se referir ao seu processo de escolha profissional. “Ia pra faculdade para encontrar a galera da música e da arte”, foi assim que descreveu o motivo de sua desistência do curso de Automação Industrial. Logo, após o abandono, o fotógrafo se encontrou no curso de Design gráfico: “Eu gostava de tudo”.

​​​​​Obra de Ton Valentim compartilhada em seu Instagram

Ton, conheceu a fotografia profissional na universidade e afirmou, que como design, busca um estilo próprio nas imagens. Atrelado ao lado artístico, se diferencia dos outros participantes da mesa, que são voltados para o documental. Mas assim como todos, afirma que seu principal papel como fotografo é trazer um diálogo que desmistifique a periferia e traga uma nova narrativa. Junto com o Favela Grafia, conseguiu parcerias muito significativas com a agência NBS e com a Apple – que disponibilizou aparelhos celulares para o projeto. O propósito de mudar a visão estereotipada sobre a favela repercutiu mundialmente ganhando dois Leões em Cannes em 2017, em Entertainment e em Design. Além disso, foi exposto no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
 

Pratiquem a escuta...”

No final do evento, se abriram espaço para perguntas. Ao ser interrogada sobre como jornalistas e fotógrafos, não periféricos, devem cobrir periferia, Batan respondeu: “É necessário contar, mas devemos saber, como contar isso: quem está chegando deve se lavar dos estereótipos antes de ir para aquele lugar”. Daniel complementou: “Antes, estude fotógrafos de periferia, os que não são “hypados” (gíria que equivale a “muito conhecidos”) e possuem trabalhos incríveis. Por fim, Josiane acrescentou: “Pratiquem a escuta, e tomem cuidado para não tomarem o lugar de fala”.

Quando interrogados sobre o caso de Kathleen Romeu - grávida, moradora do complexo do Lins, que foi morta durante uma operação ilegal da polícia, no mesmo dia do evento (8/6) -, Batan confessou só ter parado de chorar, pelo caso, por conta do compromisso com a mesa. Além disso afirmou que a existência antecipa a identificação, então, para que haja representatividade os pretos periféricos precisam continuar existindo.

Quando se é negra tem que andar com a nota fiscal das coisas”. Afirmou Batan, sobre um dos motivos de preferência pelo uso de celular, ao invés das câmeras. Josiane acrescentou: “Já tive que pedir permissão para tirar fotos com a câmera”, nesse sentido o celular acaba sendo mais eficaz, além do imediatismo, que na área documental, é um ponto relevante para a escolha entre ambos. Daniel ressaltou ainda, que o povo periférico é avesso às câmeras justamente por medo de serem retratados de forma pejorativa, e nesse sentido, acrescentou ele que se faz necessário habitua-los com uma retratação positiva. Apesar de ser um processo lento, terá grande resultados futuramente.

como viver de arte em condições financeiras desfavoráveis?”. Essa foi uma questão pincelada durante toda a mesa, com exceção de Ton, todos afirmaram já terem trabalhado retratando eventos para poderem se sustentar. Mas a paixão de todos está atrelada a questões sociais sejam elas, artísticas ou documentais. Diante disso, Ton afirmou: “O audiovisual é muito caro, essa é realmente a primeira barreira. Mas querendo ou não, o celular é uma ferramenta democrática: trabalhe o olho!”.