Do pastelzinho com caldo de cana à hora da xepa, as feiras livres fazem parte do cotidiano paulista de domingo a domingo.
por
Manuela Dias
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29/11/2025 - 12h

Por décadas, São Paulo acorda cedo ao som de barracas sendo montadas, caminhões descarregando frutas e vendedores afinando o gogó para anunciar promoções. De norte a sul, as feiras livres desenham um dos cenários mais afetivos da vida paulistana. Não é apenas o lugar onde se compra comida fresca: é onde se conversa, se briga pelo preço, se prova um pedacinho de melancia e se encontra o vizinho que você só vê ali, entre uma dúzia de banana e um pé de alface.

Juca Alves, de 40 anos, conta que vende frutas há 28 anos na zona norte de São Paulo e brinca que o relógio dele funciona diferente. “Minha rotina é a mesma todos os dias. Meu dia começa quando a cidade ainda está dormindo. Se eu bobear, o morango acorda antes de mim”.

Nas bancas de comida, o pastel é rei. “Se não tiver barulho de óleo estalando e alguém gritando não tem graça”, afirma dona Sônia, pasteleira há 19 anos junto com o marido e filhos. “Minha família cresceu ao redor de panelas de óleo e montes de pastéis. E eu fico muito realizada com isso.  

Quando o relógio se aproxima do meio dia, começa o momento mais esperado por parte do público: a famosa xepa. É quando o preço cai e a disputa aumenta. Em uma cidade acelerada como São Paulo, a feira livre funciona como uma pausa afetiva, um lembrete de que existe vida fora do concreto. E enquanto houver paulistanos dispostos a acordar cedo por um pastel quentinho e uma conversa boa, as feiras continuarão firmes, coloridas, barulhentas e deliciosamente caóticas.

Os cartazes com preços vão mudando conforme o dia.
Os cartazes com preços vão mudando conforme o dia. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Vermelha, doce e gigante: a melancia é o coração das bancas nas feiras paulistanas.
Vermelha, doce e gigante: a melancia é o coração das bancas nas feiras paulistanas. Foto: Manuela Dias/AGEMT
A dupla que move a feira da Zona Norte de São Paulo.
A dupla que move a feira da Zona Norte de São Paulo. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Entre frutas e verduras um respiro delicado: o corredor das flores.
Entre frutas e verduras um respiro delicado: o corredor das flores. Foto: Manuela Dias/AGEMT

 

Apresentação exclusiva acontece no dia 7 de setembro, no Palco Mundo
por
Jalile Elias
Lais Romagnoli
Marcela Rocha
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26/11/2025 - 12h

Elton John está de volta ao Brasil em uma única apresentação que promete marcar a edição de 2026 do Rock in Rio. O festival confirmou o britânico como atração principal do dia 7 de setembro, abrindo a divulgação do line-up com um dos nomes mais celebrados da música mundial.

A presença de Elton carrega um peso especial. Em 2023, o artista anunciou que deixaria as grandes turnês para ficar mais perto da família. Por isso, sua performance no Rock in Rio será a única na América Latina, transformando o show em um momento raro para os fãs de todo o continente.

Em um vídeo publicado na terça-feira (25) nas redes sociais, Elton John revelou o motivo para ter aceitado o convite de realizar o show em solo brasileiro. “A razão é que eu não vim ao Rio na turnê ‘Farewell Yellow Brick Road’, e eu senti que decepcionei muitos dos meus fãs brasileiros. Então, eu quero compensar isso”, explicou o britânico.

No mesmo dia de festival, outro grande nome da música sobe ao Palco Mundo: Gilberto Gil. Em clima de despedida com a turnê Tempo-Rei, que termina em março de 2026, o encontro dos dois artistas lendários torna a programação do festival ainda mais especial. 

Gilberto Gil se apresentará no Palco Mundo do Rock in Rio 2026 (Foto: Reprodução / Facebook Gilberto Gil)
Gilberto Gil se apresentará no Palco Mundo do Rock in Rio 2026 (Foto: Divulgação)

Além das atrações, o Rock in Rio prepara mudanças importantes na Cidade do Rock. O Palco Mundo, símbolo do festival, será completamente revestido de painéis de LED, somando 2.400 metros quadrados de tecnologia. A ideia é ampliar a imersão visual e criar novas possibilidades para os artistas.

A próxima edição também terá uma homenagem especial à Bossa Nova e um benefício pensado diretamente para o público, em que cada visitante poderá receber até 100% do valor do ingresso de volta em bônus, podendo ser usado em hotéis, gastronomia e experiências turísticas durante a estadia na cidade.

O Rock in Rio 2026 acontece nos dias 4, 5, 6, 7 e 11, 12 e 13 de setembro, no Parque Olímpico, no Rio de Janeiro. A venda geral dos ingressos começa em 9 de dezembro, às 19h, enquanto membros do Rock in Rio Club terão acesso à pré-venda a partir do dia 4, no mesmo horário.

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A socialite continuou tendo sua moral julgada no tribunal, mesmo após ter sido assassinada pelo companheiro
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Lais Romagnoli
Marcela Rocha
Jalile Elias
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26/11/2025 - 12h
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz. Foto: Divulgação
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz em nova série. Foto: Reprodução/Divulgação HBO Max

Figurinha carimbada nas colunas sociais da época, Ângela Diniz virou capa das manchetes policiais após ser morta a tiros pelo então namorado, Doca Street. O feminicídio que marcou o país na década de 1970 ganha agora um novo olhar na série da HBO Ângela Diniz: Assassinada e Condenada.

Na produção, Marjorie Estiano interpreta a protagonista, enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. O elenco ainda conta com Thelmo Fernandes, Maria Volpe, Renata Gaspar, Yara de Novaes e Tóia Ferraz.

Sob direção de Andrucha Waddington, a série se inspira no podcast A Praia dos Ossos, de Branca Viana. A obra, que leva o nome da praia onde o crime ocorreu, reconstrói não apenas o caso, mas também o apagamento em torno da própria vítima. Depoimentos de amigas de Ângela, silenciadas à época, servem como ponto de partida para revelar quem ela realmente era.

Seja pela beleza ou pela independência, a mineira chamava atenção por onde passava. Já os relatos sobre Doca eram marcados pelo ciúme obsessivo do empresário. O casal passava a véspera da virada de 1977 em Búzios quando, ao tentar pôr fim à relação, Ângela foi assassinada pelo companheiro.

Por dias, o criminoso permaneceu foragido, até que sua primeira aparição foi numa entrevista à televisão; logo depois, ele se entregou à polícia. Foram necessários mais de dois anos desde o assassinato para que Doca se sentasse no banco dos réus, num julgamento que se tornaria símbolo da luta contra a violência de gênero.

Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz, , enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. Foto: Divulgação
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz, enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. Foto: Reprodução/Divulgação HBO Max

As atitudes, roupas e relações de Ângela foram usadas pela defesa como supostas “provocações” que teriam motivado o crime. Foi nesse episódio que Carlos Drummond de Andrade escreveu: “Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras”.

Os advogados do réu recorreram à tese da “legítima defesa da honra” — proibida somente em 2023 pelo STF — numa tentativa de inocentá-lo. O argumento foi aceito pelo júri, e Doca recebeu pena de apenas dois anos de prisão, sentença que gerou revolta e fortaleceu movimentos feministas da época.

Sob forte pressão popular, um segundo julgamento foi realizado. Nele, Doca foi condenado a 15 anos, dos quais cumpriu cerca de três em regime fechado e dois em semiaberto. Em 2020, ele morreu aos 86 anos, em decorrência de um ataque cardíaco.

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Exposição reúne obras que exploram o inconsciente e a natureza como caminhos simbólicos de cura
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KHADIJAH CALIL
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25/11/2025 - 12h

A Pinacoteca Benedicto Calixto, em Santos, apresenta de 14 de novembro a 14 de dezembro de 2025 a exposição “Bosque Mítico: Katia Canton e a Cura pela Arte”, que reúne um conjunto expressivo de pinturas, desenhos, cerâmicas, tapeçarias e azulejos da artista, sob curadoria de Carlos Zibel e Antonio Carlos Cavalcanti Filho. A Fundação que sedia a mostra está localizada no imóvel conhecido como Casarão Branco do Boqueirão em Santos, um exemplar da época áurea do café no Brasil. 

Ao revisitar o bosque dos contos de fadas como metáfora de transformação interior, Katia Canton revela o processo criativo como gesto de cura, reconstrução e transcendência.
 

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       “Casinha amarela com laranja” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.

 

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                 “Chapeuzinho triste” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                 “O estrangeiro” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.         
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                                                            “Menina e pássaro” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                     “Duas casinhas numa ilha” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                             “Os sete gatinhos” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                                         “Floresta” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.

 

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Festival celebra os três anos de existência com homenagem ao pensamento de Frantz Fanon e a imaginação radical da cultura periférica
por
Marcela Rocha
Jalile Elias
Isabelle Maieru
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25/11/2025 - 12h

Reconhecido como um dos principais espaços da cultura periférica em São Paulo, o Museu das Favelas completa três anos de atividades no mês de novembro. Para comemorar, a instituição elaborou uma programação especial gratuita que combina memória, arte periférica e reflexão crítica.

Segundo o governo do Estado, o Museu das Favelas já recebeu mais de 100 mil visitantes desde sua fundação em 2022. Localizado no Pátio do Colégio, a abertura da agenda de aniversário ocorre nesta terça-feira (25) com a mostra “ImaginaÇÃO Radical: 100 anos de Frantz Fanon”, dedicada ao médico e filósofo político martinicano.

Fachada do Museu das Favelas. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Fachada do Museu das Favelas. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Autor de “Os condenados da terra” e “Pele negra, máscaras brancas”, Fanon contribuiu para a análise dos efeitos psicológicos do colonialismo, considerando algumas abordagens da psiquiatria e psicologia ineficazes para o tratamento de pessoas racializadas. A exposição em sua homenagem ficará em cartaz até 24 de maio de 2026.

Ainda nos dias 25 e 26 deste mês, o festival oferecerá o ciclo “Papo Reto” com debates entre intelectuais francófonos e brasileiros, em parceria com o Instituto Francês e a Festa Literária das Periferias (Flup). A programação continua no dia 27 com a visita "Abrindo Fluxos da Imaginação Radical”. 

Em 28 de novembro, o projeto “Baile tá On!” promove uma conversa com o artista JXNV$. Já no dia 29, será inaugurada a sala expositiva “Esperançar”, que apresenta arte e tecnologia como forma de mapear territórios periféricos.

O encerramento do festival será no dia 30 de novembro com a programação “Favela é Giro”, que ocupa o Largo Pátio do Colégio com DJs e performances culturais.

 

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A primeira edição do festival preenche o Allianz Parque e junta público diversificado com bandas de rock de diferentes gerações.
por
Luana Barros Galeno
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15/11/2022 - 12h
Banda Fresno abre GP Week
Banda Fresno abre GP Week

Neste sábado (12), ocorreu a primeira edição do festival de música GP WEEK, na cidade de São Paulo. Com shows de Fresno, The Band Camino, Hot Chip, Twenty One Pilots e The Killers.
Em referência ao ‘Grande Prêmio’ de Fórmula 1, o evento trouxe bandas que caminham entre sub estilos do rock e atraíram públicos de todas as idades. Com performance eletrizante de Twenty One Pilots e The Killers, a GP Week conquista espaço no grande calendário de festivais da cidade.

Fresno, a única banda brasileira a participar, abriu a sequências de shows às 14 horas e trouxe aos palcos o emo, juntando clássicos com novidades para conquistar a plateia que timidamente começava a preencher o Allianz Parque. Lucas Silveira, vocalista, finalizou a participação do grupo questionando o fato de ser apenas uma banda com canções em português, mas instigou os ouvintes a valorizarem o som nacional com uma versão de Eva, originalmente da Banda Eva, que foi cantada por todos ali presente. 

The Band Camino canta pela primeira vez em solo brasileiro.
The Band Camino canta pela primeira vez em solo brasileiro.

As homenagens ao Brasil não acabaram por aí, pois The Band Camino não poupou palavras para descrever a emoção de, pela primeira vez, tocarem no Brasil - e na América Latina. Pela formação recente, a presença de um público significativo em outro território pareceu surpreender os musicistas, pois não deixavam de agradecer recorrentemente a presença de todos. Aproveitando a oportunidade, convidaram ao palco Mateus Asato, guitarrista brasileiro, famoso internacionalmente por ter tocado com Bruno Mars e Jessie J. Vestidos com a camisa do Palmeiras, a banda encerrou sua participação com uma energia contagiosa. 

A banda The Hot Chip, criou um clima ainda mais animado para as bandas mais esperadas da noite, Twenty One Pilots e The Killers. O primeiro transformou o estádio às 19:00, o uníssono dos ouvintes era eletrizante e a entrega do duo incomparável. Com momentos surpreendentes, como a escalada da torre de apoio pelo Tyler Joseph e a bateria em cima da plateia por Josh Dun, a banda cria mais um show inesquecível em solo brasileiro. A interação com o público foi fundamental para que pudessem ser considerados os protagonistas da festa, sendo ovacionados ao finalizarem com “Heathens”.

O atestado da união de gerações ficou ainda mais claro com o show de The Killers, que encerraram a noite. O Allianz, que à tarde encontrava um público mais jovem, encarava durante o show espectadores maduros, mas com a vitalidade de Brandon Flowers, vocalista da banda. Com as letras na ponta da língua, os 50 mil presentes, entregaram todos os hits da banda de forma excepcional, demonstrando que a pergunta de Brandon “vocês esqueceram da gente?” era apenas ironia. Porém, um destes fãs foi convidado ao palco para tocar “For Reasons Unknown” e o fez perfeitamente em meio a aplausos e gritos. A GP Week conquista através das atrações e do público, o espaço necessário para se consagrar como mais um festival paulista no calendário nacional. 

Twenty One Pilots ganha protagonismo no festival
Twenty One Pilots ganha protagonismo no festival

 

Aos 86 anos, Rolando Boldrin, fica encantado e deixa para trás seu legado na cultura
por
Artur dos Santos
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10/11/2022 - 12h

A cultura brasileira hoje arde de vazio pois daqui pra sempre faltará o Brasil que ele cantou, contou e resgatou. 

Tirar o Brasil da gaveta não é tarefa fácil pelo tamanho do nosso país e pelo peso do seu legado. Isso ele carregava com o riso e presepada característicos do nosso povo brasileiro. Faço questão de chamá-lo de Sr Brasil pois sei que carregava o quanto podia (e quanto podia!) dessa nossa casa desde jovem, e por confiar nele o que tanto carregava. 

Sei que viu seu último dia do saci, seu último carnaval, seu último São João, Divino, São Gonçalo, Catira, Frevo, Samba, Repente, Modão como sempre: sabendo que aqui é um lugar especial. 

Trazia sempre um causo - aqueles que expressam o quão sabido e cheio de ideia é o povo brasileiro, o quão bonito é seu país e o quão casado esse está com sua terra - e de todos que ouvi, gostei. Nada melhor do que ver um senhorzão grande (o Sr. Brasil!), narigudo e de cabelos brancos, com toda a bagagem que poderia querer ter, se fazendo de porta voz de causos populares contados pelos mais longínquos brasileiros - afinal, o que é de alguém desse país se não um contador de causos - dos mais longínquos territórios. 

Quantos caboclos ele não interpretou? O quieto, o falante, o rezadêro, o violeiro, o pescador, o esmoleiro, o ateu, o fazendeiro, a mãe, a irmã, o peão. Com tantos causos fez rir a plateia, cativou e fez lembrar, daqueles que estavam longe de casa, de como era a vida fora da cidade. 

Nos convencia com toda a proclamação que era o caboclo que representava. Tomando aquele café na xícara vazia e sentando no banquinho de madeira, contava e contava causos, recebia e recebia artistas, e, óbvio, falava e falava de Brasil.

Parceiro de Ariano, o Sr Brasil, quando cantava que “A viola fala alto no meu peito, mãe” aposto que queria dizer que o Brasil falava alto em seu peito. Isso pois sim, falava e falou alto por seus 86 anos de vida, durante os quais tirava da gaveta nosso país para nos contar e lembrar dele. “Tem que fechar a história, deixar marcada na história nossa vida brasileira”, dizia ele. 

 

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A assessoria da cantora confirmou o falecimento nesta manhã, 4a.feira, 09/11.
por
Lua Beatriz
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09/11/2022 - 12h

Nesta quarta-feira (09), a música popular brasileira perdeu uma de suas mais impactantes vozes, Maria da Graça Costa Penna Burgos (Gal Costa), em São Paulo.  

De acordo com informações divulgadas pela equipe de Gal, a artista de "Lágrimas Negras" havia passado, recentemente, por uma cirurgia de retirada de nódulo na fossa nasal direita, resultando no adiamento de apresentações agendadas. Mas a causa legítima da morte segue desconhecida. 

Made in Bahia. Um tributo a uma das Marias brasileiras

Imagem/Reprodução: Google
Imagem/Reprodução: Google 

Munida de um talento incomparável, Gal Costa foi cantora, compositora, multi-instrumentista, mãe e defensora dos direitos humanos.

O envolvimento da ícone com a arte iniciou no ventre da mãe e incentivadora Mariah Costa Penna (falecida em 1993), que relatava ter dedicado horas da gravidez ouvindo musicas, na intenção de envolver e introduzir a filha ao mundo musical. 

A musicista estreou a carreira na década de 60, ainda na adolescência, e colecionou grandes parcerias como Maria Bethânia, Gilberto Gil e Caetano Veloso, sendo parte da consolidação do Tropicalismo, movimento caracterizado como revolucionário e libertário, afim de aproximar a música da cultura brasileira e resgatar a identidade popular do país. 

Como canta em um trecho, Gal acreditava que belezas eram coisas acesas por dentro, e assim, se despede para uma nova jornada. A marcante voz que hoje se calou, continuará ecoando por meio das principais obras deixadas, como "Baby", "Chuva de Prata", "Sorte" e "Aquarela do Brasil". 


 

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Fundada no bairro da Penha (zona leste de SP), o local marca o legado da história de luta contra a escravidão
por
Gustavo Oliveira de Souza
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28/10/2022 - 12h

Em 2002, um grupo chamado Comissão do Rosário dos Homens Pretos da Penha resolveu retomar a velha tradição de celebrar Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, celebrando os 200 anos da Igreja Rosário dos Homens Pretos da Penha, uma das únicas obras erguidas por negros que ainda se mantêm em seu local de origem. A importância da Igreja se deve ao fato da junção de duas outras igrejas de São Paulo: o Santuário Eucarístico Nossa Senhora da Penha e a Capela de Nossa Senhora do Rosário e outro fato que evidencia o valor da obra é o fato dela ter sido construída “dando as costas” para o centro da cidade, já que era uma igreja frequentada por escravos. Desde sua reinauguração, uma celebração no primeiro domingo de todos os meses do ano que é a Celebração Inculturada Afro Brasileira é feita com o intuito de resgatar a memória dos antepassados e relembrar a luta deles pela religião de matriz africana em São Paulo. A estrutura chamada de Largo do Rosário fica localizada no bairro da Penha, bairro de grande importância da Zona Leste da cidade e o prédio foi tombado no ano de 1982 depois de ter recebido pequenas reformas, reforçando a importância desse patrimônio para São Paulo. 

Em entrevista com Cristiane Gomes, coordenadora do corpo de dança do bloco Ilú Oba de Min, bloco fundado em 1987 e explora ritmos brasileiros e africanos, juntando toda a diversidade cultural desses locais fala um pouco da importância da Igreja: “Ela surgiu como forma de resistir à Igreja Católica, que era predominante na cidade. Todos os escravos e refugiados iam até o local para terem seu momento de conexão com seus ancestrais e festejarem que ainda estavam vivos, mesmo com toda a tentativa de extermínio dos povos por parte do catolicismo. Esse resgate que está sendo feito é de extrema importância para o Brasil por que fortalece ainda mais a nossa luta pelas religiões de matriz africana”.  

Falando um pouco a respeito do Projeto Ilú Oba de Min, Cristiane fala da pesquisa feita acerca da música afro-brasileira: “O bloco tem como intuito preservar a identidade negra brasileira na música abrindo espaço com outras áreas do conhecimento através de aulas, debates e exposições e é feito de forma independente, sem nenhuma ajuda de uma grande empresa ou ajuda de governo”. 

O Bloco Ilú participa de algumas das festividades da Igreja do Rosário e a última delas aconteceu no mês de setembro, no Festival Musical Agô, exaltando toda a música ancestral, começando pelo circo, passando pelo samba e terminando com a apresentação do bloco.  

Foto de Douglas de Campos

                                                                                                               Foto de Douglas de Campos/Facebook 

O tamanho da importância da Igreja Rosário dos Homens Pretos da Penha para as religiões de matriz africana, para os negros e para a cidade de São Paulo deve sempre ser exposta. Sem ela, os escravos não teriam locais para exaltarem sua fé e a luta dos escravos seria ainda mais difícil e o significativo é tamanho devido o fato da Igreja do Rosário ainda ser um dos únicos locais construídos pelos negros que ainda se mantém de pé, como forma de protesto a Igreja Católica e de luta contra o racismo, e nós devemos sempre exaltá-la.  

A prática - chamada por vezes de dança, e outras de luta - representa empoderamento e busca expansão
por
Lucas G. Azevedo
Matheus Marcolino
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27/10/2022 - 12h

“Tem pessoas que acreditam que a capoeira se resume ao ‘paranauê’ (). Se você vai numa roda de capoeira, vai ver que, hoje em dia, raramente se escuta o paranauê”. É assim que Wagner, o Mestre Sabão de Capoeira, define a falta de conhecimento sobre a capoeira por parte do público geral. Mesmo após séculos e séculos de prática no Brasil, ainda se enfrenta dificuldade em atingir novos praticantes. 

Para contar um pouco da história da capoeira e a relevância dela na cultura brasileira, esta reportagem entrevistou Mestre Sabão, psicólogo e mestre do Grupo Praia de Amaralina, e Rafael Blessa, historiador e mestrando em história com a capoeira como objeto de pesquisa. 

Não se sabe ao certo a data de surgimento da capoeira, mas, de acordo com Rafael Blessa, isso aconteceu entre os séculos XVII e XVIII. “É uma mescla de práticas, principalmente de influência da diáspora africana, então, são práticas que vão surgir no Brasil, exclusivamente no Brasil, a partir de práticas que já existiam na África”, conta o historiador.  

A luta é criada, basicamente, para resistir ao processo de escravização da população preta, que sofria nas mãos dos senhores de engenho. Tudo surge durante um processo de “intercâmbio” que, como conta Rafael, foi bastante violento: “Intercâmbio que, na verdade, é uma palavra muito ‘bonitinha’ para falar sobre o processo de massacre - tanto dos povos nativos, quanto dos povos africanos aqui no Brasil -, mas [a capoeira] surge desse processo de troca de culturas, tanto africanas quanto ameríndias”, diz. “A capoeira é fundamental nesse processo de resistência à escravidão, porque é ela que faz com que os senhores de engenho e os capatazes tenham medo de agredir os escravos - pois eles também dominam uma técnica de luta que é capaz de ir contra o poderio ofensivo, legitimado pelo Estado, com armamentos mais pesados”, explica o professor. 

Treino de Capoeira. Foto: Reprodução/ Instagram Grupo Praia de Amaralina.
Treino de Capoeira. Foto: Reprodução/ Instagram Grupo Praia de Amaralina.

Apesar da resistência por meio da capoeira, o pós-escravidão no Brasil foi marcado pela marginalização da prática. A Lei Áurea foi outorgada em 1888, e, um ano depois, o país se tornou uma República - o racismo, como sabemos, se manteve inabalável. “Os republicanos não queriam nada que fizesse referências aos negros, então o Brasil continuou sendo um país racista - e não queriam permitir nada que tivesse a cultura africana impregnada”, continua o historiador. “Dentre esses fatores, a capoeira vai ser criminalizada no primeiro código penal republicano, Artigo 402, dos vadios e capoeiras. Vai falar que todo mundo que for pego praticando capoeira vai ter pena de detenção de seis meses, e os líderes daquilo que chamavam de bandos, teriam pena em dobro”, conta Rafael.  

A capoeira seguiu marginalizada até a virada do século, quando, na década de 1920, começou a ser valorizada como um esporte, uma prática verdadeiramente nacional. O assunto é, inclusive, o projeto de pesquisa de mestrado de Rafael Blessa. “É o meu projeto [...], falar sobre como a capoeira passou a ser esporte e deixou de ser crime. [...] Se torna um símbolo de identidade nacional como um esporte que foi criado justamente aqui, com uma carga histórica grande, de resistir ao processo de escravidão e que consequentemente vai ganhando o mundo, sendo extremamente respeitado, não só pelo seu caráter esportivo, mas pelo seu caráter cultural”, afirma o professor de história, que também é praticante da modalidade. “Hoje a capoeira está presente em mais de 130 países e é respeitadíssima, não só culturalmente, mas até como uma arte marcial, que se iguala com outras artes ao redor do mundo”, conclui.  

Como esporte ou como dança, a capoeira se relaciona com a sociedade e com outras áreas da vida. Mestre Sabão diz “não se incomodar” com o tratamento de dança, mas vê predominância de movimentos mais belos em apresentações voltadas ao público “leigo”. Além disso, destaca a relação - indireta, segundo ele - da capoeira com a psicologia, sua área de trabalho: “Eu tenho alunos hoje que dão aula, e vejo uma questão indireta: muitos alunos se interessam por psicologia por causa da capoeira. Já casei alunos que se encontraram na capoeira, e gosto de pensar pelo olhar de ‘família’. Eu acho que a cultura tem essa influência, de ter esse pano de fundo, que é a família. Consigo perceber meus alunos além, por um vínculo de ordem afetiva”. 

Roda de Capoeira. Foto: Reprodução/ Instagram Grupo Praia de Amaralina.
Roda de Capoeira. Foto: Reprodução/ Instagram Grupo Praia de Amaralina.

O professor Rafael Blessa reforça a importância da valorização da capoeira como manifestação de resistência cultural: “Entendo a importância dessa prática, porque acho que ela é uma prática cultural esportiva fundamental que temos, no Brasil, que trabalha massivamente a história da população negra”, afirma o historiador, que completa: ‘A gente consegue através da capoeira contar a história, e a capoeira também é um meio de transformação social e de conscientização da população de massa”. 

Para Mestre Sabão, porém, os praticantes da capoeira não têm dado muita atenção à história: “A capoeira é muito carente de intelectuais, de pessoas que pensem sobre a capoeira. Encontrar um material de capoeira que não seja tendencioso é muito raro. Sempre que alguém me pede algo sobre, peço pra procurarem historiadores. Acredito que esse é um dos fatores que fazem com que a capoeira esteja tão distante de fomentos, de editais, de projetos…”, diz.  

Apesar da “reclamação”, o mestre acredita que o caminho do fomento da capoeira está dentro da esfera pública: “Políticas públicas, de preferência a investida em vulnerabilidade, em lugares de exclusão social. além disso, acho que deve ter a busca por uma narrativa que seduza pessoas que possam investir em projetos assim”, afirma o psicólogo. 

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