Temporada amplia debates sobre identidade juvenil
por
Gabriela Dias
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16/04/2026 - 12h

A terceira temporada de “Com Carinho, Kitty”, produção da Netflix, marca uma mudança significativa na trajetória da série. Além de dar continuação a história de Kitty Song Covey (Anna Cathcart), os novos episódios mostram um amadurecimento evidente na narrativa, que passa a abordar com mais profundidade temas como identidade, pertencimento e crescimento emocional.

Diferente das temporadas anteriores, que priorizavam romances rápidos e conflitos mais leves, a nova fase aposta em um desenvolvimento mais cuidadoso dos personagens. A protagonista, por exemplo, deixa de ser movida apenas por idealizações amorosas e começa a enfrentar as consequências de suas escolhas, lidando com frustrações e inseguranças de forma mais realista.
 
Logo no início, a temporada apresenta um cenário de recomeço, mas sem apagar os erros do passado. A principal mudança está no andamento da narrativa: os conflitos não são resolvidos de forma imediata e passam a impactar diretamente as relações entre os personagens. Essa mudança de ritmo, mais lenta, contribui para um desenvolvimento emocional da protagonista, em que ela deixa de ser apenas uma jovem guiada por ideais românticos e passa a assumir decisões que exigem maior responsabilidade, o que torna a história mais próxima da realidade do público jovem.
 
Os relacionamentos continuam sendo o eixo central, mas ganham mais complexidade. A série abandona, em parte, a ideia de romances perfeitos e investe em vínculos mais instáveis, marcados por falhas de comunicação, expectativas diferentes e instabilidade. Ampliando a identificação do público, que passa a enxergar situações mais próximas do dia a dia.
Kitty e seu interesse amoroso protagonizando uma das relações centrais da nova temporada. Foto: Reprodução/Netflix
Kitty e seu interesse amoroso protagonizando uma das relações centrais da nova temporada. Foto: Reprodução/Netflix
 

 

Mesmo com esse avanço, a idealização do amor ainda aparece como um elemento importante. Kitty mantém, em diversos momentos, uma visão romantizada das relações, acreditando em sentimentos intensos e imediatos. No entanto, a própria narrativa questiona essa perspectiva ao mostrar que o amor também envolve dúvidas, erros e aprendizado algo que pode influenciar diretamente a forma como adolescentes enxergam seus próprios relacionamentos.
 
Ao mesmo tempo, os personagens secundários passaram a ter maior protagonismo. Eles abandonaram a função de apoio narrativo e agora contribuem para um universo mais amplo, trazendo seus problemas pessoais para a trama, causando um maior envolvimento do público. Os acontecimentos da personagem Yuri Han (Gia Kim) que ganharam grande desenvolvimento na trama, se tornou um núcleo importante dessa terceira temporada.
 
Outro destaque é o aprofundamento das questões de identidade. A vivência da protagonista em um contexto cultural diferente ganha mais espaço, trazendo reflexões sobre pertencimento e construção pessoal. Esse aspecto amplia o alcance da série, que passa a dialogar com experiências comuns entre jovens.
Registros de bastidores mostram o clima das filmagens da terceira temporada com o retorno de Lana Condor. Foto: Reprodução/ @annacarthcart
Registros de bastidores mostram o clima das filmagens da terceira temporada com o retorno de Lana Condor. Foto: Reprodução/ @annacarthcart
 
O retorno de Lara Jean, interpretada por Lana Condor, reforça esse debate. Vinda do universo de “Para Todos os Garotos que Já Amei”, da autora Jenny Han, a personagem representa uma visão mais idealizada do amor, em contraste com as experiências mais instáveis vividas por Kitty. A comparação entre as duas evidencia que não existe um único modelo de relacionamento, o amor pode assumir diferentes formas, dependendo das experiências individuais.
 
Outro ponto crucial desta temporada foi um novo ponto de vista de romance vivido pela Lara Jean, no qual passa por um período instável em seu relacionamento, deixando claro que mesmo o amor idealizado tem seus problemas. 

Nos episódios finais, a série assume um tom mais reflexivo. As decisões tomadas ao longo da trama geram consequências, exigindo maior maturidade da protagonista. Ao evitar finais perfeitos, a produção valoriza o desenvolvimento pessoal em vez da resolução romântica.

O desenvolvimento amoroso de Kitty ganha maior evolução ao se aproximar de Min Ho (Sang Heon Lee), em uma relação que surge de forma gradual e menos idealizada, marcada por trocas sinceras. Diferente de suas experiências anteriores, o vínculo entre os dois se constrói a partir da convivência e da vulnerabilidade, evidenciando um sentimento mais realista e menos impulsivo, que foi sendo desenvolvido desde a primeira temporada.
 
A terceira temporada de “Com Carinho, Kitty” equilibra entretenimento e aprofundamento narrativo. Mesmo mantendo elementos leves, a série demonstra evolução ao abordar temas mais complexos e próximos da realidade do telespectador, consolidando sua identidade própria e acompanhando o amadurecimento do público.
Relação entre Kitty e Min Ho ganha novos desdobramentos na terceira temporada da série. Foto: Reprodução/Netflix
Relação entre Kitty e Min Ho ganha novos desdobramentos na terceira temporada da série. Foto: Reprodução/Netflix
 

 

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Museu da Imagem e do Som realiza novo evento literário que valoriza a diversidade e qualidade editorial brasileira, explorando publicações para ver, ouvir e ler
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Carolina Machado
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15/04/2026 - 12h

No último final de semana, nos dias 11 e 12 de abril, ocorreu a primeira edição da Feira do Livro do MIS (FLIMIS) no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. Em parceria com a editora Lote 42, a FLIMIS teve como objetivo agregar exposições literárias e práticas criativas, inteiramente gratuitas, que remetem ao exercício de ouvir, falar e observar.

Entrada da FLIMIS: apresentação dos expositores e das atrações do mais novo evento literário de São Paulo. Foto: Carolina Machado/AGEMT
Entrada da FLIMIS: apresentação dos expositores e das atrações do mais novo evento literário de São Paulo. Foto: Carolina Machado/AGEMT

A feira buscou reunir publicações de 75 expositores que exploram diferentes linguagens artísticas, especialmente aquelas vinculadas à imagem e ao som: fotografia, cinema, ilustração, quadrinhos, música e poesia.

Pedro Augusto, de 30 anos, representou a Anansi Lab, um laboratório de letramento racial transmídia independente, fundado em 2018. A oficina produz e compartilha narrativas subalternizadas por meio de publicações, palestras, bate-papos e rodas de samba. Entre os produtos, o expositor conta com uma revista trimestral de divulgação científica e cultural antirracista chamada Sikudhani, publicada a cada três meses. “Nosso trabalho recolhe materiais, os organiza e os publica como forma de reocupação do espaço tomado pelo colonialismo e imperialismo que nos domina até hoje”, relata Pedro.

Sobre a primeira edição da FLIMIS, o representante da Anansi Lab diz ter interesse em voltar às próximas edições. “Essas feiras são uma ótima oportunidade para encontrarmos novos leitores, artistas e, sobretudo, trocar ideias”, conclui.

Área de exposição da FLIMIS. Foto: Carolina Machado/AGEMT
Área de exposição da FLIMIS. Foto: Carolina Machado/AGEMT

As produções impressas presentes representavam a diversidade editorial brasileira tanto pela construção literária quanto pelas técnicas gráficas utilizadas, como gravura e xilogravura. Os dois dias de evento contaram com uma oficina de carimbos que pôde aproximar o público de técnicas gráficas presentes nas publicações, exercitando o processo criativo e a composição artística.

A feira promoveu também 14 palestras relacionadas a produções específicas do catálogo das editoras e dos artistas participantes. A programação de falas era focada em uma única publicação, visando expandir a experiência de leitura e aproximar o público das obras. Os autores compartilharam bastidores, experiências e outros aspectos dos múltiplos caminhos que a arte impressa pode seguir, como a edição e a produção gráfica.

Palestra sobre a produção “9×12”, com Rossana Di Munno, Borogodó Editora Foto: Carolina Machado/AGEMT
Palestra sobre a produção “9×12”, com Rossana Di Munno, Borogodó Editora. Foto: Carolina Machado/AGEMT

 

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Filme e relato de refugiadas presentes na sessão, ajudam a entender o conflito entre Irã e Israel
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Maria Olívia Almeida
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15/04/2026 - 12h

No dia 26 de março de 2026, a Folha, em parceria com o Cinema Belas Artes, realizou a pré-estreia do filme “Tatame” de 2023. Com um debate após a sessão, o público discutiu o alcance da política iraniana na vida da população, tema proposto pelo filme.

A obra aborda a jornada de uma lutadora de Judô iraniana, Leila Hosseini (Arienne Mandi), impedida de lutar contra uma atleta israelense. A judoca e sua treinadora Maryam (Zar Amir Ebrahimi) são ameaçadas pelo comitê esportivo de seu país e pressionadas a fingir uma lesão em Leila para que ela saia do Campeonato Mundial de Judô, evitando a luta.

Na imagem em preto e branco está Maryam (Zar Amir) de pé à esquerda, usando um quimono preto e um hijab cinza. Na direita está Leila Hosseine (Arienne Mandi), de quimono branco e hijab preto. Ambas as mulheres olham para a frente com feições sérias.
Zar Amir Ebrahimi e Arienne Mandi no filme Tatame – Foto: Reprodução

 

Dirigido pela iraniana Zar Amir Ebrahimi, que também interpreta Maryam, e pelo israelense Guy Nattiv, o filme desconstrói a barreira político ideológica entre iranianos e israelenses representando de forma breve a amizade entre Leila e Shani, lutadora que atua em nome de Israel. Assim, os diretores optaram por uma ênfase na opressão realizada pelo regime teocrático do Irã sobre o povo, em especial sobre as mulheres.

A obra parte de casos reais, como de Saeid Mollaei, lutador de judô nascido no Irã que hoje luta defendendo a Mongólia. O atleta mudou sua representação após ignorar ordens de deixar torneio para evitar enfrentar Israel, em 2019.

Esses conflitos se dão pelo regime iraniano não reconhecer Israel como país, tornando qualquer luta direta com uma representação israelense, por mais que esportiva, um desvio político. Assim, articulando a conjuntura geopolítica contemporânea com a ficção, o filme apresenta o dilema entre continuar lutando ou apoiar a posição de seu país.

Na imagem em preto e branco está Leila Hosseine (Arienne Mandi) ajoelhada no meio de um tatame. Ela usa um quimono branco e seus cabelos estão trançados e a mostra.
Arienne Mandi no filme Tatame – Foto: Juda Khatiapsuturi/Keshet Studio

 

Após a exibição da obra no dia 26 de março, o debate contou com a participação do jornalista Sandro Macedo e da pesquisadora Isabelle Castro, do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP). Além dos convidados, a plateia integrou de forma ativa a discussão.

No encontro, estavam presentes as ativistas e refugiadas políticas iranianas Mahmooni e sua irmã, Mahsima Nadim, que trouxeram para o evento uma perspectiva pessoal da vida em meio ao regime autoritário representado.

Apesar de “Tatame” ser gravado em preto e branco, a discussão destacou a importância de se considerar todos os muitos subtons do conflito. "Parece uma coisa gratuita, e não é", criticou Castro sobre o filme, que considerou carregado de um tom simplista. Isabelle ainda abordou em seguida como o Irã, após a revolução de 1979, passou a considerar Israel inimigo em função da guerra na Palestina.

Além dessas falas, Mahsima relatou: "desde criança a gente aprende que qualquer pessoa que apertar a mão de um judeu vai ficar impuro por 40 dias". Acrescentando ao cenário o teor ideológico antissemita perpetuado.

Dessa maneira, o filme provoca uma reflexão sobre as implicações de decisões políticas em todo aspecto da vida, representando a instrumentalização do esporte na imposição de uma agenda geopolítica. Um tatame de competição, aparentemente neutro, se torna um cenário de conflito pessoal e social.

 

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Após 13 anos, a banda carioca subirá aos palcos revisitando os grandes sucessos da carreira
por
Beatriz Neves
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14/04/2026 - 12h

Neste domingo (12), Paula Toller, George Israel e Bruno Fortunato anunciaram a turnê “Eu tive um sonho”, que conta com dez shows passando pelas principais capitais do Brasil, iniciando no Rio de Janeiro, em junho, e encerrando em Florianópolis, em outubro. Os ingressos estão disponíveis na plataforma Ticketmaster.

O fim do hiato 

O Kid Abelha foi criado na década de 80 e atingiu o auge dez anos depois, acumulando  mais de 9 milhões de discos vendidos no Brasil. A canção “Como eu quero”, que faz parte do álbum de estreia da banda “Seu espião”, tornou-se um grande sucesso nacional e um dos maiores hits do pop rock brasileiro nos anos oitenta. Ao longo das décadas seguintes, o grupo permaneceu ativo nos palcos e nas rádios, mantendo sua importância no cenário da música até que o ciclo da banda chegasse ao seu desfecho.

Em abril de 2016, o Kid Abelha anunciou oficialmente o término de uma trajetória de mais de 30 anos. Após um recesso iniciado em 2013, o trio encerrou as atividades de maneira definitiva. Na ocasião, Paula Toller explicou que a separação foi fruto de um desgaste natural e do desejo de seguir novos rumos.

O que esperar da turnê

O repertório indica ser uma viagem ao passado, com arranjos que mantêm a identidade do rock popular que marcou gerações e trazem sucessos como “fixação”, “Lágrimas e Chuva” e “Alice”. Com apenas dez apresentações exclusivas, o concerto percorrerá arenas e grandes casas de shows, oferecendo uma produção visual contemporânea que destaca o reencontro após mais de dez anos de espera.

Imagem de divulgação da turnê
Divulgação da turnê - Foto: Reprodução: (@kidabelha)

 

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Série sobre o romance de John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette combina estética fiel e trilha sonora marcante, reacendendo o debate sobre privacidade
por
Livia Vilela
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08/04/2026 - 12h

A série Love Story (2026), criada por Connor Hines e produzida pelo controverso e consagrado Ryan Murphy, rapidamente se consolidou como um fenômeno do streaming ao revisitar o relacionamento entre John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette. Protagonizada por Paul Anthony Kelly e Sarah Pidgeon, a série chegou ao fim no dia 27 de março, com o lançamento do episódio final. Mais do que um drama romântico, a série se constrói como um retrato controverso da vida pública, explorando o amor entre duas figuras icônicas enquanto evidencia o peso da exposição constante que moldou suas trajetórias.


Antes de chegar às telas, a história de John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette já era amplamente conhecida. Filho do ex-presidente John F. Kennedy, assassinado em 1963, JFK Jr. cresceu sob intensa exposição midiática, impulsionada sobretudo pela visibilidade da sua família. Formado em Direito, atuou como advogado, fundou a revista George e foi declarado o homem mais sexy do mundo pela revista People em 1988. Já Carolyn, publicitária da Calvin Klein, nunca foi uma figura pública e tornou-se um ícone de estilo dos anos 1990 por sua estética minimalista e discrição. Os dois morreram tragicamente em 1999, em um acidente de avião no litoral de Massachusetts, no qual também morreu a irmã de Carolyn, Lauren Bessette.

cartaz love story
Cartaz da série Love Story de 2026
Foto: Divulgação/Instagram @lovestoryfx


Um dos maiores méritos da série está na forma como ela evidencia a espetacularização da intimidade. A narrativa acompanha uma mulher anônima que, ao se envolver com um homem que sempre teve uma vida pública, passa a lidar com uma exposição que antes não fazia parte de sua realidade. A série acerta ao mostrar como a fama não apenas acompanha, mas atravessa e redefine as relações pessoais.


A trilha sonora é um destaque por si só justamente por sua precisão histórica e sensorial. Ao apostar em hits marcantes dos anos 1990  (período em que a história se passa), como “It Ain’t Over ’Til It’s Over”, de Lenny Kravitz, e “Linger”, do The Cranberries, a série não apenas ambienta, mas transporta o espectador para a época.A música funciona como um elo direto com a narrativa, ajudando a construir uma sensação de imersão e familiaridade. 


Sob a curadoria de Jen Malone, responsável pela trilha, essa seleção reforça o tom nostálgico da série e insere o público de forma orgânica em um imaginário afetivo dos anos 90. Em entrevista à Vogue, ela afirma: “Eu recorri à minha própria playlist de músicas dos anos 90 que amo e fui organizando cada uma em seu respectivo ano. Nova York, para mim, é quase um personagem da história. Dizemos muito isso na TV: que a música é um personagem. Mas em obras de época ela realmente se torna um personagem, porque ajuda a transportar o espectador para dentro da história.”

imagem divulgação love story
Paul Anthony Kelly como JFK Jr. em Love Story
Foto: Divulgação/Instagram @lovestoryfx


A cinematografia e a caracterização também são um ponto forte. A estética é cuidadosamente elaborada, com enquadramentos elegantes e uma paleta que remete ao glamour dos anos 1990. Ao mesmo tempo, carrega uma certa frieza que reflete o distanciamento emocional provocado pela exposição midiática. Já a caracterização dos personagens é precisa, contribuindo para a imersão e para a construção de figuras complexas. 


Curiosamente, as escolhas da produção não foram bem recebidas de início: quando as primeiras imagens de Sarah Pidgeon como Carolyn Bessette foram divulgadas, parte do público reagiu negativamente, criticando especialmente o tom do cabelo e apontando que o visual não imprimia o estilo icônico de Carolyn. As mudanças vieram na sequência, com o ajuste no tom de loiro da atriz e a escolha de peças mais sofisticadas e verossímeis com os anos 1990 para o guarda-roupa da personagem. Uma reação que antecipa a própria tensão central da série sobre imagem, memória e expectativa.

imagem divulgação love story
Sarah Pidgeon e Paul Anthony Kelly como Carolyn Bessette e JFK Jr. em Love Story
Foto: Divulgação/Instagram @lovestoryfx

 


No entanto, é justamente nesse ponto que a série abre espaço para um contraponto importante. Jack Schlossberg, sobrinho de John F. Kennedy Jr., criticou duramente a produção, dizendo que se trata de um “espetáculo grotesco” que transforma uma história pessoal e trágica em entretenimento sensacionalista. Sua reação evidencia um incômodo central: ao mesmo tempo em que denuncia a invasão de privacidade sofrida pelo casal, Love Story inevitavelmente reproduz essa lógica ao recontar e dramatizar momentos íntimos, muitos deles atravessados por dor e perda.


Assim, a série se coloca em uma posição ambígua. Ela critica a cultura que consome vidas privadas como espetáculo, mas também depende dela para existir e engajar o público. Essa contradição talvez seja um dos aspectos mais interessantes da obra, pois amplia a discussão para além da narrativa e a insere no próprio funcionamento da indústria do entretenimento.


No fim, Love Story é uma série extremamente envolvente e, em muitos momentos, até divertida, graças ao seu ritmo, estética e apelo emocional. Mas, para além do entretenimento, ela também convida à reflexão. Ao revisitar a vida de figuras públicas, a produção nos faz pensar sobre os limites entre o público e o privado. E, sobretudo, sobre o que significa, de fato, ter uma vida pública em uma cultura que transforma intimidade em espetáculo. A série deixa, então, uma pergunta incômoda: até que ponto vale abrir mão da própria privacidade em nome do amor e o que sobra de uma relação quando tudo nela se confunde com a vida pública?

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Em comemoração aos 10 anos de existência, a exposição reúne cultura e resistência através da arte
por
Daniela Cid
Maria Clara Palmeira
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13/11/2025 - 12h

Desde setembro de 2025, o Memorial da Resistência abriga a exposição “Ouvidor 63, habitar el arte”, uma mostra artística, gratuita, idealizada pelos moradores da ocupação, composta por imigrantes da América Latina e brasileiros, em conjunto com pesquisadores e estudantes do Departamento de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Esta parceria com a universidade se iniciou em 2023 através do projeto “Ocupaciones: arte, espacio y reinvención de la vida cotidiana”, com o apoio da FAPESP. 

A exposição trata da história da ocupação Ouvidor 63, recriando seus espaços dentro do museu, apresentando obras, registros, depoimentos e ações realizadas pelos artistas ocupantes. De acordo com seus organizadores, é um convite para que as pessoas se aproximem e conheçam a luta deste espaço mais de perto. 

No terceiro andar do prédio do Memorial da Resistência, a mostra se organiza em 6 principais temas: ¿Qué hacer si llega la policía?, Salón, Biblioteca, Cuarto, Cocina e Teatro. Cada um deles conta sobre uma parte da estrutura do prédio Ouvidor 63, sua importância e suas histórias. Além da exposição, o Memorial da Resistência ainda recebe ações artísticas que fazem parte da programação e são realizadas pelos próprios ocupantes, propondo diálogos sobre questões enfrentadas dentro da Ouvidor 63.

Visão Geral da exposição
Visão da exposição "Ouvir 63 - Habitar a arte". Foto: Maria Clara Palmeira/AGEMT

Nomadismo Artístico

A AGEMT acompanhou as performances sobre o tema Imigrações e Nomadismos. O fotógrafo João Vitor Pereira (Manga), natural de Ceilândia no Distrito Federal, que chegou a São Paulo há 6 meses, explica o conceito de Nomadismo Artístico: “Vim pra cá pelo ‘corre’ da arte. São Paulo é uma cidade grande, e posso crescer no meio artístico”. Após suas andanças pela América do Sul, declara: “O nomadismo me ensinou a não me apegar tanto a coisas materiais, e tem me trazido liberdade geográfica sem medo. Também me traz muitos pontos de vista, novas culturas e linguagens. Através deste conhecimento, do que eu vou vendo e gostando, minha arte se reflete”. 

Durante as performances, Manga recitou um poema de sua autoria:

“Nomadismo, itinerância e circo.
Sou passo,
sou vento,
sou estrada que canta o próprio nome.
Sou parte dessa América Latina em movimento,
onde o corpo é mapa e a alma é travessia.
Antes das fronteiras, os povos originários já sabiam:
ninguém possui a terra,
É ela que nos ensina a andar.”

João Vitor Pereira (Manga), participando das performances e ajudando seus companheiros da Ouvidor 63, no dia 08 de novembro, em frente ao Memorial da Resistência, durante a exposição Habitar a arte. Foto: Daniela Cid/AGEMT
João Vitor Pereira (Manga), participando das performances e ajudando seus companheiros da Ouvidor 63. Foto: Daniela Cid/AGEMT

Ivan Gamba, colombiano, de 31 anos, morador da Ouvidor 63 há 3 anos, apaixonado pelo Brasil graças à Seleção Brasileira de Futebol, fez sua performance circense equilibrando e fazendo malabares com diversas bolas. Antes de iniciar sua apresentação, nos fez viajar no tempo.

Viajando pelos ventos da história, chegamos nos tempos de Abya Yala! - O que é Abya Yala? (...) Antes da colonização, o nosso continente (América Latina), se chamava assim. O significado deste nome é ‘Terra em plena maturidade’".

Ivan Gamba, 31 anos, em performance circense, no dia 08 de novembro, em frente ao Memorial da Resistência, durante a exposição Habitar a arte. Foto: Maria Clara Palmeira/AGEMT
Ivan Gamba, 31 anos, em performance circense durante a exposição Habitar a arte. Foto: Maria Clara Palmeira/AGEMT

 

O artista cênico peruano Bryan Meza, de 34 anos, chegou até São Paulo após ouvir falar sobre a Ouvidor 63, em sua terra natal: “A Ouvidor brinda ao viajante, itinerante, uma família. Ressignifica também a ideia da casa, da família, te coloca em um lugar onde você faz parte do movimento, mesmo que você não tenha interesses políticos, nem que seu trabalho tenha uma narrativa contestativa”. 

Meza explica que passou a trabalhar com audiovisual, e que sua arte gira em torno de memória, território e reparação histórica, temas que se unem dentro da causa da Ocupação. O artista viu no nomadismo da América Latina, uma forma de entrar em contato com sua própria ancestralidade: “A gente está tentando transformar as fronteiras em pontes. O Brasil é o último país a abolir a escravidão, e também o país com mais genocídio indígena. Nós vemos isso e comparamos com outros países da América Latina. Temos estruturas de violências históricas similares. No fim, não somos tão diferentes.”. 

Ouvidor 63 - Maior ocupação artística da América do Sul:

Fundada em 2014 no centro de São Paulo, a ocupação abriga um movimento cultural de extrema importância. Formado por dançarinos, cantores, músicos, artistas plásticos e mais diversas profissões artísticas e culturais, o Ouvidor 63 une a luta por moradia à prática cultural. Entre os diversos cômodos do edifício coabitam ateliês, bibliotecas, estúdios e um teatro que servem como um disseminador de cultura, saberes e ensina sobre organização colaborativa, trazendo vida ao centro da capital.

Ativistas e artistas da ocupação Ouvidor 63 após a primeira intervenção cultural no Memorial da Resistência. Foto: Maria Clara Palmeira/AGEMT
Ativistas e artistas da ocupação Ouvidor 63 após a primeira intervenção cultural no Memorial da Resistência. Foto: Maria Clara Palmeira/AGEMT

“Para a gente morar ali dentro, temos que fazer parte de 3 pilares fundamentais para levar a ocupação para frente, que são: a manutenção do prédio, a parte jurídica, devido ao risco do despejo, e também a parte artística. A parte artística e cultural são as que a gente tenta resguardar e levar para frente, fortalecendo”, relata Ivan Gamba, morador da Ouvidor há três anos.

Edifício da ocupação Ouvidor 63. Foto: Daniela Cid/AGEMT
Edifício da ocupação Ouvidor 63. Foto: Daniela Cid/AGEMT 

 

Visão de quem mora na rua do Ouvidor, próximo à ocupação. Foto: Maria Clara Palmeira/ AGEMTVisão de quem mora na rua do Ouvidor, próximo à ocupação. Foto: Maria Clara Palmeira/ AGEMT
Visão de quem mora na rua do Ouvidor, próximo à ocupação. Foto: Maria Clara Palmeira/ AGEMT

Com um histórico de ocupações, desde a década de 1990, o edifício foi ocupado inicialmente pelo MMC (Movimento de Moradia do Centro) e depois, foi cedido à Unesp, mas permaneceu em abandono de 2007 a 2014, quando foi ocupado por um grupo de artistas de Porto Alegre. Com os moradores da Ouvidor, o prédio de 13 andares foi dividido e revitalizado, tornando-se um refúgio artístico no centro de São Paulo.

 

Confira mais sobre a exposição:

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Foto: Daniela Cid/ AGEMT

 

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Foto: Daniela Cid/ AGEMT

 

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Foto: Maria Clara Palmeira/ AGEMT

A exposição vai até 29 de março de 2026. As próximas intervenções estão programadas para os dias 22 de novembro, às 14h, com o tema Lutas e Resistências Sociais; e dia 29 de novembro, ás 11h, com Enfrentamento à violência de gênero. Os ingressos gratuitos podem ser reservados no site do Memorial da Resistência.

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Produtores e admiradores de Sabotage destacam sua trajetória pessoal e profissional
por
Antonio Amorim
Bruno Caliman
Caio Moreira
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13/11/2025 - 12h

Mauro Mateus dos Santos, mais conhecido como Sabotage, transformou sua realidade com versos que misturavam denúncia social, poesia e esperança. Nascido em 1973, na zona sul de São Paulo, na favela do Canão, enfrentou a pobreza, a violência e o preconceito com suas composições. Sabotage ganhou destaque no final do ano 2000 com seu álbum “Rap é Compromisso”, e depois cantou e compôs ao lado de rappers como o grupo RZO e Rappin’ Hood, além de furar a bolha gravando com os roqueiros do Sepultura e Charlie Brown Jr. Também fez apresentações em grandes canais de televisão, algo que era mal visto por muitos do mundo do rap.

sabota
Mauro Mateus, o Sabotage. Foto: Reprodução/Instagram/@sabotageoficial

O rapper não parou “apenas” na música, mas também atuou em dois filmes, “O Invasor” , lançado em 2002 e dirigido por Beto Brant e “Carandiru: O Filme”, que estreou em 2003, do diretor Héctor Babenco, onde protagonizou o personagem “Fuinha”. No seu primeiro filme, ainda foi cantor e compositor de boa parte das músicas e ganhou três prêmios de melhor trilha sonora: Festival de Brasília, Cine PE - Festival do Audiovisual e Grande Prêmio BR do Cinema Brasileiro.

Sua carreira foi interrompida em 24 de janeiro de 2003, quando foi assassinado às 5h50, na zona Sul de São Paulo, onde foi atingido por quatro tiros. Foi levado ao hospital, mas faleceu horas depois, aos 29 anos, e deixou seus dois filhos, Tamires Rocha e Wanderson Mateus, além da esposa Maria Dalva. Desde 2015, seu nome artístico Sabotage dá nome a um prêmio na CMSP (Câmara Municipal de São Paulo), que premia artistas do hip hop.

Em entrevista à Agemt, o produtor musical Rodrigo Brandão, amigo de Sabotage, afirma que o rapper já era uma lenda antes mesmo de lançar sua primeira música. Na época, Sabotage participava das apresentações do grupo RZO. Segundo Brandão, eles não se rotulavam como um grupo, mas como uma “banca”, em que cada integrante tinha liberdade para mostrar seu próprio trabalho. O coletivo era formado oficialmente por Hélião, Sandrão e DJ Cia, e contava com as participações de Negra Li e Sabotage. “Ele se destacava naturalmente, eu lembro que antes dele gravar toda a sintonia do rap já sabia cantar o refrão de Rap é Compromisso”. 

brandao
Rodrigo Brandão no documentário "Sabotage: Maestro do Canão".
Foto: Reprodução/Youtube/Sabotage

Brandão relata a importância do processo criativo de Mauro, ao ressaltar que, além do domínio das técnicas líricas e vocais, Sabotage costumava adaptar melodias de músicas estrangeiras, escrevendo suas próprias letras sobre essas harmonias. “Na música A dama Tereza, uma grande parte da rima dele é um flow do Eminem e, se for comparar, o Sabotage é melhor”, afirma. O produtor frisa que, além do controle técnico do rap, ele tinha uma musicalidade intrínseca e se surpreendeu quando o cantor revelou que ouvia Chico Buarque e planejava regravar a música “O meu Guri”. 

Da música à vida pessoal, Rodrigo descreve o comportamento de Sabotage com os fãs, a comunidade e os amigos. De acordo com o produtor, o rapper emanava amor e enxergava beleza até onde parecia não haver. “Era abraço, sorriso, carinho, piada, é isso que vi dele”, conclui. Brandão também relembra um relato marcante de Sabotage sobre sua religiosidade. Em uma conversa na sala de sua casa, o rapper contou que, após a morte do irmão, entrou em um estado de inanição e precisou ser hospitalizado. Nenhum dos médicos conseguia fazê-lo se alimentar, até que um doutor negro entrou em seu quarto e o convenceu a comer. Após a refeição, os funcionários do hospital perguntaram o que havia motivado sua atitude. Ele explicou que um médico havia conversado com ele e fez com que reagisse, depois de descrever as características de um homem preto para as enfermeiras, elas afirmaram que não tinha médicos negros no hospital. “Sabota me contou que, em um passeio com a mãe, viu uma foto do homem que o salvou e confirmou sua existência. Sua mãe então explicou que a imagem se tratava de Oxóssi, uma divindade. Eu lembro disso como se fosse hoje, me marcou muito”, relata Brandão.

denis
Denis Feijão em entrevista para a Agemt. 

Em entrevista, Denis Feijão, um dos produtores do documentário “Sabotage: Maestro do Canão”, comenta sobre o quanto Sabotage era ligado às questões ancestrais e musicais. O produtor lembra que, assim como os rappers Thaíde e Rappin’ Hood, Sabotage fez a mistura do hip hop com o samba e com outras raízes populares africanas. “No final da carreira, ele estava muito ligado no techno, no trance, fazendo rock com Paulo Miklos. Tinha essa coisa mais romântica com a Sandy, ele gostava do Maurício Manieri, que era aquela coisa do rap mais romântico. Então era um cara múltiplo, um cara híbrido, não ficou parado no tempo e foi buscar coisas novas, conhecimento e aprimoração”.

Denis também destaca a falta de espaço da cultura periférica, principalmente em uma época que não tinha celular, internet e streaming. Segundo ele, Sabotage precisou “enfiar o pé na porta” no sentido de relacionar as músicas com a realidade periférica, com o intuito de mudar a situação da periferia: “ainda era um espaço marginalizado, então com certeza o Sabotage foi um dos grandes responsáveis, junto com essa liderança que veio desde o Mano Brown”. “Era um problemaço, dessa cultura ir para a televisão”, completa.

Além dos dois filmes nacionais, Sabotage participou do programa Altas Horas, da TV Globo. Denis acredita que o rapper transcendeu os meios de comunicação e a barreira do entretenimento, e caso estivesse vivo hoje estaria no cinema, seja na escrita ou na atuação de filmes. Através de sua mente aberta e habilidade de se comunicar com o público, Sabota amplificou o alcance da cultura hip hop e abriu o campo das artes para os moradores de periferias. “Hoje, vários cantores e rappers são atores de séries e novelas. Tem um cara muito legal, o Negueba, lá do Nós do Morro do Rio de Janeiro, que é ator da Globo e mudou a realidade dele a partir das músicas do Sabotage”, acrescenta o produtor de filmes.

Compromisso. Essa foi a resposta de Denis quando perguntado sobre definir o Sabotage em uma palavra. Ele faz alusão ao álbum e música “Rap é Compromisso” do rapper, e diz que Sabota teve compromisso com a vida dele, com sua trajetória no rap, com a realidade, comunidade, família, pessoas, entre outros. O produtor executivo conta que Sabotage sempre foi muito presente e nunca saiu da favela do Canão, além de trazer muito conhecimento. Mesmo quando enfrentou dificuldades familiares e financeiras, Mauro soube sobreviver e construir a família dele, com sua esposa e seus dois filhos.

“O legado dele é a nova geração, no sentido de criar acessos, de como a gente tem condição de mudar a nossa realidade, independente de qual seja. É um cara que tem que ser louvado, valorizado e lembrado. É isso. O legado dele é gigante... gigante”, finaliza.

 

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Em sua segunda temporada, o spin-off de “The Boys” mantém sua essência
por
Felipe Volpi Botter
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07/11/2025 - 12h

A Prime Video lançou a segunda temporada de Gen em 17 de setembro, com três episódios para abrir a série e um por semana até chegar ao oitavo e último. Com novos personagens como o vilão de codinome “Cipher”, além de outros alunos importantes para a trama, a produção também trouxe personagens da série “The Boys”, que inspira esse universo.

Para quem está chegando agora, um alerta: entender essa temporada pode dar trabalho! É preciso ver as três primeiras de “The boys”; em seguida, assistir à primeira de Gen V; depois a quarta de “The Boys” e só então mergulhar nesta nova temporada. Para quem não é fã, a jornada pode parecer cansativa, mas para os amantes de histórias com super heróis, o entretenimento de altíssimo nível é garantido.

(ALERTA DE SPOILER)

Após os eventos da última temporada de “The Boys”, os heróis da Godolkin (Marie Moreau, Jordan Li, Emma Meyer e Andre Anderson) estão presos em uma prisão para supers chamada Elmira. Infelizmente, com a morte do ator que fazia o personagem Andre (Chance Perdomo), os produtores também criaram uma morte para o seu personagem na própria Elmira.

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Marie, Jordan e Emma Foto: Reprodução/Prime Video

Maurie consegue fugir da prisão e após a morte de Andre - e mais uma bela jogada de marketing da Vought - Emma e Jordan Li voltam para a universidade. Após alguns dias, Marie também retorna com o acordo entre os três personagens e a Vought, no qual eles iriam para o time principal de supers da empresa, se parassem de lutar contra ela. Porém, com Cipher como reitor, as coisas não serão tão simples.

Cipher começa a se aproximar de Marie e se mostra muito perigoso. Ele tem grandes planos, não só para a Marie como também para a Godolkin. O projeto "Odessa", nova descoberta dos jovens, promete ser capaz de dar um fim ao Capitão Pátria. 

Com novos supers, novos poderes e novos desafios, Marie e os demais enfrentam muitos perigos nesta temporada, que acaba com um incrível gancho para o futuro do universo. Vale conferir!

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Compositor foi um dos responsáveis pelo clássico ‘Clube da Esquina’
por
Maria Mielli
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04/11/2025 - 12h

Lô Borges teve a morte confirmada pela família nesta segunda-feira (3), em Belo Horizonte. O artista estava internado desde o dia 17 de outubro no Hospital Unimed de BH, por conta de uma intoxicação medicamentosa. Segundo o boletim médico, Lô morreu na noite de domingo (2) às 20:50 em decorrência de falência múltiplas dos órgãos. O cantor deixa um filho, Luca Arroyo Borges, de 27 anos. 

Nas redes sociais oficiais de Lô, a família pediu privacidade e agradeceu todas as manifestações de carinho. O irmão de vida e parceiro na criação do ‘Clube da Esquina’, Milton Nascimento, o Bituca, publicou em seu Instagram: “Lô nos deixará um vazio e saudades enormes, e o Brasil perde um de seus artistas mais geniais, inventivos e únicos. Desejamos muito amor e força à família Borges, a qual acolheu Bituca em sua chegada a Belo Horizonte, lá nos anos 60 e, principalmente, ao seu filho Luca. Descanse em paz, Lô.

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Bituca e Lô foram os grandes heróis das estradas. / Foto: Reprodução Instagram Milton Nascimento

Salomão Borges Filho, nasceu em Santa Tereza, região leste de Belo Horizonte. Sua casa passava por algumas obras, por isso, ainda criança, se mudou para o centro da cidade e foi exatamente lá que sua história com a música se iniciou. 

Aos 10 anos, Lô conheceu seu vizinho: Milton Bituca Nascimento. Em entrevista cedida ao jornalista Pedro Bial, em seu programa Conversa com o Bial, de 2023, Lô contou que estava sentado na escadaria do Edifício Levy, na rua Amazonas, quando deu de cara com um homem tocando violão. “…era o Bituca. Eu tinha 10(anos) ele tinha 20. Fiquei vendo o Bituca tocando violão, e ele assim comigo: ‘Você gosta de música, né, menino?”. Ainda durante essa entrevista, ele contou que a vivência no centro lhe fez conhecer, certo tempo depois, Beto Guedes que mais tarde foi seu parceiro de composição.

Já crescido, o artista e a família Borges voltaram a morar em Santa Tereza. Na época, já não eram mais vizinhos, mas o cantor relatou que Bituca continuava visitando a casa da família. “Tocou a campainha lá na casa da minha mãe, era o Milton Nascimento falando: 'Cadê o Lô?'. 'Ah, o Lô tá na esquina, num lugar que eles chamam de 'clube da esquina', ele está lá'. Aí o Bituca veio com o violãozinho dele, comecei a mostrar a harmonia que eu estava fazendo, era uma harmonia do Clube da Esquina, ele começou a fazer a melodia, e aí a gente fez a parceria Clube da Esquina. E na época ele já era famoso, eu era anônimo", contou Lô ainda no programa do Bial.

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Família Borges / Foto: Reprodução Telo Borges Instagram

Em 1972, Alaíde Costa, Beto Guedes, Lô Borges e Bituca lançaram o álbum Clube da Esquina. O álbum conta com sucessos como: “Tudo O Que Você Podia Ser” e “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”. Foi aclamado no mundo todo e em 2023, foi eleito pela revista norte americana ‘Paste Magazine’, o 9° melhor álbum de todos os tempos. 

Clássico atemporal, o Clube da Esquina volume 1 & 2, fizeram história nacionalmente e mundialmente , criando nos corações de todo um povo um sentimento de encantamento e de curiosidade. Afinal de contas, o que será que o clube da esquina tinha de tão especial assim? Para o mineiro e apaixonado pela música Richard Lucas, de 19 anos, é a identificação e representatividade que esses garotos conseguiam transparecer: “Falar do Lô Borges e do Clube da Esquina é falar da nossa casa, aquilo lá é Minas puro, ‘saca?’”. E também lembrou que, fora do Clube da Esquina, as músicas e composições de Lô seguiam sendo “fenomenais”. 

Fato é que, Lô fez história. Marcou o coração de todo um povo que jamais vai esquecer sua voz e seus dizeres. Suas letras estão gravadas no coração de cada amante da música e suas melodias, fixadas na memória. Nosso eterno Lô recebeu milhares de homenagens, dentre elas um encontro de fãs na esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis – lugar que deu origem ao Clube da Esquina. 

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“Se eu morrer não chore, não. É só a lua”-Um Girassol da Cor de Seu Cabelo/ Foto: Reprodução Twitter @thalescmachado

O velório aconteceu nesta terça-feira (4), no Foyer do Grande Teatro Cemig do Palácio das Artes, em Minas. Das 9h às 15h, a cerimônia esteve aberta ao público. Já o enterro, que ocorreu logo em seguida, foi restrito à família e amigos. 

O governo do Estado de Minas Gerais decretou luto oficial de três dias pelo falecimento do artista.

 

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Agricultores como Maria da Paixão enfrentam um clima cada vez mais imprevisível enquanto o mundo discute soluções tecnológicas que podem alterar o futuro do planeta
por
Juliana Salomão
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04/11/2025 - 12h

O amanhecer em Ibiúna, no interior de São Paulo, começa silencioso. A neblina que costumava cobrir os morros já não permanece por muito tempo, e o ar parece mais seco do que o habitual. Maria da Paixão, agricultora de 66 anos, observa o céu enquanto ajeita o chapéu gasto pelo sol. O tempo, diz ela, anda diferente. As chuvas deixaram de seguir o calendário que a memória do campo conhecia. As estações, que antes marcavam o ritmo da colheita, agora se misturam num descompasso difícil de entender. Maria aprendeu a plantar com o pai, que lia o vento e o comportamento dos pássaros antes de prever a chuva. Hoje, essas referências já não bastam. Ela tenta manter a plantação de alface e couve que sustenta a família, mas o solo endurece com o calor e o excesso de sol. Em alguns meses, a seca atrasa o crescimento; em outros, a enxurrada arranca tudo de uma vez. O tempo, que antes era aliado, se tornou um mistério para boa parte dos cientistas do planeta.

Às vezes, enquanto cuida dos canteiros, Maria comenta que o campo perdeu parte das certezas que costumavam guiar a vida de quem planta. Diz que o cheiro da terra mudou, que a poeira sobe mais cedo e que até os animais parecem confusos, aparecendo fora de época ou sumindo do nada. Ela lembra que, quando era jovem, bastava observar onde as formigas faziam os carreadores ou como as nuvens se acumulavam no horizonte para saber quando viria a chuva forte. Hoje, até esses sinais se tornaram menos confiáveis, como se a natureza estivesse desaprendendo a falar a própria língua. À noite, antes de dormir, ela ainda tenta decifrar essas mudanças, observando a lua, o vento, os sons da mata — mas tudo parece falar em códigos que já não conhece tão bem.

Enquanto ela trabalha na roça, o mundo discute novas formas de interferir no clima. À medida que se aproxima a COP30, conferência que reunirá líderes e governos em Belém, cresce o debate sobre geo-engenharia, um conjunto de tecnologias que pretende manipular o sistema climático do planeta, seja refletindo parte da luz do sol, seja retirando gases de efeito estufa da atmosfera.

Mas esse debate ficou mais intenso nos últimos anos, especialmente após ondas de calor recordes e eventos extremos. Entre as propostas mais discutidas está a injeção de aerossóis na estratosfera, uma técnica que imitaria o efeito de grandes erupções vulcânicas ao espalhar partículas capazes de refletir a luz solar. Outra aposta é o clareamento de nuvens marinhas, que busca aumentar a luminosidade refletida pelos oceanos. Há ainda projetos de fertilização dos mares, captura direta de carbono e até manipulação da composição das nuvens de chuva para tentar estimular precipitações em áreas secas.

Apesar da ambição dessas ideias, Maria dificilmente se vê em qualquer uma dessas conversas. Para ela, mexer no céu parece como tentar arrumar um bordado puxando os fios errados. Cientistas também alertam que essas soluções carregam riscos imensos: resfriar demais algumas regiões, alterar padrões de chuvas em continentes inteiros ou criar dependências tecnológicas difíceis de controlar. Uma decisão tomada em laboratório poderia, por exemplo, secar ainda mais certas áreas da África, provocar chuvas intensas no Sudeste Asiático ou afetar diretamente regiões agrícolas brasileiras.

A promessa é conter o aquecimento global, mas, entre cientistas e ambientalistas, o consenso ainda está longe. Há quem enxergue nessas ideias uma tentativa de corrigir o desequilíbrio causado pela ação humana. Outros alertam que, ao tentar controlar o céu, a humanidade corre o risco de aprofundar desigualdades antigas.

Países ricos, capazes de financiar esses experimentos, teriam um poder inédito: decidir quanto sol cada região receberia, ou quais áreas poderiam ficar mais secas ou mais úmidas. Alguns especialistas chamam isso de “governança climática assimétrica”, um termo que, no fim das contas, significa que quem tem mais dinheiro também teria mais controle sobre o clima do planeta. E é justamente isso que preocupa Maria quando ouve falar dessas soluções distantes. Para ela, se já é difícil ser ouvida em debates sobre água e agricultura na própria cidade, imaginar que alguém possa mexer no céu sem consultar quem vive dele parece quase inimaginável.

Na prática, as consequências desse tipo de intervenção ainda são incertas, porque uma mudança no regime de ventos, uma alteração nas chuvas ou no comportamento das nuvens pode transformar realidades inteiras. E são justamente os que vivem da terra, agricultores, pescadores, povos tradicionais, os primeiros a sentir o impacto de decisões tomadas longe de suas casas.

Muitas organizações indígenas e rurais têm participado dos debates internacionais justamente para alertar que o clima não é apenas um sistema físico, mas também cultural, espiritual e histórico. Para esses grupos, alterar o comportamento do céu é tocar em algo que estrutura modos de vida inteiros, e não apenas mexer em variáveis matemáticas. Maria, mesmo sem usar essas palavras, expressa a mesma preocupação quando diz que o tempo não é para ser domado, mas para ser respeitado.

A cada dia que passa Maria sente e percebe um distanciamento ao ouvir falar de soluções globais, mas segue enfrentando o sol que racha o chão e a falta d’água que ameaça a lavoura. Para ela, o clima não é uma ideia abstrata: é o que decide se haverá alimento na mesa, se a safra dará certo, se o trabalho valerá a pena. Ela acredita que quem vive do campo entende o tempo de outro modo, não como algo a ser controlado, mas como um parceiro com quem é preciso aprender a conviver.

Nos últimos anos, Maria também aprendeu a adaptar o plantio, trocando algumas sementes, reduzindo áreas e apostando em sistemas simples de captação de água da chuva, quando ela vem. Diz que nunca imaginou que precisaria reinventar métodos que aprendeu desde a infância, mas que não há outra escolha. Afinal, quem depende da terra sabe que teimosia não faz brotar nada — é preciso observar, experimentar e aceitar que a natureza tem seus próprios planos. Ela também conta que, algumas vezes, pensa no futuro das próximas gerações e teme que os jovens do campo encontrem ainda mais incertezas do que ela encontrou ao longo da vida.

Enquanto os governantes se reúnem para discutir o futuro climático em auditórios climatizados, a vida de quem depende da terra segue em movimento. No interior, Maria se prepara para mais um dia de plantio. Ajusta o sistema de irrigação improvisado e observa o céu, tentando reconhecer nela algum sinal familiar. Ainda que o tempo pareça confuso, ela insiste em acreditar que a natureza, de algum modo, sempre responde.

E, enquanto espera por essa resposta, segue em frente — confiando no pouco de previsibilidade que resta, nas lições que herdou e na esperança de que, mesmo diante de tantas mudanças, a terra ainda tenha força para ensinar o caminho. Às vezes, ao final da tarde, ela se senta na sombra do barracão, observa os campos ao redor e imagina como seria se o clima voltasse a ter o ritmo de antes. Pensa nos anos em que a chuva vinha na hora certa, nos tempos em que bastava olhar para o céu para saber o que fazer no dia seguinte. Mesmo sabendo que esse cenário talvez não volte, guarda dentro de si uma resistência silenciosa: a certeza de que o campo sempre encontrou maneiras de sobreviver — e que ela, assim como seus antepassados, também vai encontrar.