A geração Z, nascida entre 1997 e 2012, vive rodeada de anúncios personalizados na internet e ofertas que prometem oportunidades únicas, em uma cultura de consumo que se torna cada vez mais rápida e impulsiva.
Embora, de um lado, a facilidade do crédito e das compras online proporcione conforto, de outro, traz efeitos que variam desde o endividamento até a ansiedade, além de fortalecer a lógica de um capitalismo fundamentado no consumismo incessante. Nesse contexto, especialistas alertam para as consequências das compras impulsivas.
Através de entrecliques rápidos e promoções de curta duração, a geração Z se tornou o alvo principal das estratégias de consumo impulsivo. Nascidos na era digital, esses jovens estão constantemente expostos à presença marcante de influenciadores que tornam produtos populares e a dinâmica das compras online que oferecem praticidade e prazer instantâneo. Segundo levantamento da Serasa, cerca de 7 em cada 10 consumidores já fizeram compras de forma não planejada e 72% se arrependeram dos produtos adquiridos.

As compras impulsivas, em sua maioria, levam em consideração somente o bem-estar a curto prazo, um escape do dia monótono que pode ter repercussões sérias no orçamento no fim do mês.
Edmilson Felipe, antropólogo, psicanalista e professor na PUC-SP, explica como a crescente dos influencers afeta na ideia do consumismo dos jovens: “Em uma cultura da imagem, as pessoas se baseiam em padrões, estilos de vida, estilos de corpos, e isso envolve um novo cenário de consumo, onde as pessoas, em sua maioria influencers, postam suas imagens no Instagram, de perfeição do corpo, com as ginásticas e produtos e suplementos e, com isso, ganham cada vez mais seguidores porque trazem uma solução imediata para o comportamento e o consumo dos jovens.”
Uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offerwise Pesquisas, aponta que os produtos mais comprados pela internet são as roupas, calçados e acessórios (46%), comida por delivery (34%), remédios e produtos de saúde (28%) artigos para casa (28%) e cosméticos e perfumes (26%). Quantas dessas compras não são resultado da propaganda constante nas redes sociais?
Compras e redes sociais
O algoritmo das redes sociais trabalha para conhecer milimetricamente seus usuários. Todas as interações (gostos, comentários, compartilhamentos) e até mesmo o tempo de visualização de cada postagem, ajudam a construir uma base de dados individualizada para apresentar anúncios personalizados. Ao compreender as preferências e o comportamento dos usuários, as plataformas se adaptam para apresentar conteúdos cada vez mais interessantes, que mantêm o usuário engajado e estimulado. Uma forma muito eficaz de prender o público é por meio da propaganda.
No Instagram, as marcas podem inclusive pagar para “impulsionar” seus anúncios - o Instagram Ads veicula conteúdos pagos para os usuários, segundo o algoritmo. A rede social conta com 2 bilhões de usuários no mundo e o Brasil é o segundo país com o maior número de perfis ativos.
Segundo pesquisa da Opinion Box feita no início de 2024, 68% das pessoas que utilizam a plataforma já compraram produtos ou contrataram serviços que descobriram no Instagram. Recentemente, a plataforma inaugurou anúncios “impossíveis de pular”, a propaganda surge e toma sua tela por alguns segundos, obrigando o usuário a esperar antes de continuar visualizando as publicações.
Essa dinâmica das propagandas e compras online ganhou uma nova dimensão com o lançamento do TikTok Shop no Brasil, agora compras podem ser feitas sem precisar sair da plataforma. Visando aproveitar o público de 91,7 milhões de usuários e integrar entretenimento e compras, o aplicativo adicionou um botão de compra nos vídeos em que influenciadores, marcas ou criadores de conteúdo anunciam produtos. Também há o “live shopping”, que integra transmissões ao vivo com ofertas em tempo real e uma “vitrine” nos perfis de criadores, que expõe os itens anunciados por eles.

Propagação do consumo
Em contrapartida à falta de regulamento das redes sociais, a televisão luta contra o consumo excessivo de jovens e crianças. Em 2014, a resolução nº 163/2014 do CONANDA, definiu a publicidade dirigida ao público infantil como abusiva, argumentando que ela fere a Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ou seja, regulamenta e considera publicitariamente abusiva qualquer prática que se aproveite da falta de julgamento e discernimento da criança, não sendo legalmente permitido direcionar publicidade para esse público.
A geração que consumiu essa publicidade televisiva em excesso hoje são adultos que já possuem o próprio dinheiro, ou seja, agora são consumidores diretos na cadeia capitalista de compra e venda. A pesquisa feita pela CNDL e pelo SPC Brasil aponta que 54% dos consumidores jovens entrevistados não fazem controle dos gastos mensais com cartão de crédito. Essa pesquisa traz uma análise social complexa sobre como os jovens adultos da geração Z não controlam seus impulsos consumistas em meio às influências presentes na internet.
Em entrevista, o doutor em multimeios e professor da PUC-SP, Mauro Luiz Peron, fala sobre o consumo excessivo, “A ideia que se projeta nisso tudo é de um sonho pequeno burguês, de você ter o seu carro, de você ter uma grife, de você ter o alimento e como consumi-lo, de você consumir a música, o audiovisual. Há todo um universo de mundos luminosos pela frente, e isso não significa consumir mercadorias, mas sim consumir ideias que são vendidas.”
Segundo a pesquisa de 2025 do DataReportal, o brasileiro passa em média 9 horas do seu dia conectado na internet, especialmente nas redes sociais. A população gasta seu tempo e volta sua atenção às plataformas intrinsecamente programadas para incentivar o consumo – e por meio dele, a alienação. Mauro Peron adverte essa postura, “o estímulo ao debate é importante, reconhecer as contradições do contexto que a gente vive, questionar os valores, questionar os parâmetros, questionar as relações de forças e questionar as formas de resistência possíveis e as impossíveis”.

Consequências sociais
Ainda de acordo com a pesquisa da CNDL, a maioria dos cartões de crédito utilizados pelos entrevistados foram emitidos por bancos digitais e 28% admitem já ter sido negativados por falta de pagamento da fatura. Ou seja, mesmo sem o dinheiro em mãos para alimentar esse padrão de consumo idealizado, os jovens improvisam uma maneira de continuar comprando, e isso nos leva para questões mais profundas de desigualdade social.
Com isso, pode-se notar que essa forma de vida baseada em compras pertence a um grupo seleto da população, aquela que tem acesso a bens e serviços, enquanto a outra sofre com falta de oportunidades básicas. “Você tem aqueles que possuem muito dinheiro e aqueles que estão na batalha, estamos em um país em que as pessoas ainda passam fome. Então há uma desigualdade absurda, e esse consumo vai se limitando com a existência de consumidores e cidadãos. No processo da sociedade capitalista aquele que não aciona diretamente o capital das empresas é falho”, conclui Edmilson Felipe.
Em uma sociedade que constrói seu senso de “ser” a partir do consumo, uma forma de desafiar o status quo é comprando de forma consciente, criando barreiras contra o estímulo constante das propagandas, do frete grátis e das promoções. Se tempo é dinheiro, onde você investe seu tempo?
A moda, frequentemente apontada como um espelho dos tempos, volta seus olhos para tempos de escassez. Em meio à instabilidade econômica global, marcada por inflação persistente e crises políticas ao redor do mundo, ganha força o chamado “Recessioncore” (estética da recessão), que traduz, de forma visual, a precariedade e o desânimo de uma geração.
“Quando falamos de recessões, de crises econômicas, dá para ver esse reflexo diretamente na moda. Hoje, vivemos uma grande incerteza econômica, e muitas marcas de luxo começaram a lançar campanhas desperdiçando comida, baguetes sendo amassadas, frutas jogadas no chão da feira, alimentos destruídos”, afirma Audry Mary, especialista em marketing de moda e influenciadora digital. “É uma forma de comunicação: enquanto a base está sofrendo com a falta, quem consome a marca pode esbanjar. E isso é extremamente político”, acrescenta Audry.
Se nos anos de crescimento econômico os desfiles explodem em cores vibrantes, brilhos e ostentação, em momentos de incerteza o figurino muda: tons neutros, silhuetas sóbrias e peças utilitárias assumem o protagonismo. É o que se vê agora com a ascensão da estética “clean girl”, termo popularizado no TikTok e em outras redes sociais que descreve um estilo minimalista, com peças básicas, cores neutras e cortes discretos
"Elas são mais acessíveis, carregam pouca informação de moda e seguem um estilo mais recatado, mais doméstico”, diz Audry sobre as roupas identificadas com o estilo. “É conservador, e as marcas estão apostando muito nisso”, explica.
Segundo a especialista, a estética “clean girl” não surge isoladamente: é resultado direto de um contexto econômico instável, no qual o crescimento do "quiet luxury" (luxo silencioso) e de coleções minimalistas indica que as marcas buscam transmitir segurança e sobriedade. Historicamente, períodos de recessão geraram mudanças semelhantes. Durante a Grande Depressão, cortes retos e tecidos duráveis se tornaram padrão, enquanto a crise de 2008 reforçou o consumo de fast fashion e peças de baixo custo, ainda que de qualidade inferior.
O impacto econômico também se reflete no crescimento do mercado de roupas de segunda mão, que se tornou um indicativo claro das mudanças no comportamento de consumo. Nos Estados Unidos, o mercado de moda de segunda mão alcançou US$ 50 bilhões em 2024, com projeção de crescimento para US$ 73 bilhões até 2028, impulsionado principalmente por millennials e pela geração Z, nascidos entre 1981 e 2010, que buscam alternativas mais acessíveis e responsáveis. Esse movimento transforma o mercado de segunda mão em uma tendência não apenas econômica, mas também cultural, refletindo valores de sustentabilidade e consumo consciente.
No Brasil, a ascensão dos brechós segue a mesma lógica: adaptação à crise econômica, respeito às prioridades financeiras e resposta às incertezas sociais. Segundo dados do Sebrae, o país contava com mais de 118 mil brechós ativos em 2023, representando um aumento de 30,97% em relação aos cinco anos anteriores. Além disso, o mercado de brechós no Brasil deve movimentar cerca de R$ 24 bilhões até 2025, superando o mercado de “fast fashion” até 2030, conforme projeções da Folha de São Paulo.
O crescimento do mercado de brechós também é impulsionado por plataformas digitais. O Enjoei, com mais de 1 milhão de compradores e 2 milhões de vendedores ativos, abriu recentemente sua primeira loja física no Rio de Janeiro e adquiriu a Gringa, plataforma de revenda de artigos de luxo de segunda mão, por R$ 14 milhões, evidenciando a demanda crescente por itens de alto valor.
Esse movimento também pressiona a indústria tradicional, que já responde com novas estratégias. O aumento dos custos de produção deve acelerar o uso de matérias-primas alternativas, como tecidos reciclados e fibras de origem vegetal, além de experimentos com couro vegetal e biotêxteis. Ao mesmo tempo, cresce a exigência por transparência nas cadeias de produção: passaportes digitais de produtos, rastreabilidade de origem e relatórios de impacto ambiental podem deixar de ser tendência para se tornar padrão da indústria.
Olhando para o futuro, a moda deve consolidar caminhos cada vez mais funcionais, atendendo à demanda de consumidores impactados pela instabilidade econômica, que priorizam praticidade e durabilidade. Segundo Audry, essa tendência deve se intensificar. “Acredito que vamos ver cada vez mais peças utilitárias, roupas multiuso e tecidos resistentes ganhando protagonismo, porque o consumidor está buscando longevidade e funcionalidade em tudo o que veste”, afirma.
O minimalismo, já consolidado, deve permanecer central, mas com variações sutis. “Minha aposta é que tons terrosos, cortes amplos e peças que permitam personalização vão se tornar ainda mais comuns, enquanto pequenos revivals dos anos 2000 e 2010 reinterpretam itens básicos para novas gerações”, diz a influenciadora, que também projeta expansão de modelos híbridos, que combinam venda de peças novas, revenda, aluguel e customização, fortalecendo a economia circular como resposta prática às restrições financeiras.
A tecnologia surge ainda como aliada estratégica, com inteligência artificial e provadores digitais ajudando marcas a reduzir desperdícios e aproximar consumidor e produto. “A inovação permite que a indústria transforme limitações econômicas em oportunidades criativas”, conclui Audry, reforçando que, para o futuro, a moda funcionará como um laboratório de soluções, mais do que apenas reflexo de crise.
Nos últimos meses viralizaram na Internet diversos casos de “mães de bebê reborn”, em que mulheres adultas faziam vídeos cuidando e interagindo com as bonecas artesanais realistas como se realmente fossem suas filhas, dividindo opiniões sobre tal comportamento. A polêmica se acentuou quando começaram a surgir mulheres levando suas bonecas para supostamente serem atendidas em postos de saúde, ou até brigando pela sua guarda na justiça. Para entender melhor o assunto, ouvimos Kelly Vieira Ramos, psicóloga e especialista em análise do comportamento, em entrevista à AGENT. Para assistir ao vídeo, acesse o link:
Revolucionando a indústria musical, os discos de vinil, criados em 1948 por Peter Carl Goldmark e Columbia Records, mudaram a forma de distribuição musical e marcaram a cultura mundialmente. No Brasil, eles chegaram em 1951 com o disco Carnaval em ‘long playing’ (tradução da sigla LP) e se mantiveram no auge até a década de 1990, quando os CDs apareceram para substituir os discos. Nos anos 2000, as mídias digitais tiveram seu boom e o streaming conquistou o público.
Mas apesar das plataformas de streaming estarem em alta, jovens, que nem viveram a era dos LPs, começaram a procurar vinis e muitos novos artistas também estão atrás desse método de distribuição. Em 2024, um levantamento da Pró-Música Brasil mostrou que os discos de vinil representam 76,4% da venda de mídia física no país, os correspondentes a R$ 16 milhões.

Marco Antônio Cunha, vendedor desde 1984 na Galeria do Rock, no centro de São Paulo, contou que viveu a transição vinil para CDs e que agora, voltou a vender discos. “Agora, os discos pop de artistas internacionais são os mais procurados. Vamos atrás de fornecedoras e pagamos taxas altas, o que encarece muito, mas, é o que mais sai”. Discos como Brat, de Charli xcx e Mayhem, de Lady Gaga estão nas prateleiras e são sucesso de vendas garantido.
O desafio da produção interna e das taxas
Em março deste ano, o ministro da Fazenda Fernando Haddad comentou que iria tentar zerar a importação de discos de vinil. “Eu nem sabia que disco era tributado, porque livro não é. Compro livro importado e nunca paguei tributo. Prometo ver isso, com carinho. Vou discutir com o Barreirinhas [secretário da Receita Federal]”, prometeu o ministro no Podcast Inteligência Ltda.
Para Marco, a promessa do ministro não deve ir para a frente “no ano passado, elas [as taxas] foram cobradas fielmente. Como existe há muito tempo, duvido que vão diminuir ou zerar”. Francisco Troia, vendedor de vinil há cinco anos fala desse momento com curiosidade e concorda com a problemática das taxas: “os jovens redescobriram os vinis, eles estão se interessando mais. Procuram garimpos e discos novos, principalmente pop internacional, Taylor, Lady Gaga etc. Às vezes, alguns clientes pedem discos específicos e a gente vai atrás. A venda aumentou muito com os jovens. Mas a alfândega é um empecilho. Tudo fica caro com as taxas.”.
O vendedor também trouxe outra questão: a falta de fábricas de vinil no Brasil, que dificulta e encarece o projeto de novos artistas. “A demanda é muito grande nas fábricas, tem uma fila extensa. Só que quando eles fazem, é em pequena quantidade o que deixa o produto muito caro, quase no preço dos discos importados.”
Gen Z e os vinis
Os jovens André Paz e Igor Pimentel, ambos com 19 anos, são colecionadores e contaram um pouco sobre essa jornada. “Foi uma forma de me manter mais próximo dos artistas que eu gosto, me sinto mais conectado com a música, além da estética que me agrada muito”, comenta André. “Acho que na vitrola você percebe sons que no spotify não são perceptíveis. O som é mais claro”, complementa Igor.
Já sobre os impostos, a resposta é unânime, apesar de ter mais sites, lojas, facilitando a compra, as taxas são “absurdas e desanimam”, como diz Igor. André, apesar de ter muitos discos importados, tem o costume de comprar discos nacionais: “Minha coleção é balanceada, tenho a discografia solo da Marina Sena completa em vinil. E já garimpei alguns.”
A nova onda reafirma a relevância do vinil e devolve à discussão elementos como a qualidade do som e a experiência de ouvir música em si. Para os mais jovens, a prática também ajuda a reconectar com os hábitos dos seus pais, que muitas vezes passaram essa paixão para as gerações seguintes.
O cenário quase que epidêmico gerado pelos aplicativos de aposta no Brasil desestabilizou diversas esferas da vida da população. Desemprego e a desigualdade econômica viram combustível para as empresas que operam as bets. Segundo uma pesquisa publicada em abril pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), 10,9 bilhões de brasileiros com mais de 14 anos de idade apostam de forma descontrolada em jogos de azar, dados esses pertencentes a terceira edição do Lenad (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas), realizado entre 2023 e 2024. Os números, que crescem exponencialmente, alertam profissionais da saúde, principalmente na área da psiquiatria e psicologia.
Em contrapartida, a legalização de algumas plataformas parece não estar de acordo com o estado preocupante indicado pelo sistema de saúde brasileiro. A complexidade se encontra, principalmente, no perfil do público mais afetado pela jogatina. O estudo da Unifesp mostra que 1 a cada 8 desses 10,9 bilhões apresentam dinâmica mais comprometedora com as apostas, se enquadrando em diagnósticos de transtornos comportamentais ligados ao vício.
Segundo a psicóloga clínica Elen Ribeiro da Silva, formada pela Universidade Paulista (Unip), em entrevista à AGEMT, existe uma combinação de fatores que afeta, principalmente, classes socioeconômicas mais vulneráveis. “Qualquer pessoa tem fácil acesso às apostas, e num país com altas taxas de desemprego e subemprego e com tantos brasileiros sem educação financeira, a promessa de se ganhar a vida em apostas online é muito atrativa, principalmente para aqueles em cenários financeiros mais delicados.”, afirma a entrevistada.
A conjuntura de descrença e crise na economia acabaram cooperando para que a febre das bets tomassem conta da vida dos brasileiros, uma ilusória perspectiva de vida. Segundo o Lenad, a dependência em jogos de aposta fica atrás somente do álcool e do tabaco, superando o vício no crack e na cocaína da população. As empresas usam mecanismos que fomentam a vontade de jogar, operando de forma apelativa, bombardeando o usuário com incentivos enganosos.
“Essas plataformas funcionam estimulando sistema de recompensa do nosso cérebro e com liberação de dopamina, o que se assemelha com a dinâmica neuroquímica causada pelo uso de drogas.”, explica a psicóloga. A falta de regulamentação dessas operações, que lucram com o desespero dos brasileiros, assim como a publicidade predatória são fatores que podem estar relacionados com o imenso número de jogadores.
Segundo Elen Ribeiro, a ludopatia (ou o jogo patológico) é um transtorno comportamental grave já reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e já indicado no Manual de Diagnósticos Estatísticos de Transtornos Mentais (DSE-5) e é muito ameaçador pelo padrão comportamento compulsivo em apostas, mesmo diante de todas as consequências negativas. “É um pulso muito grande que foge do controle do jogador. Inicialmente vemos as perdas financeiras e endividamento, vêm os comportamentos ilegais... aí entra um fator ainda mais perigoso, que são os pensamentos suicidas, gerados pela desesperança em sair da situação. Muitas vezes, o indivíduo tem perda total da identidade", alerta Ribeiro.
O sistema público de saúde sofre uma grande ameaça com o aumento de viciados em apostas, principalmente por ser uma patologia enquadrada no campo da psiquiatria. A rede de atendimento psicológico na saúde pública já é extremamente sobrecarregada, e a falta de estrutura para lidar com transtornos comportamentais é maior ainda. Os Centros de Atendimentos Psicossociais, os CAPS, um dos poucos centros públicos efetivos de tratamentos, têm uma grande demanda para tratar pacientes com vícios ligados ao álcool e as drogas, o que, somado ao sucateamento, deixa os tratamentos a outros transtornos em segundo plano.
É mais uma demanda para o Sistema Único de Saúde (SUS), ainda mais quando o público mais afetado não tem acesso a serviços de saúde privatizados. A maioria das pesquisas especificadas para analisar o fenômeno vieram depois do aumento expressivo do número de viciados, não houve uma análise prévia à inundação das bets. Os poucos dados dos efeitos desse vício, usados em estudos de possíveis tratamentos, são de pessoas que buscam ajuda em centros clínicos, ainda há uma imensa parcela de indivíduos e dados que não foram analisados. Ouça aqui a entrevista completa.






