Pelo quinto ano consecutivo, evento foi palco para dezenas de modelos e quatro novas montadoras
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Vítor Nhoatto
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04/09/2026 - 12h

A edição Auto do Festival Interlagos 2026 ocorreu entre os dias 27 e 30 de agosto, e mais uma vez foi dominada por marcas chinesas. Na zona sul de São Paulo, o evento reuniu apresentações musicais, test-drives, shows de drift e milhares de metros quadrados ocupados por carros populares, esportivos, jipes e picapes. 

Este ano 215 mil pessoas estiveram presentes para ver 32 montadoras, contra 18 da edição anterior, e a estrutura estava visivelmente maior para comportar os expositores. Tal número é ainda mais expressivo considerando o retorno do tradicional Salão do Automóvel em novembro do ano passado, que contou com 25 marcas, e ofereceu alguns test-drives ao público.

Vale lembrar que o Festival Interlagos foi criado em 2022 com o intuito de fomentar o setor e os amantes das quatro rodas com o hiato do Salão desde 2018. Seu formato é bem diferente, sendo um evento de experiência automotor, isto é, focado em uma interação entre público, marcas e carros. A maioria dos modelos pode ser dirigida na pista, e os próprios concessionários os expõem.

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Diferente dos tradicionais Salões, no Festival, interessados podem experimentar os modelos na pista e na terra. Foto: Vítor Nhoatto

Novas marcas chinesas

Não é de ontem que o mercado nacional tem se transformado, com os motores dessa mudança sendo as montadoras chinesas. Oferecendo tecnologia de ponta por preços bem abaixo das marcas tradicionais, nomes como BYD e GWM já estão entre as 10 maiores no Brasil, e com menos de 5 anos de mercado. 

Em 2024 a Neta Auto usou o festival como palco, hoje em recuperação judicial na China. Ano passado foi a vez da conterrânea GAC, hoje em quarto lugar entre as marcas que mais vendem elétricos no país segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Seguindo a tendência, três novas marcas, todas do país asiático, estrearam este ano em Interlagos, também focadas em eletrificação.

A primeira delas é a BAIC, abreviação para Beijing Automotive Industry Holding Co,que apresentou a maior meta de expansão entre as estreantes. Seu objetivo é alcançar o top 10 de vendas no Brasil em cerca de dois anos, e para isso promete 50 lojas até dezembro, 150 até o fim de 2027 e 10 modelos até 2028 divididos entre as submarcas BAIC (híbridos), Arcfox (elétricos), e Stelato (premium). Os primeiros a chegarem serão os Arcfox T1, rival de BYD Dolphin, e o T5, para brigar com Geely EX5, ambos ainda em homologação pelo Inmetro e sem autonomia ou preço divulgados.

Arcfox T1 deve chegar na casa dos R$ 130 mil para ser competitivo, enquanto T5 passará dos R$ 200 mil. Foto: Vítor Nhoatto
Arcfox T1 deve chegar na casa dos R$ 130 mil para ser competitivo, enquanto T5 passará dos R$ 200 mil. Foto: Vítor Nhoatto

A BAIC pretende lançar ainda em 2027 o híbrido plug-in B30, com um estilo quadrado, e em 2028 o X55, primeiro híbrido flex da marca no país. Além disso, fala em abrir uma fábrica em solo nacional no sistema de carros desmontados (CKD), com a meta da operação brasileira ser a maior fora da China, mas sem informações sobre prazos, local ou parceiros.

Caminhando para fora dos boxes, para o meio da pista e bem próximo ao palco que recebeu atrações como Belo, Dennis e Matuê, estava a DFM. Conhecida como Dongfeng e por ser parceira de marcas como Nissan e Honda na China, apresentou a dupla BOX e VIGO, modelos 100% elétricos já homologados e disponíveis para test-drive na pista, mas ainda sem preços.

O hatch BOX será o modelo de entrada, mirando o sucesso do Geely EX2 e de BYD Dolphin Mini, com autonomia de 275 km, ligeiramente inferior à dos rivais, com 289 km e 280 km respectivamente. Logo acima estará o VIGO, um SUV com porte de Hyundai Creta e 302 km com uma carga. Ambos os modelos contarão com a tecnologia V2L, que basicamente transforma o carro em um power bank gigante, além de um pacote tecnológico competitivo, inclusive com leitor de placas de trânsito, ausente nos dois rivais.

São planejadas 60 concessionárias por 21 estados, com produção nacional em estudos, além da venda direta pelo Mercado Livre em breve, tal qual a GWM pratica. Além disso, no prédio principal do Festival estavam expostos os modelos da submarca premium da DFM, a Voyah, nos planos para os próximos passos no Brasil.

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Box carrega de 30% a 80% em 30 minutos, enquanto Vigo dobra a potência e chega à marca em apenas 18 minutos. Foto: Vítor Nhoatto

A terceira estreante no evento foi a Icaur, mais uma do Grupo Chery, que já opera no Brasil pela Caoa Chery, Omoda & Jaecoo, e mais recentemente pela Jetour. O jipe V27 foi apresentado, com um design que lembra muito a britânica Defender. Durante a coletiva de imprensa, no estande da Jaecoo inclusive, foi destacado o posicionamento premium do modelo que chega no primeiro semestre de 2027 e o conjunto mecânico REEV. Semelhante a um híbrido plug-in, se diferencia pelas rodas serem impulsionadas exclusivamente pelos motores elétricos, com o motor a combustão apenas como gerador, mesma tecnologia da Leapmotor.

Para finalizar, a MG, britânica de origem mas controlada pela chinesa SAIC, usou o evento para apresentar a submarca IM. A estratégia será vender os modelos em espaços exclusivos dentro das concessionárias da MG, que chegou ao Brasil ano passado durante o Salão do Automóvel. Focada em luxo e desempenho, chega com o SUV IM6, semelhante em tamanho a um Porsche Cayenne, com 767 cavalos e 0 a 100km/h em apenas 3,5 segundo na versão topo de linha, que podia ser inclusive provado na pista.

Mais lançamentos

Ainda sobre a MG, a marca aproveitou o seu estande no gramado para mostrar ao público pela primeira vez o MG 4 Urban, lançado no mês passado a partir de R$ 129.990. Com ADAS de série, inclusive sensor de monitoramento do motorista e reconhecimento de sinais de trânsito, é um modelo totalmente independente do hatch 4, mais barato e similar a um crossover para brigar com Geely EX2 e BYD Dolphin.

Falando nas rivais, a BYD teve a sua menor participação até então no Festival, sem nenhum modelo novo apresentado. O destaque foi a aparição ainda camuflada, e de amarelo canário, da picape Mako nos boxes, rival da Volkswagen Tukan. Em relação a Geely, a ideia foi aproveitar o ótimo momento do EX2, terceiro elétrico mais vendido do país. Foram apresentadas duas versões do hatch customizadas para drift, que arrancavam sorrisos dos visitantes pelas suas pinturas ousadas.  

Outra chinesa que chamou a atenção foi a Leapmotor, do grupo Stellantis, o mesmo de Fiat, Jeep e Peugeot. Estavam presentes os SUVs B10 e C10 em suas versões REEV, figuras carimbadas na pista. Foi confirmada a chegada da versão de 7 lugares do C10, chamado de C16, também no estande. No entanto, o destaque do espaço foi o hatch médio elétrico B05, em seu alegre tom amarelo.

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B05 tem porte de Volkswagen Golf, e deve chamar consumidores mais jovens para a marca com tecnologia e performance. Foto: Vítor Nhoatto

No segmento de SUVs elétricos, a Omoda apresentou o facelift da versão elétrica do Omoda 5. Chamado de E5, passa a adotar linguagem visual independente da versão híbrida, se aproximando do Omoda 7, e com 13 centímetros de comprimento a mais. Por dentro, novo multimídia e seletor de marchas na coluna de direção, exclusivos do elétrico também. Apesar de não revelar o preço, a marca deve reposicionar o E5 para se tornar competitivo frente ao GWM Ora 5, R$ 50 mil mais em conta que os R$ 209.990 cobrados pela Omoda, cifra atraente até ano passado, quando chegou ao Brasil.

Em relação à GWM, o Tank 400 estreou, híbrido plug-in e com foco total no luxo. Ficará posicionado acima do Tank 300, na casa dos R$ 500 mil. Além dele, estavam presentes o Ora 5 que, de acordo com os concessionários da marca, está com fila de espera até dezembro.

A parceira de concessionária da Omoda, a Jaecoo, escolheu Interlagos para o lançamento dos SUVs híbridos 5 e 8. O menor ficará posicionado abaixo do 7, concorrendo com Volkswagen T-Cross e Hyundai Creta com um conjunto HEV (hybrid), semelhante ao sistema do Toyota Corolla, e não MHEV (micro-híbrido) como o do Jeep Renegade por exemplo. A pré-venda começa em novembro, prometendo bom nível de equipamento, apesar de um painel de instrumentos um tanto quanto simples. Já o 8, será o modelo topo de linha, com sete lugares para disputar com Jeep Commander, mas com o diferencial do PHEV (híbrido plug-in).

Nesse mesmo segmento e também como PHEV, a GAC lançou o GS9 por R$ 379.990, que apesar de bem equipado e competitivo, repete a falta de leitor de placas de trânsito dos demais modelos da marca. Em seu segundo ano consecutivo no evento, estava inclusive no mesmo lugar do ano passado, com um dos maiores estandes e mais de 50 concessionárias no país, como previsto.

Fechando o Grupo Chery, a Jetour teve participação tímida, mas aproveitou bem a pista off-road, na qual os visitantes podiam se aventurar durante o evento sem necessidade de agendamento prévio. A Caoa Chery levou apenas o novo Tiggo 7, exposto sozinho no segundo andar do prédio perto do refeitório, exclusivo para os expositores. Sobre isso, a oferta de opções alimentares era consideravelmente menor, sem opções veganas, e apenas fast food para os visitantes por preços na casa dos R$40.

Marcas tradicionais 

Não só de chinesas Interlagos foi preenchido, apesar da ausência de grandes lançamentos por parte das tradicionais, e ausência de Chevrolet e Volkswagen. A Abarth apresentou o conceito Pulse Scorpionissima, versão com mudanças sutis no design que o aproxima dos modelos europeus da marca, para avaliar a recepção do público. Ainda em comemoração aos 50 anos de Brasil, lá estava o Stilo Schumacher, inclusive autografado.

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Lendas da história da Fiat podiam ser vistas também, como o Marea das Mil Milhas, e o Palio Rally. Foto: Vítor Nhoatto

A Peugeot mostrou, e fez barulho, com a versão Rallye do 208, em uma tentativa de recuperar a atenção do público. As vendas da marca despencaram 28% em comparação ao ano passado, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). A Citroën nem sequer estava presente, sem lançamentos, e categorizada como regional e não mais global pela Stellantis com o plano FaSTLAne 2030.

Em compensação, a Jeep desponta como nome de peso dentro do grupo, e apresentou ao público o recém-lançado Avenger. Em sua cor vibrante Verde Boreal, andava pela pista, e era o único modelo no estande da marca, demonstrando a sua importância para a marca. Logo ao lado, a RAM mostrava sua linha de picapes, mas sem novidades. 

Resgatando também a relação com o passado, e a ligação com as corridas graças a Ayrton Senna, a Honda focou na chegada do Prelude. A reinterpretação do clássico de duas portas, apresentado no Salão do Automóvel do ano passado, manteve a carroceria, mas agora é HEV e tem apenas câmbio CVT. Dois estandes podiam ser vistos, um nos boxes e outro no gramado, e chamava a atenção a diferença na abordagem da japonesa frente às chinesas. Interiores simples, telas pequenas e botões grandes, que fazem parecer as recém-chegadas, futuristas. 

Estiveram presentes também as conterrâneas Toyota, com destaque ao GR Yaris, da divisão de desempenho da marca, e a Mitsubishi. Sem qualquer lançamento, e em posição delicada dentro do Grupo Renault-Nissan-Mitsubishi, levou carros dos tempos de ouro da marca, como o Lancer Evolution e o Eclipse GS-T. 

A Renault marcou presença novamente, mas com estande menor e com apenas um vislumbre do novo Kwid como atração principal. Também mantendo a constância na mostra, a estadunidense Ford levou seus modelos mais caros para reforçar sua posição como marca de importados, com destaque para o lançamento da F-150 Raptor.

No mercado premium, a única alemã presente foi a BMW, e apresentou o novo SUV iX3. Estreando uma nova geração de elétricos, chamada de Neue Klasse, é o elétrico com maior autonomia do Brasil, 570 km com uma carga graças à nova plataforma. Inicia também uma nova linguagem visual, por dentro e por fora, custando a partir de R$582.950. O grupo ainda levou a MINI para Interlagos, mas sem lançamentos.

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Novo iX3 é considerado o modelo mais importante para a marca em décadas, transformando a tecnologia e o design da BMW. Foto: Vítor Nhoatto

Remando contra a maré, Lexus e Volvo apresentaram dois sedãs. A japonesa apresentou o ES 500e, PHEV que deve chegar ano que vem ao país, contando com sensor de monitoramento do motorista, tração integral e 343 cavalos. Já a sueca Volvo completa a sua atuação no mercado de elétricos com o ES90. Construído sob a plataforma do SUV EX90, chega com autonomia de 524 km por R$659.950, e resgata a tradição de sedãs da marca.

Em uma área nova no evento, em frente à roda-gigante do complexo e à pista de arrancada, estiveram presentes de forma oficial pela primeira vez marcas de luxo. A Aston Martin levou o novo Vantage S, e a McLaren o Artura Spider. Logo ao lado ficava o estande da Porsche com 911 e Cayenne, apesar da ausência do novo Macan EV. Antes ainda estava a área da Caterham, conhecida pelos esportivos britânicos à moda antiga.

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Como de costume, superesportivos, clássicos, modificados e empresas de acessórios completam a experiência dos visitantes. Foto: Vítor Nhoatto

Estrategicamente posicionadas ao lado delas, estavam ainda a Denza e dois modelos da Avatr, sem novidades, mas com a intenção de reforçar a imagem da BYD e da Caoa Changan, proprietárias das marcas. A edição 2027 do Festival Interlagos já foi confirmada, e tendo em vista seu retrospecto, promete seguir como importante vitrine no setor.

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O complexo que põe em xeque os limites do espaço público do Parque Villa-Lobos
por
Gustavo Tonini
Beatriz Foz
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17/08/2026 - 12h

Inaugurada no início de 2026, a Orla TotalPass, grande complexo de gastronomia e esportes que se assemelharia a uma praia, revela uma nova forma de se entender o espaço. O complexo faz parte da nova fase da gestão do Parque Villa-Lobos, concedido à empresa Reserva Novos Parques desde agosto de 2022.

Somente nos primeiros meses de 2026, o parque inaugurou no espaço a Heineken House, e iniciou as construções da Casa Cazé TV. Além disso, quadras de tênis com arquibancadas também foram erguidas, onde ocorrerá anualmente o torneio de tênis SP Open. Desses projetos, somente a Orla TotalPass e a Heineken House são de entrada gratuita.  

Ainda em maio desse ano, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu uma investigação contra a Reserva Novos Parques, consórcio responsável pela gestão do parque. A investigação foi motivada por uma suspeita de “exploração econômica excessiva”, devido ao grande número de eventos privados e ações comerciais, cujas montagens e desmontagens restringem o acesso do público. Houve a tentativa de contato com a empresa, que não quis se pronunciar até o momento da publicação.

O contrato assinado para a concessão prevê a fiscalização da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) nas ações realizadas no parque. Em nota, a agência afirma que o contrato permite a delimitação das áreas do parque, desde que não prejudique as demais atividades realizadas nele. Na nota, ainda reitera que a realização de qualquer evento é permitida desde que esteja de acordo com as finalidades do parque: “voltadas ao lazer, esporte, cultura e recreação”.

Ao mesmo tempo que restringem o espaço do parque, as privatizações podem dar nova vida a ele. Edilson Carneiro, que diz frequentar o parque desde sua inauguração, afirma que "se não fosse a privatização, o parque estaria mais largado. Traz mais turistas, traz mais gente". Ele ainda considera que com a entrada de empresas no parque, permite-se que circule mais dinheiro nele, melhorando sua infraestrutura. Mas qual infraestrutura está sendo melhorada?

imagem entrada orla 1
A Orla TotalPass propõe uma nova forma de experienciar o parque, com um espaço gourmet e construções sofisticadas, oferecendo diversas atividades desde a gastronomia até os esportes - Foto: Gustavo Tonini

 

imagem propaganda mercado livre, quadra de areia e entrada
"É muito bacana essa integração desses dois mundos, tanto dessa infraestutura com o espaço do parque" Rafael Barbieri, visitante do espaço, destaca como o complexo mescla seus espaços de areia com as plantações típicas do parque.- Foto Gustavo Tonini

 

imagem do Sulamerica Lounge, espaço gourmet
O complexo oferece um espaço de convivência acolhedor com cinco quiosques-restaurantes, que vão de comida japonesa até petiscos. Entre eles se destaca o SulAmérica Lounge, com cardápio de alma brasileira assinado pela chef Alessandra Ramos. - Foto: Gustavo Tonini

 

imagem feira de vinhos, bandeira da Itália ao fundo
Além da oferta gastronômica permanente, o complexo também oferece feiras sazonais de gastronomia e de degustação de rótulos de vinhos. Na semana do Dia dos Pais, o foco era majoritariamente em vinhos e produtos italianos, com barracas de lugares como o Empório Matarazzo ou a Menin Wine Company. - Foto: Gustavo Tonini

 

imagem fonte, espaço para as crianças
É possível encontrar na segunda entrada um chafariz onde as crianças podem brincar e se refrescar em um dia de muito calor. "Um lugar muito chique, quando eu fui lá eu achei que estava no Recife. Traz novos valores ao parque." relata Edilson Carneiro - Foto: Gustavo Tonini

 

imagem quadra de areia, propaganda do Itaú ao fundo
O espaço possui cinco quadras de areia, sendo duas de acesso gratuito e três que funcionam por meio de locação. Felipe Bianchi, que estava pela primeira vez na orla, considerou o preço de R$200 por dupla para o pacote day use (uso livre da quadra por um dia) como um bom preço, o que o incentivou a voltar mais vezes para o complexo - Foto: Gustavo Tonini 

 

imagem concierge Total Pass, patrocínio Leroy Merlin
O aluguel das quadras fica restrito somente ao pacote day use, podendo ser feito no Concierge da própria Total Pass, que fica ao lado de uma das quadras gratuitas do complexo, também sujeitas a reserva, já que possuem tempo máximo de permanência de 45 minutos. - Foto: Gustavo Tonini

 

 

imagem sorvete por trás das grades
As garrafas vendidas pela Empório Matarazzo, dependendo do rótulo, podem custar  de R$240, enquanto os da Menin Wine Company custam em média R$195. - Foto: Gustavo Tonini

 

imagem entrada orla 2
“Nem tem bebedouro dentro da Orla. A privatização tira um espaço do parque que era público e reduz o acesso de muitas pessoas", relato de Gabriela Marquês, frequentadora do Parque Villa-Lobos. O espaço também conta com seguranças aos finais de semana - Foto: Gustavo Tonini

 

imagem quadra de areia fora da orla
"Eu não fiquei na Orla porque achei lá mais reservado, achei assim um lugar, de pessoas de mais classe alta. Essa parte é mais do povão aqui, fiquei mais confortável ", ponderou uma visitante, que não quis se identificar,  que frequentava uma das três quadras de areia públicas fora do projeto Orla. Nesse espaço, não há nenhum tipo de segurança/monitoramento nem portas.  - Foto: Gustavo Tonini

 

imagem trabalhadores separados da orla pela grade
"A ideia dessas conceções seria você ter uma manutenção permanente, equipamentos de qualidade novos usos para esses espaços tão importantes da cidade né. Na prática a gente não vê isso acontecer", alerta Marco D'Elia, especialista em arquitetura pós-graduado pela FAU-USP. Tapumes e grades tornam-se uma paisagem comum no parque - Foto: Gustavo Tonini  

 

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Espaço que prometia aproximar a praia dos paulistanos vira zona restrita
por
Beatriz Foz
Gustavo Loreto
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14/08/2026 - 12h

A promessa de aproximar a praia da cidade grande foi concretizada no início de 2026 com a inauguração da Orla TotalPass no Parque Villa-Lobos: um complexo de 12 mil m2 com cinco quadras esportivas de areia e 12 quiosques gastronômicos. O projeto foi idealizado pela empresa de infraestrutura Orla Brasil, em parceria com a plataforma de bem-estar TotalPass, tendo ainda a SulAmérica, a Smartfit e a Red Bull como patrocinadoras. O espaço surge como uma alternativa para aqueles que não tinham a oportunidade de utilizar as quadras de areia para a prática de beach tênis e beach vôlei.

A estrutura das quadras é dividida em duas modalidades: duas são abertas para o público geral e as outras 3 são reservadas para um pacote de day use, pelo qual são cobrados R$200,00 a diária, por dupla. Em conversa com funcionários da área esportiva do complexo, foi destacado que a dúvida que eles mais recebem é se precisa ter o aplicativo para utilizar as áreas. A resposta é que o TotalPass é só o patrocinador máximo do projeto e que não é preciso tê-lo para utilizar o espaço. Qualquer pessoa pode agendar as quadras de forma gratuita, acrescentou um dos funcionários, referindo-se às 2 quadras que funcionam dessa forma.  

Sobre o day use, ele afirma que o valor é super acessível e ressalta que, durante a semana o valor do aluguel das quadras é convertido em consumação total para o restaurante, dando direito também a um lounge (área exclusiva). 

 

Lounge privativo incluso no day use das quadras. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT
Lounge privativo incluso no day use das quadras. Foto: Gustavo Tonini/ AGEMT

Ao entrar na Orla a sensação é de adentrar em um lugar completamente separado do parque. Isso porque a modernização, a inovação e os investimentos na infraestrutura do local criam um contraste com as demais áreas públicas do parque, que não recebem a mesma atenção. Edilson Carneiro, frequentador assíduo do Villa-Lobos comentou que a privatização valoriza o parque e ajuda o local por trazer mais turistas. “Se não fosse a privatização, o parque estaria mais largado”, acrescentou. Sobre o projeto da Orla, Edilson pontuou que o lugar é sofisticado e traz um glamour ao parque: “Quando fui lá eu achei que estava no Recife”. 

Já o arquiteto Marco D’Elia, formado pela FAU Mackenzie e pós-graduado pela FAU-USP, analisa que as privatizações nascem de uma falha do poder público na administração digna das áreas dos parques. Para o especialista essas concessões deveriam buscar a potencialização dos espaços do parque, porém “na prática, não vemos isso acontecer”.

E realmente não são todos que podem usufruir do espaço da Orla. As quadras gratuitas abertas ao público (apenas duas) não são suficientes para comportar a quantidade de pessoas que visita o parque durante os finais de semana que, de acordo com os funcionários, são os dias mais cheios da Orla. Eles explicam que domingo é o dia mais movimentado e durante a semana o público é predominantemente do Alto de Pinheiros. Além disso, o preço do day use para as demais quadras, mesmo com seus benefícios, não é acessível ao público geral.  

Fora do perímetro da Orla e caminhando para o outro lado do parque, encontram-se três quadras de areia totalmente abertas ao público. A infraestrutura é simples: redes antigas e areia. Um diferencial entre as quadras da Orla e as quadras afastadas foi apontada pelo funcionário da TotalPass: “Lá você encontra pedras, aqui não”, se referindo à qualidade do solo das quadras. 

 

 

As quadras de areia fora da orla ficam próximas a entrada e funcionam no horário de funcionamento comum do parque. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT
As quadras de areia fora da orla ficam próximas a entrada e funcionam no horário de funcionamento comum do parque. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT 

Na quadra pública externa, uma frequentadora do parque praticava esportes. Ela conta que até visitou a Orla, mas não permaneceu no local por ser muito reservado e de pessoas de classe mais alta. A visitante ainda reiterou que se sentiu mais confortável no espaço externo por ser mais popular.

Além deste relato, a estudante Gabriela Marques também migrou da Orla para as quadras gratuitas. Ela relata uma experiência negativa na Orla: “Chegamos lá e não tinha mais quadra gratuita disponível. Vimos que tinham três quadras novas que estavam vazias e perguntamos se podíamos usar aquelas, mas eram 200 reais por dupla para alugá-las durante o dia”. Depois de desistir, Gabriela e seus colegas encontraram as quadras públicas: “Eram três quadras de vôlei de areia que são bem antigas. Uma estava vazia e acabamos jogando lá”.  A estudante pondera que, embora a privatização traga melhorias para o parque, também restringe o acesso ao espaço: “Nem tem bebedouro dentro da Orla. A privatização tira um espaço do parque que era público e reduz o acesso de muitas pessoas”.  

 

A Orla TotalPass não é o único espaço privatizado do parque, que é cada vez mais dominado por tapumes de construção. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT
A Orla TotalPass não é o único espaço privatizado do parque, cada vez mais dominado por tapumes de construção. Foto: Gustavo Tonini/AGEMT

Marco D’Elia explica que o principal problema da privatização nesses locais não é a concessão em si, mas o modo como ela vem sendo gerida e falta de fiscalização por parte da prefeitura de São Paulo. “Você não pode ter fechamentos e cercas que impeça o acesso das pessoas mediante a cobrança de ingresso…esse tipo de coisa é absurda”, comenta.

A AGEMT entrou em contato com a gestão do parque para pedir esclarecimentos, porém nenhuma resposta foi obtida até a publicação desta reportagem. 

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Funcionários das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade retomam as atividades após paralisação, enquanto governo discute medidas para garantir os empregos da categoria
por
Luiza Passos
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13/08/2026 - 12h

No dia 05 de agosto, o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Central do Brasil decretou, em assembleia, o fim da greve dos funcionários das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da CPTM. A paralisação havia começado à meia-noite da terça-feira (4), em meio às reivindicações dos trabalhadores contra a concessão das linhas à iniciativa privada e pela garantia de seus empregos.

Após o encerramento da paralisação, a circulação dos trens foi normalizada. No entanto, os trabalhadores decidiram permanecer em estado de greve, o que significa que uma nova paralisação poderá ser realizada caso a categoria aprove a medida em outra assembleia.

A paralisação afetou a mobilidade urbana. Durante a greve, passageiros precisaram recorrer a ônibus, carros e outros meios de transporte para chegar aos seus destinos. Como consequência, o trânsito também foi afetado e a Prefeitura de São Paulo suspendeu o rodízio municipal de veículos durante os dias da paralisação.

Gabriela Thier, 23, mora em Ferraz de Vasconcelos e depende da linha 11-Coral para se locomover. Ela descreve sua situação como "cidade dormitório", já que sua rotina está concentrada na capital. Durante a greve, ela não conseguiu ir às aulas, perdeu uma consulta e seus pais também não conseguiram chegar ao trabalho.

Tentamos ônibus e carro mas as filas eram quilométricas, impossível chegar na hora”, afirma a estudante. Apesar dos transtornos, Gabriela diz entender a paralisação diante dos problemas enfrentados no transporte.

A greve aconteceu em meio à discussão sobre a concessão das linhas à iniciativa privada. As linhas haviam sido transferidas para a concessionária Trivia Trens em julho, mas a CPTM retomou temporáriamente a operação após uma série de falhas registradas nos primeiros dias da gestão privada.

Durante a paralisação, o governador Tarcísio de Freitas declarou apoio às privatizações e classificou a greve como “baderna”:

Uma concessão é feita para melhorar os serviços, eliminar problemas de via permanente, trazer trens novos, garantir estações mais acessíveis, eliminar falhas na via aérea de alimentação e nas subestações, estender as linhas até Bonsucesso ou até César de Souza e dar mais confiança ao sistema”, afirmou.

Captura de tela de uma publicação de Tarcísio Gomes de Freitas, datada de 4 de agosto. O texto: Nosso compromisso é com quem acorda cedo todos os dias e precisa de um transporte público confiável para chegar ao trabalho, estudar, ir a uma consulta ou realizar um exame. A greve de hoje é resultado unicamente de instrumentalização política para prejudicar o passageiro e o cidadão de bem, que já não suportam mais ver justamente aqueles políticos que dizem defender os seus interesses atuando para ferir seu direito de ir e vir.  A aposta na baderna e na paralisação dos serviços não vai intimidar o governo, que esteve e seguirá aberto ao diálogo. Uma concessão é feita para melhorar os serviços, eliminar problemas de via permanente, trazer trens novos, garantir estações mais acessíveis, eliminar falhas na via aérea de alimentação e nas subestações, estender as linhas até Bonsucesso ou até César de Souza e dar mais confiança ao sistema.
Recorte de uma publicação do governador Tarcísio de Freitas, realizada em 4 de agosto de 2026, no aplicativo X (antigo Twitter), disponível no perfil @tarcisiogdf

Porém, desde a transferência da operação para a iniciativa privada, foram registrados problemas nas linhas. Como no dia 23 de julho, quando uma falha elétrica provocou um incêndio em um vagão da Linha 12-Safira, afetando a circulação dos passageiros.

Uma das principais reivindicações da categoria é justamente a manutenção dos postos de trabalho. O Projeto de Lei 730/2025, do deputado Guilherme Cortez (PSOL), propõe que trabalhadores da CPTM possam ser absorvidos por outros órgãos ou entidades da administração pública estadual após a transferência dos serviços para empresas privadas.

Agora, com o fim da greve, o governo precisa avançar nas próximas etapas do acordo. A proposta deverá ser encaminhada à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), onde será analisada e votada pelos deputados. Se aprovada, seguirá para sanção do governador.
 

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Além do ex-ministro, o evento contou com a presença de nomes de destaque na economia
por
Marcelo Barbosa
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19/06/2026 - 12h

Na última quarta-feira (17), a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) recebeu o pré-candidato ao governo do Estado de São Paulo, Fernando Haddad, para lecionar o seminário “Desenvolvimento, Democracia e Mudança Estrutural” e reuniu alunos e professores para compor a solenidade. O evento também contou com a presença de Luiz Gonzaga Belluzzo, economista reconhecido por presidir o Palmeiras entre 2009 e 2011.

O debate teve início com a fala de Belluzzo, que abordou, de forma crítica, as teorias econômicas. Segundo ele, essas teorias não analisam criticamente o contexto de um país, mas justificam os fatos econômicos que ocorrem . “Você não pode ser dogmático, mas investigador”, afirmou ao discutir as relações dentro da economia.

Belluzzo defende uma ordenação das relações econômicas na sociedade por meio das articulações das instituições e, por conta disso, acredita que deve haver uma mobilização dos movimentos sociais nas redes digitais. Também afirmou que, diferentemente da época das Diretas já!, movimento do qual participou no final dos anos 1980, a comunicação das pessoas passou a se resumir a “manifestações em poucas linhas”.
 

Reprodução: Cláudio Oliveira| PUC-SP | Imagem dos palestrantes sentados na frente da plateia
Palestrantes aguardam o início do evento no Teatro Tuca, na PUC-SP Foto: Cláudio Oliveira 
 

A palestra seguiu com Fernando Haddad, que falou sobre os pressupostos do desenvolvimento. Assim como Belluzzo, Haddad defendeu um plano de desenvolvimento baseado nas articulações das instituições. “Não basta vontade. Precisamos de posicionamento e de uma classe dirigente que seja diferente da que foi estabelecida desde o Segundo Reinado”, afirmou

Em entrevista à AGEMT, Haddad comentou sobre sua candidatura ao Governo de São Paulo pelo Partido dos Trabalhadore puxando o gancho da sua palestra. Ele se disse preocupado com a economia paulista. “Eu tive que capitanear, a pedido do presidente Lula, junto ao Rodrigo Pacheco, a renegociação da dívida do Estado. Tivemos que abrir espaço orçamentário de mais de 11 bilhões por ano para ajudar no Estado de São Paulo”, disse.

Haddad citou o atraso à adesão do Governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao Programa de Pleno Pagamento da Dívida dos Estados (PROPAG), o plano federal voltado à reestruturação e repactuação das dívidas dos entes federativos com a União. “Nós perdemos uma SABESP pelo atraso à adesão ao PROPAG. Então, o que nós pudemos fazer pelo Estado no Governo Federal, com renegociação da dívida, linhas de crédito do BNDES e dinheiro a fundo perdido no PAC, nós fizemos”, exclamou. “Precisamos de raízes aqui para que o Estado volte a se desenvolver”, continuou. No entanto, finalizou sua fala cauteloso - “Não existe respaldo político para ajustar as contas. Quem dirá um plano de desenvolvimento”.

Após a fala de Haddad, a professora doutora Cristina Helena Pinto de Mello enfatizou que, atualmente, existem duas instituições importantes no funcionamento da sociedade: o mercado e o Estado. Ao utilizar os Estados Unidos de exemplo, Cristina afirmou que “a economia digital sobrecarregou os postos de trabalho”.

A professora Laura Carvalho deu continuidade ao tema e criticou a falta de revisão das políticas dos anos 2000. Segundo ela, não rever algumas políticas faz com que as leis não acompanhem as mudanças da sociedade, como o aumento da informalidade. Ela também criticou a ‘plataformazação' do mercado, argumentando que o fenômeno auxilia no aprofundamento das desigualdades de classe.

Quem falou por último foi o professor Luís Fernando de Paula que destacou a importância da macroeconomia aliada a uma estratégia de desenvolvimento e criticou a forma como a política de juros, em sua avaliação, dificulta o desenvolvimento econômico. “ A política fiscal não deve ser subordinada à política monetária”, afirmou. Além disso, o professor acredita que ter o agronegócio como fator determinante da economia é uma questão problemática para o país e finalizou defendendo a revisão da meta de inflação.

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Em entrevista exclusiva, vereador Bombeiro Major Palumbo (PP) comenta sobre o programa Smart Sampa e a mudança da GCM para Polícia Municipal
por
Oliver de Souza Santiago
Júlio Antônio Poças Pinto
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18/03/2025 - 12h

 

Câmeras utilizadas no Programa Smart Sampa - Foto: Divulgação/PMSP
Câmeras utilizadas no Programa Smart Sampa. - Foto: Divulgação/PMSP

Dois projetos do Executivo (Prefeitura Municipal de São Paulo) e Legislativo (Câmara Municipal de São Paulo) se destacaram no primeiro trimestre deste ano. O Programa Smart Sampa e o PLO 08/2017 (Projeto de Emenda à Lei Orgânica), que altera o nome da Guarda Civil Metropolitana (GCM) para Polícia Municipal. Com estas medidas, gerou-se uma expectativa de melhora da segurança do município, e virou motivo de comemoração entre parlamentares e munícipes da capital paulista.

O Smart Sampa, inaugurado em julho do ano passado, é um software que conta com mais de 20 mil câmeras espalhadas pela cidade. Todas equipados com inteligência artificial avançada, interligados com a base de dados da  Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) que permite o reconhecimento de pessoas desaparecidas e da Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP), com o software desta instituição "Muralha Paulista", que facilita a leitura facial para a captura de foragidos. Além de uma central de monitoramento de 24 horas com cerca de 250 agentes.

Neste último carnaval (3), o sistema foi aplicado com o objetivo de reduzir a criminalidade ao longo dos dias de folia. Segundo o DataFolha, o aplicativo teve aprovação de 91% dos foliões, o que demonstra uma aprovação quase geral da população. Ainda segundo a prefeitura: "14 criminosos foragidos foram capturados pela Guarda Civil Metropolitana (GCM) e devolvidos ao sistema prisional durante o todo o período de Carnaval deste ano"

Os algoritmos avançados geram alertas capazes de identificar intrusão, vandalismo e furtos. Ganhou notoriedade com um saldo de 841 foragidos capturados e 2.016 criminosos presos em flagrante, divulgados no dia (14). Os números são atualizados diariamente através do Prisômetro, painel de iniciativa do prefeito Ricardo Nunes (MDB).

Foliões em bloco de carnaval de rua em São Paulo. - Foto: Divulgação/PMSP
Foliões em bloco de carnaval de rua em São Paulo. - Foto: Divulgação/PMSP

Já referente à mudança de nomeclatura da GCM, o PLO foi aprovado na quinta-feira (13) em sessão plenária da Câmara, mas foi derrubada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) na terça-feira (18) após pedido de liminar do Ministério Público de São Paulo. O desembargador Mário Deviene Ferraz, afirmou no processo:

"Não podendo o Município, a pretexto da autonomia legislativa, alterar a denominação da guarda municipal, consagrada no artigo 144,8º, da Constituição Federal de 1988, para 'polícia municipal"

Em nota, a Câmara se posicionou após a ação judicial. "Tendo em vista que o Supremo Tribunal Federal já ratificou o poder das guardas municipais de policiamento ostensivo e comunitário, após recurso da própria Procuradoria da Câmara Municipal de São Paulo, o Legislativo paulistano entende que o nome Polícia Municipal apenas reflete essa decisão da Suprema Corte. Ou seja, a mudança de nome da GCM para Polícia Municipal aprovada pela Câmara está alinhada com o entendimento do STF. A Câmara respeita a decisão do TJ-SP, mas a Procuradoria da Casa vai recorrer da liminar.

Ricardo Nunes lamentou a derrubada da alteração e "em solidariedade ao povo de São Paulo, que pede cada vez mais por segurança e policiamento, espera que ela seja revertida o mais breve possível."


CRIAÇÃO DA POLÍCIA MUNICIPAL

Em entrevista à AGEMTo vereador Bombeiro Major Palumbo (PP), 49 anos, revela detalhes sobre o processo da criação da Polícia Municipal. Palumbo faz parte da Comissão de Finanças e Orçamento da Câmara, é Major da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo há 28 anos e Bacharel em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Palumbo ressaltou a importância da criação de uma Polícia Municipal:

"[..] Para você mudar o nome não é aqui na Câmara Municipal. Uma polícia tem que ser estabelecida pela Constituição Federal e isso precisa ser mudado lá em Brasília com três quintos das duas casas (CMSP e Senado Federal). Duas vezes, os três quintos dos deputados federais para que eles possam mudar a lei, fazer uma emenda à Constituição e colocar a polícia. Agora, uma Polícia Municipal, ela terá as atribuições de uso e ocupação do solo o que isso significa?

Significa que eles precisam atuar para ter a polícia. Algumas demandas são do município, por isso polícia municipal, polícia federal entre outras. Algumas terão o âmbito para crimes federais, a Polícia Militar e a Civil que são estaduais, crimes de atribuições estaduais roubo, furto, sequestro, tráfico de drogas. E os crimes que são da Polícia Municipal? Quais são? São os crimes que você tem, por exemplo uma perturbação do sossego. Concorda que é de menor potencial ofensivo?[..]"

Prefeitura apresenta nova viatura da Polícia Municipal, após mudança do nome da GCM aprovada na Câmara Municipal da capital paulista - Foto: Divulgação/PMSP
Prefeitura apresenta nova viatura da Polícia Municipal, após mudança do nome da GCM aprovada na Câmara Municipal da capital paulista. - Foto: Divulgação/PMSP

Como é que você vai colocar todas as estruturas das outras polícias para atender algo com menor potencial ofensivo, quando você poderia estar usando esses caras que são muito bem treinados, pra fazer o quê? Combate ao crime. Então a Polícia Municipal vai existir para atuar nas atribuições de uso e ocupação do solo que são municipais. Seja um comércio ilegal de venda de produtos, alguém que quer usurpar do espaço público.  'Eu quero morar aqui na rua, bem na praça'  Então, ele faz uma casa em cima da praça. Mas escuta, ele sabe que não pode, mas quem que vai lá? É a polícia federal? Não, ela tem outras atribuições, de crimes internacionais aos de colarinho branco", afirma Palumbo. 

Sobre uma futura reestruturação para a mudança, ele comenta: "A segurança pública é o maior questionamento que o cidadão da cidade de São Paulo faz hoje. Junto com saúde e educação, mas a segurança pública fica na frente. Então é preciso dar uma agilidade. E para isso, a Guarda Civil, futura Polícia Municipal, vai ter que mudar os seus cronogramas de treinamentos. Por exemplo, eu refiz todo o estande de tiro da Guarda Civil Metropolitana, futura Polícia Municipal. Coloquei uma emenda minha, reformei tudo. Por quê? Para que eles tivessem a chance de ter um bom treinamento e exercer a proteção do cidadão com bastante técnica. Porque não adianta só você ter o nome[..]"


SMART SAMPA

O parlamentar também compartilhou informações sobre o funcionamento do Smart Sampa: 

"[..] É um algoritmo colocado nas mais de 20 mil câmeras que estão espalhadas na cidade. Elas captam tudo, porém não consegue rodar o Smart Sampa sem um outro programa, que é o Muralha Paulista. O outro software tem dados de todos os criminosos fichados do Brasil inteiro.

Quais são os que estão procurados, quem estão presos, os que são fugitivos, os que cometeram crime e ainda não foram pegos? Eles possuem essa informação!. O que aconteceu? O Muralha Paulista colocou o banco de imagens, através do Estado, da Secretaria de Segurança Pública, à disposição das prefeituras. Então, a Prefeitura instala e na hora que até que passe uma pessoa. Não é pela cor da pele como os partidos de oposição aqui na Câmara, que entraram até com ação na justiça para evitar, alegando que o Smart Sampa era um programa que ia providenciar o racismo na cidade. Não. Ele é técnico. Ele pega a distância entre olhos, nariz e boca, orelha. Desenha um triângulo no rosto da pessoa, mesmo se ele altera o cabelo, mas isso aqui não muda (aponta para a Íris). 

Palumbo também revelou algumas curiosidades sobre o software: "Elas estão no centro e espalhadas em todos os lugares. Elas têm os braços articuláveis e conseguem pegar distâncias de dois, três quilômetros. Então daqui, se você tiver uma Smart Sampa aqui em cima do prédio onde a gente está. Consegue chegar até no Viaduto do Chá e consegue identificar quem seja. O que a gente tem que fazer é com que esse sistema seja conhecido pela população.

 


 

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A instituição marca a vida dos frequentadores, viabilizando a cultura, o lazer e o aprendizado
por
Victória da Silva
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28/11/2024 - 12h

 

O Serviço Social do Comércio, mais conhecido como Sesc, é uma entidade privada muito frequentada por paulistas e paulistanos, e desempenha um papel fundamental para a democratização do acesso à cultura e à educação. Seus espaços são repletos de exposições, shows, sessões de cinema, práticas de esportes e várias outras atividades que inserem os visitantes em um ambiente agradável.

Desde sua fundação - pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) em 1946 - o Sesc visa a melhoria de vida das pessoas que trabalham com comércio, suas famílias e a sociedade em geral. Além disso, tem a educação como base para a transformação social, fazendo com que ela seja alicerce de toda a instituição.

De acordo com o seu site: “No estado de São Paulo, o Sesc conta com uma rede de mais de 40 unidades operacionais – centros destinados à cultura, ao esporte, à saúde e à alimentação, ao desenvolvimento infantojuvenil, à terceira idade, ao turismo social e a demais áreas de atuação”.

Para Matheus Sampaio, graduado em história da arte pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e colaborador do Sesc Pinheiros, todos que vivem e amam cultura, consequentemente, amam o Sesc. A instituição é ligada ao setor do comércio e ganha 1% da verba de todo o estado, e dessa forma consolidou seu grande poder aquisitivo. “Eu acredito que esse poder está sendo voltado para a população, então eu considero fundamental e acho lindo”, afirma Sampaio.

Luíza Claudino, estudante de 17 anos, é uma das frequentadoras do Sesc e costuma ir às unidades Belenzinho, Guarulhos, Itaquera e Pompeia. A jovem compartilha que apesar de sua família não ser do âmbito comercial, ela frequenta os espaços desde criança. “Acredito que é isso que me faz gostar tanto do Sesc: ele é acessível a todos. Já fui em muitos shows, peças e exposições no Sesc, tudo por um valor baixo ou até mesmo de graça”, afirma.

A gratuidade de algumas das atividades do Sesc é ponto relevante, já que vários indivíduos, principalmente das periferias, não possuem recursos suficientes para obter o direito a essas experiências. Além disso, o Sesc quebra as barreiras e o estereótipo errôneo de que pessoas de baixa renda são desprovidas de cultura e desinteressadas pela esfera artística.

De acordo com Sampaio, esse estigma foi muito pautado em sua graduação, já que espaços como galerias e museus são, por vezes, inacessíveis às comunidades. Ele reforça: “O MASP, por exemplo, é um dos museus mais relevantes da América Latina e tem muita gente que não sabe disso e nunca visitou. Por causa desse distanciamento, não é algo fácil ou acessível. Já o Sesc - pensando nas artes visuais e nas exposições – rompe com esse paradigma, pois além das exposições serem gratuitas, elas estão localizadas em diferentes partes de São Paulo”.

A estudante do 3° ano do ensino médio, Nicolly Gomes, também considera o Sesc como um facilitador de acessos, já que beneficia a comunidade possuindo lazer de qualidade e preços acessíveis. “Eu gosto do Sesc porque é um ambiente acessível, com muitas opções culturais e esportivas, onde eu sempre posso participar e aprender algo novo", afirma.

Matheus, que até este ano já contribuiu para 21 exposições artísticas e passou por diferentes instituições como o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Farol Santander e o Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE), disserta que o Sesc já é valorizado, mas poderia ser ainda mais. “O que o Sesc faz é muito grande e bonito. O empenho de montar essas exposições e promover esses shows, gratuitos ou por um preço baixo, é encantador”, conta o educador.

Além do mais, muitas vezes as pessoas não vão para o Sesc em busca de uma exposição artística, mas ao ir para exercer outra atividade, elas se deparam com diferentes mostras. “É uma das coisas que eu gosto ainda mais do Sesc, porque ele realmente aproxima as pessoas. Claro que ainda existem várias camadas, ainda existe uma barreira, mas não tão grande quanto as grandes galerias de artes que até mesmo quando há gratuidade, não é nada convidativo”, ele completa.

Há diversas exposições em cartaz até dezembro de 2024 como “Novo Poder: passabilidade” na unidade da Avenida Paulista, “Terra de Gigantes” no Sesc Casa Verde, “Nós - Arte e Ciência por Mulheres” em Interlagos e “Um Defeito de Cor” na unidade Pinheiros.

 

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Visita de alunos da PUC-SP e Mackenzie na exposição “Um Defeito de Cor”. Foto: Victória da Silva

Para além do campo das artes, o Sesc alcança aqueles que gostam da prática de esportes. Luíza conta que faz parte do programa “Esporte Jovem” há quase três anos, este que promove o exercício de diferentes jogos entre jovens de 13 e 17 anos, ensinando as técnicas e táticas de cada um. “Jogo vôlei com uma turma muito bacana e aprendo bastante, tanto sobre a vida quanto sobre o esporte”, a estudante informa.

Alguns Sescs dispõem de piscinas para recreação e nado livre. São ao todo 15 unidades na capital e grande São Paulo que oferecem esse serviço, e possibilitam o usufruto desse lazer não só para crianças e adolescentes, mas também para o público 60+.

Embora haja muitos elogios à estrutura e até mesmo à comida do Sesc, há alguns pontos de melhoria que são considerados. Luíza, por exemplo, sente falta de um teatro no Sesc Itaquera, já que outras unidades comportam teatros, mas não há nenhum nessa unidade que ela habitualmente frequenta: “Com um teatro, teríamos mais peças, principalmente aquelas que poderiam interessar à população da periferia, onde a unidade fica localizada.” Já a outra jovem, Nicolly, declara a sua insatisfação pela pouca variedade de livros na biblioteca da unidade Guarulhos.

Em suma, a instituição Sesc atua de maneiras diferentes em todo o Brasil, mas garante - especificamente em São Paulo - um refúgio para os dias corridos da cidade grande e ainda, proporciona para diferentes indivíduos vivências e programas de qualidade. Luíza finaliza: “Penso que, com seus cursos e atividades, o Sesc muda a vida das pessoas. Como já participei de alguns cursos, pude ver essa transformação acontecer pessoalmente”.

A cultura popular jamaicana de sistemas de som comove e inspira transformações no estilo de vida dos brasileiros
por
Bianca Abreu
|
01/10/2024 - 12h

Por Bianca Abreu

Ao ar livre ou em um espaço fechado, caixas e auto-falantes são empilhadas umas sobre as outras formando grandes estruturas - por vezes tão altas que é preciso erguer a cabeça rumo ao céu para acompanhar seu tamanho. A elas se unem o toca-discos, vinis e amplificadores. Com a missão de manter esse grupo em harmonia chega o selecta, comandante desse conjunto que, desde seu surgimento na Jamaica na década de 40, foi nomeado Sound System. De lá pra cá, esse cenário já se repetiu incontáveis vezes e, faça chuva ou faça sol, esse movimento segue firme em seu objetivo coletivo de unir, informar e empoderar o povo negro e periférico - seja ele jamaicano ou brasileiro.

Foi uma espontânea sequência de oitos de maio na vida de um homem chamado Hadley Jones a responsável por tecer o surgimento desse que é um dos movimentos culturais mais relevantes do século XX. Em 1943, ele foi convocado para a Força Aérea da Inglaterra por conta da Segunda Guerra Mundial. Lá foi treinado como engenheiro de radar e enviado para a guerra na Europa um ano depois. Nessa mesma data, em 1945, o conflito foi dado como encerrado e, em 1946, Jones embarcou em Glasgow, na Escócia, para atravessar o Oceano Atlântico e retornar à sua terra natal.

 

Hadley Jones.
Hadley Jones. Foto: Acervo Hadley Jones / RedBull Music Academy / reprodução.

Em sua volta pra casa, ele trouxe na bagagem a habilidade de desenvolver circuitos elétricos e uma rede de contatos para a importação de discos de vinil. Em 1946, fascinado pelo rádio e sua capacidade de transmissão, o jamaicano - que também era músico - abriu uma loja de consertos do aparelho e aplicou ali seus novos conhecimentos adquiridos na Força Aérea. Confiando em seus novos saberes, Hadley Jones projetou, em 1947, seu primeiro amplificador. Em seguida, montou a loja Bop City e passou a comercializar vinis, tendo consigo uma coleção distinta de toda a ilha. Para valorizar essa coleção musical, trabalhou no desenvolvimento de um outro amplificador - dessa vez, de alta potência - e investiu em alto falantes poderosos. Seu equipamento realçava as frequências baixas, médias e altas como entidades separadas e permitia ao operador remixá-las. Seu principal objetivo era anunciar seus discos promovendo uma experiência de proximidade entre o público e a música.

Em certa ocasião, para promoção de um baile, o dono de uma loja de ferragens chamado Tom Wong encomendou à Hadley Jones um equipamento sonoro como o dele e o nomeou com o que, dali em diante, seria a nomenclatura substancial daquele conjunto: Sistema de Som. Assim, outros pedidos surgiram e o músico-engenheiro se firmou como o pioneiro inventivo da cultura Sound System jamaicana.

 

Pelo ar ou pelo mar, as ondas promoveram o intercâmbio cultural entre Brasil e Jamaica

O Mapa Sound System Brasil, primeira publicação nacional de mapeamento dos sistemas de som no país, explica que a ilha de São Luís do Maranhão foi a primeira parada em solo brasileiro que o reggae desembarcou. Na década de 70, o trajeto musical de uma ilha a outra foi realizado por meio das ondas de rádio, que superaram as marítimas e levaram as mensagens que protestam por justiça social aos ouvintes maranhenses. A conquista foi tamanha que, hoje, a cidade é conhecida como a Capital do Reggae.

Daniella Pimenta, integrante do coletivo Feminine-HiFi, seletora, produtora cultural e idealizadora do levantamento é uma das brasileiras arrebatadas pelo movimento. Ela conta que nenhum outro ambiente musical foi capaz de proporcioná-la uma experiência tão gratificante. O sentimento de pertencimento e a maneira como, a partir do grave, a música atinge, adentra e envolve o corpo são os principais fatores que contribuíram para o fascínio desde seu primeiro contato com o Sound System. Natan Nascimento, (também) seletor, produtor cultural, fundador do Favela Sound System e parceiro de Daniella no desenvolvimento do mapa, teve uma experiência semelhante a da colega: se apaixonou pela atmosfera da festa jamaicana à primeira vista. Já conhecia o reggae enquanto ritmo musical, mas a aliança entre o sistema de som e a música apresentou a ele a amplitude de sua dimensão cultural e social.

Tanto Dani quanto Natan foram atravessados pela magia desse movimento e o impacto foi terem seu estilo de vida transformado por ele, com convicções lapidadas e rotas profissionais reconduzidas. Mas apesar dos bons ventos nas festas do movimento, Dani confidencia que, em dado momento, empacou enquanto produzia o mapa. Ela própria contatava os coletivos para inseri-los no catálogo ilustrado mas, por alguma razão, passou a ser ignorada. O levantamento era fundamentado em perguntas simples, como fundação, equipe atual, principal vertente e localização. Além disso, uma foto do sistema de som era solicitada para que o conjunto pudesse ser registrado por completo.

O projeto só voltou a andar quando, em 2018, findou a parceria com Natan. Parte das equipes que não estavam listadas pelo fato de não terem retornado o contato a ela, curiosamente, o fizeram quando, por meio de uma publicação no Facebook, ele solicitou aos interessados o envio das mesmas informações. Ela ficou com a pulga atrás da orelha se perguntando, afinal, qual teria sido a razão para que ela nunca tenha recebido essas mesmas respostas. O resultado foi que ela conseguiu registrar 50 equipes e seu parceiro, o dobro.

Capa do Mapa Sound System Brasil.
Capa do livro Mapa Sound System Brasil. Composição: Daniella Pimenta / Natan Nascimento.

 

Vivendo de Sound System

Vitor Fya.
Vitor Fya, 25 anos, morador da Brasilândia e apreciador da cultura Sound System jamaicana. Foto: Vitor Lima / arquivo pessoal / Facebook.

Outro brasileiro seduzido pela cultura jamaicana é João Vitor Lima, de codinome Vitor Fya, morador da Brasilândia - distrito mais populoso da zona norte de São Paulo - e entusiasta da cultura Sound System há mais de uma década. Hoje, ele trabalha como serralheiro, mas aspira ter condições de fazer de seu estilo de vida mais do que um hobby: uma fonte de renda aliada à paixão.

Seu caminho se cruzou com o movimento Sound System quando ele tinha 15 anos. A primeira festa foi na extinta Fazendinha Skate Parque, pista de skate que fazia parte do complexo esportivo do Centro Educacional Esportivo Oswaldo Brandão (C.E. Vila Brasilândia). O espaço foi eliminado para ceder lugar à construção do Hospital Municipal da Brasilândia - cuja obra, de acordo com a secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras, devia ter sido completamente entregue em 2017. No entanto, apenas em 2020 o hospital foi parcialmente aberto. A inauguração ocorreu pressionada pela alta da demanda hospitalar decorrente da pandemia de Covid-19. Não houve compensação pela retirada da pista de skate com a inclusão de um outro espaço público de lazer e esporte pela região e ficou “por isso mesmo”.

Fazendinha aos domingos
Movimentação dominical no Fazendinha Skate Park. Foto: Fazendinha Skate Park / Felipe Gomes / Facebook / Reprodução.
Obras no Fazendinha.
“No momento a obra passa por movimentação de terra e fundação. Nas áreas onde estamos trabalhando havia o CDC e parte do Centro Esportivo”, explica publicação da secretaria de Infraestrutura e Obras um dia antes do início das construções, 2015. Foto: Érika Kwiek / Site Prefeitura SP / Reprodução.
Obras do complexo Brasilândia.
À esquerda, o prédio do Hospital da Brasilândia. À direita, os guindastes das obras do metrô Brasilândia, linha 6, laranja. Construções planejadas de forma que possam atuar como um anexo. Foto: Bianca Abreu.

O Natural Dub, sistema de som comandado por Thales Silva, que comandava as sessões no Fazendinha, se posicionou via Facebook acerca da derrubada da área de lazer. Em nota, pontuou que é a favor de que mais hospitais possam ser construídos na Brasilândia, mas que isso ocorra - preferencialmente - em locais onde áreas de lazer recém construídas não precisem ser destruídas. Assim, o investimento na saúde do bairro não implicaria na dissolução de um espaço cultural frequentado pela juventude na região. Junto à mensagem datada de 22 de julho de 2015 foi publicado um conjunto de fotos do derradeiro evento realizado no local.

24º Vibe.
24º Vibe.
24º Vibe, último evento e amplificação realizados pelo Natural Dub no Fazendinha Skate Park, 2015. Fotos: Natural Dub SP / Facebook / Reprodução.

Em seguida, o Vitor conheceu o Anhangabaroots - como eram chamadas as sessões de diferentes coletivos promovidas ao longo do Vale do Anhangabaú, na região central de São Paulo - e ele foi essencial para aprofundar seu interesse pelo movimento Sound System. Foi lá que a chave virou, seus olhos brilharam e ele decidiu que a cultura dos sistemas de som seria a protagonista de seu estilo de vida. Ele relembra coletivos como o Trezeroots Sistema de Som e festas como a Terremoto, em que não só os sistemas de som das equipes África Mãe do Leão e Zyon Gate se agrupavam, mas que também formavam uma grande estrutura para amplificação a partir da união com outros coletivos.

Trezeroots.Trezeroots.
Trezeroots.
Anhangabaroots com Trezeroots Sistema de Som, 2014. Foto: Trezeroots Sistema de Som / Facebook / Reprodução.
Reunion of Dub.
Reunion of Dub.
Anhangabaroots com Reunion of Dub, 2014. Foto: DC Santos / Flickr / Reprodução.
Terremoto.
Anhangabaroots com Terremoto, 2014. Foto: DC Santos / Flickr / Reprodução.

Outro evento apontado pelo paulistano é a Virada Cultural. Ele destaca a variedade de vertentes reggueiras que podia prestigiar por conta da Arena Sound System, iniciativa que reuniu, simultaneamente, os principais coletivos no centro de São Paulo - sendo eles da capital ou não. Ele lamenta a falta de continuidade dessa programação.

 

Um sistema de som de qualidade aliado a bons discos faz relaxar e viajar sem sair do lugar

João Vitor considera que a cultura Sound System fisga seu público pela experiência completa e transformadora que proporciona. A qualidade dos equipamentos, sua instalação no espaço escolhido para a festa e o domínio musical de quem comanda a sessão são elementos essenciais para que a experiência seja agradável e enriquecedora. Estar em um ambiente seguro, acolhedor e com elementos educativos contribuem para instigar a curiosidade sobre os detalhes daquela cultura, expandindo sua consciência e fortalecendo a admiração e o vínculo com esse estilo de vida. São profundamente cultivados os princípios como respeito, tolerância e inclusão.

O sistema de som é estruturado por um conjunto de caixas equipadas de modo que a experiência sonora alcance e comova o público com o melhor desempenho possível. Para João Vitor, logo de cara, esse conjunto estrutural é o que mais chama a atenção. Os elementos gráficos, como cores e texturas, e a disposição de cada uma das peças de todo o aparato estrutural compõem a identidade do coletivo.

Salto Sound System
Formato de sistema de som do Salto Sound System, coletiva que apresenta-se em busca da “emancipação de mulheres negras e pessoas trans negras através da cultura Soundsystem”. Ilustração: Natan Nascimento / Mapa Sound System, 2019 / Reprodução.

 

Salto.
Formato de sistema de som do Salto Sound System, coletiva que apresenta-se em busca da “emancipação de mulheres negras e pessoas trans negras através da cultura Soundsystem”. Ilustração: Natan Nascimento / Mapa Sound System, 2019 / Reprodução.

A preocupação com o repertório também é parte indispensável da construção da identidade do sistema de som e de seu seletor. Ele deve ser capaz de aliar diferentes elementos sonoros a fim de abrilhantar sua performance e complementar o impacto artístico trago com a escolha dos discos reproduzidos - afinidade com o vinil é fundamental para qualidade do espetáculo. João explica que cada seletor costuma se especializar em um dos vários gêneros possíveis, mas que, nas sessões, costumam transitar entre eles, trazendo variedade e alguns ineditismos às suas apresentações. Vivenciando diferentes festas, ele passou a reconhecer uma variedade de vertentes como Roots, Steppa e Rub-A-Dub.

Questionado sobre conhecer a qualidade feminina na cena, João Vitor Lima exalta o trabalho do coletivo Feminine Hi-Fi, formado pelas seletoras e produtoras Laylah Arruda e Daniella Pimenta - reggueira que deu o pontapé no mapeamento dos sistemas de som em solo nacional.

Feminine HiFi.

 

Feminine HiFi.Feminine HiFi.Feminine HiFi.
Feminine HiFi.
Tendal da Lapa recebe 3ª edição do festival Feminine Hi-Fi, onde a line-up e o comando da sessão são 100% femininos. Foto: Bianca Abreu / Flickr.

 

Entre todos, ele: o pioneiro

Em vários momentos ao longo da conversa, Vitor salienta as virtudes do DubVersão Sound System - comandado por Fábio Murakami, o Yellow P (pronuncia-se ‘pi’) e pioneiro em terras paulistas. Desde 2001, ele propaga a cultura por toda São Paulo e o faz no mais genuíno modelo jamaicano, no que diz respeito à escolha por ambientes abertos e vertentes clássicas em sua performance. É o predileto de João Vitor - que comparece tanto às suas apresentações públicas como privadas - e foi o primeiro contato de Daniella Pimenta com o movimento. O evento Dub Na Praça acontece anualmente na Praça João Cabral de Resende, no Jardim Primavera, zona norte da capital paulista. É um espaço aberto e convidativo para curtir uma tarde gratuita nos moldes tradicionais do Sound System jamaicano. Já o Java, também comandado pelo Yellow P, é o braço pago dos eventos realizados pelo DubVersão e hoje ocorre na Rua Simonsen, na Sé. Além dessas duas festas inegociáveis, a agenda cultural paulista costuma integrar o DubVersão a novos espaços ao longo do ano.

Dubversão.Dubversão.
Dubversão.
DubVersão Sound System no Tendal da Lapa, 2023. Foto: Bianca Abreu.

João ressalta que prioriza as festas em que sente seu corpo e espírito em estado de conforto e harmonia. Ele conta que, quando vai ao Java, renova suas forças e sai de lá novinho em folha. Segundo ele, mesmo quando uma força maior impede que consiga adquirir o ingresso de uma das edições da festa, ele não reclama da cobrança existir pois a considera justa diante da qualidade da experiência promovida. Ele frisa que o coletivo sempre promove eventos gratuitos e que a qualidade da performance não se abala diante da cobrança da entrada no evento.

Ele conta que já leu comentários nas redes sociais em que alguns perfis reclamavam do fato de o Yellow P performar de costas para o público e questionam se isso seria sinal de vergonha. Vitor esclarece que, na realidade, isso faz parte da apresentação do seletor. Sua intenção é que o público visualize os caminhos que ele percorre para projetar os efeitos sonoros que escolhe ao longo da sessão. Para ele, isso é uma aula. Ele assiste atento e idealiza meios de reproduzir aquela performance em seus próprios equipamentos. O Susi In Transe, casa noturna que recebeu a seleção de Yellow P em suas primeiras apresentações declarou o fechamento de suas portas no último mês. O jovem paulistano lamenta o encerramento das atividades de mais um espaço cultural da cidade.

Susi In Transe
Produtor Daniel Ganjaman e Yellow P, em sessão no antigo Susi In Transe. Foto: Acervo Miguel Salvatore / UOL / Music Non Stop.

 

O desejo de compartilhar

Por conta da influência positiva que o Sound System como estilo de vida o proporcionou, João Vitor deseja ter a oportunidade de multiplicar os beneficiados por ele com a mesma maestria que os pioneiros que admira. Até hoje, como Vitor Fya, ele pôde comandar sessões em eventos de terceiros, como o RNR, sistema de som de seu bairro que o apadrinhou. Entretanto, sua intenção é alçar voos maiores para expansão do conhecimento sobre a cultura em seu território. Para ele, o que mais dificulta sua atuação na cena é o alto custo para tirar um plano como esse do papel, pois montar um sistema de som envolve custos com equipamentos, locomoção e investimentos no repertório musical. Ele gostaria de envolver a criançada do seu bairro nesse movimento cultural, despertando seu interesse em se aproximar da música a partir do manuseio de um toca-discos, estimular sua criatividade na administração dos botões da amplificação e inseri-los em uma prática onde é forte a relação de comunidade.

O intercâmbio cultural entre as ilhas jamaicana e brasileira se findou pela recíproca identificação dos oriundos das periferias de ambos os territórios. Os discos de vinil puderam expandir o alcance dos protestos de um subúrbio ao outro tendo as caixas empilhadas como aliada no ecoar dessas mensagens. Essa celebração reggueira reafirma a importância da valorização do território e o vigor dos encontros presenciais - por isso, conectando sensibilidade e força, tornou-se tradição cá e lá.

A alteração climática trouxe melhorias para a saúde da população e retirou a cidade do topo do ranking mundial de pior qualidade do ar
por
Gabriel Porphirio Brito
|
17/09/2024 - 12h

 

Calçada com pessoas com roupa de frio e segurando guarda-chuva
A previsão é de dias frios até quinta-feira (19). / Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

 

Após quinze dias de calor intenso e qualidade do ar comprometida, a cidade de São Paulo experimenta mudança significativa nas condições climáticas, com a chegada de uma frente fria. Entre os dias 15 e 16 de setembro, o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) da Prefeitura registrou uma alta na umidade relativa do ar, que chegou a 98%, com algumas áreas atingindo 100%. 

Melhoria da qualidade do ar

De acordo com dados do IQAir, São Paulo chegou a figurar na primeira posição do seu ranking global de metrópoles com piores índices de qualidade do ar, consequência direta da onda de calor, poluição, queimadas, e das condições atmosféricas desfavoráveis.

O CGE informou, na segunda-feira (16), que a formação de uma área de baixa pressão vinda do Paraná, na região Sul do país, trouxe instabilidades atmosféricas, o que provocou a chegada da chuva e a melhora da qualidade do ar. 

Além disso, a precipitação e o aumento da umidade permitiram a dispersão de poluentes que se acumulavam na atmosfera, tornando o ar mais respirável. A expectativa é de que essa melhora seja contínua ao longo dos próximos dias, já que a previsão meteorológica indica que a umidade e as temperaturas amenas devem persistir.

A capital, que até a semana passada estava em primeiro lugar no índice global de poluição, agora ocupa a posição 73, com o ar classificado como “bom”, segundo a plataforma IQAir.

Previsão do tempo

Segundo o Climatempo, a chegada da frente fria trouxe queda nas temperaturas, com máximas que não ultrapassam os 20°C até quarta-feira (18). Para esta terça-feira (17), a mínima registrada foi de 14°C e a máxima não deve passar 20°C. 

Embora a frente fria traga alívio momentâneo, ainda de acordo com o Climatempo, o efeito pode ser temporário. Com a previsão de retorno de temperaturas mais elevadas até o final da semana, com máximas de até 34ºC a partir de sexta-feira (20), é possível que a qualidade do ar volte a piorar, embora em menor intensidade e ainda com pancadas de chuva pontuais.

Estado de alerta

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu, na segunda-feira (16), o alerta amarelo de “perigo potencial”, para a cidade, áreas do litoral e da região metropolitana. A previsão é de chuvas entre 20 e 30 mm/h, com um volume total de até 50 mm por dia, e ventos intensos, que variam entre 40 e 60 km/h. O Inmet também alerta para a possibilidade de alagamentos e pequenos deslizamentos, embora o risco seja considerado baixo.

Já nas regiões de Ribeirão Preto e São José do Rio Preto, que recentemente sofreram com incêndios florestais devido ao tempo seco, há previsão de chuvas intensas. Essa chuva, que pode alcançar 50 mm por dia e ser acompanhada de ventos de até 60 km/h, representa uma mudança significativa para áreas que sofreram com a seca prolongada. No entanto, há riscos adicionais, como queda de galhos de árvores, cortes no fornecimento de energia elétrica e alagamentos localizados.

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Apenas mais uma batata na feira, palco onde somam-se histórias nutridas de amor e resiliência
por
Vitor Nhoatto
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06/06/2024 - 12h

Não é apenas o sol que consegue aquecer o gélido concreto urbano. Lonas abertas, madeiras estruturadas, produtos apresentados, todos a postos. Uma reunião de almas comunicadoras, que buscam o sustento colocando suas hábeis mãos no que a terra melhor tem a oferecer. Em meio a gritos, sons de facas, sacolas e máquinas de cartão, o alimento cuidadosamente regado de energia pelos carregados olhos de amor dos personagens principais dessa festa, passa de um para o outro. Essa é a feira.

Como um palco a ser percorrido, fregueses vem e vão na Rua Ministro Godói em Perdizes, devidamente fechada para que o show possa continuar. No local encontra-se uma variedade de objetos, posicionados delicadamente pelos atores da peça, esses com texto ensaiado por anos e para diferentes públicos. À medida que se adentra no universo artisticamente comerciante a sensação térmica sobe. Sem ser desconfortável como as recentes ondas de calor ocasionadas em São Paulo pelas mudanças climáticas, o calor humano cativante dos negociantes sob as tendas das barracas fabrica uma atmosfera aconchegante.

Mais ao centro do palco asfaltado, uma estrutura de aço acompanhada de sacas de variadas batatas, instrumentos de batalha como balanças e sacolas, é preenchida pela irradiação energética de uma das protagonistas do evento. O bordado na roupa de gala anuncia seu nome, e a voz alegre e cheia de vitalidade proclama: "Fala amor, você quer um pinhão? Você vai fazer ele hoje ou não? Se for pode levar ele assim no saquinho plástico, porque esse outro assim respira mais, e esse tem que fazer ou tirar do saquinho". Um olhar cuidadoso debaixo dos óculos enxerga para além do físico. No alto dos seus 78 anos, Dona Beatriz alavanca sua barraca. Suas mãos vibram dentro das luvas de látex e cuidadosamente revelam a beleza dos alimentos que vende. "É oito amore. Yuri passa o PIX para ele aqui? Foi, passou! Obrigada amor". Sempre ressoando palavras de alto astral, e atendendo com todo o empenho os consumidores que ali param, assim segue ela durante o restante da apresentação, a qual já repete há 60 anos.

Dona Beatriz limpa uma cebola com uma faca e veste luvas de látex
“Essa tava com a casquinha feia, nem parecia que era tão bonita” - Foto: Vitor Nhoatto

Entre idas e vindas de fregueses, uma tela começava a ser preenchida, e o que os cabelos brancos e as marcas de uma vida bem vivida no rosto, materializadas em forma de rugas, contavam, vão sendo verbalizadas. "Os meus pais eram feirantes, eu já vim assim de uma tradição. Quando conheci o meu marido, tinha 13 anos quando comecei a namorá-lo, ele comprou uma barraca de batata, e depois de 5 anos a gente se casou e ficamos nessa vida, sempre com batata". O rumo segue e mais cores vão compondo a atmosfera. "Nós somos os dois portugueses, nascemos lá. Ele que tem 88 anos, veio com 14, agora eu não. Eu vim em 1946, ano que nasci. Nasci em março, em setembro meus pais vieram para aqui".

As terras lusitanas passaram por uma crise econômica na metade da década de 1940, no final da segunda guerra mundial e após seu encerramento. Durante o conflito, Portugal registrava recordes positivos ao ser um dos maiores vendedores do minério volfrâmio, usado em armas. No entanto, apesar de ter se mantido neutro na época, acatou a pressão dos países aliados e a comercialização do volfrâmio foi proibida em junho de 1944, impactando fortemente o país. Isso levou a imigração de milhares de pessoas em busca de melhores condições. O Brasil foi o principal destino desses portugueses de 1930 a meados de 1960, e Dona Beatriz com seus pais e mais tarde seu marido, representam quatro dos 148.699 portugueses que entraram em terras brasileiras entre 1931 e 1950 segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Com uma voz que diz muito mais do que as palavras que da boca saem, a viagem no tempo segue com uma gratidão apaixonada. "Tivemos outros lugares, trabalhamos em Osasco, em Itapevi… mas sempre uma aqui, 60 anos aqui. E a vida foi assim, a vida foi para trabalhar na feira, criar os filhos, e viver eu e meu marido muito felizes graças a deus. 46 anos nós vivemos casados". Preenchida cuidadosamente de lembranças, o amor pelo marido, o qual se refere em alguns momentos ainda no presente, pode confundir o telespectador da obra. Antônio partiu há 12 anos e 10 meses, como especifica. "A vida é assim meu amor". 

Antiga habitante do centro expandido de São Paulo, Dona Beatriz vive hoje com  seus dois filhos no bairro transmorfo e de história curiosa, Granja Viana. Com nome que remete às suas origens de fazenda familiar, rodeado pela Mata Atlântica, o local já foi uma ilha de descanso de alto padrão, mas hoje está denso e prejudicado, apesar de aos olhos da ilustre moradora soar como um oásis pertencente a Cotia. "Eu moro no quilômetro 22,5 da Raposo Tavares, fui para lá em 2001, era bastante mato, até a rua que a gente desce para nossa casa era terra ainda, agora não, tudo lindo asfaltado. Muitas árvores. O lugar é gostoso para gente morar".

Em sua Kombi branca, vai e vem, cortando a rodovia nos cinco dias de trabalho, sempre bem pela manhã. "A gente chega mais ou menos 5 horas, e eu levanto todo dia 4 horas, todo dia… mas tô acostumada. Nem precisa mais do despertador, é aquele hábito, na graça de Deus é bom, que a gente tem saúde". As aparições da feirante e seu fiel escudeiro Yuri, com quem trabalha há quase uma década, foram designadas para ocorrer em bairros paulistanos distantes de sua atual casa pela prefeitura, em uma época que Dona Beatriz morava na zona oeste da cidade. "A vida é assim, a gente vai levando aonde se sente bem, onde tá feliz… e eu tô". 

Formalmente regulamentadas em 1914 no estado de São Paulo, as feiras livres movimentam a economia e seguem resilientes frente à disputa de atenção. Os shows familiares e intimistas  passaram por uma crise nas décadas de 1960 e 1970, com a chegada dos super festivais, chamados de supermercados. Espelhava-se na imprensa que era próximo o fim dos artistas locais, alegadamente incapazes de peitar as estrelas refinadas recém chegadas como Pão de Açúcar, Carrefour e o extinto Sirva-se. 

Porém, representando mais do que um espaço de trocas comerciais, e sim de laços humanos, as constituintes da identidade nacional resistiram e se expandiram. De 2013 a 2023 houve aumento de 10% no número de feiras segundo a Prefeitura de São Paulo. Dona Beatriz integra 5 das 955 hoje registradas, e conta alegre que graças ao local de convivência e negócios, criou dois filhos. "O que importa é que dá para gente sobreviver com dignidade né? E a gente vai vivendo" O tempo não para, e os fregueses sobem ao palco, buscando matéria prima que alimenta além de seus corpos, mas a alma também.

Vestindo um avental amarelo com seu nome bordado em vermelho ao centro, Dona Beatriz segura uma cebola enquanto olha para a câmera
Não é a individualidade que faz uma feira e as falas no plural de Dona Beatriz reforçam tal fato, enquanto seu olhar profundo cativa quem por ali passa - Foto: Vitor Nhoatto

"Bom dia meu amor, tudo bem minha querida? Olha que coisa linda essa batata maravilhosa". Aqui tem-se um momento de pausa na recapitulação histórica, mas não no trilhar do presente. Dona Beatriz agarra com a sua tonalidade vocal levemente estridente e recoberta por ternura e simpatia, a aura de quem para na barraca. "Aqui tem 1,6kg meu amor, quer completar dois? Pode deixar que a gente pega. Essa outra é só escovada por isso não tem tanta terra, mas essa daqui como eles colheram com a terra molhada ficou assim. Dois quilos, tá amor? Deu 18 com 16, é PIX? Brigada meu amor. Tchau amore, vai com Deus".

Apesar de não ser tão agitada como costumava, percebem-se vários públicos na feira. Entre alunos e funcionários da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pedreiros das obras do entorno, e moradores da rua, que entram e saem dos prédios, algumas vezes em veículos de luxo. O bairro de Perdizes se transformou ao longo dos 60 anos de trabalho de Dona Beatriz no local. Nas últimas décadas a classe média se apropriou da região, originalmente familiar e pacata, como revela a arquitetura das poucas construções tombadas que resistiram à especulação imobiliária. Levantamento da Data Lello, instituto de pesquisas e inovação da Lello Condomínios, aponta que no ano vigente, 818 condomínios serão entregues, com destaque ao bairro da feira.

Engrenando-se novamente no monólogo, o brilho de Dona Beatriz é como uma chama intensa que ilumina o ambiente. Ela percorre seus antecedentes e os manifesta à plateia sempre que tiver quem escute, mas não por desespero de ser ouvida, e sim pelo orgulho de sua trajetória.  O avental com seu nome inscrito, de cores intensas, faz jus ao magnetismo da pessoa que o veste, a qual não para em um só lugar. Nada parece abalar o desempenho da estrela da peça, que se refere aos potenciais clientes e amigos como uma artista se dirige a seu público. "Aqui só atrapalha quando o pessoal não vem". 

Mãe orgulhosa, o amor por sua família reluz nas lentes grossas de seus óculos e na tela de seu celular com capinha cor de limão vibrante. As pálpebras se apertam e os olhos levemente se enchem de lágrimas de alegria enquanto mostra uma fotografia com seus dois netos, Rafael e Carolina. A feirante então para por um instante e com um suspirar profundo, desacelera para refletir sobre tudo que já viveu. "Foi assim, uma vida maravilhosa, feliz. Criei meus filhos, tenho dois netos [...] o que importa é que dá para gente sobreviver com dignidade. É difícil, não é fácil não, mas consegue… a gente tem que ter sempre bastante equilíbrio para ir sempre pelo caminho certo, a vida é assim, a gente vai levando."

A população brasileira vem envelhecendo gradualmente devido a melhores condições em áreas como a da saúde, educação e alimentação, refletindo em mais longevidade, apesar de haver muito ainda o que melhorar. Segundo o Censo 2022, a média nacional de vida dos brasileiros é 75,5 anos. "Agora só esperar o fim da vida, né? Tô com 78 anos e agora a gente não pode esperar mais muita coisa. Eu pretendo chegar aos 80 trabalhando, mas vamos ver o que Deus vai nos reservar, se eu tiver força do jeito que eu to agora acho que eu chego até os 80… é assim meu amor", comenta Dona Beatriz em tom de agradecimento, longe da lamúria ou de um esperado cansaço.

Batatas rosadas, batatas doces, pinhão e batatas inglesas expostas na barraca em caixas
O ato principal permanece, mas como os novos tempos pediram, convidados aparecem lá de vez em quando em meio as batatas -  Foto: Vitor Nhoatto

O tempo vai passando, e sem perceber o show se encaminha para seu fim. É chegada a hora de voltar a coxia e desmontar o palco para a próxima apresentação. A emoção transparece no olhar e as bochechas se alargam e se erguem dando lugar a mais um sorriso, dessa vez de despedida. "Você vê como a feira é gostosa? O contato, a amizade, o amor que a gente tem". Pouco a pouco o movimento vai cessando e as batatas, cebolas e pinhões vão entrando na Kombi pelas mãos de Yuri e Dona Beatriz, afinal, o tempo não para. O dia seguinte começa cedo e é de mais trabalho, na quarta-feira sendo a vez do bairro Pompéia. 

A sensação térmica incômoda do calor escaldante volta a se impor sob as cabeças agora desprovidas de lonas. Cada um volta a seus próprios universos e preocupações da vida contemporânea incessante. Cascas, resíduos e alguns papéis ficam pelo chão, que será limpo pela Prefeitura, ao passo que as peças teatrais históricas que quase ninguém conhece, se dissipam no emaranhado de vias urbanas da selva de pedra. Esse é o ciclo, semana que vem haverá mais. E como diria Dona Beatriz, "é assim, a vida é um paraíso".

 

Esta matéria foi produzida como parte integrante das Atividades Extensionistas do curso de Jornalismo da PUC-SP.

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