Aeronave perde controle sob altitude e atinge prédio de três andares na região nordeste do município
por
Vitoria Wu
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06/05/2026 - 12h

 

Nesta segunda-feira (4), um avião de pequeno porte colidiu com um prédio no bairro Silveira, em Belo Horizonte.  Antes do acidente, a aeronave saiu de Teófilo Otoni (MG) e pousou no Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte (MG). No terminal, duas pessoas desembarcaram e outra embarcou. 


Na sequência, às 12h16, a aeronave decolou na capital mineira e seguia para o Campo de Marte, em São Paulo (SP), quando, três minutos depois, perdeu altitude e bateu no prédio. A colisão ocorreu a uma distância de aproximadamente 3,7 quilômetros, em linha reta, da cabeceira da pista.


De acordo com informações do corpo de bombeiros, havia cinco pessoas dentro do avião. Wellington de Oliveira, piloto de 34 anos e Fernando Moreira Souto, passageiro de 36 anos que se sentava no banco do copiloto, morreram no lugar do acidente. Outros três passageiros foram resgatados e levados até o hospital João XXIII , porém, Leonardo Berganholi de 50 anos morreu logo depois de dar entrada ao centro médico, segundo a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG).


Em entrevista à AGEMT, Patrícia Barbosa, testemunha que estava próximo ao local do acidente relata que a aeronave não apresentava uma boa posição de decolagem. “Como gosto muito de observar os aviões, fiquei observando, mas aparentemente, ao invés de estar em posição de decolagem (subindo) estava numa posição reta, o sentido que o avião estava indo não tinha aeroporto e pouco local de aterrissagem. Estava tão baixo que deu para ver claramente alguns detalhes, principalmente as cores que eram brancas e azul escuro.” afirma.


Renato Barbosa, estudante de medicina, relatou que o avião estava voando em altura baixa e que, em poucos segundos, se curvou e bateu contra o edifício. “ Na hora, pensei que fosse algum piloto de manobras, porém, alguns instantes depois, ele se curvou para a direita e bateu no prédio. Muita gente correu para o local e ficou com cheiro de combustível, não deu para ver ninguém da tripulação na hora da batida, só os destroços do avião”, contou em entrevista à AGEMT.

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Corpo de bombeiros atuando sob os destroços. Reprodução: Corpo de bombeiros de MG.

Não houve mortos no edifício na qual o avião colidiu, afirmam os bombeiros.


 Em nota, a Defesa Civil de Belo Horizonte informou que o prédio foi interditado preventivamente pelo Corpo de Bombeiros e que, após avaliação de riscos no local, realizou o isolamento preventivo do estacionamento do supermercado ao lado do prédio e de dois apartamentos.  Os moradores das unidades foram realocados para casas de familiares, segundo o órgão. O condomínio foi notificado em decorrência da queda de material, para preservar os destroços da aeronave até que finalize a perícia pelos investigadores do Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (SERIPA).


O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) ressalta que ainda é cedo para determinar as causas exatas do acidente. As investigações devem prosseguir e um relatório será divulgado nos próximos meses.

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O aplicativo lançado em 2024 facilita o preenchimento de boletins de ocorrência online e o acionamento imediato da Polícia Militar em casos urgentes
por
Thayná Patricia Alves
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23/04/2026 - 12h

 

O SP Mulher Segura foi disponibilizado pelo Governo do Estado de São Paulo em 8 de março de 2024, data que marca o Dia Internacional da Mulher. Desenvolvido pela Secretaria de Segurança Pública, o app surgiu com o objetivo de ampliar e facilitar o acesso a serviços de proteção para mulheres vítimas de violência, reunindo, em uma única plataforma, funcionalidades que antes estavam separadas.

Gratuito e disponível 24 horas por dia, o SP Mulher Segura incorporou funcionalidades do antigo programa SOS Mulher, que já oferecia suporte emergencial para vítimas com medida protetiva. Porém, as informações para o acesso ao programa eram preenchidas de forma manual. 

Com o novo aplicativo, esse fluxo foi simplificado, diminuindo a burocracia e o tempo de resposta. Ele permite registrar boletins de ocorrência diretamente pelo celular, de forma discreta e sem a necessidade de deslocamento até uma delegacia.

Outro recurso principal é o botão do pânico, que possibilita o acionamento imediato da Polícia Militar em situações de risco, principalmente para aquelas mulheres que possuem medida protetiva ativa. A partir da localização em tempo real, o sistema cruza informações da vítima e do agressor e, em caso de aproximação, aciona automaticamente a polícia e envia uma viatura ao local. 

O sistema é integrado à conta gov.br, o que permite o preenchimento automático dos dados e a verificação de eventuais medidas judiciais ativas.

Print de tela mostrando as funcionalidades do SP Mulher Segura Reprodução: Thayná Alves
Funcionalidades do SP Mulher Segura. Reprodução

 

Nos primeiros meses de funcionamento, o aplicativo registrou 1.592 boletins de ocorrência, 1.339 acionamentos do botão do pânico e 496 solicitações de medidas protetivas realizadas diretamente pela plataforma.

Atualizações mais recentes, de março de 2026, apontam que o aplicativo já superou 50 mil downloads, com mais de 2.100 boletins de ocorrência registrados, cerca de 7 mil acionamentos do botão do pânico e 101 mil solicitações de medidas protetivas. Outro dado destacado é a redução no tempo de resposta policial, que passou para menos de dois minutos em ocorrências acionadas pelo app.

Apesar de funcional, o SP Mulher Segura só passou a ser mais divulgado e acessado em 2026, devido ao aumento exponencial dos casos de feminicídio e à divulgação por parte da Secretaria de Políticas para a Mulher. Entretanto, em uma pesquisa pessoal para um grupo de 100 pessoas, apenas ⅓ têm o conhecimento da plataforma, enquanto o restante desconhece a existência do aplicativo.

O SP Mulher Segura integra um conjunto mais amplo de políticas públicas voltadas à proteção feminina, articuladas no âmbito do movimento São Paulo Por Todas. A iniciativa busca dar visibilidade aos serviços disponíveis e à rede de acolhimento, promovendo ações relacionadas à saúde e à autonomia financeira das mulheres.

O lançamento do app ocorreu junto a outras medidas, dentre elas, a criação de 62 novas salas de atendimento da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), aumentando para o total de 141 unidades no estado. Elas funcionam 24 horas por dia e contam com atendimento por videochamada com equipes especializadas, permitindo o registro de ocorrências, orientação às vítimas e solicitação de medidas protetivas.

Apesar dos avanços, o principal impacto do aplicativo está na melhoria do acesso a serviços que já existiam, tornando o processo mais rápido e menos burocrático, mas não cria soluções totalmente novas. Na prática, seu impacto depende de fatores como a rapidez da resposta da polícia, a estrutura das delegacias e o quanto as mulheres conseguem, de fato, usar o aplicativo. 

O aplicativo facilita o pedido de ajuda, mas ainda depende de todo um sistema funcionando de forma eficiente para, de fato, fazer diferença no enfrentamento à violência contra a mulher.

Seu período de teste Premium terminou
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Descubra um pedaço da história desse país localizado nos Balcãs, seus desafios econômicos e belezas naturais
por
Vítor Nhoatto
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19/04/2026 - 12h

 

Doce euforia de viajar, desbravar um país e uma cultura nova. Certamente acompanhada também de algum estresse pelos perrengues chiques, e o cansaço satisfatório de atingir a meta de passos diários explorando ao máximo esse mundo fascinante. Desde a chegada na cosmopolita capital Tirana, até a despedida após uma desconexão da velocidade na praia de Durres, sentimentos que certamente não vão embora de quem visitar a Albânia. 

Já na aterrissagem no principal aeroporto do país de 29 mil quilômetros quadrados, pouco maior que o estado de Alagoas, as singularidades começam. A maioria deve não reparar, mas a frota de carros usados no Tirana International Airport Nënë Tereza (TIA) é toda formada por BYDs Dolphin Mini, chineses e elétricos. 

Ao sair do modesto aeroporto, a arquitetura característica composta por formas geométricas como cubos e pirâmides se sobressai na fachada da construção. Ao lado, vários quiosques de locadoras de carros, um ônibus que sai a cada hora para o centro da capital Tirana, cerca de 20 km, e novamente, dezenas de táxis chineses. A relação com o país asiatico é antiga, desde 1949 devido ao regime comunista que o país vivenciou até 1992, com uma interrupção entre 1979 até 1989 devido a política albanesa de isolamento total na época.

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Na saída do aeroporto, dezenas de táxis, tal qual esse Honda e:Ny1 versão chinesa e não europeia. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

De dentro do táxi elétrico, que tal qual o ônibus e a maioria dos comércios, só aceita pagamento em dinheiro físico, lekë ou euro, outro fato curioso que continua refletindo a história onde se está. Na cidade não há sistema metroviário, apenas ônibus, e plataformas como Uber não operam no país. 

A indústria dos taxistas possui um peso político muito grande, durante o comunismo e a proibição de empresas privadas, muitos albaneses passaram a trabalhar clandestinamente para complementar a renda do emprego estatal, como encanadores, pedreiros, e motoristas também. Mas se com isso, a ânsia por um aplicativo, ou a necessidade de pagar em cartão gritarem, existem uma série de plataformas de viagens como o “Tirana Taxi” e o “Bee Taxi”.

Chegado ao destino, um caloroso “obrigado” em inglês, um sorriso, e a simpatia que não é comum a outros países do continente, quem dirá aos franceses. Mesmo apesar da única língua oficial do país ser o Albanês, segundo dados do Instituto de Estatísticas do país (Instat) de 2018, quase 40% da população fala pelo menos numa língua estrangeira, chegando a quase 60% entre as pessoas até 34 anos. O principal é o inglês, seguido do italiano e do grego.

Além disso, apesar do albanês ser uma língua indo-europeia, é a única sobrevivente do ramo linguístico ilírio, ou seja, não possui similaridades com nenhum outro idioma atualmente, apenas influências do turco e grego, o que demanda dos comerciantes e juventude uma forma de se comunicar com outros povos. Existem ainda dois dialetos falados no país e no Kosovo, majoritariamente formados por albaneses, o Tosk e o Gheg.

 

Encontro de gerações e pensamentos 

 

A Albânia é um país que faz fronteira com a Grécia, Macedônia do Norte, Kosovo e Montenegro, enquanto a oeste tem o mar Adriático até a Itália. Devido a essa posição, e as várias vezes que o comunismo já foi citado, pode-se pensar que a nação fez parte da antiga Iugoslávia, país formado pelos povos de origem eslava que durou de 1929 até 1991 e foi controlado pela União Soviética após a Segunda Guerra Mundial. 

No entanto, o país nunca pertenceu à extinta nação, que hoje responde a sete países, e muito menos foi um satélite soviético, apesar de estreitos laços até 1960. A declaração de independência veio em 28 de novembro de 1912 em meio a Guerra dos Balcãs, e o reconhecimento internacional em 1913 com o Tratado de Bucareste. 

Em relação a sua atual capital, Tirana, a fundação é bem mais antiga, datada em 1614 e realizada pelo comerciante Sulejman Bargjini Pasha. Sua posição estratégica, uma área em meio a cadeia de montanhas Dajti e o mar Adriático, fez com que se tornasse capital em 1920, e todas essas história, pode ser vista e sentida na prática ao andar pela praça Skanderbeg, primeiro ponto turístico dessa viagem.

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País assumiu posição alinhada ao Ocidente desde os anos 2000, como bandeira da Ucrânia na prefeitura comprova nos dias de hoje. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt 

 

O fundador da cidade construiu na época uma casa de banho turca, uma mesquita e uma padaria, elementos que compõem bem essa parte otomana da cidade. Mais tarde, durante a Primeira Guerra Mundial, o fascismo regiu a recém independente monarquia do Rei Zog I. Até que em 1944 o comunismo invade a arquitetura do lugar, mudando a paisagem até 1991, quando a modernização de cicatrizes começa.

Dito tudo isso, a praça em questão tem elementos concentrados em poucos metros quadrados exatamente de todas essas eras. O nome faz homenagem ao herói nacional Skanderbeg, militar  que liderou a resistência de 25 anos na região contra o império otomano, exemplo de sucesso dos cristãos nos Balcãs.

Ao lado de sua estátua está justamente uma parte otomana da cidade, formada pela Torre do Relógio, construída em 1812, e a mesquita Et’hem Bej. Terminada em 1821 pelo bisneto do fundador da cidade, é aberta a todos que queiram entrar e admirar o fresco e colorido interior, desde que se tire os sapatos como a religião sunita manda. E claro, se bata um papo com o simpático “recepcionista” da mesquita, que entrega panfletos sobre a rica história do lugar que foi inclusive fechado durante a ditadura comunista, e símbolo da reabertura religiosa no país em 1991 após manifestações de estudantes. 

Colocando o sapato para fora do templo, eis as construções da época fascista, com prédios quadrados e amarelados dos famosos arquitetos do período de Mussolini na Itália, Florestano Di Fausto e Armando Brasini. A praça inclusive se tornou o centro da cidade após o projeto entre os italianos e o ex-primeiro ministro, ex-presidente, e então rei Zog I em 1923. 

Hoje todos são prédios públicos, como a atual prefeitura, e revitalizados no começo dos anos 2000 pelo então prefeito Edi Rama com cores vibrantes. A escolha das cores intensas como vermelho, amarelo, rosa e azul são inclusive uma resposta ao cinza da época das construções do comunismo.

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Cores marcantes, torres envidraçados, estátuas e até um prédio residencial em formato de cabeça, representam como a cidade é uma mistura constante de épocas. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Do outro lado da praça, sempre movimentada, e com turistas em torno da gigante escultura  “I Love Tirana”, que significa “eu amo Tirana” em português, está o Museu de História Nacional e o mosaico característico da propaganda comunista: albaneses simples, trabalhadores, empunhando a bandeira do país com determinação e alegria. Apesar de fechado para reformas desde março de 2024, com entrega prevista para março de 2028, mesmo assim faz o visitante parar por alguns minutos para admirar a obra. Outra construção da época é o atual  Palácio da Cultura, que abriga a ópera e o ballet da Albânia, a Livraria e o Teatro Nacional, além de vários comércios. 

Seguindo o passeio condensado de períodos históricos, em meio ao Palácio e os coloridos prédios dos Ministérios da cidade, um museu sobre a ditadura vivida pelos albaneses. Não se trata de outra construção de arquitetura stalinista, um projeto italiano ou otomano, mas um buraco no chão. Melhor dizendo, um bunker.

 

Relembrar o passado para se ter um futuro

Uma das características mais marcantes do período era a preocupação com possíveis invasões de países capitalistas. Tal paranoia do líder Enver Hoxha, encheu o território do país com as construções em formato de cogumelo que levam para milhares de quilômetros de túneis subterrâneos. Se esperava que 750 mil bunkers fossem construídos, mas estima-se que apenas 173 mil ficaram prontos até a morte do líder em 1985. Uma ferida dolorosa para muitos albaneses que viveram o período, mas hoje também um lugar de resistência e educação, com um desses bunkers tendo se transformado em um museu, o Bunk’Art 2. 

O preço do ingresso varia, cerca de 700 lekës para apenas o Bunk’Art 2, e 1.300 lekës também para visitar o Bunk’Art 1, bem maior, mas a 15km do centro. Em uma conversão simplificada para o euro, significa cerca de 7 e 13 euros respectivamente. Destaque para a opção de pagar com cartão de crédito, além da possibilidade de visitar o Bunk’Art 1 em até três dias caso opte pelo ingresso conjunto.

Ao descer as escadas após uma simpática recepção ao lado da entrada do “cogumelo” por um carro militar da época, os túneis começam. O lugar conta a história desde a ascensão de Hoxha como líder da oposição na época da monarquia pela Frente Democrática Albanesa, até a reabertura do país. Para isso, uma curadoria cheia de documentos originais recuperados da época, textos e painéis informativos, além de vídeos e até figuras com interação com realidade aumentada pelo aplicativo Bunk’Art.

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Quarto de Enver Hoxha, hoje no Bunk’Art, nunca foi usado pelo ditador, tal qual todos os bunkers construídos. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Foram recriados também os ambientes da época, nos quartos que de fato foram usados para testes militares, com móveis e equipamentos de espionagem do Sigurimi (órgão responsável por espionar os cidadãos na ditadura) preservados da época, máscaras contra armas químicas e relatos de sobreviventes. 

Também estão presentes exposições de artistas contemporâneos albaneses, como instalações com o uso de projetores e recursos digitais sobre o passado, presente e futuro. Além de uma área do bunker dedicada a obras interativas sobre ilusão de ótica, muito semelhante às obras do Museu da Ilusão em Madrid, e por todo o mundo. O título “Ilusão ótica como manipulação política” é divertido e carregado de significado ao fazer referência a propaganda do regime.

No Bunk’Art 1 a imersão é ainda maior pois o museu fica no maior e principal bunker da época, e é seguro contra ataques nucleares, com tecnologias específicas. Nele, o visitante tem uma complementação do que foi visto no menor, ou caso opte por ir só nesse maior, terá a experiência completa. 

O lugar lembra muitas vezes sobre a violência da época de uma forma didática e sensível, como relatos recuperados de agentes da guarda nacional sobre os que tentaram escapar pela fronteira, e as milhares de vítimas desaparecidas e que famílias vieram a saber sobre o paradeiro do corpo somente após 1991 com o Instituto de Estudos Sobre os Crimes e Consequências Durante o Comunismo (ISCCC). Ou ainda a disposição pelas paredes dos túneis de todas as 6.027 vítimas executadas formalmente pela ditadura conforme documentos resgatados pelo órgão.

Ao longo da visita várias mensagens sobre a importância de não esquecer o passado para poder ter um futuro pelas paredes estão dispostas. É importante destacar que só há guia de áudio para ambas visitas em albanês, inglês e italiano, e que todos os vídeos possuem legendas em inglês, e os textos versões em albanês e inglês.

Voltando ao passeio histórico, são 106 salas em 3 mil  metros quadrados no Bunk’Art 1, com destaque para a espécie de teatro que foi construída no complexo para performances artísticas e conferências enquanto os líderes estivessem se protegendo dos ataques do mundo capitalista.

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Espaço foi reformado antes de ser aberto ao público, e o teatro possui agora luz natural e medalhas do período da ditadura. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

De cicatrizes para arranha-céus 

 

Entre os prédios históricos citados até agora, várias torres envidraçadas, luzes de led dos carros e guindastes lembram que desde 1991 o país se abriu de novo para o mundo. Após a morte de Hoxha em 1985, Ramiz Alia assumiu o poder, mas protestos começaram, principalmente de estudantes. Algumas relações com países foram reafirmadas, como com a China em 1989, e após a queda do muro de Berlin no mesmo ano e o fim do comunismo na Romênia, o cenário foi sendo abrandado. 

No mesmo ano, Alia assinou o Acordo de Helsínquia na Finlândia, novos partidos foram criados e a Albânia passou a adotar os Direitos Humanos da Europa. Até que em 1991 após fraude nas eleições daquele ano e protestos massivos, o então presidente renunciou ao cargo e Sali Berisha assumiu o poder como presidente eleito. Daqui para frente muitos desafios, escândalos de corrupção e opressão marcaram o país, que então em 1998 criou a sua constituição e um alinhamento ao Ocidente se intensificou. Em 2009 o país aderiu à Aliança Militar do Atlântico Norte (OTAN), e também está na lista de candidatos para ingressar na União Europeia.

Agora com o contexto dado, chama a atenção por exemplo o imponente e vibrante vermelho, estádio Kombëtare. Centros comerciais pomposos e hubs empresariais como o Blloku Center, e com certeza um lugar obrigatório para se visitar, a Pirâmide de Tirana. 

Em um formato literalmente de pirâmide, diferente das do Museu do Louvre, certamente maior e com mais concreto para poder ter espaço interior utilizável, chama de cara a atenção após uns 10 minutos de caminhada da praça Skanderbeg. Construída em 1988 como um museu para o recém falecido ditador, já foi um centro de conferências após a queda do comunismo em 1991, uma base de operações da OTAN durante a operação no Kosovo em 1999, e em 2001, passou a abrigar escritórios de canais de rádio e televisão. 

Porém, foi em 2018 que uma proposta de renovação foi apresentada e o local se tornou um centro cultural, tecnológico e jovial. No gramado ao seu redor há várias lojas de comida, videogames, cafés e empresas telefônicas em forma de cubos na diagonal e com cores vibrantes. Se aproximando, uma escadaria de cento e sessenta e poucos degraus, iluminados por led e que levam até uma das vistas mais bonitas da cidade, seja de dia ou à noite.

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Do topo da pirâmide se tem uma vista 360° da cidade, a qual fica iluminada a noite toda. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Contrastes de uma cidade cosmopolita

Falando mais sobre a noite, tal qual toda cidade grande, o trânsito fica um caos em horário de pico. Lembra-se que a cidade não possui metrô e os táxis são uma força política? Pois bem, os ônibus ficam realmente cheios a partir de umas quatro horas da tarde, não são elétricos e o cobrador fica andando entre as pessoas para coletar os 40 lekës da passagem e dar o bilhete em papel para cada um.  

Aplicativos como o Google Maps e o Moovit funcionam em Tirana, mas os intervalos dos ônibus passam facilmente de 15 minutos. Para quem preferir a cada esquina um táxi amarelo ou branco perguntará se precisa de uma viagem. Além disso, as locadoras de carros estão por toda parte e uma opção é alugar um carro, que provavelmente será um alemão (Audi, BMW ou Mercedes), ou chinês para os mais econômicos. Segundo levantamento da JATO Dynamics, em 2025, dos dez carros mais vendidos seis foram da chinesa BYD. 

Resumindo, a melhor opção é ir a pé, afinal de contas, o centro da cidade fica a poucos minutos da Pirâmide, das ruas de comércio popular no bairro Pazari i Ri, e da vida boêmia, agitada e cara do Blloku. 

Neste bairro durante o dia, cafés, lojas de eletrônicos e roupas, restaurantes fast-food como KFC e Burger King (McDonalds não opera no país), e refinados de culinária grega em especial, e mundial, enchem as ruas. A noite, carros luxuosos, música alta dos bares e gente por aí mostram que Tirana tem opções para todos os gostos.

Porém, as ruas até esses restaurantes, bares e baladas da região provavelmente vão preocupar. Mesmo com a modernização nos últimos anos, muitas regiões no país ainda são formadas por vielas e habitações da época do comunismo que aparentemente não tem manutenção há anos. Ruas estreitas, escuras e casas com tijolos à mostra são certas nos rolês pela cidade, tal qual pelo menos um gato, lembrando até um pouco a Turquia e a relação com os bichanos.

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País enfrenta problemas econômicos e políticos, mas está empenhado em ingressar na União Europeia em 2029. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Para se ter uma ideia, segundo o Banco Mundial, o Índice de distribuição per capita na Albânia era em 2024 de 11.377 dólares, que apesar de há 30 anos ser de cerca de 600 dólares, ainda é muito mais baixo que países como a Grécia (25 mil), República Checa (31 mil) e Itália (40 mil). Isso sem falar na desigualdade social que o número não considera, afinal, o Brasil tem uma cifra ainda menor para efeito de comparação, 10.310 dólares.

Belezas naturais a um piscar de olhos

 

Mudando o perfil do turismo, apesar do território pequeno, a Albânia é um país rico em biodiversidade, e Tirana é caracterizada por contrastes geológicos e climáticos devido às montanhas e a proximidade com a costa. 

Bem próximo de Blloku, um refúgio do ritmo agitado da cidade pode ser visitado, o Lake Park. Aberto ao público 24 horas por dia e em todos os dias da semana, conta com um lago, que dá nome ao parque, com chafariz e uma vista deslumbrante ao pôr do sol. Ao longo da caminhada estátuas despertam a curiosidade, memoriais às vítimas do holocausto e um pequeno teatro. 

Do outro lado da cidade, há 10 minutos do Bunk’Art 1, vale a visita ao maior teleférico dos Balcãs, o Dajti Ekspress. Como o nome sugere, os bondinhos conectam a cidade até o topo da montanha de mesmo nome, com um comprimento de 4.354 metros e um passeio que dura 15 minutos. Para aqueles com medo de altura essa atração não é muito aconselhada, a sensação de escutar o vento pelas aberturas de ar da cabine e a leve sacudida de tempos em tempos pode ser desconfortante. Mas no topo, passeios de asa delta, trilhas e escalada estão disponíveis aos mais aventureiros. 

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Construção do teleférico é austríaca, e ingresso de ida e volta custa 1.500 lekë por pessoa. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Além desses destinos dentro de Tirana, ainda é possível em cerca de uma hora de ônibus e 40 minutos de carro chegar em Durrës, importante cidade portuária e milenar. A segunda cidade mais populosa do país é também uma das mais antigas, com a sua fundação ainda no século VII antes de Cristo. O anfiteatro da cidade, por exemplo, é um sítio arqueológico a céu aberto do século II depois de Cristo. Se destacam também a Torre Veneziana, datada do império bizantino, preservada e que se liga às partes que restaram do castelo da cidade do século V. 

Mas como nem só de passado que se vive, uma arquitetura em forma côncava se destaca ao lado da Torre, construída a cerca de dois anos, e que dá de frente para os boulevards característicos do local. Com palmeiras altas lado a lado da rua, relativamente largas e com muitas lojas, evocam até um sentimento de estar em Los Angeles em pleno verão com um conversível de capota aberta para sentir o sol e o calor no corpo. 

E como se trata de uma cidade portuária, a praia é também atração principal. Com uma grande área de calçamento, estátuas de heróis do país e pessoas vendendo miçangas relaxam os visitantes, enquanto se admira o mar adriático bem azul. Olhando para frente inclusive, é possível gritar “terra à vista”, terra essa que é nada menos que o salto da bota da Itália.

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Durrës é um ótimo destino para aqueles que estão buscando viagens de bate e volta da capital. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Seja pelas vielas humildes que podem lembrar “O Cortiço" de Aluísio Azevedo, as avenidas opulentas do centro de Tirana são lotadas de carros de todas as marcas do mundo. A vida noturna agitada de Blloku e a arquitetura que mistura tradição, bunkers e modernidade. Ou ainda pela vista emocionante que a natureza da politicamente desafiadora Albânia proporciona, caro leitor, é um lugar barulhento e intrigante que merece um lugar na sua lista de destinos.

Monotrilho entra em operação com linha mais curta e anúncio de expansão feito pelo governador
por
Danilo Belluzzo
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01/04/2026 - 12h
Trem do Monotrilho viajando pela Marginal Pinheiros
Trens do Monotrilho foram construídos pela empresa chinesa BYD. Foto: Divulgação/Governo de SP

O Monotrilho da Linha 17 - Ouro do Metrô foi inaugurado nesta terça-feira, 31 de março, em uma cerimônia que contou com a presença do governador do estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas. A nova modalidade de transporte foi entregue depois de um atraso de doze anos e com menos da metade do trajeto planejado inicialmente.

A ideia de um modal que conecte o Aeroporto de Congonhas à rede metroviária é antiga. Foi em 2012, na gestão do atual vice-presidente Geraldo Alckmin como governador e na onda de obras de preparação da cidade para a Copa do Mundo de 2014, que se decidiu pela nova tecnologia do Monotrilho - meio de transporte em que o trem transita suspenso acima de avenidas. Diferentemente do metrô, os autores do projeto argumentaram que a modalidade seria mais rápida de ser construída e com menos impactos para a população, já que não é necessário escavar o solo para a passagem dos trilhos, o que também reduziria a necessidade de desapropriações para a realização da obra.

A realidade, porém, foi outra. Planejado para ser entregue na Copa, a obra ficou anos parada, com apenas as pilastras, que servem de base para os trens, construídas. O projeto inicial previa uma extensão de 18 quilômetros, interligando o aeroporto ao Terminal Jabaquara, da linha azul do metrô e seguindo até o Estádio Morumbi, hoje Morumbis, também conectando a favela de Paraisópolis à rede ferroviária. Nada disso se tornou realidade.

Com apenas oito estações em funcionamento e 6,7km de extensão, a obra fez com que comunidades inteiras desaparecessem. É o caso da antiga Favela Buraco Quente, que ficava localizada no fim da Espraiada, na parte em que se conecta com a Avenida Pedro Bueno, e que foi completamente destruída e seus moradores, expulsos. A motivação para a desapropriação era de que o caminho do monotrilho continuaria, como mencionado, até a estação Jabaquara do metrô. Como não aconteceu, o lugar onde antes ficava a comunidade se tornou um parque, a Área de Lazer Água Espraiada, inaugurada em julho de 2019, quando as obras foram retomadas.

 

Tarcísio de Freitas cumprimentando apoiadores na entrada do evento.
Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, chega ao local do evento ao som de “Tempo Perdido” do grupo Legião Urbana. Foto: Lívia Soriano/Agemt.

 

Em seu discurso no evento de lançamento do Monotrilho, Tarcísio de Freitas retomou a promessa de expansão da linha Ouro. “Autorizar no dia de hoje o próximo projeto, a extensão, a fase dois. Agora, a gente começa a contratar o projeto de engenharia,  a revisão do projeto básico e o projeto executivo. Para fazer mais quatro estações, para fazer mais quatro quilômetros de linha dezessete, para levar esse metrô lá para Paraisópolis, para fazer a conexão com a linha quatro, e a gente não pretende parar por aí”, disse ele na ocasião.

No momento, os trens circulam em fase de testes operacionais, das 10h às 15h. A expectativa é de que, em até 90 dias, ela esteja operando totalmente.

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Representante de bloco tradicional da cidade faz alerta sobre o fenômeno de entrega da folia a iniciativa privada
por
Cecília Schwengber
Helena Barra
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29/03/2026 - 12h

A Prefeitura de São Paulo contrariou as próprias regras ao liberar, no dia 8 de fevereiro, a saída do megabloco da Skol, marcado pela superlotação. O desfile comandado pelo DJ Calvin Harris aconteceu na Rua da Consolação, no Centro, reunindo aproximadamente 1,6 milhão de foliões. Tradicionalmente, a via é destinada somente ao Acadêmicos do Baixo Augusta. Segundo o Guia de Regras e Orientações do Carnaval da prefeitura, não seriam aceitas novas inscrições para os períodos de pré e pós-carnaval em nenhuma região da cidade. 

"Eu acho que a primeira coisa importante da gente estabelecer é que o carnaval é um direito garantido na Constituição Federal. Há uma cidadania cultural. […] Eu estou falando isso porque, numa cidade do tamanho de São Paulo, é preciso organizar minimamente o carnaval de rua. Principalmente quando se têm blocos gigantes. É papel do poder público garantir a existência, a tradição e as práticas dos blocos”, afirma Lira Alli, porta-voz do Vai Quem Qué, que analisa a ascensão dos blocos comerciais em detrimento dos blocos comunitários, que fazem parte da tradição do carnaval de rua paulistano. 

Para os desfiles fora do calendário oficial, as exceções seriam avaliadas pela Comissão Especial de Organização do Carnaval de Rua 2026. O desfile do bloco Skol foi, portanto, a exceção especialmente aprovada. O domingo de pré-carnaval na Rua da Consolação é reservado ao Acadêmicos do Baixo Augusta, que costuma atrair mais de 1 milhão de foliões. Neste ano, no entanto, seu desfile teve de dividir o espaço com o Bloco Skol, com horários de concentração separados por apenas três horas. A ocorrência previsível de superlotação causou tumulto e fez com que dezenas de pessoas precisassem ser socorridas após passarem mal. Na tentativa desesperada de aliviar o gargalo humano, grades e estruturas foram derrubadas. 

Financiamento público se tornando privado 

A gestão Ricardo Nunes (MDB) reduziu em R$ 12 milhões o orçamento destinado à estrutura e à organização do carnaval de rua de São Paulo deste ano. Em 2025, a prefeitura investiu R$ 42,5 milhões em infraestrutura, com patrocínio de R$ 27,8 milhões da Ambev. Para 2026, o valor caiu para R$ 30,2 milhões — uma redução de 29%. Tal valor foi integralmente bancado pelo patrocínio da multinacional, que custeou toda a estrutura necessária para os oito dias de folia, como banheiros químicos, gradis, tapumes e contratação de produtores. Desde 2024, a SPTuris, empresa municipal de turismo e eventos, é responsável por toda a infraestrutura e produção do carnaval, incluindo a contratação de banheiros químicos, equipamentos, produção de material informativo, organização dos locais de desfile e sinalização dos circuitos. Durante coletiva de imprensa realizada no dia 30 de janeiro, o presidente da SPTuris, Gustavo Pires, anunciou que 100% da estrutura do carnaval seria paga pela iniciativa privada (Ambev).  

Apenas os custos das áreas de segurança — que envolvem as polícias Militar, Civil e a Guarda Civil Metropolitana (GCM) — e de trânsito, sob responsabilidade da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), continuaram a cargo do poder público municipal e estadual. 627 blocos de rua foram registrados e desfilaram nas ruas da cidade, em todas as regiões, com 11 megablocos se apresentando nos principais circuitos de cortejos — um recorde de blocos inscritos. Com o orçamento do patrocínio de 2026, houve queda de 37% no número de banheiros químicos disponíveis. Em 2025, os circuitos contavam com cerca de 6000 banheiros. Já em 2026, estima-se que havia apenas 3800. 2200 a menos que no ano anterior. 

Enquanto privatiza a sua organização, São Paulo viveu em 2026 o maior carnaval de sua história. De acordo com o Observatório do Turismo, a festa reuniu 17,3 milhões de pessoas nos blocos de rua e no Sambódromo do Anhembi, movimentou R$ 4 bilhões na economia da capital e gerou 55 mil empregos diretos e indiretos, consolidando-se como a maior edição já realizada na cidade. 

 

“A verdade é que esses c*nalhas não suportam nossa alegria. porque alegria não é só um sentimento pra gente: é forma de viver, construir comunidade, libertar nossos corpos e desejos”. Foto e legenda no post de @liraalli no Instagram.
Crédito: @liraalli no Instagram.

A Lei nº 14.845, sancionada em abril de 2024, reconhece blocos e bandas de Carnaval como manifestação da cultura nacional. A norma federal assegura o livre desfile dessas manifestações, protegendo suas músicas, práticas e tradições como patrimônio cultural. O bloco Vai Quem Qué, assim como outros, sofreu uma dispersão truculenta com o uso de gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral contra os foliões realizada pela Guarda Civil Metropolitana (GCM) de São Paulo. Lira ressalta a negligência de manter estruturas básicas para os foliões nas mãos da iniciativa privada. “Considero que é papel da prefeitura oferecer e custear as estruturas para a cidade funcionar bem no carnaval e poder acolher essa festa popular que é tão importante, e que gera tanto recurso” e acrescenta: "o fundamental é principalmente os banheiros. Na verdade, se vivêssemos numa cidade minimamente decente, teríamos banheiros públicos em lugares de grande circulação não apenas durante o carnaval".

Os foliões também precisam de água gratuita, bebedouros de água potável nas ruas. Ainda mais em tempos de crise climática. Lira argumenta que o que tem acontecido com o carnaval é que a lógica imposta, não somente sobre a folia, mas sim toda a cidade de São Paulo, é uma lógica de privilegiar os mega eventos e as empresas em detrimento das pessoas. Atualmente a Ambev, empresa que coordena o carnaval de São Paulo, manda mais do que a própria prefeitura e os blocos. É o que se tem chamado como “ambevização” do carnaval de rua. “Estamos passando por um momento de crise do carnaval de rua comunitário”, alerta Lira. O carnaval que transformou a capital paulista numa grande potência tem como característica justamente a diversidade: bloco de tudo quanto é tipo, em tudo quanto é lugar, tocando todos os tipos de música, com as mais variadas formas de expressão… é o carnaval mais diverso do nosso país", afirma.  

Lira argumenta que “esse carnaval vem sendo pasteurizado na medida que é entregue à iniciativa privada, de modo a se adequar a um formato que consiga atrair um público maior, gerando renda para a patrocinadora. E isso não é exatamente carnaval, é uma coisa extremamente comercial. O carnaval de São Paulo se transformou em um grande negócio”. 

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Decisão que vai contra o pedido da associação de moradores Viva Pacaembu foi tomada pela juíza Maria Gabriella Pavlópoulos em 25 de janeiro, ainda cabe recurso.
por
Eduardo Moura
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16/04/2021 - 12h

Em 2019 o complexo esportivo do Pacaembu, que pertence a prefeitura de São Paulo, foi concedido para a iniciativa privada através de uma concessão de 35 anos para a concessionária Allegra, no valor de R $752.409.974,07 a serem pagos durante esse período. A primeira parcela no valor de R $79,2 milhões, já foi paga pela concessionária.

A concessão do complexo esportivo do Pacaembu, inclui os seguintes itens:

  • estádio de futebol;

  • piscina olímpica aquecida, com arquibancada para 2,5 mil pessoas;

  • ginásio poliesportivo coberto com capacidade 2.500 espectadores;

  • ginásio de tênis com piso de saibro e capacidade para 800 pessoas;

  • quadra externa de tênis com arquibancada para 1,5 mil pessoas;

  • quadra poliesportiva externa com iluminação;

  • três pistas de cooper, com 500, 600 e 860 metros;

  • duas salas de ginástica;

A Praça Charles Miller e o Museu do Futebol não fazem parte da concessão e permanecem sob comando da administração pública.

O embate entre a prefeitura de São Paulo e a associação de moradores do bairro, Viva Pacaembu, acontece desde o início da gestão Dória na prefeitura de São Paulo em 2016, quando o então Prefeito colocou o projeto de concessão do complexo esportivo do Pacaembu como prioridade na agenda da secretaria de desestatização do município. O motivo alegado pela secretaria de desestatização para a concessão do complexo esportivo é a queda de rendimentos devido à significativa diminuição de eventos esportivos no complexo, principalmente os jogos de futebol. Com as arenas de Palmeiras e Corinthians em plena atividade, o estádio deixou de ter uma média anual de 75 jogos para uma média de 30 jogos por mês em 2017. Isso porque Palmeiras e Corinthians, principalmente, eram os clubes que mais utilizavam o estádio para as suas partidas.

A associação Viva Pacaembu é muito engajada e ativa em toda e qualquer decisão tomada em relação ao bairro e durante todo esse período vem contestando diversas ações no projeto de concessão.

Uma das questões apontadas pela associação dos moradores é a utilização do complexo esportivo do Pacaembu pela população. A Viva Pacaembu cobra para que o uso do complexo continue gratuito e com acesso livre a todos. Em contato com o Secretário Executivo de Projetos Estratégicos, Alexis Galias de Souza Vargas, ele assegura que a utilização do complexo esportivo para toda a população paulistana, está prevista no contrato da concessão e deverá ser cumprida rigorosamente.

Outra questão apontada pela a associação é a demolição do Tobogã para a construção de um prédio que contará com lojas, restaurantes e até um hotel. No lugar onde fica hoje o tobogã, entre 1940 e 1970, ficava a concha acústica, utilizada para eventos musicais. Somente no final da década de 1960, com o aumento significativo do público nos jogos de futebol, é que o tobogã foi construído, aumentando a capacidade do estádio em 10 mil lugares. O estádio então passaria a ter a capacidade de público de 37 mil pessoas. A associação dos moradores na época, também foi contra a demolição da concha acústica e a construção do tobogã.

Em janeiro deste ano o juiz Alberto Alonso Muñoz da 13 Vara de Fazenda Pública, concedeu uma liminar que proibia a demolição do tobogã. Porém tanto a demolição do tobogã quanto o pedido de anulação da concessão do complexo esportivo do Pacaembu, foram negados Pela juíza Maria Gabriella Pavlópoulos, também da 13 Vara, alegando que o tobogã não faz parte do patrimônio tombado do estádio e que na época da construção do tobogã em 1970, também tiveram críticas em relação a descaracterização da arquitetura do estádio com a construção do tobogã. 

Confira a entrevista feita com o Secretário Executivo de Projetos Estratégicos, Alexis Galias de Souza Vargas, contando um pouco mais sobre o projeto de concessão do complexo do Pacaembu no link abaixo:

 

 

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Em novo livro o pesquisador traz detalhes sobre a milícia brasileira e a relação desses grupos com a morte da vereadora Marielle Franco
por
Artur Ferreira, Gabriela Neves e Natasha Meneguelli
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09/12/2020 - 12h

O jornalista e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), Bruno Paes Manso, acaba de lançar seu novo livro “A república das milícias: Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro”.

Na obra ele explica diversos aspectos das pessoas que entram para a milícia, a construção desses grupos e seus embates no estado do Rio de Janeiro. Além isso, conta detalhes das investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco.

Em entrevista, o pesquisador afirmou que a política brasileira foi o nosso Martin Luther King ao lutar e mostrar para a população das comunidades cariocas que o futuro poderia ser diferente e menos violento. Principalmente, para os jovens que não deveriam se render ao sistema do crime organizado.

Bruno também fala do envolvimento da família do atual Presidente da República com  milicianos e da guerra aos excluídos da sociedade: “O Bolsonaro disse isso na televisão, a solução pro Brasil é uma guerra civil […] Essa guerra ao crime, essa guerra aos bandidos, é guerra aos negros, aos pobres, às pessoas que são vistas como perigosas”, afirma o pesquisador.

Além deste livro, o jornalista também escreveu “A guerra: A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil” (Todavia, 2018), em parceria com a pesquisadora Camila Nunes Dias.

 

Confira a entrevista na íntegra:

Artur, Gabriela e Natasha: Bruno, acho importante pontuar para o leitor sobre quem é o miliciano, qual o perfil de alguém que entra para a milícia e o que difere do tráfico? E necessariamente todo miliciano é um policial?

Bruno Paes Manso: Quando começaram as milícias, esse modelo miliciano, por volta dos anos 2000, eram policiais, ex-policiais, e pessoas ligadas à segurança privada, os chamados penteados, que eram pessoas que circulavam nesse mercado de proteção, de segurança, tanto público como privado. Na polícia militar, civil, exército, corpo de bombeiros, como na segurança privada, que também é imensa. Um dos que eu entrevisto no primeiro capítulo, inclusive, tentou ser policial, não conseguiu, ele entrou no setor de segurança privada e foi para as milícias. Com o tempo isso vai mudando um pouco, principalmente quando tem uma série de prisões. Os grupos começam a brigar, a matar entre si, o que começa a mudar mais esse perfil, e pessoas ligadas aos territórios que as milícias dominam passam a entrar, sendo policial ou não. Mas sempre a conivência dos batalhões e das delegacias é importante. Mesmo não sendo policial, existe um modelo de negócio que inclui a participação da sociedade, a parceria, de membros da segurança pública nos territórios.

AGN: Outro ponto que é crucial para entender esse cenário que nasceu no Rio de Janeiro é o modelo de negócio da milícia. Se existem registros de milicianos que também traficam drogas, então qual é a diferença entre o tráfico e a milícia?

B: A polícia começa a ganhar muito dinheiro com tráfico. Primeiro nos anos 80, porque o tráfico de drogas é um negócio muito rentável, que gera muito lucro. A partir do momento que o cartel de Cali passa a exportar cocaína na América do Sul pelo Rio de Janeiro, São Paulo, num mercado interno importante aqui no Brasil, mas também no corredor de exportação, essa commodity passa a fazer parte da cultura urbana nessas cidades. Os grupos de tráfico começam a ganhar muito dinheiro, principalmente por conta da venda do varejo, da droga, e tudo o mais. Com o passar do tempo a polícia descobre formas de também lucrar com isso, tanto com a venda de armas, no Rio isso é bem importante, como no desvio de munições para esses armamentos. E com as operações de guerra, eles passam também para o modelo de policiamento no Rio, ao contrário dos demais estados, em São Paulo também não é assim, de invasões a morros, para supostamente fragilizar o tráfico. Mas muitas vezes eles pegam droga e arma para vender no mercado paralelo, e para chantagear e extorquir os traficantes, no pedido de arrego, que é justamente pra evitar que certos grupos sejam mais ou menos visados. Uma espécie de leilão. No caso da polícia civil, também muito próxima dos jogos de azar, das máquinas de caça níquel, que é um tipo de parceria que rende muito dinheiro para eles. Isso começa a mudar a partir dos anos 2000 quando ao invés de chantagear os criminosos eles começam a protagonizar o crime e dominar os territórios, para extorquir os moradores com taxa de proteção, de segurança, os comerciantes vendendo terrenos em áreas protegidas, imóveis em áreas irregulares, mercado de gás, de internet e tudo isso que a gente vai conhecer. Desde o kit churrasco até o cigarro do Paraguai. Tudo vira receita nesses territórios dominados pelos grupos milicianos, e aí o tráfico de drogas entra nessa também. Eles passam a organizar mais essa fonte de receita, nesses territórios que eles dominam. E é o tráfico de drogas principalmente, com uma parceria do TCP, Terceiro Comando Puro.

AGN: As características da milícia, ela vai se assemelhar com outros grupos criminosos ao redor do mundo? No contexto da América Latina. Você citou o próprio cartel de Cali, o cartel de Medellín. Também surgem grupos paramilitares na Colômbia nessa mesma época. Esses grupos têm comparações com outros ou eles são muito únicos do contexto carioca.

B: Eles são muito próprios do contexto carioca, mas é possível fazer alguns paralelos, porque eles ganham legitimidade e apoio da população por se venderem como o inimigo atual do tráfico de drogas. No caso da Colômbia e do México os grupos paramilitares passaram a ter influência nos governos como oposição e como exército inimigo dos cartéis.  Como uma forma de você enfrentar os cartéis. No caso do Rio também, as milícias têm esse discurso. Essa autodefesa comunitária feita pela polícia, os policiais moradores dos bairros que eles passaram a controlar. Sempre com essa justificativa de que o tráfico de drogas é um problema que eles vão ajudar a livrar a população. E assim também que eles vão se infiltrando no governo, no Ministério Público, na justiça, tem uma aceitação maior das instituições do estado que tem uma dificuldade maior em lidar com o tráfico. Então esse paralelo é possível.

AGN: É importante também citar que no livro, no início, você fala da relação do tráfico com a consolidação da milícia. Em um momento do livro, você usa um conceito criado por traficantes que era o de apelidar a milícia de o “Comando Azul”. Essa simbologia de nomes mostra o que dá visão que o tráfico possui da milícia? A relação entre ambos é sempre de conflito?

B: No caso do Terceiro Comando Puro com as milícias não, eles são próximos. Mas tem, não fui eu que chamei, circulou, os policiais, os jornalistas de lá, que apelidaram de “Comando Azul” em determinado momento. Por causa da cor das fardas da Polícia, já o Comando Vermelho, o nome surgiu também em 1979 quando a Falange Vermelha surge também pela imprensa com uma conotação meio ligada aos grupos guerrilheiros, porque eles tinham trocado informação, conversas em Ilha Grande com outros grupos, então os delegados apelidaram de Comando Vermelho, Falange Vermelha. No caso do Terceiro Comando a cor é verde. Mas é interessante – o ADA [Amigos dos Amigos] é amarelo, porque tem alguns aspectos simbólicos que são interessantes porque no fundo eles, apesar dessa rivalidade muito profunda e violenta que existe, eles são muito parecidos na essência. A principal diferença são os paramilitares, que usam farda. Basicamente a diferença é essa, são igualmente violentos e criminosos. Uma tirania violenta que quer ficar rica por meio da venda de drogas, impondo o terror para tentar estabelecer o seu poder territorial.

AGN: E Bruno, entrando principalmente na linha narrativa do livro, você primeiro começa com a entrevista com o Lobo que você dá o apelido pra esse esse miliciano, esse ex-miliciano, [Bruno confirma a informação]. E você vai explicando que existe um conceito de justiça nessas comunidades, e que não é só no Rio de Janeiro, aqui em São Paulo também, a gente muito por conta do contexto do PCC. E lá você vai explicando esse contexto, citando episódios da vida do Lobo. E você poderia explicar o que leva o jovem a crer que entrando no grupo que gera violência, ele vai ter paz, vai ter ordem na comunidade dele.

B: O que levou 60 milhões de pessoas a votarem em um candidato que durante 27 anos defendeu a morte e a violência paramilitar contra bandidos? A gente não está mais falando de justiceiros localizados territorialmente nas periferias, como eram nos anos 80, como aconteceu na Baixada Fluminense. A gente tá falando agora de um país, que apesar de ao longo da história, e se imaginou que com o passar e o fortalecimento das instituições democráticas iria mudar, que iria ter um processo civilizatório que diminuísse a violência, os homicídios e a violência policial, a gente chega em 2018 elegendo o grande apologista dos justiceiros. O cara que falava que os grupos de extermínio da Bahia tinham que ser importados pro rio, o filho tentava legalizar as milícias, ele falava que no Carandiru tinha morrido pouca gente, tinha que morrer mais de mil presos, ele sempre foi um apologista dessa violência paramilitar. Por quê? Por que as pessoas engolem isso e por que isso persiste há tanto tempo? Eu venho entrevistando homicidas, né, e depois eu pesquisei o PCC, é uma coisa que é muito presente em territórios ou em sociedades com instituições políticas e demonstrativas frágeis, é uma constante sensação de vulnerabilidade e a crença de que o resgate da autoridade só pode ser feito por meio da violência. Então o homicídio e a violência nesses casos eles não são um problema em si, nesses casos é uma solução para o problema da ameaça de desordem, da ameaça de caos. Isso é muito forte. Eu lembro uma vez que eu fui fazer uma palestra nos Céus, Centros de Educação Unificados, tinham várias professoras, era um ambiente que eu imaginava muito amigável. Estava o Suplicy nessa conversa, tinha um rapper do Hip hop, e eu falando dos direitos humanos, uma audiência muito grande. E de repente uma senhora levantou, quando acabou a palestra, levantou a mão e perguntou: “olha, é o seguinte, meu filho foi assassinado em um roubo aqui na periferia e você tá falando de direito humanos. Eu queria saber o que você fala pra uma mãe como eu que perdeu o filho dela assassinado por um ladrão”? E a audiência inteira começou a bater palma, e eu fiquei com cara de otário no palco, é muito difícil eu falar e responder nessa situação. Mas é como se ela estivesse falando, “falar é fácil, mas se a gente não matar o ladrão, se você ficar defendendo o ladrão, a situação não se resolve”. Você desconstruir essa crença pra pessoa que vive uma imprevisibilidade cotidiana, uma violência, assaltado no ponto de ônibus. Esse tipo de ação covarde dos ladrões, e essa sensação de vulnerabilidade, ela acaba demandando algum tipo de solução, e o homicídio passou ao longo do tempo a seduzir as pessoas que acreditavam equivocadamente que isso podia ser uma solução para o problema. E a gente não conseguiu desconstruir isso, até achava que estava conseguindo, a Nova República vinha avançando e a democracia se fortalecendo. E a gente chega em 2018, com o grande defensor dessa forma de enxergar as coisas, sendo eleito presidente do Brasil com 60 milhões de votos.

AGN: E Bruno, ainda dentro esse imaginário popular de justiça e de “o bandido bom é o bandido morto”, essa mensagem acaba aparecendo também. Você vai falar de uma das milícias mais importantes nesse contexto, que é a Liga da Justiça. E eu como uma pessoa que cresceu vendo desenhos animados de Batman, Superman, Mulher Maravilha, lendo quadrinhos e queria saber isso de você, como foi analisar alguém que usa o símbolo do Batman e é um executor dependendo da situação...

B: É engraçado! Não, super legal essa sua pergunta! Primeira vez que me fazem, e eu tô dando muita entrevista, ela é boa! Não deixa de ser interessante que o Batman é um justiceiro, é um vigilante, ele tem toda uma moralidade própria, ele não deixa de ser um representante dessa ideia de vigilante, porque é numa cidade, Gotham, em que você não acredita em ninguém, não acredita no governo, na polícia, nas instituições, então o Batman que tem uma moralidade, o herói, super da elite tradicional de Gotham City, um cara muito bem educado, que tem esse lado sombrio e essa busca por justiça. E ao mesmo tempo ele não ultrapassa certos limites, ele evita matar, tem uma nobreza também. E, você sabe que um dos primeiros matadores e a Liga da Justiça ela surgiu porque tinha um policial matador que chamava “Batman”, e tinha um outro policial que as pessoas apelidaram de “Robin” e ele era um cara muito famoso na Liga da Justiça, e muito violento, inclusive, e por causa disso se ganhou o apelido. O Jerônimo e o Natalino, que eram dois dos chefes, me contaram e disseram que não era nada disso a história, e que na verdade eles ganharam esse nome porque quando eles eram candidatos a vereador eles saíam com esses trios elétricos para fazer campanha nas comunidades, nas favelas, tipo essas charangas com super herói, para atrair as crianças, pra fazer festa, e eles me disseram que era por causa disso. Mas, tem essa outra versão, que era por causa do Batman, que era super violento e tinha um parceiro que chamava Robin. O primeiro livro que eu escrevi, quando eu comecei a entrevistar os homicidas, quando eu comecei essa pesquisa 20 anos atrás, esse livro foi lançado em 2005, se chama o “Homem X”. E ele partia de uma entrevista que eu fiz com vários matadores, mas um deles, eu perguntei, “não vou poder usar o seu nome, você tá me contando sobre vários homicídios que você cometeu, então como é que eu posso te chamar”? E ele sugeriu “Wolverine”, “me chama de Wolverine”. E eu o entrevistei em 99, o X-Men não era muito conhecido ainda, tava começando, tinha o desenho na Record, e era por isso que ele sugeriu, não tinha o filme, não tinha toda essa franquia, tinha os quadrinhos, óbvio, mas não toda a franquia ainda que se tornaria popular. E eu achei uma metáfora super legal, por isso inclusive que eu usei o Homem X eu fiz referência a esse apelido, que ele se enxergava. E ele já tinha matado mais de 40 pessoas, já tinha perdido a conta, entrevistei ele porque eles praticavam chacinas, numa época que tinham 100 chacinas por ano em São Paulo, e chacinas é quando tem mais de três pessoas mortas, então era uma cena caótica. E eles ficavam matando entre si, porque tinham vinganças que começavam a acontecer a partir do momento em que um amigo deles era morto, eles iam lá e matavam o que matou o amigo, e o amigo do que morreu matava, então eles ficavam 10 anos se matando. Às vezes entrava uma terceira quebrada, e o “Zé povinho”, que era a galera que morava no bairro mas que não fazia parte em absoluto desse cenário, a não ser como mãe, prima e tal, mas estavam completamente de fora, eles eram o Zé povinho pra quem eles estavam pouco se lixando. Então um deles chegou a me descrever um tiroteio num parquinho de diversão num domingo a noite e ele me contou: “e tal pessoa correu pra lá e eu atirei”, mas eu falei, “esse parque tava vazio?” “Não, tinha gente”, e eu falei “p*rra, você só tá me contando dos caras, mas alguém morreu, alguém foi vítima de bala perdida”?! E aí, esse X-Men ou esse Wolverine, de alguma forma a disposição para matar, fazia com que ele se enxergasse como um super herói mesmo, porque de fato é um super poder, é quase uma evolução da espécie você ter a disposição pra atirar em alguém, pra matar alguém, você passa a ser um ex-humano, praticamente, e você ganha um super poder que quem não tá disposto a matar não tem. E ele só se importava com os outros ex-humanos, e eles ficavam nesse universo. E o Zé povinho, que eram os frágeis, os pouco poderosos, não tinham muita importância nessa lógica, nessa dinâmica, nesse universo masculino, da guerra e da segurança pública, e do medo, e no fundo é a tônica do que vai ser esses conflitos em diferentes níveis, em diferentes tipos de organização, mas sempre com pessoas se enxergando nessa guerra, nesse conflito, e eles tão pouco se lixando pro resto.

AGN: Outro ponto importante é o cinema, o que ele já retratou essa relação, você cita no livro o lançamento do “Cidade de Deus”, e você acabou de descrever um pouco da história do filme, que é esse ciclo de vingança, pode falar o que mudou nesse período? Você cita também a morte de Tim Lopes, que converge na mesma situação.

B: Cidade de Deus é um filme muito importante, tanto o filme quanto o livro do Paulo Lins, que inclusive escreveu na quarta capa do livro, sou “fanzaço” do livro, do Lins que é uma grande figura, do filme e do Meirelles também. O filme foi um divisor de água no cinema brasileiro, mas eles falam de um período do final dos anos 70, que no livro eu também descrevo, a partir da testemunha do Ailton Batata, que deu o testemunho pra Alba Zaluar em 2017. Alba Zaluar era uma orientadora, professora, uma antropóloga, que morreu no ano passado e que era orientadora do Paulo Lins quando ele começou a fazer o trabalho de campo na cidade de Deus, e era final dos anos 70, começo dos 80, quando a cocaína ainda estava começando a chegar, a venda de drogas ainda era pouco importante. Os ladrões de Caxangá, de casa, eram os principais criminosos do bairro, muito poucos, mas que já eram muito temidos. Mas, ao mesmo tempo o imaginário das pessoas, do medo e do fato de aquele bairro ter negros, pobres e pessoas perigosas, isso sempre foi a tônica da cidade e da violência da cidade. Esse medo, resultado do racismo estrutural histórico, um dos problemas raciais que a gente vive, os estigmas e tudo mais, justificava contra esses bairros uma ação violenta pela polícia nesses bairros, um abuso em todos os sentidos, de invasão de casa, de moradores, de esculachos constantes. As polícias passam, diante desse medo grande e muito profundo, enraizado, histórico e estrutural, a lidar com esses bairros como lugares onde vivem os inimigos, e passam a mandar, constantemente, tropas do exército para matá-los, prendê-los, e é quem vive nesses lugares passa a se enxergar como inimigo da cidade, é um drama grande, ainda mais que a maioria ainda tem que trabalhar. É muito disso que as facções vão usar pra seduzir a molecada que vivem nesses bairros, de “olha, o estado e o sistema te odeiam, eles querem te matar ou te trancafiar, te jogar numa jaula, vamos bater de frente contra esse sistema, você morre antes dos 25 ou você é preso, mas não vamos abaixar a cabeça”. Então, a gente começa a construir esses jihadistas típicos das periferias e dos grandes centros brasileiros. Pessoas que preferem morrer antes dos 25 anos mas que não querem baixar a cabeça pra esse sistema que os quer humilhar. Tudo isso é muito triste, é muito cruel, a gente produz isso, a gente acha que tá solucionando as coisas e tá criando problemas piores.

AGN: E, Bruno, acho importante pontuar isso também, que você fala no livro algumas vezes que o jovem vê a escolha na milícia, vê a escolha no tráfico e pouco lembra de viver de acordo com a lei, e achar outra maneira. E vão ter personagens na história do Rio que vão querer ver de outra maneira, achar outra solução e você cita a Marielle, uma pessoa que vai fazer uma carreira acadêmica, uma pessoa que vai militar contra isso, tem uma origem humilde e vai ser vítima disso [a violência]. Você pode contar como foi investigar o caso e contar isso, falar dos assassinos e dessa relação política.

B: Eu só acho o seguinte, eu não acho que poucos jovens vão pra esse lado. Respeitam as leis e muitos vão pro crime, mas, o que acontece, quando a gente é adolescente, principalmente homem porque isso tá muito ligado a masculinidade, você tem identidades a serem escolhidas e traçadas para virar adulto. E, o que o crime passou a usar para seduzir a molecada foi justamente esse discurso antissistema de: “olha, o seu pai decidiu abaixar a cabeça pro sistema, decidiu pegar ônibus e foi humilhado pela polícia e morreu como um tiozinho, zé ninguém e você pode ser o cara! Bater de frente! Você morre atirando porque esse sistema só quer te ferrar, só quer te fuder. Então vamos bater de frente com esse sistema, fazer uma carreira no crime porque pelo menos a gente mantém a honra”. E quando o garoto tá formando sua identidade, a gente tá disputando com esse discurso, e a gente tá tentando falar que isso é uma grande ilusão, pode ser sedutor, mas, as pessoas que foram seduzidas por ele e hoje estão com 40 anos, 45 anos, e estão presos. Porque tem um monte de gente querendo matá-lo, ele não tem nenhum amigo, não tem mulher, não tem filho, ou se tem ele precisou pisar na bola e ser egoísta. Porque é uma vida egoísta. Então é uma escolha de alguém que precisa abrir mão de alguém de vários laços sociais pra seguir um caminho material e egoísta, na essência. Então, quando o cara entrou na onda assim, quando ele estava no embalo e ele vive aqueles 4, 5 anos se achando o X-Men ele tá se achando, ele tá curtindo ainda, mas, ele começa a perceber que é uma puta de uma roubada. E todos que eu converso e que conseguiram sobreviver falam isso “se eu pudesse eu saia, se eu pudesse falar pra alguém não entra, é uma puta de uma roubada”! Só que a gente não consegue mostrar e não consegue ganhar muitas vezes essa molecada, e como é que a gente ganha? É abrindo portas, abrindo janelas, pela cultura, pela arte, pela construção de um estado que garanta uma certa sensação de segurança, que permita falar de amor, de solidariedade, com muito mais participação das mulheres. E a Marielle, acima de tudo, era essa voz feminina das periferias, ela era essa voz que vinha com esse discurso “olha, gente vocês estão errados, isso é um discurso masculino equivocado, a guerra não leva a nada, a violência não leva a nada”. E esse era um dos motes dela “quantas pessoas vão ter que morrer até que essa guerra acabe”? Ela tinha inclusive o lema da campanha “Ubuntu”, que vem da África do Sul, do Mandela, do 15º, quando o Mandela é eleito presidente no pós-apartheid e propõe uma solução política e revê a história do Apartheid e fazer uma espécie de “Comissão da Verdade” e falar dos problemas do que aconteceu, mas, não pra haver um grande racha da sociedade, mas, pra propor pra partir pela política e caminhar pra frente. Então, ela tinha muita essa visão conciliatória, essa visão ao mesmo tempo muito corajosa de uma mulher e de chega da guerra, a solução é a política. E ela era a representante desse discurso antiguerra, né, e por isso que eu acho que ela é tão significativa, ela representa tanto. E ela foi o “nosso Martin Luther King” simbolicamente de tudo que ela representava, num momento muito especial, pouco antes da eleição do Bolsonaro, ela era anti-mensagem do Bolsonaro, era outro tipo de visão.

AGN: E Bruno, ainda nessa estrutura política, nessa estrutura de incentivo a jogar milhares de jovens nesse cenário, você disse que teve um espanto ao analisar profundamente. Você citou que viu a estrutura da milícia e do tráfico se compararem por fuzis, pela quantidade de fuzis que eles tinham. E você como alguém que veio do contexto paulista, e tinha mais essa análise do PCC e desse contexto que a gente tinha em São Paulo, e como você vê essa estrutura, as diferenças entre cada uma, e você poderia citar outros espantos que te gerou essa investigação no Rio?

B: Lá no Rio tem muitos fuzis, e foi muito recorrente eu ouvir isso dos traficantes, e das pessoas que estão envolvidos nessa cena, essa comparação: “no meu morro tem 400 fuzis” ou “quando eu era chefe tinha 100 fuzis”, “as milícias tem 800 fuzis”, e todo poder criminal sendo medido por fuzis. Então, a compra, essa guerra fria, essa corrida quente e fria, mas, essa corrida armamentista faz parte da cena do Rio. O mercado de fuzis é estrutural pro problema da cidade. E, também como a polícia está completamente envolvida nessa cena e como acaba sendo protagonista dessa cena e tal. Aqui em São Paulo ainda existe essa divisão de “crime e polícia”, por mais que a polícia também tenha seus esquemas e também mate, e tenha vários problemas e muitas vezes, principalmente pós-Bolsonaro, você vê que tem uma série de notícias de negócios de policiais em algumas quebradas vendendo terreno, vendendo gás, será que é um princípio de milícia? Sempre na iminência de perder o controle da polícia. E, isso de fato acontece pela violência da polícia de São Paulo você corre esse risco, mas, ainda não, os próprios oficiais da polícia conseguiram por enquanto zelar, mas, estão sempre aí na iminência “será que perde o controle, será que não perde”? Mas, no Rio não, no Rio já foi, já foi embora, e precisa reinventar a polícia, porque a situação é muito complicada.

AGN: Bruno, aproveitando que a gente já falou da Marielle, eu queria falar mais desse contexto político. No livro, você relata a questão do Bolsonaro, a família Bolsonaro, com as milícias e queria que você comentasse um pouquinho se essa relação deles, política – temos aí um presidente eleito, é uma forma de institucionalizar a milícia e de levar ela para outros lugares do Brasil, você também citou um pouco agora de São Paulo.

B: Eu acho que apesar da milícia estar infiltrada na instituição, ela se caracteriza por ser paramilitar, e você ter um presidente que seja um defensor das milícias ou políticos que defendam essa violência paramilitar é o melhor dos mundos para eles, porque eles ganham dinheiro no mercado informal. Então, se eles virarem “Estado” eles entram pra formalidade e até perdem a característica que permite que eles fiquem ricos, que é justamente organizar e negociar no mercado ilegal, tanto armas, munições e tudo isso. Mas, você ter amigos “costas quentes”, e parceiros costas quentes, quando você consegue ter políticos simpatizantes é o melhor dos mundos, você consegue eleger pessoas, e manter essas pessoas no poder eles vão ficar fortes. E é algo que a gente tem visto com a eleição do Bolsonaro e o crescimento da violência policial no Brasil inteiro, foram 3 anos de recordes seguidos. O modelo de negócios do Rio já é uma fonte de inspiração pra outras ideias, para serem reinventados em outros estados, de acordo com as histórias e com as oportunidades criminais do estado. Agora, quem sabe, isso é um pesadelo de 4 anos que nós estamos vivendo e nas próximas eleições isso acabe? Eu acho que, enfim, a gente teve aí 33 anos de Nova República relativamente civilizada, uma democracia que com todos os problemas se manteve, um país que progrediu no ponto de vista civilizacional e cidadão e tal. Mas, que a gente entrou nessa imensa depressão coletiva em 2018 por uma série de problemas políticos, econômicos, fiscais e tal e que elegeu Voldemort, falando em personagens, né. E achou que o Voldemort era a solução, ou o Capitão Feio da minha época de Mônica e Cebolinha. Então, “vamos escolher o vilão para governar já que os heróis não conseguiram”.

AGN: E Bruno, e essa questão da pandemia e a família Bolsonaro estar envolvida com a milícia, você acha que eles continuam [juntos] ali ideologicamente ou mudou alguma coisa nesse contexto atual?

B: Não, eu acho que o Bolsonaro se tem assim uma grande qualidade, me parece assim quanto a isso não se pode negar, é a honestidade de falar tudo que ele pensa, inclusive coisas que os próprios militares sempre tiveram vergonha de assumir nos porões, como a tortura e o assassinato. O Bolsonaro defendia o pau de arara numa bancada do Congresso, em uma CPI do Banco Central ele falou que tinha que colocar no pau de arara o ex-presidente do Banco Central porque aí ele ia começar a falar, e defendia a tortura em plena sessão oficial de CPI. Defende assassinatos, defende guerra civil, ele sempre defendeu e foi um apologista da violência paramilitar e sempre desacreditou a constituição de 1988, tanto ele como uma série de pessoas no Exército inspiradas e norteadas pelo Carlos Brilhante Ustra, além de ser um dos principais combatentes e torturadores dos portões da Ditadura Militar, foi um dos ideólogos importantes desse grupo que dizia que a Nova República era a grande derrota do Regime Militar e dos militares, porque tinha colocado guerrilheiros nos postos de comando. E o grande desafio do Exército era vencer a batalha ideológica que eles estavam perdendo pros comunistas e esquerdistas que estavam nas universidades, nas escolas, nas artes, em todos os campos culturais, eles perderam a batalha da cultura, depois vai dialogar com Olavo de Carvalho e com esse loucões que a gente vai conhecer agora nos tempos de hoje, que antes pareciam figuras que a gente dava risada e viviam sozinhas no mundo, e que não ameaçavam e por algum motivo isso a criar uma força quase, voltando a falar do Voldemort, uma Sonserina se articulando e o “mundo das sombras” vindo à tona. Esqueci o que você tinha perguntado, e você vê, vou divagando e vou fugindo da sua pergunta.

AGN: Da questão da pandemia e se mudou alguma coisa.

B: Então, ou seja, eu tô dizendo tudo isso pra dizer que eles são muito convictos dessas bobagens todas e dessas teorias conspiratórias. Eles acham que eles são os vilões e eles são os mocinhos! E a gente votou neles. Votou nos caras que queriam destruir o Brasil, diziam que tinham que matar 30 mil pessoas, o Bolsonaro disse isso na televisão, a solução pro Brasil é uma guerra civil, “enquanto não morrerem 30 mil pessoas ou menos isso aqui não tem jeito”, é uma pessoa que despreza as pessoas que vivem no Brasil! Essa guerra ao crime, essa guerra aos bandidos, é guerra aos negros, aos pobres, as pessoas que são vistas como perigosas! Isso é uma coisa evidentemente racista! Isso é autodestrutivo, é uma pessoa que odeia os brasileiros. Isso é muito triste, a gente fazer essa escolha suicida, escolher o vilão, pra mandar na gente, né, e inverter as coisas, e ele justifica essa guerra dizendo que os vilões são os “outros” que não concordam com ele. E por alguma forma ou maneira, um motivo, que espero que passageiro e talvez muito veiculado a tristeza, muito veiculada ao desespero, a crise que houve em 2018 a tudo isso.

AGN: E, Bruno, indo para a reta final da nossa conversa que foi um prazer e nós gostamos muito de tirar essas dúvidas e bater esse papo, eu preciso fazer uma das perguntas que eu mais queria fazer para você que é ainda no imaginário popular e de “a gente eleger o vilão”, uma coisa que eu também cresci vendo foram os filmes de Máfia, como Scarface, Poderoso Chefão, entre outros clássicos do cinema. E você narra de uma forma muito cinematográfica, o que me lembra Tropa de Elite e Cidade de Deus, e você narra a prisão do Queiroz e fala que na sala em que ele estava quando foi preso havia um cartaz do AI-5 [Ato Institucional Número 5], e um boneco do Tony Montana do filme Scarface. O que o imaginário de um miliciano que tinha tanta influência tanto no governo quanto fora, mostra sobre o Brasil e sobre nós, e sobre o que este país está virando?

B: Precisa dizer alguma coisa?! Não precisa! O cara tinha um boneco do Tony Montana na lareira, assim o que mais?! Ele está dizendo o escárnio! Qualquer coisa que eu disser não vai chegar aos pés da imagem! As pessoas muito claramente podem tirar suas próprias conclusões, não há o que eu diga. O que eu disser vai atrapalhar, porque é muito forte a cena.

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Em meio a pandemia da Covid-19 e conflitos incessantes ao redor do mundo, entenda esse grupo e conheça a uma das instituições que lhes presta apoio no Brasil
por
Marina Daquanno Testi e Thayná Alves
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08/12/2020 - 12h

 

 

     

        O número de refugiados no Brasil vem crescendo a cada ano. Só no ano de 2018, segundo a Agência da ONU Para Refugiados (ACNUR) foram relatadas 80 mil solicitações de reconhecimento de condição de refugiado no Brasil. Os grupos de maior número entre as solicitações são os venezuelanos (61.681), que saíram do país devido à crise humanitária, e os haitianos (7.030), cujo fluxo de migração se intensificou após o terremoto que atingiu o país em 2010.  

        A lei brasileira considera refugiado todo indivíduo que está fora de seu país de origem devido a guerras, terremotos, miséria e questões relacionadas a conflitos de raça, religião, perseguição política, entre outros motivos que violam seus direitos humanos. Isso pode acontecer, por exemplo, quando a vida, liberdade ou integridade física da pessoa corria sério risco no seu país.

        Para que o imigrante seja reconhecido como refugiado, é necessário enviar uma solicitação para o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE). O processo de reconhecimento, que antes era mais burocrático e mais demorado, atualmente é feito no site do Ministério da Justiça, a partir do preenchimento do formulário que pode ser feito ainda no país de origem. Todas as etapas podem ser acompanhadas pela internet, mas para o processo começar a tramitar, o solicitante deverá comparecer pessoalmente a uma unidade da polícia federal. 

        Dentre a população refugiada reconhecida no Brasil, segundo o censo da ACNUR de 2018, a maioria se concentra nas faixas etárias de 30 a 59 anos (41,80%), seguido de pessoas com idade entre 18 a 29 anos (38,58%). Do total, 34% são mulheres e 66% são homens, ressaltando os sírios, os congoleses como nacionalidades em maior quantidade (respectivamente 55% e 21%). 

         Em janeiro de 2020, o Brasil tornou-se o país com maior número de refugiados venezuelanos reconhecidos na América Latina, cerca de 17 mil pessoas se beneficiaram da aplicação facilitada no processo de reconhecimento, segundo a  Agência da ONU para Refugiados. As autoridades brasileiras estimam que cerca de 264 mil venezuelanos vivem atualmente no país. Uma média de 500 venezuelanos continua a atravessar a fronteira com o Brasil todos os dias, principalmente para o estado de Roraima.

         Apesar de em grande quantidade, apenas 215 municípios têm algum tipo de serviço especializado de atenção a essa população. As maiores dificuldades encontradas por pessoas refugiadas são a adaptação com o mercado de trabalho, com o aprendizado do idioma, o preconceito e a xenofobia, educação (muitos possuem diplomas em seus países de origem que não são aceitos aqui no Brasil), moradia e saúde. 

 

Covid-19 e o amparo aos refugiados

 

        Diante de um quadro de crise em escala global, como o que acontece este ano com a pandemia da Covid-19, essa população de migrantes e refugiados, que já se encontram em extrema vulnerabilidade, conta com o apoio de poucas instituições voltadas especialmente para suas necessidades. Este é o caso da Missão Paz, uma instituição filantrópica de apoio e acolhimento a imigrantes e refugiados, com uma das sedes na cidade de São Paulo, como conta o padre Paolo Parise.

        Nascido e criado na Itália, Parise atua desde 2010 na Missão Paz, atualmente como um dos diretores, e explica que esta instituição está ligada a uma congregação da Igreja Católica chamada Scalabrinianos, que atua com imigrantes e refugiados em 34 países do mundo. “Na região do Glicério - município do estado de São Paulo-, a obra se iniciou nos anos 30 e atualmente está presente em Manaus, Rio de Janeiro, Cuiabá, Brasília, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Foz do Iguaçu, Corumbá e outros lugares.”

        Sua estrutura atual conta com a Casa do Migrante, um abrigo com capacidade de 110 indivíduos que são acolhidos com alimentação, material de higiene pessoal, roupas, aulas de português, acompanhamento de assistentes sociais e apoio psicológico; e o Centro Pastoral e de Mediação dos Migrantes (CPMM) que oferece atendimento e serviços voltados aos imigrantes, quanto aos seguintes temas: documentação e jurídico; trabalho, capacitação e cidadania; saúde; serviço social; família e comunidade. “Além disso, temos a área de pesquisa em parceria com a revista Travessia, que é o Centro de Estudos Migratórios (CEM), uma biblioteca especializada em migração e a WebRadio Migrantes”, completa Pe. Paolo.

Fonte: Site da instituição Missão Paz - Casa do Migrante
Fonte: Site da instituição Missão Paz - Crianças brincam na Casa do Migrante

        De acordo com o diretor, o maior desafio enfrentado pela instituição, durante a pandemia, foi com a saúde dos refugiados, principalmente pela impossibilidade de viver a quarentena isoladamente, já que muitos vivem em ocupações ou em lugares com muitas pessoas concentradas. Ele ainda denunciou que, dentre tantas vítimas da Covid-19 em São Paulo, um dos grupos mais afetados foi o de imigrantes bolivianos, “muitos foram contaminados e muitos morreram”.

        Diante de instabilidades políticas e econômicas, atualmente, sírios e venezuelanos são as principais nacionalidades afetadas que solicitam entrada no país. O que ratifica o Pe. Parise, “Falando pela Missão Paz, se você utiliza o termo ‘refugiados’, o maior grupo neste momento é de venezuelanos, sejam os que foram acolhidos pela missão paz, sejam os que estão entrando no Brasil. E depois encontramos outros grupos como da República Democrática do Congo. Mas se falamos de imigrantes, temos Colombianos, Bolivianos, Paraguaios, Peruanos, Angolanos e de outros países que estão recorrendo ao Brasil.”

        Mesmo com mudanças críticas, no cenário jurídico e político brasileiro, para que esta população seja recebida no país e tenha seus direitos respeitados, ainda não se pode falar em auxílio do governo ou medidas diretas de apoio a refugiados e imigrantes. 

        Paolo relembra a criação de leis que têm beneficiado a população no Brasil. Uma delas é a lei municipal Nº 16.478 de 2016, onde o Prefeito do Município de São Paulo, Fernando Haddad, instituiu a Política Municipal para a População Imigrante que garantia a esses o acesso a direitos sociais e aos serviços públicos, o respeito à diversidade e à interculturalidade, impedia a violação de direitos e fomentava a participação social; e a outra é a lei federal Nº13.445 de 2017, ou a nova Lei de Migração, que substitui o Estatuto do Estrangeiro e define os direitos e deveres do migrante e do visitante, regula a sua entrada e estada no País e estabelece princípios e diretrizes para as políticas públicas para o emigrante.

        A Missão Paz se mantém através de projetos e dinheiro injetado pela congregação da Igreja Católica. “Neste momento, a Missão Paz não recebe apoio financeiro nem do município, nem do estado e nem do Governo Federal”, relata Parise. Durante a pandemia receberam ajuda da sociedade civil, “[A Instituição] Conseguiu muitas doações de pessoas físicas, de instituições, de campanhas, fosse em dinheiro, em cestas básicas ou kits de higiene pessoal”, e com 200 cestas básicas, por mês, da Prefeitura de São Paulo. Também receberam ajuda com testes de COVID em nível municipal. 

         A instituição filantrópica ainda conta com a ajuda de vários parceiros, como explica seu diretor “na área de incidências políticas, por exemplo, nós atuamos com a ONG Conectas Direitos Humanos, temos na área de refugiados um projeto com a ACNUR, estamos preparando outro com a OIM (Organização Internacional para as Migrações) e temos algumas ações com a Cruz Vermelha”. 

        Desde o começo do ano, já atenderam por volta de 7 mil imigrantes e refugiados, e, hoje em dia, tem por volta de 40 pessoas na Casa, o que representa ⅓ da capacidade total. Além disso, entregam de 50 a 60 cestas básicas a refugiados, diariamente, e ao redor de 60 a 70 que vão, por dia, procurar os serviços do CPMM. “Outras ações incluíram a disponibilização de atendimentos online, de aulas de português a atendimentos jurídicos, psicológicos ou serviços sociais, além de ajudar a completar aluguel, água ou luz daqueles que precisam da ajuda da instituiçã”, fala Padre Paolo. 

        Todo esse esforço e dedicação da instituição foi feito, sempre, visando seguir as normas de segurança e as indicações da OMS (Organização Mundial da Saúde). Foram fornecidos a seus funcionários e a população migrante e de refugiados álcool para higienizar as mãos, máscaras e demais equipamentos e serviços de proteção e higiene.

Campanha usa de forma divertida suas redes sociais para apresentar propostas e alavancar a candidatura
por
Lucas Malagone e Giovanna Crescitelli
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06/11/2020 - 12h

Desde 2018 Guilherme Boulos( 38) esta em evidencia no lado esquerdo da politico brasileira, filiado ao PSOL desde 18 lançou a candidatura a presidência pelo partido e obteve aproximadamente 617 mil votos, apesar das inúmeras fake News ligadas a ele por conta do passado na militância pelo MTST( Movimento dos Trabalhadores sem Terra), o resultado foi considerado bom pelo partido. Agora se lança num novo desafio ao lado da histórica prefeita da cidade de São Paulo; Luiza Erundina (86) em busca do cargo mais alto do executivo da cidade.

Boulos e Erundina fazem assembleias virtuais para conversar com 40 mil na  periferia - 30/07/2020 - Mônica Bergamo - Folha

Guilherme Boulos e Luiza Erundina( Foto: Folha de São Paulo)

Para a surpresa de muitos, a chapa já começou muito bem nas intenções de voto em são Paulo antes mesmo de começar a campanha, cerca de 8 pontos percentuais. De acordo com a ultima pesquisa Datafolha(5\11) Boulos se encontra consolidado com 14 pontos e com a margem de erro está tecnicamente empatado com Celso Russomano e Márcio França na briga por uma vaga no segundo turno.

Desde o começo a campanha sempre teve pouca verba e tempo de tv para trabalhar, nesse aspecto decidiu focar em ações que se comunicassem com diversos públicos e camadas sociais da cidade, uma constante na campanha é a produção de vídeos que desmentem as diversas fake News atribuídas a chapa; existe uma aba só para isso no site da campanha.

Aba de espaço ao combate das Fake News que a campanha de Boulos faz em seu site

Ações como o se vira no 50 e o na lata; viralizaram nas redes sociais o objetivo foi traçado para suprir a falta de tempo e ausências de debates que acabaram acontecendo por conta da questão da pandemia que assola a cidade de São Paulo; outro destaque da campanha é o envolvimento de diversos movimentos de rua e estudantis além que qualquer um pode contribuir para a campanha a partir de dez reais.

Para entender um pouco mais como a campanha se reinventou e as estratégias usadas para combater as desinformações e como fazer uma campanha tão ativa numa situação pandêmica conversei com Thales Migilari, 25 anos que é coordenador da campanha pela juventude e faz parte da campanha de Guilherme Boulos e Luiza Erundina

 

 

 

 

Desde o começo vocês tiveram muita pouca verba, o como vocês decidiram onde iam focar? E como foi montada essa estratégia principalmente nas redes sociais?

As redes sociais do Guilherme Boulos já estavam entre as maiores dos representantes da esquerda em todo o Brasil. Com muita criatividade e uma linguagem acessível, direcionada a diferentes públicos de interesse, conseguimos crescer ainda mais. Tendo em vista a pouca verba, a comunicação foi um dos principais focos, tanto pela vigência da pandemia, quanto pela centralidade que ela adquiriu nas últimas eleições.

 

            Vocês estão produzindo diversos vídeos para suas redes sociais, qual foi o critério usado para as escolhas dos temas dos vídeos? desmentir as diversas fake News atribuídas ao Boulos é uma das prioridades da campanha?

A produção de conteúdo para as redes sociais é definida de acordo com as estratégias da campanha e atualizada semanalmente, para responder aos novos fatos políticos. O eixo norteador da campanha é a inversão de prioridades na cidade de São Paulo para colocar a periferia no centro e defender os interesses do povo. Com certeza a resposta às fake news são parte das prioridades por dois motivos: porque foi amplamente difundida pela extrema-direita, principalmente desde a eleição de 2018, e porque somos uma campanha anti-sistêmica, que enfrenta os privilégios da elite paulistana.

 

            Como surgiram algumas ideias da campanha como a música sobre o celta do Boulos? Alguma personalidade que está contribuindo para a campanha deu alguma sugestão para a campanha?

O carro celta do Boulos viralizou na campanha por ser o único patrimônio em seu nome declarado na campanha. Boulos tem origem na classe média, mas vive há muitos anos uma vida modesta na periferia da capital paulista, atuando ao lado do movimento de moradia. Nunca foi de seu interesse entrar na política para fazer carreira ou enriquecer, mas sim para transformar a vida das pessoas. A ideia da música vem daí. Existem muitas personalidades apoiando e contribuindo com a campanha. Caetano Veloso, inclusive, fará uma live em breve para arrecadar recursos nessa reta final.

 

Como se deu a estratégia para chegar em pessoas fora da bolha que vocês estão acostumados?

Nossa campanha é conhecida e tem a simpatia de todos aqueles identificados com a esquerda. É uma necessidade furar a bolha para chegar ao segundo turno. Começamos a campanha como uma das candidaturas menos conhecidas pelo eleitorado paulistano. A saída, além das redes sociais, foi intensificar a campanha nas ruas.

 

A falta de debates intensificou as ações de rua como o se vira no 50 e o na lata?

Com certeza. A falta de debates favorece os candidatos mais conhecidos, os que tem maior tempo de televisão e que controlam a máquina do estado. As ações de rua e o "na lata" foram saída para furar esse isolamento.

 

Nos últimos dias, uma foto viralizou mostrando um comício do Boulos cheio e muitas pessoas sem máscara. Como vocês estão lidando para controlar essas situações durante a pandemia? E o que acha que pode melhorar?

A pandemia atingiu em cheio o país e a capital paulista. Bolsonaro não queria sequer implementar uma política de renda solidária suficiente para aliviar os impactos na maioria da população. Covas priorizou a construção de hospitais de campanha na região central da cidade e não abriu qualquer debate sobre políticas de transferência de renda para os mais pobres. A capital paulista é uma das cidades com o maior número de vítimas em todo o mundo. A responsabilidade pela retomada da "normalidade" em meio à uma pandemia sem controle é principalmente daqueles que hoje estão nos governos. As pessoas que foram à atividade no Largo da Batata são aquelas que já retomaram seus trabalhos presenciais ou estão nas ruas fazendo campanha. Toda atividade de rua que realizamos busca respeitar as orientações sanitárias. Todas as pessoas usam máscara, estão com álcool gel e buscamos organizar o espaço para evitar problemas.

 

            A pandemia dificultou alguma ação de vocês como o panfletaço?

Somos a campanha com o maior volume de panfletagens. E isso acontece porque somos uma campanha-movimento, construída por pessoas que acreditam no projeto que estamos construindo. É completamente diferente das campanhas tradicionais que utilizam cabos eleitorais pagos sem qualquer afinidade ideológica ou política com as campanhas que os contratam. Infelizmente a pandemia ainda impede que muitas pessoas saiam de suas casas. Não temos dúvidas que em uma situação normal teríamos uma multiplicação das nossas iniciativas.

 

            Qual a maior dificuldade da campanha com a pouca verba que vocês têm?

A maior dificuldade é a ofensiva por parte das candidaturas tradicionais de direita, que se valem de muitas fake news contra uma campanha popular como a nossa. Não tivemos debates, temos apenas 17 segundos na televisão e pouquíssimos recursos.

 

            Além de desmentir as fake News sobre o Guilherme Boulos vocês estão usando para desmentir sobre o MTST, vocês sentem que conseguiram mudar a opinião de alguém?

A nossa campanha é construída principalmente nas ruas, "olho no olho". Temos mudado muitas opiniões e preconceitos que são amplamente difundidos pelos nossos adversários. A iniciativa do "na lata" é um exemplo, mas isso tem acontecido em inúmeras panfletagens, visitas aos bairros, entre outras iniciativas. O MTST é também um dos principais alvos das fake news. A direita e a elite utilizam aqueles que legitimamente lutam por um teto e condições dignas de existência para espalhar mentiras e medo. Fato é que o MTST nunca tomou a casa de ninguém O movimento atua em cima de propriedades que devem mais imposto do que o seu valor real e servem exclusivamente aos interesses da especulação imobiliária. A função social da propriedade está garantida pela Constituição Federal e deve ser utilizada para garantir melhores condições de vida a todos os paulistanos e brasileiros

 

O candidato do PSOL foi ao segundo turno contra Bruno Covas, do PSDB, que saiu vencedor e reassume no dia 1o. de janeiro de 2021.

 

 

 

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O prefeito Bruno Covas (PSDB) autorizou a volta as aulas presenciais no estado de São Paulo com redução no tempo de aulas e algumas especificações a serem atendidas. Os alunos que decidiram acatar retornaram na última terça-feira (3).
por
Beatriz Comoli Marques
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06/11/2020 - 12h

Crédito: instituto alfa e beto 

Em outubro o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, autorizou o retorno das aulas presencias para os alunos do ensino infantil, fundamental e médio. As aulas começaram nessa última terça-feira (3) com algumas restrições a serem seguidas, nas salas de aulas é preciso ter um distanciamento de 1,5 metro entre os estudantes. A decisão de liberar ou não as aulas nas cidades do estado ficam ao critério das prefeituras.  

"Seguindo a recomendação da área da Saúde, a Prefeitura de São Paulo vai manter apenas as atividades extracurriculares para o ensino infantil e para o ensino fundamental e vai autorizar o retorno às aulas para o Ensino Médio a partir do dia 3 de novembro aqui na cidade. Lembrando que essa autorização para o retorno é para as três redes: a rede municipal, a rede estadual e a rede privada. Ela é voluntária para os pais, de acordo com a decisão já do Conselho Nacional de Educação, e ela deve seguir os protocolos sanitários já estabelecidos", afirmou o prefeito Bruno Covas (PSDB). 

Não é obrigatório os alunos retornarem as aulas presenciais nesse momento, fica ao critério dos responsáveis o retorno. Guilherme Galdino de Souza, aluno do ensino médio, conta que “Inicialmente tive muito medo, por mais que as medidas de segurança necessárias foram adotas (diminuição do número de alunos por sala, uso de máscara e álcool em gel, etc.), ainda continuei a depender do transporte público, onde era praticamente impossível manter o distanciamento social ideal para estar seguro para o não contágio. Atualmente o medo persiste, talvez ainda mais, pois as pessoas passaram a voltar ao seu ritmo normal e com isso os transportes se mostram cada vez mais lotados, significando uma maior exposição ao vírus.” 

Os ensinos infantil e fundamental retornam apenas com as atividades extracurriculares, o ensino regular ainda contínua de modo remoto. Os alunos do ensino médio retornaram no dia 3 desse mês com as suas aulas presenciais, uma prova será aplicada para avaliar o que esses alunos realmente aprenderam no período da pandemia. A partir disso serão definidas estratégias de reforço pedagógico. 

Em um balanço feito Apeosp, o Sindicato dos Professores das Escolas Públicas Estaduais, menos de 5% dos alunos compareceram nesse primeiro dia de aula. A insegurança ainda é grande entre a população, ainda mais agora que alguns lugares da Europa estão enfrentando a segunda onda do vírus. No Brasil em alguns estados os números de casos estão começando a diminuir, encontra partir em algumas partes o vírus ainda não diminui sua contaminação. 

Os professores autorizados a conceder as aulas são aquelas que já foram infectados pela covid-19, a partir de exames sorológicos será possível identificar quem já entrou em contado com o vírus, o que não significa que a pessoa esteja imune. 

"Queria anunciar também que no dia 19 de novembro, com base na segunda fase do censo sorológico e com a evolução da pandemia na cidade de São Paulo, nós teremos uma nova coletiva para anunciar o que acontece e o que fica autorizado na cidade de São Paulo em relação a área da educação a partir do dia 1º de dezembro", relatou o prefeito Bruno Covas. 

Em 9 meses de pandemia no país, o Brasil registra até o momento mais de 5,5 milhões de casos, 161 mil óbitos e 5 milhões de caos recuperados da covid-19.

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