Campanha alerta o cuidado com a saúde intestinal e incentiva o diagnóstico precoce
por
Carolina Nader
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24/03/2026 - 12h

Durante o mês de março, período em que ocorrem campanhas importantes de conscientização a algumas doenças, a campanha Março Azul-Marinho mobiliza instituições de saúde, médicos e órgãos públicos em ações de conscientização e prevenção do câncer colorretal, ampliando o acesso da população à informação e aos cuidados preventivos.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 45 mil novos casos da doença por ano, conforme estimativas do órgão para o período de 2023 a 2025. O câncer colorretal está entre os tipos que mais causam mortes no país, reforçando a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.

O que é o câncer colorretal?

O câncer colorretal é um tipo de tumor que se desenvolve no intestino grosso (cólon) ou no reto, parte final do sistema digestivo responsável pela formação e eliminação das fezes. A doença ocorre quando células dessa região passam a crescer de forma desordenada, formando lesões que podem se tornar malignas.

Na maioria dos casos, o tumor surge a partir de pólipos intestinais - pequenas alterações inicialmente benignas que podem evoluir para câncer ao longo do tempo, especialmente quando não são identificadas e removidas precocemente. Em entrevista à AGEMT, o médico especialista em diagnóstico por imagem, Carlos Eduardo de Souza, explica que “o diagnóstico precoce possibilita tratamentos menos invasivos, como a biópsia excisional das lesões polipoides durante a realização da colonoscopia”.

O câncer colorretal é mais frequente em pessoas a partir dos 45 anos, faixa etária considerada de maior risco, com maior incidência entre adultos e idosos. Por esse motivo e também por apresentar evolução lenta e, muitas vezes, sem sintomas nas fases iniciais, entidades médicas recomendam a realização de exames preventivos regulares mesmo na ausência de queixas, como forma de identificar alterações precocemente e aumentar as chances de tratamento eficaz. As orientações são destacadas pelo INCA e por sociedades médicas ligadas à oncologia e à gastroenterologia.

Nos últimos anos, especialistas também têm observado um crescimento gradual no número de diagnósticos entre pessoas com menos de 45 anos, embora a maioria dos casos ainda esteja concentrada nas faixas etárias mais altas. De acordo com dados divulgados pelo INCA, fatores como mudanças nos hábitos alimentares, maior consumo de alimentos ultraprocessados, sedentarismo e obesidade estão associados a esse aumento, ampliando o alerta para a importância da atenção aos sintomas também entre adultos mais jovens.

Principais sintomas e sinais de alerta

O câncer colorretal pode apresentar poucos ou nenhum sintoma nas fases iniciais, o que torna o diagnóstico precoce mais desafiador e reforça a importância dos exames preventivos. Quando surgem, os sinais costumam estar relacionados a alterações no funcionamento do intestino.

Entre os principais sintomas estão:

  • Presença de sangue nas fezes;
  • Mudanças persistentes no hábito; intestinal, como episódios frequentes; de diarreia ou prisão de ventre; 
  • Dor ou desconforto abdominal contínuo; 
  • Perda de peso sem causa aparente; 
  • Sensação de evacuação incompleta e cansaço frequente.

Segundo Carlos, esses sinais não indicam necessariamente câncer, mas devem ser investigados por um profissional de saúde, principalmente quando persistem por várias semanas.

O INCA também alerta que grande parte dos casos é diagnosticada apenas após o aparecimento de sintomas, o que pode dificultar o tratamento. Com isso, os exames precoces permitem identificar lesões ainda em estágios iniciais, aumentando significativamente as chances de cura, que podem ultrapassar 90% quando descoberto rapidamente.

Barreiras à prevenção

Na prática clínica, existem desafios para a prevenção do câncer colorretal. “Atualmente, barreiras socioeconômicas, culturais, tabus e o desconhecimento de fatores de risco dificultam a prevenção”, explica o doutor Carlos Eduardo. Além disso, muitos pacientes têm medo do exame devido à possibilidade de dor ou perfuração intestinal. O especialista reforça que “o procedimento é indolor, sendo realizado sob sedação e analgesia, sem causar prejuízos ao paciente”.

Fatores de risco associados à doença

Diversos fatores podem aumentar o risco de desenvolvimento do câncer colorretal. Entre os principais estão hábitos de vida e condições de saúde que influenciam o funcionamento do organismo ao longo do tempo.

Segundo o INCA e a Organização Mundial da Saúde (OMS), a alimentação rica em carnes processadas e ultraprocessados, aliada ao baixo consumo de fibras, está diretamente associada ao aumento do risco da doença. Estudos da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, apontam que o consumo frequente de carnes processadas pode aumentar em cerca de 18% o risco de câncer colorretal.

O sedentarismo e a obesidade também são fatores relevantes. Dados da OMS indicam que a prática regular de atividade física pode reduzir o risco de câncer de intestino em cerca de 20% a 30%. Além disso, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e o tabagismo contribuem para o desenvolvimento de diversos tipos de câncer, incluindo o colorretal.

Pessoas com histórico familiar da doença ou com doenças inflamatórias intestinais devem manter acompanhamento médico regular, já que apresentam maior predisposição ao desenvolvimento do tumor, conforme orientações de sociedades médicas de oncologia e gastroenterologia.

Prevenção e exames ajudam a reduzir casos

Especialistas apontam que grande parte dos casos de câncer colorretal pode ser evitada por meio da adoção de hábitos saudáveis e da realização de exames preventivos. A manutenção de uma alimentação equilibrada, rica em fibras, frutas, verduras e legumes, aliada à prática regular de atividade física, está entre as principais medidas recomendadas para reduzir o risco da doença.

Entre os principais exames utilizados está a colonoscopia, considerada o método mais eficaz para detectar alterações no intestino grosso e no reto. O exame permite não apenas identificar lesões suspeitas, mas também realizar a retirada de pólipos durante o procedimento. O teste de sangue oculto nas fezes também é utilizado como estratégia inicial de rastreamento.

 

Profissionais de saúde do SUS. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Exames de prevenção como a colonoscopia podem ser feitos no SUS. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

 

De acordo com recomendações médicas e orientações do Ministério da Saúde, pessoas a partir dos 45 anos - ou antes, em casos de histórico familiar - devem procurar avaliação médica para orientação sobre o rastreamento. Parte desses exames pode ser realizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mediante encaminhamento profissional.

Ao reforçar a importância da informação e do cuidado contínuo com a saúde intestinal, a campanha Março Azul-Marinho busca incentivar a população a adotar medidas preventivas e a procurar atendimento médico diante de sinais persistentes, contribuindo para a redução da mortalidade causada pelo câncer colorretal.

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Campanha destaca a importância da vacinação contra o HPV e do diagnóstico precoce
por
Carolina Nader
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19/03/2026 - 12h

Unidades de saúde de todo o país intensificam, ao longo do mês de março, ações de prevenção e conscientização sobre o câncer de colo do útero como parte da campanha Março Lilás. A iniciativa busca ampliar o acesso à vacinação contra o HPV, à realização do exame preventivo e à informação, medidas essenciais para o diagnóstico precoce e a redução dos casos da doença.

De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 17 mil novos casos de câncer de colo do útero por ano entre 2023 e 2025. Apesar de ser considerado amplamente prevenível, o tumor ainda provoca aproximadamente seis mil mortes anuais no país.

A doença está associada principalmente à infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV), vírus transmitido sobretudo por contato sexual. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os tipos 16 e 18 do HPV são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer cervical.

Desigualdades regionais 

No Brasil, a incidência do câncer de colo do útero também apresenta desigualdades regionais. Dados do INCA indicam que as regiões Norte e Nordeste concentram as maiores taxas da doença, cenário frequentemente associado a desafios no acesso aos exames preventivos, desigualdades socioeconômicas e dificuldades no acompanhamento regular em saúde. 

Em entrevista à AGEMT, a ginecologista Laís Panaino explica que fatores sociais e comportamentais ainda dificultam a prevenção. Segundo ela, a falta de acesso ao exame preventivo em algumas regiões, a baixa cobertura vacinal e o estigma quanto ao assunto contribuem para o diagnóstico tardio. "Talvez falte mais campanhas em escolas, para a conscientização. O problema é que algumas pessoas pensam que falar sobre o assunto e estimular campanhas de vacinação induz crianças a pensarem em sexo", relata a médica. 

Além disso, ela explica que o medo e a vergonha contribuem para a diminuição da realização dos exames cautelares entre as pacientes. "No posto de saúde onde trabalho existem casos em que elas não querem colher o preventivo com a enfermeira, pois acham que receberão comentários sobre suas partes íntimas, medo de sair piadas com os nomes delas", comenta. 

Importância do diagnóstico precoce

Diferentemente de outros tipos de câncer, o tumor costuma se desenvolver lentamente na região inferior do útero ao longo de vários anos, geralmente sem apresentar sintomas nas fases iniciais. Esse intervalo permite que exames preventivos identifiquem alterações celulares antes da formação do câncer, tornando possível o tratamento precoce e aumentando significativamente as chances de cura.

De acordo com Panaino, o exame Papanicolau é essencial nesse processo, pois detecta alterações celulares precoces e lesões causadas pelo HPV que podem evoluir para o câncer caso não sejam tratadas. 

Sinais de alerta para o câncer de colo do útero:

  • Sangramento fora do período menstrual ou após relações sexuais
     
  • Dor ou desconforto durante relações sexuais
     
  • Corrimento vaginal persistente ou com odor forte
     

Em caso de qualquer alteração, a orientação é procurar avaliação médica. Embora esses sintomas possam estar associados a diferentes condições ginecológicas, a investigação é importante para descartar doenças mais graves. 

Vacinação e prevenção  

A vacina contra o HPV é considerada uma das principais estratégias de prevenção, já que possui papel fundamental no bloqueio dos tipos responsáveis pela maior parte dos casos.

A vacina contra o HPV está disponível em qualquer Unidade Básica de Saúde. Foto: Marcelo Camargo (Agência Brasil)
A vacina contra o HPV está disponível em qualquer Unidade Básica de Saúde. Foto: Marcelo Camargo (Agência Brasil) 

Experiências internacionais reforçam a eficácia da vacinação. No Reino Unido, um estudo publicado na revista científica The Lancet apontou redução de até 87% nos casos de câncer de colo do útero entre mulheres que foram vacinadas ainda na adolescência. 

No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, o exame preventivo Papanicolau é indicado para mulheres entre 25 e 64 anos e está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Já a vacina contra o HPV é oferecida para meninas e meninos de 9 a 14 anos e para grupos de pessoas imunossuprimidas - indivíduos com sistema imunológico enfraquecido - como forma de prevenir a infecção pelos tipos do vírus mais associados a esse tipo de câncer. 

Diante de uma doença amplamente evitável, Laís reforça que o acesso à informação, a vacinação contra o HPV e o acompanhamento médico regular são estratégias essenciais para reduzir a mortalidade no país. “Apesar da promessa de acabar com as lesões de colo de útero, muitas pessoas não aderiram, às vezes por desinformação ou pela falta de serem lembradas", afirma. 

Ao incentivar a conscientização e o cuidado contínuo com a saúde, a campanha Março Lilás reforça que a prevenção e o diagnóstico precoce permanecem como as estratégias mais eficazes para reduzir novos casos e salvar vidas.

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Transformando a vida de milhões de pessoas todo ano, merece mais reconhecimento e recursos para manter o Brasil vivo
por
Vítor Nhoatto
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28/11/2025 - 12h

Por Vítor Nhoatto

 

Uma das poucas certezas de todo ser humano, tal qual a morte, é a doença. Sabe aquele resfriado que vem junto ao seco do frio, uma ferida que infecciona depois de cair de bicicleta, até aquelas mais sérias que podem aparecer. Fato é que sem saúde não se vive, sendo um direito constitucional não por acaso. Sendo assim, é preciso que o acesso a essa necessidade tão básica quanto respirar e se alimentar seja universal, e não um bem a se comprar apenas por aqueles que podem.

Para isso então que existe o Sistema Único de Saúde (SUS), tão falado e muito mais presente na vida do que alguns podem sequer imaginar, ou querer. Para se ter uma ideia, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão regulador dos medicamentos disponíveis no país, de controle alimentar e hídrico, faz parte do SUS. Regulamentado em 1990, é responsável pelas vacinas e desenvolvimento científico ainda, e sabe os planos de saúde, a Agência Nacional de Saúde (ANS), que os regula, também é integrante do sistema.

Para falar dessa diferença real na vida, antes é preciso até olhar nos papéis para lembrar já a quanto tempo ele é médico, enfermeiro, farmácia. De cabelos curtos hoje, depois de uma repaginada no visual devido ao câncer de pulmão que teve justamente na pandemia de COVID-19, Léia Marisa celebra que há dois anos consegue receber na AME Maria Zélia o micofenolato de Mofetila. Pois é, muitas vezes quando o nome é chique o preço é alto, uns R$500 por caixa, mil reais por mês gastos antes da papelada ficar pronta e ser aceita em 30 de novembro de 2023, já que a doença não espera os trâmites e filas.

A ex-professora, atual dona de casa e empresária a distância do seu restaurante, conta como o período de descoberta e tratamento do câncer, que levou até questões reumatológicas, e ajudou a descobrir uma artrite reumatoide, foi muito difícil. Entre dezenas de idas ao hospital de 2020 até 2023 até chegar ao diagnóstico, foram dias desgastantes, assustadores, e toda ajuda foi essencial, principalmente com os custos de sobreviver à doença. No caso dela, o tratamento do tumor foi feito em rede privada graças ao seu plano de saúde empresarial, que custa salgados R$5 mil reais ao mês. Só aqui são quase quatro salários mínimos, um privilégio muito grande, como ela destaca, olhando para um país em que apenas 7,60% da população ganha entre 5 e 10 salários como o Censo de 2022 do Instituto brasileiro de Geografia e Estatística revela. 

Se aprofundando mais ainda nos fatos, de acordo com o estudo “Quanto custa o câncer” de 2023 do Observatório de Oncologia, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE) e do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, os custos de tratamento da doença quadruplicaram nos últimos três anos. Uma sessão de radioterapia ou quimioterapia custava quase R$800 em 2022, e dezenas são necessárias na maioria das vezes. Acrescentando nessa conta, consultas, tomografias e biópsias, mil reais ali e cinco acolá, o custo chega facilmente ultrapassa dezenas de milhares de reais. Isso é ainda mais preocupante tendo em conta a incidência do câncer na população, que segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA) entre 2023 e 2025, 704 mil pessoas terão a doença como Marisa. 

E com isso que o SUS se mostra como algo tão relevante, oferecendo tratamento integral e gratuito contra todos os tipos de cânceres. Claro que muitos problemas existem, como destaca Marisa ao lembrar que quando estava no meio do tratamento enfrentou problemas com o plano de saúde, mas que só o medo de depender da demora do SUS caso fosse preciso, a preocupava muito. A saúde é o bem mais precioso para, o que para todos provavelmente deva ser, e por isso justamente que em 2012 a lei 12.732/12 obriga que o tratamento contra o câncer tem que ser iniciado em até 60 dias após o diagnóstico. 

Mas além disso, com os olhos marejados depois de navegar novamente no mar agitado que foi a jornada até a vida que tem hoje, curada e com o diagnóstico da sua doença crônica, ela volta e lembra que a diferença que não ter que pagar pelo Micofenolato que a mantém respirando faz.  Quando tinha que arcar com as despesas era como um fardo a mais imposto a ela, que considera a saúde hoje como o bem mais valioso. As idas mensais  ao posto são um alívio hoje para ela, destacando que o seu medicamento nunca faltou até então, mas que já presenciou pessoas na situação contrária e que não tinham como arcar pessoalmente com os gastos. Essa é uma realidade infelizmente, segundo fiscalização de 2023 da secretaria de contas do Estado de São Paulo, em quase metade dos postos visitados faltavam algum medicamento.

papéis
A cada seis meses Marisa tem que renovar a receita e toda a papelada para solicitação do seu medicamento junto a AME - Foto: Vítor Nhoatto

Milhões de uns

Mesmo que falte muito, afinal, só 4,16% do orçamento federal foi destinado à saúde em 2024 segundo o Painel do Orçamento Federal, a porcentagem vem aumentando desde 2022, e milhões de brasileiros são atendidos todos os dias. O Brasil é o único país do mundo com mais de 100 milhões de habitantes com um sistema universal de saúde, e 213 milhões dependem diretamente do SUS, segundo o Ministério da Saúde, que contabiliza em média 2,8 bilhões de atendimentos por ano, empregando 3,5 milhões de profissionais.

E mais um desses uns é Valdir Sousa, que do alto de seus 63 anos de idade é um típico caso brasieleiro. Com diabetes do tipo II há 20 anos e hipertenso, conta que se não fosse o acesso ao sistema gratuito, sua vida seria muito diferente, obviamente pelo lado financeiro, e muito também pelo bem-estar. O mineiro nascido em São João do Paraíso e que vive em São Paulo há décadas já viu tanto na vida, e com o passar do tempo o que todos querem e merecem é justamente qualidade de vida. Essa no caso, em grande parte possível graças a insulina que busca no posto na Freguesia do Ó e os comprimidos que cuidam do seu coração acelerado.

Justamente essa hipertensão que é a doença mais presente nos peitos animados dos brasileiros, e 52% da população é diagnosticada com alguma DCNTs, como revela a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019. Além disso, segundo dados de 2020 da Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) como as de Valdir são tecnicamente chamadas, são as mais comuns no mundo e no Brasil, com o diabetes inclusive tendo aumentado 70% entre 2000 e 2019. 

Para contextualização, nos Estados Unidos existe há alguns anos o movimento nas redes sociais insulin4all, criado pela organização sem fins lucrativos T1 International, que denuncia os altos custos da insulina no país, onde um frasco de 10ml gira em torno de U$330. Tal situação vem levando inclusive pessoas a racionarem o medicamento, o que pode levar a complicações e até a morte em casos mais graves. Já no Brasil, o mesmo remédio é disponibilizado pelo SUS, e o preço máximo permitido por lei é de R$125,30. 

Diante desses dados e o envelhecimento da população fica claro como a saúde vai ser cada vez mais necessária, tal qual destaca o jovem de espírito Valdir, que já foi pedreiro e auxiliar de manutenção geral em uma lanchonete, justamente no Hospital das Clínicas. As histórias que já viu na maior referência de saúde pública brasileira enchem a sua mente, e as palavras saem inquietas sobre as melhorias que o SUS precisa e as pessoas merecem. Ele conta em meio a suspiros que quando precisa de exames mais urgentes, ou consultas em meio a crises, tem que recorrer ao plano de saúde da sua esposa, do qual é dependente, já que as unidades de saúde estão sempre cheias e a fila de espera passa de meses algumas vezes. 

Foi nessas passagens obrigadas pela rede privada que ele inclusive descobriu mais um integrante do seu pacote, a doença renal crônica há um ano. Porém, é no SUS que o acompanhamento com nutricionista, nefrologista e endocrinologista foi possível, uma rotina de cuidados essenciais para uma boa qualidade de vida para quem tem a condição. É graças a essa rede de profissionais e a farmácia popular que Valdir vai aproveitando com os dois filhos e a mulher os seus dias, frisando com a voz até meia trêmula, que sem isso não poderia se ter o seu direito de viver com saúde exercido plenamente.

medicamentos
São graças a compostos como esses que tanto Marisa ou Valdir, e os mais de 100 milhões de brasileiros com doenças crônicas podem viver bem tal qual a constituição garante - Foto: Vítor Nhoatto

 

ONG Jardim das Borboletas se destaca no acolhimento e na luta por dignidade
por
Manuela Dias
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27/11/2025 - 12h

A falta de diagnóstico precoce, o preconceito e a dificuldade de acesso ao básico ainda moldam a dura rotina de quem convive com a Epidermólise Bolhosa (EB) no Brasil. A doença genética rara, caracterizada pela extrema fragilidade da pele e pela formação de bolhas internas e externas, permanece pouco conhecida até mesmo entre profissionais de saúde.  


Em meio a essa realidade, a ONG Jardim das Borboletas, fundada em 2017 por Aline Teixeira, tornou-se um dos principais pilares de apoio a pessoas com EB no país. Hoje, a instituição acompanha 162 famílias, atua em 24 estados e no Distrito Federal e oferece atendimento totalmente gratuito, humanizado e multidisciplinar.

Cuidado começa pela informação

Com sede em Caculé (BA) e uma casa de apoio em São Paulo (SP), o Jardim das Borboletas nasceu da sensibilização de Aline ao conhecer uma criança com EB. A história, inicialmente marcada por uma campanha de ajuda individual, tornou-se a semente de um projeto nacional. “Eu vi a necessidade daquela criança e quis ajudar. Mas percebi que existiam muitas outras na mesma situação ou até pior. Então a gente segue acolhendo outras crianças”, lembra Aline.

Hoje, a ONG dispõe de uma equipe composta por assistente social, enfermeira, nutricionista, psicóloga e advogada. O atendimento remoto acontece de segunda a sexta-feira, sempre de forma individualizada.

O processo de inclusão de novos pacientes passa por um setor assistencial estruturado: “Nós temos uma assistente social que faz toda a triagem, conhece a família, avalia a situação e identifica como podemos ajudar”, explica.


O peso do preconceito

Além da fragilidade da pele, as pessoas com Epidermólise Bolhosa enfrentam outra ferida: o preconceito. A desinformação sobre a doença faz com que muitos pacientes sejam olhados com estranhamento, evitados em espaços públicos e, em alguns casos, até impedidos de frequentar escolas ou ambientes comunitários.


Para Aline Teixeira, essa é uma das barreiras mais dolorosas: “A segunda maior dificuldade é o preconceito da sociedade pela falta de conhecimento. Isso machuca muito”, afirma.

A aparência das lesões costuma gerar medo e julgamentos equivocados, reforçando o isolamento das famílias e agravando o sofrimento emocional. Muitas mães relatam episódios de exclusão, como pessoas que mudam de assento ao lado de seus filhos ou que se afastam por acreditar, erroneamente, que a doença é contagiosa. Por isso, a informação é um dos pilares do Jardim das Borboletas: “Nossa principal frente é divulgar a doença para o máximo de pessoas possível. Quando a sociedade entende o que é a EB, o preconceito diminui e isso já transforma vidas”, explica Aline.


A falta de conhecimento público, combinada com a invisibilidade da doença rara, aprofunda desafios que vão além da saúde física. Enfrentar o preconceito significa também lutar por pertencimento, inclusão e respeito.

 

 A ONG busca ser reconhecida como referência e destaque na área de reabilitação e assistência a crianças com Epidermólise Bolhosa e outras doenças raras de pele.

A ONG busca ser reconhecida como referência e destaque na área de reabilitação e assistência a crianças com Epidermólise Bolhosa e outras doenças raras de pele. Foto: Divulgação


Caixinha do Amor

Todos os assistidos recebem mensalmente a “Caixinha do Amor”, que inclui itens de higiene, curativos especiais, suplementos e medicamentos. O acesso a esses materiais é vital, já que a manutenção da pele exige curativos específicos e de alto custo. Para Aline, mais do que suprimentos, a ONG entrega dignidade: “Quando você tem acesso ao tratamento, você se sente uma pessoa mais digna. O projeto dá dignidade não só às crianças, mas às famílias inteiras.”


Ao mesmo tempo, a ONG enfrenta suas próprias batalhas: “Nosso maior desafio é conseguir padrinhos que nos ajudem a manter a assistência. E precisamos construir nossa sede para ter um espaço próprio e realizar ações ainda mais assertivas.”


Como ajudar a ONG

O trabalho do Jardim das Borboletas só é possível graças à solidariedade de pessoas e empresas que entendem o impacto transformador de cada gesto. 


Contribuir com a ONG é simples e acessível: é possível fazer doações mensais ou avulsas, que garantem a compra de curativos, suplementos e outros materiais essenciais; também é muito bem-vinda a doação de itens de higiene e curativos especiais, indispensáveis para o cuidado diário e para a prevenção de infecções. 


Quem deseja se envolver ainda mais pode atuar como voluntário, oferecendo tempo e conhecimento em áreas como saúde, comunicação, direito, administração ou educação. Outra forma poderosa de ajudar é compartilhar a causa, divulgando informações sobre a Epidermólise Bolhosa e sobre o trabalho realizado pela ONG, contribuindo para combater o preconceito e ampliar o alcance do projeto. Para conhecer todas as formas de participação e apoio, basta acessar o site do Jardim das Borboletas.

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Os efeitos que o TCC causa nos universitários expõem a fragilidade do cuidado com o psicológico diante da pressão no encerramento da graduação
por
Olivia Ferreira
Sofia Morelli
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18/11/2025 - 12h

 

A fase final da faculdade é uma época de ansiedades e pressões que vêm tanto do ambiente acadêmico quanto social e, o Trabalho de Conclusão de Curso, o famoso TCC, é visto por muitos como o grande desafio da vida universitária. Ele representa o encerramento de um ciclo, a consolidação de anos de estudo e o primeiro grande passo em direção ao mercado de trabalho. Mas, por trás das apresentações de sucesso e das bancas avaliadoras, há um lado pouco falado: o impacto que o processo de criação do TCC tem sobre a saúde mental dos estudantes.

 

Mulher mentalmente esgotada diante livros de estudo
Foto: Vestibular Brasil Escola UOL 

 

Ao longo do processo do trabalho é comum os graduandos se concentrarem totalmente nesse projeto, deixando para segundo plano sua saúde mental e até mesmo a saúde física. Além do encerramento da fase universitária, estudantes lidam com o início da vida profissional, causando ainda mais estresse durante esse período e diversos problemas graves de saúde que atingem diretamente o bem-estar do profissional, como o conhecido “burnout” e crises de ansiedade e pânico. Uma pesquisa feita pela Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) revelou que quanto maior a percepção de relação com professores e colegas, conciliação dos estudos e do lazer, pressão das disciplinas, provas, trabalhos e conciliar o estágio profissional, maior o índice da Síndrome de Burnout em estudantes.

 

 

Causas principais 

Essa vivência dramática- a primeira experiência angustiante com grande peso emocional- muitas vezes ocasiona o “burnout”, um termo utilizado para designar um trauma de longa exposição gerado quando o corpo é continuamente informado de perigo. Esse problema derivado de uma alta carga de estresse e exaustão compromete sua capacidade de concentração e produtividade. Ele se manifesta por meio de sintomas emocionais que atravessam a psique, impactando o físico. Essa pressão transforma o processo de aprendizagem em um ciclo de sofrimento e desmotivação, o que evidencia a urgência de se discutir e promover práticas de cuidado e prevenção dentro do ambiente educacional.

Mapa mental sobre os sintomas do burnout
Foto: Infográfico/ Laura Urbano

As pressões externas e internas que acorrentam discentes- e que ocasionam diversos sentimentos maléficos tanto para o desempenho didático quanto para a saúde mental- reproduzem discursos de esgotamento marcados por cobranças, falta de tempo e medo do fracasso. Além disso, a carga de tarefas é intensa: aulas, estágio, trabalho, relatórios e reuniões com o orientador,  o que resulta em  um cotidiano sobrecarregado e sem espaço para descanso ou autocuidado.“É importante equilibrar essa época da vida com atividades relaxantes e que tirem o foco do trabalho e até mesmo do tema. Saiba até onde você consegue ir, você é limitado.” afirma o psicólogo Paulo Scholze. 

Praticar atividades físicas, buscar suporte emocional e fazer coisas que sejam prazerosas são maneiras que auxiliam para um processo mais leve. Segundo Scholze, o apoio emocional é o ponto chave para lidar de forma mais calma na criação do trabalho. Os orientadores devem  escutar o aluno, e caso isso não seja possível, deve-se procurar pessoas que já passaram por essa fase e que possam oferecer apoio.

Paulo Scholze conta sua experiência com o TCC, durante a pandemia. Apesar do prazer de dar espaço para “sua própria voz”, como o mesmo explica, de poder se descobrir como autor desta pesquisa e do trabalho final —“Me descobri um pouco nesse lugar de autoria”—, o psicólogo também sofreu com a angústia costumeira. Explica como as tensões se agravam conforme se aproximam do prazo de entrega. 

Para lidar com a pressão, cada estudante cria sua própria estratégia. Alguns se apoiam em grupos de amigos, outros buscam terapia, e há quem recorra ao café e à força de vontade. “É difícil falar sobre como pacientes em geral lidam com essa fase da vida, porque todos vivem de forma muito distante. Mas, posso afirmar que acho difícil que seja algo muito tranquilo, sempre tem uma dose de angústia.” diz o psicólogo. 

Uma forma de evitar o peso maciço de demandas como a do TCC, foi descrita pela escritora inglesa, Virgínia Woolf. A mesma dizia intercalar seus romances complexos e profundos com narrativas mais simples e mais facilmente prazerosas, “livros de férias”,  como uma forma de escape da pressão que sentia na escrita dos livros mais difíceis. 

Se pode trazer este conceito para perto do assunto do TCC, ideia desenvolvida por Paulo Scholze, que usou essa analogia para exemplificar uma orientação que ajuda a lidar com a complexidade do trabalho, usando os hobbies e outros interesses como um escape para os formandos.

 

Prevenção do estresse excessivo

Algumas orientações e indicações gerais de Scholze para levar o desenvolvimento do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de maneira mais equilibrada são:

  • Fazer com que não seja um esforço contínuo: pensar no projeto com calma e tentar um ritmo menos intenso;

  • Escolher um tema que lhe agrade para manter o interesse;

  • Encontrar uma voz: não precisa ser perfeito e se auto cobrar menos;

  • Ter alguém que te escute e auxilie nessa fase desafiadora; 

  • Encontrar paz;

  • Refletir sobre como o projeto é algo que irá se concluir, algo passageiro;

  • Fazer coisas que te interessam;

  • Falar de temas que instigam algo dentro de você.




 

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Os hormônios chamados bioidênticos têm sido usados no tratamento de sintomas da menopausa.
por
manuela schenk scussiato
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17/11/2025 - 12h

Por: Manuela Schenk

 

Maria Rosa é moradora de um bairro tranquilo em Belo Horizonte e tem 58 anos. Vivia dias que pareciam sempre nublados. A menopausa havia chegado silenciosa, mas dominando cada detalhe de sua rotina: noites interrompidas por ondas de calor, cansaço persistente e um humor tão instável quanto o clima da cidade. Professora aposentada, ela se viu pela primeira vez incapaz de organizar sua própria vida, como se o corpo tivesse assumido o comando sem pedir permissão.

Os meses seguintes foram marcados por idas e vindas a médicos, tentativas de adaptar a rotina e conversas demoradas com amigas que compartilhavam experiências semelhantes. Nada parecia surtir efeito, até que ouviu falar de uma abordagem que ganhava espaço em consultórios especializados: a terapia com hormônios bioidênticos. Curiosa e cansada de sentir que estava vivendo apenas no piloto automático, Maria decidiu buscar uma avaliação completa para entender se aquela alternativa poderia ser adequada para ela.

A equipe médica analisou seu histórico e, após uma explicação detalhada sobre os possíveis benefícios e limitações, apresentou a reposição hormonal bioidêntica como uma opção. Maria aceitou iniciar o tratamento, não como uma promessa de solução mágica, mas como a possibilidade de reencontrar a si mesma. Nos dias seguintes, seu ceticismo dividia espaço com uma esperança tímida, que ela mal ousava verbalizar.

As mudanças começaram de forma sutil. As noites tornaram-se menos turbulentas, os suores repentinos diminuíram e, com o sono mais estável, veio também uma energia que Maria acreditava ter perdido para sempre. Pequenas vitórias foram se acumulando: a disposição para caminhar pela manhã, o prazer em preparar o próprio café e até a vontade de retomar projetos que havia abandonado quando os sintomas apertavam.

Com o passar dos meses, a melhora deixou de ser apenas física, ela sentiu seu mundo voltando a ter cor. Amigos próximos notaram o brilho renovado no olhar, e Maria passou a falar abertamente sobre sua experiência, sempre destacando que cada mulher tem sua trajetória e que o acompanhamento profissional é indispensável. Para ela, a reposição hormonal bioidêntica representou mais do que um tratamento: foi a reconquista de uma vida que parecia ter escapado pelas frestas do tempo.

Hoje, Maria Rosa caminha pela praça do bairro com passos firmes, como quem recuperou não só o controle do próprio corpo, mas também o entusiasmo pelos dias que virão. Sua história é uma entre tantas que ilustram a complexidade da menopausa e a importância de abordar o tema com informação, cuidado e sensibilidade. E, enquanto observava o movimento ao redor, ela resumiu sua jornada com simplicidade dizendo que a menopausa tentou paralisá-la mas aos poucos ela aprendeu que existe sempre um caminho para voltar a florescer.

Com o tempo, Maria foi percebendo que a melhora não se refletia apenas no cotidiano, mas também em suas relações. Ela voltou a frequentar rodas de leitura, retomou encontros semanais com antigas colegas de profissão e até se animou a planejar pequenas viagens. “Parece que eu reencontrei minha própria companhia”, comentou certa vez, rindo com a naturalidade que havia deixado de sentir. O que antes era medo de enfrentar os dias transformou-se em vontade de ocupar novamente os espaços que sempre foram seus.

Seu marido, Antônio, também testemunhou essa transformação de perto. Ele lembra que, antes do tratamento, as noites eram marcadas por inquietação e cansaço, e as conversas acabavam ofuscadas pela exaustão. Agora, o casal redescobre uma rotina mais leve, com caminhadas ao entardecer e longas conversas na cozinha. Para ambos, a mudança de Maria representou não apenas um avanço individual, mas uma renovação de laços, mostrando como o bem-estar de uma mulher reverbera por toda a família.

Os hormônios desempenham papéis essenciais no equilíbrio do organismo, regulando funções como metabolismo, humor, sono e, quando falamos em reposição hormonal, especialmente para mulheres na menopausa, é comum surgirem dúvidas sobre a diferença entre hormônios tradicionais (sintéticos) e hormônios bioidênticos. Embora ambos tenham o objetivo de aliviar sintomas decorrentes da queda hormonal, eles se distinguem principalmente pela estrutura química e pela forma como o corpo os reconhece.

Os hormônios tradicionais, frequentemente chamados de sintéticos ou não bioidênticos, são produzidos em laboratório, mas não necessariamente possuem a mesma estrutura molecular dos hormônios humanos. Apesar de eficazes para muitas mulheres, podem apresentar respostas variáveis no organismo porque sua interação com os receptores hormonais nem sempre ocorre da mesma forma que com os hormônios naturais. Isso pode influenciar tanto os efeitos desejados quanto o perfil de efeitos colaterais.

Já os hormônios bioidênticos são formulados para terem estrutura molecular idêntica à dos hormônios produzidos naturalmente pelo corpo humano. Por esse motivo, o organismo costuma reconhecê-los e metabolizá-los de maneira mais semelhante aos hormônios endógenos. Essa similaridade é o principal argumento de profissionais e pacientes que relatam maior tolerabilidade e adaptação, embora a resposta possa variar de pessoa para pessoa.

A reposição hormonal feita com hormônios bioidênticos pode oferecer benefícios para mulheres na menopausa, como alívio de ondas de calor, melhora da qualidade do sono, redução da irritabilidade, maior lubrificação vaginal e, em alguns casos, melhora da vitalidade e do bem-estar geral. Algumas mulheres relatam que os bioidênticos promovem um equilíbrio mais suave, possivelmente por serem metabolizados de forma mais natural pelo organismo.

Além disso, especialistas ressaltam que os hormônios bioidênticos podem ser formulados de maneira personalizada, ajustando dosagens e combinações conforme as necessidades individuais de cada mulher, sempre com supervisão de profissionais qualificados. Essa possibilidade de personalização é um dos pontos que costumam atrair pacientes que buscam uma abordagem mais adaptada ao próprio corpo, embora continue sendo fundamental o acompanhamento regular, exames periódicos e avaliação cuidadosa dos resultados.

Apesar das vantagens relatadas, é importante lembrar que qualquer terapia hormonal exige acompanhamento médico, independentemente de ser feita com hormônios sintéticos ou bioidênticos. A combinação adequada de hormônios, a forma de administração e o monitoramento regular são fundamentais para garantir segurança e eficácia. Cada mulher possui necessidades individuais, e somente um profissional qualificado pode orientar a melhor abordagem para cada caso.


 

É importante saber até onde ela esbarra no limite da ética científica
por
Chloé Dana
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18/11/2025 - 12h

Por Chloé Dana

 

Em "A Condição Humana", Hannah Arendt analisa de que maneira a época moderna alterou a centralidade da experiência humana. No passado, a política era o ambiente onde as pessoas se reuniam para construir um mundo compartilhado, um espaço vibrante de debate, divergências e criação coletiva. Atualmente, ela afirma que a política se transformou na gestão da vida orgânica. O foco mudou para a preservação do corpo, aumentando sua longevidade e minimizando seu sofrimento. Assim, a vida pública foi substituída pela luta pela sobrevivência. É nesse cenário que a bioética surge como uma resposta aos desafios que reconfiguram a visão que a humanidade tem de si mesma. Ela facilita discussões sobre o começo e o término da vida, a qualidade da vivência humana, os limites éticos dos experimentos científicos e as implicações das decisões relacionadas ao corpo. Baseia-se em valores como autonomia, dignidade e justiça, tornando-se um guia essencial em um mundo em que a ciência pode interferir de maneira cada vez mais profunda na nossa essência.

A vastidão desse domínio reflete a complexidade da vida atual, envolvendo discussões sobre aborto, euthanasia, objeção de consciência, maternidade substitutiva, tecnologias reprodutivas, decisões médicas influenciadas por crenças religiosas, modificações genéticas e os efeitos ambientais sobre os organismos vivos. A bioética surge porque a ciência contemporânea ganhou a capacidade de editar genes, escolher embriões, manipular dados pessoais, prolongar vidas e transformar corpos. Questionar “até onde a ciência deve ir” é, na essência, perguntar como proteger a humanidade que reside por trás das inovações. É assegurar autonomia, privacidade, proteção dos vulneráveis e igualdade no acesso aos benefícios da biotecnologia. Contudo, essas questões não se restringem apenas à filosofia. Elas se materializam nos consultórios, onde ciência e vulnerabilidade humana se encontram diariamente.

É nesse contexto que a vivência do geneticista Elias Monteiro ilumina, com seu corpo e voz, aquilo que muitas vezes permanece no abstrato. Uma pessoa que carrega, sem alardear, a serena responsabilidade de lidar diariamente com escolhas complicadas. Seu dia inicia cedo, sempre com exames dispostos sobre a mesa, fragmentos de DNA organizados como se fossem pequenas cartas enviadas pelo corpo humano. Cada laudo gera indagações, cada sequência genética oferece uma nova possibilidade, cada variante pode alterar o rumo de uma vida.

Entre esses documentos, aparecem histórias concretas: famílias que buscam esclarecimentos após anos de dúvidas, casais que tentam planejar o futuro com menor temor, adultos que carregam desde a infância incertezas que nunca foram nomeadas. A rotina dele é composta por precisão técnica, mas também por gestos sensíveis. A genética, em suas mãos, não se restringe à análise molecular; se transforma também em tradução, convertendo a linguagem científica em algo que alguém possa utilizar para respirar melhor, entender mais e viver de forma mais plena.

E ao discutir os limites éticos na ciência, é perceptível uma leve alteração em sua perspectiva. Não se trata de medo; é clareza mental. Ele percebe que a tecnologia vigente tem o potencial de modificar estruturas que antes eram imutáveis: realizar edições genéticas, selecionar traços, alterar direções que vão além da vida de quem está na sua frente. Para ele, tal poder requer mais cautela do que entusiasmo. Interferir no DNA de um indivíduo afeta também o futuro de gerações que ainda estão por vir. Por essa razão, ele argumenta que todo progresso deve ser acompanhado por dignidade, autonomia e justiça, pilares fundamentais para que a ciência mantenha sua integridade moral.

A genética, em sua visão, representa um domínio onde a precisão se alia à sensibilidade. Não há imparcialidade diante de um diagnóstico que pode reconfigurar a vida de uma família inteira. Cada explicação, cada resultado e cada previsão traz um impacto emocional que um algoritmo não consegue prever. Para ele, sua função não se encerra ao descobrir uma mutação; é aí que realmente começa. E talvez seja isso que faz sua presença parecer a de alguém que transita entre dois mundos: a exatidão dos dados e a fragilidade humana, a rigidez do código e a empatia da experiência. Seguindo suas considerações, torna-se claro que a bioética não é um território isolado da vida cotidiana, mas uma demanda urgente que permeia cada exame, cada consulta e cada decisão. Pois enquanto a ciência evolui, a ética deve avançar simultaneamente, não como entrave, mas como salvaguarda.

A manipulação genética em humanos traz à tona esse desafio em sua forma mais intensa. Alterar o código que forma a identidade de um ser envolve riscos imprevisíveis e consequências que podem se estender por gerações. Há também a tentação de empregar essas tecnologias para fins não terapêuticos: melhorar a aparência, a capacidade cognitiva, a força física, aumentando desigualdades, criando distinções artificiais, convertendo diferenças em produtos. Portanto, estabelecer limites éticos e legais se mostra essencial para resguardar a dignidade humana e assegurar que o futuro não fique moldado apenas pelos anseios dos mais favorecidos.

Ao considerar todos esses aspectos, desde as inquietações filosóficas de Arendt até os dilemas éticos que a genética contemporânea propõe, torna-se claro que estamos em um ponto crucial da trajetória humana. Nunca tivemos tanta influência sobre a vida e nunca fomos tão responsáveis por decidir como utilizá-la. A ciência avança, rompendo barreiras que antes eram sagradas; a bioética tenta acompanhar esse movimento, lembrando que nenhuma descoberta é isenta de influência, e que qualquer intervenção na vida deve ser feita com cuidado, prudência e compaixão.

O debate acerca da edição genética transcende uma mera questão técnica. é uma reflexão sobre a humanidade que almejamos ser. É nossa responsabilidade, tanto como indivíduos quanto como coletividade, determinar se iremos criar um mundo impulsionado pela urgência de aprimorar a existência ou pela compreensão de sua preservação. Nesse contexto, a bioética aparece não como um obstáculo, mas sim como um guia: uma ferramenta para assegurar que, ao alterarmos elementos do código da vida, não negligenciamos a conservação daquilo que nos caracteriza como seres humanos.

 

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Com impacto semelhante ao da depressão, a dor persistente atinge 37% dos brasileiros acima de 50 anos.
por
Wanessa Celina
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17/11/2025 - 12h

Por Wanessa Celina

No Brasil, em 2023, o Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos (ELSI-Brasil)  apontou que 37% dos adultos com mais de 50 anos possuem dores crônicas. Além do desconforto físico elas afetam a saúde mental dos pacientes. Em março de 2025, uma pesquisa feita por Johns Hopkins Medicine revelou que, aproximadamente, 40% dos adultos com dor crônica manifestam sintomas clinicamente significativos de depressão e ansiedade.

Dores crônicas são definidas como aquelas que duram mais de três meses e que devem ser tratadas para sempre. Podem ser fibromialgia, dor lombar crônica, enxaqueca crônica, hipertensão, diabetes e outras outras doenças, explica o reumatologista da Secretaria de Saúde do Governo do Estado de São Paulo, José Eduardo Martinez. Segundo afirma, existe uma ligação direta entre dores crônicas e o estado emocional do paciente, sendo que um influência o outro. 

Do ponto de vista da neurofisiologia, a correlação é facilmente explicada. O cérebro humano percebe a dor após uma série de modificações nos nervos que caminham pelo sistema nervoso periférico – o que  transmite informações dos órgãos para o cérebro – , algumas das áreas cerebrais que precipitam a dor são, também, as que são ativadas nas questões emocionais, explica Martinez. 

Para tratamentos de dores crônicas, a associação entre os tratamentos com médicos e  fisioterapeutas em conjunto com um apoio psicológico, pode ter uma boa ação no quadro dos pacientes. Em outubro de 2023, foi sancionada a Lei nº 14.705/2023 que oferece a pacientes com fibromialgia, síndrome da fadiga crônica ou síndrome complexa de dor regional, um atendimento multidisciplinar – como fisioterapia, psicoterapias e medicina –  feito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). 

Mesmo com esses outros apoios psicológicos, o impacto que a doença traz na relação social também afeta o paciente. Segundo José Martinez, uma das principais queixas dos pacientes que têm doenças que geram dor é não serem compreendidas como doentes. Muitas pessoas não percebem que estão convivendo com alguém que esteja sofrendo de dor crônica e o tratamento acaba por ser mais difícil para o paciente.

Isso é um caso de Giovana, que possui enxaqueca crônica. Com apenas 23 anos, ela gosta de sair e se divertir com os amigos, mas muitas vezes fica incapaz de sair de casa por causa das dores. Quando era adolescente suas dores começavam leves e aumentavam até ser uma dor insuportável, depois de adulta, as dores começaram a ser sempre as mesmas, começavam a doer muito forte de uma vez.  

Muitas vezes, quando ia sair com seus amigos e as dores começavam fortes, Giovana teve que desmarcar os encontros. “A dor que sinto é tão forte que só quero ficar deitada na cama, um dos fatores que me atrapalha muito é a iluminação, então lugares muito iluminados, com luzes piscantes acabam piorando minha dor”, relata a jovem. Muitas vezes, seus amigos achavam que ela só estava sendo “frescurenta” e ficavam chateados, assim, o seu tratamento começou a ficar solitário, não ia mais para as aulas, se isolava, e comparava com “pessoas mais saudáveis que eu”, declara.

O reconhecimento da enxaqueca crônica como uma doença pelos seus amigos seria fundamental para Giovana. “Muitas pessoas ainda dizem coisas do tipo "Eu faço várias coisas com dor de cabeça, trabalho com dor de cabeça, vou pra aula, é só tomar um remédio que passa", mas a enxaqueca é uma dor totalmente diferente, chega a ser insuportável”, diz. Giovana é uma entre as milhares de pessoas que entendem que tratar doenças não necessita só dos médicos e dos medicamentos, mas, também, de uma colaboração com toda a população.

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Mesmo após avanços na ciência, a saúde feminina continua sub-representada em pesquisas e consultas. O corpo das mulheres segue sendo tratado como exceção.
por
Helena Costa Haddad
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27/10/2025 - 12h

Por Helena Haddad

 

Apesar de representarem metade da população mundial, as mulheres continuam sub-representadas nas pesquisas médicas. A lacuna nos ensaios clínicos compromete a eficácia, a segurança e a equidade dos tratamentos disponíveis hoje. Segundo levantamento publicado na Nature Medicine (2024), menos de 35% dos estudos clínicos globais incluem dados diferenciados por sexo, e apenas 20% consideram como os medicamentos afetam homens e mulheres de forma distinta. Até 1993, o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH) proibia a participação de mulheres em idade fértil em ensaios clínicos, sob o argumento de proteger possíveis gestações. O resultado foi uma medicina construída sobre o corpo masculino como padrão universal: dosagens, efeitos colaterais e até sintomas de doenças graves, como o infarto, foram definidos a partir de corpos de homens jovens e brancos.

Durante décadas, o corpo feminino foi visto como instável, hormonal e difícil de estudar — uma percepção que moldou uma ciência que não representa as mulheres. Até hoje, muitos sintomas femininos são subestimados ou confundidos com causas psicológicas, explica a psiquiatra Maria Franco.

Casos recentes reforçam a urgência dessa discussão. Um exemplo é o medicamento Zolpidem, usado para insônia. Estudos mostraram que as mulheres metabolizam a substância mais lentamente, o que faz com que acordem ainda sob efeito sedativo — aumentando o risco de acidentes. A FDA já havia reduzido pela metade a dose recomendada para mulheres em 2013, e, em 2024, a Anvisa atualizou as bulas no Brasil após relatos de efeitos adversos graves, como sonambulismo e confusão mental.

Um estudo publicado na Biology of Sex Differences em 2024, analisou 86 medicamentos aprovados pela FDA: em 76 deles, as mulheres apresentaram maior concentração da substância no sangue, e em 96% dos casos isso estava associado a maior incidência de reações adversas — como náusea, tontura e arritmia. Em resumo, a maioria dos remédios vendidos hoje ainda é testada e dosada para corpos masculinos.

O corpo feminino possui diferenças de massa magra, gordura e metabolismo hepático. Essas variáveis interferem diretamente na absorção e eliminação de medicamentos, explica a psiquiatra.

A desigualdade de gênero também aparece no atendimento médico. Em 2024, um levantamento do Instituto Patrícia Galvão apontou que 61% das mulheres brasileiras afirmam não se sentirem ouvidas por profissionais de saúde. As queixas vão de dores crônicas desconsideradas a diagnósticos errados de doenças cardíacas, endometriose e lúpus. Casos como o de Lidiane Vieira Frazão, que morreu 22 dias após o parto durante a pandemia de Covid-19, sem atendimento adequado, ilustram o impacto disso. A família denunciou o hospital por violência obstétrica e negligência médica. 

O viés masculino na medicina é tão antigo quanto a própria ciência. A partir do século XIX, o corpo feminino passou a ser tratado como “anômalo” — sujeito a histerias, desequilíbrios hormonais e instabilidade emocional. Essa visão ainda ecoa em práticas clínicas e diagnósticos enviesados. A Organização Mundial da Saúde reconhece que o viés de gênero é uma das principais causas de erro de diagnóstico no mundo. Não basta incluir mais mulheres nos testes. É preciso mudar o olhar, considerar o ciclo hormonal, a gravidez e a menopausa, conclui a Dra. Franco.

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Apesar da eficácia na prevenção do HIV, mulheres têm acesso limitado à medicação
por
Maria Dantas Macedo
Pedro da Silva Menezes
Yan Gutterres Ricardi
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24/09/2025 - 12h

Desde 2017, o Brasil oferece gratuitamente a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), método de prevenção eficaz contra o vírus HIV, disponível no Sistema Único de Saúde para qualquer pessoa sexualmente ativa, maior de 15 anos de idade. Na prática, o remédio é amplamente divulgado entre homens, especialmente da comunidade LGBTQIA+, enquanto as mulheres ficam excluídas dessa prevenção. 

Segundo dados do Ministério da Saúde publicados no Boletim Epidemiológico sobre HIV em 2023, 35% dos brasileiros que continham o vírus do HIV eram mulheres, representando cerca de um terço dos novos casos no Brasil todos os anos. Além disso, 80% dos casos de infecção por HIV entre mulheres se deu em relações heterossexuais, evidenciando uma vulnerabilidade específica. 

A PrEP é uma ferramenta promissora para elas, que podem usar o remédio para prevenir a infecção pelo HIV. Tanto as solteiras quanto as que estão em um relacionamento mas não sabem do histórico de testagem para infecções sexualmente transmissíveis do parceiro ou parceira correm o risco de infecção quando fazem sexo sem camisinha. 

Porém, neste ano, somente 8,8% dos usuários de PrEP foram mulheres cisgênero e 3,2% mulheres trans. A infectologista Camila Bicalho explica: “As mulheres não têm informação ou conhecimento sobre a prevenção, que pode ser utilizada por elas”. 

“Por muito tempo, a utilização do preservativo como único método de evitar casos de HIV era a única saída. Hoje, a prevenção passa por várias medidas, uma delas é a PrEP. Se utilizada corretamente reduz o risco de contrair o HIV por meio de relação sexual em até 90%, e por meio de compartilhamento de drogas injetáveis em até 70%.Quando pensamos em saúde pública, o impacto da PrEP é a diminuição de novos casos de HIV”, segundo doutora Camila. 

O QUE É PrEP? 

A Profilaxia Pré-Exposição prevê o uso de um comprimido usado antes da relação sexual que impede que o HIV se multiplique no organismo. O comprimido combina dois medicamentos (tenofovir e entricitabina) que bloqueiam alguns “caminhos” que o vírus usa para infectar o organismo. Assim, mesmo que a pessoa entre em contato, a infecção não se instala. A utilização pode ser diária ou sob demanda (somente quando a pessoa tiver uma possível exposição de risco ao vírus). 

É recomendado o uso da prevenção para pessoas que estão em um relacionamento sexual com um parceiro ou parceira que vive com HIV, não use preservativos regularmente, tem um ou mais parceiros sexuais com status de HIV desconhecido, estão envolvidos em um trabalho sexual comercial, teve uma doença sexualmente transmissível bacteriana recente ou usou drogas injetáveis ​​nos últimos seis meses. 

Mulheres cisgênero, pessoas trans ou não binárias designadas como sexo feminino ao nascer,  e qualquer pessoa em uso de hormônio a base de estradiol, que queiram fazer o uso de PrEP oral diária, devem tomar o medicamento por pelo menos 7 (sete) dias para atingir níveis de proteção ideais. 

A PrEP sob demanda deve ser utilizada com a tomada de 2 comprimidos de 2 a 24 horas antes da relação sexual,  +1 comprimido 24 horas após a dose inicial de dois comprimidos +1 comprimido 24 horas após a segunda dose. 

É possível pegar o medicamento em serviços de saúde do SUS, como UBSs, bem como em farmácias da rede privada com receita médica. Em São Paulo, pode usar o aplicativo e-saúdeSP para encontrar a PrEP ou pegar em máquinas de distribuição nas estações de metrô. 

O ESTIGMA 

Apesar da relevância preventiva, muitas mulheres não aderem ao medicamento ou nem sabem o que é. A doutora Camila explica que, até a revisão de 2022, a PrEP foi direcionada sobretudo a “populações vulneráveis”, o que na prática priorizou homens que fazem sexo com homens e travestis/trans. “As mulheres, até 2022, não eram consideradas como população vulnerável para uso de PrEP”, diz a médica.

Ainda assim, segundo a doutora, a histórica sub-representação das mulheres em pesquisas sobre a PrEP pode ter sido um dos fatores que contribuíram para a baixa adesão: “Algumas hipóteses foram levantadas, como, por exemplo, o fato de as mulheres cisgênero não terem sido incluídas nos primeiros estudos de avaliação da PrEP, inclusive com retratação de alguns laboratórios que se comprometeram a incluir mulheres cisgênero nas próximas avaliações.”

Ensaios clínicos como o VOICE e o Fem-PrEP mostraram resultados positivos pouco expressivos em mulheres. Isso ocorreu principalmente pelo uso inconsistente da medicação e a falta de campanhas voltadas ao público feminino. Mais do que limitar conclusões científicas, essa realidade contribuiu para alimentar a ideia equivocada de que a PrEP “não era para mulheres”, quando o que faltava era suporte à adesão e estratégias de comunicação adequadas. 

Mas, ainda segundo a infectologista Camila, ainda há muitas outras possibilidades para a baixa adesão das mulheres “como o fato delas se sentirem seguras em uma relação heterossexual e abandonarem a utilização do preservativo, sem buscar outra forma de prevenir as infecções pelo HIV”. “Além disso, os serviços ginecológicos, onde as mulheres frequentam anualmente para fazer o papanicolau e também a mamografia, não discutem com essas mulheres a possibilidade da PrEP.”, acrescenta ela. Os profissionais de saúde, quando não são devidamente treinados, deixam de mencionar a opção ou o fazem de forma estigmatizante, afastando as pacientes.

Para Myrt Cruz, professora e doutora em Ciências Sociais da PUC SP, essa falta de conhecimento sobre a prevenção tem a ver com uma barreira social: “Não é uma decisão deliberada de uma mulher não acessar a sua própria saúde, aos recursos disponíveis para a sua própria saúde; mas há um julgamento moral, há um machismo estrutural que impede e dificulta que ela acesse esses recursos.”

A professora explica que “o machismo estrutural faz com que essa mulher, muitas vezes, confie cegamente nesse parceiro com quem se relaciona, sem ter uma visão crítica de que esse parceiro pode estar tendo relacionamentos sexuais com outras pessoas. Essa é uma ideia muito estigmatizada e complicada, que foi, durante décadas, dissuadida pela mídia. Então, há um desconhecimento, uma ignorância em torno do que se trata e a necessidade de desconstruir esse estigma”.

Em contextos de violência de gênero, dependência econômica ou restrição de autonomia, a capacidade de negociar o uso do preservativo é limitada, e o acesso a alternativas como a PrEP fica ainda mais comprometido. Desigualdades de renda, baixa educação em saúde sexual e reprodutiva também influenciam negativamente a busca e a permanência no uso da medicação.

Assim, barreiras sociais e culturais limitam o acesso das mulheres ao diagnóstico e tratamento precoce do HIV. A ausência de campanhas voltadas ao público feminino reforça a falta de informação, enquanto o estigma em torno do uso, frequentemente associado à promiscuidade ou a práticas sexuais consideradas de risco, acaba gerando receio e vergonha.

“Há necessidade de que as universidades, centros de pesquisa, centros comunitários se apropriem desse discurso, do conhecimento e trabalhem de um jeito que chegue até essa mulher, de forma clara, objetiva, que atinja elas”, declara Myrt. 

A PrEP é uma ferramenta poderosa, mas que só cumprirá seu papel se estiver acessível a todas as pessoas que dela necessitam, especialmente aquelas que historicamente foram invisibilizadas. Incluir as mulheres é uma questão de justiça social e de saúde pública. O combate ao HIV precisa ser coletivo e livre de preconceitos. E isso começa com o reconhecimento de que a prevenção também é e deve ser para elas. 

 

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