Em meio a pandemia da Covid-19 e conflitos incessantes ao redor do mundo, entenda esse grupo e conheça a uma das instituições que lhes presta apoio no Brasil
por
Marina Daquanno Testi e Thayná Alves
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08/12/2020 - 12h

 

 

     

        O número de refugiados no Brasil vem crescendo a cada ano. Só no ano de 2018, segundo a Agência da ONU Para Refugiados (ACNUR) foram relatadas 80 mil solicitações de reconhecimento de condição de refugiado no Brasil. Os grupos de maior número entre as solicitações são os venezuelanos (61.681), que saíram do país devido à crise humanitária, e os haitianos (7.030), cujo fluxo de migração se intensificou após o terremoto que atingiu o país em 2010.  

        A lei brasileira considera refugiado todo indivíduo que está fora de seu país de origem devido a guerras, terremotos, miséria e questões relacionadas a conflitos de raça, religião, perseguição política, entre outros motivos que violam seus direitos humanos. Isso pode acontecer, por exemplo, quando a vida, liberdade ou integridade física da pessoa corria sério risco no seu país.

        Para que o imigrante seja reconhecido como refugiado, é necessário enviar uma solicitação para o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE). O processo de reconhecimento, que antes era mais burocrático e mais demorado, atualmente é feito no site do Ministério da Justiça, a partir do preenchimento do formulário que pode ser feito ainda no país de origem. Todas as etapas podem ser acompanhadas pela internet, mas para o processo começar a tramitar, o solicitante deverá comparecer pessoalmente a uma unidade da polícia federal. 

        Dentre a população refugiada reconhecida no Brasil, segundo o censo da ACNUR de 2018, a maioria se concentra nas faixas etárias de 30 a 59 anos (41,80%), seguido de pessoas com idade entre 18 a 29 anos (38,58%). Do total, 34% são mulheres e 66% são homens, ressaltando os sírios, os congoleses como nacionalidades em maior quantidade (respectivamente 55% e 21%). 

         Em janeiro de 2020, o Brasil tornou-se o país com maior número de refugiados venezuelanos reconhecidos na América Latina, cerca de 17 mil pessoas se beneficiaram da aplicação facilitada no processo de reconhecimento, segundo a  Agência da ONU para Refugiados. As autoridades brasileiras estimam que cerca de 264 mil venezuelanos vivem atualmente no país. Uma média de 500 venezuelanos continua a atravessar a fronteira com o Brasil todos os dias, principalmente para o estado de Roraima.

         Apesar de em grande quantidade, apenas 215 municípios têm algum tipo de serviço especializado de atenção a essa população. As maiores dificuldades encontradas por pessoas refugiadas são a adaptação com o mercado de trabalho, com o aprendizado do idioma, o preconceito e a xenofobia, educação (muitos possuem diplomas em seus países de origem que não são aceitos aqui no Brasil), moradia e saúde. 

 

Covid-19 e o amparo aos refugiados

 

        Diante de um quadro de crise em escala global, como o que acontece este ano com a pandemia da Covid-19, essa população de migrantes e refugiados, que já se encontram em extrema vulnerabilidade, conta com o apoio de poucas instituições voltadas especialmente para suas necessidades. Este é o caso da Missão Paz, uma instituição filantrópica de apoio e acolhimento a imigrantes e refugiados, com uma das sedes na cidade de São Paulo, como conta o padre Paolo Parise.

        Nascido e criado na Itália, Parise atua desde 2010 na Missão Paz, atualmente como um dos diretores, e explica que esta instituição está ligada a uma congregação da Igreja Católica chamada Scalabrinianos, que atua com imigrantes e refugiados em 34 países do mundo. “Na região do Glicério - município do estado de São Paulo-, a obra se iniciou nos anos 30 e atualmente está presente em Manaus, Rio de Janeiro, Cuiabá, Brasília, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Foz do Iguaçu, Corumbá e outros lugares.”

        Sua estrutura atual conta com a Casa do Migrante, um abrigo com capacidade de 110 indivíduos que são acolhidos com alimentação, material de higiene pessoal, roupas, aulas de português, acompanhamento de assistentes sociais e apoio psicológico; e o Centro Pastoral e de Mediação dos Migrantes (CPMM) que oferece atendimento e serviços voltados aos imigrantes, quanto aos seguintes temas: documentação e jurídico; trabalho, capacitação e cidadania; saúde; serviço social; família e comunidade. “Além disso, temos a área de pesquisa em parceria com a revista Travessia, que é o Centro de Estudos Migratórios (CEM), uma biblioteca especializada em migração e a WebRadio Migrantes”, completa Pe. Paolo.

Fonte: Site da instituição Missão Paz - Casa do Migrante
Fonte: Site da instituição Missão Paz - Crianças brincam na Casa do Migrante

        De acordo com o diretor, o maior desafio enfrentado pela instituição, durante a pandemia, foi com a saúde dos refugiados, principalmente pela impossibilidade de viver a quarentena isoladamente, já que muitos vivem em ocupações ou em lugares com muitas pessoas concentradas. Ele ainda denunciou que, dentre tantas vítimas da Covid-19 em São Paulo, um dos grupos mais afetados foi o de imigrantes bolivianos, “muitos foram contaminados e muitos morreram”.

        Diante de instabilidades políticas e econômicas, atualmente, sírios e venezuelanos são as principais nacionalidades afetadas que solicitam entrada no país. O que ratifica o Pe. Parise, “Falando pela Missão Paz, se você utiliza o termo ‘refugiados’, o maior grupo neste momento é de venezuelanos, sejam os que foram acolhidos pela missão paz, sejam os que estão entrando no Brasil. E depois encontramos outros grupos como da República Democrática do Congo. Mas se falamos de imigrantes, temos Colombianos, Bolivianos, Paraguaios, Peruanos, Angolanos e de outros países que estão recorrendo ao Brasil.”

        Mesmo com mudanças críticas, no cenário jurídico e político brasileiro, para que esta população seja recebida no país e tenha seus direitos respeitados, ainda não se pode falar em auxílio do governo ou medidas diretas de apoio a refugiados e imigrantes. 

        Paolo relembra a criação de leis que têm beneficiado a população no Brasil. Uma delas é a lei municipal Nº 16.478 de 2016, onde o Prefeito do Município de São Paulo, Fernando Haddad, instituiu a Política Municipal para a População Imigrante que garantia a esses o acesso a direitos sociais e aos serviços públicos, o respeito à diversidade e à interculturalidade, impedia a violação de direitos e fomentava a participação social; e a outra é a lei federal Nº13.445 de 2017, ou a nova Lei de Migração, que substitui o Estatuto do Estrangeiro e define os direitos e deveres do migrante e do visitante, regula a sua entrada e estada no País e estabelece princípios e diretrizes para as políticas públicas para o emigrante.

        A Missão Paz se mantém através de projetos e dinheiro injetado pela congregação da Igreja Católica. “Neste momento, a Missão Paz não recebe apoio financeiro nem do município, nem do estado e nem do Governo Federal”, relata Parise. Durante a pandemia receberam ajuda da sociedade civil, “[A Instituição] Conseguiu muitas doações de pessoas físicas, de instituições, de campanhas, fosse em dinheiro, em cestas básicas ou kits de higiene pessoal”, e com 200 cestas básicas, por mês, da Prefeitura de São Paulo. Também receberam ajuda com testes de COVID em nível municipal. 

         A instituição filantrópica ainda conta com a ajuda de vários parceiros, como explica seu diretor “na área de incidências políticas, por exemplo, nós atuamos com a ONG Conectas Direitos Humanos, temos na área de refugiados um projeto com a ACNUR, estamos preparando outro com a OIM (Organização Internacional para as Migrações) e temos algumas ações com a Cruz Vermelha”. 

        Desde o começo do ano, já atenderam por volta de 7 mil imigrantes e refugiados, e, hoje em dia, tem por volta de 40 pessoas na Casa, o que representa ⅓ da capacidade total. Além disso, entregam de 50 a 60 cestas básicas a refugiados, diariamente, e ao redor de 60 a 70 que vão, por dia, procurar os serviços do CPMM. “Outras ações incluíram a disponibilização de atendimentos online, de aulas de português a atendimentos jurídicos, psicológicos ou serviços sociais, além de ajudar a completar aluguel, água ou luz daqueles que precisam da ajuda da instituiçã”, fala Padre Paolo. 

        Todo esse esforço e dedicação da instituição foi feito, sempre, visando seguir as normas de segurança e as indicações da OMS (Organização Mundial da Saúde). Foram fornecidos a seus funcionários e a população migrante e de refugiados álcool para higienizar as mãos, máscaras e demais equipamentos e serviços de proteção e higiene.

Aventada após decreto, privatização do SUS seria inconstitucional, alerta Cristina Amorim
por
Sara de Oliveira
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19/11/2020 - 12h

No dia 27 de outubro, o presidente Jair Bolsonaro assinou um decreto - revogado no dia seguinte - autorizando estudos para a realização de parcerias com o setor privado nos atendimentos primários da saúde pública. A proposta de incluir a saúde no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) foi vista como um primeiro passo para uma possível privatização do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Saúde é direito de todos e dever do Estado garantido desde a Constituição brasileira de 1988. Foi para assegurar este direito que foi criado o SUS, que resultou em diminuição de taxas de mortalidade infantil e aumento da expectativa de vida dos brasileiros. Qualquer pessoa que está no território brasileiro pode ser atendido, em uma política que primeiro presta o serviço, depois pede os documentos. 

Maior sistema público de saúde do mundo, o SUS representa uma vitória da sociedade brasileira por promover a justiça social. Segundo pesquisa divulgada no ano passado pelo IBGE, mais de 70% da população brasileira depende do SUS. 

O sistema é um dos temas de pesquisa da economia da saúde, que trata das relações de produção, distribuição e consumo dos bens de saúde. O complexo produtivo da saúde pode ser dividido em tópicos: fontes pagadoras públicas (SUS) ou privadas (operadoras, seguros saúdes); produtores de bens (indústrias de equipamentos, medicamentos); prestadores de serviços (hospitais e clínicas) e consumidor/paciente/cidadão.

O dinheiro que chega ao SUS vem do fundo público. Existe uma quantidade de impostos que o governo recolhe da população sendo direcionados para as rubricas orçamentárias - educação, segurança, saúde, previdência etc. Este orçamento é votado pelo Parlamento todos os anos. A rubrica orçamental da saúde é a segunda maior - junto com a educação, ficando atrás somente da previdência. O Legislativo tem o poder de escolher a rubrica orçamentária que neste ano é de 9%, porém o Executivo pode segurar este dinheiro, limitando o montante que realmente chega nos hospitais. 

Desde 2016, com a Emenda Constitucional (EC) 95, o dinheiro voltado para a saúde vem diminuindo cada vez mais. O PPI foi criado em 2016 pelo governo Temer, com o objetivo de avaliar e recomendar ao presidente da República projetos que poderiam render parcerias e quais poderiam sofrer desestatização. Papel semelhante havia sido desempenhado pelo Conselho Nacional de Desestatização do governo Fernando Henrique Cardoso.

Logo, este PPI não é algo novo. No estado de São Paulo, durante o governo de Mario Covas (1995-2001), iniciou-se um tipo de controle privado denominado “Organização Social de Saúde”. São instituições sem fins lucrativos, com vasta experiências nos serviços de saúde que gerenciam os equipamentos públicos. Por exemplo, a Unifesp gerencia um hospital de propriedade do governo de São Paulo. Os equipamentos e o dinheiro investido são de responsabilidade do estado de São Paulo e o governo paga um montante para a universidade gerenciar.

A professora de economia da PUC-SP Cristina Amorim pontua: “Saúde é um bem público, e o SUS é um patrimônio da sociedade brasileira. Há privatizações e privatizações. Eu diria que existe uma contradição em termos falar na privatização do SUS. Não deve e não pode. É um direito inviolável [constitucional]”.

A possível “privatização” do SUS passa pela disputa de orçamento, assim como outros serviços públicos. Mas para Cristina, que trabalha na área da economia da saúde há mais de vinte anos, “a saúde privada está muito menos interessada nos serviços do SUS do que pode parecer à primeira vista".

Ela cita como exemplo a atenção básica. "Vender para quem não tem recurso? Vender para quem não tem renda?", questiona a professora. "Sempre há uma tensão entre até onde é o espaço da saúde suplementar e até onde é o da pública", diz Cristina, acrescentando que existe uma disputa por espaço e hegemonia, mas não quanto "as manchetes anunciam".

Ao ser questionada sobre a declaração de Bolsonaro e a rápida revogação do decreto, a professora diz: “Nem deu para ver do que se trava exatamente. Eu li tudo que saiu e tudo o que pude entender é que o Estado usaria do BNDES, sendo ofertado para empresas privadas, e teriam o direito de ofertar algum tipo de serviço para atenção básica. Poderia ser a reforma do posto de saúde, porém foi muito rápido, mal deu tempo de analisar a situação”.

Porém, algo que pôde ser analisado foi a pressão da mídia e da população sobre a atitude do presidente. “A pressão foi evidente, inclusive da assessoria jurídica da Presidência da República, que deve ter falado: ‘Isto é inconstitucional’”, diz Cristina, lembrando o longo histórico de lutas da sociedade brasileira pela saúde pública. 

 

 

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Prejuízos financeiros e sociais estão entre as consequências enfrentadas por traders que sofrem com a prática compulsiva
por
Carlos E. Kelm
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18/09/2020 - 12h

Considerado por muitos um tipo de investimento, o chamado Trading provoca dependência e oferece sérios riscos aos operadores. Traders compulsivos recorrem a grupos de apoio em busca de ajuda.

Cursos que prometem ensinar as técnicas necessárias para viver de Trading são amplamente divulgados na internet, assim como os diversos relatos de sucesso. Nos sites das corretoras, o foco está na qualidade e acessibilidade do serviço: “Investir nunca foi tão fácil. Tudo o que você procura em uma incrível e potente plataforma de investimentos, no dispositivo de sua escolha”. A grande variedade de cursos constitui um mercado à parte, mas da codependência também se beneficiam as corretoras.

“As pessoas não tem noção de que isso é uma aposta”, afirma um dos coordenadores de relações públicas dos Jogadores Anônimos, “As pessoas vêm para o Jogadores Anônimos com problema, com essa dificuldade, mas achando que é um investidor, um executivo, e na verdade tá se perdendo” o entrevistado relata que a irmandade conta com membros que são Traders compulsivos.

Um dos membros do Jogadores Anônimos, que não quis se identificar, revela que começou como investidor em 1997 e depois passou para o Day Trading. “É um tipo de aposta, e no meu caso eu não consegui mais largar”, afirma o ex-trader, “Eu fiquei muitos anos ganhando vários dias, depois eu devolvia tudo porque eu queria recuperar o que eu perdi”

“É uma tremenda enganação o que estão fazendo com essas publicidades, é só cursinho pra enrolar os outros”, comenta o empresário, que continua a sua fala com convicção, “As pessoas entram iludidas, achando realmente que vão viver daquilo ali, mas acabam se viciando e perdendo tudo”

Questionado sobre o momento em que decidiu procurar ajuda, o ex-trader responde: “A gente só vai parar no JA quando destrói a vida, eu destruí a minha vida, foram vinte e três anos de patrimônio jogados fora”, num tom de revolta, “Chega num ponto que tu não aguenta mais, é o fundo do poço”

O empresário diz que já não opera mais, e atribui ao Jogadores Anônimos parte de seu progresso. Ele ressalta que já se recuperou financeiramente e conclui com um alerta: “Pra quem tá começando nesse mercado, nem inicie, se não for pra ser um investidor de fato, não inicie”

Maria Paula Magalhães Tavares de Oliveira, doutora em Psicologia Experimental e supervisora do AMJO - Ambulatório de Jogo do Instituto de Psiquiatria da FMUSP, fala sobre o perfil de jogadores compulsivos: “Algumas pessoas tem um perfil mais impulsivo, gostam de se arriscar mais e ficam muito fascinadas pela possibilidade de ganhar”

“Uma coisa é você jogar pra brincar, outra coisa é você entrar com esse olhar de achar que tem sorte, de que vai ganhar, de que é mais esperto, de que vai conseguir de alguma maneira calcular o risco”, esclarece a doutora, “Aí a pessoa começa a se endividar, não se conforma, e cada vez aposta mais alto pra recuperar o que perdeu”

Oliveira alerta sobre o comportamento de negação: “Quem usa a bolça de um jeito patológico vai dizer que não é jogo, que é trabalho, é investimento. A pessoa vai negar, é difícil ela perceber que tá se colocando em risco e colocando seu próprio patrimônio em risco”

A doutora aponta para a importância de falar sobre o problema: “Quanto mais a pessoa consegue pedir ajuda, mais fácil fica de interceder. Pra quem convive com jogador, o primeiro passo é tirar o julgamento moral, e entender que a pessoa precisa de ajuda, tratar como uma questão médica mesmo.

Bruno Cara Giovannetti, economista, pesquisador e professor da Fundação Getúlio Vargas, é um dos autores de um artigo que ganhou destaque em 2019 por concluir que é impossível viver de Day Trading. No artigo “Day Trading for a Living?” os pesquisadores comparam o Day Trade com jogos de azar, mais especificamente a roleta, por apresentarem probabilidades de ganho similares.

Giovannetti esclarece: “Day trade não é investimento porque é uma operação para dar resultado no mesmo dia e a pessoa não investe nenhum dinheiro. Ela simplesmente compra e vende o mesmo ativo durante o dia, tentando comprar a um preço médio menor e vender a um preço médio maior”

Para quem quer melhorar de vida, o economista recomenda primeiramente o trabalho e diz que não faz sentido esperar que a bolsa o substitua. Por outro lado, Giovannetti vê a bolsa como uma ótima opção para quem quer garantir a aposentadoria, com investimentos a longo prazo, prevê retornos de aproximadamente 7% ao ano.

No Brasil, o trading não é regulamentado, logo não é possível investir através de corretoras nacionais. No entanto, para os brasileiros que querem investir no mercado Forex, basta abrir uma conta em uma corretora internacional e começar a operar pela internet.

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Mesmo com a liberação das academias, personal treiners passam por difícil momento financeiro e tentam encontrar uma forma de fazer dinheiro com o seu trabalho através das redes sociais.
por
Mateus França
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18/09/2020 - 12h

Cristóvão Aparecido Abreu Ferreira (34) é personal trainer em Vargem Grande Paulista e conta que devido a essa pandemia, chegou a pensar seriamente em trocar de profissão. “Sim, pensei em abrir um negócio próprio e até prestei "vestibular" na Fatec em Gestão de Sistemas de Informação.”

No início da pandemia, Ferreira tentou dar um jeito de continuar com suas aulas. Com isso, teve a ideia de ir à casa de seus alunos, mas seguindo os devidos cuidados. “Levava álcool líquido e uma flanela para a limpeza dos pesos e tanto eu como os alunos utilizávamos máscaras.” Dessa maneira, foi garantindo seu salário. Mas um dos problemas que acabou surgindo, foi o medo de seus alunos. Como a televisão noticiava todo dia, a situação do covid-19 e seus infectados, eles acabavam tendo uma certa desconfiança, mesmo tomando todas as medidas citadas pelo governo.                                                                                                                  

Eu acho que não inibe, mas também acho que devemos voltar as fazer as coisas que fazíamos antes da pandemia, com os cuidados que é pedido pela OMS e seus líderes de governos. Porque a pandemia não vai acabar tão rápido, independente de vacina, também as pessoas devem sim fazer suas atividades, pois a pandemia está afetando muitos, principalmente psicologicamente, só dentro de casa com medo.”

O governo de SP liberou as academias a partir do dia 06 de agosto. Só que tomando as devidas medidas: Só podem funcionar com 30% da capacidade; no máximo 6 horas por dia; são permitidas aulas individuais. Atividades em grupo permanecem suspensas; a entrada deve ser feita com agendamento prévio; haverá restrição nos vestiários: não será permitido o uso de chuveiros; uso obrigatório de máscara de proteção; equipamentos devem ser limpos ao menos 3 vezes ao dia.                                                                                                                                                             

Um método, que estava sendo utilizado até por preparadores físicos de clubes de futebol, é utilizar plataformas online, que consigam transmitir áudio e imagem. Então seria uma aula física online. Mas como sua cidade localiza-se no interior de SP, Ferreira diz que não teve engajamento nessa ideia de aula online. “Não, porque na cidade onde moro a evolução é um pouco mais devagar do que grandes metrópoles que aceitam as evoluções mais rápidas.”                                                                                        

Entre todos esses pontos, um lado que está sendo trabalhado atualmente, devido as condições proporcionadas pelo covid-19, são as redes sociais e a divulgação do trabalho. Numa matéria publicada no site Nexur (https://aplicativonexur.com.br/personal-trainer-x-coronavirus/), foi expostos alguns pontos em que o personal deveria dar mais atenção, nesse período de pandemia.                                                                                                                                                   

Algumas dicas citadas na matéria - Postar Dicas e informações confiáveis; Lives no Instagram; Funil de Grupo Fechado.  A estratégia “Funil de Grupo Fechado” foi uma das mais utilizadas pelos personal treiners, que é basicamente é de oferecer dicas de treinos exclusivos em grupos fechados no Facebook, no Close Friends do Instagram ou em grupos do WhatsApp e Telegram. Dessa forma você ajuda e ainda cresce a sua lista de leads.

 Ferreira diz que se encaixa na maioria deles, porque antes da quarentena, ele já divulgava seu trabalho pelas mídias sociais. “Eu já tinha o costume de divulgar meu trabalho pelo Instagram, que no meu ponto de vista, é a melhor plataforma que está no alcance de todos da sociedade.”

 

 

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O isolamento social se mostrou prejudicial para a saúde mental das pessoas, os números de casos de depressão e ansiedade deverá aumentar durante esse período. As redes sociais trás várias campanhas durante esse mês para ressaltar o combate ao suicídio.
por
Beatriz Comoli Marques
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11/09/2020 - 12h

10 de setembro é marcado pelo dia mundial da prevenção ao suicídio. O mês traz várias campanhas de conscientização relacionadas a valorização da vida. Esse ano o setembro amarelo, como é conhecido, ganhou um caráter mais importante, visto que a população está enfrentando um isolamento social, o que a deixa mais suscetível a crises de ansiedades ou depressão. Diante desse cenário, a campanha ganhou mais força e relevância. 

O setembro amarelo é uma iniciativa do centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria. A cor amarela foi escolhida, após um jovem americano de 17 anos, tirar a própria vida em seu carro, um Mustang amarelo. Segundo a organização mundial da saúde (OMS) 800 mil pessoas por ano cometem suicídio.  

“No Brasil, cerca de 12 mil suicídios acontecem por ano, um número muito alto. A maioria dessa taxa está relacionada a transtornos mentais, depressão, bipolaridade, ansiedade. Durante a pandemia esses transtornos ficaram mais evidentes, já que estamos isolados, e acabaram surgindo vários problemas como perda de dinheiro, e de familiares. Nesse contexto, o suicídio se tornou muito mais prevalente”, relata Jessica Barbosa Lima, psiquiatra.  

A especialista ainda ressalta como é importante falar sobre esse assunto, ainda mais agora durante a pandemia do coronavírus. Apesar de ser um assunto de grande importância, ainda se tem um certo tabu. A psiquiatra afirma que “existe um preconceito muito grande quando se fala de suicídio e transtornos mentais, as pessoas têm medo de falar sobre e dar ideia para a pessoa. Falar de suicídio é falar sobre vida”. 

 

Triste mulher sentada no chão sozinho na sala vazia, desespero e conceito  solitário com espaço de cópia | Foto Premium

Crédito: freepik 

Ao ser questionada sobre como identificar alguém com sintomas de depressão, a psicóloga Juliana Ribeiro explica que "o diagnóstico deve ser realizado por um médico psiquiatra. A depressão pode ser causada pela genética, alterações bioquímicas e eventos vitais/estressantes, e é necessário que a pessoa tenha mais de um sintoma, e que esses sintomas estejam presentes por um determinado tempo.” 

É importante prestarmos atenção a alguns sinais de alerta como: 

- Sentimento de tristeza e vazio constantes; 

- Sentimento de inutilidade ou desamparo; 

- Dificuldades para ficar quieto, em concentração ou para tomar decisões; 

- Falta de energia e fadiga excessivos; 

- Alterações de apetite, mudanças no peso; 

- Perda do interesse pela vida, interesse sexual, prazer, hobbies ou outras atividades; 

- Pensamentos suicidas ou tentativa de suicídio; 

- Dificuldades para dormir ou sono em excesso. 

A doutora explica que o primeiro passo para ajudar alguém com depressão “é confirmar o diagnóstico com um profissional e começar a psicoterapia com um psicólogo. Um familiar ou amigo pode auxiliar dando suporte e acolhendo essa pessoa. Estar disponível, compreender e apoiar é sempre o melhor que alguém pode fazer.” 

Em meio à pandemia e ao isolamento social, vários especialistas estão disponibilizando atendimento online, até mesmo por aplicativos de mensagem. O centro de valorização da vida (CVV) oferece serviço de acolhimento 24 horas por dia, basta ligar para o número 188 caso esteja se sentindo sozinho e precisando de ajuda.  

 

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Um retrato de como esse vírus pode ter sofrido mutação será fundamental para pesquisas futuras
por
Ana Beatriz de Souza, Guilherme do Nascimento Tedesco Sanches, Giuliano Guimarães Formoso, Henrique Soto Lopes, Liana Ruiz
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02/07/2020 - 12h

 

Pesquisadoras da Universidade Federal de Santa Catarina divulgaram, na tarde desta quinta-feira, os resultados de uma pesquisa que identificou partículas do coronavírus, Sars-CoV-2, em duas amostras do esgoto de Florianópolis. Em entrevista coletiva, acompanhada de São Paulo pela Agemt, as professoras  Gislaine Fongaro (Laboratório de Virologia Aplicada – LVA/UFSC), Patrícia Hermes Stoco (Laboratório de Protozoologia/UFSC), e Maria Elisa Magri (Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental), autoras da pesquisa  "SARS-CoV-2 in human sewage in Santa Catarina, Brazil, November 2019" relataram a presença do vírus no material avaliado.

Por meio da análise do esgoto retroativo, isto é, congelado, o estudo concluiu que partículas do vírus já circulavam no país em 27 de novembro de 2019, dois meses antes do primeiro caso clínico ser apresentado no Brasil.

A hipótese para a chegada do vírus, segundo as pesquisadoras, é de que anteriormente já existiam casos no mundo que ainda não haviam sido identificados. “O vírus circulava antes mesmo de termos ciência de sua rotina em pacientes”, explicou Gislaine Fongaro.

Daiane Mayer/Estagiária de Fotografia da Agecom/UFSC
Foto: Daiane Mayer/Estagiária de Fotografia da Agecom/UFSC

Esse é o primeiro estudo realizado nas Américas em relação à pesquisa do esgoto retrospectivo. Estudos feitos anteriormente em Wuhan (China) e em Murcia (Espanha) comprovaram que o vírus já era encontrado no esgoto antes de haver casos confirmados de pessoas infectadas.

Segundo a pesquisadora Maria Elisa Magri, a prática de coleta de esgoto e análise é algo comum e corriqueiro nos estudos, “a gente faz muitas pesquisas com esgoto sanitário, na universidade inteira. Inclusive no nosso próprio departamento e no de engenharia química”. Ela ainda complementa que isso pode impactar na descoberta de uma presença de outras doenças antes mesmo do primeiro caso oficial nessas redes de esgoto.

Os resultados possibilitam a tentativa de sequenciar o genoma completo das partículas. As amostras chegam ao laboratório e, como o vírus está diluído em uma matriz ambiental que contém água e sedimentos, são concentradas para que as partículas virais sejam identificadas mais facilmente. Estas seguem para a extração do material genético e posteriormente faz-se o estudo para encontrar o genoma do vírus. “Com o sequenciamento, há a tendência de se fazer comparações com resultados anteriores para tentar encontrar a origem do vírus”, completa Gislaine.


Questionadas sobre a possibilidade de essas partículas virais contaminarem pessoas que possuem maior contato com esgoto a céu aberto e sem tratamento, Gislaine explicou que o vírus é envelopado e, portanto, mais sensível e suscetível à degradabilidade, por ser revestido por uma camada de gordura. Contudo, a pesquisadora ressalta que os teste realizados não conseguem indicar o grau de infecção do vírus, mas que “em termos gerais os vírus envelopados não têm longas durabilidades em esgoto sanitário”. 

Daiane Mayer/Estagiária de Fotografia da Agecom/UFSC
Foto: Daiane Mayer/Estagiária de Fotografia da Agecom/UFSC

Gislaine ressalta que a pesquisa é importante para entender possíveis alterações no vírus. “É importante conseguir esse estudo filogenético, que é um retrato de como esse vírus pode ter sofrido mutação. O quanto eles se assemelham e se diferem. E isso vai abrir portas para outros estudos também.

Aureo Moraes, chefe de gabinete da Reitoria da UFSC, elogiou o trabalho das pesquisadoras: “Parabéns, em nome do Reitor Ubaldo Balthazar, e de toda a Universidade, ao trabalho de tantos e tão dedicados profissionais, docentes, pesquisadores e pesquisadoras. Uma resposta inequívoca do quanto as Instituições Públicas têm se dedicado nas ações de combate à pandemia. A UFSC não está parada!!”

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Casos ficaram mais graves e especialistas apontam dificuldades para consultas presenciais e crise econômica como fatores a serem observados
por
Rafaela Reis Serra
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26/06/2020 - 12h

São Paulo  Os casos de doenças mentais pioraram neste período de isolamento segundo uma pesquisa feita pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Pessoas que antes da pandemia não apresentavam quadros psiquiátricos ou que já haviam recebido alta, foram em busca de ajuda médica especializada.

“Os pacientes ficaram mais graves, principalmente os que estavam começando a fazer tratamento. Pessoas que não tinham sintomas passaram a apresentá-los, porém não é a maioria.”, conta a psiquiatra Alice Baltar, 40.

Há o problema da contenção de gastos: as pessoas não estão indo às consultas e quando procuram ajuda, elas estão no extremo. “O aumento de novos casos não foi significativo, a ida aos médicos em geral diminuiu”, relata.

Psiquiatra Alice Baltar
A psiquiatra Alice Baltar faz consultas de sua casa


“Às pessoas com a vida social mais restrita, só o isolamento não é o problema. Já as mais ativas estão sofrendo de insônia. A maioria dos casos mais alarmantes são das pessoas que apresentam Transtorno do Pânico ou depressão e com outros problemas concomitantes.” A psiquiatra chega a atender um mesmo paciente mais de uma vez ao dia.

Baltar se sente sobrecarregada. Ela tem uma responsabilidade maior por conta dos casos e, além disso, agregou-se os serviços domésticos.

A psiquiatra também atende voluntariamente profissionais da saúde que estão atendendo a Covid-19. Alguns deles não apresentavam sintomas antes da pandemia e agora passaram a manifestar.

Psicóloga há vinte anos, a Dra. Maria Marta Silva, 51, auxilia seus pacientes para que possam encarar os limites que a pandemia lhes causou. A maioria deles estão em processo terapêutico há mais de doze meses e seus desempenhos têm sido satisfatórios. “Acredito que eles estão acostumados a olhar para si e ressignificar pensamentos e crenças desviantes.”

Para ela, por um lado não está sendo fácil, porque gosta da liberdade e do contato social. Em contrapartida, a psicóloga afirma estar muito bem e não deveria queixar-se: “p
ode parecer estranho, até porque temos o hábito de reclamar e pensar somente em coisas negativas e nunca no positivo. Seria injusta com o universo.”

Somente uma nova paciente precisou de ajuda psiquiátrica e outro voltou a ser medicado. “Todos somos humanos e carentes de sociedade. Está tudo bem!”, declara.

Segundo Silva, sua agenda sempre esteve cheia para a proposta de seu trabalho. Apenas quatro pacientes desistiram neste período e outros vieram a somar. Alguns optaram aguardar por uma possível desistência.


Embora não esteja atuando na linha de frente dos diversos trabalhos essenciais, ela auxilia os pacientes transmitindo leveza, técnicas de relaxamento e mostrando um pouco da realidade. Por tratar cinquenta pessoas por semana – desde médicos de grandes hospitais a motoristas de ônibus - ela precisa encontrar-se bem, para o ciclo continuar a funcionar, como também mantém um trabalho filantrópico todos os domingos de cunho religioso com os jovens.

Psicóloga Dra. Maria Marta Silva
A Dra. Maria Marta Silva na International Conference on Adolescent Medicine & Chile Psychology (Omics) - Acervo Pessoal


Para a estudante de psicologia do 7º semestre da PUC, Natália Gonçalves, 20, o momento atual a deixa apreensiva, pois não há perspectiva do futuro. “Eu tenho um pouco de esperança de que a psicologia clínica seja mais valorizada depois da pandemia, porque é um momento em que as pessoas estão percebendo que saúde mental é muito importante em todos os aspectos da vida.”

Ela espera que seus futuros colegas de profissão tenham percebido o quão urgente é o debate da elitização da psicoterapia. “Durante essa pandemia, surgiram muitas iniciativas de atendimento online gratuito, que deveriam existir há tempos, e se fez presente o debate sobre essa necessidade na área em que pretendo atuar: psicologia social.”

A respeito de dicas para este momento em que a população se encontra, Baltar aplica as recomendações da OMS para guerras e epidemias e incentiva as pessoas a fazerem uma rotina, atividades físicas, ter alimentação saudável e um sistema de Buddy – amigo para conversar. De acordo com Silva, as pessoas devem respeitar seus próprios limites, pensar nos próprios sonhos e fazer planejamentos realistas para esta fase.
“Acredito que algumas pessoas precisem estar mais próximas de si. Por isso temos a quarentena, um período para desacelerar.

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Em meio à pandemia do coronavírus, estudantes relatam crises diárias e ansiedade; psicólogos destacam um grande desafio
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Raphael Dafferner Teixeira
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23/06/2020 - 12h

Desde a declaração da quarentena por parte do governador de São Paulo, João Dória (PSDB), no dia 22 de março, as aulas presenciais foram paralisadas. Assim, em aulas EAD, os estudantes têm enfrentado diferentes dificuldades.

Foto João Fernando Cruz Fernandes

O estudante João Fernando Cruz Fernandes, 18, relatou que, o mês de abril, foi o pior de todos: “Nessa época, eu tive ao menos uma crise por dia”. O morador do bairro Parque Continental, zona oeste de São Paulo, acha que o vestibular que fará no final do ano tem sido um dos maiores responsáveis, além de não poder ver seus amigos, não sair de casa e ir à academia, atividades que faz com frequência. 

Fernandes considerou que este seu temor de não passar no vestibular, além da própria pressão que já está envolvida no processo, tem uma grande relação com seu relacionamento familiar: “Meu pai me bota muita pressão”.

Aliviado, se considera melhor psicologicamente em comparação com abril e maio. Sua última grande crise foi quando comemorava seu aniversário, dois dias antes da data na verdade, no dia 24 de maio, quando seus pais, irmãs e sua namorada fizeram uma “mini festa surpresa” para ele. Porém, Fernandes confessou que não conseguia sentir felicidade: “Eu não conseguia parar de chorar”.

Contudo, os já matriculados na universidade têm dificuldades completamente diferentes. Para Fernanda Malagrino Galvão, 18, estudante de psicologia na PUC-SP, os estudos não são um peso. Muito pelo contrário, têm ajudado muito: “Estou adorando estudar. Amo fazer os trabalhos”, afirmou entusiasmada. Porém reconhece seu privilégio de já estar em uma faculdade: “Se eu fosse prestar vestibular no fim do ano, eu não aguentaria”.

A estudante ainda considera que estudar psicologia em um momento em que a saúde mental é uma questão, tem a ajudado a levar melhor esse problema: “O que a gente está aprendendo tem tudo a ver com o que está acontecendo agora”.

Foto Fernanda Malagrino Galvão

Galvão está desde o dia 2 de abril na casa de sua família em São Sebastião, litoral Norte de São Paulo. A estudante da PUC se considera bem psicologicamente “minha saúde mental continua a mesma de antes da pandemia”, disse. A jovem está dividindo a casa com mais nove pessoas, atualmente, algo que a ajudou muito: “Estar com muitas pessoas ajuda muito, na verdade. Quando eu estava em São Paulo, eu sentia que a casa estava sempre vazia, eu me sentia mais sozinha”, e ainda completou: “Interagir com mais pessoas diminui um pouco esta angústia”.

Durante o mês de março, quando ainda estava em seu apartamento no Alto de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, Galvão dizia se sentir muito angustiada. “Caminhava para um ‘cenário ruim’”, confessou.

Quando estava em São Paulo, a universitária disse que as notícias a afligiam “eu chorei lendo algumas”, desabafou.

Para a psicóloga que já trabalha há oito anos na Escola Vera Cruz, Maria Teresa Oliveira Lima, 57, os adolescentes, mais do que nunca, enfrentam um desafio enorme: “Já são mais de 80 dias! E 80 dias sem ver os amigos, ir à escola, sentir o vento no rosto, para os adolescentes, é muito tempo!”, disse. Porém, Oliveira ressalta a diferença entre cada um, dizendo que alguns respondem melhor que outros: “É um problema global, mas cada comunidade, cada pessoa é afetada pela pandemia de uma forma”.

Além disso, Oliveira ressaltou que os jovens são afetados de maneira diferente que os adultos, o que acaba tendo um impacto psicológico muito grande: “Justamente no momento em que estão ‘ganhando a cidade’ perdem o direito a Ela”.

Apesar das dificuldades, a psicóloga formada pela PUC-SP avalia que não teve um número maior de conversas com os alunos agora do que presencialmente, mas “com certeza elas incluíram temas novos”, e reiterou ainda a importância de os jovens terem alguém para desabafar com durante um momento como esse.

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Isabella Candido
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27/05/2020 - 12h

A nova rotina em meio à pandemia de Covid-19 não está sendo fácil  e aprender a lidar com isso tem sido um processo gradual. Mais do que a responsabilidade de se precaver para não atingir os mais vulneráveis, é preciso ter consciência para identificar situações que representam privilégios e reconhecer que a vulnerabilidade não está ligada somente à saúde das vítimas, mas às desigualdades em que  elas estão inseridas.

Quando se pensa que a primeira morte no Rio de Janeiro foi de uma empregada doméstica, cuja patroa, além de não considerar necessária uma dispensa remunerada para o isolamento, também não informou que poderia estar contaminada pelo vírus, fica evidente que  as complicações da doença têm endereço e alvo certo. Entretanto, tem sido comum  o discurso de que “estamos todos no mesmo barco”. Realmente, o vírus pode atingir a toda e qualquer pessoa. Mas a realidade é que ele vem sendo muito mais danoso para as pessoas de baixa renda e as comunidades em que vivem. As periferias do Brasil são as regiões mais vulneráveis nessa pandemia, onde os moradores vêm vivendo em situação de risco e fácil contaminação, sem as condições essenciais para cumprir as recomendações de higiene.  

Até agora, o distrito com maior número de mortes por Covid-19 ou por suspeita da doença na capital paulista é a Brasilândia. A região teve um total de 156 mortes contabilizadas pela prefeitura até o dia 16 de abril. No início do mês, eram 103 óbitos, mas nos últimos 15 dias houve um aumento de 53% no número. Uma média de 53,5 mortes por cada 100 mil habitantes. Apesar disso, pouco se ouve de medidas de assistência que possam ser realmente efetivas para a  população das favelas.

Moradores apontam o não cumprimento das medidas de preveão e isolamento como um fator para o agravamento da situação. Os famosos bailes de rua continuam sendo realizados, atraindo muitos jovens que, em outros momentos, também se reúnem com os amigosExistem comércios não essenciais funcionando normalmente e uma grande movimentação nas ruas. Outro fator influente é a desinformação. Boatos e fake news se disseminam enquanto informação de qualidade não chega para todos.

Embora haja casos de  desrespeito ao isolamento, a maioria das pessoas estão na rua por necessidade. Para muitos, é preciso ir para o corre para sobreviver a essa pandemia. Ninguém pode se dar ao luxo de parar. Se parar, não come, não paga aluguel, não compra remédio e nem vive. Quem anda  pelo bairro vê gente como se não houvesse isolamento algum. Os hospitais estão saturados e já atingiram sua capacidade máxima de atendimento. E, com isso, ter acesso à saúde está cada vez mais difícil.

Quando se tem uma casa bem estruturada e acabada, com mais de um cômodo, comida na mesa, brinquedos, aparelhos eletrônicos, uma boa rede de Wi-fi e uma TV com vários canais, cumprir à risca a medida de isolamento não é tão difícil assim. Mas como pedir para várias pessoas dividindo um único cômodo, sem conforto ou distração alguma, sem alimento e elementos básicos de higiene, ficarem em casa? Centenas de jornais estão noticiando o movimento nas favelas. Mas só quem vive na periferia sabe que muitas vezes é na rua que se encontra aquilo que deveria  ter em casa.

Enquanto as soluções propostas pelo governo não conversam com a realidade da periferia,  várias ONGs vêm fazendo um grande trabalho para dar auxílio a essas comunidades. Na Brasilândia, institutos como o Adê Ferreira e as ONGs Sou da paz e Amigos do Gordão estão realizando ações para evitar que se aumente ainda mais o contágio e ajudar as famílias afetadas pela Covid-19.

“Isolamento social, home office e álcool em gel têm sido importantes para impedir que o vírus se espalhe ainda mais. Mas a dificuldade é bem maior para quem não pode levar o expediente para dentro de casa, quem está sem recursos para compra de kit de higiene pessoal, ou quem precisa dividir um só cômodo com a família inteira”, afirmou Lucas Ferreira da Silva, diretor do Instituto Adê Ferreira.  

Em entrevista concedida à Agemt no dia 24 de abril, Silva contou  que grande parte da população da Brasilândia ainda estava à espera do auxílio emergencial anunciado pelo governo. Muitos não têm acesso à internet ou enfrentam dificuldades para lidar com ela, o que dificulta o processo, resultando na aglomeração nas portas das unidades da Caixa Econômica na região.

Ao passo que o Covid-19 avança nas periferias, aumentam também as internações e mortes da população negra. Dados do boletim epidemiológico do Ministério da Saúde divulgado no dia 18 de abril apontam que 54,8% dos óbitos registrados são de pessoas negras e pardas. É impossível se falar da relação da pandemia com a desigualdade social sem levar em consideração as questões raciais que são um elemento fundamental na pobreza da população.

Em um efeito sistêmico de séculos de discriminação e racismo, as pessoas negras são maioria da população de baixa renda e, consequentemente, as mais afetadas direta e indiretamente pelo vírus. Uma grande parcela não foi liberada de seu emprego ou é trabalhador informal, por isso se expõe para obter o sustento da família. Muitos vivem em condições precárias, com dificuldade no acesso à saúde pública e sem os recursos básicos para se prevenir do vírus.  

“Muita gente morrendo, pois os leitos dos hospitais próximos estão cheios. Se fôssemos esperar pelo setor privado ou pelo governo, mais vidas seriam perdidas.Temos que agradecer a iniciativa dos moradores que estão tomando a frente, buscando parcerias para entrega de cestas e materiais de higiene pessoal”, acrescentou Silva.

Diante do descaso do Estado e das circunstâncias em que a população das periferias do Brasil vem vivendo após a chegada do vírus, a pandemia tornou explícita a realidade genocida de um país marcado pela desigualdade de classe e raça. A pandemia, nas comunidades, não é uma luta contra um vírus, mas uma guerra, perdida, contra uma vulnerabilidade resultante de anos de negligência.  Fica claro, mais uma vez, e não para todos, quem pode morrer aqui.

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Inara C. F. Novaes
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15/05/2020 - 12h
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Imagem: Inara Novaes

 

Nós, humanos, sempre nos julgamos donos da natureza. Hoje, uma ameaça invisível que se propaga pelos ares nos prova o contrário e expõe nossa fragilidade. As máquinas e a tecnologia prometeram-nos um mundo de maravilhas, no qual os limites seriam transponíveis e nada seria capaz de nos parar; desmantelamos ecossistemas e os esculpimos de acordo com as nossas vaidades.


Enxergamos agora, as consequências em um planeta que ultrapassou os 4 milhões de infectados: “a medida que destruímos as florestas, por exemplo, as diferentes espécies de animais que vivem nelas são obrigadas a se mover e as doenças passam de um animal para outro. E esse outro animal, obrigado a estar mais próximo dos humanos, provavelmente pode infectá-los”, descreve Jane Goodall, famosa primatologista britânica, em entrevista à Revista Exame, sobre a crise do novo coronavírus. 


A pandemia nos fez despertar subitamente da fantasia e cair sem paraquedas na realidade, nos confrontando com os limites do corpo e com a nossa transitoriedade; não somos o centro do universo, tampouco donos dele. Desde então, os que nunca dormem, que nunca param, foram forçados a puxar o freio de mão e estacionar, sem antes terem a oportunidade de desacelerar; agora não é somente o vírus que nos espanta, mas também a incapacidade de ficarmos a sós conosco e com os nossos próprios medos.

 

Luiza
Imagem enviada por Luíza Canato

O vírus desprezou a nossa necessidade de saber e de controle, a substituindo por uma sensação aguda de incertezas e impotência: “penso que o fato de estarmos lidando com o imprevisível pode nos deixar ansiosos, inseguros, temos naturalmente a necessidade de controle, de saber. Além disso, tenho percebido que o isolamento imposto pode trazer à tona questões que as pessoas tendem a ignorar, com a correria do dia a dia”, descreve a psicanalista Luíza Canato.

Moradora de Santos, cidade do litoral paulista, a psicanalista não costumava realizar sessões online, mas elas mostraram-se uma boa alternativa para superar as barreiras do isolamento social e continuar prestando os seus serviços, inclusive de maneira gratuita: “eu não realizava atendimento online e tive que começar a fazer de repente. Tinha essa dúvida, se seria possível estabelecer novos vínculos, penso que com pacientes que já estavam em processo terapêutico isso não foi uma questão, mas com novos sim. E eu me surpreendi muito, vi que era possível”.

Todavia, Luíza cita ter feito algumas mudanças em sua rotina para adequar-se à quarentena: “A questão relacionada à estrutura técnica é bem delicada, preciso separar um ambiente isolado, pois não estou indo até a minha clínica que fica em um prédio comercial, preciso de uma boa conexão, tenho que estar atenta para ver se o celular ou notebook estão com bateria, são coisas que eu não tinha que me preocupar antes”.

 

LOUISE
Imagem enviada por Louise Quintella

Da cidade do Rio de Janeiro, a psicóloga Louise Quintella realiza sessões virtuais e garante que exigem o mesmo cuidado que as presenciais, observando inclusive algumas particularidades: “a sessão online se utiliza da mesma competência técnica, sigilo, obrigatoriedade de registros e ética profissional que a presencial. Além disso, tem sido muito importante conseguir chegar até pessoas que estavam impossibilitadas de atendimento seja por transtornos como pânico e fobia social, que a depender do quadro, não conseguem sair de casa; e ainda a situação dos expatriados, que se sentem muito solitários e relatam que fazer terapia com alguém da mesma cultura é crucial.”

Além de superar barreiras geográficas e sociais, Louise relatou que não notou grandes mudanças na efetividade do atendimento: “acredito que definir limitações dependa de cada pessoa. Para uma pessoa que prefere o contato físico, nem que seja apenas o aperto de mãos na despedida da sessão, provavelmente as limitações pesam. Mas na minha experiência, não muda praticamente nada e tenho percebido maior adesão do que quando eu tinha o consultório presencial”.

 

RUI
Imagem enviada por Rui Brandão

Para Rui Brandão, médico da capital paulista e co-fundador da Zenklub (plataforma que conecta pessoas à especialistas em bem-estar emocional), o interesse pela terapia online pode ser uma reação direta da tomada de consciência da geração atual em cuidar da mente, assim como do corpo. Ainda assim, ele declara que há um longo caminho a ser percorrido, mas a tecnologia aliada às boas práticas do setor podem contribuir positivamente para o crescimento desse segmento.

Rui ressalta ainda a importância de nos cuidarmos e valorizarmos nossa saúde mental nesse momento de turbulência: "criar uma rotina considerando todos os fatores externos (mundo) e internos (dentro de casa), pode ajudar a minimizar os impactos de uma situação como esta em que estamos vivendo. Outras pandemias deixaram marcas como o estresse pós-traumático, por exemplo. Quanto mais as pessoas se cuidarem agora, menos problemas terão em um futuro não tão distante. É importante se manter positivo”.


Esse também é um momento oportuno para nos aproximarmos das pessoas que estão ao nosso redor, afinal, no rodo cotidiano que nos sufoca nem sempre temos tempo para cuidarmos uns dos outros: “não se cobrar tanto por produtividade, quarentena não é férias, está todo mundo ansioso e preocupado mesmo. Buscar estar próximo das pessoas por chamadas de vídeo, fazer atividades como assistir filme em simultâneo com amigos e aproveitar para estreitar laços com quem está ‘confinado’ com você, se for possível”, observa a psicóloga Louise.


Para finalizar, é importante ressaltar que os dias melancólicos que parecem nunca chegar ao fim podem nos trazer, sobretudo, a esperança de reconciliação com a nossa dimensão humana, sujeita a diversas vulnerabilidades: “é tempo de parar, sentir e observar. Penso que devemos dar espaço a nossa fragilidade, é normal sentir medo, angústia e ansiedade é uma oportunidade para nos observar e aprender a lidar com esses sentimentos”, finaliza a psicanalista Luíza Canato.
 

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