Cerveja pode ser uma aliada da saúde
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Vitor Simas
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25/11/2022 - 12h

Por Vitor Simas Ribeiro Costa

Uma pesquisa realizada pela na Universidade Milano-Bicocca na Itália revela que beber cerveja pode reduzir o risco de desenvolver doenças neurodegenerativas, como demência e Alzheimer ao longo da vida.  Segundo o estudo publicado na revista ACS Chemical Neuroscience no final de outubro, um componente por trás do amargor dessas bebidas impede a aglutinação de proteínas ligadas ao Alzheimer. A doença começa quando o acúmulo de proteínas anormais causa a morte de células nervosas no cérebro humano.

O componente responsável por impedir que isso aconteça está nos extratos de flores de lúpulo, presente na grande maioria das cervejas. Essas plantas têm antioxidantes naturais que podem proteger as células do corpo, ajudando na redução de aglomerados tóxicos que poderiam ser marcadores do desenvolvimento de Alzheimer 

Isso quer dizer que devemos promover o consumo de cerveja?

Deve forma alguma. O estudo não afirmou que o consumo de cerveja ajuda na prevenção do Alzheimer, o estudou testou o efeito do lúpulo – que é um componente da cerveja, porém in vitro, usando uma espécie de verme chamado C. Elegans. Aponta a cientista Gabriela Bailas em análise feita em seu próprio Instagram. Ou seja, a cerveja não está diretamente ligada na prevenção de nenhuma doença neurodegenerativa, aliás o teor alcoólico presente na bebida faz com tenham mais malefícios do que benefícios à saúde. O consumo excessivo leva a reduções significativas no rendimento cerebral.  As descobertas não sugerem que o consumo de cerveja deve aumentar, mas que extratos da planta podem entrar em outros alimentos para reduzir o risco de doenças neurodegenerativas. 

 

 

 

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A jornada do abuso de substâncias até a dependência química e o tratamento de reabilitação voluntário
por
Bruna Quirino Alves
Maria Eduarda Camargo
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28/10/2022 - 12h

 

Ela vinha em pequenos frascos, de metal ou vidro, com imagens ilustrativas e crianças sorridentes — comercializada para fins anestésicos e tratamento do vício em morfina ou álcool. Assim nasceu a cocaína, droga originada das folhas da coca e que teve — há mais de 100 anos  — seus anos dourados de legalidade. Mas a realidade do vício é muito diferente do glamour dos ternos dos empresários e das festas dos fins de semana.

De acordo com o novo Relatório Mundial sobre Drogas divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) em 2021, cerca de 5,5% da população entre 15 e 64 anos usou drogas pelo menos uma vez em 2020, enquanto 36,3 milhões de pessoas, ou 13% do número total de pessoas que usam drogas, sofrem de transtornos associados ao uso de drogas. A psicóloga Lúcia Silva explica que: "A dependência química não se trata de uma vontade de consumir determinada substância e sim da incapacidade de não consumi-la".

No Brasil, segundo pesquisas da OMS, cerca que 6% da população brasileira atual possui dependência química, totalizando 12,4 milhões de pessoas. Os hospitais credenciados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) tiveram um aumento de 54% em 2020 no atendimento de dependentes químicos em relação a 2019, de acordo com os dados do Ministério da Saúde.  

A lei de n°13840 — sancionada pelo atual presidente Jair Bolsonaro no ano de 2019 — prevê a alteração da lei n°11343, possibilitando a internação involuntária de pacientes com dependência química. A internação involuntária ou compulsória é toda aquela que ocorre sem o consentimento do paciente. Para que ocorra, é necessário um pedido de internação vindo do médico psiquiatra — mesmo sem o consentimento ou pedido de internação da família.

Em entrevista à Revista Veja, o ator global Fábio Assunção conta as dificuldades que enfrentou na sua luta contra a dependência química e os danos gerados pela exposição sofrida por ele durante o seu processo de reabilitação. 

"Fui pela primeira vez aos Alcoólicos Anônimos há cerca de quinze anos. Na saída fui fotografado por um paparazzo e saiu uma nota no jornal. Aquilo me prejudicou muito e demorei anos para voltar.’’ 

Fábio faz parte da nova série da Globoplay ‘’Onde está meu coração’’ na qual ele interpreta o pai de uma jovem médica que se torna usuária de crack, a série retrata como o vício atravessa uma família e os conflitos que são gerados a partir disso, escrita por George Moura e Sergio Goldenberg, com direção artística de Luísa Lima.  

No painel realizado pela Globoplay na Comic-Con Experience (CCXP), o ator ressalta como fazer parte da produção foi importante na sua jornada com a dependência química. "Pra mim, tudo foi emocionante. Cada coisa que eu falava pra minha filha [na série] por causa da dependência, é como se eu estivesse me ouvindo também. É uma série em que eu estava presente de todas as formas, como ator, como pessoa.’’

Lúcia ainda comenta que: "O ideal é que a intervenção terapêutica combinada seja feita em instituições especializadas e que disponibilizem uma equipe multidisciplinar composta por médicos clínicos, psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e outros. Além do uso de remédios, o trabalho de aconselhamento auxilia na importância de evitar comportamentos que colocam a saúde em risco. Por meio de uma intervenção multiprofissional é possível alcançar resultados mais satisfatórios na reabilitação do paciente. Quando se trabalha em equipe, o compartilhamento de ideias ajuda a perceber, com mais clareza, a necessidade de eventuais ajustes para tornar as terapias ainda mais eficientes". 

Existe uma importância significativa no tratamento combinado e que é ainda mais alavancado pelo apoio individual e familiar. Assim, o paciente é incluído no próprio tratamento e pode, ativamente, contribuir com sua melhora. E a internação voluntária é a chave para que haja a colaboração e a humanização do paciente e para que o tratamento possa evoluir positivamente.

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Entenda como abandonar seu parceiro prejudica também a vida dos seres humanos.
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Luísa Ayres Dias de Oliveira
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28/10/2022 - 12h

Pelas ruas, a cena se repete. Quem nunca viu um animal desabrigado, revirando lixo ou se escondendo da chuva?

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), sobrevivem cerca de 30 milhões de animais abandonados no país. Desses, aproximadamente 20 milhões são cães e, 10 milhões, gatos.

Apesar de corriqueiro, o cotidiano do abandono revela um problema grave de responsabilidade, empatia e, principalmente, conhecimento da lei. Abandonar animais de estimação é crime. Além do pagamento de multa e proibição da guarda, a reclusão do indivíduo pode chegar a 5 anos – tratando-se de cães e gatos. Caso o animal venha a falecer, a pena aumenta de um sexto a um terço (Conforme a Constituição Federal e a Lei de Crimes Ambientais de nº 9.605/98).  

Priscila Gaieta, voluntária da ONG Canto da Terr, pontua que as causas para o abandono são uma somatória de 3 fatores: Falta de recursos e planejamento, pouco acesso à informação e irresponsabilidade.

“Eu resgato muito animal que ninguém quer. Agora terça feira (18), resgatei uma (cadela Vivi) que foi jogada de um carro a 80 km/h. Está cheia de ponto na cabeça”, conta Priscila, que também cuida de vários bichinhos portadores de alguma deficiência ou dificuldade motora, sobretudo cães cadeirantes que também foram abandonados. “O Banzé foi abandonado na ONG, muito machucado, muito idoso. Hoje está comigo, é o amor da minha vida”, conta emocionada sobre um dos seus cachorros resgatados.

Através de seus relatos, percebem-se os diversos tipos de abandono. Desde aqueles animais que são deixados nas ruas ou nas portas dos abrigos, até os cenários mais desumanos possíveis, como aconteceu com Paçoca, um cãozinho atropelado e abandonado em um dia de chuva ainda dependendo do uso de acesso venoso.

Na pandemia, o índice de abandono cresceu cerca de 61%, conforme aponta a Associação das Mulheres Protetoras dos Animais Rejeitados e Abandonados (Ampara Animal). Como agravante, houve menores índices de adoção em 2022 se comparado ao ano passado, causando superlotações em muitos abrigos.

O que pode ser feito?

Apesar de tentar convencer os donos a ficar com os bichos, Priscila conta que as desculpas são sempre as mesmas: “Ai, já tentei de tudo”, “Meu marido não quer”, “Eu não tenho como cuidar”. Isso quando muitos não mentem, chegando à ONG com um bicho supostamente achado na rua.

Por isso, ela conta que exige uma adoção responsável, em que é feito todo um processo de acompanhamento com os novos tutores, que devem enviar fotos e vídeos do animal pelo tempo que for necessário, além de assegurar a aplicação das vacinas no prazo. Caso contrário, o bicho é retirado através de meios legais.

Além disso, os animais são entregues castrados e os novos donos são informados com antecedência sobre as necessidades e personalidade do animal.

“A gente não tira da rua pra voltar pra rua”, afirma.

Legenda: Rafaela, Carlos Eduardo e a gatinha Flora, respectivamente, durante evento de adoção realizado no pet shop Pata Natural.
Legenda: Rafaela, Carlos Eduardo e a gatinha Flora, respectivamente, durante evento de adoção realizado no pet shop Pata Natural. Créditos: Luísa Ayres.

 

Pensando na causa, o Dezembro Verde, uma campanha realizada em diversos lugares do país, inclusive na ONG e nos projetos de Priscila, tenta conscientizar a população acerca do tema - apesar do mês ser um dos que apresenta maior índice de rejeição animal, sobretudo em meio às festas de fim de ano e viagens de férias.

Cuidar dos animais é cuidar das pessoas

Além de ameaçar a vida dos próprios animais, o abandono também prejudica a vida da população, sobretudo, devido à maior disseminação de doenças. Dentre elas, a raiva, leptospirose, micose, infestação de lombrigas, sarna, giardíase e toxoplasmose. Todas apresentam risco letal, podendo ser transmitidas através de mordidas, arranhões e contato com ferimentos dos bichos.

A ONG internacional World Animal Protection orienta para a denúncia de casos de abandono ou maus tratos: Há a possibilidade de lavrar um Boletim de Ocorrência (BO) ou então de comparecimento à Promotoria de Justiça do Meio Ambiente. É possível denunciar também ao órgão público do município, utilizando-se inclusive da Lei Estadual ou Federal. Já pelo telefone, pode-se discar 190 (polícia), 181(disque denúncia) ou 0800 61 8080 (IBAMA – em caso de animais silvestres). Pela internet, é possível acessar os portais do Ministério Público Federal ou do Safer Net. Para informações mais específicas de como denunciar em cada região e estado do país, acesse a página da ONG.

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Mais de 30 mil brasileiros aguardam esperançosamente na fila de transplante por um rim compatível, única opção para tratar pacientes com doença renal crônica em estágio avançado.
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Manuela Almeida Dias
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26/10/2022 - 12h

 

O Brasil está em terceiro lugar no ranking dos países que mais realizam transplantes renais no mundo. Em 2021, foram registrados 4.828 procedimentos desse tipo, 90% deles financiados integralmente pelo SUS (Sistema Único de Saúde). 

 

Mesmo com um alto volume de transplantes realizados com sucesso todos os anos, a fila de espera por um rim é muito longa. Em alguns casos, pacientes estão há mais de 15 anos na fila aguardando por um rim compatível, sendo submetidos a diversos tratamentos e correndo um alto risco de vida.

 

Os rins desempenham papéis fundamentais em nosso organismos. Eles são responsáveis por filtrar o sangue e remover todos os resíduos tóxicos presentes na circulação sanguínea. Quando eles param de funcionar, o paciente deve se submeter a sessões de hemodiálise ou diálise para se manter vivo.

 

Em 2021, com base obtidos pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), 15.640 pacientes renais ingressaram na fila de espera pelo transplante, e destes, 3.009 (19,24%) vieram a óbito. 

 

No Brasil, existe o sistema de lista única para transplantes, conhecido popularmente como fila única de transplantes, regulamentado pelo Decreto n.º 2.268, de 1997. Com a demora da fila para transplante, mais de 30 mil pacientes aguardam pelo contato dos hospitais. É o caso do Izaias Sineco de Almeida, um paciente renal de 75 anos que está há mais de 15 anos esperando pelo transplante.

 

“Recentemente fez 15 anos que eu estou aguardando na fila de transplante. Já fui chamado três vezes, mas por ter uma idade avançada eles preferiram priorizar outros pacientes. É agonizante ver os seus colegas falecerem durante uma sessão de hemodiálise. Ter fé é a única coisa que nos resta nesse momento”, diz Izaias.

 

Desde 2007, ele realiza sessões de hemodiálise com 4 horas de duração, três vezes por semana.

 

“Vou à clínica de hemodiálise três vezes por semana. Com o auxílio da minha esposa e filhos tenho permanecido forte e irei me manter dessa maneira até encontrar o meu rim compatível", comenta emocionado.

 

A nefrologista Caroline Reigada explica como é classificada a lista de espera para transplante pelo SUS: “A principal característica de classificação das listas de espera para o tão sonhado transplante é que elas não funcionam por ordem de chegada, mas sim, por condições médicas, como a compatibilidade entre o paciente e o doador e gravidade da doença”.

 

Fundado em 1998, o Hospital do Rim (Hrim), localizado na capital paulista, é o maior centro de transplantes renais do mundo, com mais de 900 procedimentos por ano. O Hrim realiza, em média, 20% de todos os transplantes de rins realizados no País.

 

Tatiane Fonseca, de 46 anos, é professora de Biologia. Ela foi diagnosticada em 2010 com insuficiência renal, e há 4 anos vive com o seu novo rim transplantado:

 

“Frequentei a clínica de hemodiálise por oito anos. Confesso que foram os anos mais difíceis da minha vida, mas me mantive viva e saudável e em 2018 recebi uma ligação do Hospital do Rim de São Paulo. Consegui realizar o meu transplante. Hoje eu tenho uma família linda e pude continuar a dar aulas”, diz Tatiane.

 

A libertação da máquina e agulhas traz o significado de poder desenvolver ações simples que eram possíveis antes do tratamento, como passear no parque, ir à praia, trabalhar ou ir ao cinema, coisas que parecem “bobas” para quem tem uma vida saudável.

 

“Sinto falta de poder tomar um copo de água ou poder correr com os meus netinhos pela rua. Sei que o meu rim está me esperando em algum lugar, e em breve poderei me divertir novamente”, finaliza Izaias. 

 

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A plataforma está sendo desenvolvida por pesquisadores que visam comprovar a eficácia da inteligência artificial em diagnosticar depressão, ansiedade e estresse.
por
Laura Lima
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30/06/2022 - 12h

Por Laura Martins

O projeto gravida digital é um aplicativo destinado a identificar transtornos de ansiedade, depressão e estresse em mulheres grávidas. A ideia surgiu em 2020, pelos pesquisadores Hermano Tavares e Kelly dos Santos Prado, ambos médicos psiquiatras pela USP. Mas, só foi lançado no início de 2021 e está disponível pelas plataformas IOS e Play Store. Atualmente o projeto conta com 319 pacientes recrutadas, mas apenas 207 fizeram o download do app pois 112 voluntárias ainda não conseguiram instalar a plataforma por causa de dificuldades técnicas. 

A pesquisa está sendo desenvolvida pelo Instituto Nacional de Psiquiatria do desenvolvimento para a infância e adolescência (INPD), o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) e o Setor de Inovação e Transferência de Tecnologia (SITT), em parceria com os serviços de atendimento a gestantes com psicopatologia da Obstetrícia e do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, integrando-se a  um núcleo composto por outros três projetos: um pensando no monitoramento de transtornos mentais em mulheres no período neonatal, um focado no rastreio de transtornos mentais na infância e o último, na adolescência. 

A maioria das selecionadas são abordadas durante as consultas de pré-natal no instituto central do hospital das clínicas, em São Paulo. Podem ou não já estarem passando por um tratamento psicológico e psiquiátrico ou, sequer, terem suspeitas das doenças. Após as voluntárias aceitarem participar do  projeto, elas devem instalar o aplicativo chamado “DM Health” para que, através dele, se submetam a uma série de questionários sobre como elas estão se sentindo ao longo do dia. Tal procedimento é repetido semanalmente, junto a uma foto de rosto e um áudio. 

Essa tecnologia viabiliza o rastreio de transtornos psiquiátricos baseando-se em biomarcadores de voz, em expressão facial e utilização de metadados. O aplicativo também permite que o usuário agende uma consulta com um psiquiatra de forma remota ou presencial, sempre que achar necessário. Todas as grávidas que utilizam o app passam por uma avaliação com o que é considerado "gold standard” (ou, padrão ouro): uma ou várias consultas online com um médico psiquiatra. 

De acordo com os pesquisadores, no período perinatal, estima-se uma prevalência de 10-25% de depressão e 11-21% de transtornos ansiosos. Entretanto, apenas 20% das mulheres procuram tratamento e cerca de dois terços dessas pacientes não são diagnosticadas. O diagnóstico é mais difícil em grávidas, pois os sintomas presentes na gestação são parecidos com os de um quadro de depressão e ansiedade, como por exemplo cansaço, mudança de apetite, distúrbios do sono, diminuição da libido, dentre outros.

O estudante de medicina pela USP, Adrian Novelle, ingressou no projeto no início deste ano e explica que: "Um dos motivos das diagnosticadas não darem continuidade ao tratamento é, muitas vezes, a negação e o preconceito com o próprio diagnóstico psiquiátrico. Ainda há muito preconceito com transtornos mentais, as pessoas não querem tratamento, pois acham que só é tratado quem é louco e esse grupo populacional em específico (o de mulheres grávidas) é ainda mais vulnerável, já que a maioria não tem o amparo adequado de seus respectivos cônjuges ou familiares. 

No início de maio, o CFM (Conselho Federal de Medicina) regulamentou a telemedicina no Brasil. Assim, serviços médicos mediados por tecnologia podem ser feitos sem qualquer impedimento ou restrição. Segundo um estudo feito pela American Medical Association, 75% das visitas a serviços médicos regulares ou de emergência são desnecessárias, podendo ser feitas por telefone, chat, vídeo ou outras plataformas digitais. Adrian também reforça que, “Ao contrário do que se possa imaginar, o diagnóstico e tratamento online não é elitista. Na verdade, pode ser mais inclusivo do que se pensa, porque é muito mais fácil para pessoas que moram em regiões extremas terem acesso a um celular e a uma Internet, por mais que seja ruim, do que se locomover até um centro e hospital especializado. Então, ter a possibilidade de entrar em contato com  uma equipe de profissionais tão qualificados pela Internet, é uma alternativa bem interessante para quem tem dificuldade em acessar o serviço de saúde”. 

Após reunidos e trabalhados, os dados obtidos nas quatro pesquisas serão cruzados, gerando um monitoramento longitudinal de transtornos mentais desde a gravides até a adolescência. O pesquisador afirma que “ A gente vai ter um banco de dados gigantesco para poder incorporar a outras pesquisas. Um dos questionários que estamos aplicando é para a obtenção de dados sociodemográficos. Futuramente, a gente vai poder fazer o cruzamento desses dados e investigar se existe uma relação entre as tendências de mulheres grávidas que possuem transtornos mentais dependendo da classe social, da escolaridade, de onde moram e etc”. 

Atualmente, a plataforma DM Health é administrada pelo médico, psiquiatra e desenvolvedor Rodrigo Dias e sua equipe, por meio de um contrato previsto no orçamento. Adrian também afirma que, “A nossa intenção não é mercantilizar o app, mas é possível. Inclusive, há pessoas com essa intenção: o próprio desenvolvedor do software tinha a intenção de vender o app depois de comprovada a eficácia para empresas de convênio de saúde. Essas empresas têm muito interesse nesse tipo de trabalho, pois há um número expressivo de dados longitudinais coletados desde a gravidez até a adolescência… Vende bem.”

Atualmente, o projeto não tem data prevista para término, mas uma troca na empresa que administra a plataforma deve ocorrer em breve. Tendo em vista que o principal objetivo do projeto é definir se a tecnologia é eficaz para o rastreio de transtornos mentais, e não concentrar-se no tratamento de tais doenças, faz-se necessário atentar a utilidade do conjunto desses dados, para garantir que a pesquisa seja convertida em melhorias efetivas para o Sistema Único de saúde (SUS) e, não se torne mais uma ferramenta restrita aos convênios médicos. 
 

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Perda do pai ainda quando bebê, levou Laura Martins Paro a vivenciar importância da terapia como tratamento
por
José Pedro dos Santos
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30/06/2022 - 12h
Sessão de terapia Autora: zebradaa (Fernanda Bornancin)
Sessão de terapia zebradaa (Fernanda Bornancin)

Laura Martins Paro explica que a perda de seu pai quando ainda era bebê, acarretou um comportamento introvertido, apesar de ter diversos amigos na infância, além de achar que se não tivesse feito acompanhamento psicológico não seria quem é hoje. Segundo Ana Monteiro, mestre em linguística aplicada na PUC e psicanalista, a morte e o luto afetam cada um de uma forma singular e profunda, mas para a criança, essa perda pode ter consequências muito serias sem um acompanhamento.

Para a psicanalista, a importância da terapia de maneira geral está em permitir um melhor autoconhecimento, mas ao tratar sobre o luto, a possibilidade de ajudar na elaboração e compreensão da morte e a construção de um novo caminho sem a presença deste ente querido. A psicanálise e psicologia não são apenas para esse tipo de questão, podendo também atender pessoas que sofrem com outros tipos de problemas, como depressão e ansiedade e até mesmo pessoas que não são diagnosticadas, para ajudá-las a se entenderem melhor e controlarem melhor suas emoções e sentimentos.

A Psicanálise foi criada pelas ideias do médico Sigmund Freud, ela visa a procura do bem-estar do analisando a partir de uma série de introspecções que levam o mesmo a concluir e conseguir entender coisas de seu funcionamento por conta própria, partindo do auxílio de um psicanalista.

 

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A humanização proposta pelo voluntariado faz com que o hospital seja um ambiente mais confortável e acolhedor para pacientes internados ou em tratamento.
por
Sônia Xavier
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07/06/2022 - 12h

 

A atividade de Clown Care - cuidados com palhaços, em tradução livre - é uma prática de humanização hospitalar, na qual voluntários se vestem de palhaços e tentam de forma lúdica distrair pacientes da realidade carregada de estresse, ansiedade e melancolia dos hospitais. Conforme a história do movimento, a prática de palhaços-doutores teve início na década de 60, com participação do médico norte americano Hunter Adams - o Patch Adams -, que teria sido o primeiro a entrar num ambiente hospitalar vestido de palhaço a fim de levar alegria a pacientes que passavam dificuldades psicológicas e físicas por conta das suas enfermidades. 

O próprio Adams passou por um período de grave crise depressiva, logo após a morte do pai, chegando a se internar numa clínica psiquiátrica, percebendo assim que “o riso, a alegria e a criatividade são parte integrante do processo de cura” (The Gesundheit Institute). Em 1971, com ajuda de amigos, acaba fundando o Instituto Gesundheit para abordar todos os problemas de saúde em um único modelo. 

No Brasil o primeiro grupo de Clown Care foi o “Os Doutores da Alegria” criado pelo brasileiro Wellington Nogueira, em 1991, inspirado pelo projeto similar do qual participava em Nova Iorque - a Clown Care Unit . Hoje em dia são várias as instituições sem fins lucrativos que utilizam a arte do palhaço para desmistificar tratamentos e levar conforto a pacientes em situações sensíveis. O uso da dramaticidade e do improviso tenta reduzir o estresse e a ansiedade provocada pela rotina hospitalar, buscando aliviar e dar conforto psicológico e social para essas pessoas.

O simples fato de se caracterizar já atrai um novo olhar sobre o voluntário. Abgail Menezez, voluntária pelo Instituto Nenex desde 2019, relata a sensação de entrar como palhaço no ambiente hospitalar "Quando você entra num hospital sem estar caracterizado, as pessoas mal te olham, mas quando você se caracteriza todos te olham e geralmente abrem um sorriso, então o nariz de palhaço te dá liberdade pra falar com as pessoas, brincar”. 

Voluntários caracterizados de palhaços
Atendimento com voluntários caracterizados. (Foto: arquivo pessoal)

O voluntário coloca à disposição do paciente o prazer de rir, fazendo com que se sinta acolhido, o que para o psicoterapeuta Árlon Miqueias pode  fazê-lo acreditar mais na cura. Tal posicionamento também é partilhado pelo professor e psicólogo Claudinei Affonso, que acredita na mudança da postura perante o tratamento e, ademais, nas relações entre todos os atores que partilham do espaço, como médicos e acompanhantes. Para ele, "algumas intervenções auxiliam na forma como o paciente reage diante do tratamento, outras, ajudam na recuperação e, outras, resgatam a dignidade e identidade perdida em uma internação ou nos modos de tratamento”.

As ações também acrescentam muito na vida do voluntário. Abgail relata que acha o voluntariado muito gratificador: “É muito gratificante você chegar perto de uma criança, fazer bolinha de sabão e na hora ela parar de chorar, ou a enfermeira te chamar pra distrair a criança enquanto aplica a medicação, ou mesmo, colocar as senhorinhas pra dançar. Eu fico com uma sensação de que sirvo pra alguma coisa, mesmo que seja uma palhaçada, risos”. 

Menezez revela que na sua vivência, os adultos lhe parecem mais fragilizados e carentes. Ela acredita que como as crianças geralmente estão acompanhadas ou com brinquedos, elas se distraem com mais facilidade. Os adultos geralmente se sentem mais sozinhos: “ Às vezes, você quer sair do quarto e eles querem continuar conversando, isso é muito legal”. Com a ajuda desse mundo lúdico eles distraem e fazem com que o processo fique um pouco menos doloroso e como é uma atividade sem fins lucrativos é fácil sentir o carinho e o cuidado dos voluntários para com os pacientes “Eu quando estou sem o nariz sou uma pessoa, quando coloco o nariz sou outra. E o legal é que qualquer brincadeira que fizermos se não der certo não tem problema porque a gente é palhaço, se a gente canta e desafina não tem problema, a gente é palhaço”, ressalta Abgail. 

Voluntários caracterizados de palhaços
Palhaços em visita à hospital.(Foto: arquivo pessoal)

Dessa forma os doutores- palhaços têm auxiliado na recuperação de enfermidades físicas e mentais das pessoas, se preocupando com o bem estar delas num ambiente muitas vezes pesaroso. Levando a arte aos outros com amor e, claro, muito bom humor. 

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O que dizem os especialistas a respeito deste hábito?
por
Maria Eduarda Magalhães
Pedro Labigalini
Rafaela Eid
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24/09/2021 - 12h

Neste episódio, Eduarda Magalhães, Pedro Labigalini e Rafaela Eid contam a história da haste flexível de algodão, ou melhor, do cotonete. No bate-papo, a Dra. Gisele Bianchini, otorrinolaringologista, explica sobre o uso do cotonete. Afinal, é mesmo saudável?


O primeiro episódio da série "Desde Quando" já está disponível na plataforma do Spotify:
https://open.spotify.com/episode/7nxUYqH7Xrbzx0kPjPnZAa

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Nos primeiros meses de 2020, o país registrou 40 mil internações por falta de saneamento básico.
por
Bianca Monteiro e Raíssa Haddock Lobo
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08/07/2021 - 12h

A falta de saneamento básico não é novidade no Brasil. Entretanto, durante a pandemia de COVID-19, a falta de estrutura passou a contribuir com a transmissão do vírus. Podendo ser encontrar no ar e na água, o problema afetou justamente a parcela mais vulnerável da população: os moradores de baixa renda. 

Cristina Fonseca, 26 anos e mãe de três crianças pequenas, vive de perto a destruição causada pela estrutura precária, o desemprego, a falta de apoio estatal e as vidas perdidas pelo coronavírus. Até março de 2020, Fonseca conseguia alimentar as crianças com trabalhos periódicos, "bicos" como ela mesma chama de faxineira em casa de família, manicure e babá. Impossibilitada financeiramente de prover pelo os próprios filhos, ela teve que cuidar de outras crianças para garantir o minímo para as dela. O pai de seus filhos, uma paixão forte que durou só até a gravidez do terceiro bebê, não tem contato com ela nem com as crianças há mais de um ano. 

Quem a ajudava na manutenção da casa e nas contas do dia a dia era seu pai: "minha família sempre foi simples, nunca sobrou um real em casa. Mas meu pai também nunca deixou faltar, sempre me ajudou com as crianças e com as contas de casa." Infelizmente, a situação se agravou quando o pai de Cristina, um senhor de 67 anos foi diagnosticado com COVID-19 em setembro de 2020. "Entrei em desespero, os hospitais estavam todos lotados, eu e nem as crianças podíamos ficar perto dele. Ficou impossível de sair para trabalhar e nossa situação financeira piorou muito."

Cris, como gosta de ser chamada, acredita que ela mesma pode ter passado o vírus ao pai, "me culpo muito, mas eu não tinha o que fazer! O auxílio que o governo dá não dava pra nada e eu precisava sair para trabalhar para continuar colocando comida na mesa."

Na mesma época que Lourenço Fonseca, pai de Cristina, foi diagnosticado houve um surto de coronavírus na região. As áreas mais pobres das cidades de todo o Brasil foram as mais afetadas pelas altas taxas de contaminação e número de óbitos. Essa epidemia singular se deu porque para essa população, seguir as recomendações convencionais de prevenção à COVID-19 não é tarefa fácil. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), 10% das casas têm falta de água, pelo menos, uma vez por semana. O acesso à água potável é uma das instalações de saneamento básico.  

Na casa da família Fonseca não era diferente. A falta de água era mais cotidiano para eles do que a presença. O cotidiano para as crianças, a mãe e o avô era encher baldes para que fosse possível fazer o básico da higiene pessoal e pudessem cozinhar e ter um pequeno estoque do líquido em casa. A água parada, a impossibilidade de manter a quarentena, a necessidade de trabalhar fora de casa, o desemprego e a falta de um auxílio emergencial justo fez com que muitos moradores não conseguissem cumprir as medidas de isolamento social. Em entrevista, o médico infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia, Renato Grinbaum, explica que esses fatores foram extremamente prejudiciais para a saúde dessas famílias em vulnerabilidade. O tamanho e a estrutura das casas também faz diferença, a falta de ventilação e de cômodos para isolamento tornou a vida dessas famílias ainda mais complicada. 

Durante a pandemia, a desigualdade social ganhou ainda mais evidência. De acordo com dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o número de brasileiros em extrema pobreza triplicou entre agosto de 2020 e fevereiro de 2021: o país saltou de 9,5 milhões para 27 milhões de pessoas.

No caso da família Fonseca, que já lutava contra as estatísticas a situação tomou outro rumo quando Lourenço veio a óbito, por causa de complicações devido ao COVID-19. "Agora só me resta meus filhos, não tenho emprego, o auxílio do governo só diminuiu e não consigo mais segurar as pontas seu meu pai. Dói muito a falta dele, tanto dentro de mim quanto em casa." Cris tem família no interior de São Paulo e, assim que conseguir juntar dinheiro para sua passagem e das crianças, pretende pegar a estrada para nunca mais voltar. "Vou atrás de dignidade."

 

Como o assunto reverbera na internet e entre especialistas  

 Raul Santiago, morador do Complexo do Alemão, criou a hashtag #diáriodeumfaveladonapandemia poucos dias após a Organização Mundial da Saúde decretar a pandemia em março de 2020. Na ocasião, o morador e ativista social na ONG Papo Reto, estava sem água em casa há 3 dias. 

Nas redes sociais, Raul ensina os moradores a lavarem as mãos com a menor quantidade de água. Em um tweet de abril de 2020, explicou como ele e a família costumam fazer para estocar (e manter a água limpa) durante a pandemia.

A falta de água durante a pandemia não afeta apenas a parte da higiene básica, mas pode contribuir para espalhar o vírus. O projeto "Estação de Tratamento de Efluentes Sustentáveis ​​do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia", da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), confirmou a presença do vírus Sars-Cov-2 em esgotos perto dos hospitais da cidade. Isso facilita a possibilidade de infecção pelo contato com a água não tratada - o vírus resiste até 10 dias nesses locais. 

O médico infectologista, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia e professor na faculdade de medicina do ABC, Munir Aiub, apontou que o esgoto rastreia o coronavírus nos bairros: “O vírus é excretado pelas fezes e pela urina. Com a coleta de amostras de esgoto, podemos inferir como está a distribuição da doença em determinada região.”

Aiub comentou sobre projetos não concluídos de tratamento de esgoto e criticou o Estado por não investir o suficiente no saneamento básico. Para o infectologista, o governo pode melhorar a situação ao investir o dinheiro das "coletas de impostos e arrecadação pela União” nos serviços de esgoto.

O infectologista afirmou que o ciclo de doenças e internações continuarão existindo caso o governo federal, municipal ou estadual não olhe para o saneamento básico. Segundo a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), o país teve 40 mil internações em 2020. Isso custou cerca de R$ 16 milhões ao Brasil.        

Em 2018, dados do Trata Brasil registraram 233.880 internações e 2.180 óbitos por doenças causadas em função do contato com esgoto. Por Bianca Ferreira

 

A importância do saneamento antes, durante e depois da COVID-19

Para Juliana de Lemos, bióloga e professora, oferecer saneamento básico com logística é essencial: “A importância das instituições que gerenciam instrumentos de saneamento básico desde o planejamento atuam nessa área.”                                   

A professora reforçou a importância de um saneamento básico de qualidade para combater doenças: “Quando as formas de transmissão estão ligadas com o mantimento da saúde das pessoas e do meio ambiente ou quando o saneamento básico não existe ou tem problemas, os organismos se tornam mais vulneráveis a contrair doenças causadas por vírus.”

Sobre as medidas para evitar danos ao meio ambiente por conta do saneamento básico, a bióloga pontua três ações: presença de órgãos gestores para planejar instrumentos de saneamento básico e garantir sua distribuição; consulta constante com instituições especializadas na área; contato com pessoas diretamente afetadas pela situação.

O saneamento básico é um direito garantido na Constituição e pela Lei 11.445/07. Ele assegura a distribuição de água potável, a coleta e tratamento do esgoto, a drenagem urbana - que lida com a água da chuva -, e a coleta de resíduos sólidos para todos. 

Em levantamento do Ranking de Saneamento de 2020, 100 milhões de brasileiros não possuem cobertura da coleta de esgoto e 35 milhões não usufruem de água tratada. 

No Brasil, uma em sete casas não está ligada à rede de água. Dados do Trata Brasil em 2016 apontam 9,6 milhões de residências sem água na torneira e cerca de 90% do esgoto em áreas irregulares nas 100 maiores cidades do país.

 

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Pessoas das mais diversas idades relatam crises de ansiedade e pânico durante o isolamento
por
Bruna Galati e Letícia Galatro
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27/06/2021 - 12h

Em março de 2020, no início da pandemia de Covid-19, Ana Oliveira, de 23 anos, trabalhava em quatro escolas infantis. Com o fechamento de todas, perdeu seus empregos e buscou alternativas para manter sua renda. A única opção que surgiu foi praticamente se mudar para casa de uma prima - com medo de pegar o transporte público e se infectar -  e cuidar de seus filhos de 5 meses e 7 anos. Essa reviravolta na sua vida gerou um avanço de exaustão e falta de tempo durante o isolamento. "Quando aceitei ser babá estava tudo indo bem, mas no decorrer dos meses, duas escolas pediram para eu retornar. Como precisava de dinheiro extra, aceitei. De segunda a sexta fico na casa das crianças, me restando apenas o fim de semana para preparar e gravar as quatro aulas de inglês. Com tanta coisa acontecendo deixei de ter um tempo só meu e quando tenho pausas acabo limpando meu quarto", afirma.

Relatos como o da professora de artes ficaram comuns durante a pandemia. O aumento de jornadas exaustivas, imposição de metas abusivas e medo de ficar desempregado, agravaram os transtornos mentais e são eles uma das principais causas de afastamento do trabalho no Brasil. Segundo a Previdência Social de 2017, os transtornos ansiosos estão na 15º  posição de doenças que mais geram afastamento do trabalho no país, e resultam em 28,9 mil casos. Em 2018, o INSS concedeu 8.015 licenças para o tratamento de transtornos mentais adquiridos no ambiente de trabalho. No ano seguinte, uma empresa de recrutamento relatou que 44% dos colaboradores brasileiros já sofreram de Burnout (transtorno  depressivo, gerado pelo esgotamento físico e mental).  

Com a chegada da pandemia, a incerteza do que irá acontecer no dia seguinte preocupou a todos. O medo do contágio da Covid-19 pelos familiares, a angústia dos cortes nas empresas, em razão da crise econômica atual e o estresse para aqueles que o trabalho triplicou, são algumas das razões para o avanço dos transtornos mentais no último ano. As doenças mais comuns são: crise de ansiedade, ataques de pânico, síndrome de Burnout e depressão. Cerca de 54% das pessoas entrevistadas pela Área de Inteligência de Mercado do Grupo Abril, estão extremamente preocupadas com a situação atual, 47% sentem dificuldade para descansar e 23% não estão mais conseguindo dormir direito. 

A engenheira mecânica Thayna Zattar, de 24 anos, foi uma entre milhares trabalhadores demitidos durante a pandemia. No início do isolamento, recebeu a notícia de que não poderia mais trabalhar na empresa, já que muitos clientes haviam cancelado projetos de sua área, resultando na impossibilidade de manter os funcionários. "Com a perda do emprego, eu percebi que tive um aumento na minha ansiedade, principalmente por conta do atual cenário onde várias pessoas também perderam seus empregos. Não está sendo fácil dormir e relaxar", afirma. Já Thayna acredita, que a consequência disso é uma concorrência maior no mercado de trabalho, gerando uma disputa acirrada.

As empresas estão cada vez mais exigentes para contratar, mesmo que seja para uma vaga no nível Júnior. A jovem comenta sobre os pré-requisitos da vaga que exigem atuação na área de 2 a 3 anos e conhecimentos específicos avançados. Não sendo em vão que a cada ano, surgem 160 milhões de novos casos de doenças relacionadas ao trabalho, conforme a Previdência Social de 2017. Outro dado da pesquisa do Grupo Abril mostra que 76% das pessoas se preocupam com a superlotação dos hospitais. É o caso de Natália Barbosa, advogada de 25 anos, que continuou trabalhando presencial, já que sua empresa não aderiu ao isolamento social. Ela pegou Covid-19 e transmitiu para os pais, já em idade avançada. 

"Nesse período, senti novos sintomas, como síndrome do pânico, junto com as crises de ansiedade e episódios depressivos que eu já tinha anteriormente", afirma. Hoje, já curada do vírus e com os pais bem, continua trabalhando presencial e se cuidando com um psicólogo.

De acordo com o Jornal do Campus, na semana de 29 de março a 4 de abril de 2020, as pesquisas no Google por atendimento psicológico chegaram a 88% e para o serviço online avançou para 41%. Segundo uma apuração da Isma-BR e da consultoria Betânia Tanure Associados, no Brasil, 75% da população tem alguma sequela de estresse e 30% destes sofrem de burnout. Esse desgaste físico e psíquico afeta diretamente a lucratividade das empresas. Quem sofre de burnout trabalha, em média, 5 horas a menos. 2020 e 2021 certamente serão lembrados como os anos mais estressantes, cansativos e tristes da história. 

Esse cenário trouxe uma nova realidade para a área de recursos humanos, mudando a maneira como as equipes interagem e trabalham. Esgotado física e mentalmente, a produtividade de um profissional diminui consideravelmente. A situação se torna um lembrete para as empresas, pois antes de qualquer meta de trabalho, existem seres humanos que precisam de cuidados, compreensão e atenção.   

Para evitar ao máximo o avanço dos transtornos mentais durante a pandemia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um guia chamado "Cuidados para saúde mental durante a pandemia", indicando para fazer pausas e descansar entre os turnos de trabalho ou até mesmo tirar um momento para relaxar dentro do expediente. Também não esquecer de prestar atenção na alimentação, já que passamos mais tempo em casa e não recusamos algumas bolachinhas, bolos ou pão.

Continuar se exercitando foi outra sugestão da OMS e manter sempre o contato com a família e amigos, da maneira que for possível. E é claro, evitar o uso de tabaco, álcool ou outras drogas. Segundo o órgão, isso é uma ilusão passageira e a longo prazo, piora o bem-estar físico e mental. Para alcançar uma boa qualidade de vida e conseguir aproveitar os momentos felizes, a saúde mental é essencial. Porém, mantê-la exige atenção, esforço e cuidado diário. Apenas o fim da pandemia não será suficiente para melhorar o estado de ânimo daqueles que vêm sofrendo crises de pânico e ansiedade durante o isolamento.

Pensando nisso, ainda em 2020, a Pfizer, uma das empresas responsáveis pela realização de uma das vacinas em circulação, liberou um guia sobre saúde mental pós pandemia. Construído de forma colaborativa por 21 especialistas renomados no Brasil, o guia oferece um olhar sensível e sistêmico sobre o cuidado mútuo. Ele foi feito para servir como auxílio a profissionais da saúde que trabalham no atendimento diário de pessoas que tiveram suas vidas afetadas pela Covid-19. De tudo isso, é possível analisar uma coisa boa: as consequências da pandemia fez com que as pessoas começassem a valorizar mais com sua saúde mental. De acordo com uma pesquisa feita pela Mastercard, 62% dos brasileiros passaram a se preocupar mais com sua saúde mental, enquanto 58% acreditam que cuidar da saúde se tornou essencial. 

A demanda de psicólogos e psiquiátricos nos serviços da Prefeitura de São Paulo aumentou consideravelmente durante o isolamento social. De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria a procura aumentou 82% em consultórios particulares no Brasil. Com isso, o número de atendimentos nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) de SP passou de 24 mil em setembro de 2019 para 52 mil em outubro de 2020. Independente da forma, todos devem buscar meios de cuidar de sua saúde mental e psíquica para evitar danos cada vez mais graves. Procurando respeitar seus limites e dominar os pensamentos, as pessoas podem usar esse momento caótico como forma de fortalecer sua saúde e o autoconhecimento. 

 

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