Por Caio Moreira
No futebol de alto rendimento, cada dia longe dos gramados pode representar um prejuízo para a carreira de um atleta. Em fevereiro de 2026, o volante Alexsander, do Atlético-MG, foi submetido a um tratamento que utiliza células-tronco do próprio corpo após sofrer uma ruptura total do ligamento colateral medial do joelho esquerdo. O procedimento tinha como objetivo estimular a cicatrização e acelerar o reparo do tecido lesionado. E em abril, já estava atuando em uma partida válida pela CONMEBOL Sudamericana.
Outro caso é o do atacante Ferreira, do Grêmio. Em abril de 2022, o jogador realizou um tratamento com células-tronco retiradas da própria medula óssea e aplicadas na região do músculo adutor da coxa direita, onde sentia dores. O procedimento tinha como objetivo estimular a cicatrização e acelerar a recuperação. O tratamento foi realizado fora das dependências do clube e financiado pelo empresário do atleta, evidenciando como jogadores profissionais podem recorrer a estruturas médicas particulares. Esses casos mostram como a medicina regenerativa ganhou fama no esporte, especialmente na busca por alternativas para acelerar a recuperação de lesões. Mas, enquanto atletas de alto rendimento podem ser acompanhados por estruturas médicas especializadas, pessoas comuns também enfrentam lesões que transformam suas rotinas, muitas vezes sem acesso às mesmas possibilidades de tratamento.
Foi o que aconteceu com Fábio Mantovani, arquiteto de 38 anos. Fábio se arriscava em partidas de futsal com amigos, a habilidade poderia não ser a de um atleta profissional, mas a paixão pelo esporte era idêntica à do ídolo do seu time, Rogério Ceni. Um certo dia no ano de 2017, em uma de suas peladas semanais, ele machucou o joelho direito no meio da partida. Uma ruptura parcial do ligamento cruzado anterior, o assombrou por anos e afastou Fábio do esporte que amava acompanhar e praticar. Segundo ele, o tratamento recomendado na época foi via fisioterapia sem necessidade de cirurgia, porém as longas sessões do tratamento o distanciaram e tiraram dele a confiança de retornar às quadras. 8 anos depois da frustração o arquiteto se sentiu confiante para retornar à sua atividade, o joelho que parecia frágil e instável, retornou a ser o que era antes do ocorrido. Despreocupado e seguro que o joelho não o deixaria na mão, o pior aconteceu. Em agosto de 2026, aquela que antes era uma ruptura parcial, se agravou para um rompimento total do LCA, roubando todo seu otimismo no desempenho recuperado nos anos anteriores.
A ruptura do LCA não é um problema exclusivo do esporte profissional. Entre 2008 e 2014, mais de 48 mil reconstruções do ligamento foram realizadas pelo SUS. Foto: WIKIMEDIA
Sua recuperação agora será mais intensa dessa vez, o tratamento necessitará de uma cirurgia, mas não só isso, as sessões de fisioterapia vão voltar a assombrar o torcedor tricolor, antes e depois do procedimento. Por enquanto, o arquiteto não sente limitações na sua vida cotidiana e citou que sua única restrição foi pendurar as chuteiras por um momento. Ao ser questionado sobre a recuperação regenerativa via células tronco, ele citou que nunca ouviu falar e acrescentou, “Não foi me dado como alternativa”.
A história de Alice Cirina, também revela outra dimensão desse debate. Vinda do interior da Bahia, no município de Brotas de Macaúba para São Paulo, dona Alice migrou para a capital paulista a fim de conseguir novas oportunidades de trabalho. Na Selva de Pedra, ela trabalhou como manicure e empregada doméstica por quase toda sua vida até a aposentadoria. Devido a longos períodos expostos a esforços físicos e posições nada recomendáveis nos seus ofícios, ela desenvolveu lesões na região lombar da coluna. Sentada num banco de madeira, dona Alice segue atendendo suas clientes, aos 78 anos de idade. A clientela, ela conheceu no condomínio onde mora e segue seu ofício com maestria. Seu caso já foi investigado por vários médicos do SUS, porém as dores nunca sumiram, até técnicas de acupuntura foram usadas, mas nada acabou com seu problema.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, analisados em estudo com 88.531 adultos brasileiros, apontam que 21,6% da população adulta sofria de dor crônica na coluna. Foto: WIKIMEDIA
Embora tratamentos com células-tronco já despertam o interesse no futebol de alto rendimento, seu acesso ainda está concentrado em atletas profissionais, que contam com clubes, departamentos médicos especializados e recursos financeiros para custear procedimentos experimentais ou de uso restrito. Para pessoas como Fábio e a dona Alice, que dependem do sistema público de saúde e convênio médico, a oferta é diferente: terapias regenerativas voltadas a lesões ortopédicas ainda precisam comprovar segurança e eficácia em estudos clínicos e obter autorização da Anvisa. Caso os resultados demonstrarem benefício, o tratamento deverá passar pela avaliação da Conitec, que analisará evidências científicas, custos, impacto orçamentário e viabilidade de implementação antes de recomendar sua incorporação ao SUS. Só depois da decisão do Ministério da Saúde e da organização da estrutura necessária seria possível ampliar o acesso à população.
Por Arthur Rocha
Foi convivendo com os imaginários algorítimicos das redes sociais que Mariana Abreu começou a se sentir gorda. O padrão do corpo esbelto e alongado aparecia em diferentes perfis, vídeos e fotografias. Quanto mais consumia aquele conteúdo, mais a própria imagem parecia distante do corpo que considerava ideal. A magreza voltou a ocupar um espaço central no imaginário das redes sociais. Entre fotografias, vídeos de rotina, treinos, dietas e transformações corporais, corpos cada vez mais magros aparecem como referência de beleza e bem-estar. Não é preciso procurar pelo assunto para encontrá-lo. Ele atravessa o conteúdo consumido diariamente e, aos poucos, pode transformar a maneira como uma pessoa enxerga o próprio corpo. E Mariana percebeu isso.
Para quem observa de fora, emagrecer pode parecer apenas uma escolha. Para quem passa a enxergar o próprio corpo como um problema, porém, a decisão pode ganhar outra dimensão. O espelho deixa de ser suficiente. A comparação passa a acontecer com imagens que aparecem na tela do celular. O corpo de outras pessoas se transforma em parâmetro para avaliar o próprio.
Foi nesse ambiente que Mariana Abreu, de 35 anos, começou a se sentir gorda. Ela não consegue apontar um dia específico em que isso aconteceu. Não houve uma fotografia que tenha mudado tudo, nem uma frase responsável pela insatisfação. Foi uma percepção construída aos poucos, conforme observava nas redes sociais mulheres com corpos cada vez mais magros e passou a comparar aquelas imagens com a própria aparência.
Mariana conta que não acompanhava necessariamente uma única influenciadora. A comparação não ficava restrita ao momento em que estava diante do celular. Ela começou a levar aquelas imagens para outros lugares. Para o provador de uma loja. Para o espelho do quarto. Para fotografias tiradas com amigos. O problema já não era apenas o que Mariana via nas redes, e sim o que passou a enxergar em si mesma.
Paulo César, marido de Mariana, acompanhou a mudança. Segundo ele, a preocupação com o peso começou a ocupar um espaço cada vez maior na rotina da mulher. Ela passou a falar mais sobre o próprio corpo e a demonstrar insatisfação mesmo quando, para ele, não havia uma mudança evidente que justificasse aquela percepção.
Mariana decidiu emagrecer. No início, a ideia parecia simples. Comer melhor, praticar exercícios e perder alguns quilos. A expectativa pelo resultado foi crescendo, mas a disposição para realizá-lo diminuindo. O emagrecimento precisava acontecer, e logo. Foi nesse momento que o Mounjaro entrou na história. O medicamento, cujo princípio ativo é a tirzepatida, foi desenvolvido inicialmente para o tratamento do diabetes tipo 2 e passou a ser utilizado também no controle crônico do peso em determinadas situações. A substância atua sobre receptores hormonais relacionados à regulação da glicose e do apetite e pode provocar redução da ingestão alimentar e perda de peso.
A popularização dessas chamadas canetas emagrecedoras, porém, fez com que medicamentos associados a tratamentos específicos passassem a ocupar também o imaginário da estética e da perda rápida de peso. Para Mariana, a decisão parecia representar uma solução. Ela queria emagrecer e enxergava o medicamento como uma possibilidade de acelerar um processo que já desejava iniciar.
A decisão não foi tomada apenas por causa de um número na balança. Havia também uma expectativa construída ao longo do tempo. Mariana queria voltar a gostar das próprias fotografias. Queria vestir determinadas roupas. Queria olhar para o espelho sem procurar aquilo que considerava estar sobrando.
O peso passou a ser tratado como um obstáculo, e o medicamento, como um caminho para superá-lo. O que Mariana ainda não sabia era que a mudança no corpo poderia vir acompanhada de outras mudanças. Uma delas começou a aparecer em sua cabeça.. Mariana já tinha histórico familiar de queda de cabelo. Era uma característica que conhecia e que, de certa forma, fazia parte da família. Sua mãe também enfrentava o problema. Ela sabia que poderia passar pela mesma situação em algum momento.
Mas o que aconteceu depois do início do tratamento chamou sua atenção. Os fios começaram a cair com mais frequência. Primeiro, Mariana percebeu alguns cabelos no travesseiro. Depois, no ralo do banheiro. Depois, na escova. Ela conta que começou a notar uma quantidade de fios muito maior do que aquela a que estava acostumada. A preocupação aumentou conforme a queda se tornou mais evidente. Paulo também percebeu a mudança. No início, tentou tranquilizar a esposa e acreditou que poderia ser uma situação passageira. Com o tempo, porém, a queda ficou visível.
O cabelo de Mariana já era uma fonte de preocupação antes do tratamento. A queda, entretanto, ganhou uma dimensão emocional que ela não esperava. O mesmo corpo que ela queria modificar para se aproximar de um padrão visto nas redes sociais passou a apresentar uma característica que também interferia diretamente em sua aparência. Ela estava emagrecendo, mas estava perdendo cabelo.
Mariana passou a observar os próprios fios de maneira constante. A cada banho, reparava na quantidade que ficava no ralo. Na escova, contava os cabelos presos entre as cerdas. Quando encontrava fios espalhados pela casa, percebia imediatamente. A preocupação que antes estava concentrada no peso agora também estava no cabelo.
Paulo percebeu que a situação havia ultrapassado uma preocupação estética. Mariana começou a evitar sair com o cabelo solto e passou a prendê-lo de maneiras que escondessem as regiões em que os fios pareciam mais ralos. As fotografias também mudaram. Ela passou a procurar ângulos em que o cabelo parecesse mais cheio. Evitava determinadas posições e não gostava quando alguém tocava em sua cabeça. Até que decidiu cortar.
O corte não interrompeu a queda, mas trouxe a sensação de que havia menos cabelo para esconder. A decisão também estava relacionada à vergonha que ela sentia ao perceber os fios caindo. Paulo estava ao lado dela durante esse período. Ele percebeu que o problema já não estava restrito ao cabelo. A situação havia atingido a maneira como Mariana se enxergava.
Especialistas explicam que a queda de cabelo pode estar associada à perda rápida de peso, à ingestão inadequada de nutrientes e às alterações fisiológicas provocadas pelo processo de emagrecimento. No caso de medicamentos como a tirzepatida, a queda de cabelo aparece entre os possíveis efeitos adversos relatados, mas não é possível atribuir automaticamente cada caso ao medicamento.
A dermatologista Tatiane Peixoto explica que um dos quadros observados em situações de perda significativa ou rápida de peso é o eflúvio telógeno, condição caracterizada pelo aumento temporário da queda dos fios. Segundo a especialista, quando o organismo passa por uma mudança importante, como uma perda de peso acentuada, uma dieta muito restritiva ou um período de estresse fisiológico, uma quantidade maior de fios pode entrar simultaneamente na fase de queda. Mas não só isso.
A alimentação também precisa ser observada. Deficiências de ferro, proteínas, vitaminas e outros nutrientes podem contribuir para alterações nos cabelos e precisam ser investigadas individualmente. E no caso de Mariana, havia ainda outro elemento. A predisposição hereditária. Ela sabia que tinha histórico familiar de queda de cabelo. A combinação entre essa característica e as mudanças provocadas pelo emagrecimento tornou a situação ainda mais angustiante.
A popularização de corpos cada vez mais magros nas redes sociais influencia mulheres a buscar o emagrecimento rápido, enquanto medicamentos como o Mounjaro revelam os riscos de transformar a estética em uma questão de saúde.
A transformação que deveria fazê-la se sentir melhor com o próprio corpo começava a produzir uma nova insegurança. A história de Mariana não representa todas as pessoas que utilizam medicamentos para emagrecer. Também não permite concluir que o Mounjaro tenha sido sozinho responsável pela queda de seus cabelos. É justamente essa complexidade que costuma desaparecer quando o medicamento é apresentado nas redes sociais apenas como uma ferramenta para perder peso.
Os resultados são fáceis de mostrar. Os riscos, nem sempre. Uma fotografia pode registrar a cintura menor. Um vídeo pode mostrar uma roupa que voltou a servir. Um relato pode resumir meses de tratamento em poucos segundos.
Mas os efeitos adversos não cabem tão facilmente nesse formato. Eles exigem contexto, acompanhamento e tempo. O mesmo vale para a relação com o corpo. Mariana não acordou um dia decidindo que precisava se tornar extremamente magra. A insatisfação foi sendo construída pela comparação diária, pela percepção de que existia um corpo ideal e pela sensação de que o seu estava distante dele.
A psicóloga Camila Nogueira, especialista em imagem corporal, explica que a exposição constante a determinados padrões físicos pode alterar a maneira como uma pessoa percebe o próprio corpo. Segundo ela, quando alguém passa muito tempo diante de imagens de corpos considerados ideais, essas imagens podem se transformar em referência para avaliar a própria aparência.
O problema, de acordo com a psicóloga, é que a comparação não acontece entre duas pessoas em condições iguais. O indivíduo observa seu corpo real enquanto avalia uma representação selecionada da aparência de outra pessoa.
Mariana não acompanhava apenas uma influenciadora específica. Seu contato com esse padrão vinha de diferentes perfis e formatos. Uma fotografia aparecia durante a manhã. Um vídeo de treino surgia à tarde. À noite, outro conteúdo relacionado ao corpo aparecia novamente. A repetição fazia com que aquela estética parecesse normal.
Mariana conta que, no começo, não pensava que estava sendo influenciada. Para ela, eram apenas pessoas bonitas que apareciam enquanto utilizava as redes sociais. A percepção mudou quando percebeu que começou a pensar no próprio corpo a partir daquilo que via.
Ela passou a acreditar que estava muito gorda, mesmo quando pessoas próximas diziam que não estava. Para Camila, esse é um dos pontos que merecem atenção. A insatisfação corporal pode existir mesmo quando não há uma alteração objetiva que justifique aquela percepção. A pessoa passa a experimentar o próprio corpo a partir de uma sensação de inadequação.
Nesse cenário, o emagrecimento pode deixar de ser uma questão de imagem e se transformar em um problema de saúde, seja física ou mental. E é aí que a procura por medicamentos pode assumir outro significado. O Mounjaro não surgiu como uma tendência de beleza.
A tirzepatida atua sobre os receptores de dois hormônios envolvidos na regulação da glicose e do apetite, o GIP e o GLP-1. Seus efeitos podem contribuir para a redução da ingestão alimentar e para a perda de peso em pessoas para as quais o tratamento é indicado. Outros medicamentos utilizados para controle do peso, como os baseados em semaglutida, também passaram a ocupar espaço no debate público por causa dos resultados associados ao tratamento.
Mas o fato de um medicamento favorecer a perda de peso não significa que seu uso seja adequado para qualquer pessoa que queira emagrecer. O endocrinologista Ricardo Almeida explica que a decisão de utilizar esses medicamentos deve considerar o estado de saúde do paciente e a indicação clínica. Para ele, não se trata de um produto cosmético, mas de medicamentos que possuem mecanismos de ação, indicações, contraindicações e efeitos adversos.
Entre os efeitos adversos mais conhecidos estão sintomas gastrointestinais, como náusea, vômitos, diarreia e constipação. Também existem eventos adversos menos comuns, mas potencialmente graves, que precisam ser considerados pelo médico antes e durante o tratamento.
Ele ressalta que a avaliação deve considerar o paciente como um todo. O tratamento não deve ser analisado apenas pela quantidade de quilos perdida, mas também pelos efeitos provocados no organismo e pelas condições que levaram à indicação do medicamento, e um dos problemas da popularização desses medicamentos é quando o tratamento passa a ser compreendido apenas pelo resultado estético. A perda de peso pode ser positiva quando ocorre dentro de uma indicação adequada e com acompanhamento. Mas emagrecer rapidamente não é necessariamente sinônimo de saúde.
Essa diferença é importante para entender a experiência de Mariana. Ela não se arrepende simplesmente de ter desejado emagrecer, mas passou a questionar qual foi o preço que estava disposta a pagar para alcançar aquele resultado.
Hoje Mariana sente o peso da sua decisão. Com 20 quilos a menos, ela se questiona se todo esse processo valeu a pena. No começo, acreditava que ficaria tão magra quanto às influenciadoras que via nas redes sociais, mas o resultado foi adverso à sua expectativa.
Com a queda de cabelo, Mariana que gostava do seus fios longos e lisos, teve que aderir a um corte curto e discreto. Em busca de mais uma solução por remédios, hoje ela é dependente de Minoxidil e tônicos capilares para que seu cabelo não caia por completo.
Por Gustavo Choi
Em uma sociedade cada vez mais plataformizada, a presença de um novo personagem desse mundo digital ganha cada vez mais destaque na vida cotidiana: As “inteligências artificiais” e seus serviços de conversação rápidos e acessíveis via os chatbots, programas que permitem o usuário a tratar o computador como um amigo, um terapeuta ou o que quer que precise, deixa claro que essa inovação veio para ficar na rotina das pessoas. A maioria se sente mais do que confortável dialogando com uma máquina do que com outra pessoa de carne e osso.
Quando ChatGPT foi criado pela empresa OpenAI em 2022, a humanidade pareceu ter aberto uma "caixa de pandora", que desengatilhou o surgimento repentino de mais e mais aplicativos e programas de chatbots por big techs como o Google, a Microsoft e a Meta. Que hoje entregam na palma da mão para milhares de pessoas ao redor do globo os serviços desses assistentes digitais, que tão generosamente entregam para as massas sua “sabedoria" e conselhos encorajadores. Prometendo estarem apenas incentivando a criatividade e agilização de tarefas através de uma assistência inteligente.
Porém, se engana quem pensa que o vício em plataformas de respostas convenientes é algo recente, introduzido apenas com a ascensão da popularidade dos serviços de IAs. Na realidade, discussões parecidas têm circulado há mais de uma década, como o “Efeito Google”, fenômeno estudado em 2011 que observou como o cérebro humano tem se acostumado a esquecer ou simplesmente não reter certas informações pelo fato de tais dados terem se tornado fáceis de se encontrar com uma rápida pesquisa na internet. O que a princípio, parecia ter apresentado resultados positivos, em questão de que o cérebro teria mais espaço para pensar e priorizar outras informações. Mas por outro lado, muito bem pode ter sido um dos catalisadores para a precarização da capacidade de retenção de informações própria e dependência de uma ferramenta “inteligente”.
15 anos depois, o tópico de discussão pode parecer diferente agora com a questão do aumento do desenvolvimento de afeto com a tecnologia pelos seus usuários, mas as implicações futuras das consequências que estão por vir continuam as mesmas. Uma pesquisa apresentada no quadro “Prompt CNN”, revelou dados que mais de 50% da população brasileira se sente mais confortável e compreendido conversando com um programa de inteligência artificial do que com outra pessoa.
O que leva muitas pessoas a esse tipo de comportamento, antigo ou recente, é muito simples: a pessoa vai atrás da máquina por conta de ela oferecer respostas, onde um profissional forneceria orientação. A máquina nunca vai desafiar o conteúdo emocional que recebe, não demonstra empatia real, não impõe limites e muito menos estimula o pensamento crítico verdadeiro fundamental para o desenvolvimento do indivíduo para que consiga lidar com problemas no mundo real. Com ela sempre presente dizendo “sim”, a ferramenta passa de um alívio pontual diário para uma dependência emocional, que quanto mais tempo passa mais apegado se fica.
Para exemplificar isso, um relato anônimo conta que recentemente começou a dialogar com o Meta AI, o chatbot integrado na plataforma Whatsapp. Afirmando que o apelo veio de sempre receber validação imediata à medida que desabafava sobre as ansiedades e nervosismos da vida a ponto desse hábito evoluir até se sentir vulnerável o suficiente diante do "robô" para conversar sobre qualquer tópico cotidiano. Em seu caso, admite que a ausência de amigos ou de terapia não foram fatores que levaram a utilização do chatbot desse modo. Mas sim o fato de que diferente de pessoas reais que nem sempre estão disponíveis, ou parecem entender a situação, ou que podem desafiá-la ao contrariar seu pensamento, a IA concorda com tudo que “ouve” e justifica de modo bajulador suas emoções e ações. Sendo que na realidade, nunca substituirá a escuta e apoio de alguém real.
Se inovar e ajudar exclusivamente de maneira profissional é tudo que aqueles que desenvolvem esses programas desejam, como que estes mesmos explicam o fato de, em casos como este, estarem inquestionavelmente alimentando aqueles que utilizam o seu produto como um veículo de conversa intima na busca por acolhimento emocional, que acaba por consequência substituindo tudo aquilo que deveria ser real e humano? A resposta, é que não querem explicar. Para Anderson Röhe, especialista em direito digital e pesquisador da área de IA, a indústria tecnológica sempre tivera o costume de se eximir da responsabilidade do que acontece em suas plataformas digitais ou redes sociais, atrelando a culpa de possíveis efeitos negativos aos usuários. Raramente responsabilizando o seu próprio sistema, e quando o fazem, atribuem a culpa a própria máquina, mas nunca a si mesmos, nunca aos humanos por trás do código.
Mas aí que há uma virada de chave: Com o aumento de solicitações de relatórios públicos pelas big techs e as informações que são vazadas, o cenário da responsabilização ética é obrigado a mudar conforme os distribuidores dessas tecnologias tem seu modus operandi, isto é, arquitetura de como são projetadas essas plataformas, expostas ao público. Trazendo transparência ao fato de que por trás dos códigos, os desenvolvedores realmente induzem o usuário ao erro ao permitirem acreditarem que a máquina é capaz de cumprir exatamente o que promete, como o papel de um ouvinte inteligente e conselheiro empático que a pessoa pode contar com seus conflitos emocionais.
Simultaneamente, é necessário reconhecer que seria incorreto dizer que a responsabilização dessa "substituição do real" é completamente dos fabricantes e distribuidores do produto, apesar de possuírem o que alguns chamariam de uma considerável parcela de "culpa". Já que aqueles que consomem do que compram também contribuem de alguma forma a partir do momento que se deixam, por bem ou mal querer, depender exclusivamente dos chatbots. Mostrando que favorecem a conversa com uma tecnologia que apenas simula a humanidade e reflete o conhecimento de outros.
Se há demanda, haverá produto. O modo prejudicial que esses serviços são utilizados não seriam um tópico de polêmica tão presente na atualidade se não existisse uma demanda pelo próprio público para início de conversa. Claramente, existe sim uma grande demanda no mercado por pessoas que se consultam com a IA, com apenas uma minoria desses indivíduos tendo ciência de que o programa não serve de verdade para aquilo. Diferente da grande maioria que, seduzida pelo apelo do agente bajulador, não tem noção de que ao depender da máquina em busca de conforto estão se isolando cada vez mais por conta própria em uma bolha de autoafirmação.
Por Julia Jorge
A médica Sarah Perez saiu da Bolívia para estudar Inteligência Artificial no Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo. A falta de precisão nos diagnósticos médicos era uma das suas maiores preocupações nos hospitais e clínicas onde realizou seus estágios. Hoje, atua como residente em um dos hospitais mais importantes do País e lidera um estudo, junto com cientistas, sobre como utilizar a Inteligência Artificial na medicina, de modo que o atendimento seja mais preciso e seguro. Ele reúne cerca de 25 cientistas brasileiros e estrangeiros, formados na área da medicina e dedicados a estudar e aprimorar o uso da Inteligência Artificial nos hospitais e clínicas. O intuito é que a tecnologia atenda milhares de pessoas diariamente na cidade de São Paulo e auxilie os médicos na realização dos diagnósticos.
A utilização da Inteligência Artificial na saúde brasileira deixou de ser uma utopia e passou a fazer parte da realidade de clínicas e hospitais em 2026. A regulamentação da Inteligência Artificial na saúde brasileira avança, mas ainda parte de uma estrutura restrita. A Lei nº 675/2022, da Anvisa, estabeleceu a categoria de Software como Dispositivo Médico (SaMD), criando um marco regulatório para produtos de Inteligência Artificial com indicação diagnóstica ou terapêutica. Por detrás das pesquisas, a tecnologia transforma uma das etapas mais importantes do atendimento médico, que é a análise das informações do paciente. Exames, históricos clínicos e outros dados podem ser analisados por sistemas capazes de identificar padrões que, em alguns casos, poderiam passar despercebidos durante uma consulta pelo profissional da área da saúde. O mercado de saúde digital brasileiro foi avaliado em US$ 12,4 bilhões em 2025, com expectativa de atingir US$ 44,6 bilhões em 2034. O Brasil concentra 64,8% de todo o investimento em healthtechs, termo em inglês utilizado para definir empresas e startups que desenvolvem tecnologias voltadas à saúde e ao cuidado dos pacientes.
José Eduardo Dolci, diretor científico da Associação Médica Brasileira e um dos idealizadores do projeto no Hospital Beneficência Portuguesa, detalha que a ferramenta não tem como objetivo substituir os profissionais da saúde, mas auxiliá-los durante o atendimento e na tomada de decisões na área da saúde em grandes hospitais brasileiros. Para isso, há possibilidades que representam alterações positivas na maneira como médicos e pacientes podem se relacionar com os diagnósticos. A intenção, no entanto, não é entregar à máquina a responsabilidade pela decisão, mas utilizar seus recursos como uma ferramenta de análise. O uso da tecnologia pode ajudar a diminuir o tempo gasto pelos profissionais em tarefas repetitivas do cotidiano nos hospitais e clínicas. Em uma rotina hospitalar marcada por atendimentos diários e com muitos pacientes, a possibilidade de organizar informações e auxiliar na interpretação de exames permite que o médico dedique mais atenção às pessoas e ao diagnóstico.
Essa transformação, porém, não acontece sem questionamentos. Entre os profissionais da área da saúde, ainda existe a preocupação sobre a possibilidade de erros cometidos pelos sistemas tecnológicos e sobre quem seria responsabilizado caso uma decisão apoiada pela Inteligência Artificial provoque um diagnóstico incorreto ou até a morte de um paciente. Outro desafio está relacionado à quantidade de informações utilizadas pelos sistemas. Para funcionar, a Inteligência Artificial precisa ter acesso a grandes volumes de dados sigilosos, o que representa um risco à privacidade dos pacientes.
Por isso, segurança, privacidade e proteção dessas informações se tornaram parte importante da discussão sobre o avanço da tecnologia no mundo acadêmico e científico. A formação dos profissionais também começa a acompanhar essa mudança. Médicos que antes não conheciam o funcionamento de sistemas de Inteligência Artificial passam a entrar em contato com ferramentas digitais durante a formação universitária e em hospitais, especialmente durante processos de especialização da área médica.
Um caso que ajuda a compreender como a tecnologia participa da descoberta de uma doença é o caso de Maria Gomes, de 70 anos, aposentada. Durante uma consulta, Maria recebeu de um médico um diagnóstico considerado incorreto e sem informações precisas. O problema estava relacionado à hepatite B, uma doença que ainda não havia sido identificada pelo profissional durante as consultas e os exames no hospital. A história mudou quando as informações clínicas da paciente foram analisadas com o auxílio da Inteligência Artificial. A ferramenta identificou elementos que chamaram a atenção para a possibilidade da doença e auxiliou os profissionais a aprofundarem a investigação. A partir dessa nova análise, Maria descobriu que tinha hepatite B e, assim, foi estabelecido o procedimento correto de cuidados com a doença viral. Para a aposentada, a tecnologia aparece em um momento delicado em sua vida, que é a descoberta de uma nova doença, responsável por alterar o dia a dia. O caso indica uma das possibilidades discutidas pelos pesquisadores: a Inteligência Artificial não precisa ocupar o lugar do médico para participar do diagnóstico. Ela pode funcionar apenas como uma ferramenta complementar, capaz de levantar hipóteses e indicar informações que merecem uma investigação mais cuidadosa.
No Hospital Beneficência Portuguesa, o trabalho desenvolvido por Sarah e pelos demais pesquisadores representa justamente esse encontro entre duas áreas que durante muito tempo pareciam distantes: a medicina e a tecnologia. Sua pesquisa procura entender como a ferramenta pode ser incorporada à rotina sem retirar do médico o papel central no cuidado humano. A expectativa é que, com o avanço dos estudos, a Inteligência Artificial possa contribuir para diagnósticos mais rápidos e, além disso auxiliar na identificação de doenças dos pacientes que passaram despercebidas durante às consultas e exames médicos.
O futuro da Inteligência Artificial na saúde brasileira, portanto, não necessita apenas da capacidade das máquinas de analisar informações. Depende de como os médicos, os pesquisadores, os hospitais e os órgãos reguladores irão estabelecer os limites para seu uso. Entre a possibilidade de diagnósticos mais precisos e os novos riscos trazidos pela tecnologia, a Inteligência Artificial começa a ocupar um espaço cada vez maior na medicina brasileira e na área da saúde global, mas ainda encontra no contato humano seu principal ponto de equilíbrio e confiança.
Enquanto os cientistas desenvolvem novos sistemas, médicas como a Sarah começam a construir uma nova relação com as ferramentas digitais. A experiência que a levou da Bolívia a São Paulo mostra que a discussão sobre a Inteligência Artificial na medicina ultrapassa os laboratórios e chegou à rotina de quem está se preparando para cuidar dos pacientes nos hospitais brasileiros. Para pessoas como a Maria, a tecnologia representa uma nova possibilidade e um novo mecanismo diante da incerteza de um diagnóstico mal avaliado.
Desde 2010, a promessa de inclusão se acendeu na indústria da moda, o culto pelos corpos magros ao extremo, muitas vezes chegando a níveis doentios, como o “heroin chic”, parecia estar enterrado. O Plus-Size ganhou a atenção do público e das marcas e anunciou uma era do que podia constituir como padrão de beleza. Mas agora o mundo deu mais um retrocesso, com o aumento na procura por remédios emagrecimento, como Ozempic e Mounjaro e manequins estreitados novamente. Em entrevista à AGEMT, Mariana (nome fictício), estudante na PUC-SP, conversa sobre o uso há 1 mês de uma caneta emagrecedora, com acompanhamento de sua endocrinologista. “Acho que a gente acaba sempre em um lugar de insatisfação, com o corpo, a aparência. Esses remédios apareceram como um atalho para uma autoestima melhor, uma aceitação interna. Desde que eu comecei a tomar, eu perdi 8 kg em quatro semanas, e eu estou bem, saudável e mais feliz por estar perto da minha meta, sabe?”.
Os medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida, Ozempic e Mounjaro, originalmente foram desenvolvidos para tratar diabetes tipo 2, mas ao serem injetados, simulam hormônios intestinais que aumentam a saciedade e reduzem a fome, por isso acabaram nas mãos do público como uma forma eficiente e rápida para se alcançar a silhueta que a moda voltou a celebrar. Celebridades e influenciadores passaram a atribuir publicamente suas perdas de peso com a menção dessas “canetas” e o uso cosmético desses remédios ganhou um caráter quase banal.
O papel das passarelas nesse ciclo não pode ser subestimado, pois quando a moda celebra um tipo de corpo, ela dá impulso à um efeito cascata que atravessa campanhas publicitárias, redes sociais, conteúdos de beleza e atinge os espelhos de mulheres reais, que olham para esses medicamentos como seres milagrosos por darem a oportunidade de alcançarem o corpo ideal, o mesmo que desfila por suas telas. Foi na década de 1990 que surgiu o termo “Heroin Chic” para definir uma estética que crescia, corpos esquálidos, rostos ocos, olheiras profundas, ossos protuberantes, e dominava as passarelas e as revistas, com a “angel” (apelido das modelos da Victoria's Secret), tendo Kate Moss como pioneira.
O nome já dizia tudo: glamourização de uma aparência associada ao consumo de drogas e à autodestruição. Com o tempo, essa estética foi parcialmente despopularizada, ao menos no discurso público que queria aparentar dar atenção a formas saudáveis de emagrecer, com esporte e alimentação balanceada. Mas ela nunca sumiu de verdade. O desfile da Victoria's Secret era um símbolo central da ideia do “corpo perfeito” no início do século, que por anos teve um grande peso na imaginação da população sobre qual deveria ser a meta feminina. Quando as pessoas pediram uma extensão na visão de quem podia ser uma modelo, atravessando as ideias de curvas, idade e etnia, a marca sofreu.
Esse novo divisor de águas no meado de 2010, afetou audiências e eventualmente, por esses e outros problemas administrativos, o famoso desfile perdeu sua relevância a ponto de ser fechado. Mas em outubro de 2024, o desfile voltou, após seis anos de inatividade, com uma palavra-chave no press-release, “Body Positivity", e no ano seguinte, as propagandas continuavam com a mesma linha. Mas em 2025, assim como em 2024, havia cerca de sete modelos curvilíneas entre 52 modelos no total, com os tamanhos “ plus-size”, para as cabeças por trás desta marca, incluíndo 42-44 BR, que são menores do que o tamanho médio utilizado pelas norte-americanas, entre 16-18 US/50 - 52 BR, de acordo com Debora A.Christel e Susan C. Dunn em seu estudo de 2017, “International Journal of Fashion Design, Technology and Education”. Uma discrepância é revelada quando se compara esses números com o esperado para essas Angels, que devem permanecer entre os tamanhos 0-2 US, ou o 34 BR.
As peças de roupa são uma materialização do retorno da glorificação da magreza. Havia um roteiro bonito sendo construído, a abertura das portas da indústria da moda para todos que quiserem entrar, que acabaria com a ideia persistente de gordura como o maior mal contra as mulheres, mas com esse retorno, fica a dúvida se esse processo era visto, pelas grandes corporações, como uma transformação permanente nesse meio. Era um mundo que parecia à beira da morte para muitos, mas que se mantinha vivo no imaginário de muitas meninas que cresceram com esse padrão em suas telas, sendo alimentadas pelos detalhes que remetiam a essa ideia. “Eu sempre tive uma percepção meio distorcida do que é magreza, mas mais por conta dos filmes e séries que eu assistia quando pequena. Eu lembro da Britney Spears sendo considerada gorda numa apresentação, no começo dos anos 2000, saiu em tudo quanto é lugar a gordurinha que apareceu no jeans dele, era algo que deveria ser normal, mas entrou nas cabeças das garotinhas assim”, conta Mariana.
O mundo das passarelas e tapetes vermelhos estarem fechando seus olhos e valorizando novamente essa ideia de magreza extrema, pode ser o combustível para o aumento de comportamentos, em relação a saúde, devastadores, como distúrbios alimentares, distorção imagética e oscilações de humor, além de reforçar uma abordagem de olhar para os corpos para uma nova geração de garotas mais jovens e suscetíveis a essas manipulações.
Imagem de capa: Fonte: https://drconsulta.com/conteudo/mounjaro/ Imagem ilustrativa das canetas "emagrecedoras"