Robótica, inteligência artificial e novas ferramentas já fazem parte da prática médica, mas formação profissional, custos e desigualdade ainda limitam sua expansão
por
Amanda Furniel
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19/10/2026 - 12h

Por Amanda Furniel

 

A medicina do futuro talvez não tenha chegado exatamente como foi imaginada. Não há, necessariamente, um robô tomando o lugar do médico ou uma inteligência artificial decidindo sozinha o destino de um paciente. O que existe é algo mais silencioso: telas substituindo livros, algoritmos auxiliando decisões, imagens cada vez mais precisas e braços mecânicos entrando nas salas de cirurgia. Aos poucos, a tecnologia deixa de ser promessa e passa a fazer parte da rotina de quem está aprendendo a cuidar de pessoas.

É o caso de Vitória Santana, estudante de medicina pela Universidade de Salvador (UNIFACS), Ela conta que essa transformação começa antes mesmo de vestir o jaleco. A biblioteca, que durante décadas esteve associada às estantes cheias de livros e às longas horas de consulta, agora cabe dentro de uma tela. Livros físicos deram lugar aos e-books, artigos científicos podem ser acessados em poucos segundos e aplicativos oferecem desde calculadoras médicas até plataformas de preparação para as provas de residência.

A tecnologia, portanto, já não aparece como um elemento externo à formação médica. Ela é parte dela. É uma presença tão constante que se tornou, nas palavras da estudante, indissociável da formação de um médico. Mas existe uma diferença entre aprender com a tecnologia e aprender a trabalhar com ela. Apesar de estar cercada por ferramentas digitais durante a graduação, Vitória percebe que a formação ainda não acompanha a velocidade com que essas ferramentas surgem. A grade curricular de sua faculdade, por exemplo, não contempla de maneira suficiente disciplinas voltadas à tecnologia. A experiência com cirurgia robótica tampouco costuma fazer parte do percurso obrigatório. Quando acontece, muitas vezes é porque o próprio estudante decidiu procurar atividades extracurriculares.

É nesse intervalo entre o que a medicina já consegue fazer e aquilo que os futuros médicos estão aprendendo, que surge uma das questões centrais dessa transformação. A tecnologia avança em ritmo acelerado. Mas a formação, nem sempre. Ainda não há um levantamento nacional que mostre quantas faculdades de Medicina incluem a cirurgia robótica como disciplina obrigatória. O que se observa, nas instituições que já oferecem contato específico com a tecnologia, é que esse aprendizado costuma aparecer como disciplina optativa, atividade extensivas ou treinamento em simuladores.

episódio de greys anatomy
Cena do episódio 22, da temporada 10, mostra um exemplo claro da tecnologia sendo usada dentro da medicina.

Na sala de cirurgia, entretanto, essa velocidade pode representar ganhos concretos. A cirurgia robótica permite ao profissional realizar movimentos com um grau elevado de precisão, alcançando determinadas estruturas por caminhos mais específicos e reduzindo a possibilidade de atingir tecidos que não deveriam ser afetados. O resultado pode ser uma intervenção menos invasiva e, consequentemente, uma recuperação mais rápida para o paciente.

O robô, porém, não opera sozinho. Por trás dos braços mecânicos existe uma equipe. E, por trás da equipe, existe um profissional tomando decisões. É justamente nesse ponto que a estudante enxerga um limite importante para a expansão tecnológica. Para ela, inteligência artificial, cirurgia robótica ou qualquer outra ferramenta não substituem o médico. São extensões de suas habilidades. A conduta continua dependendo da avaliação humana, assim como o raciocínio clínico necessário para compreender um paciente para além dos dados que aparecem em uma tela. Essa fronteira se torna ainda mais importante quando a tecnologia deixa a sala de cirurgia e encontra o paciente.

Vitória ainda tem dificuldade para imaginar como será, no futuro, a relação entre médico, paciente e tecnologia. Mas há algo que ela sabe que não gostaria de perder: o contato humano. Uma consulta não é feita apenas de sintomas, exames e diagnósticos. Existe aquilo que o paciente diz e também aquilo que não consegue dizer. Existem demandas que aparecem em um gesto, em uma hesitação ou na maneira como alguém conta o que está sentindo. Ela entende que a tecnologia não pode criar uma distância onde antes existia vínculo. Afinal, a relação entre médico e paciente também interfere na adesão ao tratamento e na capacidade do profissional de perceber necessidades que não aparecem nos exames.

A medicina tecnológica carrega a promessa de tornar os procedimentos mais precisos mas, paradoxalmente, ela também traz uma indagação menos tecnológica sobre quem terá acesso a esse tipo de procedimento. No Brasil, incorporar um dos avanços mais significativos da área médica, a cirurgia robótica, ao sistema público não significa simplesmente comprar um robô. É preciso ter um hospital capaz de receber o equipamento, infraestrutura adequada, manutenção e profissionais preparados para utilizá-lo. E a capacitação não termina no cirurgião. Instrumentadores e outros integrantes da equipe também precisam aprender a trabalhar com aquela tecnologia. A formação adequada vai muito além apenas de quem usa o jaleco, ela passa por cada profissional que atua no hospital. Esse conjunto de exigências transforma o preço do equipamento em apenas uma parte da discussão. O desafio está em criar condições para que a tecnologia funcione de fato.

A estudante acredita que esse processo ainda pode levar alguns anos, mas vê na robótica possibilidades que vão além do ambiente dos hospitais privados. A telecirurgia, por exemplo, permite imaginar um cenário em que especialistas possam participar de procedimentos realizados a distância, com o apoio de uma equipe presencial. Para ela, essa possibilidade deveria entrar também na conta dos gestores quando se pensa em orçamento e acesso à saúde.

Entretanto democratizar a tecnologia não significa distribuí-la de maneira aleatória. Antes de decidir qual equipamento deve chegar a um hospital público, seria necessário olhar para duas coisas: a capacidade daquela instituição de receber a tecnologia e as necessidades da população que ela atende. Vitória entende que não faria sentido instalar uma estrutura caríssima para cirurgias robóticas ortopédicas em uma região cuja principal demanda seja por procedimentos urológicos, por exemplo.

A medicina do futuro, nesse sentido, também precisaria aprender a olhar para o presente. A inovação só faria sentido se respondesse às necessidades reais dos pacientes. Caso contrário, corre o risco de se transformar em mais um marcador de desigualdade: uma tecnologia sofisticada disponível para poucos enquanto grande parte da população permanece distante dela.

Para a nova geração de médicos, talvez esse seja justamente um dos maiores desafios. Não basta aprender a utilizar as ferramentas que já existem. Será necessário acompanhar aquelas que ainda estão sendo criadas, atualizar-se constantemente e entender até onde cada recurso pode contribuir para o trabalho médico.

Porém, ao mesmo tempo, existe o risco inverso: confiar demais na tecnologia.

Vitória defende que o futuro médico precisa ser capaz de desenvolver seu próprio raciocínio clínico mesmo quando não houver uma ferramenta disponível ao lado. Uma inteligência artificial pode oferecer uma informação rapidamente. Um equipamento pode produzir uma imagem com precisão. Um robô pode executar movimentos que seriam mais difíceis para as mãos humanas. Nenhum deles, porém, deveria retirar do médico a autonomia para compreender o caso e decidir o caminho a seguir.

Talvez seja justamente nessa autonomia que esteja uma das fronteiras da medicina tecnológica. Porque, enquanto máquinas podem calcular, ampliar, localizar, movimentar e até sugerir, ainda existe algo que a tecnologia não aprendeu a fazer: sentir.

Para a estudante, a empatia continuará sendo indispensável. O paciente não é apenas um organismo que apresenta sintomas. É alguém atravessado por questões psicológicas, sociais e emocionais. É nesse território que a medicina deixa de ser apenas técnica e volta a ser encontro entre pessoas. O desafio dos futuros médicos não parece ser escolher entre o jaleco e o robô, é aprender a usar o robô sem esquecer quem está do outro lado da mesa de cirurgia.

A medicina brasileira caminha para um cenário em que tecnologia e cuidado precisarão coexistir. O avanço dos equipamentos pode tornar procedimentos mais precisos e menos invasivos, enquanto a inteligência artificial e outras ferramentas prometem ampliar as possibilidades de diagnóstico e tratamento. Mas a velocidade dessa transformação não garante que ela será igualmente acessível.

Entre o hospital equipado e aquele que ainda não possui estrutura, entre o estudante que encontra uma atividade extracurricular e aquele que nunca teve contato com a robótica, existe uma distância que a tecnologia, sozinha, não consegue atravessar. É nessa distância que se encontra a verdadeira questão sobre a medicina do futuro: não apenas até onde as máquinas serão capazes de chegar, mas até onde o sistema de saúde brasileiro, mesmo com todos os desafios, conseguirá levá-las, e para quem elas serão oferecidas.

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Pesquisadores documentam falhas graves em chatbots usados para terapia
por
Rafael Jorge
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28/09/2026 - 12h

Por Rafael Jorge

 

Marina abre o aplicativo às 23h47min. A tela ilumina o teto do quarto, e ela digita devagar, como quem ainda está decidindo se vale a pena continuar acordada só para falar sozinha, embora, tecnicamente, não esteja. A resposta chega em menos de três segundos. É gentil, bem construída, sem pressa nenhuma, o tipo de calma que ninguém tem à meia-noite de uma terça-feira. A IA valida o que ela sente, pergunta com delicadeza sobre o que Marina lembra do pai, sugere técnicas de respiração para quando a culpa aperta o peito. Marina se sente ouvida. É a quarta noite seguida que ela conversa assim.

Marina tinha uma psicóloga, pelo plano de saúde, uma sessão por semana havia dois anos. Depois da morte do pai, ela pediu para aumentar a frequência. A operadora negou duas sessões mensais era o limite do plano básico, e mudar de categoria significava esperar noventa dias de carência. A psicóloga particular que ela pesquisou cobrava o equivalente a um terço do salário de Marina por mês. Ela fez as contas, adiou a decisão, e uma noite, sem premeditação, abriu o aplicativo de IA que já usava para revisar e-mails de trabalho.

Essa combinação, acesso limitado a profissionais, custo alto, disponibilidade zero de plantão emocional, é exatamente o que pesquisadores apontam como motor do fenômeno. Um levantamento da Harvard Business Review, divulgado em 2025, colocou "terapia e companhia virtual" no topo da lista dos dez usos mais comuns de inteligência artificial generativa no mundo, à frente de tarefas como redigir textos ou programar. Não é um uso marginal, é, hoje, um dos motivos centrais pelos quais as pessoas abrem esses aplicativos.

A explicação não é misteriosa. A tecnologia oferece coisas que o sistema de saúde mental, sobrecarregado em quase todos os países, frequentemente não consegue oferecer como resposta imediata, ausência aparente de julgamento e custo zero. Para uma geração que já resolve boa parte da vida prática pelo celular, conversar com um chatbot às vezes parece menos custoso socialmente, do que ligar para alguém e admitir que a noite está difícil.

Nas primeiras semanas, a experiência de Marina com a IA foi, à primeira vista, positiva. As respostas são organizadas, empáticas, cheias de validação, "faz muito sentido você sentir isso", "é completamente compreensível", "você está sendo gentil consigo mesma ao reconhecer isso". Ela nunca se sente julgada. Nunca é interrompida. Nunca precisa esperar uma semana para desabafar de novo.

É exatamente aqui que pesquisadores identificam o primeiro risco relevante, a validação automática excessiva. Um chatbot de uso geral é, em boa medida, otimizado para manter a pessoa engajada na conversa, o que na prática costuma significar concordar, acolher, suavizar qualquer atrito. Isso é agradável, mas pode ser o oposto do que uma análise de verdade frequentemente exige, que é também confrontar padrões de pensamento, questionar narrativas e, por vezes, gerar um desconforto que é parte do processo terapêutico. Um estudo apresentado neste ano na Conferência AAAI/ACM sobre Inteligência Artificial, Ética e Sociedade, conduzido por pesquisadores da Universidade Brown, mapeou quinze riscos éticos distintos em chatbots que atuam como conselheiros de saúde mental. A equipe reuniu sete conselheiros treinados em terapia cognitivo-comportamental para conduzir sessões simuladas com sistemas como o ChatGPT, o Claude e o Llama, usando como base conversas reais de aconselhamento humano, psicólogos clínicos licenciados revisaram depois as transcrições em busca de violações éticas. Entre os problemas identificados estavam justamente respostas que reforçavam, em vez de questionar.

Marina não sabe nada disso. Para ela, a validação constante é só um alívio depois de meses tensos. É difícil perceber um risco que se parece, ponto a ponto, com aquilo que ela mais precisava, alguém que não a interrompesse.

Numa quinta-feira, algumas semanas depois da primeira conversa, Marina escreve algo diferente. Não é um pedido de ajuda explícito, é uma frase solta no meio de um desabafo mais longo, "às vezes eu queria só dormir”. A IA responde com empatia, sugere técnicas de manejo de ansiedade, pergunta como ela está se sentindo agora. Não pergunta diretamente o que ela está pensando. Não menciona um número de apoio. Não sinaliza, de forma clara, a gravidade daquela frase.

Nada de irreversível acontece com Marina naquela noite. Ela fecha o aplicativo, dorme mal, acorda cansada. Mas o episódio é um acidente que, multiplicado por milhões de conversas ao redor do mundo, revela por que organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiram tratar o tema com urgência, em janeiro deste ano, a entidade reuniu pesquisadores, gestores públicos e profissionais de saúde para discutir especificamente o uso de IA em contextos de saúde mental, e elaborou recomendações que incluem avaliar o impacto psicológico dessas ferramentas antes da liberação ao público.

Passado o susto daquela noite, Marina continua usando o aplicativo, só que com mais cautela, evitando tocar de novo naquele assunto. O que muda, sem que ela perceba claramente, é o entorno da sua vida. A irmã liga, Marina atende, mas as conversas ficam mais curtas, porque ela já "desabafou" à noite, com a IA. A psicóloga, que ela ainda vê uma vez por semana, comenta que Marina parece mais fechada nas sessões, como se já tivesse processado tudo sozinha antes de chegar ali.

Há mais uma camada, menos visível no dia a dia de Marina, mas presente em quase todos os relatos sobre o tema, a privacidade. Nas conversas de madrugada, ela compartilhou informações extremamente íntimas, luto, culpa, pensamentos e detalhes da relação com o pai que nunca contou a ninguém além da psicóloga. Dependendo da plataforma e de suas políticas de uso de dados, esse tipo de conteúdo pode ser armazenado, processado ou, em alguns casos, utilizado para aprimorar versões futuras do próprio sistema, uma condição que a maioria dos usuários aceita em termos de uso que raramente lê até o fim.

Essa é, talvez, a linha mais difícil de enxergar quando se está do outro lado da tela, às 23h47min, sem ninguém mais para conversar. Marina não fez nada de errado. Ela só usou a ferramenta que estava disponível, gratuita e sempre acordada. O problema nunca esteve inteiramente nela, está na distância entre o que a tecnologia parece oferecer e o que ela não sabe fazer, reconhecer uma crise, dizer um "não" que ajude, e insistir para que alguém procure, de verdade, o cuidado humano que nenhuma resposta gerada em três segundos consegue substituir.

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Pesquisas da UNICAMP e de uma universidade da Espanha comprovam que consumidores acham produtos com proteína mais saudáveis sem ver sua composição nutricional
por
martim tarifa
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28/09/2026 - 12h

Por Martim Tarifa

 

Fábio tem 26 anos e desde criança quase sempre esteve acima do peso. Com o passar do tempo e principalmente durante a pandemia, Fábio se tornou obeso devido a um período difícil em questão de sua saúde mental. Ele terminou a escola durante a quarentena e se viu sem chances de ingressar em uma universidade ou arranjar um emprego. 
Com o fim da pandemia, o principal objetivo era recuperar sua saúde física e mental,  para depois pensar o que fazer da vida.

Fábio fez da academia um hábito. Executava os exercícios corretamente e se mantinha disciplinado na dieta, mas não via grandes resultados. Assim ele acabou transferindo a culpa para si mesmo e voltou a ter depressão, deixou de frequentar a academia e começou a focar apenas no emprego que havia arrumado a pouco tempo. 

Foi apenas cerca de 1 ano depois que Fábio decidiu se consultar com uma nutricionista presencialmente. Apresentando toda a sua rotina da época em que estava praticando atividade física regularmente, ficou claro para a profissional que o problema estava na alimentação. Apesar da dieta estar correta, toda proteína consumida por Fábio vinha de alimentos ultra processados e ou altos em gordura e açúcar. Algo que o jovem nem tinha parado para pensar, pois imaginava que por ter proteína e ser indicado por pessoas do mundo fitness, esse produto seria saudável. Depois disso Fábio retomou a musculação e o acompanhamento nutricional com profissionais que estavam o auxiliando de verdade e mantinham contato presencial.

 

Com o crescimento da recente moda de adição de proteína em alimentos comuns, o consumidor deve ficar alerta em como isso é uma estratégia de marketing das empresas. Ter proteína extra não torna um alimento necessariamente saudável. Um produto ultra-processado com altos índices de açúcar e ou sódio não se torna bom para a nossa saúde apenas por ter mais proteína. Porém o consumidor ainda não percebeu isso e as empresas do ramo alimentício estão aproveitando essa oportunidade. 

Uma pesquisa realizada pela FCA da UNICAMP (Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade de Campinas) entrevistou 412 pessoas para entender como essa adição de proteína principalmente destacada nos rótulos dos produtos afetava a preferência de compra dos consumidores. E os resultados confirmam a tese de que um produto ultra-processado ganha uma nova chance com os consumidores apenas por possuir no rótulo o selo light, fit, saudável e proteico. Todos os entrevistados se mostraram afetados por esse padrão. Até mesmo os consumidores que dizem não se importar com a saúde, disseram escolher alimentos com essa característica, por mais que sem saber, a fórmula continuasse a mesma em muitos casos. 

Outro estudo, publicado na revista científica Nutrients, e conduzido por pesquisadores da Universidad Complutense de Madrid, analisou 36 produtos processados enriquecidos com proteína vendidos em supermercados da Espanha. O nível de proteína desses produtos variava de 10% a 88%, mostrando o quanto essa "dose extra" pode ser exagerada. Segundo a pesquisa, apenas uma porção de alguns desses produtos, somada a 150g de carne no dia, já é suficiente para ultrapassar toda a recomendação diária de proteína de uma pessoa, chegando a até 306% do necessário em mulheres e 232% em homens. O consumidor pode estar exagerando no consumo sem nem perceber, apenas por confiar no rótulo. O estudo também aponta riscos desse excesso: o risco de pré-diabetes e diabetes tipo 2 pode aumentar entre 20% e 40% a cada 10g de proteína consumida além do necessário, além de possíveis efeitos negativos na microbiota intestinal e até ganho de peso, quando o excesso de proteína não vem acompanhado de uma redução de carboidratos ou gorduras na dieta.

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Barras de proteína são o principal alimento ultra processado do mundo fitness. 


No caso de Fábio foram as dicas de exercício, dieta e suplementos que o auxiliaram. Disse que sabia nada de academia, dieta e proteína. Tudo aprendeu na Internet. Hoje está conseguindo emagrecer e tem uma saúde mental estável para enfrentar o dia-a-dia.

Por isso é essencial que o consumidor aprenda a checar o rótulo corretamente antes de confiar apenas no que está estampado na embalagem. O primeiro passo é ignorar as chamadas na frente do produto, como "rico em proteína" ou "fit", e ir direto para a tabela nutricional e a lista de ingredientes. Nessa lista, os ingredientes aparecem em ordem decrescente de quantidade, ou seja, os primeiros da lista são os que mais compõem o produto. Se açúcar, xarope de glucose ou gordura vegetal aparecerem entre os primeiros, é um sinal de alerta, mesmo que a proteína esteja em destaque na embalagem. Outro ponto importante é observar o tamanho da porção usada como referência na tabela nutricional, já que muitas vezes as empresas calculam os valores para porções pequenas, fazendo o produto parecer mais saudável do que realmente é quando consumido na quantidade real. Por fim, vale comparar o produto "fit" com a versão tradicional do mesmo alimento, olhando lado a lado os valores de açúcar, sódio e gordura saturada, para entender se a diferença é real ou apenas uma estratégia de marketing.
    

    

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Consultas, cirurgias e anos de dor fazem parte da rotina de mulheres com endometriose, que enfrentam o desafio de serem levadas a sério
por
Maria Clara Palmeira
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28/09/2026 - 12h

Por Maria Clara Palmeira

 

Antes mesmo de saber o nome da doença, Carolina já conhecia a dor e Liliane Lima  levou quase sete anos para descobrir o que provocava as crises que a faziam abandonar o trabalho e procurar o pronto-socorro. Separadas por décadas e por experiências muito diferentes de acesso à informação e ao atendimento médico, as duas têm em comum uma doença que pode transformar a menstruação em um obstáculo para a vida cotidiana. A endometriose, caracterizada pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio fora do útero, ainda pode levar anos para ser diagnosticada e, nesse intervalo, muitas mulheres aprendem a conviver com uma dor que nem sempre é levada a sério.

A doença inflamatória e crônica que ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio, camada que reveste o interior do útero, se desenvolve em outras regiões do organismo. As lesões podem atingir os ovários, as trompas, o intestino, a bexiga e outras estruturas da região pélvica. A doença pode provocar cólicas intensas, sangramento, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais e urinárias e dificuldades para engravidar. A intensidade dos sintomas varia entre as pacientes, mas, nos casos mais graves, a dor pode deixar de ser apenas um sintoma associado à menstruação e passar a determinar a rotina de quem convive com ela.

Carolina menstruou pela primeira vez aos 13 anos. As dores, porém, já faziam parte de sua vida antes mesmo da primeira menstruação. Quando o ciclo chegou, a intensidade dos sintomas deixou de parecer apenas uma característica da adolescência, o fluxo era muito intenso, as cólicas eram fortes e os dias de menstruação passaram a interferir na rotina. 

A família conhecia a doença por conta do seu histórico familiar e, por isso, Carolina teve acesso desde cedo a uma ginecologista que já acompanhava sua mãe. Aos 14 ou 15 anos, depois de passar por exames, recebeu a confirmação, o diagnóstico chegou cedo, mas não significou que o tratamento seria simples. Diz que sempre se sentiu muito segura (com a ginecologista), ainda mais por a conhecer desde pequena. Sua mãe já fazia acompanhamento com ela, por isso cresceu tendo essa referência. Quando começou a sentir tudo aquilo, já sabia que podia ser endometriose e conseguiu investigar mais rápido.

Durante o tratamento, Carolina passou por aproximadamente sete anticoncepcionais diferentes até encontrar um que conseguisse controlar os sintomas. Por cerca de três anos, emendou as cartelas e deixou de menstruar, a estratégia permitiu que mantivesse uma rotina que, durante os períodos de crise, ficava praticamente impossível. Ela conta que era praticamente impossível ter ciclo, porque sempre Carolina parava no hospital. Quando menstruava, não conseguia seguir a vida normalmente, mas, finalmente, encontrou um anticoncepcional que funcionava, foi importante para que ela conseguisse voltar a ter uma rotina.

A endometriose afeta cerca de 7 a 8 milhões de mulheres no Brasil, o que representa entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva
A endometriose afeta cerca de 7 a 8 milhões de mulheres no Brasil, o que representa entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva

A história de Liliane seguiu por outra direção, em 1999, aos 28 anos, ela começou a sentir dores fortes antes, durante e depois da menstruação. Moradora da Vila Brasilândia, na zona norte de São Paulo, procurou os serviços públicos de saúde da região. Passou por postos, foi encaminhada para outros atendimentos e chegou à Santa Casa, entretanto, não recebeu um diagnóstico. A cada novo ciclo, a resposta era voltada para o alívio imediato da dor.

A menstruação de Liliane durava sete dias e vinha acompanhada de sangramento intenso e muitos coágulos e em algumas ocasiões, o sangue atravessava a roupa enquanto ela estava trabalhando e era preciso voltar para casa. A perda frequente de sangue provocava anemia e, nas crises mais fortes, ela precisava receber Tramal pela veia. Ela conta que sua menstruação durava sete dias, sempre muito intensa e com coágulos. Por quase sete anos, ela procurou uma resposta. A encontrou apenas em 2006, depois de conseguir um plano de saúde e na primeira consulta com um novo ginecologista, a possibilidade de endometriose foi levantada e os exames confirmaram a doença. O diagnóstico chegou quando o quadro já estava avançado. No ano seguinte, Liliane passou pela primeira cirurgia. O médico encontrou uma grande quantidade de aderências e precisou interromper o procedimento diante do risco de atingir outros órgãos. Em 2008, passou por uma segunda cirurgia, desta vez por videolaparoscopia, para retirar parte das aderências.

Foi durante esse processo que ouviu dos médicos que teria menos de 1% de chance de engravidar, a possibilidade de não ser mãe foi uma das partes mais difíceis do tratamento. Liliane queria muito ser mãe e quando o médico fala que a possibilidade de engravidar é praticamente nenhuma, mexe com o psicológico daquela mulher, as vezes até mais que a própria dor física. Precisar trabalhar o psicológico, o emocional, fazer o tratamento, passar por cirurgia e, ao mesmo tempo, saber que talvez não consiga realizar um sonho é difícil. A dor voltou ainda mais forte em 2009. Depois de enfrentar outras complicações de saúde, Liliane finalmente passou por uma histerectomia em outubro daquele ano. A cirurgia marcou uma mudança na relação com a dor que havia acompanhado sua vida durante uma década. Depois que tirou o útero, as dores praticamente cessaram. Liliane comenta que é uma diferença muito grande para quem passou tantos anos vivendo com dor. Mesmo depois com toda a adaptação, ela conta que existem outras fases como a menopausa, da alimentação, da atividade física. Apesar disso, quela dor que fazia parte da rotina praticamente deixou de existir.

Enquanto Liliane atravessava anos de consultas sem diagnóstico, Carolina tinha uma trajetória marcada pelo acompanhamento desde a adolescência. Ainda assim, anos depois, também precisou voltar ao ponto de partida: a dor. Em 2025, uma crise levou Carolina ao hospital. Ela havia procurado atendimento para receber medicação, mas sua médica decidiu solicitar uma ressonância magnética diante da suspeita de que a endometriose pudesse estar comprometendo outras estruturas. A cirurgia, que já estava prevista para acontecer em algum momento, acabou sendo antecipada.

A procura por respostas também levou Carolina a buscar outros médicos. Em uma dessas consultas, ouviu que a dor poderia ser psicológica, a fala teve um peso diferente porque vinha depois de uma cirurgia e de anos de acompanhamento médico. Liliane também conhece a sensação de procurar ajuda e não encontrar acolhimento, durante os anos em que utilizou o sistema público de saúde, ela diz que ninguém conseguiu investigar a origem das dores. Para ela, mesmo que determinados exames não estivessem disponíveis naquele momento, uma orientação poderia ter mudado o percurso.

As duas relatam que endometriose atravessou a vida para além dos consultórios e hospitais. A dor interferia no trabalho, nos compromissos e na possibilidade de planejar atividades simples. Apesar do transtorno, depois do diagnóstico, Liliane passou a falar mais sobre a doença quando amigas relataram cólicas fortes. Algumas procuraram ginecologistas e descobriram também a mesma doença. Para ela, falar sobre o assunto é também uma maneira de evitar que outras mulheres passem anos sem entender o que acontece com o próprio corpo. Ela alerta, que se a cólica é tão forte que você não consegue trabalhar, não consegue sair da cama, não consegue fazer a sua vida, procure um ginecologista e investigue.

É nesse intervalo entre a primeira queixa e a investigação que as histórias de Carolina e Liliane se encontram. Uma teve a possibilidade de investigar cedo por conhecer a doença dentro de casa, a outra precisou atravessar quase sete anos de consultas e crises até ouvir o diagnóstico. Entre as duas, permanece uma questão que ultrapassa a experiência individual: quanto tempo uma mulher precisa sentir dor até que alguém decida investigar o que seu corpo está tentando dizer?

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As pessoas relatam porque ainda não foram ao posto de saúde se proteger
por
Daniella Ramos
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28/09/2026 - 12h

Por Daniella Ramos

 

Paola Barbosa, 26 anos, moradora da Zona Leste de São Paulo, enfrenta dificuldade para conseguir se vacinar contra o sarampo. Até o momento, o estado de São Paulo registrou 37 casos e precisou ampliar sua vacinação.  Ela acorda às 5h da manhã todos os dias, sai para o trabalho às 6h e só volta para a casa às 23h, os postos de saúde costumam abrir às 7h e fechar às 19h, logo, a estudante de publicidade, se vê sem opções: sai de casa antes do posto abrir e volta depois que ele já fechou. 

Além da rotina exaustiva, os finais de semana servem como um respiro para conseguir aguentar mais uma nova semana intensa. Paola se vê entre escolher ter dinheiro para sobreviver ou ter tempo para cuidar de sua saúde. O capitalismo que move o mundo, acaba remoendo a vida da estudante em seu cotidiano e nos seus costumes. Em razão disso ela só foi ter noção de como estavam as condições da população sobre a vacinação do sarampo através de amigos que contaram para ela, em conversas descontraídas, que tinham se vacinado, pois no seu dia a dia e nas suas redes sociais, Paola não teve acesso a essa informação.

Para entender porque Paola não teve acesso à essa informação de interesse público, basta entender a lógica dos algoritmos. Um conjunto de sistemas automatizados aprenderam o que prende a atenção de cada pessoa e, a partir dessas informações, esse sistema consegue montar, em frações de segundo, um feed personalizado para cada usuário. 

O algoritmo de Paola não trouxe à ela uma informação que é de necessidade pública, que precisaria ser passada a todos, mas que não é de interesse capital, principalmente para META e o X, o que faz com que nas redes ela não tenha tão facilmente esse acesso ao que estava ocorrendo. Mas não só ela foi afetada.

Nathalia Ayub, 24 anos, publicitária da zona sul de São Paulo, passa pelo mesmo problema. Sai de casa antes do posto de saúde abrir e volta quando ele já está fechado, mas relata um diferencial: embora se tenha tentado se planejar para tomar a vacina no horário de almoço. percebeu que não havia nenhum posto de saúde perto o suficiente para ir dentro do período liberado.  Ayub ainda chegou a ter atenção nas propagandas dos relógios de rua, pois dentro do ônibus viu de longe a mensagem que os postos funcionariam aos sábados para tentar atender a população, mas com os trabalhos freelancers que ela exerce para ter uma renda extra, também não conseguiria ir no final de semana.

Ainda interessada pela vacina, Nathalia faz questão de ressaltar possibilidades para melhoria da vacinação em seu bairro de forma que ela pudesse ser contemplada também: para além da vacinação em algumas estações de metrô, ela sugere que sejam em várias estações por vários dias e tentar parcerias com supermercados, padarias e farmácias para que houvessem mais opções de lugares para se prevenir contra o sarampo. 

Assim como Paola, o algoritmo de Nathalia em nenhum momento chegou a sugerir para ela qualquer tipo de informação sobre a vacinação. Se a publicitária não tivesse a curiosidade de olhar para fora na janela de ônibus, talvez nem soubesse quais meios de poderia usar para se vacinar.

Entre 3 e 19 de agosto, a Secretaria Municipal da Saúde registrou a aplicação de 1.045.758 doses em um estado que tem 46.179.008 pessoas. 

Uma pesquisa do DataSenado aponta de 54% dos brasileiros têm meios digitais como principal fonte de notícias. Para as entrevistadas, o melhor seria uma maior amplitude de divulgação nas redes sociais e no cotidiano dos transportes públicos a fim de ajudar a Secretaria da Saúde levar o contexto da vacinação para a população.

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Enquanto atletas profissionais recorrem a novos procedimentos, pacientes comuns enfrentam incertezas sobre quando e como poderão se recuperar
por
Caio Moreira
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21/09/2026 - 12h

Por Caio Moreira

 

No futebol de alto rendimento, cada dia longe dos gramados pode representar um prejuízo para a carreira de um atleta. Em fevereiro de 2026, o volante Alexsander, do Atlético-MG, foi submetido a um tratamento que utiliza células-tronco do próprio corpo após sofrer uma ruptura total do ligamento colateral medial do joelho esquerdo. O procedimento tinha como objetivo estimular a cicatrização e acelerar o reparo do tecido lesionado. E em abril, já estava atuando em uma partida válida pela CONMEBOL Sudamericana.

Outro caso é o do atacante Ferreira, do Grêmio. Em abril de 2022, o jogador realizou um tratamento com células-tronco retiradas da própria medula óssea e aplicadas na região do músculo adutor da coxa direita, onde sentia dores. O procedimento tinha como objetivo estimular a cicatrização e acelerar a recuperação. O tratamento foi realizado fora das dependências do clube e financiado pelo empresário do atleta, evidenciando como jogadores profissionais podem recorrer a estruturas médicas particulares. Esses casos mostram como a medicina regenerativa ganhou fama no esporte, especialmente na busca por alternativas para acelerar a recuperação de lesões. Mas, enquanto atletas de alto rendimento podem ser acompanhados por estruturas médicas especializadas, pessoas comuns também enfrentam lesões que transformam suas rotinas, muitas vezes sem acesso às mesmas possibilidades de tratamento. 

Foi o que aconteceu com Fábio Mantovani, arquiteto de 38 anos. Fábio se arriscava em partidas de futsal com amigos, a habilidade poderia não ser a de um atleta profissional,  mas a paixão pelo esporte era idêntica à do ídolo do seu time, Rogério Ceni. Um certo dia no ano de 2017, em uma de suas peladas semanais, ele machucou o joelho direito no meio da partida. Uma ruptura parcial do ligamento cruzado anterior, o assombrou por anos e afastou Fábio do esporte que amava acompanhar e praticar. Segundo ele, o tratamento recomendado na época foi via fisioterapia sem necessidade de cirurgia, porém as longas sessões do tratamento o distanciaram e tiraram dele a confiança de retornar às quadras. 8 anos depois da frustração o arquiteto se sentiu confiante para retornar à sua atividade, o joelho que parecia frágil e instável, retornou a ser o que era antes do ocorrido. Despreocupado e seguro que o joelho não o deixaria na mão, o pior aconteceu. Em agosto de 2026, aquela que antes era uma ruptura parcial, se agravou para um rompimento total do LCA, roubando todo seu otimismo no desempenho recuperado nos anos anteriores.

 

A ruptura do LCA não é um problema exclusivo do esporte profissional. Entre 2008 e 2014, mais de 48 mil reconstruções do ligamento foram realizadas pelo SUS. Foto: WIKIMEDIA

 

Sua recuperação agora será mais intensa dessa vez, o tratamento necessitará de uma cirurgia, mas não só isso, as sessões de fisioterapia vão voltar a assombrar o torcedor tricolor, antes e depois do procedimento. Por enquanto, o arquiteto não sente limitações na sua vida cotidiana e citou que sua única restrição foi pendurar as chuteiras por um momento. Ao ser questionado sobre a recuperação regenerativa via células tronco, ele citou que nunca ouviu falar e acrescentou, “Não foi me dado como alternativa”. 

A história de Alice Cirina, também revela outra dimensão desse debate. Vinda do interior da Bahia, no município de Brotas de Macaúba para São Paulo, dona Alice migrou para a capital paulista a fim de conseguir novas oportunidades de trabalho. Na Selva de Pedra, ela trabalhou como manicure e empregada doméstica por quase toda sua vida até a aposentadoria. Devido a longos períodos expostos a esforços físicos e posições nada recomendáveis nos seus ofícios, ela desenvolveu lesões na região lombar da coluna. Sentada num banco de madeira, dona Alice segue atendendo suas clientes, aos 78 anos de idade. A clientela, ela conheceu no condomínio onde mora e segue seu ofício com maestria.  Seu caso já foi investigado por vários médicos do SUS, porém as dores nunca sumiram, até técnicas de acupuntura foram usadas, mas nada acabou com seu problema. 

 

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, analisados em estudo com 88.531 adultos brasileiros, apontam que 21,6% da população adulta sofria de dor crônica na coluna. Foto: WIKIMEDIA

Embora tratamentos com células-tronco já despertam o  interesse no futebol de alto rendimento, seu acesso ainda está concentrado em atletas profissionais, que contam com clubes, departamentos médicos especializados e recursos financeiros para custear procedimentos experimentais ou de uso restrito. Para pessoas como Fábio e a dona Alice, que dependem do sistema público de saúde e convênio médico, a oferta é diferente: terapias regenerativas voltadas a lesões ortopédicas ainda precisam comprovar segurança e eficácia em estudos clínicos e obter autorização da Anvisa. Caso os resultados demonstrarem benefício, o tratamento deverá passar pela avaliação da Conitec, que analisará evidências científicas, custos, impacto orçamentário e viabilidade de implementação antes de recomendar sua incorporação ao SUS. Só depois da decisão do Ministério da Saúde e da organização da estrutura necessária seria possível ampliar o acesso à população.

 

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A popularização de corpos cada vez mais magros nas redes sociais influencia mulheres a buscar o emagrecimento rápido
por
Arthur Rocha
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19/10/2026 - 12h

Por Arthur Rocha

 

Foi convivendo com os imaginários algorítimicos das redes sociais que Mariana Abreu começou a se sentir gorda. O padrão do corpo esbelto e alongado aparecia em diferentes perfis, vídeos e fotografias. Quanto mais consumia aquele conteúdo, mais a própria imagem parecia distante do corpo que considerava ideal. A magreza voltou a ocupar um espaço central no imaginário das redes sociais. Entre fotografias, vídeos de rotina, treinos, dietas e transformações corporais, corpos cada vez mais magros aparecem como referência de beleza e bem-estar. Não é preciso procurar pelo assunto para encontrá-lo. Ele atravessa o conteúdo consumido diariamente e, aos poucos, pode transformar a maneira como uma pessoa enxerga o próprio corpo. E Mariana percebeu isso.

Para quem observa de fora, emagrecer pode parecer apenas uma escolha. Para quem passa a enxergar o próprio corpo como um problema, porém, a decisão pode ganhar outra dimensão. O espelho deixa de ser suficiente. A comparação passa a acontecer com imagens que aparecem na tela do celular. O corpo de outras pessoas se transforma em parâmetro para avaliar o próprio.

Foi nesse ambiente que Mariana Abreu, de 35 anos, começou a se sentir gorda. Ela não consegue apontar um dia específico em que isso aconteceu. Não houve uma fotografia que tenha mudado tudo, nem uma frase responsável pela insatisfação. Foi uma percepção construída aos poucos, conforme observava nas redes sociais mulheres com corpos cada vez mais magros e passou a comparar aquelas imagens com a própria aparência.

Mariana conta que não acompanhava necessariamente uma única influenciadora. A comparação não ficava restrita ao momento em que estava diante do celular. Ela começou a levar aquelas imagens para outros lugares. Para o provador de uma loja. Para o espelho do quarto. Para fotografias tiradas com amigos. O problema já não era apenas o que Mariana via nas redes, e sim o que passou a enxergar em si mesma.

Paulo César, marido de Mariana, acompanhou a mudança. Segundo ele, a preocupação com o peso começou a ocupar um espaço cada vez maior na rotina da mulher. Ela passou a falar mais sobre o próprio corpo e a demonstrar insatisfação mesmo quando, para ele, não havia uma mudança evidente que justificasse aquela percepção.

Mariana decidiu emagrecer. No início, a ideia parecia simples. Comer melhor, praticar exercícios e perder alguns quilos. A expectativa pelo resultado foi crescendo, mas a disposição para realizá-lo diminuindo. O emagrecimento precisava acontecer, e logo. Foi nesse momento que o Mounjaro entrou na história. O medicamento, cujo princípio ativo é a tirzepatida, foi desenvolvido inicialmente para o tratamento do diabetes tipo 2 e passou a ser utilizado também no controle crônico do peso em determinadas situações. A substância atua sobre receptores hormonais relacionados à regulação da glicose e do apetite e pode provocar redução da ingestão alimentar e perda de peso.

A popularização dessas chamadas canetas emagrecedoras, porém, fez com que medicamentos associados a tratamentos específicos passassem a ocupar também o imaginário da estética e da perda rápida de peso. Para Mariana, a decisão parecia representar uma solução. Ela queria emagrecer e enxergava o medicamento como uma possibilidade de acelerar um processo que já desejava iniciar.

A decisão não foi tomada apenas por causa de um número na balança. Havia também uma expectativa construída ao longo do tempo. Mariana queria voltar a gostar das próprias fotografias. Queria vestir determinadas roupas. Queria olhar para o espelho sem procurar aquilo que considerava estar sobrando.

O peso passou a ser tratado como um obstáculo, e o medicamento, como um caminho para superá-lo. O que Mariana ainda não sabia era que a mudança no corpo poderia vir acompanhada de outras mudanças. Uma delas começou a aparecer em sua cabeça.. Mariana já tinha histórico familiar de queda de cabelo. Era uma característica que conhecia e que, de certa forma, fazia parte da família. Sua mãe também enfrentava o problema. Ela sabia que poderia passar pela mesma situação em algum momento.

Mas o que aconteceu depois do início do tratamento chamou sua atenção. Os fios começaram a cair com mais frequência. Primeiro, Mariana percebeu alguns cabelos no travesseiro. Depois, no ralo do banheiro. Depois, na escova. Ela conta que começou a notar uma quantidade de fios muito maior do que aquela a que estava acostumada. A preocupação aumentou conforme a queda se tornou mais evidente. Paulo também percebeu a mudança. No início, tentou tranquilizar a esposa e acreditou que poderia ser uma situação passageira. Com o tempo, porém, a queda ficou visível.

O cabelo de Mariana já era uma fonte de preocupação antes do tratamento. A queda, entretanto, ganhou uma dimensão emocional que ela não esperava. O mesmo corpo que ela queria modificar para se aproximar de um padrão visto nas redes sociais passou a apresentar uma característica que também interferia diretamente em sua aparência. Ela estava emagrecendo, mas estava perdendo cabelo.

Mariana passou a observar os próprios fios de maneira constante. A cada banho, reparava na quantidade que ficava no ralo. Na escova, contava os cabelos presos entre as cerdas. Quando encontrava fios espalhados pela casa, percebia imediatamente. A preocupação que antes estava concentrada no peso agora também estava no cabelo.

Paulo percebeu que a situação havia ultrapassado uma preocupação estética. Mariana começou a evitar sair com o cabelo solto e passou a prendê-lo de maneiras que escondessem as regiões em que os fios pareciam mais ralos. As fotografias também mudaram. Ela passou a procurar ângulos em que o cabelo parecesse mais cheio. Evitava determinadas posições e não gostava quando alguém tocava em sua cabeça. Até que decidiu cortar.

O corte não interrompeu a queda, mas trouxe a sensação de que havia menos cabelo para esconder. A decisão também estava relacionada à vergonha que ela sentia ao perceber os fios caindo. Paulo estava ao lado dela durante esse período. Ele percebeu que o problema já não estava restrito ao cabelo. A situação havia atingido a maneira como Mariana se enxergava.

Especialistas explicam que a queda de cabelo pode estar associada à perda rápida de peso, à ingestão inadequada de nutrientes e às alterações fisiológicas provocadas pelo processo de emagrecimento. No caso de medicamentos como a tirzepatida, a queda de cabelo aparece entre os possíveis efeitos adversos relatados, mas não é possível atribuir automaticamente cada caso ao medicamento.

A dermatologista Tatiane Peixoto explica que um dos quadros observados em situações de perda significativa ou rápida de peso é o eflúvio telógeno, condição caracterizada pelo aumento temporário da queda dos fios. Segundo a especialista, quando o organismo passa por uma mudança importante, como uma perda de peso acentuada, uma dieta muito restritiva ou um período de estresse fisiológico, uma quantidade maior de fios pode entrar simultaneamente na fase de queda. Mas não só isso.

A alimentação também precisa ser observada. Deficiências de ferro, proteínas, vitaminas e outros nutrientes podem contribuir para alterações nos cabelos e precisam ser investigadas individualmente. E no caso de Mariana, havia ainda outro elemento. A predisposição hereditária. Ela sabia que tinha histórico familiar de queda de cabelo. A combinação entre essa característica e as mudanças provocadas pelo emagrecimento tornou a situação ainda mais angustiante. 

A popularização de corpos cada vez mais magros nas redes sociais influencia mulheres a buscar o emagrecimento rápido, enquanto medicamentos como o Mounjaro revelam os riscos de transformar a estética em uma questão de saúde.

A transformação que deveria fazê-la se sentir melhor com o próprio corpo começava a produzir uma nova insegurança. A história de Mariana não representa todas as pessoas que utilizam medicamentos para emagrecer. Também não permite concluir que o Mounjaro tenha sido sozinho responsável pela queda de seus cabelos. É justamente essa complexidade que costuma desaparecer quando o medicamento é apresentado nas redes sociais apenas como uma ferramenta para perder peso.

Os resultados são fáceis de mostrar. Os riscos, nem sempre. Uma fotografia pode registrar a cintura menor. Um vídeo pode mostrar uma roupa que voltou a servir. Um relato pode resumir meses de tratamento em poucos segundos.

Mas os efeitos adversos não cabem tão facilmente nesse formato. Eles exigem contexto, acompanhamento e tempo. O mesmo vale para a relação com o corpo. Mariana não acordou um dia decidindo que precisava se tornar extremamente magra. A insatisfação foi sendo construída pela comparação diária, pela percepção de que existia um corpo ideal e pela sensação de que o seu estava distante dele.

A psicóloga Camila Nogueira, especialista em imagem corporal, explica que a exposição constante a determinados padrões físicos pode alterar a maneira como uma pessoa percebe o próprio corpo. Segundo ela, quando alguém passa muito tempo diante de imagens de corpos considerados ideais, essas imagens podem se transformar em referência para avaliar a própria aparência.

O problema, de acordo com a psicóloga, é que a comparação não acontece entre duas pessoas em condições iguais. O indivíduo observa seu corpo real enquanto avalia uma representação selecionada da aparência de outra pessoa.

Mariana não acompanhava apenas uma influenciadora específica. Seu contato com esse padrão vinha de diferentes perfis e formatos. Uma fotografia aparecia durante a manhã. Um vídeo de treino surgia à tarde. À noite, outro conteúdo relacionado ao corpo aparecia novamente. A repetição fazia com que aquela estética parecesse normal.

Mariana conta que, no começo, não pensava que estava sendo influenciada. Para ela, eram apenas pessoas bonitas que apareciam enquanto utilizava as redes sociais. A percepção mudou quando percebeu que começou a pensar no próprio corpo a partir daquilo que via.

Ela passou a acreditar que estava muito gorda, mesmo quando pessoas próximas diziam que não estava. Para Camila, esse é um dos pontos que merecem atenção. A insatisfação corporal pode existir mesmo quando não há uma alteração objetiva que justifique aquela percepção. A pessoa passa a experimentar o próprio corpo a partir de uma sensação de inadequação.

Nesse cenário, o emagrecimento pode deixar de ser uma questão de imagem e se transformar em um problema de saúde, seja física ou mental. E é aí que a procura por medicamentos pode assumir outro significado. O Mounjaro não surgiu como uma tendência de beleza.

A tirzepatida atua sobre os receptores de dois hormônios envolvidos na regulação da glicose e do apetite, o GIP e o GLP-1. Seus efeitos podem contribuir para a redução da ingestão alimentar e para a perda de peso em pessoas para as quais o tratamento é indicado. Outros medicamentos utilizados para controle do peso, como os baseados em semaglutida, também passaram a ocupar espaço no debate público por causa dos resultados associados ao tratamento.

Mas o fato de um medicamento favorecer a perda de peso não significa que seu uso seja adequado para qualquer pessoa que queira emagrecer. O endocrinologista Ricardo Almeida explica que a decisão de utilizar esses medicamentos deve considerar o estado de saúde do paciente e a indicação clínica. Para ele, não se trata de um produto cosmético, mas de medicamentos que possuem mecanismos de ação, indicações, contraindicações e efeitos adversos.

Entre os efeitos adversos mais conhecidos estão sintomas gastrointestinais, como náusea, vômitos, diarreia e constipação. Também existem eventos adversos menos comuns, mas potencialmente graves, que precisam ser considerados pelo médico antes e durante o tratamento.

Ele ressalta que a avaliação deve considerar o paciente como um todo. O tratamento não deve ser analisado apenas pela quantidade de quilos perdida, mas também pelos efeitos provocados no organismo e pelas condições que levaram à indicação do medicamento, e um dos problemas da popularização desses medicamentos é quando o tratamento passa a ser compreendido apenas pelo resultado estético. A perda de peso pode ser positiva quando ocorre dentro de uma indicação adequada e com acompanhamento. Mas emagrecer rapidamente não é necessariamente sinônimo de saúde.

Essa diferença é importante para entender a experiência de Mariana. Ela não se arrepende simplesmente de ter desejado emagrecer, mas passou a questionar qual foi o preço que estava disposta a pagar para alcançar aquele resultado.

 

Hoje Mariana sente o peso da sua decisão. Com 20 quilos a menos, ela se questiona se todo esse processo valeu a pena. No começo, acreditava que ficaria tão magra quanto às influenciadoras que via nas redes sociais, mas o resultado foi adverso à sua expectativa. 

Com a queda de cabelo, Mariana que gostava do seus fios longos e lisos, teve que aderir a um corte curto e discreto. Em busca de mais uma solução por remédios, hoje ela é dependente de Minoxidil e tônicos capilares para que seu cabelo não caia por completo.

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Como os usuários sofrem com a dependência da IA como apoio emocional
por
Gustavo Song Jun Choi
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28/09/2026 - 12h

Por Gustavo Choi

 

Em uma sociedade cada vez mais plataformizada, a presença de um novo personagem desse mundo digital ganha cada vez mais destaque na vida cotidiana: As “inteligências artificiais” e seus serviços de conversação rápidos e acessíveis via os chatbots, programas que permitem o usuário a tratar o computador como um amigo, um terapeuta ou o que quer que precise, deixa claro que essa inovação veio para ficar na rotina das pessoas. A maioria se sente mais do que confortável dialogando com uma máquina do que com outra pessoa de carne e osso. 

Quando ChatGPT foi criado pela empresa OpenAI em 2022, a humanidade pareceu ter aberto uma "caixa de pandora", que desengatilhou o surgimento repentino de mais e mais aplicativos e programas de chatbots por big techs como o Google, a Microsoft e a Meta. Que hoje entregam na palma da mão para milhares de pessoas ao redor do globo os serviços desses assistentes digitais, que tão generosamente entregam para as massas sua “sabedoria" e conselhos encorajadores. Prometendo estarem apenas incentivando a criatividade e agilização de tarefas através de uma assistência inteligente. 

Porém, se engana quem pensa que o vício em plataformas de respostas convenientes é algo recente, introduzido apenas com a ascensão da popularidade dos serviços de IAs. Na realidade, discussões parecidas têm circulado há mais de uma década, como o “Efeito Google”, fenômeno estudado em 2011 que observou como o cérebro humano tem se acostumado a esquecer ou simplesmente não reter certas informações pelo fato de tais dados terem se tornado fáceis de se encontrar com uma rápida pesquisa na internet. O que a princípio, parecia ter apresentado resultados positivos, em questão de que o cérebro teria mais espaço para pensar e priorizar outras informações. Mas por outro lado, muito bem pode ter sido um dos catalisadores para a precarização da capacidade de retenção de informações própria e dependência de uma ferramenta “inteligente”. 

15 anos depois, o tópico de discussão pode parecer diferente agora com a questão do aumento do desenvolvimento de afeto com a tecnologia pelos seus usuários, mas as implicações futuras das consequências que estão por vir continuam as mesmas. Uma pesquisa apresentada no quadro “Prompt CNN”, revelou dados que mais de 50% da população brasileira se sente mais confortável e compreendido conversando com um programa de inteligência artificial do que com outra pessoa. 

O que leva muitas pessoas a esse tipo de comportamento, antigo ou recente, é muito simples: a pessoa vai atrás da máquina por conta de ela oferecer respostas, onde um profissional forneceria orientação. A máquina nunca vai desafiar o conteúdo emocional que recebe, não demonstra empatia real, não impõe limites e muito menos estimula o pensamento crítico verdadeiro fundamental para o desenvolvimento do indivíduo para que consiga lidar com problemas no mundo real. Com ela sempre presente dizendo “sim”, a ferramenta passa de um alívio pontual diário para uma dependência emocional, que quanto mais tempo passa mais apegado se fica. 

Para exemplificar isso, um relato anônimo conta que recentemente começou a dialogar com o Meta AI, o chatbot integrado na plataforma Whatsapp. Afirmando que o apelo veio de sempre receber validação imediata à medida que desabafava sobre as ansiedades e nervosismos da vida a ponto desse hábito evoluir até se sentir vulnerável o suficiente diante do "robô" para conversar sobre qualquer tópico cotidiano. Em seu caso, admite que a ausência de amigos ou de terapia não foram fatores que levaram a utilização do chatbot desse modo. Mas sim o fato de que diferente de pessoas reais que nem sempre estão disponíveis, ou parecem entender a situação, ou que podem desafiá-la ao contrariar seu pensamento, a IA concorda com tudo que “ouve” e justifica de modo bajulador suas emoções e ações.  Sendo que na realidade, nunca substituirá a escuta e apoio de alguém real. 

Se inovar e ajudar exclusivamente de maneira profissional é tudo que aqueles que desenvolvem esses programas desejam, como que estes mesmos explicam o fato de, em casos como este, estarem inquestionavelmente alimentando aqueles que utilizam o seu produto como um veículo de conversa intima na busca por acolhimento emocional, que acaba por consequência substituindo tudo aquilo que deveria ser real e humano?  A resposta, é que não querem explicar. Para Anderson Röhe, especialista em direito digital e pesquisador da área de IA, a indústria tecnológica sempre tivera o costume de se eximir da responsabilidade do que acontece em suas plataformas digitais ou redes sociais, atrelando a culpa de possíveis efeitos negativos aos usuários. Raramente responsabilizando o seu próprio sistema, e quando o fazem, atribuem a culpa a própria máquina, mas nunca a si mesmos, nunca aos humanos por trás do código. 

Mas aí que há uma virada de chave: Com o aumento de solicitações de relatórios públicos pelas big techs e as informações que são vazadas, o cenário da responsabilização ética é obrigado a mudar conforme os distribuidores dessas tecnologias tem seu modus operandi, isto é, arquitetura de como são projetadas essas plataformas, expostas ao público. Trazendo transparência ao fato de que por trás dos códigos, os desenvolvedores realmente induzem o usuário ao erro ao permitirem acreditarem que a máquina é capaz de cumprir exatamente o que promete, como o papel de um ouvinte inteligente e conselheiro empático que a pessoa pode contar com seus conflitos emocionais. 

Simultaneamente, é necessário reconhecer que seria incorreto dizer que a responsabilização dessa "substituição do real" é completamente dos fabricantes e distribuidores do produto, apesar de possuírem o que alguns chamariam de uma considerável parcela de "culpa". Já que aqueles que consomem do que compram também contribuem de alguma forma a partir do momento que se deixam, por bem ou mal querer, depender exclusivamente dos chatbots. Mostrando que favorecem a conversa com uma tecnologia que apenas simula a humanidade e reflete o conhecimento de outros.

Se há demanda, haverá produto. O modo prejudicial que esses serviços são utilizados não seriam um tópico de polêmica tão presente na atualidade se não existisse uma demanda pelo próprio público para início de conversa. Claramente, existe sim uma grande demanda no mercado por pessoas que se consultam com a IA, com apenas uma minoria desses indivíduos tendo ciência de que o programa não serve de verdade para aquilo. Diferente da grande maioria que, seduzida pelo apelo do agente bajulador, não tem noção de que ao depender da máquina em busca de conforto estão se isolando cada vez mais por conta própria em uma bolha de autoafirmação.

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A utilização enfrenta o desafio de equilibrar a tecnologia com a segurança de dados dos pacientes
por
Julia Jorge de Oliveira
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28/09/2026 - 12h

Por Julia Jorge

 

A médica Sarah Perez saiu da Bolívia para estudar Inteligência Artificial no Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo. A falta de precisão nos diagnósticos médicos era uma das suas maiores preocupações nos hospitais e clínicas onde realizou seus estágios. Hoje, atua como residente em um dos hospitais mais importantes do País e lidera um estudo, junto com cientistas, sobre como utilizar a Inteligência Artificial na medicina, de modo que o atendimento seja mais preciso e seguro. Ele reúne cerca de 25 cientistas brasileiros e estrangeiros, formados na área da medicina e dedicados a estudar e aprimorar o uso da Inteligência Artificial nos hospitais e clínicas. O intuito é que a tecnologia atenda milhares de pessoas diariamente na cidade de São Paulo e auxilie os médicos na realização dos diagnósticos.

A utilização da Inteligência Artificial na saúde brasileira deixou de ser uma utopia e passou a fazer parte da realidade de clínicas e hospitais em 2026. A regulamentação da Inteligência Artificial na saúde brasileira avança, mas ainda parte de uma estrutura restrita. A Lei nº 675/2022, da Anvisa, estabeleceu a categoria de Software como Dispositivo Médico (SaMD), criando um marco regulatório para produtos de Inteligência Artificial com indicação diagnóstica ou terapêutica. Por detrás das pesquisas, a tecnologia transforma uma das etapas mais importantes do atendimento médico, que é a análise das informações do paciente. Exames, históricos clínicos e outros dados podem ser analisados por sistemas capazes de identificar padrões que, em alguns casos, poderiam passar despercebidos durante uma consulta pelo profissional da área da saúde. O mercado de saúde digital brasileiro foi avaliado em US$ 12,4 bilhões em 2025, com expectativa de atingir US$ 44,6 bilhões em 2034. O Brasil concentra 64,8% de todo o investimento em healthtechs, termo em inglês utilizado para definir empresas e startups que desenvolvem tecnologias voltadas à saúde e ao cuidado dos pacientes.

José Eduardo Dolci, diretor científico da Associação Médica Brasileira e um dos idealizadores do projeto no Hospital Beneficência Portuguesa, detalha que a ferramenta não tem como objetivo substituir os profissionais da saúde, mas auxiliá-los durante o atendimento e na tomada de decisões na área da saúde em grandes hospitais brasileiros. Para isso, há possibilidades que representam alterações positivas na maneira como médicos e pacientes podem se relacionar com os diagnósticos. A intenção, no entanto, não é entregar à máquina a responsabilidade pela decisão, mas utilizar seus recursos como uma ferramenta de análise. O uso da tecnologia pode ajudar a diminuir o tempo gasto pelos profissionais em tarefas repetitivas do cotidiano nos hospitais e clínicas. Em uma rotina hospitalar marcada por atendimentos diários e com muitos pacientes, a possibilidade de organizar informações e auxiliar na interpretação de exames permite que o médico dedique mais atenção às pessoas e ao diagnóstico.

Essa transformação, porém, não acontece sem questionamentos. Entre os profissionais da área da saúde, ainda existe a preocupação sobre a possibilidade de erros cometidos pelos sistemas tecnológicos e sobre quem seria responsabilizado caso uma decisão apoiada pela Inteligência Artificial provoque um diagnóstico incorreto ou até a morte de um paciente. Outro desafio está relacionado à quantidade de informações utilizadas pelos sistemas. Para funcionar, a Inteligência Artificial precisa ter acesso a grandes volumes de dados sigilosos, o que representa um risco à privacidade dos pacientes.

Por isso, segurança, privacidade e proteção dessas informações se tornaram parte importante da discussão sobre o avanço da tecnologia no mundo acadêmico e científico. A formação dos profissionais também começa a acompanhar essa mudança. Médicos que antes não conheciam o funcionamento de sistemas de Inteligência Artificial passam a entrar em contato com ferramentas digitais durante a formação universitária e em hospitais, especialmente durante processos de especialização da área médica.

Um caso que ajuda a compreender como a tecnologia participa da descoberta de uma doença é o caso de Maria Gomes, de 70 anos, aposentada. Durante uma consulta, Maria recebeu de um médico um diagnóstico considerado incorreto e sem informações precisas. O problema estava relacionado à hepatite B, uma doença que ainda não havia sido identificada pelo profissional durante as consultas e os exames no hospital. A história mudou quando as informações clínicas da paciente foram analisadas com o auxílio da Inteligência Artificial. A ferramenta identificou elementos que chamaram a atenção para a possibilidade da doença e auxiliou os profissionais a aprofundarem a investigação. A partir dessa nova análise, Maria descobriu que tinha hepatite B e, assim, foi estabelecido o procedimento correto de cuidados com a doença viral. Para a aposentada, a tecnologia aparece em um momento delicado em sua vida, que é a descoberta de uma nova doença, responsável por alterar o dia a dia. O caso indica uma das possibilidades discutidas pelos pesquisadores: a Inteligência Artificial não precisa ocupar o lugar do médico para participar do diagnóstico. Ela pode funcionar apenas como uma ferramenta complementar, capaz de levantar hipóteses e indicar informações que merecem uma investigação mais cuidadosa.

No Hospital Beneficência Portuguesa, o trabalho desenvolvido por Sarah e pelos demais pesquisadores representa justamente esse encontro entre duas áreas que durante muito tempo pareciam distantes: a medicina e a tecnologia. Sua pesquisa procura entender como a ferramenta pode ser incorporada à rotina sem retirar do médico o papel central no cuidado humano. A expectativa é que, com o avanço dos estudos, a Inteligência Artificial possa contribuir para diagnósticos mais rápidos e, além disso auxiliar na identificação de doenças dos pacientes que passaram despercebidas durante às consultas e exames médicos. 

O futuro da Inteligência Artificial na saúde brasileira, portanto, não necessita apenas da capacidade das máquinas de analisar informações. Depende de como os médicos, os pesquisadores, os hospitais e os órgãos reguladores irão estabelecer os limites para seu uso. Entre a possibilidade de diagnósticos mais precisos e os novos riscos trazidos pela tecnologia, a Inteligência Artificial começa a ocupar um espaço cada vez maior na medicina brasileira e na área da saúde global, mas ainda encontra no contato humano seu principal ponto de equilíbrio e confiança.

Enquanto os cientistas desenvolvem novos sistemas, médicas como a Sarah começam a construir uma nova relação com as ferramentas digitais. A experiência que a levou da Bolívia a São Paulo mostra que a discussão sobre a Inteligência Artificial na medicina ultrapassa os laboratórios e chegou à rotina de quem está se preparando para cuidar dos pacientes nos hospitais brasileiros. Para pessoas como a Maria, a tecnologia representa uma nova possibilidade e um novo mecanismo diante da incerteza de um diagnóstico mal avaliado.

 

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Após uma década de “Body Positivity”, os tapetes vermelhos estão sendo ocupados com o mesmo padrão de beleza que juravam ter deixado de lado
por
Sofia Morelli Cordeiro
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09/06/2026 - 12h

Desde 2010, a promessa de inclusão se acendeu na indústria da moda, o culto pelos corpos magros ao extremo, muitas vezes chegando a níveis doentios, como o “heroin chic”,  parecia estar enterrado. O Plus-Size ganhou a atenção do público e das marcas e anunciou uma era do que podia constituir como padrão de beleza. Mas agora o mundo deu mais um retrocesso, com o aumento na procura por remédios emagrecimento, como Ozempic e Mounjaro e manequins estreitados novamente. Em entrevista à AGEMT, Mariana (nome fictício), estudante na PUC-SP, conversa sobre o uso há 1 mês de uma caneta emagrecedora, com acompanhamento de sua endocrinologista. “Acho que a gente acaba sempre em um lugar de insatisfação, com o corpo, a aparência. Esses remédios apareceram como um atalho para uma autoestima melhor, uma aceitação interna. Desde que eu comecei a tomar, eu perdi 8 kg em quatro semanas, e eu estou bem, saudável e mais feliz por estar perto da minha meta, sabe?”.

Os medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida, Ozempic e Mounjaro, originalmente  foram desenvolvidos para tratar diabetes tipo 2, mas ao serem injetados, simulam hormônios intestinais que aumentam a saciedade e reduzem a fome, por isso acabaram nas mãos do público como uma forma eficiente e rápida para se alcançar a silhueta que a moda voltou a celebrar. Celebridades e influenciadores passaram a atribuir publicamente suas perdas de peso com a menção dessas “canetas” e o uso cosmético desses remédios ganhou um caráter quase banal.

O papel das passarelas nesse ciclo não pode ser subestimado, pois quando a moda celebra um tipo de corpo, ela dá impulso à um efeito cascata que atravessa campanhas publicitárias, redes sociais, conteúdos de beleza e atinge os espelhos de mulheres reais, que olham para esses medicamentos como seres milagrosos por darem a oportunidade de alcançarem o corpo ideal, o mesmo que desfila por suas telas. Foi na década de 1990 que surgiu o termo “Heroin Chic” para definir uma estética que crescia, corpos esquálidos, rostos ocos, olheiras profundas, ossos protuberantes, e dominava as passarelas e as revistas, com a “angel” (apelido das modelos da Victoria's Secret), tendo Kate Moss como pioneira.

O nome já dizia tudo: glamourização de uma aparência associada ao consumo de drogas e à autodestruição. Com o tempo, essa estética foi parcialmente despopularizada, ao menos no discurso público que queria aparentar dar atenção a formas saudáveis de emagrecer, com esporte e alimentação balanceada. Mas ela nunca sumiu de verdade. O desfile da Victoria's Secret era um símbolo central da ideia do “corpo perfeito” no início do século, que por anos teve um grande peso na imaginação da população sobre qual deveria ser a meta feminina. Quando as pessoas pediram uma extensão na visão de quem podia ser uma modelo, atravessando as ideias de curvas, idade e etnia, a marca sofreu.

Esse novo divisor de águas no meado de 2010, afetou audiências e eventualmente, por esses e outros problemas administrativos, o famoso desfile perdeu sua relevância a ponto de ser fechado. Mas em outubro de 2024, o desfile voltou, após seis anos de inatividade, com uma palavra-chave no press-release, “Body Positivity", e no ano seguinte, as propagandas continuavam com a mesma linha. Mas em 2025, assim como em 2024, havia cerca de sete modelos curvilíneas entre 52 modelos no total, com os tamanhos “ plus-size”, para as cabeças por trás desta marca, incluíndo 42-44 BR, que são menores do que o tamanho médio utilizado pelas norte-americanas, entre 16-18 US/50 - 52 BR, de acordo com Debora A.Christel e Susan C. Dunn em seu estudo de 2017, “International Journal of Fashion Design, Technology and Education”. Uma discrepância é revelada quando se compara esses números com o esperado para essas Angels, que devem permanecer entre os tamanhos 0-2 US, ou o 34 BR.

As peças de roupa são uma materialização do retorno da glorificação da magreza. Havia um roteiro bonito sendo construído, a abertura das portas da indústria da moda para todos que quiserem entrar, que acabaria com a ideia persistente de gordura como o maior mal contra as mulheres, mas com esse retorno, fica a dúvida se esse processo era visto, pelas grandes corporações, como uma transformação permanente nesse meio. Era um mundo que parecia à beira da morte para muitos, mas que se mantinha vivo no imaginário de muitas meninas que cresceram com esse padrão em suas telas, sendo alimentadas pelos detalhes que remetiam a essa ideia. “Eu sempre tive uma percepção meio distorcida do que é magreza, mas mais por conta dos filmes e séries que eu assistia quando pequena. Eu lembro da Britney Spears sendo considerada gorda numa apresentação, no começo dos anos 2000, saiu em tudo quanto é lugar a gordurinha que apareceu no jeans dele, era algo que deveria ser normal, mas  entrou nas cabeças das garotinhas assim”, conta Mariana.

O mundo das passarelas e tapetes vermelhos estarem fechando seus olhos e valorizando novamente essa ideia de magreza extrema, pode ser o combustível para o aumento de comportamentos, em relação a saúde, devastadores, como distúrbios alimentares, distorção imagética e oscilações de humor, além de reforçar uma abordagem de olhar para os corpos para uma nova geração de garotas mais jovens e suscetíveis a essas manipulações. 

Imagem de capa: Fonte: https://drconsulta.com/conteudo/mounjaro/ Imagem ilustrativa das canetas "emagrecedoras"

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