Influenciados por conhecidos, buscando uma fuga da monotonia diária ou simplesmente curiosos, cada vez mais pessoas são agarradas pelos tentáculos do mundo das drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas, foi o caso de Antônio Almeida, que no seu aniversário de 14 anos limpo, conta sua experiência com as substâncias.
Assim como muitas pessoas, as influências externas foram o principal fator para que ele começasse a usar drogas: “eu comecei a usar no embalo, pra fazer parte de uma galera [...] eu via os meninos da rua e parecia que era mais legal aquele estilo de vida, mas não tinha nada de errado na minha vida, eram coisas que eu colocava na cabeça”
Além disso, uma quebra de expectativa fez com que Antônio acreditasse que poderia se controlar e que não entraria em apuros: “Sempre ouvi em casa que droga mata, que quem usa droga é criminalizado. Mas da primeira vez que eu usei droga (álcool e maconha) nada disso aconteceu comigo, inclusive foi muito legal, dei risada, me socializei, consegui trabalhar no dia seguinte...” mas o que ele não esperava, é que a situação progredia: “Eu achava que podia usar só de vez em quando, em alguns eventos. Eu sempre falava na época que a droga não pode te controlar, você quem deve controlar a droga.”
No entanto, as coisas começaram a piorar quando ele percebeu que apesar de só fazer uso nos finais de semana, Antônio já passava seus dias na expectativa da sexta-feira, para poder usar as substâncias.
Teve sua primeira experiência com cocaína aos 19 anos, e se assustou após fazer uso excessivo em uma festa e misturar com bebidas destiladas, e inclusive conseguiu ficar até os 26 anos sem fazer uso dessa droga em específico, apesar de continuar fazendo uso da maconha e do álcool: “Aquela ilusão de que a droga não ia me controlar era só da boca pra fora, pra poder justificar meu uso, já que eu pagava minhas contas e trabalhava.”
Os tentáculos das drogas se estreitaram em volta de Antônio por volta dos 27 anos de idade: “Foi quando eu comecei a misturar a maconha com outras drogas... Isso dava uma sensação de alívio pra uma vida que por falta de responsabilidade minha já não era mais confortável, meus amigos que não usavam droga focaram em estudar fora, se especializar, e eu fiquei usando drogas.”
“Quando eu comecei a misturar a maconha assim, o fundo de poço veio primeiro.”, ele chegou ao ponto de se envolver com o crack e passar a noite fora de casa usando a droga, Antônio conta que só não chegou a morar na rua pois sua mãe o deixava usar dentro de casa. Além disso, confessa dolorosamente que chegou ao ponto de cometer pequenos furtos, como roubar diesel de caminhões para vender e comprar a droga. “Eu me tornei alguém que eu nunca imaginei ser, eu sou uma pessoa de boa índole! E ainda assim, no final do meu uso eu cometia pequenos furtos, são coisas que eu me envergonho de falar sobre, são coisas que eu jamais pensei que faria.”
A situação se tornou ainda mais triste, quando mesmo com filha pequena em casa, ele ainda estava, com suas próprias palavras, isolado em sua laje, saindo apenas para pegar mais drogas: “Eu tentava ser pai, e lembro que mamadeira dava sono, e como estava ansioso para que ela dormisse, tinham dias que eu dava 5 mamadeiras de leite quente pra ela, sem me preocupar se aquilo faria mal para a criança, minha preocupação era fazê-la dormir logo para poder me drogar em paz.”
Mas uma pergunta fatídica fez Antônio começar a repensar sua situação e refletir sobre uma possibilidade de mudança: “Me perguntaram qual era a coisa que eu mais amava no mundo, e sem pensar duas vezes eu disse que era minha filha, e o terapeuta virou pra mim e disse: resposta errada, a coisa que você mais ama na vida é a droga, lembro até de ter ficado indignado, de tentar debater com ele.” Foi essa sessão que o fez perceber que ficava mais ansioso pra sua filha dormir e ele poder se drogar, do que para a droga acabar e ele ficar com a filha. “Eu não era esse cara, a droga que me fez assim, eu faço o possível pra ser o melhor pai do mundo.”
É aí que começa a jornada para uma vida melhor, aos seus 30 anos, Antônio é cercado por seus melhores amigos, seus primos e sua mãe, e recebe uma escolha: “A gente pesquisou uma clínica pra você, juntamos 15 pessoas pra pagar sua internação, e seu contrato está aqui, mas você só vai se você quiser. [...] Lembro vividamente desse dia, a primeira coisa que eu pensei foi na minha filha... Eu nunca vi droga na minha casa e ainda assim me tornei nóia, se ela crescer com um pai assim, imagina o que vai ser dela? Eu não posso deixar isso acontecer.” Ele escolheu ir para a clínica, e chegou no ambiente no dia 18 de maio de 2010, o último dia em que fez uso de drogas.
“Eu passei seis meses internado, mas no momento que entrei, eu já tomei a decisão de nunca mais voltar a usar drogas. Eu sabia que tinha alguém cuidando da minha filha, alguém pagando minhas contas e muita gente se dedicando pra me dar esse tratamento, então eu não ia desperdiçar.” Apesar da experiência desanimadora de viver no ambiente, cercado de pessoas que iam e vinham da clínica, devido à discrepância entre pessoas que se mantinham em recuperação, e pessoas que recaíam, Antônio diz que já viu muita gente sair e voltar semanas depois, mas ainda assim se manteve motivado, e conseguiu receber sua alta.
As estatísticas no Brasil são tristes, segundo pesquisas da Organização Mundial da Saúde, cerca de 6% da população brasileira faz uso de drogas, contabilizando aproximadamente mais de 12 milhões de pessoas.
A situação fica ainda mais deprimente ao se analisarem os dados de recuperação e recaídas, segundo um artigo publicado no site Clínica Bella, cerca de 95% dos dependentes químicos internados em clínicas sofrem recaídas após sua liberação. É necessário amparo e muita força de vontade por parte da pessoa dependente para sair por completo das drogas.
E Antônio é um exemplo perfeito de força de vontade. Após sair da clínica, uma frase ressoava em sua mente, ele não podia dar férias pro vício, seu tratamento nunca acabaria, e foi com isso na cabeça que ele buscou uma reunião de uma irmandade anônima de 12 passos, frequentando as reuniões até hoje: “Eu acredito que é frequentando o maior número de reuniões possível que eu consigo me manter limpo só por hoje, como costumamos dizer lá, há 14 anos. Hoje é um dia muito especial pra mim, é meu aniversário de 14 anos limpo, costumo comemorar esse dia mais do que meu aniversário, pois o dia que eu nasci eu não escolhi, mas hoje eu escolhi.”
Atualmente, Antônio continua frequentando as reuniões anônimas e se mantendo completamente afastado de qualquer droga, trabalha em dois empregos, faz trabalhos sociais, está casado há 10 anos e procura sempre ser o melhor pai possível para sua filha. “Eu sei que pra esse sucesso continuar, é preciso continuar a fazer minha parte, pra mim é uma alegria falar que apesar das estatísticas não serem animadoras, é possível viver sem drogas e se recuperar.”
*Os nomes nessa reportagem foram alterados para preservar a identidade e anonimato do entrevistado.
Esta matéria foi produzida como parte integrante das Atividades Extensionistas do curso de Jornalismo da PUC-SP.
Em 20 de janeiro deste ano, o território Yanomami foi declarado em Estado de Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional pelo Ministério da Saúde brasileiro. Concentrados em uma região Amazônica entre o Brasil e a Venezuela, com cerca de 30,4 mil habitantes, Yanomamis sofrem com a intensa atividade de garimpos ilegais no local. Epidemias - como gripe e malária - insegurança alimentar, morte sistemática de crianças indígenas e destruição do meio ambiente são provenientes das ações dos extrativistas na região.
Em entrevista por telefone ao repórter Artur Maciel, da Agência Maurício Tragtenberg (AGEMT), o presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami (Condisi) e representante do Conselho de Saúde Indigena (SESAI), Júnior Hekurari Yanomami, fala sobre a importância da atuação do poder público no combate ao genocídio provocado pela extração ilegal de minérios.

“A ajuda aos Yanomami deu esperança de poder olhar de novo. Olhar o sol brilhante na floresta que estava no escuro”. Júnior Hekurari Yanomami
A fim de combater a desassistência sanitária no território Yanomami, o Ministério da Saúde instalou o Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública (COE - Yanomami) - cuja gestão está sob a responsabilidade da SESAI. Segundo a pasta, ao chegar na terra Yanomami, o órgão “se deparou com crianças e idosos em estado grave de saúde, com desnutrição grave, além de muitos casos de malária, infecção respiratória aguda (IRA) e outros agravos”.
“Durante 6 meses, muita gente voluntária. Médicos. Enfermeiros. Farmacêuticos. De São Paulo, Rio de Janeiro, Paraíba”, explica Júnior Hekurari, quando questionado sobre o suporte atual na região após declarada crise sanitária. “A ajuda aos Yanomami deu esperança de poder olhar de novo. Olhar o sol brilhante na floresta que estava no escuro”.
Segundo ele, “antes não tínhamos uma visão, apenas medo. O garimpeiro poluindo nossas terras. Nossas águas. Interrompendo nossos rituais. Culpa do governo ladrão de jóias. As crianças voltaram a brincar e andar depois das ações”. “Eu tinha medo do povo morrer. Sem o Lula, o povo Yanomami ia morrer. Em 2020, 2021, 20 mil garimpeiros destruíram nossas vida” desabafa, citando o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e a atuação do Estado na crise humanitária. Mas pontua com veemência que “ainda tem muita coisa a melhorar”.
Quando perguntado sobre como era tratado o impacto ambiental na região, em relação ao lixo gerado pela atividade garimpeira, o presidente do Condisi declara que “os garimpeiros não respeitam. Desmatam e tiram a terra de nossa vida”. “Durante 4 anos, fomos abandonados pelo governo brasileiro. Por um governo ladrão de jóias. Agora o governo voltou e os profissionais de saúde estão apagando o fogo das emergências pensando em uma restauração”, completa. Ele se refere ao governo do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (PL), que não raras vezes, ao longo de sua vida pública, legitimou publicamente as atividades ilegais dos garimpos.
Doença, fome e violência: genocídio em prática
As doenças, a insegurança alimentar, a violência e a morte passaram a fazer parte do cotidiano dos Yanomami diante da negligência do Estado em frear a extração indevida de minérios na região. De acordo com levantamento do Malária Journal, o aumento do número de casos de malária - causa recorrente de mortes de crianças indígenas - na região Yanomami saltou de 2.559, em 2010, para 18.765, em 2020. Sobre a presença da doença na região, o representante da Sesai afirma que a doença contamina até mesmo quem vai em seu combate. “Muitos dos médicos 'adoeceu'. Pegou malária e voltaram (para casa)”, conta. “Mas o importante é que a maioria 'desse' profissionais viram Roraima. Viram o Brasil!”, completa, demonstrando, em sua voz, um misto de preocupação pela saúde dos profissionais e esperança diante da visibilidade à situação de seu povo.
Outro aspecto da presença dos garimpeiros na região é o acúmulo de lixo nas proximidades das comunidades. Por conta disso, os indígenas locais entram em contato com elementos provenientes de fontes aquém da natureza - produzidos com materiais que não se reintegram àquele território. Pelo contrário, o desequilibram e o prejudicam. “Hoje tem lama em todo lugar, os garimpeiros deixaram lixo em todo lugar. Máquinas, latas e lixo”.
O que nos leva a outro problema que compõe esse efeito dominó no descaso com a saúde Yanomami: a fome. A alimentação indígena é, primordialmente, garantida pela natureza por meio da caça, pesca e consumo de frutas. Diretamente afetada pelo uso de mercúrio no garimpo, a água foi contaminada. Com isso, peixes mortos, impróprios para consumo, perdem-se nos rios onde a atividade garimpeira está. “O garimpo destruiu nossos rios. Nossas vidas. As mulheres não iam pescar. Não tinha peixe nem camarão para comer. Mataram tudo, não tinha alimento”, aponta Junior. E questiona, em seguida: “que dia vamos voltar a comer peixe? Voltar a comer camarão? O povo não tem”.
Além da malária e da fome, os indígenas ainda precisavam se proteger de outro perigo. Júnior Hekurari Yanomami denuncia que os crimes cometidos pelos garimpeiros também se estendem à violência sexual. Deixando, ainda mais evidente, o risco que a presença desse grupo não-indígena e extrativista provoca na população local. “O que aconteceu aqui foi muito traumático. Meninas de 12 anos grávidas. Estupradas por garimpeiros. Estamos agregando trauma de mães com luta dos filhos. Deram tiros nas crianças”, expõe a liderança. “Destruíram meu povo. Tem cicatrizes grandes até hoje e vai demorar para curar. Talvez em 50 anos. Quem sabe se cura”, conclui, reflexivo.
*Esta reportagem foi produzida como atividade extensionista do curso de Jornalismo da PUC-SP.
Por Bianca Novais (texto) e Maria Eduarda Camargo (audiovisual)
Em um mundo pós-pandemia de Covid-19, os cuidados com a saúde deixaram de fazer parte de uma seção especial dos jornais e passaram a figurar entre os assuntos principais do cotidiano. Com a popularização dos nomes e marcas das indústrias farmacêuticas que desenvolveram e comercializam vacinas contra o coronavírus, a população passou a ficar mais atenta a outras informações sobre os produtos de saúde que consomem, em especial, medicamentos.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) publicou em 12 de dezembro de 2022 a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 768, que estabelece novas regras para rotulagem de remédios. Kim Gonçalves, coordenador de Assuntos Regulatório de uma multinacional farmacêutica, nos conta como tem sido o processo de atualização.
Apesar da Covid-19 ter trazido mais foco para a indústria da saúde e sua regulamentação, a atualização da rotulagem era uma pauta da ANVISA há muitos anos e foi justamente a pandemia que atrasou esse processo.
Uma das novidades que pode ser mais perceptível ao consumidor é a "substituição" da bula de papel pelo código bidimensional: um tipo de código de barras que possui capacidade melhor de armazenar dados, inclusive dados maiores, do que códigos lineares - algo como o CPF de cada unidade do medicamento, um número de identificação próprio -, que poderá ser acessado pelo paciente através da internet.
Este é um ponto de atenção para Kim, uma vez que o acesso às tecnologias digitais no Brasil está longe do ideal. Apesar disso, a substituição é viável para a estrutura informacional que temos no país hoje:
Outro legado da pandemia, infelizmente, é o uso incorreto de medicamentos e a automedicação. Para além dos conflitos políticos e ideológicos travados durante o período da doença, que vitimou mais de 700 mil brasileiros até a redação desta reportagem, segundo o DataSUS, o perigo do mal uso de remédios não se limita ao indivíduo, mas a toda sua comunidade. A atualização das rotulagens de medicamentos também ajuda pacientes e profissionais da saúde - médicos, farmacêuticos, enfermeiros, cuidadores, psicólogos e muitos outros - a combaterem os efeitos desta outra pandemia - a de desinformação.
Na última quarta-feira, 18, estudantes e professores dos cursos de Psicologia, Fonoaudiologia, Fisioterapia e Engenharia Biomédica da PUC-SP se mobilizaram contra o bloqueio dos estágios nos equipamentos de saúde do SUS (Sistema Único de Saúde) para o próximo ano. Em nota informativa, formalizada pela Comissão Aberta sobre os Estágios no SUS, estudantes independentes lideram a reivindicação de acesso, com apoio do corpo docente - com direito a aula pública - e a presença de figuras políticas no ato.
“É nosso dever reivindicarmos nossos direitos de formação, que é o estágio no SUS, [...] é nosso dever garantir, através da luta política, investimentos pesados em saúde, seguridade social e um ensino popular, pensado pela e para a classe trabalhadora”, declara a Comissão Aberta, em nota.

Enquanto ecoavam “A nossa luta é todo dia, o nosso estágio não é mercadoria”, os manifestantes estenderam faixas e cartazes em frente ao prédio da Fundasp e também ocuparam a Reitoria da universidade.

O problema foi gerado a partir de um impasse entre a PUC-SP e a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) quanto às contrapartidas oferecidas por instituições de ensino ao órgão. Apesar da entrega de R$176.162,23, a Secretaria determinou que a PUC-SP, por ser uma universidade privada, deveria pagar R$306.000,00 em materiais e equipamentos hospitalares. A medida vai contra o que normalmente é requisitado de instituições filantrópicas, como é o caso da Pontifícia.

Numa tentativa de negociação, a Universidade promoveu a ampliação dos serviços acadêmicos, incluindo disciplinas de graduação, pós-graduação e cursos de educação continuada, além de eventos e projetos educacionais. O objetivo é atender aos requisitos da Escola Municipal de Saúde/SMS, responsável pela promoção dos estágios dos cursos focados no segmento.
Segundo o atual presidente do Centro Acadêmico de Psicologia (CAPSI), André Sanches, o bloqueio de estágios no SUS é parte de um projeto maior de precarização da saúde pública, que visa colocar o ensino em uma lógica mercantilizada. Para ele, isso “vai contra tudo que nós defendemos aqui na PUC”. O estudante também afirmou à Agemt que a mobilização estudantil no ato representa a urgência do assunto e o descontentamento com o atual ritmo das negociações por parte da Reitoria e da Fundação São Paulo, mantenedora da PUC-SP.

A presença de preceptores nos estágios de psicologia também é uma problemática reivindicada pelos estudantes. No início deste ano, os estágios do curso passaram a ser obrigatoriamente acompanhados por preceptores - que atuam na supervisão das sessões realizadas por estagiários -, sob ameaça de processo aos administradores que não os incluíssem em seus turnos. Além disso, os estudantes reclamam da perda de autonomia e da interferência nos métodos utilizados no acompanhamento de pacientes na e condução de casos.
A assessoria de comunicação da PUC encaminhou a reportagem para a Direção da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde (FCHS) da universidade, que declarou em nota ter retomado as negociações com a Secretaria Municipal da Saúde.
"Informamos que reestabelecemos, com bom entendimento, o contato com a Prefeitura Municipal de São Paulo e Secretaria Municipal de Saúde e, ao longo da próxima semana, teremos reuniões para solucionar a questão dos estágios nos campos da SMS".
Procurada, a pasta municipal não respondeu até o fechamento desta edição. O espaço segue aberto para a SMS.
Por Cristiane Gabriel (texto)
Quando se examina a trajetória histórica, desde tempos antigos até o presente, torna-se evidente a existência de analogias entre o que era denominado "melancolia" e a atual definição de depressão. Antes, a melancolia era conceituada por Hipócrates como "melankholia," que se originava de "mêlas," significando negro, e "kholê," referindo-se à bile. Ela era vista como um dos humores presentes no corpo humano, ao lado da bile amarela, do sangue e da fleuma. Qualquer desequilíbrio entre esses elementos corporais poderia potencialmente resultar em "distúrbios."
Se antes era considerada apenas uma alteração de humor, hoje, a depressão é reconhecida como uma questão de saúde pública e denominada a “Doença do Século”, se manifesta por meio de sintomas como perda de interesse e falta de energia, afetando diretamente o bem-estar do paciente e podendo gerar obstáculos no ambiente de trabalho, nos estudos e nos relacionamentos interpessoais. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que um mínimo de 121 milhões de indivíduos sofrem com essa condição.
Os antidepressivos surgiram como uma abordagem terapêutica para a depressão, porém, não representam a única solução para essa situação. Esses medicamentos agem nos neurotransmissores, uma vez que há evidências de que desequilíbrios nesses compostos estejam associados à depressão.
São muitos os sintomas de quem tem depressão. Alguns podem ter vários, outros podem sentir apenas alguns. Mas, talvez o mais comum seja a indiferença repentina. “Eu me sentia constantemente triste e desmotivado, e até mesmo as atividades que costumavam me trazer alegria não pareciam mais ter significado”, diz um paciente que relutou a usar antidepressivos.
Além do estigma que as doenças mentais carregam, com o medicamento acontece o mesmo. Pacientes têm medo de usar pela disseminação de informações erradas, acreditando que um medicamento diário e que atinja seus neurotransmissores pode mudar sua personalidade: “No início, tomar antidepressivos foi um desafio. Lembro-me de sentir preocupação sobre os efeitos colaterais possíveis e sobre como isso poderia afetar minha identidade”. Não há comprovação científica de que os efeitos colaterais da medicação podem alterar a personalidade de um ser humano.
Outro ponto levantado por pacientes que necessitam dos antidepressivos, é o medo de parecer “fraco” perante a sociedade, como se eles tivessem perdido uma batalha para a própria mente: “É como se fosse um exagero o uso de medicamento, algo psicologicamente ruim, que fosse tirar a realidade do paciente, tirar a limpeza. Usar medicamentos parece fraqueza”, relata a psicóloga Cinthia Souza.
Além do preconceito social para com o uso de medicamentos contínuos, há também quem use os antidepressivos na esperança de que ele, sozinho, vá resolver todos os problemas do paciente: “A medicação destina-se a modular as sensações, mas se a causa do problema segue ativa, o efeito será sempre passageiro. Isso sem falar nos efeitos colaterais. É como você tomar um analgésico, e porque a febre fica controlada, achar que a infecção vai desaparecer. A psicoterapia apoia e provoca mudanças, estas sim, capazes de curar definitivamente os sintomas”, completa a Dra Ana Luiza Ferreira, psiquiatra residente em São Paulo.
Em conversa informal com outra paciente em estado depressivo, ela conta que por acreditar que o antidepressivo por si só resolveria seus problemas, quase desacreditou do tratamento psicológico: “Eu estava convencida de que os antidepressivos eram a solução mágica para todos os obstáculos que enfrentei, no entanto, à medida que os meses passaram, percebi que minha vida não estava se transformando da maneira que eu esperava”, disse ela.
Bloquear canais de recaptação dos neurotransmissores para que eles não voltem ao neurônio que os secretou para a fenda sináptica, que é como agem os antidepressivos, apenas proporcionam a remissão completa dos sintomas, isto é, mantêm a depressão controlada.“Foi nesse momento que minha terapeuta me fez perceber que os antidepressivos eram apenas uma parte do tratamento. Eles eram uma ferramenta valiosa para estabilizar meu humor, mas eu precisava abordar os aspectos fundamentais da minha vida que estavam contribuindo para minha depressão”, seguiu relatando a paciente.
“Com o apoio da terapia, comecei a trabalhar nas áreas problemáticas da minha vida, buscando soluções práticas para meus problemas financeiros e aprendendo habilidades de enfrentamento para lidar com o estresse no trabalho. Gradualmente, percebi que a combinação de tratamento medicamentoso e terapia era o caminho certo para minha recuperação”, finalizou ela.
Podemos dizer que a psiquiatria se iniciou no final do século 18, quando o médico francês Philippe Pinel começou a classificar os doentes separando o que seria um desvio social de uma enfermidade mental. Ele passou a criar uma linguagem que configuraria a nova especialidade da Medicina. Mesmo com centenas de anos de desenvolvimento e pesquisas, ainda há muita desinformação e discriminação social com as doenças psicológicas, o que atrasa o diagnóstico e tratamento de muitos, perpetuando um sofrimento desnecessário. A educação e a compreensão são fundamentais para romper esse ciclo prejudicial e proporcionar às pessoas que sofrem com a depressão o apoio necessário para uma recuperação completa e sustentável.