As apostas online se tornaram parte da rotina de milhões de brasileiros, mas o crescimento acelerado das chamadas bets também tem levantado preocupações sobre seus impactos financeiros e psicológicos. Dados do Ministério da Saúde apontam aumento na procura por atendimento relacionado à dependência em jogos, enquanto especialistas alertam para os riscos da compulsão, do endividamento e da falsa percepção de ganhos fáceis. Em entrevista à AGEMT, o psicólogo Renan Afonso e a advogada e presidente da ANVINT, Tanila Savoy, explicam como funciona o mecanismo que pode levar ao vício em apostas, quais são os direitos dos consumidores e os limites da responsabilidade de empresas, influenciadores e plataformas digitais. Confira o podcast clicando aqui! Em caso de emergência, disque 188 para falar com o Centro de Valorização à Vida (CVV).
Um surto causado por uma cepa rara do hantavírus, Andes, transmitida entre humanos, atingiu um navio de cruzeiro que partiu no dia primeiro de abril de Ushuaia, na Argentina. Atualmente, já são três as mortes registradas, sete casos confirmados e dois casos suspeitos entre os 149 passageiros. O destino final seria Cabo Verde, mas por conta do risco sanitário e a falta de estrutura, o navio seguiu para as Ilhas Canárias em Tenerife, após ficar três dias à deriva.
Início do surto
Cinco dias após o embarque, um passageiro holandês apresentou os primeiros sintomas da hantavirose. Seis dias depois, em 11 de abril, ele faleceu a bordo. Devido às condições do cruzeiro, seu corpo só pôde ser retirado 13 dias depois, quando o navio atracou na remota ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul.
Durante esse período, a esposa do passageiro também apresentou sintomas compatíveis com a doença e dois dias após o desembarque, a holandesa também faleceu, já na África do Sul.
Especialistas indicam que o "paciente zero" provavelmente contraiu o vírus ainda em solo argentino. O Prof. Marcos Vinicius da Silva, médico coordenador do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e consultor do Ministério da Saúde, explicou à AGEMT a dinâmica do evento: "A provável causa do surto foi algum dos passageiros durante um passeio, em terra, foi infectado com o Hantavírus Andes, transmitido por algum roedor silvestre e tenha levado e disseminado o vírus para os outros passageiros e tripulantes".
O que transforma o caso do navio em uma emergência de saúde pública global é a biologia da variante Andes. Embora a grande maioria das cepas de hantavírus demande a inalação de partículas de fezes ou urina de roedores contaminados, o vírus Andes possui a rara capacidade de ser transmitido com o contato próximo e prolongado de pessoa para pessoa. Ou seja, o ambiente fechado do cruzeiro funcionou como um acelerador para a propagação da doença.
Evacuação e repatriação
Atracado em Tenerife, o MV Hondius concluiu a evacuação de passageiros e tripulantes. O último grupo, formado por seis passageiros e parte da tripulação, desembarcou no dia 11 de maio antes de seguirem para a Holanda, em voos organizados pelas autoridades holandesas. Após a operação, o navio deixou as Ilhas Canárias rumo aos Países Baixos, levando apenas uma equipe reduzida, além de profissionais de saúde, para passar por um processo de descontaminação e limpeza completa.
Os viajantes já repatriados seguem em processo de quarentena em seus respectivos países. O protocolo está baseado no longo período em que o vírus pode permanecer "silencioso" no organismo. "As medidas de isolamento dos passageiros e tripulantes já foram tomadas, aguarda-se o período máximo de incubação da doença, que é de seis semanas, com observação médica e sanitária contínua dessas pessoas", esclarece o especialista.
A doença
A letalidade da infecção explica as decisões extremas de navegação. Originalmente com destino a Cabo Verde, o desembarque foi negado pelo país africano por conta da falta de infraestrutura local para o suporte médico de alta complexidade, exigido para conter a doença. Isso deixou a embarcação à deriva no oceano Atlântico até que a rota para a Espanha fosse aprovada.
A evolução dessa síndrome é frequentemente fulminante, exigindo intervenção imediata e equipamentos de biossegurança de nível máximo. "O quadro clínico se torna grave logo no início da doença e requer tratamento em unidade de terapia intensiva e com medidas de barreira para isolamento, diminuindo o risco de transmissão para os profissionais de saúde que atendem o paciente", explica ainda o Dr. Marcos Vinícius.
O alerta para a gravidade da hantavirose se dá, em grande parte, pela forma como os primeiros sinais aparecem, muitas vezes confundidos com outras infecções menos severas, antes de evoluírem rapidamente para uma emergência médica. Nos estágios iniciais, os infectados pela cepa Andes costumam apresentar sintomas semelhantes aos de uma forte gripe, como febre, calafrios, dores musculares intensas especialmente na região lombar, ombros e coxas), além de fadiga profunda, dores de cabeça, náuseas e vômitos.
O cenário da doença, contudo, deteriora-se de forma abrupta na transição para a fase cardiopulmonar. Em questão de poucos dias ou até horas, o paciente passa a sofrer com tosse, falta de ar severa e acúmulo rápido de líquido nos pulmões (edema pulmonar). O quadro culmina em insuficiência respiratória e colapso do sistema cardiovascular. É essa progressão fulminante que justifica a necessidade crítica de leitos de UTI com suporte de vida avançado - o que motivou a busca desesperada do cruzeiro por um porto estruturado.
O Brasil possui um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diversos serviços gratuitos à população. Criado para garantir acesso universal à saúde, o sistema atende cerca de 76% dos brasileiros exclusivamente pela rede pública. Porém, as queixas sobre o longo tempo de espera aumentam diariamente, causando indignação em quem depende do atendimento.
Apesar dos avanços anunciados pelo governo federal, a realidade ainda é marcada pela demora. Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre 2022 e 2024, o número de cirurgias eletivas realizadas pelo SUS aumentou 32%, chegando a 13,6 milhões em 2024, o maior número da história do sistema. O governo também ampliou o Programa Nacional de Redução das Filas, que recebeu R$ 1,2 bilhão em investimentos no último ano.
Além disso, programas como o “Mais Acesso a Especialistas” foram criados para diminuir o tempo de espera em áreas críticas, como cardiologia, oncologia e ortopedia. O SUS também é responsável por cerca de 85% dos transplantes realizados no Brasil e possui um dos maiores programas públicos de vacinação do mundo.
Em entrevista, o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto destaca que, apesar das dificuldades atuais, o SUS foi fundamental para melhorar as condições de vida da população brasileira nas últimas décadas. Segundo ele, avanços como o acesso à água tratada e melhorias na saúde do trabalhador contribuíram para o aumento da expectativa de vida no país.
Mas os números não conseguem medir o peso da espera.
“Não existe atendimento imediato em nenhum sistema de saúde do mundo”, ressalta Vecina. Para ele, o principal problema não está apenas na existência das filas, mas na maneira como elas são administradas. O médico critica a falta de integração entre estados e municípios e afirma que a má gestão das filas acaba aumentando ainda mais a demora no atendimento. “Nós não temos tido uma resposta mais efetiva do Estado”, disse.
Gonzalo também aponta falhas na integração entre municípios e estados. “As filas são muito mal administradas”, declarou. Segundo ele, pacientes entram em diferentes sistemas de regulação ao mesmo tempo e muitas vezes não cancelam consultas já marcadas, causando desperdício de vagas e aumento da demora.
Mas os dados ainda não mostram madrugadas em corredores de hospital, famílias implorando por exames ou pacientes vendo sintomas simples se transformarem em doenças graves. Também não mostram histórias como a de José Francisco da Silva.
Morador de Embu das Artes, na Grande São Paulo, José Francisco, de 62 anos, aposentado por invalidez e sem instrução, sofria de reumatismo reumatoide quando começou a passar mal e foi levado a uma unidade de saúde com pneumonia. Após ficar internado por apenas 24 horas, recebeu alta. No dia seguinte, piorou. A partir dali, começou uma rotina marcada por tentativas desesperadas de conseguir atendimento.
O quadro de pneumonia piorou com uma infecção urinária e depois evoluiu para sepse, uma infecção generalizada. Segundo a filha, Cleonice Reis, a família precisava insistir constantemente para que o estado de saúde do pai fosse atualizado na Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde (CROSS), sistema responsável pela transferência de pacientes entre hospitais do estado. “A gente entrou em guerra para tentar salvar meu pai”, relata.
Após dias de espera, José conseguiu uma vaga no Hospital Geral de Guarulhos. Para chegar até lá, a família precisou recorrer a conhecidos e políticos para conseguir uma ambulância, já que o transporte não havia sido disponibilizado pelo SUS.
No novo hospital, o quadro clínico foi estabilizado. “Hospital maravilhoso, não tenho o que falar”, afirmou Reis. Ainda assim, a família enfrentou novas dificuldades para conseguir transporte com oxigênio e exames básicos. Segundo ela, o aparelho de tomografia da unidade onde o pai estava internado permanecia quebrado havia anos.
Poucos dias depois de voltar para casa, José passou mal novamente. Esposo, pai de duas filhas e avô de seis netos morreu no pronto socorro. “Nós familiares nos sentimos indignados. A gente paga nossos impostos e, quando precisa, fica à mercê”, disse.
Enquanto famílias enfrentam longos períodos de espera, profissionais da saúde também convivem com os impactos da superlotação. Aparecida do Amparo, enfermeira da Unidade de Pronto Atendimento do bairro Cohab II, em Carapicuíba, na região metropolitana de São Paulo, afirma que muitos pacientes chegam às UBSs com sintomas leves, mas acabam piorando devido à demora para conseguir especialistas. “Já tive contato com pacientes que, devido à demora, acabaram tendo a doença agravada, sem condições mais de fazer o tratamento”, explicou.
Ao analisar o impacto dessa realidade, Gonzalo Vecina afirma que a demora no SUS também revela desigualdades profundas do país. “A desigualdade é a grande doença da sociedade brasileira”, declarou. Para o médico, a saúde não pode ser analisada separadamente das condições de moradia, alimentação, trabalho e acesso básico à dignidade.
Mesmo diante das dificuldades, Aparecida afirma continuar acreditando no sistema público de saúde. “O que motiva a gente é saber que pode aliviar o sofrimento dos pacientes.”
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou na quarta-feira (22) o uso de canetas com o princípio ativo da Tirzepatida para crianças e adolescentes que possuem diabetes tipo 2. Antes, o uso só era possível para adultos diagnosticados com diabetes e para tratamentos contra obesidade. Agora, jovens a partir de 10 anos também poderão utilizar com prescrição médica.
As canetas imitam um hormônio do corpo chamado Glucagon-like peptide-1 (GLP-1), que ajuda a controlar o açúcar no sangue, diminuir o apetite e retardar a digestão, levando à perda de peso. A decisão da Anvisa surgiu a partir de um grande índice de crianças que sofrem com obesidade e diabetes, já que o Brasil é quarto país no mundo com crianças e adolescentes, de 0 a 19 anos, com diabetes tipo 1, podendo evoluir para o tipo 2. No ranking dos países com mais pessoas que possuem essa condição, o Brasil é o sexto no mundo, segundo dados de 2025 da 11ª edição do Diabetes Atlas, divulgado pela Federação Internacional de Diabetes (IDF).
Ao mesmo tempo que esse uso específico foi aprovado, a Anvisa também proibiu canetas irregulares vendidas pela internet, já que o orientado é apenas o uso com prescrição médica, além de aumentar a fiscalização e exigir regras mais rígidas para a manipulação.
Apesar de ser um caminho eficaz, que apresenta bons resultados, há também controvérsias. Partindo do ponto de vista socioeconômico, muitas famílias sofrem com diabetes tipo 2, em níveis avançados, e não possuem renda para investirem em tratamentos como as canetas emagrecedoras, que tem um valor bastante elevado no mercado, custando entre R$1.400 a R$2.400, podendo variar de acordo com a farmácia.
Em entrevista à AGEMT, a nutricionista Juliane Pacheco, que atua no mercado nutricional há mais de 6 anos, enfatizou que a Tirzepatida possa sim ser uma boa alternativa para tratar dessa patologia, apesar do medicamento estar muito banalizado no Brasil para fins estéticos e não apenas para tratamento de obesidade. “Para as crianças, é essencial que a medicação seja utilizada apenas com indicação médica e tenha acompanhamento com uma equipe multidisciplinar”, comenta a profissional.
Sobre os efeitos colaterais na vida das crianças, como náuseas, diarreias e vômitos, Juliane afirma que é necessário fazer a indicação com muita cautela e não banalizar o uso para todas as crianças e adolescentes. Segundo a profissional, a alimentação também é um caminho que traz bons resultados para o tratamento de diabetes, mas que também requer atenção e cuidado. “O que fará mais diferença é a presença dos pais durante todo o tratamento. No final, são eles que compram os alimentos para seus filhos e preparam as refeições, então se não tiver um cuidado, a diabetes não é tratada”, afirma.
O Brasil enfrenta um cenário preocupante quando se trata sobre o sedentarismo. De acordo com divulgação da OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 47% da população não atinge os níveis recomendados de atividade física, colocando o país entre os mais sedentários do mundo. Para a nutricionista Patrícia Prado Dias Peres, em entrevista à AGEMT, esse comportamento está cada vez mais comum desde a infância, diretamente ligado ao aumento de doenças como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares, além de afetar a saúde mental. Segundo ela, os hábitos sedentários começam cedo e tendem a se perpetuar a longo prazo na vida.
Crianças que passam grande parte do tempo diante de telas, seja em celulares, videogames ou redes sociais, acabam reduzindo atividades físicas essenciais no tempo livre para o desenvolvimento. Esse padrão se intensifica na adolescência, especialmente entre jovens de 11 a 17 anos, faixa etária apontada como a mais afetada. Mesmo com medidas como a restrição do uso de celulares em ambientes escolares, o comportamento sedentário persiste fora das instituições de ensino, impulsionado pela facilidade de acesso à tecnologia e pela diminuição de espaços adequados para o lazer. A falta de atividade física provoca uma série de alterações no organismo. Sem movimentação corporal, o gasto energético é reduzido e entra em um “estado de economia”, o que pode desregular processos metabólicos importantes. Entre as consequências mais comuns estão o aumento do peso corporal, o desenvolvimento de massa de gordura corporal e alterações hormonais que afetam a sensação de saciedade. “Esse desequilíbrio favorece um ciclo difícil de romper, em que o excesso de peso torna a prática de exercícios mais cansativa, levando à desmotivação e à manutenção do sedentarismo”, diz Peres.
Os impactos do sedentarismo vão além da questão estética ou do condicionamento físico, também está associado a doenças metabólicas, como diabetes e dislipidemias, além de problemas cardiovasculares, como hipertensão, infarto e acidente vascular cerebral. Também há prejuízos para o sistema musculoesquelético, com aumento de dores, perda de massa muscular e maior risco de osteoporose. Na saúde mental, os efeitos incluem ansiedade, depressão, insônia e até declínio cognitivo, evidenciando que a inatividade física afeta o corpo humano de forma ampla. Segundo Peres, a falta da prática de atividades físicas deve ser tratada como uma questão de saúde pública, porque suas consequências geram impactos diretos e indiretos, desde o aumento dos gastos com tratamentos médicos até a redução da produtividade da população.
O problema também sobrecarrega os sistemas de saúde, que precisam lidar com o crescimento de doenças crônicas associadas ao estilo de vida. Estimativas globais apontam que milhões de mortes poderiam ser evitadas todos os anos com a adoção de hábitos mais ativos. Apesar do cenário preocupante, a mudança de comportamento é possível e pode começar com medidas simples. De acordo com Peres, não é necessário iniciar com atividades intensas: a recomendação é acumular entre 150 e 300 minutos semanais de exercícios moderados, ou de 75 a 150 minutos de atividades mais vigorosas. Mesmo práticas leves já apresentam benefícios quando comparadas à inatividade total. O mais importante, segundo a nutricionista, é encontrar uma atividade que possa ser mantida a longo prazo e incorporada à rotina.
A alimentação também desempenha um papel fundamental nesse processo. Peres aponta que dietas equilibradas com base em alimentos in natura ou minimamente processados, contribuem para o controle do peso e para o bom funcionamento do organismo. A redução do consumo de ultraprocessados, ricos em açúcares, gorduras e sódio, é apontada como uma estratégia essencial para prevenir doenças e melhorar a qualidade de vida, disse a especialista. Além disso, manter regularidade nas refeições ajuda a evitar picos de fome e o consumo excessivo de calorias. Diante desse cenário, Peres reforça que o enfrentamento do sedentarismo exige ações que vão além da iniciativa individual. Incentivar hábitos saudáveis desde a infância, ampliar o acesso a espaços públicos seguros para a prática de atividades físicas e promover a conscientização sobre os riscos da inatividade são medidas fundamentais. Para ela, pequenas mudanças na rotina, aliadas a uma alimentação equilibrada e à prática regular de exercícios, podem gerar impactos significativos na saúde e melhora na qualidade e expectativa de vida da população brasileira.