Após uma década de “Body Positivity”, os tapetes vermelhos estão sendo ocupados com o mesmo padrão de beleza que juravam ter deixado de lado
por
Sofia Morelli Cordeiro
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09/06/2026 - 12h

Desde 2010, a promessa de inclusão se acendeu na indústria da moda, o culto pelos corpos magros ao extremo, muitas vezes chegando a níveis doentios, como o “heroin chic”,  parecia estar enterrado. O Plus-Size ganhou a atenção do público e das marcas e anunciou uma era do que podia constituir como padrão de beleza. Mas agora o mundo deu mais um retrocesso, com o aumento na procura por remédios emagrecimento, como Ozempic e Mounjaro e manequins estreitados novamente. Em entrevista à AGEMT, Mariana (nome fictício), estudante na PUC-SP, conversa sobre o uso há 1 mês de uma caneta emagrecedora, com acompanhamento de sua endocrinologista. “Acho que a gente acaba sempre em um lugar de insatisfação, com o corpo, a aparência. Esses remédios apareceram como um atalho para uma autoestima melhor, uma aceitação interna. Desde que eu comecei a tomar, eu perdi 8 kg em quatro semanas, e eu estou bem, saudável e mais feliz por estar perto da minha meta, sabe?”.

Os medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida, Ozempic e Mounjaro, originalmente  foram desenvolvidos para tratar diabetes tipo 2, mas ao serem injetados, simulam hormônios intestinais que aumentam a saciedade e reduzem a fome, por isso acabaram nas mãos do público como uma forma eficiente e rápida para se alcançar a silhueta que a moda voltou a celebrar. Celebridades e influenciadores passaram a atribuir publicamente suas perdas de peso com a menção dessas “canetas” e o uso cosmético desses remédios ganhou um caráter quase banal.

O papel das passarelas nesse ciclo não pode ser subestimado, pois quando a moda celebra um tipo de corpo, ela dá impulso à um efeito cascata que atravessa campanhas publicitárias, redes sociais, conteúdos de beleza e atinge os espelhos de mulheres reais, que olham para esses medicamentos como seres milagrosos por darem a oportunidade de alcançarem o corpo ideal, o mesmo que desfila por suas telas. Foi na década de 1990 que surgiu o termo “Heroin Chic” para definir uma estética que crescia, corpos esquálidos, rostos ocos, olheiras profundas, ossos protuberantes, e dominava as passarelas e as revistas, com a “angel” (apelido das modelos da Victoria's Secret), tendo Kate Moss como pioneira.

O nome já dizia tudo: glamourização de uma aparência associada ao consumo de drogas e à autodestruição. Com o tempo, essa estética foi parcialmente despopularizada, ao menos no discurso público que queria aparentar dar atenção a formas saudáveis de emagrecer, com esporte e alimentação balanceada. Mas ela nunca sumiu de verdade. O desfile da Victoria's Secret era um símbolo central da ideia do “corpo perfeito” no início do século, que por anos teve um grande peso na imaginação da população sobre qual deveria ser a meta feminina. Quando as pessoas pediram uma extensão na visão de quem podia ser uma modelo, atravessando as ideias de curvas, idade e etnia, a marca sofreu.

Esse novo divisor de águas no meado de 2010, afetou audiências e eventualmente, por esses e outros problemas administrativos, o famoso desfile perdeu sua relevância a ponto de ser fechado. Mas em outubro de 2024, o desfile voltou, após seis anos de inatividade, com uma palavra-chave no press-release, “Body Positivity", e no ano seguinte, as propagandas continuavam com a mesma linha. Mas em 2025, assim como em 2024, havia cerca de sete modelos curvilíneas entre 52 modelos no total, com os tamanhos “ plus-size”, para as cabeças por trás desta marca, incluíndo 42-44 BR, que são menores do que o tamanho médio utilizado pelas norte-americanas, entre 16-18 US/50 - 52 BR, de acordo com Debora A.Christel e Susan C. Dunn em seu estudo de 2017, “International Journal of Fashion Design, Technology and Education”. Uma discrepância é revelada quando se compara esses números com o esperado para essas Angels, que devem permanecer entre os tamanhos 0-2 US, ou o 34 BR.

As peças de roupa são uma materialização do retorno da glorificação da magreza. Havia um roteiro bonito sendo construído, a abertura das portas da indústria da moda para todos que quiserem entrar, que acabaria com a ideia persistente de gordura como o maior mal contra as mulheres, mas com esse retorno, fica a dúvida se esse processo era visto, pelas grandes corporações, como uma transformação permanente nesse meio. Era um mundo que parecia à beira da morte para muitos, mas que se mantinha vivo no imaginário de muitas meninas que cresceram com esse padrão em suas telas, sendo alimentadas pelos detalhes que remetiam a essa ideia. “Eu sempre tive uma percepção meio distorcida do que é magreza, mas mais por conta dos filmes e séries que eu assistia quando pequena. Eu lembro da Britney Spears sendo considerada gorda numa apresentação, no começo dos anos 2000, saiu em tudo quanto é lugar a gordurinha que apareceu no jeans dele, era algo que deveria ser normal, mas  entrou nas cabeças das garotinhas assim”, conta Mariana.

O mundo das passarelas e tapetes vermelhos estarem fechando seus olhos e valorizando novamente essa ideia de magreza extrema, pode ser o combustível para o aumento de comportamentos, em relação a saúde, devastadores, como distúrbios alimentares, distorção imagética e oscilações de humor, além de reforçar uma abordagem de olhar para os corpos para uma nova geração de garotas mais jovens e suscetíveis a essas manipulações. 

Imagem de capa: Fonte: https://drconsulta.com/conteudo/mounjaro/ Imagem ilustrativa das canetas "emagrecedoras"

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Especialistas alertam que os prejuízos, que vão muito além das perdas financeiras, podem comprometer relações familiares
por
Renata Bittar
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08/06/2026 - 12h

As apostas online se tornaram parte da rotina de milhões de brasileiros, mas o crescimento acelerado das chamadas bets também tem levantado preocupações sobre seus impactos financeiros e psicológicos. Dados do Ministério da Saúde apontam aumento na procura por atendimento relacionado à dependência em jogos, enquanto especialistas alertam para os riscos da compulsão, do endividamento e da falsa percepção de ganhos fáceis. Em entrevista à AGEMT, o psicólogo Renan Afonso e a advogada e presidente da ANVINT, Tanila Savoy, explicam como funciona o mecanismo que pode levar ao vício em apostas, quais são os direitos dos consumidores e os limites da responsabilidade de empresas, influenciadores e plataformas digitais. Confira o podcast clicando aqui! Em caso de emergência, disque 188 para falar com o Centro de Valorização à Vida (CVV). 

 

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Navio de expedição saiu no início de abril do Ushuaia, na Argentina, com destino a Cabo Verde
por
Juliana Bertini de Paula
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26/05/2026 - 12h

Um surto causado por uma cepa rara do hantavírus, Andes, transmitida entre humanos, atingiu um navio de cruzeiro que partiu no dia primeiro de abril de Ushuaia, na Argentina. Atualmente, já são três as mortes registradas, sete casos confirmados e dois casos suspeitos entre os 149 passageiros. O destino final seria Cabo Verde, mas por conta do risco sanitário e a falta de estrutura, o navio seguiu para as Ilhas Canárias em Tenerife, após ficar três dias à deriva. 

Início do surto

Cinco dias após o embarque, um passageiro holandês apresentou os primeiros sintomas da hantavirose. Seis dias depois, em 11 de abril, ele faleceu a bordo. Devido às condições do cruzeiro, seu corpo só pôde ser retirado 13 dias depois, quando o navio atracou na remota ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul. 

Durante esse período, a esposa do passageiro também apresentou sintomas compatíveis com a doença e dois dias após o desembarque, a holandesa também faleceu, já na África do Sul.

Especialistas indicam que o "paciente zero" provavelmente contraiu o vírus ainda em solo argentino. O Prof. Marcos Vinicius da Silva, médico coordenador do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e consultor do Ministério da Saúde, explicou à AGEMT a dinâmica do evento: "A provável causa do surto foi algum dos passageiros durante um passeio, em terra, foi infectado com o Hantavírus Andes, transmitido por algum roedor silvestre e tenha levado e disseminado o vírus para os outros passageiros e tripulantes".

O que transforma o caso do navio em uma emergência de saúde pública global é a biologia da variante Andes. Embora a grande maioria das cepas de hantavírus demande a inalação de partículas de fezes ou urina de roedores contaminados, o vírus Andes possui a rara capacidade de ser transmitido com o contato próximo e prolongado de pessoa para pessoa. Ou seja, o ambiente fechado do cruzeiro funcionou como um acelerador para a propagação da doença. 

Cruzeiro de luxo MV Hondius em expedição polar. Foto: Divulgação/Oceanwide expeditions
Cruzeiro de luxo MV Hondius em expedição polar. Foto: Divulgação/Oceanwide expeditions

 

Evacuação e repatriação

Atracado em Tenerife, o MV Hondius concluiu a evacuação de passageiros e tripulantes. O último grupo, formado por seis passageiros e parte da tripulação, desembarcou no dia 11 de maio antes de seguirem para a Holanda, em voos organizados pelas autoridades holandesas. Após a operação, o navio deixou as Ilhas Canárias rumo aos Países Baixos, levando apenas uma equipe reduzida, além de profissionais de saúde, para passar por um processo de descontaminação e limpeza completa. 

Os viajantes já repatriados seguem em processo de quarentena em seus respectivos países. O protocolo está baseado no longo período em que o vírus pode permanecer "silencioso" no organismo. "As medidas de isolamento dos passageiros e tripulantes já foram tomadas, aguarda-se o período máximo de incubação da doença, que é de seis semanas, com observação médica e sanitária contínua dessas pessoas", esclarece o especialista.

 

A doença

A letalidade da infecção explica as decisões extremas de navegação. Originalmente com destino a Cabo Verde, o desembarque foi negado pelo país africano por conta da falta de infraestrutura local para o suporte médico de alta complexidade, exigido para conter a doença. Isso deixou a embarcação à deriva no oceano Atlântico até que a rota para a Espanha fosse aprovada.

A evolução dessa síndrome é frequentemente fulminante, exigindo intervenção imediata e equipamentos de biossegurança de nível máximo. "O quadro clínico se torna grave logo no início da doença e requer tratamento em unidade de terapia intensiva e com medidas de barreira para isolamento, diminuindo o risco de transmissão para os profissionais de saúde que atendem o paciente", explica ainda o Dr. Marcos Vinícius.

O alerta para a gravidade da hantavirose se dá, em grande parte, pela forma como os primeiros sinais aparecem, muitas vezes confundidos com outras infecções menos severas, antes de evoluírem rapidamente para uma emergência médica. Nos estágios iniciais, os infectados pela cepa Andes costumam apresentar sintomas semelhantes aos de uma forte gripe, como febre, calafrios, dores musculares intensas especialmente na região lombar, ombros e coxas), além de fadiga profunda, dores de cabeça, náuseas e vômitos. 

Imagem microscópica do vírus da hantavirose. Foto: Divulgação/CDC
Imagem microscópica do vírus da hantavirose. Foto: Divulgação/CDC

O cenário da doença, contudo, deteriora-se de forma abrupta na transição para a fase cardiopulmonar. Em questão de poucos dias ou até horas, o paciente passa a sofrer com tosse, falta de ar severa e acúmulo rápido de líquido nos pulmões (edema pulmonar). O quadro culmina em insuficiência respiratória e colapso do sistema cardiovascular. É essa progressão fulminante que justifica a necessidade crítica de leitos de UTI com suporte de vida avançado - o que motivou a busca desesperada do cruzeiro por um porto estruturado. 

 

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Demora no atendimento transforma a espera por saúde em sofrimento diário para milhões de brasileiros.
por
Alice Begnini
Lawanny Nasc
Rafaella Lalo
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21/05/2026 - 12h

O Brasil possui um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diversos serviços gratuitos à população. Criado para garantir acesso universal à saúde, o sistema atende cerca de 76% dos brasileiros exclusivamente pela rede pública. Porém, as queixas sobre o longo tempo de espera aumentam diariamente, causando indignação em quem depende do atendimento.

Apesar dos avanços anunciados pelo governo federal, a realidade ainda é marcada pela demora. Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre 2022 e 2024, o número de cirurgias eletivas realizadas pelo SUS aumentou 32%, chegando a 13,6 milhões em 2024, o maior número da história do sistema. O governo também ampliou o Programa Nacional de Redução das Filas, que recebeu R$ 1,2 bilhão em investimentos no último ano.

Além disso, programas como o “Mais Acesso a Especialistas” foram criados para diminuir o tempo de espera em áreas críticas, como cardiologia, oncologia e ortopedia. O SUS também é responsável por cerca de 85% dos transplantes realizados no Brasil e possui um dos maiores programas públicos de vacinação do mundo.

Em entrevista, o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto destaca que, apesar das dificuldades atuais, o SUS foi fundamental para melhorar as condições de vida da população brasileira nas últimas décadas. Segundo ele, avanços como o acesso à água tratada e melhorias na saúde do trabalhador contribuíram para o aumento da expectativa de vida no país.

Mas os números não conseguem medir o peso da espera.

“Não existe atendimento imediato em nenhum sistema de saúde do mundo”, ressalta Vecina. Para ele, o principal problema não está apenas na existência das filas, mas na maneira como elas são administradas. O médico critica a falta de integração entre estados e municípios e afirma que a má gestão das filas acaba aumentando ainda mais a demora no atendimento. “Nós não temos tido uma resposta mais efetiva do Estado”, disse.

Gonzalo também aponta falhas na integração entre municípios e estados. “As filas são muito mal administradas”, declarou. Segundo ele, pacientes entram em diferentes sistemas de regulação ao mesmo tempo e muitas vezes não cancelam consultas já marcadas, causando desperdício de vagas e aumento da demora.

Mas os dados ainda não mostram madrugadas em corredores de hospital, famílias implorando por exames ou pacientes vendo sintomas simples se transformarem em doenças graves. Também não mostram histórias como a de José Francisco da Silva.

Morador de Embu das Artes, na Grande São Paulo, José Francisco, de 62 anos, aposentado por invalidez e sem instrução, sofria de reumatismo reumatoide quando começou a passar mal e foi levado a uma unidade de saúde com pneumonia. Após ficar internado por apenas 24 horas, recebeu alta. No dia seguinte, piorou. A partir dali, começou uma rotina marcada por tentativas desesperadas de conseguir atendimento.

O quadro de pneumonia piorou com uma infecção urinária e depois evoluiu para sepse, uma infecção generalizada. Segundo a filha, Cleonice Reis, a família precisava insistir constantemente para que o estado de saúde do pai fosse atualizado na Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde (CROSS), sistema responsável pela transferência de pacientes entre hospitais do estado. “A gente entrou em guerra para tentar salvar meu pai”, relata.

Após dias de espera, José conseguiu uma vaga no Hospital Geral de Guarulhos. Para chegar até lá, a família precisou recorrer a conhecidos e políticos para conseguir uma ambulância, já que o transporte não havia sido disponibilizado pelo SUS.

No novo hospital, o quadro clínico foi estabilizado. “Hospital maravilhoso, não tenho o que falar”, afirmou Reis. Ainda assim, a família enfrentou novas dificuldades para conseguir transporte com oxigênio e exames básicos. Segundo ela, o aparelho de tomografia da unidade onde o pai estava internado permanecia quebrado havia anos.

Poucos dias depois de voltar para casa, José passou mal novamente. Esposo, pai de duas filhas e avô de seis netos morreu no pronto socorro. “Nós familiares nos sentimos indignados. A gente paga nossos impostos e, quando precisa, fica à mercê”, disse.

Enquanto famílias enfrentam longos períodos de espera, profissionais da saúde também convivem com os impactos da superlotação. Aparecida do Amparo, enfermeira da Unidade de Pronto Atendimento do bairro Cohab II, em Carapicuíba, na região metropolitana de São Paulo, afirma que muitos pacientes chegam às UBSs com sintomas leves, mas acabam piorando devido à demora para conseguir especialistas. “Já tive contato com pacientes que, devido à demora, acabaram tendo a doença agravada, sem condições mais de fazer o tratamento”, explicou.

Ao analisar o impacto dessa realidade, Gonzalo Vecina afirma que a demora no SUS também revela desigualdades profundas do país. “A desigualdade é a grande doença da sociedade brasileira”, declarou. Para o médico, a saúde não pode ser analisada separadamente das condições de moradia, alimentação, trabalho e acesso básico à dignidade.

Mesmo diante das dificuldades, Aparecida afirma continuar acreditando no sistema público de saúde. “O que motiva a gente é saber que pode aliviar o sofrimento dos pacientes.”

Manifestação sobre saúde pública
Manifestação sobre a falta de gestão na saúde pública. Foto: Pexels.com

 

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Médicos poerão prescrever o medicamento para pacientes com mais de 10 anos
por
Vitória Teles
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30/04/2026 - 12h

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou na quarta-feira (22) o uso de canetas com o princípio ativo da Tirzepatida para crianças e adolescentes que possuem diabetes tipo 2. Antes, o uso só era possível para adultos diagnosticados com diabetes e para tratamentos contra obesidade. Agora, jovens a partir de 10 anos também poderão utilizar com prescrição médica. 

As canetas imitam um hormônio do corpo chamado Glucagon-like peptide-1 (GLP-1), que ajuda a controlar o açúcar no sangue, diminuir o apetite e retardar a digestão, levando à perda de peso. A decisão da Anvisa surgiu a partir de um grande índice de crianças que sofrem com obesidade e diabetes, já que o Brasil é quarto país no mundo com crianças e adolescentes, de 0 a 19 anos, com diabetes tipo 1, podendo evoluir para o tipo 2. No ranking dos países com mais pessoas que possuem essa condição, o Brasil é o sexto no mundo, segundo dados de 2025 da 11ª edição do Diabetes Atlas, divulgado pela Federação Internacional de Diabetes (IDF).

No ranking de casos de crianças com diabetes tipo 1, o Brasil fica atrás apenas de Índia, Estados Unidos e China. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
No ranking de casos de crianças com diabetes tipo 1, o Brasil fica atrás apenas de Índia, Estados Unidos e China. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Ao mesmo tempo que esse uso específico foi aprovado, a Anvisa também proibiu canetas irregulares vendidas pela internet, já que o orientado é apenas o uso com prescrição médica, além de aumentar a fiscalização e exigir regras mais rígidas para a manipulação.

Apesar de ser um caminho eficaz, que apresenta bons resultados, há também controvérsias. Partindo do ponto de vista socioeconômico, muitas famílias sofrem com diabetes tipo 2, em níveis avançados, e não possuem renda para investirem em tratamentos como as canetas emagrecedoras, que tem um valor bastante elevado no mercado, custando entre R$1.400 a R$2.400, podendo variar de acordo com a farmácia. 

Em entrevista à AGEMT, a nutricionista Juliane Pacheco, que atua no mercado nutricional há mais de 6 anos, enfatizou que a Tirzepatida possa sim ser uma boa alternativa para tratar dessa patologia, apesar do medicamento estar muito banalizado no Brasil para fins estéticos e não apenas para tratamento de obesidade. “Para as crianças, é essencial que a medicação seja utilizada apenas com indicação médica e tenha acompanhamento com uma equipe multidisciplinar”, comenta a profissional. 

Sobre os efeitos colaterais na vida das crianças, como náuseas, diarreias e vômitos, Juliane afirma que é necessário fazer a indicação com muita cautela e não banalizar o uso para todas as crianças e adolescentes. Segundo a profissional, a alimentação também é um caminho que traz bons resultados para o tratamento de diabetes, mas que também requer atenção e cuidado. “O que fará mais diferença é a presença dos pais durante todo o tratamento. No final, são eles que compram os alimentos para seus filhos e preparam as refeições, então se não tiver um cuidado, a diabetes não é tratada”, afirma.

 

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Os efeitos que o TCC causa nos universitários expõem a fragilidade do cuidado com o psicológico diante da pressão no encerramento da graduação
por
Olivia Ferreira
Sofia Morelli
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18/11/2025 - 12h

 

A fase final da faculdade é uma época de ansiedades e pressões que vêm tanto do ambiente acadêmico quanto social e, o Trabalho de Conclusão de Curso, o famoso TCC, é visto por muitos como o grande desafio da vida universitária. Ele representa o encerramento de um ciclo, a consolidação de anos de estudo e o primeiro grande passo em direção ao mercado de trabalho. Mas, por trás das apresentações de sucesso e das bancas avaliadoras, há um lado pouco falado: o impacto que o processo de criação do TCC tem sobre a saúde mental dos estudantes.

 

Mulher mentalmente esgotada diante livros de estudo
Foto: Vestibular Brasil Escola UOL 

 

Ao longo do processo do trabalho é comum os graduandos se concentrarem totalmente nesse projeto, deixando para segundo plano sua saúde mental e até mesmo a saúde física. Além do encerramento da fase universitária, estudantes lidam com o início da vida profissional, causando ainda mais estresse durante esse período e diversos problemas graves de saúde que atingem diretamente o bem-estar do profissional, como o conhecido “burnout” e crises de ansiedade e pânico. Uma pesquisa feita pela Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) revelou que quanto maior a percepção de relação com professores e colegas, conciliação dos estudos e do lazer, pressão das disciplinas, provas, trabalhos e conciliar o estágio profissional, maior o índice da Síndrome de Burnout em estudantes.

 

 

Causas principais 

Essa vivência dramática- a primeira experiência angustiante com grande peso emocional- muitas vezes ocasiona o “burnout”, um termo utilizado para designar um trauma de longa exposição gerado quando o corpo é continuamente informado de perigo. Esse problema derivado de uma alta carga de estresse e exaustão compromete sua capacidade de concentração e produtividade. Ele se manifesta por meio de sintomas emocionais que atravessam a psique, impactando o físico. Essa pressão transforma o processo de aprendizagem em um ciclo de sofrimento e desmotivação, o que evidencia a urgência de se discutir e promover práticas de cuidado e prevenção dentro do ambiente educacional.

Mapa mental sobre os sintomas do burnout
Foto: Infográfico/ Laura Urbano

As pressões externas e internas que acorrentam discentes- e que ocasionam diversos sentimentos maléficos tanto para o desempenho didático quanto para a saúde mental- reproduzem discursos de esgotamento marcados por cobranças, falta de tempo e medo do fracasso. Além disso, a carga de tarefas é intensa: aulas, estágio, trabalho, relatórios e reuniões com o orientador,  o que resulta em  um cotidiano sobrecarregado e sem espaço para descanso ou autocuidado.“É importante equilibrar essa época da vida com atividades relaxantes e que tirem o foco do trabalho e até mesmo do tema. Saiba até onde você consegue ir, você é limitado.” afirma o psicólogo Paulo Scholze. 

Praticar atividades físicas, buscar suporte emocional e fazer coisas que sejam prazerosas são maneiras que auxiliam para um processo mais leve. Segundo Scholze, o apoio emocional é o ponto chave para lidar de forma mais calma na criação do trabalho. Os orientadores devem  escutar o aluno, e caso isso não seja possível, deve-se procurar pessoas que já passaram por essa fase e que possam oferecer apoio.

Paulo Scholze conta sua experiência com o TCC, durante a pandemia. Apesar do prazer de dar espaço para “sua própria voz”, como o mesmo explica, de poder se descobrir como autor desta pesquisa e do trabalho final —“Me descobri um pouco nesse lugar de autoria”—, o psicólogo também sofreu com a angústia costumeira. Explica como as tensões se agravam conforme se aproximam do prazo de entrega. 

Para lidar com a pressão, cada estudante cria sua própria estratégia. Alguns se apoiam em grupos de amigos, outros buscam terapia, e há quem recorra ao café e à força de vontade. “É difícil falar sobre como pacientes em geral lidam com essa fase da vida, porque todos vivem de forma muito distante. Mas, posso afirmar que acho difícil que seja algo muito tranquilo, sempre tem uma dose de angústia.” diz o psicólogo. 

Uma forma de evitar o peso maciço de demandas como a do TCC, foi descrita pela escritora inglesa, Virgínia Woolf. A mesma dizia intercalar seus romances complexos e profundos com narrativas mais simples e mais facilmente prazerosas, “livros de férias”,  como uma forma de escape da pressão que sentia na escrita dos livros mais difíceis. 

Se pode trazer este conceito para perto do assunto do TCC, ideia desenvolvida por Paulo Scholze, que usou essa analogia para exemplificar uma orientação que ajuda a lidar com a complexidade do trabalho, usando os hobbies e outros interesses como um escape para os formandos.

 

Prevenção do estresse excessivo

Algumas orientações e indicações gerais de Scholze para levar o desenvolvimento do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de maneira mais equilibrada são:

  • Fazer com que não seja um esforço contínuo: pensar no projeto com calma e tentar um ritmo menos intenso;

  • Escolher um tema que lhe agrade para manter o interesse;

  • Encontrar uma voz: não precisa ser perfeito e se auto cobrar menos;

  • Ter alguém que te escute e auxilie nessa fase desafiadora; 

  • Encontrar paz;

  • Refletir sobre como o projeto é algo que irá se concluir, algo passageiro;

  • Fazer coisas que te interessam;

  • Falar de temas que instigam algo dentro de você.




 

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Os hormônios chamados bioidênticos têm sido usados no tratamento de sintomas da menopausa.
por
manuela schenk scussiato
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17/11/2025 - 12h

Por: Manuela Schenk

 

Maria Rosa é moradora de um bairro tranquilo em Belo Horizonte e tem 58 anos. Vivia dias que pareciam sempre nublados. A menopausa havia chegado silenciosa, mas dominando cada detalhe de sua rotina: noites interrompidas por ondas de calor, cansaço persistente e um humor tão instável quanto o clima da cidade. Professora aposentada, ela se viu pela primeira vez incapaz de organizar sua própria vida, como se o corpo tivesse assumido o comando sem pedir permissão.

Os meses seguintes foram marcados por idas e vindas a médicos, tentativas de adaptar a rotina e conversas demoradas com amigas que compartilhavam experiências semelhantes. Nada parecia surtir efeito, até que ouviu falar de uma abordagem que ganhava espaço em consultórios especializados: a terapia com hormônios bioidênticos. Curiosa e cansada de sentir que estava vivendo apenas no piloto automático, Maria decidiu buscar uma avaliação completa para entender se aquela alternativa poderia ser adequada para ela.

A equipe médica analisou seu histórico e, após uma explicação detalhada sobre os possíveis benefícios e limitações, apresentou a reposição hormonal bioidêntica como uma opção. Maria aceitou iniciar o tratamento, não como uma promessa de solução mágica, mas como a possibilidade de reencontrar a si mesma. Nos dias seguintes, seu ceticismo dividia espaço com uma esperança tímida, que ela mal ousava verbalizar.

As mudanças começaram de forma sutil. As noites tornaram-se menos turbulentas, os suores repentinos diminuíram e, com o sono mais estável, veio também uma energia que Maria acreditava ter perdido para sempre. Pequenas vitórias foram se acumulando: a disposição para caminhar pela manhã, o prazer em preparar o próprio café e até a vontade de retomar projetos que havia abandonado quando os sintomas apertavam.

Com o passar dos meses, a melhora deixou de ser apenas física, ela sentiu seu mundo voltando a ter cor. Amigos próximos notaram o brilho renovado no olhar, e Maria passou a falar abertamente sobre sua experiência, sempre destacando que cada mulher tem sua trajetória e que o acompanhamento profissional é indispensável. Para ela, a reposição hormonal bioidêntica representou mais do que um tratamento: foi a reconquista de uma vida que parecia ter escapado pelas frestas do tempo.

Hoje, Maria Rosa caminha pela praça do bairro com passos firmes, como quem recuperou não só o controle do próprio corpo, mas também o entusiasmo pelos dias que virão. Sua história é uma entre tantas que ilustram a complexidade da menopausa e a importância de abordar o tema com informação, cuidado e sensibilidade. E, enquanto observava o movimento ao redor, ela resumiu sua jornada com simplicidade dizendo que a menopausa tentou paralisá-la mas aos poucos ela aprendeu que existe sempre um caminho para voltar a florescer.

Com o tempo, Maria foi percebendo que a melhora não se refletia apenas no cotidiano, mas também em suas relações. Ela voltou a frequentar rodas de leitura, retomou encontros semanais com antigas colegas de profissão e até se animou a planejar pequenas viagens. “Parece que eu reencontrei minha própria companhia”, comentou certa vez, rindo com a naturalidade que havia deixado de sentir. O que antes era medo de enfrentar os dias transformou-se em vontade de ocupar novamente os espaços que sempre foram seus.

Seu marido, Antônio, também testemunhou essa transformação de perto. Ele lembra que, antes do tratamento, as noites eram marcadas por inquietação e cansaço, e as conversas acabavam ofuscadas pela exaustão. Agora, o casal redescobre uma rotina mais leve, com caminhadas ao entardecer e longas conversas na cozinha. Para ambos, a mudança de Maria representou não apenas um avanço individual, mas uma renovação de laços, mostrando como o bem-estar de uma mulher reverbera por toda a família.

Os hormônios desempenham papéis essenciais no equilíbrio do organismo, regulando funções como metabolismo, humor, sono e, quando falamos em reposição hormonal, especialmente para mulheres na menopausa, é comum surgirem dúvidas sobre a diferença entre hormônios tradicionais (sintéticos) e hormônios bioidênticos. Embora ambos tenham o objetivo de aliviar sintomas decorrentes da queda hormonal, eles se distinguem principalmente pela estrutura química e pela forma como o corpo os reconhece.

Os hormônios tradicionais, frequentemente chamados de sintéticos ou não bioidênticos, são produzidos em laboratório, mas não necessariamente possuem a mesma estrutura molecular dos hormônios humanos. Apesar de eficazes para muitas mulheres, podem apresentar respostas variáveis no organismo porque sua interação com os receptores hormonais nem sempre ocorre da mesma forma que com os hormônios naturais. Isso pode influenciar tanto os efeitos desejados quanto o perfil de efeitos colaterais.

Já os hormônios bioidênticos são formulados para terem estrutura molecular idêntica à dos hormônios produzidos naturalmente pelo corpo humano. Por esse motivo, o organismo costuma reconhecê-los e metabolizá-los de maneira mais semelhante aos hormônios endógenos. Essa similaridade é o principal argumento de profissionais e pacientes que relatam maior tolerabilidade e adaptação, embora a resposta possa variar de pessoa para pessoa.

A reposição hormonal feita com hormônios bioidênticos pode oferecer benefícios para mulheres na menopausa, como alívio de ondas de calor, melhora da qualidade do sono, redução da irritabilidade, maior lubrificação vaginal e, em alguns casos, melhora da vitalidade e do bem-estar geral. Algumas mulheres relatam que os bioidênticos promovem um equilíbrio mais suave, possivelmente por serem metabolizados de forma mais natural pelo organismo.

Além disso, especialistas ressaltam que os hormônios bioidênticos podem ser formulados de maneira personalizada, ajustando dosagens e combinações conforme as necessidades individuais de cada mulher, sempre com supervisão de profissionais qualificados. Essa possibilidade de personalização é um dos pontos que costumam atrair pacientes que buscam uma abordagem mais adaptada ao próprio corpo, embora continue sendo fundamental o acompanhamento regular, exames periódicos e avaliação cuidadosa dos resultados.

Apesar das vantagens relatadas, é importante lembrar que qualquer terapia hormonal exige acompanhamento médico, independentemente de ser feita com hormônios sintéticos ou bioidênticos. A combinação adequada de hormônios, a forma de administração e o monitoramento regular são fundamentais para garantir segurança e eficácia. Cada mulher possui necessidades individuais, e somente um profissional qualificado pode orientar a melhor abordagem para cada caso.


 

É importante saber até onde ela esbarra no limite da ética científica
por
Chloé Dana
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18/11/2025 - 12h

Por Chloé Dana

 

Em "A Condição Humana", Hannah Arendt analisa de que maneira a época moderna alterou a centralidade da experiência humana. No passado, a política era o ambiente onde as pessoas se reuniam para construir um mundo compartilhado, um espaço vibrante de debate, divergências e criação coletiva. Atualmente, ela afirma que a política se transformou na gestão da vida orgânica. O foco mudou para a preservação do corpo, aumentando sua longevidade e minimizando seu sofrimento. Assim, a vida pública foi substituída pela luta pela sobrevivência. É nesse cenário que a bioética surge como uma resposta aos desafios que reconfiguram a visão que a humanidade tem de si mesma. Ela facilita discussões sobre o começo e o término da vida, a qualidade da vivência humana, os limites éticos dos experimentos científicos e as implicações das decisões relacionadas ao corpo. Baseia-se em valores como autonomia, dignidade e justiça, tornando-se um guia essencial em um mundo em que a ciência pode interferir de maneira cada vez mais profunda na nossa essência.

A vastidão desse domínio reflete a complexidade da vida atual, envolvendo discussões sobre aborto, euthanasia, objeção de consciência, maternidade substitutiva, tecnologias reprodutivas, decisões médicas influenciadas por crenças religiosas, modificações genéticas e os efeitos ambientais sobre os organismos vivos. A bioética surge porque a ciência contemporânea ganhou a capacidade de editar genes, escolher embriões, manipular dados pessoais, prolongar vidas e transformar corpos. Questionar “até onde a ciência deve ir” é, na essência, perguntar como proteger a humanidade que reside por trás das inovações. É assegurar autonomia, privacidade, proteção dos vulneráveis e igualdade no acesso aos benefícios da biotecnologia. Contudo, essas questões não se restringem apenas à filosofia. Elas se materializam nos consultórios, onde ciência e vulnerabilidade humana se encontram diariamente.

É nesse contexto que a vivência do geneticista Elias Monteiro ilumina, com seu corpo e voz, aquilo que muitas vezes permanece no abstrato. Uma pessoa que carrega, sem alardear, a serena responsabilidade de lidar diariamente com escolhas complicadas. Seu dia inicia cedo, sempre com exames dispostos sobre a mesa, fragmentos de DNA organizados como se fossem pequenas cartas enviadas pelo corpo humano. Cada laudo gera indagações, cada sequência genética oferece uma nova possibilidade, cada variante pode alterar o rumo de uma vida.

Entre esses documentos, aparecem histórias concretas: famílias que buscam esclarecimentos após anos de dúvidas, casais que tentam planejar o futuro com menor temor, adultos que carregam desde a infância incertezas que nunca foram nomeadas. A rotina dele é composta por precisão técnica, mas também por gestos sensíveis. A genética, em suas mãos, não se restringe à análise molecular; se transforma também em tradução, convertendo a linguagem científica em algo que alguém possa utilizar para respirar melhor, entender mais e viver de forma mais plena.

E ao discutir os limites éticos na ciência, é perceptível uma leve alteração em sua perspectiva. Não se trata de medo; é clareza mental. Ele percebe que a tecnologia vigente tem o potencial de modificar estruturas que antes eram imutáveis: realizar edições genéticas, selecionar traços, alterar direções que vão além da vida de quem está na sua frente. Para ele, tal poder requer mais cautela do que entusiasmo. Interferir no DNA de um indivíduo afeta também o futuro de gerações que ainda estão por vir. Por essa razão, ele argumenta que todo progresso deve ser acompanhado por dignidade, autonomia e justiça, pilares fundamentais para que a ciência mantenha sua integridade moral.

A genética, em sua visão, representa um domínio onde a precisão se alia à sensibilidade. Não há imparcialidade diante de um diagnóstico que pode reconfigurar a vida de uma família inteira. Cada explicação, cada resultado e cada previsão traz um impacto emocional que um algoritmo não consegue prever. Para ele, sua função não se encerra ao descobrir uma mutação; é aí que realmente começa. E talvez seja isso que faz sua presença parecer a de alguém que transita entre dois mundos: a exatidão dos dados e a fragilidade humana, a rigidez do código e a empatia da experiência. Seguindo suas considerações, torna-se claro que a bioética não é um território isolado da vida cotidiana, mas uma demanda urgente que permeia cada exame, cada consulta e cada decisão. Pois enquanto a ciência evolui, a ética deve avançar simultaneamente, não como entrave, mas como salvaguarda.

A manipulação genética em humanos traz à tona esse desafio em sua forma mais intensa. Alterar o código que forma a identidade de um ser envolve riscos imprevisíveis e consequências que podem se estender por gerações. Há também a tentação de empregar essas tecnologias para fins não terapêuticos: melhorar a aparência, a capacidade cognitiva, a força física, aumentando desigualdades, criando distinções artificiais, convertendo diferenças em produtos. Portanto, estabelecer limites éticos e legais se mostra essencial para resguardar a dignidade humana e assegurar que o futuro não fique moldado apenas pelos anseios dos mais favorecidos.

Ao considerar todos esses aspectos, desde as inquietações filosóficas de Arendt até os dilemas éticos que a genética contemporânea propõe, torna-se claro que estamos em um ponto crucial da trajetória humana. Nunca tivemos tanta influência sobre a vida e nunca fomos tão responsáveis por decidir como utilizá-la. A ciência avança, rompendo barreiras que antes eram sagradas; a bioética tenta acompanhar esse movimento, lembrando que nenhuma descoberta é isenta de influência, e que qualquer intervenção na vida deve ser feita com cuidado, prudência e compaixão.

O debate acerca da edição genética transcende uma mera questão técnica. é uma reflexão sobre a humanidade que almejamos ser. É nossa responsabilidade, tanto como indivíduos quanto como coletividade, determinar se iremos criar um mundo impulsionado pela urgência de aprimorar a existência ou pela compreensão de sua preservação. Nesse contexto, a bioética aparece não como um obstáculo, mas sim como um guia: uma ferramenta para assegurar que, ao alterarmos elementos do código da vida, não negligenciamos a conservação daquilo que nos caracteriza como seres humanos.

 

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Com impacto semelhante ao da depressão, a dor persistente atinge 37% dos brasileiros acima de 50 anos.
por
Wanessa Celina
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17/11/2025 - 12h

Por Wanessa Celina

No Brasil, em 2023, o Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos (ELSI-Brasil)  apontou que 37% dos adultos com mais de 50 anos possuem dores crônicas. Além do desconforto físico elas afetam a saúde mental dos pacientes. Em março de 2025, uma pesquisa feita por Johns Hopkins Medicine revelou que, aproximadamente, 40% dos adultos com dor crônica manifestam sintomas clinicamente significativos de depressão e ansiedade.

Dores crônicas são definidas como aquelas que duram mais de três meses e que devem ser tratadas para sempre. Podem ser fibromialgia, dor lombar crônica, enxaqueca crônica, hipertensão, diabetes e outras outras doenças, explica o reumatologista da Secretaria de Saúde do Governo do Estado de São Paulo, José Eduardo Martinez. Segundo afirma, existe uma ligação direta entre dores crônicas e o estado emocional do paciente, sendo que um influência o outro. 

Do ponto de vista da neurofisiologia, a correlação é facilmente explicada. O cérebro humano percebe a dor após uma série de modificações nos nervos que caminham pelo sistema nervoso periférico – o que  transmite informações dos órgãos para o cérebro – , algumas das áreas cerebrais que precipitam a dor são, também, as que são ativadas nas questões emocionais, explica Martinez. 

Para tratamentos de dores crônicas, a associação entre os tratamentos com médicos e  fisioterapeutas em conjunto com um apoio psicológico, pode ter uma boa ação no quadro dos pacientes. Em outubro de 2023, foi sancionada a Lei nº 14.705/2023 que oferece a pacientes com fibromialgia, síndrome da fadiga crônica ou síndrome complexa de dor regional, um atendimento multidisciplinar – como fisioterapia, psicoterapias e medicina –  feito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). 

Mesmo com esses outros apoios psicológicos, o impacto que a doença traz na relação social também afeta o paciente. Segundo José Martinez, uma das principais queixas dos pacientes que têm doenças que geram dor é não serem compreendidas como doentes. Muitas pessoas não percebem que estão convivendo com alguém que esteja sofrendo de dor crônica e o tratamento acaba por ser mais difícil para o paciente.

Isso é um caso de Giovana, que possui enxaqueca crônica. Com apenas 23 anos, ela gosta de sair e se divertir com os amigos, mas muitas vezes fica incapaz de sair de casa por causa das dores. Quando era adolescente suas dores começavam leves e aumentavam até ser uma dor insuportável, depois de adulta, as dores começaram a ser sempre as mesmas, começavam a doer muito forte de uma vez.  

Muitas vezes, quando ia sair com seus amigos e as dores começavam fortes, Giovana teve que desmarcar os encontros. “A dor que sinto é tão forte que só quero ficar deitada na cama, um dos fatores que me atrapalha muito é a iluminação, então lugares muito iluminados, com luzes piscantes acabam piorando minha dor”, relata a jovem. Muitas vezes, seus amigos achavam que ela só estava sendo “frescurenta” e ficavam chateados, assim, o seu tratamento começou a ficar solitário, não ia mais para as aulas, se isolava, e comparava com “pessoas mais saudáveis que eu”, declara.

O reconhecimento da enxaqueca crônica como uma doença pelos seus amigos seria fundamental para Giovana. “Muitas pessoas ainda dizem coisas do tipo "Eu faço várias coisas com dor de cabeça, trabalho com dor de cabeça, vou pra aula, é só tomar um remédio que passa", mas a enxaqueca é uma dor totalmente diferente, chega a ser insuportável”, diz. Giovana é uma entre as milhares de pessoas que entendem que tratar doenças não necessita só dos médicos e dos medicamentos, mas, também, de uma colaboração com toda a população.

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Mesmo após avanços na ciência, a saúde feminina continua sub-representada em pesquisas e consultas. O corpo das mulheres segue sendo tratado como exceção.
por
Helena Costa Haddad
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27/10/2025 - 12h

Por Helena Haddad

 

Apesar de representarem metade da população mundial, as mulheres continuam sub-representadas nas pesquisas médicas. A lacuna nos ensaios clínicos compromete a eficácia, a segurança e a equidade dos tratamentos disponíveis hoje. Segundo levantamento publicado na Nature Medicine (2024), menos de 35% dos estudos clínicos globais incluem dados diferenciados por sexo, e apenas 20% consideram como os medicamentos afetam homens e mulheres de forma distinta. Até 1993, o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH) proibia a participação de mulheres em idade fértil em ensaios clínicos, sob o argumento de proteger possíveis gestações. O resultado foi uma medicina construída sobre o corpo masculino como padrão universal: dosagens, efeitos colaterais e até sintomas de doenças graves, como o infarto, foram definidos a partir de corpos de homens jovens e brancos.

Durante décadas, o corpo feminino foi visto como instável, hormonal e difícil de estudar — uma percepção que moldou uma ciência que não representa as mulheres. Até hoje, muitos sintomas femininos são subestimados ou confundidos com causas psicológicas, explica a psiquiatra Maria Franco.

Casos recentes reforçam a urgência dessa discussão. Um exemplo é o medicamento Zolpidem, usado para insônia. Estudos mostraram que as mulheres metabolizam a substância mais lentamente, o que faz com que acordem ainda sob efeito sedativo — aumentando o risco de acidentes. A FDA já havia reduzido pela metade a dose recomendada para mulheres em 2013, e, em 2024, a Anvisa atualizou as bulas no Brasil após relatos de efeitos adversos graves, como sonambulismo e confusão mental.

Um estudo publicado na Biology of Sex Differences em 2024, analisou 86 medicamentos aprovados pela FDA: em 76 deles, as mulheres apresentaram maior concentração da substância no sangue, e em 96% dos casos isso estava associado a maior incidência de reações adversas — como náusea, tontura e arritmia. Em resumo, a maioria dos remédios vendidos hoje ainda é testada e dosada para corpos masculinos.

O corpo feminino possui diferenças de massa magra, gordura e metabolismo hepático. Essas variáveis interferem diretamente na absorção e eliminação de medicamentos, explica a psiquiatra.

A desigualdade de gênero também aparece no atendimento médico. Em 2024, um levantamento do Instituto Patrícia Galvão apontou que 61% das mulheres brasileiras afirmam não se sentirem ouvidas por profissionais de saúde. As queixas vão de dores crônicas desconsideradas a diagnósticos errados de doenças cardíacas, endometriose e lúpus. Casos como o de Lidiane Vieira Frazão, que morreu 22 dias após o parto durante a pandemia de Covid-19, sem atendimento adequado, ilustram o impacto disso. A família denunciou o hospital por violência obstétrica e negligência médica. 

O viés masculino na medicina é tão antigo quanto a própria ciência. A partir do século XIX, o corpo feminino passou a ser tratado como “anômalo” — sujeito a histerias, desequilíbrios hormonais e instabilidade emocional. Essa visão ainda ecoa em práticas clínicas e diagnósticos enviesados. A Organização Mundial da Saúde reconhece que o viés de gênero é uma das principais causas de erro de diagnóstico no mundo. Não basta incluir mais mulheres nos testes. É preciso mudar o olhar, considerar o ciclo hormonal, a gravidez e a menopausa, conclui a Dra. Franco.

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