Mostra especial com itens próprios e trajetória do vocalista da banda Charlie Brown Jr. atrai grande público em Santos
por
Ivo de Carvalho
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05/10/2026 - 12h

A cidade de Santos foi escolhida para receber a exposição Chorão House, entre os dias 26 de agosto e 27 de setembro no Praiamar Shopping. Com acervo histórico de objetos pessoais e ambientes temáticos, uma das grandes atrações está na reconstituição em cenário do próprio quarto do lendário músico. O evento recebeu mais de 12 mil pessoas, de acordo com a Secretaria de Turismo da cidade.

 Grandes bandas foram importantes para a cena do rock nacional nos anos 1990. Porém, pode-se dizer que o Charlie Brown Jr. teve um papel de destaque com suas levadas energéticas, vibrantes e revolucionárias. As letras cantadas pelo vocalista Alexandre Magno Abrão, popularmente conhecido como Chorão, moveram legiões de fãs por todo Brasil. A exposição Chorão House traz uma experiência imersiva para o público. Com objetos pessoais do artista, bonés, guitarras, camisetas de bandas, shapes e medalhas de campeonatos de skate. Campeão de diversas modalidades e etapas, mostrava sempre seu estilo de vida que equilibrava entre a música e a vida em cima das quatro rodinhas. Atividades preferidas que alternava em sua rotina: quando não estava escrevendo letras, poderia estar certamente andando de skate pela orla da cidade de Santos. Especificamente na praia de Aparecida.

(Reconstituição do quarto de Chorão. Fotografia: Ivo Leite)
Reconstituição do quarto de Chorão. Foto: Ivo Leite/AGEMT

Durante a visitação, trechos gravados com sua voz falando de suas histórias de vida estão presentes. Conversas em shows, gravações e risadas. Quase sempre crônicas engraçadas de momentos únicos com amigos e outros músicos ou skatistas. Por exemplo, há um áudio com sua explicação sobre a origem do nome da banda, que foi uma história cômica de uma barraca de cocos. A reconstituição de seu quarto com uma cenografia especial é um dos pontos mais brilhantes da exposição. A tradução da maneira de como  vivia. Sempre intensamente e como se o próximo dia fosse o último. Visivelmente clara a relação apaixonada entre música e skate em seus objetos ao redor de onde dormira diariamente. Andando mais adiante na exposição, encontra-se outra coisa que fazia o coração de Chorão bater mais forte: o Santos Futebol Clube. Camisas feitas pelo próprio clube homenageando o músico em coleções especiais exclusivas mostram a relação afetiva e especial que tinha com o “Peixe da Vila”.

(Ambientação temática sobre sua paixão pelo Santos FC. Fotografia: Ivo Leite)
Ambientação temática sobre sua paixão pelo Santos FC. Foto: Ivo Leite/AGEMT

Chorão morreu em 2013, mas seu legado se mostra  eterno na exposição. Para representar a sua vida nos palcos, a exposição trouxe uma bateria acústica completa e uma guitarra utilizada por ele no videoclipe “Só por uma noite”. Além disso, várias fotos de turnês e com outros artistas parceiros estão presentes. 

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Segundo volume de “O que separa os homens dos meninos” do rapper aborda temas como saúde mental e amor ao seu filhol
por
Laila Santos
Wanessa Celina
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30/09/2026 - 12h

Mais de uma década após o lançamento do primeiro volume, Sant volta com  “O Que Separa os Homens dos Meninos, Vol. 2”, lançado em 16 de setembro. Com 11 faixas, o álbum reúne participações de diferentes gerações, como Emicida, KL Jay, Derxan, Duquesa, 2ZDinizz, L7NNON, Bia Ferreira, ADL, Tiago Mac, Céu, Cipriano, Lil Whind, Clara Lima, Pecaos e Nego Damoé.


Como uma continuação da conversa do primeiro volume, Sant explora o seu amadurecimento, a saúde mental, as ruas, os caminhos para conquistar os seus sonhos, o amor ao primogênito e os desafios das periferias brasileiras. A obra também teve uma produção audiovisual lançada antes do álbum, em 7 de setembro. Com esse trabalho, o rapper buscou trazer, cinematograficamente, os sentimentos do álbum, além de homenagear dois amigos mortos em abril deste ano: Kauan "Faraó" de Souza Marques da Silva e Leonardo "KBL" Abrão de Aquino.

cartaz do filme
Cartaz do filme “Isso é Exatamente O Que Separa Os Homens dos Meninos II” (Divulgação: Instagram @aqueminina)

O artista e seu território 


Ser da Zona Norte do Rio de Janeiro, mais especificamente do bairro de Pilares, não é só uma curiosidade de Sant. No curta-metragem, além de muitas imagens, alguns cortes das faixas do projeto e diálogos importantes para o artista, como a dificuldade financeira, a falta de perspectivas nas comunidades, um acontecimento entre ele e seu pai que o tocou profundamente e trouxe uma reação que ele não quer mais encontrar ou ser engatilhado para ter e a cultura e festa do bate-bola. 
Músicas como “Fronteira”, que divide com o cantor de pagode Nego Damoé, e em “Meio”, que divide com o rapper L7NNON e produção de MC Marechal, mentor de Sant no início da carreira, o espaço é o principal personagem da história. A Zona Norte é tratada como um lugar tão sagrado quanto Jerusalém, mas que vive “sob a paz da Síria”, que vive em constante instabilidade após o fim da guerra civil.


Se o primeiro trabalho dessa futura trilogia registrou a revolta, as perguntas, a mágoa e o começo da construção de carreira, em “Meio”, mostra o homem que ele se tornou, agora, pai, com algumas perdas e ganhos no caminho e com a mentalidade de revisitar o passado e olhar para o presente conjuntamente sem a necessidade de se autojustificar, ver as mudanças e entender que já não é mais o mesmo. Sant, que se denomina “filho do meio”, observa os males dos mais velhos e dos mais novos, ele entende que o medo é o empecilho nas ruas. 


Na parte de L7NNON, que cresceu na Zona Oeste do Rio de Janeiro, quando percebe as semelhanças entre as duas zonas, ele traz o entendimento de que o que separa os homens dos meninos nas duas regiões é ver que não importa quanto corra atrás de um sonho, ainda não está perto. L7 vê que para viver no território o dinheiro é indispensável, mas vencer nem sempre é ser o primeiro.  


“Tеrapia é pra quem não tem conta pra engolir choro”


Um fator importante para a trajetória de Sant, tanto pessoal quanto artística, e que está bem presente no disco de ponta a ponta, é a saúde mental. Para o compositor, esse tema foi excepcional para o seu amadurecimento e evolução para esta nova era.  Na segunda faixa do álbum, “Sobrevivente”, Sant aborda a saúde mental, ou melhor, a falta dela em pessoas periféricas. Na música, sobreviver é mais importante do que pensar no bem-estar psíquico. Sant questiona como demonstrar vulnerabilidade mental quando se aprende que não se pode desistir. Na música, Sant rima “Não finjo ser forte, eu tive de ser a força/ Porque o que dignifica a honra é somente o esforço, né?”.


Entretanto, logo que a faixa acaba, surge o “Interlúdio (estratégia mental e emocional de libertação)”, em que Cipriano pensa em outra forma de ver a saúde mental de pessoas negras em um país que historicamente mata, explora e vive do suor e sangue da população negra. O que o terapeuta mostra é que não basta a população negra sobreviver, que é necessário, por meio  da terapia, encontrar margens para a libertação. 


Onze anos depois, vem o amadurecimento


Em “O que separa os homens dos meninos 2”, faixa principal em colaboração com o rapper Emicida e com a produção de LP Beatzz, Sant traz a continuação da sua música “O Que Separa Os Homens Dos Meninos Vol. 1”, lançada em 2015. Onze anos depois, o artista mostra um olhar mais amadurecido sobre sua relação familiar, relação consigo e seu trabalho. Mais calmo e menos autopunitivo, Sant agora é o adulto olhando para o percurso de sua vida.

Capa do álbum do Sant
Capa do álbum “O Que Separa Os Homens dos Meninos Vol.2”  (Divulgação: Instagram @originalsant)


Sant usa a ideia de que era um incendiário e se tornou bombeiro. Esse trabalho nos mostra outra linha de raciocínio: o amadurecimento do rapper. Ainda em busca de respostas e trazendo novos questionamentos sobre o nome do álbum, o artista troca a revolta da primeira parte por paternidade, saúde mental e perdão, a partir dos acontecimentos pessoais nesse intervalo entre os dois ”mundos”. 


Com referência a artistas mulheres brasileiras, Emicida complementa a música afirmando que o seu rap é uma forma de lançar à periferia a ideia de sonhar. O paulista, por fim, lembra que um homem, na verdade, é o resultado daquilo que fizeram com um menino. 


Sant, Pecaos, 2ZDinizz, Duquesa, ADL e Clara Lima se juntam para fazer a sétima faixa do álbum, “Corre”. Na música, o amadurecimento é contado com a história pela perspectiva dos outros rappers. Nas rimas, o tema principal é o movimento. “Só que parar também é movimento”, a letra toca numa realidade não restrita aos artistas, mas uma realidade vista muitas vezes na periferia, onde se movimentar é uma das principais regras para nunca ser “devorado” pelo mundo.


“Esse é meu testamento, as outras cartas são rascunhos”


“Cartas de Amor”, quinta faixa do álbum, mostra uma versão mais apaixonada de Sant. Escrita como uma carta para o seu filho, Arthur, a faixa exprime sua vontade de ser alguém melhor para o filho. Como um testemunho, os versos mostram a delicadeza com com que o amor pelo primogênito mudou as escolhas de sua vida.
 

Rapper Sant posando para foto
Rapper Sant em foto de divulgação do álbum “O que Separa Os Homens dos Meninos Vol.2”. Foto: Ciro Neves/Divilgação

“Ônus”, a última faixa do álbum, é mais do que um pós-crédito. Mais do que um mero agradecimento, Sant termina o curta e o álbum agradecendo a pessoas importantes para a realização do curta e fazendo fazendo uma declaração a moradores e moradoras de bairros da Zona Norte. Ônus vem como uma “lição de moral”, assim como nos contos infantis, mostrando que ainda não é o fim de uma história em constante movimento.
 

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Cineasta responsável por “A Batalha do Chile” sofreu uma parada cardiorrespiratória
por
Enrico Peres
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17/09/2026 - 12h

Na madrugada da última terça-feira (15), o documentarista chileno Patrício Guzmán faleceu após uma parada cardiorrespiratória. O cineasta estava internado em um hospital em Paris, cidade em que residia. 

Guzmán é reconhecido como um dos grandes nomes do cinema documental na América Latina, e ficou marcado principalmente por seus trabalhos relacionados à ditadura militar chilena, iniciada em setembro de 1973. Entre suas obras, a de maior destaque foi “A Batalha do Chile”, filme dividido em três partes que documenta o final do governo de Salvador Allende, a pressão opositora financiada pelos Estados Unidos e o golpe que pôs fim à utopia que chegara ao poder pelas urnas. Inicialmente, a ideia do documentário seria a de acompanhar o terceiro ano de governo da UP, a Unidade Popular. O filme, cujas filmagens foram iniciadas em 1972 até depois do golpe de estado, foi montado como uma trilogia em que cada parte retrata diferentes aspectos da organização popular e do golpe. 

A primeira parte, intitulada de “A insurreição da burguesia”, apresenta o cenário das eleições parlamentares no país e as tentativas falhas da burguesia chilena de derrubar o governo de Allende. A segunda, “O golpe de Estado”, segue mostrando os prelúdios da derrubada até culminar no dia 11 de Setembro de 1973, com o golpe e a morte de Allende. A última parte, “O poder popular”, foca nos movimentos sociais do país antes e depois da tomada do governo. Guzmán foi exilado e teve que finalizar o filme em Cuba.

Mais tarde em sua filmografia, o documentarista procurou produzir seus filmes sobre o período ditatorial no Chile, como em “Nostalgia da Luz”, em que acompanha mulheres que procuram corpos de seus parentes mortos pela ditadura. Na biografia de “Salvador Allende”, ele parte de uma perspectiva de revisitação, isto é, produz um cinema de memória, nomeado pelo próprio Guzmán como Cinema Testemunhal.

Patricio Guzmán seguiu fazendo filmes até 2022, quando lançou sua última obra, “Meu país imaginário”, que registra os protestos em Santiago, capital de seu país, mirando o futuro da democracia chilena.

 

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Com quase sete décadas de carreira, cantora morreu após enfrentar um câncer nos últimos meses
por
Luis Henrique Oliveira
Natália Matvyenko
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28/08/2026 - 12h

A cantora e compositora americana Dolly Parton morreu aos 80 anos nesta terça-feira (25), no hospital Vanderbilt-Ingram Cancer Center, em Nashville, Tennessee, nos Estados Unidos. A informação foi divulgada nas redes sociais da artista por um vídeo de seu sobrinho e chefe de segurança, Brian Seaver: “Esse anúncio em vídeo é algo que Dolly me pediu há anos, antes que eu tivesse absorvido totalmente como uma realidade no futuro. [...] Dolly viveu na luz e está nos braços de Jesus, certamente recebida por Carl [Thomas Dean], seus pais e inúmeras outras pessoas que a observaram e ansiaram por encontrá-la nos céus”

Em comunicado para a revista People, a assessoria da artista revelou que Parton havia recebido um diagnóstico de câncer nos últimos meses, travando uma “breve batalha” contra a doença, e passou os momentos finais cercada da família e amigos. Mais detalhes não foram revelados. 

Em maio, a cantora cancelou uma série de shows que faria em Las Vegas para focar em sua saúde, que estava debilitada desde a morte de seu marido, Carl Thomas Dean, em março do último ano.

Cantora country Dolly Parton sorrindo em frente à bandeira americana.
Dolly Parton é a terceira mulher com mais indicações na história do Grammy. Foto: Instagram/@DollyParton

Conhecida por suas perucas loiras, voz única e figurinos extravagantes, Dolly construiu uma carreira de quase sete décadas marcada por hits como “Jolene”, “9 to 5” e “I Will Always Love You”, eternizado na voz de Whitney Houston em 1992, acumulando um total de 11 Grammys, além de indicações ao Oscar, Emmy e Tony.

Nascida em janeiro de 1946, em uma cabana de apenas um cômodo às margens do rio Little Pigeon, Dolly Rebecca Parton era a quarta entre 12 filhos de dois agricultores sem terra e cresceu em situação de extrema pobreza rural. Sem acesso a energia elétrica ou encanamento, a mãe costurava seus vestidos com restos de pano, experiência que resultou na canção “Coat Of Many Colors”. “Essa música significa muito para mim de tantas maneiras e por tantos motivos. É mais uma filosofia do que uma música”, explicou em entrevista para a Rolling Stone, em 2021.

Sua entrada no mundo artístico aconteceu em 1959, aos 13 anos, influenciada pela família que possuía fortes raízes musicais. Contudo, foi apenas em 1967 que sua ocupação atingiu um novo patamar, quando integrou a equipe do programa do cantor Porter Wagoner e firmou uma parceria com este, resultando em 13 álbuns de estúdio antes da separação oficial.

Em 1980, Parton resolveu se aventurar nas telonas, marcando sua estreia como atriz na comédia Como Eliminar Seu Chefe (9 to 5, dir. Colin Higgins). O filme rendeu para a musicista três indicações ao Globo de Ouro por sua atuação como a secretária Doralee Rhodes e uma indicação ao Oscar em Melhor Música Original pela canção homônima 9 to 5.

Dois anos mais tarde, renovou a parceria com Higgins e integrou o elenco do musical A Melhor Casa Suspeita do Texas (The Best Little Whorehouse in Texas) como a protagonista Mona Stangley. O papel lhe trouxe outra indicação ao Globo de Ouro em Melhor Atriz em Comédia ou Musical. Após isso, sua filmografia foi ganhando novos títulos como Rhinestone: Um Brilho na Noite (Rhinestone, dir. Bob Clark), em 1984, e o romance "Flores de Aço" (Steel Magnolias, dir. Herbert Ross), em 1989.

Cantora country Dolly Parton sorrindo em frente um fundo azul, usando roupas verdes e unhas pintadas de vermelho
“I Will Always Love You” foi o primeiro single de Dolly Parton à chegar no topo das paradas country. Foto: Instagram/@DollyParton

Muito mais do que apenas uma figura do entretenimento, Dolly Parton também era reconhecida por seus projetos filantrópicos. Em 1988, criou a Fundação Dollywood, instituição que tem como intuito reduzir a evasão escolar e incentivar a educação infantil. Alguns anos mais tarde, começou a financiar o projeto Dolly Parton's Imagination Library, que envia mensalmente livros de forma gratuita para crianças com até cinco anos.

Mas seu feito mais conceituado veio durante a pandemia do COVID-19. Em 2020, a cantora doou US$1 milhão para o Centro Médico da Universidade Vanderbilt, em Nashville, ajudando a financiar as etapas primárias da vacina produzida pela farmacêutica Moderna.

A notícia sobre seu falecimento provocou uma onda de homenagens entre fãs e artistas. Dentre eles, nomes como Taylor Swift, Miley Cyrus, Stevie Nicks, Paul McCartney e Beyoncé prestaram seus tributos à Dolly nas redes sociais, destacando a admiração que sentiam e sua importância, tanto para a indústria cultural quanto para as causas sociais.

Miley Cyrus, afilhada de Parton, publicou uma despedida emocionada, afirmando que os momentos mais especiais com sua “tia Dolly” permaneceriam privados “por trás do glamour e guardados entre nossos corações”.

“O que eu sei é que Dolly gostaria que eu sentisse tudo isso, escrevesse uma música sobre isso e depois seguisse em frente, sendo forte. Tenho um anjo ao meu lado. Sempre tive. Uma das nossas últimas conversas foi sobre música e metamorfose.”

Miley Cyrus e Dolly Parton, respectivamente, sorrindo em foto
Dolly Parton fez participação especial em Hannah Montana, série protagonizada por Miley. Foto: Instagram/@mileycyrus

Consciente de seu legado, Dolly Parton ainda possui uma última música para ser lançada futuramente, em 2046, quando fizer 100 anos. Intitulada “My Place in History”, a faixa está enterrada em uma caixa de madeira no hotel Dollywood Dreammore Resort e contém cópias físicas em CD e fitas cassetes, junto de aparelhos próprios para ouvi-la.

“Eu tive que escrever essa música que ninguém ia ouvir até então. E eu te digo, você não tem ideia de como isso me incomodou. Eu quero muito desenterrá-la e pensar: 'Bem, eu preciso usar essa música', porque ela é... é uma música muito boa.”, explicou.

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Paróquias da cidade têm programação junina, reunindo fiéis e moradores em festas com comidas típicas, brincadeiras e atrações para toda a família
por
Raissa Santos
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23/06/2026 - 12h

O mês de junho sempre traz consigo o cheirinho agradável do vinho quente, decorações com bandeirinhas coloridas e festividades que movimentam comunidades religiosas por todo país. Em São Caetano do Sul, sete das 11 paróquias que compõem a Forania da cidade preparam quermesses que reúnem fiéis em celebrações marcadas por comidas típicas, música e atividades para toda a família. 

As festividades, que começaram em maio com a quermesse da Paróquia São Bento — já encerrada — se estendem até o fim de julho, tomando conta dos pátios das igrejas espalhadas pela cidade. No Centro, a festa da Matriz Sagrada Família segue até o dia 28 de junho, sempre das 16h às 22h. O cardápio oferece aos visitantes opções clássicas como cachorro-quente, espetinhos, milho-verde, além de bebidas típicas como quentão, vinho quente e o tradicional chá do padre. 

No bairro Jardim São Caetano, a Paróquia Santo Antônio também segue com a quermesse até o dia 28, quando realizará o seu tradicional bingão. Voluntária desde 2023, Milena Drudi, de 22 anos, destaca que participar da organização da festa é uma experiência desafiadora e divertida ao mesmo tempo. Neste ano, após deixar a coordenação da barraca das brincadeiras, ela passou a colaborar em diferentes setores da quermesse. Segundo ela, a mudança permitiu conhecer novas funções e ter mais contato com o público. “Foi muito divertido trabalhar como voluntária e também exercitar minhas habilidades sociais. A experiência no caixa foi uma das mais desafiadoras e, ao mesmo tempo, uma das mais divertidas”, conta. 

Já a Paróquia Nossa Senhora da Candelária, no bairro Cerâmica, mantém sua quermesse até o dia 5 de julho, oferecendo ao público as tradicionais barracas de comidas típicas e um ambiente de confraternização para a comunidade. O mesmo acontece na Paróquia São João Batista, que também segue com sua programação até 5 de julho, mantendo seu tradicional bingo e reunindo fiéis e moradores para celebrar o período junino. 

Domitila Barbosa, de 15 anos, conta que frequenta a São João Batista com a família desde 2008, e participa da barraca do bingo junto de seu pai desde que ele assumiu a coordenação em 2018. “No nosso bingo, quase todo final de semana, temos uma rodada que sorteia um bicho de pelúcia gigante e as crianças ficam super animadas pedindo para os pais participarem do bingo”, destaca.

Frequentadores em bingo da Paróquia São João Batista. Foto: Reprodução / Instagram Paróquia São João Batista SCS
Frequentadores em bingo da Paróquia São João Batista. Foto: Reprodução / Instagram Paróquia São João Batista SCS 

Na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, as festividades acontecem até o dia 5 de julho, das 18h às 22h. Além das comidas e bebidas típicas que marcam as quermesses, a paróquia preparou atrações especiais para o público. Entre os destaques estão o posto de troca de figurinhas e um telão que transmitirá os jogos do Brasil na Copa. Heitor Souza Móda, de 15 anos, frequenta a paróquia desde os 10 anos de idade e esteve na quermesse durante o jogo do Brasil contra o Marrocos ao lado dos amigos do grupo de jovens. “É um ambiente gostoso que podemos conviver, é legal ver o jogo com a família, mas com todo o pessoal aqui e as comidas, tudo fica melhor” contou ele. 

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Quermesse da Paróquia Nossa Senhora Aparecida. Foto: Jaqueline Borges

Encerrando a programação, a Paróquia Nossa Senhora das Graças realiza sua quermesse até o dia 26 de julho, sempre das 18h às 22h. Além dos tradicionais lanches, doces e bebidas típicas, a festa também incorporou ao cardápio opções de tempurá de legumes e camarão, oferecendo um diferencial gastronômico aos visitantes.

Com opções espalhadas por diferentes bairros e datas que se estendem até o final de julho, às quermesses de São Caetano do Sul surgem como uma oportunidade para reunir a família, estreitar laços e fortalecer a convivência comunitária, mantendo viva uma das tradições mais populares do calendário brasileiro.

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Consumo consciente e busca por saúde impulsionam a produção nacional
por
Chloé Dana
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30/09/2025 - 12h

Por Chloé Dana

 

Em meados de 2025, pesquisas agronômicas da Embrapa e da Organis, apontam que a produção de orgânicos no País aumentaram em 12%, visando um consumo mais saudável e consciente. O crescimento aponta à prioridade por produtos sem agrotóxicos e ao fortalecimento de políticas públicas voltadas à agricultura ecológica. 

Porém, é preciso entender como esse aumento surge, en que se diferencia de outras nações por suas profundas raízes em movimentos sociais e agroecológicos, em vez de ser impulsionada exclusivamente por lógicas de mercado. Mais do que apenas um método de cultivo, a agricultura orgânica é definida por um sistema de produção agropecuária que utiliza técnicas particulares com a finalidade de aprimorar a utilização dos recursos naturais e socioeconômicos à disposição, preservando a integridade cultural das comunidades do campo. Seus fundamentos incluem a sustentabilidade econômica e ambiental, a maximização de vantagens sociais, a redução da dependência de fontes de energia não-renováveis e a adoção de métodos biológicos e mecânicos em lugar de organismos que foram geneticamente alterados.

O surgimento da agricultura orgânica no Brasil remonta a meados da década de 1970, impulsionado por uma reação ao avanço da Revolução Verde, que propunha uma modernização da agricultura em prol do melhoramento genético, uso de insumos e agrotóxicos. Nessa época, a comercialização de produtos ocorria de maneira direta, baseado em um simples sistema de confiança entre quem produzia e quem comprava. 

O mercado inicial consistia em um "segmento natural" oferecendo entregas semanais de cestas contendo frutas, verduras e legumes na casa dos clientes. A presença de lagartas e bichinhos no alimento, era percebida pelos primeiros clientes como uma sinalização de qualidade, indicando que os alimentos tinham sido cultivados sem o uso de produtos químicos. A valorização dos produtos orgânicos não se baseava em certificações formais, mas sim na confiança entre as partes e na evidência concreta da falta de químicos, o que destaca que as origens do movimento no Brasil são fundamentadas em princípios agroecológicos e filosóficos, e não apenas comerciais. 

O produtor de orgânicos e feirante na Vila Madalena Carlos Nascimento explica alguns motivos de porque optou pelo orgânico ao invés do convencional. Nascimento afirma que sua decisão surgiu de um desejo de produzir de maneira mais consciente pois ao observar a prática convencional, notou os efeitos negativos do uso incessante de pesticidas e fertilizantes químicos. O solo se tornava exaurido, a biodiversidade se perdia e a saúde das pessoas que lidavam frequentemente com esses produtos era comprometida. 

Outro fator que influenciou sua escolha foi a valorização crescente do mercado de produtos orgânicos. O agricultor percebe que esse segmento possui um grande potencial de crescimento, impulsionado por consumidores mais conscientes e prontos para apoiar práticas sustentáveis. Apesar do notável crescimento e das conquistas legislativas, o setor orgânico no Brasil enfrenta desafios estruturais que representam obstáculos significativos ao seu desenvolvimento pleno, e isso implica em tempo e políticas públicas para o setor.

Quando discute o amanhã, o produtor demonstra uma visão otimista, porém fundamentada na realidade. Ele enxerga um grande potencial para o crescimento da agricultura orgânica no Brasil, especialmente devido à mudança na conscientização dos consumidores. Cada vez mais, famílias estão em busca de alimentos que não contenham agrotóxicos, valorizando a origem dos produtos que adquirem e desejando apoiar práticas sustentáveis. Para ele, esse movimento representa não uma moda passageira, mas uma tendência crescente que deve se intensificar nos anos vindouros, alinhando-se à preocupação global com a saúde e o meio ambiente.

Outro aspecto que ele enfatiza é a urgência de aumentar o acesso. Atualmente, os produtos orgânicos ainda alcançam uma fração reduzida da população, frequentemente restrita às grandes áreas urbanas e a consumidores com maior capacidade financeira. Para o futuro, ele aspirar por um cenário em que os orgânicos se tornem mais disponíveis, integrando-se a feiras comunitárias, merendas escolares e até programas de abastecimento público, garantindo que alimentos saudáveis deixem de ser um privilégio e se tornem um direito.

O mercado de orgânicos no Brasil encontra-se em uma fase de crescimento explosivo, impulsionado por uma mudança no perfil do consumidor e políticas de fomento. No entanto, o setor enfrenta desafios estruturais significativos, como o desequilíbrio entre oferta e demanda, a fragmentação dos dados oficiais e as barreiras de entrada para os pequenos produtores. A superação desses gargalos, especialmente a questão da certificação e o fortalecimento da logística e da cadeia de valor, é crucial. Ao abordar essas questões de forma estratégica, o Brasil tem a oportunidade de não apenas manter sua liderança na América Latina, mas de se consolidar como um dos principais players globais, alinhando seu potencial de produção com o vigor de seu mercado consumidor.

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A inovação da indústria do cigarro está a todo vapor em meio à juventude
por
Laila Santos
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16/11/2025 - 12h

Por Laila Santos

 

Os isqueiros desapareceram das mãos dos jovens. No lugar do estalo familiar, uma luzinha colorida acende e apaga, discreta, enquanto a fumaça doce se espalha pelo ar. Os cigarros eletrônicos chegaram como alternativa para quem queria abandonar a fumaça tradicional. Porém, empurrados pela curiosidade e pelo apelo dos sabores, se infiltraram no cotidiano e viraram o novo vício de uma geração. A indústria do tabaco percebeu rápido a oportunidade. Trocou o cheiro forte do cigarro comum por aromas de frutas e doces, como se a escolha de um pod fosse tão simples quanto escolher um sorvete. A promessa era sedutora: reduzir os danos do cigarro convencional. Mas esse discurso se desfaz quando lembramos que o inimigo continua o mesmo. A nicotina nunca deixou a jogada.

Presente entre 2% e 8% nas folhas de tabaco, é ela quem cria o laço invisível da dependência. Como explica o médico Drauzio Varella, em Como a nicotina age no cérebro, bastam 15 segundos para que a substância chegue ao sistema nervoso e desperte neurotransmissores como dopamina, serotonina e noradrenalina, os receptores do prazer. O problema é que o cérebro se acostuma rápido. E, quando a dose deixa de ser suficiente, ele pede mais. Um ciclo simples, quase silencioso, que transforma curiosidade em necessidade.

Entre os jovens entrevistados, quase todos começaram por impulso: amigos usando, vontade de experimentar, a sensação de novidade. Bruno, de 25 anos, lembra que migrou do narguilé para o pod pela praticidade. Não precisava montar, sempre está pronto para uso. Com o tempo, vieram os sintomas de abstinência - a sensação de faltar algo sempre, ansiedade e sentimentos ruins - quando ficava horas sem vaporizar.

Anny Massen, 23, encontrou nos pods um mundo que se revelou rápido demais. No seu primeiro uso disse ter sentido um gosto maravilhoso e que o produto era muito bom. Ela descreve o primeiro contato como quem lembra de um doce proibido. O dispositivo não deixava cheiro forte no cabelo ou na roupa, vantagem que o cigarro tradicional nunca ofereceu. Com o tempo, Anny passou a escolher pods como quem escolhe perfume: pelas marcas, as que conhece são: Ignite, Lost Mary, Elfbar. Além dos sabores e quantidade de puffs. No entanto, junto com a variedade veio o gasto, R$ 300,00 por mês e a sensação incômoda de que não controla mais o próprio hábito.

O momento de fumar é denunciado quando ela começa a tremer. Tentou parar. Vieram as enxaquecas e os tremores. O ciclo mais próximo pede que ela largue o eletrônico. Ela mesma deseja isso, mas está convencida de que não consegue. Aconselha: “Não comece. Se você não quer se viciar, não traga isso pra sua vida. Depois é um caminho sem volta.”

Lucas, conhecido como 'Oreia', de 20 anos,  entrou nesse mundo pela curiosidade, mas também pela oportunidade. Usa e vende os pods. Gosta da praticidade, não precisa de fogo, cabe no bolso, troca de sabor num clique. A compra chega por motoboy como quem recebe um pedido de aplicativo — simples, cotidiano, rotineiro. No primeiro uso, sentiu algo que descreve como “bom e inovador”. Mas não demorou para notar a falta de ar e o relaxamento que vinha logo depois da tragada. Ele fuma quando quer, ou quando a agonia aperta. Fuma sozinho, às vezes com amigos. Tenta não gastar mais de R$ 100,00 por mês.

A venda, para ele, virou renda. Mesmo proibidos os dispositivos circulam com facilidade. Seus fornecedores, todos nacionais, atuam quase todos no centro de São Paulo. Lucas sabe dos riscos: dependência, cortes na garganta e falta de ar. Acredita que quem compra com ele já sabe dos riscos que possivelmente corre. Para ele, a proibição faz sentido, mas não muda o fluxo de vendas. Já que é vantajoso, declara que se vender um por dia, tira no mínimo dois mil no mês. E confirma que a procura só aumentou ao longo dos anos. Seu marketing é discreto, acontece pelas redes sociais e indicações entre amigos. A maioria dos consumidores são jovens e já vão na intenção de adquirir os produtos que querem. 

No entanto, o fascínio esconde contradições. Desde 2009, a comercialização, importação e propaganda de cigarros eletrônicos estão proibidas no Brasil. Ainda assim, a venda é comum e de fácil encontro.

Anny acha em lojas de tabacaria e sempre achou fácil para comprar,igualmente Bruno. Para Lucas e Jhonatha, no começo era difícil achar, mas agora tem em todo lugar.As compras acontecem em tabacarias, pela Internet, no centro de São Paulo ou por indicação de amigos. Além da dependência química, há riscos físicos. Alguns dispositivos, especialmente os sem marca ou adulterados, podem explodir ou causar queimaduras. A maioria dos que Bruno compra não tem nem nome, revelando um mercado paralelo e perigoso. 

O modelo muda, do cigarro de filtro ao eletrônico com luzes, mas a lógica permanece: a nicotina segue guiando o hábito, cobrando seu preço em silêncio. O vício só muda de rosto, já o problema, não.

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Maior evento europeu do setor continua na rota por novidades eletricas e mais concorrência a cada ano
por
Vítor Nhoatto
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22/09/2025 - 12h

Ocorrido entre os dias 9 e 14 de setembro, o IAA Mobility recebeu mais de 500 mil visitantes, superando a sua última edição em 2023. Estiveram presentes as germânicas Audi, BMW, Mercedes, Opel, Porsche e Volkswagen, mas Fiat, Peugeot e nenhuma japonesa compareceu. Com isso, mais uma vez uma grande parte de Munique foi palco para as chinesas se consolidarem e expandirem.

Com o lema “It’s all About Mobility”, em tradução livre, “É Tudo Sobre Mobilidade”, o foco da mostra se manteve em soluções inteligentes e inovadoras. Startups como a Linktour com  seus micro carros elétricos, e marcas de bicicletas e motocicletas elétricas estavam por todos os lados do München Expo Center. E repetindo o formato aplicado desde 2021, com o chamado “Open Space”, uma área de experiências interativas gratuitas ao ar livre, os visitantes podiam experimentar tudo isso.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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 Além disso, a inovação tecnológica foi tema de muitos debates e coletivas de imprensa com representantes da indústria. Fornecedoras como a Bosch, Aisin e Revolt, além de empresas de carregadores como a Charge X e E-Mobilio e a gigante de baterias CATL foram só alguns dos mais de 750 expositores presentes. 

Setor premium atento

Falando em eletricidade, ela estava no centro das atenções de todas as marcas, apesar das vendas de carros elétricos (BEV) terem sido prejudicada na Europa no ano passado. O fim ou diminuição de subsídios governamentais e metas de descarbonização estagnadas na União Europeia foram os principais motivos segundo o Global EV Outlook 2025 da International Energy Agency (IEA). No entanto, as projeções para esse ano e os próximos são de crescimento.

De olho nisso a BMW lançou o novo iX3, modelo mais importante em anos ao inaugurar uma nova era para a alemã. A segunda geração do modelo estreia uma plataforma sob medida e exclusiva para elétricos de nova geração, chamada de Neue Klasse. O destaque fica com a nova bateria de 108.7kWh de capacidade integrada ao chassi, compatível com carregamento ultrarrápido de até 800V - ganha 372km em apenas dez minutos - e autonomia de 805km em uma carga segundo o ciclo WLTP. 

No quesito design a ruptura com o passado é ainda mais evidente, com uma nova linguagem visual, inspirado nos modelos da BMW dos anos 80. No interior foi inaugurado o Panoramic iDrive, com o painel de instrumentos correndo ao longo de todo o para-brisa, um novo volante de quatro raios e um multimídia com inteligência artificial de 17,5 polegadas. “A Neue Klasse é o nosso maior projeto futuro e marca um grande salto em termos de tecnologias, experiência de condução e design”, frisou o presidente do conselho de administração da marca, Oliver Zipse.

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Alemã aproveitou o evento para apresentar o futuro Sedan i3, que seguirá o capítulo iniciado pelo SUV iX3,  irmão de plataforma. Foto: BMW Group / Divulgação 

Do outro lado do pavilhão, a Mercedes-Benz fez um movimento parecido, lançando a segunda geração do GLC elétrico. O modelo foi o primeiro elétrico da marca, ainda em 2018 como EQC. Mas pelas vendas baixas havia sido descontinuado no ano passado, e agora retorna com o nome “GLC With EQ Technology”, para evidenciar as mudanças. Rival direto do iX3, segue a linguagem de design inaugurada no novo CLA no ano passado, aqui com uma grade iluminada e enormemente proeminente.

Construído sob a inédita plataforma elétrica MB.EA Medium, independente do GLC, a combustão portanto, possui carregamento de até 800V e uma bateria de 94kWh, traduzidos em 713 km de autonomia. No interior, o SUV inaugura o “Hyperscreen”, transformando o painel inteiro em uma tela de 39.1 polegadas. O interior pode ser todo vegano e certificado, e a comunicação Car-to-X - que coleta e envia dados para comunicar outros veículos - se destaca no quesito segurança. O preço inicial deve girar em €60 mil quando chegar às lojas ainda esse ano, tal qual o rival.

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Faróis possuem tecnologia Matrix, e sob o capô há um espaço de 128 litros para bagagens. Foto: Mercedes-Benz / Reprodução

Mas nem só de SUVs o mercado premium é formado, e a Polestar compareceu a Munique para o lançamento mundial do seu novo modelo de topo, o sedã 5. A marca do grupo Geely, divisão de performance da Volvo até 2017, aposta em sustentabilidade e alta performance, estreando a nova plataforma PPA do grupo. São 872 cavalos, tração integral, aceleração de 0 a 100 em 3,2 segundos e ausência de janela traseira, tal qual no crossover 4.

Um presente e futuro elétrico

Nas duas últimas edições do Salão de Munique, ambientalistas protestaram em frente ao evento em defesa de uma mudança sistêmica da indústria, o que se repetiu. As ONGs Extinction Rebellion e Attac levaram placas pedindo por mais investimento em transporte público e justiça social, jogando atenção para uma mentalidade individualista e o preço dos elétricos. 

Em relação a essa questão, um estudo da empresa de consultoria, Gartner, mostra que até 2027 os BEVs serão mais baratos de produzir que os carros a combustão (ICEVs), e o Grupo Volkswagen promete preços competitivos para sua nova geração de elétricos. 

Foram revelados no evento quatro modelos para o segmento B baseados na plataforma MEB Entry do conglomerado. O principal deles foi o ID.Polo da Volkswagen, com previsão de início de vendas em maio na casa dos € 25 mil. Como o seu nome sugere, é a versão elétrica do hatch Polo, e contará com baterias de 38 e 56 kWh, com uma autonomia de 350 e 450 km respectivamente. Uma versão GTI do modelo será também comercializada, com 223 cavalos.

Continuando o apelo esportivo que a versão encurtada da plataforma em que os modelos do segmento C, ID.3 e ID.4, são construídos, a espanhola Cupra mostrou a versão de produção do Raval. Com dimensões e motorizações basicamente iguais às do ID.Polo, promete continuar a expansão da nova marca do grupo, antigamente uma divisão de performance da Seat.

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Cupra Raval, ID.Polo e ID.Polo GTI  (direita) serão lançados em março do ano que vem, enquanto os SUVs Epiq e ID.Cross (esquerda) chegarão no segundo semestre. Foto: Volkswagen AG / Divulgação

Como era de se esperar pela relação do Polo com o T-Cross, sua versão SUV, o conceito ID.Cross foi mostrado. Com o mesmo tamanho do modelo que substituirá em 2026, integra o segmento disputado dos B-SUV elétricos, formado por nomes como Peugeot e-2008, Renault 4 e Volvo EX30. Focando em espaço e ergonomia, marca a volta de botões físicos no volante e do ar condicionado, além de um maior uso de materiais reciclados. 

Por fim, a Skoda apresentou a sua versão do SUV, denominada Epiq. Tal qual os irmãos de plataforma, será construído em Pamplona, na Espanha, e contará com a capacidade de carregar dispositivos externos como eletrodomésticos (V2L). A velocidade de carregamento é de até 125 kW, indo de 10% a 80% em 20 minutos, e o modelo estreará uma nova identidade visual para a tcheca no ano que vem.

Ascensão chinesa continua 

Aprofundando essa questão dos preços, são as marcas chinesas que se destacam globalmente, como destaca a IEA. Com grandes reservas dos minérios utilizados nas baterias, as fábricas para construí-las e anos de investimento estatal na tecnologia, seguiram com sua expansão em solo alemão. 

A BYD, maior marca chinesa em números, marcou presença com o recém lançado Dolphin Surf - a versão europeia do Dolphin Mini. Avaliado com cinco estrelas pelo Euro NCAP, é um dos BEVs mais baratos hoje à venda na Europa, custando cerca de € 20 mil. No campo dos híbridos plug-in (PHEV) a Station Wagon do segmento D, Sealion 06, foi lançada, focada em conforto e tecnologia com até 1.092 km de autonomia combinada.

Outra marca com novidades foi a Leapmotor, que já vende o hatch subcompacto T03 e o D-SUV C10 no continente, de lançamento marcado para o Brasil ainda em 2025. Pertencendo 20% à Stellantis, que controla a sua operação internacional, apresentou o inédito hatch B05, rival de Volkswagen ID.3 e BYD Dolphin. Sob a mesma plataforma do C-SUV B10, terá cerca de 400 km de autonomia e início de vendas para o ano que vem por cerca de € 30 mil.

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"O B05 (direita) reflete nosso compromisso com a inovação, acessibilidade e a capacitação da próxima geração de motoristas em toda a Europa e além", declarou o CEO global da marca, Zhu Jiangming. Foto: Leapmotor / Divulgação

Munique foi para além de um lugar de novos modelos, mais uma vez o palco de marcas inteiras debutando em solo europeu. A marca AITO, do grupo Seres, que usa a tecnologia da Huawei, se lançou no mercado internacional com os SUVs 9, 7 e 5. Mirando as marcas premium alemãs nos segmentos E e D, podem ser tanto BEVs ou elétricos com extensor de autonomia (REEV), repetindo a abordagem da Leapmotor com o C10.

O grupo Changan Auto iniciou as operações da sua marca Deepal com os SUVs de apelo jovem e esportivo S05 e S07, ambos com opções de serem elétricos ou PHEVs. No campo de luxo, a marca Avatr da gigante chinesa mostrou seu primeiro concept car, o Xpectra, além dos modelos 06, 07 e 12, já comercializados em alguns países europeus e com planos de chegarem a 50 mercados em breve.

A premium Hongqi esteve presente e revelou o C-SUV elétrico EHS5, além de anunciar planos de expansão com 15 modelos e 200 pontos de venda pela Europa nos próximos anos. E aumentando a sua aposta no evento, a Xpeng teve um stand dentro do pavilhão e apresentou a nova geração do P7, sedã que começou a ser comercializado na Europa no IAA Mobility 2023.

Além disso, a recém chegada ao Brasil, GAC, estreou no velho continente levando cinco modelos para a mostra. Seguindo com o “European Plan Market” anunciado no ano passado, lançou como modelos de topo o novo GS7, um SUV grande híbrido plug-in, e a MPV híbrida (HEV) E9. Mas os destaques da marca foram o hatch AION UT, rival de BYD Dolphin, e o D-SUV rival de Tesla Model Y, o AION V.

O primeiro possui bateria de 60 kW/h com 430 km de autonomia e previsão de início da comercialização em 2026 na casa dos € 30 mil. Já para o segundo, comercializado no Brasil por R$214.990, o preço de € 35.990 foi anunciado, muito competitivo para o segmento. Com 510km de autonomia e cinco estrelas no teste do Euro NCAP - com mais ADAS que o brasileiro - será o primeiro a chegar às lojas, já em setembro em mercados como Portugal, Finlândia e Polônia. O plano é que a marca venda em todos os países europeus até 2028.

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Estava ainda em Munique o carro elétrico voador GOVI AirCab (ao fundo) buscando mostrar os avanços da indústria chinesa, segundo a empresa. Foto: GAC Group / Divulgação

Eletrificação em todos os níveis 

Para além das novatas, ícones do mercado aproveitaram os holofotes da feira para se renovarem completamente. Esse foi o caso da única francesa presente, a Renault, que lançou a sexta geração do hatch Clio, o segundo carro mais vendido no continente em 2024.

Construído sob a mesma plataforma que o seu predecessor, mantém o motor 1.2 TCe e uma opção movida a GPL, mas as semelhanças acabam por aqui. No powertrain, estreia um novo sistema full-hybrid (HEV) formado por um motor 1.8 e dois elétricos, resultando em 160 cavalos e modo de condução elétrico na cidade. Conforme a estratégia da marca, o Clio não terá versão elétrica, papel delegado ao hatch de estilo retrô, o 5.

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Hatch cresceu 6 centímetros em comprimento, evocando uma silhueta mais esportiva e afilada. Foto: Renault Group / Divulgação

No quesito design, o carro rompe por inteiro com a geração anterior, o oposto do que havia acontecido com a quinta geração em relação à quarta. A frente ostenta uma nova assinatura em DRL, que forma o símbolo da Renault, e a traseira possui lanternas duplas, nunca vistas em um Clio. O interior é todo novo também em relação ao antecessor, mas com o mesmo layout e sistema operacional do Google do irmão elétrico 5.

A Volkswagen foi outra que debutou no IAA uma nova geração de um best-seller, o T-Roc. Em sua segunda encarnação, também não terá versões elétricas, sendo o último novo carro a combustão desenvolvido pela marca. Haverão pela primeira vez no SUV opções micro-híbridas (MHEV), já conhecidas dos irmãos de plataforma como o Golf e A3, além de um novo sistema HEV, com 134 e 168 cavalos. Não haverá, pelo menos por ora, versões PHEV, sendo o único modelo sob a MEB Evo sem essa possibilidade, no entanto.

Seu exterior é uma evolução da primeira geração, mantendo linhas semelhantes e o seu apelo descolado, descrito pela marca. As dimensões aumentaram, 12 centímetros em comprimento, chegando a 4.37 metros, o colocando alinhado a rivais como o Toyota CH-R e Mazda CX-30. Por dentro a abordagem continua, com telas maiores e mais itens de conectividade e segurança assistida, mas com uma disposição de elementos clássica, vista nos últimos Golf e Tiguan.

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Modelo construído em Portugal foi o quinto carro mais vendido na Europa no ano passado. Foto: Volkswagen Group / Divulgação

Concorrência de todos os lados

Além das chinesas em franca expansão nos últimos anos no continente, outras concorrentes vêm se destacando na corrida pelos elétricos principalmente. A coreana Kia compareceu ao evento e mostrou ao público os novos integrantes da família EV, o EV4 e o EV5. 

O primeiro é um hatch do segmento C, acompanhado de uma variante sedã. Já o último se trata de um modelo lançado em 2023 - inclusive a venda no Brasil desde o ano passado - mas que chega só agora à União Europeia como a versão elétrica do Sportage. Sua conterrânea e marca irmã também esteve em Munique com o Concept 3, prevendo o futuro Hyundai Ioniq 3, equivalente do EV4.

Mas nem só da Ásia as novidades chegam, com a primeira marca turca de automóveis elétricos, a Togg, debutando em solo alemão a sua ofensiva no continente europeu. Fundada em 2018 e com a primeira fábrica inaugurada em 2022, apresentou o C-SUV T10X e o sedã T10F ao público. A pré-venda dos modelos começará em 29 de setembro na Alemanha, e no ano que vem a empresa pretende iniciar seus trabalhos na França e Itália, com meta de ter até 2030 um milhão de veículos em toda a Europa.

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Preços ainda não foram divulgados, mas devem ficar em torno de € 40 mil tomando como base as cifras no mercado turco. Foto: Togg / Divulgação

Construídos sob uma plataforma elétrica, ambos receberam nota máxima no Euro NCAP recentemente, com mais de 9% de proteção para adultos e 80% nos ADAS. A respeito do desempenho, a bateria possui 88.5 kWh de capacidade, e autonomias de até 500 e 600 km para o SUV e o sedã respectivamente. 

“Nossos modelos proporcionam uma experiência de mobilidade voltada para o usuário e voltada para o futuro”, comentou Gürcan Karakaş, CEO da marca durante o evento. A marca anunciou ainda que trabalha no terceiro de cinco modelos que irá lançar até o fim da década, o B-SUV T8X. Karakaş finalizou destacando que prepara para introduzir baterias de pirofosfato de lítio (LFP), e que a indústria deve estar preparada para as mudanças e maior concorrência.

Reconhecimento facial e a dita tecnologia “salvadora da pátria”
por
Laila Santos
|
17/11/2025 - 12h

Por Laila Santos

 

Na cidade de São Paulo, câmeras penduradas em postes prometem eficiência, segurança e modernidade. A cada anúncio, a cidade parece um passo mais próxima do futuro imaginado pelas propaganda, com: ruas inteligentes, sistemas integrados e criminosos identificados em segundos. A versão oficial fala em inovação. A prática, no entanto, revela um outro roteiro: o da tecnologia que não erra sozinha e que, quando erra, costuma errar sempre do mesmo lado. Enquanto a população se acostuma com a ideia de que está sendo observada, pesquisadoras e movimentos sociais alertam que o reconhecimento facial se tornou muito mais um mecanismo de controle do que uma solução de segurança pública.

Débora Dias, coordenadora pedagógica e articulação política, acompanha esse debate desde 2018, quando o País atravessava um período de endurecimento nas pautas de segurança pública. Para ela, o reconhecimento facial não nasceu como promessa tecnológica, mas como desdobramento de um projeto político anterior. O que começou no governo federal, com propostas que ampliavam a repressão, entre elas, a digitalização de mecanismos de vigilância, acabou, após pressão popular, reaparecendo nos estados e municípios com outra embalagem. A retórica deixou de ser “combate ao crime” e passou a ser “cidade inteligente”.

Assim, o que antes era parte de um pacote anticrime passou a ser defendido como avanço inevitável do urbanismo tecnológico. Foi aí que surgiram projetos como o Smart Sampa, apresentado pela Prefeitura de São Paulo, com a promessa de transformar a cidade em um grande sistema de monitoramento integrado. Durante seu trabalho na Câmara Municipal, Débora participou de audiências públicas, ouviu especialistas, coletivos negros, movimentos de direitos humanos e analisou dados técnicos. O que encontrou foi uma unanimidade, os sistemas de reconhecimento facial cometem erros graves, repetidamente, e esses erros afetam quase sempre os mesmos grupos.

As falhas não aparecem por acaso. O algoritmo aprende com bancos de dados alimentados por pessoas inseridas em estruturas racistas, o que faz com que os erros se concentrem em rostos negros, pobres, indígenas, trans e não conformes. A tecnologia reforça desigualdades históricas e reproduz padrões que já existem fora das telas.

Em cidades brasileiras que adotaram o sistema antes de São Paulo, como Salvador, múltiplos casos de prisões injustas surgiram antes mesmo de qualquer debate público mais profundo. Pessoas que nunca haviam cometido um crime foram indexadas em listas de suspeitos. Fotos de trabalhadores informais apareceram entre procurados. Uma lógica que espelha o sistema carcerário do país, marcado pela predominância de homens negros e pela alta taxa de prisões sem julgamento adequado.

Na avaliação de movimentos negros e organizações de direitos humanos, essa tecnologia falha dentro de uma estrutura que já define quem pode ser confundido com criminoso. Para uma parte da população, a promessa do reconhecimento facial soa reconfortante. A propaganda diz que será possível andar sem medo, que o celular estará mais protegido e que a cidade ficará mais segura. Mas, para moradores das periferias, pessoas negras, mulheres lésbicas, homens trans, pessoas trans e travestis, a sensação é outra: a de ser observado e enquadrado como suspeito antes mesmo de ser visto como cidadão.

Débora destaca que o problema não é apenas o erro técnico, mas o que ele produz. Uma pessoa reconhecida incorretamente pode ser detida, exposta, humilhada e viver um trauma que nenhuma indenização posterior é capaz de apagar. Meses encarcerada injustamente significam tempo perdido com a família, desgaste emocional, danos psíquicos e marcas que não se desfazem.

A tecnologia apresentada como neutra acaba reforçando a mesma lógica que sempre determinou quem é alvo prioritário do Estado. Ainda que os defensores da ferramenta insistam em promessas de precisão e redução da criminalidade, os países que já testaram o reconhecimento facial como solução de segurança pública recuaram. Estudos internacionais apontam que não houve queda significativa nos índices de criminalidade, mesmo onde o sistema foi amplamente implementado.

No Brasil, apesar dos alertas, o discurso da inovação se espalhou rapidamente. Em São Paulo, a justificativa tecnológica ganhou força especialmente em territórios de alta vulnerabilidade, como a região da Cracolândia, onde o monitoramento foi apresentado como uma política de cuidado, mas operou como vigilância. Para Débora, alinhar tecnologia à ideia de neutralidade é esconder que ela nasce de decisões humanas. O algoritmo só reproduz o que foi ensinado: preconceitos, padrões, desigualdades e violências estruturais.

No ambiente digital, a maquinaria da desinformação amplifica os danos. Imagens circulam sem contexto, vídeos editados moldam narrativas e o ódio ganha terreno fértil. Em uma época marcada pela pós-verdade, a opinião se antecipa aos fatos. Quando o sistema identifica, corretamente ou não, uma pessoa negra como suspeita, a reação nas redes tende a reforçar estereótipos já enraizados. Segundo Débora, não é a tecnologia que cria o discurso de ódio, mas ela opera como mais um combustível que alimenta narrativas racistas e punitivistas.


Histórias como a da vendedora do Brás, reconhecida como suspeita de tráfico enquanto vendia paletas e limpadores de para-brisa, revelam a dimensão humana das falhas tecnológicas. Sem acesso às informações sobre o suposto processo e sem meios de se defender, ela foi presa e passou por constrangimentos irreparáveis. O dano emocional, o trauma, o medo e a vergonha permanecem mesmo após a liberdade. Nada devolve o tempo em que foi injustamente encarcerada. Para especialistas e movimentos sociais, esses casos não são exceções, mas sim o retrato do tipo de sociedade que a tecnologia escolhe vigiar.

Enquanto cidades brasileiras continuam apresentando o reconhecimento facial como solução tecnológica, experiências internacionais já abandonaram o método por ineficácia e violação de direitos. Débora defende que a ferramenta não deve ser aprimorada, mas abolida. Para ela, nenhum ajuste técnico corrige uma estrutura que nasce enviesada e aprofunda desigualdades.

No Brasil, onde a violência estatal já tem rosto, CEP e cor definidos, a promessa de uma tecnologia perfeita esconde uma realidade incômoda: a modernização pode ser só uma nova forma de repetir velhos erros. A tecnologia pode até ser vendida como salvadora da pátria. Mas, para quem está sempre na mira, o futuro que ela promete nunca chegou a ser promessa,  é só mais um alerta.

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Proprietários contam como tem sido substituir o posto de gasolina pela tomada
por
Vítor Nhoatto
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14/11/2025 - 12h

Por Vítor Nhoatto

 

Andando pela rua já não é tão difícil se deparar com o rodar silencioso de um carro movido a bateria (BEV). Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), a venda deles no Brasil mais que duplicou de 2022 para 2023. Além disso, os emplacamentos no ano passado atingiram 61.615, o triplo do ano retrasado. Por fora, pode ser que essa tendência de mercado não seja tão perceptível. Muitas das versões elétricas dos modelos são iguais às suas movidas a combustível (ICEV) na aparência. Mas alguns de fato chamam a atenção, como conta Leandro, motorista de aplicativo que decidiu embarcar na onda da eletricidade há um ano. 

Logo quando o BYD Dolphin GS se aproxima, a ausência de barulho e o tranco ao diminuir a marcha fazem muitas pessoas sorrirem, conta ele. E do lado de dentro já é como um ritual um “wow” e a pergunta se o carro é elétrico, enquanto o hatch parece flutuar no asfalto deixando os outros veículos no semáforo para trás com o torque instantâneo do motor. Apesar disso, a invenção não é recente, pelo menos a sua origem. Foi ainda no século XIX que Gaston Planté inventou as baterias recarregáveis, e a tecnologia se tornou lei no mercado de veículos até cerca de 1910. Barulhentos e sujos, os ICEV minguavam, até que a descoberta de reservas de petróleo, os interesses geopolíticos, e a invenção do acionamento automático dos motores fez o jogo virar, e as baterias de chumbo dessa época foram abandonadas. 

Em meio a décadas de fumaça, poluição, lobbies entre petrolíferas e governos, e a necessidade de combate às mudanças climáticas, a tecnologia foi retomada no século 21. Os carros passaram de um bem de luxo, para objeto de paixão, até necessidade diária, tal qual Leandro vê o seu Dolphin, e o setor dos transportes responde por um quarto de todo CO2 emitido no mundo segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). É só olhar para as ruas, quanto mais estrada, mais carro. Com isso, em 2008 a Tesla lançou o primeiro BEV do século 21, agora com uma bateria de íons de lítio, o Roadster,  e em 2010, o Nissan Leaf se tornou o primeiro elétrico do mundo produzido em grande escala.

Falando em grandezas, não é possível que todo esse conforto, desempenho, sustentabilidade e tecnologia venha de graça. Leandro comenta que muitos lhe perguntam ainda como deve ser caro comprar um BEV. Olhando para a oferta de mercado, hoje no Brasil o elétrico e o ICEV mais baratos do país são o Renault Kwid, vendido por R$99.990 na versão E-tech, e R$67.290 para a versão Sce Flex. A diferença no custo inicial de aquisição ainda é considerável, e no caso de Leandro, que tinha como companheiro de trabalho há sete anos um Chevrolet Onix, ele teve que colocar boa parte a mais em dinheiro para fazer a troca. 

No entanto, a dinâmica de mercado vem mudando, e por isso mesmo que as vendas crescem e muitos motoristas vêm apostando nisso. De acordo com levantamento da empresa de consultoria JATO dynamics, o preço médio dos BEVs vem caindo consideravelmente nos últimos anos, chegando a  15% e 25% entre 2018 e 2024 na Europa e nos Estados Unidos respectivamente.

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O primeiro carro elétrico moderno lançado no Brasil foi o BMW i3, lançado em 2014 por R$225.900 e uma autonomia de 130 km segundo a fabricante - Foto: BMW / Divulgação

 

Para entender melhor essa equação, o preço se deve principalmente pelas baterias, que representam quase metade do valor do veículo e tem sua produção envolta por questões geopolíticas, e o país asiático detém as maiores reservas de minerais e a maior concentração de fábricas de imãs e baterias. O Departamento de Tecnologia dos Estados Unidos apontou que com isso, entre 2008 e 2023 o preço de produção das células de energia dos elétricos caiu 90%, indo de $1.415 dólares por cada kilowatt (kW) para apenas $139 dólares. Além disso, projeções indicam que até 2027 o custo de produção dos BEVs será menor que dos ICEVs, chegando então à equiparação nos preços de aquisição.

Agora de volta à prática, e ao banco do motorista do Dolphin de Leandro atualmente, já com 45 mil quilômetros rodados, esse valor já se paga sozinho. Ele conta com um sorriso de alegria e até um ar de astúcia pela decisão que tomou ao comprar um elétrico, que antes com o Onix, gastava em média R$2 mil de combustível por mês, e agora nada. Fazendo em média 30 viagens por dia, ele explica que carrega o carro à noite em casa, e possui placas solares, não pagando mais conta de energia. Nesse caso, a sua economia já chega perto de R$24 mil nesse primeiro ano, e em 4 anos, o tempo que ele geralmente fica com um carro, vai chegar a R$96 mil. Enfim, ele frisa bem que isso literalmente paga qualquer custo que ele possa ter a mais.

Até mesmo ao calcular uma economia real para a maioria dos brasileiros sem placas solares, que segundo Leandro é enorme mesmo que se pague a energia que o carro consome, chega-se a seguinte razão: levando em conta o preço da energia em São Paulo em outubro de 2025 (R$7,87 por 100kWh) e a bateria do Dolphin GS (44,9 kW de capacidade), cada recarga completa custaria menos de R$3,90. Em um mês carregando todo dia, o gasto seria de R$117, menos que um tanque cheio de etanol de um Chevrolet Onix, por exemplo.

Mas não é só de reabastecimento que um carro sobrevive, e a manutenção programada deve ocorrer e acaba pesando no bolso. O nome disso é valor efetivo total por quilômetro rodado, e que também é menor nos elétricos, pelo menos na teoria. O Departamento de Energia dos Estados Unidos estipula. O custo de manutenção para cada milha rodada em um ICEV era de cerca de $0.10 dólares em 2021, enquanto que para um BEV, apenas $0.60 dólares. Por não possuírem fluidos e peças como óleo de motor, correia dentada, filtro de motor e velas, demandam também revisões menos periódicas. 

Comparando por exemplo a versão elétrica e flex do Renault Kwid, em ambos a manutenção programada deve ocorrer a cada 10 mil quilômetros ou um ano, mas o preço das três primeiras revisões do BEV é de R$160, R$204 e R$204 respectivamente, ao passo que para o motor 1.0 Sce é de R$556, R$622 e R$622, mais que o triplo. 

Partindo para a prática, em mais uma viagem silenciosa esse monte de números refletem uma realidade bem tentadora no mínimo. São seis horas da tarde em plena capital paulista e o momento do show é totalmente do trânsito em horário de pico. Um trecho que se faria em 20 minutos leva não menos que uma hora, e em meio a isso, motores explodindo, queimando dinheiro parados. Mas para Bruno Nunes não mais. 

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Bruno destaca que trabalhando de elétrico consegue fazer menos corridas para ter o mesmo ganho que antes, destacando que um carro a combustão gasta mais no anda e para do trânsito, o contrário do elétrico - Foto: 99 / Divulgação

Também motorista de aplicativo e proprietário de um Dolphin GS, responde com tranquilidade quando lhe perguntam sobre a manutenção do veículo, relaxando os ombros e começando com um “ah” de alívio. O hatch já com 2 anos de uso, 50 mil km rodados, e há três meses com Bruno sempre teve as revisões realizadas, e de graça, oferecida para os clientes BYD nos primeiros cinco anos, e nenhum problema inesperado ou barulho indesejado.

Seu carro anterior era justamente um modelo japonês, conhecidos pela durabilidade e confiança, no caso dele um Toyota Etios, mas que como qualquer carro, a manutenção programada é essencial. Mas além disso, nos veículos elétricos a frenagem transforma a força cinética das rodas em energia elétrica, recarregando a bateria e preservando a vida útil dos freios, e em média um elétrico tem 20% das peças de um ICEV. 

O principal motivo para Bruno ter trocado seu Toyota flex por um elétrico foi essa questão da durabilidade somada à economia. Se hoje ele roda por São Paulo em horário de pico, é graças ao novo companheiro de trabalho. Antigamente ele trabalhava no período da madrugada para economizar combustível, já que mesmo parado, o combustível não para de queimar. Foram anos nessa vida, ele conta com os olhos mareados, e muitos momentos perdidos com a esposa, algo que ele não queria desperdiçar mais, ainda mais com uma filha que está por vir. 

Segundo um estudo de 2024 da Atlas Public Policy a pedido do Natural Resources Defense Council (NRDC), a economia no custo total de propriedade de um veículos elétrico ao longo de um ciclo de vida de 7 anos chega a $10 mil dólares comparando um Toyota Corolla e um Chevrolet Bolt por exemplo. A base de cálculo leva em consideração justamente tudo que possuir um carro engloba: o preço inicial de compra, desvalorização média dos modelos levando em conta a Tabela FIPE, os custos de manutenção e reparo, seguro e impostos. Além disso, o órgão reitera que casos de contas absurdas de reparo das baterias são muito raros, e a segurança das células de proteção garantem esta integridade e não faz sentido levá-las em consideração na ponta do lápis.

Chegado o fim de mais uma viagem de Bruno, e o asfalto agora já visível com o fluxo em horário de descanso, o motorista volta para casa, agora como em um horário de emprego convencional graças ao elétrico. Sem arrependimentos da sua decisão, lembra que a eletricidade já é o presente, e o medo do senso comum em torno da bateria até podia preocupá-lo antes do seu Dolphin, mas não mais. 

Ansiedade chamada de necessidade

Ao mergulhar nessa questão das baterias, de fato pode parecer intrigante. A experiência com elas é majoritariamente a que se tem com os celulares, e todos sentem como a duração diminui entre as corridas para lá e pra cá. Imagina-se então que isso ocorra também com os BEVs, só que aqui sendo um objeto muito mais caro e que deve rodar muitos anos. 

Falando em andar, Maurício Barros é especialista nesse quesito, e garante risonho que nesse sentido, um carro não é como um celular gigante com quatro rodas. Proprietário de um Peugeot e-208 entre 2021 e 2023, rodou mais de 50 mil quilômetros com o seu primeiro elétrico, tendo viajado pelos quatro cantos do Brasil, e até para o Uruguai. Hoje ele desbrava o continente com um BYD Yuan Plus, também elétrico, e conta empolgado como foi realizar a viagem mais longa já realizada com um BEV na América do Sul, passando por dezenas de países.

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De acordo com Maurício (esquerda), o Yuan Plus de Marcos Paulo (direita), com o qual viajou por 18 mil km na América, hoje com 200 mil km rodados, ainda possui as pastilhas de freio e amortecedores originais - Foto: @fuideeletrico / Reprodução

Dias e noites, culturas diferentes e muita poeira durante a aventura, que já havia realizado de maneira parecida de moto e camionete diesel anteriormente. Maurício conta que saiu de São Paulo com o hodômetro do Yuan Plus de seu amigo marcando 160 mil km e 92% de capacidade da bateria, segundo medição da fabricante. Depois de 39 dias, e quase 20 mil km a mais, o mesmo teste foi realizado e estava exatamente com os mesmos 92. 

Segundo estudo de 2025 da companhia de telemática automotiva Geotab, que reporta desde 2019 a durabilidade na prática de BEVs, uma perda de apenas 1.8% na capacidade é esperada por ano, corroborando no caso do Yuan Plus aqui tratado. Essa diminuição é apontada como um assentamento natural da química das baterias e diminui ao longo do uso, apontando para uma vida útil das baterias na maioria dos casos em 20 anos ou mais, ultrapassando inclusive os 15 anos estimados dos ICEVs. Nesse estudo foram analisados 10 mil veículos, e concluiu-se também que o carregamento rápido de corrente contínua (DC) não degrada na prática as baterias como se pensava, e o uso de elétricos de alta performance e por longas distâncias também é insignificante. 

Diferente dos celulares, o gerenciamento térmico das baterias dos carros é muito mais eficiente, resistente e necessário. E isso é importante porque é especialmente a temperatura que afeta a durabilidade e desempenho das baterias. Não é por acaso que as marcas de celulares recomendam prestar atenção se o aparelho esquenta demais. No caso dos carros, esses sistemas de gerenciamento de carregamento e refrigeramento das marcas evoluíram muito, por exemplo, a degradação natural de um Nissan Leaf era de 4.2% ao ano em 2015, e em 2019 já havia diminuído para 2.3% apenas. 

Corroborando com esses dados, a maioria das marcas que vendem elétricos hoje em dia oferecem garantias de 8 anos ou mais, como a BYD do Yuan Plus de Maurício. Se a bateria do carro apresentar problemas de funcionamento ou atingir menos de 70% de capacidade nesse período, ou com menos de 500 mil quilômetros rodados, ela é trocada gratuitamente pela marca, desde que as manutenções periódicas tenham sido realizadas. 

Porém, há muito se sabe que quebrar preconceitos e educar a população é algo que demanda bastante tempo e ações. Por isso que a desvalorização dos elétricos ainda é mais alta que dos carros a combustão. De acordo com a ferramenta Preço e Referência de Mercado (PRM) da Bright Consulting, em 2024 a desvalorização média dos BEVs foi de 9% ao ano, enquanto a dos ICEVs se manteve em 6%, devido principalmente a insegurança em adquirir uma tecnologia ainda muito nova e em constante evolução. 

Sobre isso Maurício lembra de quando vendeu o seu Peugeot em 2023, por menos da metade do valor que pagou em 2021. Como ele comenta, na época foi frustrante, mas com um leve risco de algo que já era de se esperar, ele destaca que é o comportamento de toda inovação que chega às massas e vê um aumento de concorrência absurdo. O Kwid E-Tech quando lançado em 2022 custava R$142.990, e o elétrico mais barato no Brasil há sete anos era ainda mais caro que isso, o que mudou também pela ascensão da China nesse tabuleiro. 

Quando o BYD Dolphin e o GWM Ora 03 foram lançados no Brasil em julho e agosto de 2023 por R$149.990 respectivamente, muitos rivais derrubaram o preço de seus modelos. Anunciado  em abril de 2023 pela Hyundai por R$289.990, o Kona elétrico passou a custar em agosto R$100 mil a menos, por exemplo. Em seguida, a francesa Peugeot fez o mesmo com o e-2008, anunciado em novembro de 2022 por R$259.990, reduzido para R$209.990 em julho de 2023 e R$169.990 em dezembro.

Tudo isso fez visivelmente o preço despencar, e quem pagou o preço caro de antes, arcou inevitavelmente com a guerra de preços que se configura no mercado com o aumento da oferta, como explicou Maurício. Hoje com um BYD, inclusive, conta que optou pela marca justamente pelo custo benefício do carro, mais potente, com maior autonomia, mais equipado e maior que o seu antigo e-208, o qual na época custou mais caro que o chinês. 

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BYD Dolphin (esquerda) e GWM Ora 03 (direita) mudaram o mercado brasileiro com preços competitivos e inclusive direcao semi autônoma de série no caso do segundo - Foto: InsideEVs Brasil / Reprodução

Com esse amadurecimento de mercado e do consumidor a disparidade na desvalorização vai se estabilizar, portanto. Tomando como base os dados da Tabela Fipe de setembro de 2025 dos modelos a combustão e elétricos mais vendidos do Brasil para se ter uma ideia, a diferença se mostra em queda realmente. A Fiat Strada Endurance 1.3 flex ano 2026 é avaliada em R$102.326, com uma perda de R$9.027 perante o modelo zero km. Já o BYD Dolphin Mini perdeu apenas R$6.480, avaliado em R$113.513, uma porcentagem menor, inclusive. 

Por fim, nessa conta o medo de ficar sem “combustível” e um “posto” também tem peso, como apontou uma pesquisa de novembro de 2023 da Bain & Company. A falta de postos de recarga e a falta de informação sobre os  BEVs foram o segundo e terceiro obstáculos na compra de um elétrico, atrás apenas do preço, o que para Maurício é mais ansiedade que realidade. Ele, que trabalha no setor da tecnologia, criou um perfil nas redes sociais para compartilhar as suas experiências quilométricas com os elétricos, desmistificando os mitos citados acima, e oferece ainda assessoria para os interessados em embarcar na eletrificação.

Em relação às autonomias dos modelos e as necessidades habituais da população, a quantidade de autonomia é  mais que suficiente. A média dos BEVs mais vendidos do país gira em torno de 300 km segundo o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), suficiente para quase 100% dos trajetos anuais dos motoristas, como revelou um estudo de 2011 publicado na revista científica ResearchGate. Analisando dados da companhia de tráfego americana, ele apontou que a média dos percursos anuais de uma pessoa é de 71,9 km, e apenas 9 viagens chegam a 240 km, ainda assim trajeto menor que a autonomia de um Dolphin Mini, por exemplo. Além disso, esse deslocamento é ainda menor no Brasil, na casa dos 40 km rodados diários, segundo pesquisa de 2019 da KBB Brasil. 

No caso dos interessados em viagens mais longas, como Maurício, ou apenas aquelas pessoas que possuem família no interior ou outro estado, por exemplo, o problema permanece mais no imaginário popular que na estrada de fato. O viajante conta que de fato um planejamento prévio maior é necessário ao viajar com um elétrico, mas que é algo superestimado e nunca o impediu de ir para onde queria. Tal qual qualquer modelo, não se anda na estrada até o carro parar no acostamento sem gasolina. Uma programação é necessária, para carregar o carro dentro de uma margem segura.

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Quanto maior a bateria, mais pesada, e a busca deve ser pela densidade, menos peso sem perder energia, com baterias hoje já alcançando 700 km de autonomia em uma carga, como a STLA Medium da Stellantis - Foto: Peugeot / Divulgação

Todos os modelos elétricos comercializados no Brasil hoje possuem a possibilidade do chamado carregamento rápido (DC), que pode variar entre 30 minutos ou algumas horas de acordo com a potência dos carregadores públicos. Mas mesmo em situações de emergência, a maioria dos modelos vem com um carregador portátil para carregamento em qualquer tomada 220V. E para se planejar, uma série de aplicativos mostram pontos de recarga por todo o Brasil, e calculam quando e onde parar para carregar, como o ABRP, sempre em uso no celular de Maurício.

Em relação aos carregadores públicos, a ABVE registrou em fevereiro de 2025 12.137 pontos de carregamento no país, um avanço de 22% comparado ao ano anterior, mas realmente, a quantidade ainda é muito baixa, e pode e deve melhorar, como enfatiza Maurício. Ao analisar a relação de carregadores e carros elétricos em circulação no Brasil, existe um carregador para cada seis elétricos, e a presença deles se dá em apenas 25% dos municípios. Na China, por exemplo, essa relação segundo a Administração Nacional de Energia é de um para cada 3 carros, sendo ainda menor em países do norte da Europa. 

De acordo com a International Energy Agency, a expansão dessa rede é crucial para a popularização dos elétricos em conjunto a preços de compra mais baixos. O levantamento de 2024 cita que a maioria das pessoas carregam em casa seus veículos, o que irá se manter, mas a infraestrutura precisa acompanhar a evolução das baterias, para derrubar preconceitos por parte do público ao aproximar o tempo de recarga ao de abastecimento convencional.

Ao citar apenas algumas das dezenas de empresas e soluções em desenvolvimento, há a bateria da gigante do setor, CATL, que desde 2023 é capaz de receber uma recarga de 200 km em apenas 5 minutos, além da Super-e Platform da BYD, anunciada em 2025 com recarga de 400 km no mesmo período. Além disso, em 2018 a agência aponta que o número total de carregadores ao redor do mundo era cerca de 510 mil, um número que havia aumentado quase 11 vezes quando comparado a 2017.

Não dá para negar, os elétricos são uma tecnologia em amadurecimento, e expansão,e essa estrada tem buracos e imperfeições. Porém, tal qual as mudanças climáticas, um caminho sem volta, e que a solução não é se isolar do resto do mundo, mas aproveitar o rodar sereno e encantador que desperta sorrisos nos passageiros de Leandro, que possibilita novos caminhos para Bruno, e que traz recordes para o currículo de Maurício.