Por Júlia Polito
Na zona norte de São Paulo, precisamente no bairro do Limão, Maria Adelina, de 74 anos, convive com uma prática que se tornou comum entre muitos brasileiros: a automedicação. Há cerca de dez anos, um médico prescreveu a ela um remédio que, na época, funcionou bem para controlar suas dores na perna. Desde então, Adelina manteve o hábito de recorrer à mesma medicação, mesmo sem acompanhamento regular de um especialista, acreditando que o tratamento indicado no passado ainda resolveria seus problemas de saúde atuais.
Hoje não procura mais clínicas médicas por um motivo: o neto recém-formado em medicina. Adelina passou a pedir a ele receitas para continuar comprando o medicamento nas farmácias que conhece de longa data no bairro, sobretudo as pessoas que trabalham nelas. Considerou adotar esse hábito após algumas experiências negativas com seu plano de saúde. Infelizmente nem todas as pessoas possuem a sorte de ter um médico disponível na família. Caso ele não tivesse se formado, Maria continuaria tomando remédios sem necessidade. Esse ciclo, no entanto, chama atenção para os riscos de manter um tratamento sem avaliação médica atualizada, já que o organismo e as condições clínicas podem mudar com o tempo. E tempo é demasiadamente importante para diagnosticar e oferecer tratamento adequado.
Essa é uma das preocupações de Lucas Verdasca, recém-formado em Medicina. Ele conta que tem sido uma experiência especial poder cuidar da avó e orientá-la de forma correta sobre o uso de medicamentos. Para ele, além de um dever profissional, é também um gesto de carinho.

A atenção de Lucas reflete um desafio que vai além das relações familiares. Em um cenário cada vez mais digital, a mesma tecnologia que facilita o acesso à informação e impulsiona campanhas de conscientização como o Outubro Rosa e o Setembro Roxo é também a que pode levar um paciente a interpretar mal os sintomas e buscar soluções por conta própria. Essa é a dualidade da era da informação na saúde.
Diante desse cenário, o médico destaca a diferença crucial entre ter acesso à informação e possuir conhecimento de fato. Ele observa que a facilidade em encontrar conteúdos sobre saúde na internet não significa que o público saiba aplicá-los corretamente. Para ele, informação e formação são conceitos distintos: o acesso não garante domínio sobre a prática nem compreensão sobre como cada caso se aplica a um indivíduo. A Internet não é capaz de construir um raciocínio clínico, o que faz com que muitas pessoas se apeguem aos piores cenários e ignorem que as condutas médicas são sempre individualizadas, jamais universais.
O risco, portanto, é duplo: além do sofrimento psicológico de se autodiagnosticar com uma doença grave, há o perigo físico do uso incorreto de medicamentos. Verdasca lembra que até mesmo anti-inflamatórios, vendidos sem receita e amplamente utilizados, são medicações perigosas e que podem trazer diversos danos à saúde, como lesões nos rins e no estômago, provando que nenhum tratamento deveria começar com um clique, e sim com uma consulta.
A automedicação ganhou novas dimensões na era digital. Uma pesquisa recente do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) mostra que 86% da população recorre a remédios sem orientação médica, principalmente para dores de cabeça, gripes e febre. O fenômeno, hoje é intensificado por dois fatores: a influência das redes sociais, onde proliferam dicas de saúde sem comprovação científica, e a má interpretação de estudos acadêmicos ou científicos, que chegam ao público de forma simplificada e fora de contexto. A ausência de uma receita não significa ausência de perigo. Mesmo usando medicações que não precisam de receituário médico, como os anti-inflamatórios, ainda sim são medicações perigosas que podem trazer diversos danos à saúde da pessoa. Segundo o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox/Fiocruz), mais de 30 mil internações anuais estão relacionadas a intoxicações por medicamentos. E com a evolução da tecnologia, esse problema tem se tornado cada vez pior.

Segundo Lucas, mesmo medicamentos aparentemente simples, como os anti-inflamatórios, podem causar danos sérios aos rins e ao estômago quando usados de forma inadequada. Entre os principais sinais de risco estão dor abdominal intensa, especialmente na parte superior do abdômen, diminuição do volume de urina e a presença de sangramentos, que indicam a necessidade imediata de procurar orientação médica. Além disso, existem os riscos das reações adversas, que são imprevisíveis e podem ser fatais. Cada medicação tem suas particularidades, assim como cada indivíduo apresenta condições de saúde e comorbidades próprias, o que faz com que um mesmo medicamento seja adequado para uma pessoa, mas inadequado para outra, sem contar os quadros de alergias que podem se tornar potencialmente graves.
A presença digital transformou as redes sociais em grandes “consultórios informais”, aplicativos como TikTok, Instagram e YouTube concentram milhares de vídeos e postagens que ensinam, de forma simplificada, a lidar com sintomas do dia a dia. O problema é que muitas dessas informações não possuem comprovação científica. Uma investigação do The Guardian revelou que mais da metade dos 100 vídeos mais populares com a hashtag #mentalhealthtips no TikTok contém dados incorretos ou enganosos, que são capazes de induzir a auto diagnósticos equivocados e ao uso inadequado de remédios.
Esse tipo de conteúdo atinge um público massivo. Praticamente todo usuário de redes sociais já se deparou com algum vídeo ou postagem sugerindo medicamentos ou “truques de saúde”. As famosas trends, desafios ou modas virais funcionam como multiplicadores dessa desinformação, espalhando recomendações sem qualquer base técnica. O papel dos influenciadores digitais se torna perigoso para o público, ao compartilhar experiências pessoais como se fossem orientações universais, eles criam um efeito de validação social. Se alguém em quem o seguidor confia recomenda, a tendência é acreditar que o produto ou técnica funcione. Essa relação de confiança, típica do ambiente digital, aumenta o risco de que milhões de pessoas adotem práticas inadequadas sem questionar a segurança delas.
Não apenas a desinformação contribui para a automedicação. O uso inadequado da ciência também alimenta o problema. Pesquisas científicas complexas, divulgadas em linguagem simplificada, acabam sendo interpretadas de maneira incorreta pelo público, criando uma rede de informações falsas. Um exemplo claro desse fenômeno está no uso de ferramentas de inteligência artificial. Um estudo publicado na Royal Society Open Science mostrou que sistemas como ChatGPT, LLaMA e DeepSeek tendem a generalizar resultados de pesquisas científicas, omitindo detalhes cruciais como dosagem ou riscos. Isso favorece interpretações superficiais e potencialmente perigosas, quando aplicadas diretamente ao consumo de medicamentos.
Essa perigosa generalização é reforçada na prática clínica, como detalha o médico Lucas Verdasca, ao exemplificar o porquê a IA não pode e não deve substituir uma consulta. Pelo simples fato de que ela não foi feita para ocupar o conhecimento e o saber técnico, foi feita para facilitar o que já existe e é humano. Ele ressalta que, embora a tecnologia seja uma aliada dos próprios médicos, ela não possui os elementos essenciais de um diagnóstico, pois existe todo um raciocínio montado não com base em um texto, mas sim em uma avaliação física, exames complementares, análise estruturada, que muitas vezes a inteligência artificial não tem acesso. A tecnologia funciona como facilitadora do trabalho médico, não um contato direto entre o paciente e a IA.
A automedicação no Brasil aumentou com a chegada da era digital e, embora as redes ajudem a disseminar campanhas de saúde, elas também prejudicam. O quadro é preocupante não apenas pela frequência, mas pelo impacto na saúde pública e no aumento de internações evitáveis. A busca por soluções rápidas e a confiança em fontes não verificadas contribuem para um cenário em que milhões de brasileiros colocam a própria saúde em risco.
O sonho do bem-estar e do corpo ideal move muitos brasileiros em busca de soluções rápidas. Pequenas doses, aplicadas com a leveza de um gesto cotidiano, parecem anunciar mudanças quase imediatas diante do espelho. Entre canetas e gotas que beiram o milagre, espalhou-se a esperança líquida de um emagrecimento rápido, uma promessa moderna de transformação. Para a biomédica Juliana Gonçalves, que dedica seus dias à radiologia, o caminho do emagrecimento não seguiu o roteiro esperado. Com um histórico de resistência à insulina, ela buscou na endocrinologia uma resposta para o próprio corpo. O primeiro plano trouxe resultados tímidos, quase como um sussurro diante do espelho. Foi então que decidiu apostar na caneta emagrecedora, enxergando nela a promessa de uma mudança mais verdadeira, refletida tanto no corpo quanto na forma de se reconhecer.
Os efeitos não se limitaram ao corpo. Internamente, vieram acompanhados de dores de cabeça, náuseas e uma sede constante. Entre todos, o que mais a abalou foi a queda de cabelo, algo comum no cotidiano, mas que dessa vez lembrava os dias de estresse e nervosismo intenso. Ainda assim, Juliana considera que a experiência trouxe aprendizados. Por ter iniciado o uso em um período em que pouco se falava sobre essas canetas, ela reforça a importância do acompanhamento médico e, no seu caso, o cuidado próximo de uma dermatologista.
A importância desse acompanhamento também aparece na experiência da médica veterinária Maristela Brun. Ela iniciou o tratamento com o medicamento após perceber que os ansiolíticos prescritos em um tratamento psiquiátrico haviam desencadeado compulsão alimentar. Depois de realizar exames, decidiu iniciar o uso do medicamento.
Embora a caneta emagrecedora tenha ajudado Maristela a reduzir o apetite e perder peso, o início e o fim do tratamento foram marcados por alterações mais intensas. A falta de fome a surpreendeu, enquanto a ansiedade e o apetite voltaram a se intensificar depois. A experiência mostra que, mesmo quando há resultados positivos, o processo pode apresentar oscilações que exigem atenção constante.
De acordo com Heloisa Salomão, Regulatory Affairs Manager na ReSolution Latin America e biomédica formada pela Universidade de Santo Amaro (UNISA), o uso do medicamento apenas para fins estéticos, sem prescrição médica ou com o objetivo de emagrecimento rápido, representa risco de automedicação, doses inadequadas e efeitos graves, como pancreatite, náuseas e efeito rebote. Ela ainda alerta que essa prática pode causar desabastecimento para quem realmente precisa do tratamento e contribuir para a normalização da automedicação, incentivada pelas redes sociais.
Esse cenário é potencializado pelo crescimento do comércio de medicamentos e cosméticos sem aprovação regulamentar nas redes sociais. Produtos como suplementos capilares, remédios para emagrecimento e cosméticos proibidos circulam livremente em sites, sem passar por testes de segurança, o que expõe os consumidores a riscos ainda maiores e reforça os problemas associados à automedicação.
Plataformas como Instagram e TikTok funcionam como canais de divulgação e venda, onde influenciadores digitais e até profissionais de saúde promovem medicamentos e cosméticos sem comprovação científica. Essa prática aumenta a procura por substâncias irregulares, e pessoas em busca de soluções rápidas acabam se automedicando. O aumento da venda das chamadas “canetas emagrecedoras” entre 2023 e 2024 é um exemplo desse mercado. Esse medicamento injetável é indicado para adultos com diabetes tipo 2 que não controlam a glicemia apenas com dieta e exercícios. O uso sem acompanhamento médico pode causar náuseas, vômitos, pancreatite e problemas cardiovasculares. Apesar das restrições, o produto se popularizou para fins estéticos.
Diante desse cenário, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reforçou a fiscalização. Em 2024, aprovou a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 945, em vigor desde 2025, que define regras para pesquisas clínicas de medicamentos no Brasil. A agência também orienta os consumidores a evitar compras em canais não oficiais e buscar orientação médica antes de iniciar qualquer tratamento.
Em resposta ao uso inadequado dos medicamentos agonistas do GLP-1, a Anvisa adotou regras mais rigorosas para a venda. Desde junho de 2025, a prescrição deve ser apresentada em duas vias, com uma delas retida pela farmácia, e a venda deve ser registrada no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC). A receita tem validade de até 90 dias. Essas medidas buscam reduzir a automedicação e proteger o acesso de pacientes com indicação médica real, já que o uso indiscriminado pode gerar desabastecimento. Além disso, a Anvisa reforça a necessidade de combater a normalização da automedicação incentivada pelas redes sociais.
Regulamentação Sanitária
A pesquisa clínica é a base para garantir que novos medicamentos e tratamentos sejam seguros e eficazes. Esse processo rigoroso, que envolve estudos controlados com voluntários, é fundamental para avaliar efeitos terapêuticos, dosagem e possíveis efeitos adversos antes que um produto chegue à população. Sem essa etapa, não é possível confirmar se um medicamento oferece benefícios reais ou representa riscos à saúde.
Todo o processo é guiado por protocolos éticos e mecanismos de proteção. As normas exigem consentimento informado, supervisão médica e revisão por comitês de ética, assegurando que os voluntários entendam os procedimentos e potenciais efeitos adversos. Esses mecanismos são essenciais para proteger os participantes e garantir que os resultados sejam confiáveis e cientificamente válidos.
Falhas na regulamentação e na fiscalização podem permitir o uso de medicamentos sem comprovação científica. Um exemplo foi o uso da cloroquina durante a pandemia de Covid-19. Apesar de ser utilizada há décadas para malária e doenças autoimunes, sua adoção em larga escala se deu mais por pressão política do que por evidências clínicas, em um contexto de falta de monitoramento rigoroso.
A biomédica esclareceu que o episódio deixou claro que o rigor científico é inegociável e que estudos com falhas metodológicas não podem sustentar recomendações terapêuticas ou decisões regulatórias. A transparência e a ética são fundamentais para evitar a desinformação. A experiência com a cloroquina contribuiu para fortalecer a regulação sanitária, reforçando a necessidade de decisões baseadas em evidências sólidas para garantir a segurança e a eficácia dos tratamentos.
Estudos conduzidos no Brasil e em outros países, como os da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apontaram que não havia eficácia comprovada do fármaco contra a Covid-19. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alertou para riscos adicionais, como efeitos cardíacos. Com base nessas evidências, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou a suspensão do uso.
Impactos Globais
No cenário global, os medicamentos também são impactados por medidas políticas entre os países, como a aplicação de uma taxa de 50% pelos Estados Unidos sobre produtos exportados do Brasil, que afeta especialmente os medicamentos emagrecedores à base de GLP-1, estimulando a produção nacional e fortalecendo a indústria local.
Além disso, a patente da Liraglutida, princípio ativo das canetas emagrecedoras Victoza e Saxenda, teve sua exclusividade mantida por liminar concedida pela Justiça Federal. A decisão garante a continuidade do fornecimento regulamentado e contribui para o controle do mercado interno.
Os biológicos são produzidos a partir de DNA recombinante, como a insulina humana, utilizada no tratamento do diabetes. Sua produção é complexa e exige regulamentação específica. Já os sintéticos, produzidos por síntese química, são submetidos a protocolos clínicos e regulamentação estrita. Eles oferecem dados mais sólidos sobre eficácia e riscos, mas também exigem monitoramento contínuo.
A escolha entre os tipos de medicamento deve ser baseada em orientação médica e evidências científicas. De acordo com a OMS, cerca de 40% da população mundial usa algum tipo de medicina natural, mas menos de 20% desses produtos têm comprovação científica robusta. No Brasil, a Anvisa aprovou em 2024 um guia específico para ensaios clínicos de medicamentos fitoterápicos, visando aumentar a segurança e a credibilidade dos produtos de base natural.
Por Jéssica Castro
O uso cotidiano das redes já parece natural e se transformou em rotina para milhões de pessoas, mas esconde um risco crescente: a enorme quantidade de dados pessoais circulando em ambientes digitais pouco seguros. Cada clique, senha ou autorização pode se tornar porta de entrada para golpes cada vez mais sofisticados, e os recentes vazamentos de bilhões de credenciais reforçam como a nossa vida online está vulnerável.
Recentemente, um relatório divulgado pela Forbes trouxe à tona um dos maiores alertas de segurança digital já registrados: mais de 16 bilhões de senhas podem ter sido expostas em vazamentos ligados a aplicativos de grandes empresas como Apple, Meta e Google. A investigação, conduzida pela organização independente Cybernews, mostrou como ataques de phishing, malwares e ransomwares continuam explorando justamente a falta de preparo dos usuários para lidar com os riscos da vida online.
Para Vilius Petkauskas, pesquisador da Cybernews, é improvável que as informações tenham sido extraídas diretamente das big techs. O mais provável é que os hackers tenham se aproveitado de vulnerabilidades comuns, como campanhas de phishing, instalação de malwares e ataques de ransomware, explorando justamente a falta de práticas básicas de proteção por parte dos usuários.
Para entender melhor, conheça o significado dos termos utilizados. Entre os principais mecanismos usados por criminosos digitais estão o phishing, que consiste em enganar o usuário com links ou mensagens falsas para roubar senhas e informações pessoais; os malwares, programas maliciosos instalados em celulares ou computadores que permitem o roubo e monitoramento de dados; e o ransomware, um tipo de ataque em que os invasores sequestram os arquivos da vítima ou os codificam com criptografia e exigem pagamento para liberá-los novamente.
O caso divulgado, escancara a fragilidade de um ambiente digital em que ferramentas de coleta e rastreamento de dados se tornam cada vez mais sofisticadas. Apesar da existência de recursos de privacidade acessíveis, grande parte dos usuários ainda não sabe configurá-los ou identificar práticas abusivas. Muitos aplicativos, por exemplo, solicitam permissões desnecessárias, como acesso à câmera ou ao microfone em jogos simples, o que pode ser um forte indicativo de coleta indevida. Especialistas recomendam atenção redobrada às políticas de privacidade, além do uso de ferramentas como o Exodus Privacy ou o AppCensus, capazes de identificar rastreadores escondidos em apps populares.
No dia a dia, medidas como manter sistemas operacionais atualizados, adotar senhas únicas e habilitar a autenticação em duas etapas seguem sendo as principais formas de se proteger. Navegadores com foco em privacidade, como Brave, Firefox, Duck Duck Go e Tor Browser, também vêm sendo apontados como alternativas importantes diante do crescimento do rastreamento online.
Em entrevista com Bruno Roberto de Jesus, especialista em cibersegurança, é possível compreender que a proteção começa por medidas simples, mas frequentemente ignoradas. Muitos usuários ainda repetem senhas em diferentes plataformas, o que aumenta muito o risco em casos de vazamento. O ideal é criar combinações mais complexas para cada acesso, além de habilitar sempre que possível a autenticação em duas etapas.
Segundo Bruno, a atenção também deve estar voltada às permissões concedidas aos aplicativos instalados no celular. Ele considera que se um app de jogo pede acesso à câmera ou ao microfone, isso deve acender um sinal de alerta. Esses dados podem ser coletados e vendidos sem que o usuário perceba. Práticas como manter os sistemas operacionais atualizados e preferir navegadores com foco em privacidade são formas eficazes de reduzir a exposição.
O especialista também reforça que a educação digital é peça-chave para a prevenção. Ele defende que é preciso democratizar o conhecimento em cibersegurança. Não basta que apenas empresas tenham especialistas. Ele avalia que todos os cidadãos precisam entender os riscos e saber como se proteger. No Brasil, esse ainda é um desafio grande, já que cursos relevantes na área costumam ser internacionais e pagos em dólar.
Se globalmente a escala dos vazamentos preocupa, no Brasil o problema ganha contornos ainda mais desafiadores: a escassez de profissionais de cibersegurança. Cursos especializados continuam caros, concentrados em capitais e muitas vezes apenas em inglês, o que afasta jovens interessados na área. A Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação estima que o país precisará de mais de 500 mil especialistas até 2025, mas a formação atual não acompanha essa demanda. Isso cria um duplo risco: usuários mal informados e empresas sem profissionais suficientes para implementar estratégias de proteção.
O episódio, portanto, vai além da troca emergencial de senhas. Ele evidencia a urgência de formar cidadãos digitais conscientes e de ampliar o acesso à formação em cibersegurança no Brasil. Só assim será possível reduzir o impacto de vazamentos em massa e fortalecer uma cultura de proteção no ambiente online.
Em sua quarta edição, ocorrida entre os dias 12 e 15 de junho, o Festival Interlagos Edição Carros se consolidou no setor. Realizada no autódromo de mesmo nome, na zona sul de São Paulo, contou com lançamentos de Ford, Honda e GWM. Além disso, nomes como IZA e Ferrugem animaram os amantes das quatro rodas.
Ao todo, estiveram presentes 18 marcas de automóveis, contando Omoda e Jaecoo como marcas separadas. A quantia diminuiu em relação à edição de 2024, que teve 19. Este ano, marcas como Chevrolet e Renault não compareceram. Mas ao andar pelos boxes da pista e no gramado que recebe os festivais Lollapalooza e The Town, a diferença é imperceptível.
Se por um lado havia uma fabricante a menos, o número de stands de marcas patrocinadoras aumentou e chamava bastante a atenção. Desde casas de apostas até plataformas de venda de produtos online, com direito a uma estátua de leão que atraia as câmeras dos celulares. Completava o cenário a roda gigante popular nos eventos musicais que ali ocorrem, mas que não estava disponível para passeio.
No quesito alimentação, havia um número grande de opções, com uma dezena de food trucks e quiosques para petiscos e um restaurante com buffet também. Ponto importante é a falta de bebedouros pelo complexo, obrigando a todos a comprarem água, mesmo com os shows musicais que pedem por estações de hidratação.
Já em relação à organização do evento, mesmo com as obras aparentemente incessantes em Interlagos, com tapumes e entulhos em alguns locais, estavam menos intrusivas no campo de visão do espectador que as edições passadas. A sinalização continuou precária, com muitas pessoas perguntando para seguranças como descer para a área dos boxes e para o meio da pista, onde as grandes marcas ficavam.
Baseado no conceito de experiência automotor, o formato das edições anteriores foi mantido. Diferente de um Salão do Automóvel tradicional, os interessados poderiam andar na pista por R$593 com o ingresso Drive Pass, e também negociar com representantes de concessionárias a compra dos carros expostos e testados.

Tudo isso faz do festival um exemplo atraente financeiramente para as marcas e emocionalmente para o público. Em Portugal, isso acontece de forma parecida com o ECAR Show e, na Espanha, com o Automobile Barcelona, por exemplo. Mas é só no Brasil que uma pista de corridas todo pode ser explorada. Além disso, para diminuir os custos, a edição Carros aconteceu apenas duas semanas depois da edição Motos, reaproveitando a estrutura e agilizando o processo para as montadoras, segundo a organização do evento.
Palco de lançamentos
Mesmo sem Volkswagen e o novo Tera, e a Chevrolet tendo optado por lançar os facelift de Onix e Tracker em julho em evento fechado, grandes revelações tomaram Interlagos. No quesito modelo inédito não houve nenhum caso por parte das montadoras tradicionais, limitadas a reestilizações e apresentações ao público de carros já mostrados em solo brasileiro.
Dessa vez presente somente com a Abarth, o conglomerado Stellantis aproveitou o ambiente de corrida que a marca do escorpião evoca e mostrou o renovado Pulse. Seguindo as atualizações da versão não envenenada da Fiat, ganhou nova grade frontal e teto panorâmico, além de banco do motorista com ajuste elétrico para o esportivo. Ficaram de fora, no entanto, novos assistentes de condução como leitor de placas de trânsito e piloto automático adaptativo, disponíveis em veículos mais baratos que os R$157.990 anunciados.

Ainda em relação às europeias, a Volvo esteve presente novamente, inclusive reaproveitando muitos dos EX30 amarelos da edição passada. Falando nele, que não oferece mais a cor citada, ganhou uma nova versão em território brasileiro, a Cross Country. Apresentada em fevereiro na Europa, chega aqui como topo da gama por R$314.950. Se diferencia das demais pelas caixas de roda e proteções na frente e atrás em plástico preto, além de estrear um novo sistema de propulsão, com tração integral e 428 cavalos, e indo de 0 a 100km/h em apenas 3,7 segundos.
Também foram mostrados ao público o XC90 atualizado, lançado em 2015, que ganhou sobrevida após a decisão da sueca de prolongar o ciclo dos seus modelos a combustão até uma maior maturação do mercado de elétricos. E ao lado dele estava também o recém lançado no Brasil, o novo EX90, antes tido como sucessor do irmão e agora como complemento e modelo topo de gama da marca.

Mudando de continente, a Honda aproveitou a ocasião para apresentar o facelift do Civic e do HR-V. Ambos receberam mudanças sutis na grade dianteira e parachoques, além de novas lanternas traseiras e desenho de rodas para o segundo. No interior, o sistema multimídia do sedã ganhou novas funcionalidades e o console central do SUV foi alterado levemente para facilitar o acesso ao carregador por indução. Os preços não foram divulgados, no entanto.
A conterrânea Mitsubishi estava presente novamente, mas diferente da edição 2024 trouxe modelos realmente novos em sua linha, apesar de nenhuma revelação no evento. Lançado no país há poucos meses, a nova geração da picape Triton estava presente e o destaque do stand foi o novo Outlander, anunciado no mês passado. Agora híbrido plug-in, se coloca como modelo mais tecnológico da marca no Brasil, mas custa quase R$400 mil.
Novidade este ano no festival, a Hyundai também não trouxe novidades, mas aproveitou para mostrar para os consumidores o recém-lançado Kona, o SUV de oito lugares Palisade e o eletrônico Ioniq 5. Os modelos marcam uma nova fase da divisão de importados da coreana no país, administrada pela CAOA e separada da HMB que fabrica os modelos HB20 e Creta.
Por fim, a estadunidense Ford levou a Interlagos a linha Tremor de suas picapes Maverick, Ranger e F-150, reforçando o apelo off-road da marca com direito a um segundo stand só para elas próxima à pista off-road. Já dentro dos boxes, a reestilização do seu segundo modelo mais importante no país hoje, o Territory, foi revelada.

Atrás apenas da Ranger em vendas e popularidade, é rival de modelos best-sellers como os Jeep Compass e Toyota Corolla Cross, SUVs médios. Com uma frente toda remodelada, mais arredondada e passível de julgamentos, mudou a cor dos estofados internos mas manteve o seu preço de R$215 mil. Importado da China, pretende crescer na categoria com a estratégia, custando menos que os dois concorrentes citados em versões equivalentes.
Ascensão chinesa continua
Falando mais sobre a potência asiática, se nenhuma surpresa veio por parte das montadoras já estabelecidas, mais uma vez as chinesas ocuparam em todos os sentidos Interlagos, e tiveram destaque. Com revelações importantes e presentes na pista e no barro, elas focaram em mostrar qualidade e potencial tecnológico irreverente.
Veteranas do Festival, BYD e GWM foram desta vez por caminhos distintos, com a primeira sem lançamentos no mercado de fato, mas trabalhando fortemente o imaginário da marca no Brasil. No stand o ato principal foi o supercarro elétrico YangWang U9, chamando todas as atenções com o seu vermelho vivo e asa traseira enorme. Além disso, era impossível não reparar o carro “dançando”, demonstrando a suspensão independente sofisticada do modelo que consegue saltar e andar somente com três rodas.

Do lado de fora quem brilhava era o também elétrico YangWang U8, agora sob o formato SUV. Capaz de girar no próprio eixo e flutuar, corria pela pista e chamava atenção pelo porte de cerca de cinco metros de comprimento e design singular. Nada foi falado sobre a possível comercialização de ambos no Brasil, o que não era esperado, mas sim as onomatopeias e expressões de surpresa que eles provocam.
Já em relação ao rival GWM, a estratégia foi repetir o que fez em 2024: apresentar novos modelos. A picape híbrida Poer e o SUV Tank 9 foram as estrelas da vez, com a primeira já tendo aparecido em evento com o vice-presidente Geraldo Alckmin na futura fábrica da empresa no Brasil. No caso do segundo, promete complementar a linha Tank após a chegada do Tank 300, na edição passada revelado, e agora ocupando a pista off-road e as ruas também.
Cenário similar ocorreu no stand da Omoda & Jaecoo, marcas do grupo Chery que em 2024 debutaram em Interlagos e agora já contam com cerca de 50 lojas pelo país. Foram apresentados a versão híbrida do Omoda 5, vendido aqui até então somente como elétrico sob o nome E5, e o inédito Omoda 7, um híbrido plug-in para rivalizar com BYD Song Plus e o GWM Haval H6. Ambos tem previsão de lançamento até final do ano.
Porém, o destaque da mostra foi a novata GAC, que chegou ao mercado brasileiro oficialmente no mês passado já com 33 lojas e cinco modelos. Estilizada sob o slogan Go and Change, vá e mude em português, é o acrônimo para Guangzhou Automobile Group, e se pronuncia “gê á cê”.
Com um dos maiores estandes da edição, o mesmo que a também estreante chinesa Neta usou no ano passado, era um dos mais movimentados também. O centro das atenções era o elétrico Hyptec HT com suas portas traseiras “asa de gaivota”, ao estilo do rival Tesla Model X. Custando a partir de R$299.990, é o modelo topo de gama da marca à venda aqui, e promete agitar o mercado dos SUVs elétricos grandes, com uma cabine extremamente luxuosa.
Mais ao fundo estava o também elétrico e SUV, Aion V, com uma pegada mais quadrada e prática. Com porte de GWM Haval H6, tela para o ajuste do ar condicionado no banco de trás, massagem nos dianteiros e até 602 km de autonomia segundo o ciclo chinês NDEC, custa a partir de R$214.990, mesmo preço que o rival híbrido. A MPV (Multi Purpose Vehicle) Aion Y e o sedã Aion ES completavam a linha elétrica.
E apostando também nos híbridos, o SUV GS4 marcou presença, rival direto do supracitado H6 e do recém atualizado BYD Song Plus. A partir de R$189.990 é tido pela marca como o modelo com maior potencial de vendas, e aposta em um design ousado cheio de vincos e quinas, além de qualidade, conforto e tecnologia por um preço mais acessível que modelos menores como o Toyota Corolla Cross inclusive.

Vale notar, no entanto, que apesar de todo o apelo high tech, nenhum dos modelos conta com leitor de placas de trânsito e detector de fadiga, presentes nos rivais da GWM e BYD. Além disso, o sedã Aion ES, com a mira para o BYD King, não possui nenhum assistente de condução e acabamento digno de Fiat Mobi por R$170 mil. Só o tempo dirá se a estratégia será efetiva ou desaparecerá em um ano como a Neta.
Museu a céu aberto
Ao lado da imersão chinesa a nostalgia tomava conta no segundo espaço da Honda no evento. Entrando era possível admirar o Civic Type-R, o mais potente já feito e vendido por quase meio milhão no Brasil. De frente a ele estava o primeiro Civic fabricado no Brasil, parecendo que havia saído da loja em 1997.
E como um espaço de memória da japonesa pedia, um tributo a parceria de Ayrton Senna e a marca levou ao festival itens exclusivos do ídolo brasileiro. Acompanhado do capacete usado por ele estava exposto um exemplar 1992 do Honda NSX, esportivo que contou com a participação do piloto no desenvolvimento e que é lembrado pelos fãs por isso. Os entusiastas das pistas ainda puderam ver de perto o primeiro Honda que ganhou na Fórmula Indy.

Não necessariamente só de antiguidades que se faz um museu, mas também obras de arte, como abrigava um pavilhão mais adiante. Nele os interessados podiam fazer tatuagens no estúdio presente enquanto admiravam os dois carros mais caros do Brasil.
No seu tom azul vibrante de lançamento, o superesportivo Bugatti Chiron estava sempre rodeado de câmeras, queixos caídos e pessoas de todas as idades. Com 1.500 cavalos, estima-se que custe cerca de R$40 milhões e é o único exemplar em solo brasileiro. E acompanhando o francês estava o Pagani Utopia, feito artesanalmente e em apenas 99 unidades. O único exemplar no país é branco e possui faixas azuis e vermelhas, importado por cerca de R$60 milhões.
Estavam mais ao fundo ainda uma Porsche Taycan e uma Mercedes G-Class, que torcem pelos pescoços pelas ruas, mas se contentavam em ser apenas os figurantes do espaço desta vez. Falando na alemã, pela primeira vez esteve no evento, com um stand discreto no gramado e apenas quatro modelos, mas que estavam quase sempre rodeados de interessados. Ao lado também estavam as novatas no evento, BMW e Mini, com seus últimos modelos, mas sem novidades.
De volta ao prédio, Lexus e Toyota repetiam a estratégia das alemãs, sem alardes, e para completar o mundo das exclusividades, um cercado contava com um Rolls Royce Ghost, um McLaren GT, alguns Mitsubishi Lancer Evolution e até mesmo uma Tesla Cybertruck. Se não fosse o suficiente, no andar de cima empresas de acessórios e produtos automotivos em geral trouxeram Nissan GT-R, Ford Mustang e mesmo Ferrari. Lembrando que se fosse de desejo, por R$1.970 à R$3.950 era possível pilotar máquinas como essas com o ingresso Sport Pass.

Para completar a experiência no fim da noite, ainda aconteceram shows de cantores a lá Lollapalooza em pleno mês de junho. No dia 13 se apresentaram Seu Jorge e IZA, seguidos da dupla Maiara e Maraisa no dia seguinte, e Diogo Nogueira e Ferrugem no domingo (15).
A Prefeitura de São Paulo anunciou em abril deste ano que renovou o contrato com a organização do evento para edições anuais até 2028, comprovando o sucesso do formato. Mesmo que o Salão do Automóvel de São Paulo volte depois de sete anos em novembro, como foi anunciado, o espaço do Festival Interlagos é só dele, e parece mais que nunca robusto e consolidado pelas marcas, governo e também pelo público.
Em 13 de janeiro deste ano, foi sancionada a lei nº 15.100/2025 pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que limita o uso de celulares em escolas das redes pública e privada. O objetivo é diminuir os impactos negativos deste aparelho, como o vício em tecnologia, a falta de concentração e os prejuízos à saúde mental dos jovens. Não está proibido portar os dispositivos eletrônicos nas classes, mas sua utilização é apenas para emergências, necessidades de saúde e atividades pedagógicas que necessitam deles. Tudo fica sempre sob supervisão do professor. Essa 'brecha' tem levado muitos alunos a tentar burlar as regras, afirma Mércia Cristina de Freitas Andrade, inspetora de alunos em uma escola da rede pública, em entrevista à AGEMT.
Com foco em diminuir o cyberbullying, que causa dificuldades nas relações interpessoais e no desempenho escolar, além dos problemas de sono e das questões psicológicas, as instituições de ensino tiveram que definir as estratégias de implementação da lei, inclusive em recreios e intervalos entre as aulas.

Com a dependência em inteligências artificiais (IAs) atualmente, a funcionária do Educandário comentou se notou alguma diferença na aprendizagem dos alunos com a utilização desenfreada da internet e o acesso à inteligência artificial: "O uso de celulares e a utilização da IA, de certa forma, fez com que os alunos fizessem o uso demasiado de respostas e pesquisas prontas. Dessa forma, a aprendizagem e o aprimoramento da bagagem cultural foram seriamente comprometidos", ressalta.
São Paulo foi o primeiro estado a adotar a medida, antes mesmo da criação da lei federal. Os regulamentos mais detalhados da implementação da legislação ficaram ao cargo do CNE (Conselho Nacional de Educação), órgão consultivo do Ministério da Educação (MEC), que decidiu dar autonomia aos colégios na maneira de armazenar e lidar com os aparelhos. Para Mércia, a proibição foi uma medida tardia, mas necessária e, com isso, os estudantes poderão fazer melhor uso do tempo e se concentrar melhor nos estudos. Ela cita: “Notei uma ligeira melhora nas relações humanas. Uma atenção mais direcionada às disciplinas, mas ainda uma resistência à proibição…"

Essa atitude reflete um relacionamento não saudável com um dispositivo que era, praticamente, parte do material escolar e que está cada vez mais presente na vida social. Quando foi proibido, causou uma onda de irritação nos jovens, relata a inspetora.
A partir de 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) começou a reconhecer a dependência do celular e em outros meios digitais como um transtorno chamado nomofobia. Um estudo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) diz que cerca de 25% dos adolescentes brasileiros são viciados na internet. Além disso, a Opinion Box traz os dados de que 95% das crianças do país, entre 10 e 12 anos, têm acesso a pelo menos um smartphone. Com essa medida, espera-se que a escola volte a ser um ambiente de interação, que os estudantes voltem a ter uma aprendizagem mais fluida e que desenvolvam uma relação mais equilibrada com a tecnologia.




