Mostra especial com itens próprios e trajetória do vocalista da banda Charlie Brown Jr. atrai grande público em Santos
por
Ivo de Carvalho
|
05/10/2026 - 12h

A cidade de Santos foi escolhida para receber a exposição Chorão House, entre os dias 26 de agosto e 27 de setembro no Praiamar Shopping. Com acervo histórico de objetos pessoais e ambientes temáticos, uma das grandes atrações está na reconstituição em cenário do próprio quarto do lendário músico. O evento recebeu mais de 12 mil pessoas, de acordo com a Secretaria de Turismo da cidade.

 Grandes bandas foram importantes para a cena do rock nacional nos anos 1990. Porém, pode-se dizer que o Charlie Brown Jr. teve um papel de destaque com suas levadas energéticas, vibrantes e revolucionárias. As letras cantadas pelo vocalista Alexandre Magno Abrão, popularmente conhecido como Chorão, moveram legiões de fãs por todo Brasil. A exposição Chorão House traz uma experiência imersiva para o público. Com objetos pessoais do artista, bonés, guitarras, camisetas de bandas, shapes e medalhas de campeonatos de skate. Campeão de diversas modalidades e etapas, mostrava sempre seu estilo de vida que equilibrava entre a música e a vida em cima das quatro rodinhas. Atividades preferidas que alternava em sua rotina: quando não estava escrevendo letras, poderia estar certamente andando de skate pela orla da cidade de Santos. Especificamente na praia de Aparecida.

(Reconstituição do quarto de Chorão. Fotografia: Ivo Leite)
Reconstituição do quarto de Chorão. Foto: Ivo Leite/AGEMT

Durante a visitação, trechos gravados com sua voz falando de suas histórias de vida estão presentes. Conversas em shows, gravações e risadas. Quase sempre crônicas engraçadas de momentos únicos com amigos e outros músicos ou skatistas. Por exemplo, há um áudio com sua explicação sobre a origem do nome da banda, que foi uma história cômica de uma barraca de cocos. A reconstituição de seu quarto com uma cenografia especial é um dos pontos mais brilhantes da exposição. A tradução da maneira de como  vivia. Sempre intensamente e como se o próximo dia fosse o último. Visivelmente clara a relação apaixonada entre música e skate em seus objetos ao redor de onde dormira diariamente. Andando mais adiante na exposição, encontra-se outra coisa que fazia o coração de Chorão bater mais forte: o Santos Futebol Clube. Camisas feitas pelo próprio clube homenageando o músico em coleções especiais exclusivas mostram a relação afetiva e especial que tinha com o “Peixe da Vila”.

(Ambientação temática sobre sua paixão pelo Santos FC. Fotografia: Ivo Leite)
Ambientação temática sobre sua paixão pelo Santos FC. Foto: Ivo Leite/AGEMT

Chorão morreu em 2013, mas seu legado se mostra  eterno na exposição. Para representar a sua vida nos palcos, a exposição trouxe uma bateria acústica completa e uma guitarra utilizada por ele no videoclipe “Só por uma noite”. Além disso, várias fotos de turnês e com outros artistas parceiros estão presentes. 

Tags:
Segundo volume de “O que separa os homens dos meninos” do rapper aborda temas como saúde mental e amor ao seu filhol
por
Laila Santos
Wanessa Celina
|
30/09/2026 - 12h

Mais de uma década após o lançamento do primeiro volume, Sant volta com  “O Que Separa os Homens dos Meninos, Vol. 2”, lançado em 16 de setembro. Com 11 faixas, o álbum reúne participações de diferentes gerações, como Emicida, KL Jay, Derxan, Duquesa, 2ZDinizz, L7NNON, Bia Ferreira, ADL, Tiago Mac, Céu, Cipriano, Lil Whind, Clara Lima, Pecaos e Nego Damoé.


Como uma continuação da conversa do primeiro volume, Sant explora o seu amadurecimento, a saúde mental, as ruas, os caminhos para conquistar os seus sonhos, o amor ao primogênito e os desafios das periferias brasileiras. A obra também teve uma produção audiovisual lançada antes do álbum, em 7 de setembro. Com esse trabalho, o rapper buscou trazer, cinematograficamente, os sentimentos do álbum, além de homenagear dois amigos mortos em abril deste ano: Kauan "Faraó" de Souza Marques da Silva e Leonardo "KBL" Abrão de Aquino.

cartaz do filme
Cartaz do filme “Isso é Exatamente O Que Separa Os Homens dos Meninos II” (Divulgação: Instagram @aqueminina)

O artista e seu território 


Ser da Zona Norte do Rio de Janeiro, mais especificamente do bairro de Pilares, não é só uma curiosidade de Sant. No curta-metragem, além de muitas imagens, alguns cortes das faixas do projeto e diálogos importantes para o artista, como a dificuldade financeira, a falta de perspectivas nas comunidades, um acontecimento entre ele e seu pai que o tocou profundamente e trouxe uma reação que ele não quer mais encontrar ou ser engatilhado para ter e a cultura e festa do bate-bola. 
Músicas como “Fronteira”, que divide com o cantor de pagode Nego Damoé, e em “Meio”, que divide com o rapper L7NNON e produção de MC Marechal, mentor de Sant no início da carreira, o espaço é o principal personagem da história. A Zona Norte é tratada como um lugar tão sagrado quanto Jerusalém, mas que vive “sob a paz da Síria”, que vive em constante instabilidade após o fim da guerra civil.


Se o primeiro trabalho dessa futura trilogia registrou a revolta, as perguntas, a mágoa e o começo da construção de carreira, em “Meio”, mostra o homem que ele se tornou, agora, pai, com algumas perdas e ganhos no caminho e com a mentalidade de revisitar o passado e olhar para o presente conjuntamente sem a necessidade de se autojustificar, ver as mudanças e entender que já não é mais o mesmo. Sant, que se denomina “filho do meio”, observa os males dos mais velhos e dos mais novos, ele entende que o medo é o empecilho nas ruas. 


Na parte de L7NNON, que cresceu na Zona Oeste do Rio de Janeiro, quando percebe as semelhanças entre as duas zonas, ele traz o entendimento de que o que separa os homens dos meninos nas duas regiões é ver que não importa quanto corra atrás de um sonho, ainda não está perto. L7 vê que para viver no território o dinheiro é indispensável, mas vencer nem sempre é ser o primeiro.  


“Tеrapia é pra quem não tem conta pra engolir choro”


Um fator importante para a trajetória de Sant, tanto pessoal quanto artística, e que está bem presente no disco de ponta a ponta, é a saúde mental. Para o compositor, esse tema foi excepcional para o seu amadurecimento e evolução para esta nova era.  Na segunda faixa do álbum, “Sobrevivente”, Sant aborda a saúde mental, ou melhor, a falta dela em pessoas periféricas. Na música, sobreviver é mais importante do que pensar no bem-estar psíquico. Sant questiona como demonstrar vulnerabilidade mental quando se aprende que não se pode desistir. Na música, Sant rima “Não finjo ser forte, eu tive de ser a força/ Porque o que dignifica a honra é somente o esforço, né?”.


Entretanto, logo que a faixa acaba, surge o “Interlúdio (estratégia mental e emocional de libertação)”, em que Cipriano pensa em outra forma de ver a saúde mental de pessoas negras em um país que historicamente mata, explora e vive do suor e sangue da população negra. O que o terapeuta mostra é que não basta a população negra sobreviver, que é necessário, por meio  da terapia, encontrar margens para a libertação. 


Onze anos depois, vem o amadurecimento


Em “O que separa os homens dos meninos 2”, faixa principal em colaboração com o rapper Emicida e com a produção de LP Beatzz, Sant traz a continuação da sua música “O Que Separa Os Homens Dos Meninos Vol. 1”, lançada em 2015. Onze anos depois, o artista mostra um olhar mais amadurecido sobre sua relação familiar, relação consigo e seu trabalho. Mais calmo e menos autopunitivo, Sant agora é o adulto olhando para o percurso de sua vida.

Capa do álbum do Sant
Capa do álbum “O Que Separa Os Homens dos Meninos Vol.2”  (Divulgação: Instagram @originalsant)


Sant usa a ideia de que era um incendiário e se tornou bombeiro. Esse trabalho nos mostra outra linha de raciocínio: o amadurecimento do rapper. Ainda em busca de respostas e trazendo novos questionamentos sobre o nome do álbum, o artista troca a revolta da primeira parte por paternidade, saúde mental e perdão, a partir dos acontecimentos pessoais nesse intervalo entre os dois ”mundos”. 


Com referência a artistas mulheres brasileiras, Emicida complementa a música afirmando que o seu rap é uma forma de lançar à periferia a ideia de sonhar. O paulista, por fim, lembra que um homem, na verdade, é o resultado daquilo que fizeram com um menino. 


Sant, Pecaos, 2ZDinizz, Duquesa, ADL e Clara Lima se juntam para fazer a sétima faixa do álbum, “Corre”. Na música, o amadurecimento é contado com a história pela perspectiva dos outros rappers. Nas rimas, o tema principal é o movimento. “Só que parar também é movimento”, a letra toca numa realidade não restrita aos artistas, mas uma realidade vista muitas vezes na periferia, onde se movimentar é uma das principais regras para nunca ser “devorado” pelo mundo.


“Esse é meu testamento, as outras cartas são rascunhos”


“Cartas de Amor”, quinta faixa do álbum, mostra uma versão mais apaixonada de Sant. Escrita como uma carta para o seu filho, Arthur, a faixa exprime sua vontade de ser alguém melhor para o filho. Como um testemunho, os versos mostram a delicadeza com com que o amor pelo primogênito mudou as escolhas de sua vida.
 

Rapper Sant posando para foto
Rapper Sant em foto de divulgação do álbum “O que Separa Os Homens dos Meninos Vol.2”. Foto: Ciro Neves/Divilgação

“Ônus”, a última faixa do álbum, é mais do que um pós-crédito. Mais do que um mero agradecimento, Sant termina o curta e o álbum agradecendo a pessoas importantes para a realização do curta e fazendo fazendo uma declaração a moradores e moradoras de bairros da Zona Norte. Ônus vem como uma “lição de moral”, assim como nos contos infantis, mostrando que ainda não é o fim de uma história em constante movimento.
 

Tags:
Cineasta responsável por “A Batalha do Chile” sofreu uma parada cardiorrespiratória
por
Enrico Peres
|
17/09/2026 - 12h

Na madrugada da última terça-feira (15), o documentarista chileno Patrício Guzmán faleceu após uma parada cardiorrespiratória. O cineasta estava internado em um hospital em Paris, cidade em que residia. 

Guzmán é reconhecido como um dos grandes nomes do cinema documental na América Latina, e ficou marcado principalmente por seus trabalhos relacionados à ditadura militar chilena, iniciada em setembro de 1973. Entre suas obras, a de maior destaque foi “A Batalha do Chile”, filme dividido em três partes que documenta o final do governo de Salvador Allende, a pressão opositora financiada pelos Estados Unidos e o golpe que pôs fim à utopia que chegara ao poder pelas urnas. Inicialmente, a ideia do documentário seria a de acompanhar o terceiro ano de governo da UP, a Unidade Popular. O filme, cujas filmagens foram iniciadas em 1972 até depois do golpe de estado, foi montado como uma trilogia em que cada parte retrata diferentes aspectos da organização popular e do golpe. 

A primeira parte, intitulada de “A insurreição da burguesia”, apresenta o cenário das eleições parlamentares no país e as tentativas falhas da burguesia chilena de derrubar o governo de Allende. A segunda, “O golpe de Estado”, segue mostrando os prelúdios da derrubada até culminar no dia 11 de Setembro de 1973, com o golpe e a morte de Allende. A última parte, “O poder popular”, foca nos movimentos sociais do país antes e depois da tomada do governo. Guzmán foi exilado e teve que finalizar o filme em Cuba.

Mais tarde em sua filmografia, o documentarista procurou produzir seus filmes sobre o período ditatorial no Chile, como em “Nostalgia da Luz”, em que acompanha mulheres que procuram corpos de seus parentes mortos pela ditadura. Na biografia de “Salvador Allende”, ele parte de uma perspectiva de revisitação, isto é, produz um cinema de memória, nomeado pelo próprio Guzmán como Cinema Testemunhal.

Patricio Guzmán seguiu fazendo filmes até 2022, quando lançou sua última obra, “Meu país imaginário”, que registra os protestos em Santiago, capital de seu país, mirando o futuro da democracia chilena.

 

Tags:
Com quase sete décadas de carreira, cantora morreu após enfrentar um câncer nos últimos meses
por
Luis Henrique Oliveira
Natália Matvyenko
|
28/08/2026 - 12h

A cantora e compositora americana Dolly Parton morreu aos 80 anos nesta terça-feira (25), no hospital Vanderbilt-Ingram Cancer Center, em Nashville, Tennessee, nos Estados Unidos. A informação foi divulgada nas redes sociais da artista por um vídeo de seu sobrinho e chefe de segurança, Brian Seaver: “Esse anúncio em vídeo é algo que Dolly me pediu há anos, antes que eu tivesse absorvido totalmente como uma realidade no futuro. [...] Dolly viveu na luz e está nos braços de Jesus, certamente recebida por Carl [Thomas Dean], seus pais e inúmeras outras pessoas que a observaram e ansiaram por encontrá-la nos céus”

Em comunicado para a revista People, a assessoria da artista revelou que Parton havia recebido um diagnóstico de câncer nos últimos meses, travando uma “breve batalha” contra a doença, e passou os momentos finais cercada da família e amigos. Mais detalhes não foram revelados. 

Em maio, a cantora cancelou uma série de shows que faria em Las Vegas para focar em sua saúde, que estava debilitada desde a morte de seu marido, Carl Thomas Dean, em março do último ano.

Cantora country Dolly Parton sorrindo em frente à bandeira americana.
Dolly Parton é a terceira mulher com mais indicações na história do Grammy. Foto: Instagram/@DollyParton

Conhecida por suas perucas loiras, voz única e figurinos extravagantes, Dolly construiu uma carreira de quase sete décadas marcada por hits como “Jolene”, “9 to 5” e “I Will Always Love You”, eternizado na voz de Whitney Houston em 1992, acumulando um total de 11 Grammys, além de indicações ao Oscar, Emmy e Tony.

Nascida em janeiro de 1946, em uma cabana de apenas um cômodo às margens do rio Little Pigeon, Dolly Rebecca Parton era a quarta entre 12 filhos de dois agricultores sem terra e cresceu em situação de extrema pobreza rural. Sem acesso a energia elétrica ou encanamento, a mãe costurava seus vestidos com restos de pano, experiência que resultou na canção “Coat Of Many Colors”. “Essa música significa muito para mim de tantas maneiras e por tantos motivos. É mais uma filosofia do que uma música”, explicou em entrevista para a Rolling Stone, em 2021.

Sua entrada no mundo artístico aconteceu em 1959, aos 13 anos, influenciada pela família que possuía fortes raízes musicais. Contudo, foi apenas em 1967 que sua ocupação atingiu um novo patamar, quando integrou a equipe do programa do cantor Porter Wagoner e firmou uma parceria com este, resultando em 13 álbuns de estúdio antes da separação oficial.

Em 1980, Parton resolveu se aventurar nas telonas, marcando sua estreia como atriz na comédia Como Eliminar Seu Chefe (9 to 5, dir. Colin Higgins). O filme rendeu para a musicista três indicações ao Globo de Ouro por sua atuação como a secretária Doralee Rhodes e uma indicação ao Oscar em Melhor Música Original pela canção homônima 9 to 5.

Dois anos mais tarde, renovou a parceria com Higgins e integrou o elenco do musical A Melhor Casa Suspeita do Texas (The Best Little Whorehouse in Texas) como a protagonista Mona Stangley. O papel lhe trouxe outra indicação ao Globo de Ouro em Melhor Atriz em Comédia ou Musical. Após isso, sua filmografia foi ganhando novos títulos como Rhinestone: Um Brilho na Noite (Rhinestone, dir. Bob Clark), em 1984, e o romance "Flores de Aço" (Steel Magnolias, dir. Herbert Ross), em 1989.

Cantora country Dolly Parton sorrindo em frente um fundo azul, usando roupas verdes e unhas pintadas de vermelho
“I Will Always Love You” foi o primeiro single de Dolly Parton à chegar no topo das paradas country. Foto: Instagram/@DollyParton

Muito mais do que apenas uma figura do entretenimento, Dolly Parton também era reconhecida por seus projetos filantrópicos. Em 1988, criou a Fundação Dollywood, instituição que tem como intuito reduzir a evasão escolar e incentivar a educação infantil. Alguns anos mais tarde, começou a financiar o projeto Dolly Parton's Imagination Library, que envia mensalmente livros de forma gratuita para crianças com até cinco anos.

Mas seu feito mais conceituado veio durante a pandemia do COVID-19. Em 2020, a cantora doou US$1 milhão para o Centro Médico da Universidade Vanderbilt, em Nashville, ajudando a financiar as etapas primárias da vacina produzida pela farmacêutica Moderna.

A notícia sobre seu falecimento provocou uma onda de homenagens entre fãs e artistas. Dentre eles, nomes como Taylor Swift, Miley Cyrus, Stevie Nicks, Paul McCartney e Beyoncé prestaram seus tributos à Dolly nas redes sociais, destacando a admiração que sentiam e sua importância, tanto para a indústria cultural quanto para as causas sociais.

Miley Cyrus, afilhada de Parton, publicou uma despedida emocionada, afirmando que os momentos mais especiais com sua “tia Dolly” permaneceriam privados “por trás do glamour e guardados entre nossos corações”.

“O que eu sei é que Dolly gostaria que eu sentisse tudo isso, escrevesse uma música sobre isso e depois seguisse em frente, sendo forte. Tenho um anjo ao meu lado. Sempre tive. Uma das nossas últimas conversas foi sobre música e metamorfose.”

Miley Cyrus e Dolly Parton, respectivamente, sorrindo em foto
Dolly Parton fez participação especial em Hannah Montana, série protagonizada por Miley. Foto: Instagram/@mileycyrus

Consciente de seu legado, Dolly Parton ainda possui uma última música para ser lançada futuramente, em 2046, quando fizer 100 anos. Intitulada “My Place in History”, a faixa está enterrada em uma caixa de madeira no hotel Dollywood Dreammore Resort e contém cópias físicas em CD e fitas cassetes, junto de aparelhos próprios para ouvi-la.

“Eu tive que escrever essa música que ninguém ia ouvir até então. E eu te digo, você não tem ideia de como isso me incomodou. Eu quero muito desenterrá-la e pensar: 'Bem, eu preciso usar essa música', porque ela é... é uma música muito boa.”, explicou.

Tags:
Paróquias da cidade têm programação junina, reunindo fiéis e moradores em festas com comidas típicas, brincadeiras e atrações para toda a família
por
Raissa Santos
|
23/06/2026 - 12h

O mês de junho sempre traz consigo o cheirinho agradável do vinho quente, decorações com bandeirinhas coloridas e festividades que movimentam comunidades religiosas por todo país. Em São Caetano do Sul, sete das 11 paróquias que compõem a Forania da cidade preparam quermesses que reúnem fiéis em celebrações marcadas por comidas típicas, música e atividades para toda a família. 

As festividades, que começaram em maio com a quermesse da Paróquia São Bento — já encerrada — se estendem até o fim de julho, tomando conta dos pátios das igrejas espalhadas pela cidade. No Centro, a festa da Matriz Sagrada Família segue até o dia 28 de junho, sempre das 16h às 22h. O cardápio oferece aos visitantes opções clássicas como cachorro-quente, espetinhos, milho-verde, além de bebidas típicas como quentão, vinho quente e o tradicional chá do padre. 

No bairro Jardim São Caetano, a Paróquia Santo Antônio também segue com a quermesse até o dia 28, quando realizará o seu tradicional bingão. Voluntária desde 2023, Milena Drudi, de 22 anos, destaca que participar da organização da festa é uma experiência desafiadora e divertida ao mesmo tempo. Neste ano, após deixar a coordenação da barraca das brincadeiras, ela passou a colaborar em diferentes setores da quermesse. Segundo ela, a mudança permitiu conhecer novas funções e ter mais contato com o público. “Foi muito divertido trabalhar como voluntária e também exercitar minhas habilidades sociais. A experiência no caixa foi uma das mais desafiadoras e, ao mesmo tempo, uma das mais divertidas”, conta. 

Já a Paróquia Nossa Senhora da Candelária, no bairro Cerâmica, mantém sua quermesse até o dia 5 de julho, oferecendo ao público as tradicionais barracas de comidas típicas e um ambiente de confraternização para a comunidade. O mesmo acontece na Paróquia São João Batista, que também segue com sua programação até 5 de julho, mantendo seu tradicional bingo e reunindo fiéis e moradores para celebrar o período junino. 

Domitila Barbosa, de 15 anos, conta que frequenta a São João Batista com a família desde 2008, e participa da barraca do bingo junto de seu pai desde que ele assumiu a coordenação em 2018. “No nosso bingo, quase todo final de semana, temos uma rodada que sorteia um bicho de pelúcia gigante e as crianças ficam super animadas pedindo para os pais participarem do bingo”, destaca.

Frequentadores em bingo da Paróquia São João Batista. Foto: Reprodução / Instagram Paróquia São João Batista SCS
Frequentadores em bingo da Paróquia São João Batista. Foto: Reprodução / Instagram Paróquia São João Batista SCS 

Na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, as festividades acontecem até o dia 5 de julho, das 18h às 22h. Além das comidas e bebidas típicas que marcam as quermesses, a paróquia preparou atrações especiais para o público. Entre os destaques estão o posto de troca de figurinhas e um telão que transmitirá os jogos do Brasil na Copa. Heitor Souza Móda, de 15 anos, frequenta a paróquia desde os 10 anos de idade e esteve na quermesse durante o jogo do Brasil contra o Marrocos ao lado dos amigos do grupo de jovens. “É um ambiente gostoso que podemos conviver, é legal ver o jogo com a família, mas com todo o pessoal aqui e as comidas, tudo fica melhor” contou ele. 

Foto 2
Quermesse da Paróquia Nossa Senhora Aparecida. Foto: Jaqueline Borges

Encerrando a programação, a Paróquia Nossa Senhora das Graças realiza sua quermesse até o dia 26 de julho, sempre das 18h às 22h. Além dos tradicionais lanches, doces e bebidas típicas, a festa também incorporou ao cardápio opções de tempurá de legumes e camarão, oferecendo um diferencial gastronômico aos visitantes.

Com opções espalhadas por diferentes bairros e datas que se estendem até o final de julho, às quermesses de São Caetano do Sul surgem como uma oportunidade para reunir a família, estreitar laços e fortalecer a convivência comunitária, mantendo viva uma das tradições mais populares do calendário brasileiro.

Tags:
O funk bruxaria e a discotecagem no caminho do autoconhecimento
por
Natália Matvyenko
|
16/11/2025 - 12h
Bea DJ comandando a controladora concentrada

 

Por Natália Matvyenko
 

O funk fincou raízes em São Paulo nos anos 1990, marcando o início de uma adaptação vitalícia do funk carioca. Nessa fase embrionária, DJs e MCs locais infundiram o ritmo com sotaques e referências próprias, estabelecendo as bases do gênero. Nomes como a dupla Jorginho & Daniel, que celebram 30 anos de estrada com o ritmo de festa, e Felipe Boladão, que puxou o movimento para o lado do "funk consciente", são marcos dessa fundação. A cena rapidamente se consolidou nos bailes de periferia que incluíam clubes, lajes e, sobretudo, bailes de rua, onde o som se tornava onipresente, ecoando a força de um movimento que resistia ao confinamento.

Essa evolução ganhou corpo nos anos 2000, quando o funk ostentação ascendeu, servindo como espelho tanto da realidade quanto dos ambiciosos sonhos de ascensão da juventude periférica. Em 2010, São Paulo se estabeleceu definitivamente como um polo criativo. Artistas como Guimê, Daleste e MC Kauan, ao lado de figuras cariocas que fizeram sucesso estrondoso na capital, como Pocahontas (hoje Pocah), Mc Beyoncé (Ludmilla) e Mc Magrinho misturaram ostentação e putaria,

A força do funk paulista nunca parou de se afirmar, transcendendo a música. Mais tarde, as irmãs Tasha & Tracie expandiram as fronteiras, misturando rap, funk e trap. Nascidas no Jardim Peri, elas começaram como DJs ainda bem jovens, circulando por batalhas de rima e festas de quebrada, transformaram seus trabalhos em uma fusão de música, moda e ativismo periférico. A revisitação de marcas como Cyclone e o uso de Mizuno e 12 molas como artigo de orgulho e não mais de chacota pela classe média paulistana, que antes era "coisa de maloqueiro", tomaram as passarelas e se tornou objeto de admiração, como ilustra o verso de Mano Brown em Nego Drama do Racionais Mc's "Entrei pelo seu rádio, tomei, cê nem viu! Nóis é isso ou aquilo, o quê? Cê não dizia? Seu filho quer ser preto, ah, que ironia, cola o pôster do 2Pac aí, que tal?". 

Provando que o funk é uma afirmação cultural e política, a partir de 2020 houve um notável retorno dos DJs à linha de frente, ao lado dos MCs, em um movimento que reafirma as origens da batida. Nomes como DJ Mu5ão, DJ Arana e DJ Th4ys demonstram que a batida paulista está em constante mutação. Entre um story do Instagram e outro, ela agita o cabelo cor de mel e sorri se divertindo com seus amigos em festas que marca presença como DJ. O grave do funk atravessa o corpo de quem dança, as batidas ecoam como um ritual coletivo e libertador. Para ela, não se trata apenas de animar o público — é bruxaria, é raiz, é liberdade.

Num rolê de amigas em comum e a desenvoltura de comandar a festa já me intrigou. Beatriz Pereira de Souza tem 24 anos e descobriu a música ainda criança, onde muitos artistas brasileiros a encontram, na igreja. Não gostava dos cultos, mas se deixava levar pelo encanto dos louvores e instrumentos. Ali, entre bancos e hinos religiosos, aprendeu os primeiros acordes no piano e foi testando instrumentos às “escondidas” após os ensaios. O ambiente era rígido e conservador, mas a música lhe abriu uma fenda de possibilidades: “eu posso tocar o que eu quiser”, pensou, ainda adolescente. Em duas conversas sobre sua história o que é de fato, intrigante, o primeiro papo foi algo mais descontraído e solto, em meio a fumaça de tabaco, erva e dança, falamos sobre música e Bea compartilhou um pouco da sua jornada que apesar de pouca idade é complexa.A cada transição, sente que não está sozinha: se sente parte do coletivo e se sente ela mesma.

Destaca que as mulheres, desde cedo, demonstraram uma força tremenda. A MC Menorzinha, irmã do Menor, foi um exemplo disso, começou a cantar criança e, aos 12 anos, já estava estourada com hits como “Bonde da Ecko Red” e “A Melhor do Baile”, sua presença nos bailes e em palcos como o extinto Playcenter já atestava a força feminina e jovem na cena desde cedo.

A liberdade de Bea, ao contrário de Menorzinha, no entanto, só foi sendo construída e fortalecida quando em 2021, saiu de casa após enfrentar a violência de não ser aceita como mulher bissexual em um lar religioso. Encontrou acolhimento em uma república estudantil conhecida como P1, onde a música voltou a pulsar em sua vida. Ali, entre gringos e amigos que se tornaram família, surgiram as primeiras festas e contato com a controladora, aparelho que os DJ’s usam pra discotecar. Um dos moradores tinha o equipamento, e foi nesse improviso que nasceu o selo que leva o mesmo nome da casa. Era o embrião do que viria a se tornar sua trajetória como alma da festa.

Daí não parou mais. Se a igreja lhe ensinou os fundamentos da música, foi a vivência quem moldou sua essência. Relembrando o passado, conta que cresceu na quebrada – coincidentemente próxima a que cresci também, vivi 16 anos no Jardim Elba, na Zona Leste de São Paulo – ouvindo os bailes da laje de casa sem poder participar, pois seus pais não permitiam. Mas o som atravessava os muros. Quando enfim começou a discotecar, trouxe para a pista o que sempre esteve em sua memória: o funk da periferia, mais especificamente o subgênero nomeado de Bruxaria.
Esse estilo que mescla agudos com sons experimentais e obscuros com efeitos sonoros do audiovisual e uma salada muito bem estudada de experimental, se popularizou no final da pandemia de Covid-19, depois do Mandelão, outro subgênero que desaguaria no que temos hoje nos bailes de rua de São Paulo. No meio da segunda festa que nos encontramos, Beatriz me diz algo marcante: É a minha essência pura. É cultivar a minha raiz e fazer com que a pista sinta a força dessa raiz também.

Como há milhares de anos, a experiência de fazer e ouvir música beira o espiritual. Quando toca, Bea entra em transe: não se prende ao que passou nem se preocupa com o que virá. Está inteira no instante, diz — A liberdade está no presente. É isso que eu jogo na pista. Quando você dança, você está livre, completa — Para ela, DJ não é só quem seleciona músicas, mas quem conduz a festa a esse estado de liberdade coletiva.

Com pouco tempo de trajetória mas muitas vidas de história, já fundou seu próprio selo, P1 Records, nome em homenagem a moradia que reside com os amigos e colegas de corre, vem se conectando a outros coletivos que fomentam a cena underground. Não são apenas festas: são espaços de cultura, educação e resistência. Ao mesmo tempo, tem consciência de que o cenário ainda é desigual mesmo não tendo sofrido nenhuma violência direta na cena, homem ainda tem mais privilégio, até porque um ajuda o outro. Mas as mulheres estão se movimentando com força e mudando esse cenário, reflete. Hoje, Bea olha para trás e reconhece que tudo se costura: a menina curiosa da igreja, a adolescente que aprendeu bateria e violão sozinha, a jovem que rompeu com o que barrava sua liberdade e encontrou abrigo entre amigos. Cada instrumento que aprendeu a tocar é um pedaço dela. Cada festa que conduz é uma oferenda à sua história e à sua caminhada na música.

 

Tags:
A história de Felipe Salvatore é um exemplo de como a Internet ainda está aprendendo a lidar com reprodução de imagem.
por
Lorena Basilia
|
17/11/2025 - 12h

Por Lorena Basília

 

Os memes engraçados estão no cotidiano dos brasileiros, especialmente entre a Geração Z. Mas, por detrás das risadas, há um território complexo de direitos autorais e proteção de imagem, que nem todos percebem. Felipe Salvatore mergulhou nesse universo ao perceber na prática como o compartilhamento de vídeos pode gerar problemas jurídicos.

Durante seus estudos na Boston University, nos Estados Unidos, Felipe produziu um vídeo de análise do desempenho dos times de futebol brasileiros, São Paulo se destacava. Pouco depois, descobriu que a torcida organizada, Dragões da Real, compartilhou seu vídeo sem autorização e sem créditos. Foi então que ele entendeu que, na Internet, dar crédito não é suficiente: é preciso ter autorização expressa para usar qualquer conteúdo.

Atento ao crescimento desenfreado de vídeos virais Felipe começou a estudar as ferramentas que poderiam proteger criadores de conteúdo. Descobriu o Rights Manager do Facebook, o Content ID do YouTube e o formulário DMCA, que permite remover rapidamente conteúdos compartilhados ilegalmente. O formulário de DMCA (Lei de Direitos Autorais do Milênio Digital) é uma lei estadounidense que garante a proteção autoral, além de exigir que as medidas de proteção sejam cumpridas e o compartilhamento ilegal diminua no meio das redes sociais.  Hoje, o formulário é a forma mais rápida para o conteúdo ser desativado. Mas isso não tira o benefício de pleitear uma ação cível. 

 A experiência de ter seu vídeo desativado na página da torcida organizada, em menos de 24 horas, fez com que ele percebesse uma oportunidade de negócio. Junto ao irmão Alexandre, fundou a plataforma MyHood, dedicada ao licenciamento de vídeos virais, que garante direitos autorais e denúncia em caso de uso indevido.

Felipe observa que o problema não está apenas nas plataformas. Os próprios usuários precisam proteger sua privacidade e ajustar configurações de compartilhamento. Quando alguém grava ou captura vídeos de maneira ilícita, é possível recorrer à Justiça. No Brasil, a Constituição, o Código Civil e a Lei de Direitos Autorais asseguram indenização por violação de imagem, enquanto o Marco Civil da Internet e a LGPD reforçam a proteção de dados pessoais e a privacidade.

A situação se torna ainda mais delicada quando crianças e adolescentes aparecem em memes e vídeos virais. Felipe conta que já viu casos alarmantes, como o de Duda, uma menina que produzia conteúdo digital com a autorização de seus pais. Inicialmente, era apenas uma brincadeira divertida, mas aos poucos os responsáveis encontraram conteúdos da filha em outros perfis e tirados de contexto. A imagem dela sem consentimento, o risco de violação de direitos preocupou os pais. Eles decidiram desativar todas as redes da filha e interromper a produção de conteúdo. O cuidado com a privacidade e a proteção da infância se sobrepunha à fama digital. O caso de Duda é um alerta: mesmo quando o conteúdo é inofensivo, a exposição sem controle pode gerar consequências graves para a criança. Vídeos de menores em situações constrangedoras são virais na internet, mas não há nada de inocente em divulgar imagens de menores sem regulamentação . Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a proteção da honra e da dignidade de crianças e adolescentes é responsabilidade de todos. Isso significa que não apenas os pais, mas também empresas intermediadoras e páginas que replicam esses conteúdos podem ser responsabilizados judicialmente.

Para Felipe, o futuro da Internet passa pelo licenciamento de vídeos, para que os conteúdos sejam compartilhados de forma segura, com autorização clara e proteção contra uso indevido. Apesar das leis brasileiras já oferecerem certa proteção, ele reconhece que a legislação ainda tem lacunas, principalmente em relação ao compartilhamento em massa, consentimento presumido e responsabilidades das plataformas. Seu grande desafio é mostrar que um vídeo curto de internet merece a mesma proteção que uma obra cinematográfica, e que todos — criadores, usuários e plataformas — têm responsabilidade na preservação da imagem e da privacidade.

Tags:
O futuro climático do País depende de transformar conhecimento em políticas concretas que protejam pessoas e ecossistemas.
por
AMANDA CAMPOS
|
17/11/2025 - 12h

Por Amanda Campos

A Cop 30 é um evento global que reúne líderes mundiais para discutir ações contra a crise climática, mas o Brasil enfrenta um dilema: enquanto o mundo olha para o País como um player chave nas negociações, a realidade interna revela uma nação já castigada pelos efeitos devastadores do aquecimento global. Tornado que devasta cidade, enchentes que destroem municípios inteiros, queimadas que devoram florestas e ondas de calor que esgotam até os mais resilientes no semiárido não são mais previsões distantes — são tragédias diárias que afetam milhões de vidas, forçando famílias a reconstruírem suas rotinas em meio ao caos e ao medo. A COP30 poderia ser uma chance de o Brasil liderar mudanças reais, mas o histórico de conferências passadas, como o Acordo de Paris, que ficou aquém das promessas, gera ceticismo. Muitos países, em vez de avançarem, recuaram em seus compromissos, deixando os nações do Sul Global, como o Brasil, pagando o preço mais alto por uma crise que não criaram.

Para ilustrar essa dor humana, basta olhar para as enchentes devastadoras que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Famílias inteiras acordaram com a água invadindo suas casas, carregando móveis, lembranças e sonhos de uma vida estável. Pessoas que perderam tudo o que tinha construído em décadas, ou jovens pais que nadaram para salvar seus filhos das correntezas impiedosas, testemunharam a impotência diante de uma natureza furiosa. Essas enchentes não foram apenas um desastre natural; foram o resultado de anos de negligência, de cidades crescendo sem planejamento adequado, de rios poluídos e de governos que ignoraram alertas científicos. Milhões de pessoas sofreram, com comunidades inteiras desalojadas, economias locais destruídas e cicatrizes emocionais que marcarão gerações. É nessas histórias pessoais, de perda e resiliência, que vemos o verdadeiro custo da crise climática, a angústia de quem viu sua casa virar lama e sua esperança afundar nas águas.

Essa urgência climática no Brasil é sentida na pele de quem vive aqui, mas as respostas governamentais têm sido insuficiente e desigual. A ciência brasileira oferece ferramentas valiosas, como satélites que rastreiam queimadas e tecnologias que ajudam a prever chuvas extremas, mas grande parte desses esforços se concentra na proteção da agricultura, deixando a população comum exposta aos riscos. Em vez de transformar conhecimento em ações preventivas, o sistema muitas vezes reage apenas às catástrofes, com custos altos e resultados lentos. Guilherme Kiraly, internacionalista e especialista em ciência, tecnologia e inovação pela Universidade Federal da Bahia, vê nessa crise não apenas um fenômeno natural, mas o resultado direto de escolhas políticas e econômicas que exploraram recursos sem considerar o impacto nas pessoas. Ele argumenta que o que vivemos hoje é fruto de decisões que priorizaram o lucro imediato sobre a sobrevivência coletiva, deixando comunidades inteiras à mercê de desastres evitáveis.

O Brasil participa de acordos internacionais sobre clima, mas a lacuna entre o que é prometido e o que acontece na prática é enorme. Muitos tratados ficam no papel, sem metas claras, orçamentos definidos ou benefícios reais para quem mais sofre. O país monitora o clima há décadas, mas depende de soluções importadas, adaptando equipamentos estrangeiros em vez de investir em inovações próprias. Guilherme critica essa dependência, dizendo que ela torna o sistema caro e ineficaz, focado em respostas emergenciais em vez de prevenção. Tecnologias como barragens de contenção ou softwares de previsão existem, mas não impedem que famílias sejam desalojadas por enchentes ou que florestas sejam consumidas pelo fogo. O que falta, segundo ele, são políticas públicas que transformem a ciência em proteção concreta para as pessoas, não apenas para os negócios.

Há alternativas promissoras que poderiam aliviar os impactos, mas elas são ignoradas em favor do agronegócio. Parques alagáveis em cidades como Curitiba e São Paulo, por exemplo, ajudam a conter enchentes, enquanto experiências de agrofloresta recuperam terras degradadas. Guilherme destaca que, além da tecnologia, há lições valiosas nos saberes tradicionais de povos indígenas e comunidades do semiárido, que convivem com secas há séculos adaptando-se à natureza em vez de combatê-la. Integrar essa sabedoria à ciência moderna poderia criar caminhos mais sustentáveis e humanos, respeitando a vida das pessoas e dos ecossistemas. Mas o maior obstáculo permanece: acordos internacionais frágeis, sem cronogramas, metas ou financiamentos garantidos, fazem com que projetos acabem parados na fase inicial. A cooperação entre países, que poderia gerar soluções compartilhadas, se resume a declarações vazias.

Essa fragilidade reflete uma contradição dolorosa no Brasil: enquanto os impactos climáticos se aceleram, as respostas políticas andam em ritmo de tartaruga. O País acumula tratados assinados, mas poucos projetos efetivos, revelando uma falta de compromisso real. Ainda assim, há sinais de esperança. Universidades, organizações da sociedade civil e movimentos sociais estão pressionando por mudanças, mostrando que soluções locais podem ser rápidas e eficazes, mesmo quando fóruns globais falham. Comunidades indígenas, por exemplo, demonstram que estratégias coletivas de organização e solidariedade podem enfrentar desafios compartilhados de forma duradoura, independentemente de fronteiras. Guilherme observa que esses povos cooperam entre si há séculos, provando que é possível lidar com problemas comuns em rede, algo que os Estados deveriam aprender, em vez de competir ou ignorar.

O desafio é garantir que países como o Brasil tenham voz nas negociações, para que as decisões globais considerem as necessidades dos mais afetados. O futuro diante da crise climática exige uma mudança profunda de perspectiva: não apenas reagir a desastres ou cumprir acordos superficiais, mas construir uma cultura de prevenção e harmonia com a natureza. É preciso integrar ciência, tecnologia e saberes tradicionais para valorizar soluções locais que respeitem as comunidades e os ecossistemas. Enquanto o aquecimento global avança sem piedade, o Brasil e o mundo enfrentam uma escolha crítica: continuar apagando incêndios ou criar, de forma colaborativa e estratégica, defesas que protejam vidas e recursos naturais antes que seja tarde demais.

A obsolecência programada mudou não apenas a forma como os produtos são feitos, mas como as pessoas os consomem
por
Yan Gutterres
|
14/11/2025 - 12h

Por Yan Gutterres

 

Por vezes, ela chega de forma quase imperceptível. O celular que ontem parecia veloz hoje é lento. A impressora que funcionava perfeitamente decide travar justamente quando você mais precisa. A geladeira, antes silenciosa, passa a emitir ruídos que ninguém consegue identificar. Há quem chame de azar, de desgaste natural, de “coisas que acontecem”. Mas nas entrelinhas de muitos desses episódios, mora um conceito silencioso, polêmico e antigo: a obsolescência programada, ou a prática de criar produtos com vida útil deliberadamente limitada para estimular o consumo constante.

Embora soe como algo moderno, a obsolescência programada começou no século XX, impulsionada pela indústria automotiva norte-americana, especialmente a partir de 1924, quando a General Motors (GM) começou a lançar novos modelos anualmente com mudanças de design para estimular a compra. Paralelamente, um grupo de fabricantes de lâmpadas em Genebra, em 1924, conspirou para reduzir a vida útil das lâmpadas. A estratégia se consolidou como uma forma de manter as vendas em alta, respondendo à superprodução e à saturação do mercado. A lógica era simples, porém implacável: se um produto dura muito, vende pouco. O pacto não durou oficialmente muito tempo, mas o princípio colocado em prática se espalhou como um vírus silencioso por toda a indústria do século XX.

Imagem de modelo de carro projetado nos anos 1920
Modelo de carro da General Motors apontado com o "marco zero" da obsolescência programada. Foto: Reprodução

Fabiano Michaelsen, CEO da XTech Digital Company, empresa do ramo de tecnologia, explica que essa prática tem impacto tanto financeiro quanto ambiental, já que o consumidor é levado a trocar o produto antes do necessário, aumentando o custo total de propriedade e o volume de resíduos. Ele esclarece também que a maioria das pessoas não têm consciência de que muitos desses produtos são desenvolvidos com a finalidade de durarem menos, fazendo com que associem essa substituição à uma chamada “evolução tecnológica”, sem perceber que isso faz parte de um ciclo planejado de consumo.

Um reflexo desse problema se manifesta no volume de lixo eletrônico gerado globalmente. Dados do Monitor Global de Resíduos Eletrônicos, da Organização das Nações Unidas (ONU), indicam que em 2022, foram produzidas 62 milhões de toneladas de resíduos, número que cresce anualmente em cerca de 2,6 milhões e poderá atingir 82 milhões até 2030. Além disso, apenas 22% desse total é reciclado de forma formal, expondo o restante dos resíduos a riscos de contaminação ambiental e perda de recursos valiosos. Em termos de durabilidade, estudos indicam que a vida útil média de grandes eletrodomésticos em países como Itália e diretrizes da União Europeia caiu de 10 anos em 2010 para apenas 7 anos em 2018, uma redução de 30% em menos de uma década.

Hoje, a obsolescência programada está presente em praticamente todos os setores, desde eletrônicos até vestuário. Um dos exemplos mais recentes e controversos é o das atualizações de software que deliberadamente reduzem o desempenho de dispositivos eletrônicos. Em 2017, a Apple admitiu que desacelerava iPhones mais antigos para "preservar a vida útil da bateria". A empresa foi multada em €25 milhões na França por não informar os consumidores sobre essa prática. Outro exemplo da empresa é o dos fones de ouvido sem fio, como os AirPods, que possuem baterias não substituíveis. Quando a bateria se esgota após 2 a 3 anos, o consumidor é forçado a comprar um novo par, gerando mais resíduos eletrônicos. Fabiano conta que as empresas recorrem à obsolescência programada como uma forma de manter o consumo constante e garantir probabilidade de receita, mas que hoje já existem alternativas sustentáveis e economicamente mais inteligentes, como recondicionamento, reuso e economia celular, permitindo reduzir custos, preservar recursos e ainda gerar novas oportunidades de receita.

Fachada de loja da Apple
Apple, multinacional norte-americana de tecnologia, é apontada como um dos maiores expoentes da prática da obsolescência programada. Foto: VILTVART/Shutterstock

Algumas ações já estão sendo tomadas para acabar com essa prática abusiva. Fabiano comenta que alguns países, como a França, já contam com leis específicas que punem a obsolescência programada, e que no Brasil, ainda estamos em um estágio inicial, mas há regulamentações ligadas à logística reversa e à responsabilidade pós-consumo que caminham nesse sentido, e que medidas como essa são importantes, mas que a sua eficácia depende da fiscalização e do engajamento das empresas em adotar práticas reais e transparentes.

O movimento "Right to Repair" (“Direito ao Reparo”) ganhou força nos últimos anos justamente porque consumidores e especialistas perceberam que a durabilidade estava se tornando uma peça de museu. Para Fabiano, esse movimento é um grande avanço, pois pressiona as empresas a permitir que os consumidores e técnicos independentes possam consertar produtos, prolongando sua vida útil, e que a obsolescência programada tende a diminuir à medida que o consumidor se torna mais consciente e exigente quanto à durabilidade e impacto ambiental dos produtos.

No fim do ciclo, o que sobra são resíduos. Em 2023, o mundo produziu mais de 60 milhões de toneladas de lixo eletrônico, segundo estimativa da ONU, com a maior parte descartada de forma irregular. Desse número, apenas uma fração é reciclada, e ainda assim de modo precário. O planeta não consegue acompanhar o ritmo em que substituímos aparelhos. Metais raros, como o cobalto e o lítio, extraídos para alimentar baterias, vêm de regiões marcadas por conflitos e exploração trabalhista. Enquanto isso, rios e solos de países pobres tornam-se depósitos tóxicos de placas-mãe e carcaças de plástico que viajaram milhares de quilômetros desde centros urbanos do outro lado do mundo. A obsolescência programada não é apenas um debate sobre consumo excessivo. É uma crise ambiental e ética. Ela é a soma de estratégias comerciais, comportamentos culturais, avanços tecnológicos e escolhas pessoais. É a história de um mundo que decidiu acelerar e agora precisa lidar com as consequências.

Tags:
Influenciadores, pseudociência e marketing digital transformaram o cuidado em mercadoria e o bem-estar em ilusão.
por
Julia Sena
|
27/10/2025 - 12h

Por Julia Sena

 

Era março de 2021, cerca de um ano após o início de um dos períodos mais sombrios do século XXI. O Brasil vivia um dos auges da pandemia de Covid-19. Foi nesse cenário que o tio de Tainara Silva, seu Antônio, começou a sentir os primeiros sintomas. Os dois moravam no mesmo quintal, em Sorocaba, o que possibilitou que a menina acompanhasse de perto as dificuldades.

Segundo Tainara, o primeiro sinal veio discreto, ele já não reclamava do cheiro dos fortes produtos de limpeza usados pela esposa. Naquela mesma noite, a febre ardia em sua pele e ele foi levado ao posto de saúde. Voltou com antitérmico, um receituário e a recomendação de isolamento. Os dias seguintes pareciam melhores, a febre baixou e as dores de cabeça cessaram. Depois do curto período de bem-estar, vieram a tosse e a falta de ar, ainda em pequenas quantidades, porém incessantes. Dessa vez, Antônio se recusou a ir ao posto de saúde, segundo ele, a espera era longa e as soluções, ineficientes.

Tainara conta que o tio já havia guardado há muito tempo um miniestoque do chamado “kit Covid”, um conjunto de remédios sem eficácia comprovada, como hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina. Um ano antes, inclusive, chegou a consumir os medicamentos como medida de prevenção à doença. A menina não concordava, mas era muito nova para se impor diante da convicção do tio.

Após tomar os remédios, Antônio realmente se sentiu melhor, conseguia realizar as tarefas cotidianas sem muitos impeditivos, além da “moleza” habitual que uma doença pode causar. Mas durou pouco. A tosse voltou mais forte e a falta de ar se tornava cada vez mais insuportável, cada vez mais próxima da sensação de falta total de respiração.

O que aconteceu foi que a cloroquina, a azitromicina e a ivermectina que seu Antônio consumia acabaram mascarando a doença por algum tempo. Sem os tratamentos necessários e diante de sua irredutibilidade quanto a uma possível internação, o quadro avançou de maneira desenfreada. Impossibilitado de tomar decisões por si só, o vendedor de móveis, de apenas 54 anos, foi internado, mas era tarde demais.

Irresponsabilidade

Dois anos depois, em 2023, o mercado global de wellness movimentou impressionantes US$ 6,3 trilhões e deve crescer 7,3% ao ano até 2028, segundo o Global Wellness Institute. Os números refletem o apetite global por soluções que prometem saúde, felicidade, energia e longevidade. Mas, nesse mar de promessas, nem tudo o que se vende como “bem-estar” tem respaldo científico e, muitas vezes, o que se propaga é mais perigoso do que parece. O que se vê é uma mistura de interesses econômicos, desinformação e uma relação cada vez mais frágil entre a população e a ciência.

Em um mundo em que a primeira ação ao acordar é checar o celular, não surpreende que o mesmo ocorra quando se busca informações sobre saúde. Se antes consultas médicas e leituras de artigos científicos eram etapas básicas na busca por conhecimento confiável, hoje bastam alguns toques para acessar vídeos virais no TikTok ou threads no X (ex-Twitter), que frequentemente misturam ciência com opiniões infundadas. Esses conteúdos, ainda que envoltos em uma aparência de autoridade, distorcem dados estatísticos, abusam de jargões científicos e promovem teorias sem possibilidade de teste ou validação empírica. Isso configura o que se chama de pseudociência e ela tem encontrado campo fértil justamente onde o acesso à informação deveria significar maior esclarecimento.

Um caso emblemático é o de Paloma Shemirani, de 23 anos, que morreu em julho de 2024 após recusar o tratamento convencional para um linfoma não Hodgkin, câncer considerado tratável, com até 80% de chance de cura. Influenciada por sua mãe, Kate Shemirani, ex-enfermeira britânica conhecida por discursos antivacina e teorias da conspiração, Paloma abandonou a quimioterapia e adotou terapias “naturais”, como enemas de café e dietas restritivas, sem qualquer eficácia comprovada. Sete meses após o diagnóstico, sofreu uma parada cardíaca provocada pelo avanço do tumor. O caso segue em investigação no Reino Unido e serve de alerta para os perigos da desinformação mascarada de cuidado. O drama pessoal ganhou destaque internacional e levantou um debate urgente sobre o papel das redes sociais na saúde pública.

O culto à perfeição foi normalizado, especialmente no que diz respeito à aparência. A ascensão das redes sociais e a valorização de padrões estéticos irreais impuseram um novo tipo de sofrimento, a comparação constante com corpos esculpidos digitalmente, rotinas idealizadas e promessas de transformações milagrosas. Essa pressão estética não é apenas vaidade, é uma questão de saúde pública. Muitos recorrem a dietas extremas, procedimentos invasivos e medicamentos perigosos para alcançar um ideal inatingível. O resultado é o aumento de transtornos alimentares, ansiedade, depressão e uma desconexão crescente entre o corpo real e o corpo desejado. O índice de insatisfação corporal entre adolescentes e jovens adultos tem aumentado significativamente, segundo estudos da Organização Mundial da Saúde. E essa insatisfação muitas vezes começa na infância, alimentada por filtros, comparações e algoritmos que definem o que é bonito, saudável ou aceitável.

O movimento wellness se apresenta como solução holística para o caos da vida moderna. Alimentação consciente, skincare com dezenas de passos, meditação guiada, suplementos e “biohacks” viraram rotina entre influenciadores. O problema é que, por trás desse discurso saudável, existe uma indústria trilionária, impulsionada pela exploração do medo e da insegurança. Enquanto influenciadores acordam às 4h da manhã para tomar cafés com ingredientes exóticos, gominhas para o cabelo e shots de cúrcuma, seus seguidores enfrentam o transporte público lotado e jornadas exaustivas. Entre promessas de equilíbrio e felicidade, vende-se um ideal de vida sedutor, porém inalcançável para a imensa maioria da população. Isso cria um ciclo de frustração, culpa e consumo contínuo. Afinal, se você não está se sentindo bem, é porque não está tentando o suficiente, mais um curso, mais um suplemento, mais uma fórmula.

O jornalista Carlos Orsi, autor do livro Que bobagem! e ganhador do Prêmio Jabuti de Ciência, observa que houve um aumento na divulgação de conteúdos duvidosos, principalmente com a multiplicação de influenciadores de bem-estar no Instagram e no TikTok. Segundo ele, muitos utilizam argumentos científicos de forma equivocada para promover produtos de patrocinadores. Esse grupo, afirma, tem crescido mais rapidamente do que os promotores de práticas esotéricas tradicionais. A fórmula é simples e, ao contrário dos produtos, eficaz, identifica-se um problema urgente e difícil de resolver, define-se um formato vendável (em pó, shot ou cápsula) e adiciona-se um ingrediente com nome complicado, apresentado como “princípio ativo”. Isso garante o apelo científico, mesmo quando não há evidências que comprovem sua eficácia. O marketing se apropria da linguagem da ciência para vender promessas vazias, enquanto a população segue cada vez mais confusa sobre o que é, de fato, saudável.

No Brasil, nomes como Virgínia Fonseca, com mais de 53 milhões de seguidores, exemplificam como a vida pessoal se mistura com recomendações de saúde. Por compartilhar detalhes íntimos da rotina, Virgínia cria com seus fãs uma conexão emocional unidirecional, conhecida como relação parassocial, que leva seguidores a confiar nela como se fosse uma amiga próxima. O problema é que essa confiança ignora o crivo da evidência. Virgínia divulga produtos como cápsulas de colágeno e outros itens “do bem-estar”, mas sem embasamento científico.

Ao contrário da mídia tradicional, onde existe algum controle editorial, nas redes sociais a opinião vira verdade e a propaganda vira prescrição. O próprio Orsi aponta que a falta de transparência sobre os interesses comerciais envolvidos agrava o impacto dessas mensagens, já que os seguidores aceitam recomendações de produtos ou hábitos sem questionar suas origens ou validade. A influência, nesse contexto, se torna uma forma moderna de autoridade sem preparo técnico, mas com enorme poder de convencimento.

No Brasil, a fiscalização de produtos e práticas pseudocientíficas é compartilhada entre diversos órgãos. A Anvisa regula medicamentos, suplementos e cosméticos. O Conar fiscaliza publicidade, inclusive de influenciadores. Conselhos profissionais como CFM, Coren e CRO supervisionam condutas éticas de profissionais de saúde. Além disso, órgãos como o Procon e o Ministério Público atuam na defesa do consumidor. Apesar disso, a eficácia dessa regulação é limitada. Muitos suplementos são registrados como “alimentos”, o que garante a segurança, mas não exige comprovação de eficácia. Orsi afirma que a Anvisa poderia ter um papel mais ativo na fiscalização de conteúdos que violam suas normas, mas que, para isso, a agência precisaria de uma estrutura muito maior do que tem hoje. Também é necessário reconhecer que a responsabilidade sobre o conteúdo das plataformas digitais ainda é uma zona cinzenta. O mesmo algoritmo que prende o usuário à tela também espalha desinformação em massa. As empresas de tecnologia, que controlam o que aparece no feed dos usuários com base em engajamento, raramente são responsabilizadas pelo conteúdo que promovem. Lobbies poderosos atuam para impedir regulamentações mais rígidas, e o controle ético daquilo que é veiculado como publicidade disfarçada de conteúdo segue sendo ignorado.

Para reverter esse cenário, é essencial investir em alfabetização científica desde cedo. A escola precisa deixar de ser um espaço onde se decoram fórmulas prontas e datas de exames e se tornar um ambiente em que se aprende a pensar criticamente, a questionar fontes, a interpretar dados e a entender o funcionamento da ciência. A mudança precisa vir de baixo, com educação, e de cima, com responsabilidade de quem lidera. Orsi explica ainda que o desafio é ainda maior quando o próprio Estado e universidades endossam práticas sem respaldo científico, como a homeopatia no SUS ou cursos de reiki em instituições de ensino superior. Ele considera que Isso mina a confiança na ciência e abre espaço para o crescimento da pseudociência como alternativa viável. Quando a exceção vira regra e a opinião vale tanto quanto a evidência, a sociedade perde sua bússola.

Na era da influência ser influenciado não é opcional. Mas é possível escolher de quem se é influenciado. O bem-estar verdadeiro não se vende em cápsulas, não cabe em vídeos de 15 segundos e, sobretudo, não existe sem ciência. Enquanto não reconhecermos isso, seguiremos, ironicamente, mais doentes do que nunca.


 

Tags: