Por Carolina Hernandez
No corredor silencioso de uma escola em São Paulo, ainda ecoam lembranças de um tempo em que o giz era soberano. Antes de 2020, a tecnologia entrava na sala de aula apenas de mansinho, um laboratório de informática esquecido no fim do pátio, algumas plataformas de apoio pedagógico que poucos exploravam, um projetor que funcionava quando queria. Era uma educação ancorada no papel, no toque, na presença. Até que o mundo parou, e a escola precisou se reinventar em velocidade de queda livre.
Quando as portas fecharam, a sala de aula se espraiou pelas cozinhas, quartos, varandas e mesas improvisadas pelo país. Professores descobriram o peso de falar para uma tela vazia, estudantes sentiram o cansaço de aprender sozinhos e pais se viram mediadores do impossível. A educação brasileira, de uma hora para outra, atravessou um portal digital para o qual ninguém estava realmente preparado.
Em meio ao caos, brotaram gestos de tentativa e erro. Professores aprendiam a usar plataformas enquanto davam aula, vasculhando botões, tentando compartilhar telas, improvisando explicações quando a conexão falhava. Entre eles, Ana Paula, do Colégio Santo Agostinho, relembra aqueles dias corridos como quem remexe um caderno antigo. Conta que o período parecia um mergulho no escuro: ao mesmo tempo em que descobria novas ferramentas, tentava não perder alunos que lutavam para acompanhar a aula pelo celular emprestado da mãe, com o sinal oscilando na janela.
Aos poucos, a tecnologia deixou de ser muleta e virou parte da rotina. Mesmo depois do retorno presencial, Ana Paula segue combinando lousa e plataforma digital, e encontra na inteligência artificial um apoio para preparar materiais, adaptar atividades para estudantes neurodivergentes e acompanhar ritmos de aprendizado antes difíceis de perceber. A docente, no entanto, insiste que nada disso elimina o papel do professor: o gesto humano, diz ela, ainda é o que dá sentido à tecnologia.
Mas o salto digital expôs um problema que não cabe numa tela: a desigualdade. A pesquisa TIC Educação 2023 mostrou que mais de um terço das escolas públicas enfrenta sérias limitações de conectividade. Em muitas delas, o único ponto de acesso à internet se resume a um roteador frágil que pouco alcança. Há instituições em que o laboratório de informática virou depósito e estudantes seguem tentando assistir a videoaulas pelo único celular da casa.
Enquanto algumas escolas particulares investem em ambientes de realidade virtual e plataformas capazes de simular experiências históricas, muitas escolas públicas seguem à margem dessa revolução. Apenas 58% das instituições urbanas possuem banda larga de qualidade, e boa parte dos estudantes depende de um pacote de dados limitado para participar da aula. A tecnologia, que poderia democratizar, ainda funciona como um filtro social.
Nas universidades, o movimento também se espalha. Pedro Silva, estudante de pedagogia, vive o modelo híbrido todos os dias e afirma que não há mais caminho de volta: quem nasceu conectado espera que a escola dialogue com esse ritmo. Ele vê nas plataformas digitais a chance de personalizar o ensino, acompanhar com precisão as dificuldades de cada aluno e criar trilhas que avancem no tempo de cada um, algo que, no modelo tradicional, exigia uma atenção quase impossível.
Mas o entusiasmo vem acompanhado de alertas. Especialistas lembram que a tecnologia precisa de regras claras, proteção de dados e políticas que garantam acesso igualitário. Lembram também que ela não substitui a mediação pedagógica, nem cria, sozinha, pensamento crítico. A educação, afinal, não é apenas transmissão de conteúdo: é encontro, é vínculo, é interpretação do mundo.
O mercado global segue acelerando, prevendo mais de 400 bilhões de dólares investidos em soluções educacionais até 2030. Mas a pergunta que ecoa nas salas de aula brasileiras é outra: quem poderá acompanhar esse futuro?
A pandemia forçou a porta. O que era emergência virou estrutura. Hoje, a sala de aula não termina mais na parede; ela se estende pela tela, pelo laboratório de realidade virtual, pelo aplicativo que avisa o desempenho, pelo vídeo que explica o que faltou na explicação anterior. Ainda assim, nenhum algoritmo substitui o olhar que percebe o silêncio de um aluno perdido, nem a mão que redesenha uma explicação até que faça sentido.
A educação brasileira segue nesse entremeio, metade digital, metade analógica, inteiramente humana. O futuro já chegou, dizem. Mas ainda precisa aprender a incluir todos que vivem no presente.
Por Chloé Dana
Em meados de 2025, pesquisas agronômicas da Embrapa e da Organis, apontam que a produção de orgânicos no País aumentaram em 12%, visando um consumo mais saudável e consciente. O crescimento aponta à prioridade por produtos sem agrotóxicos e ao fortalecimento de políticas públicas voltadas à agricultura ecológica.
Porém, é preciso entender como esse aumento surge, en que se diferencia de outras nações por suas profundas raízes em movimentos sociais e agroecológicos, em vez de ser impulsionada exclusivamente por lógicas de mercado. Mais do que apenas um método de cultivo, a agricultura orgânica é definida por um sistema de produção agropecuária que utiliza técnicas particulares com a finalidade de aprimorar a utilização dos recursos naturais e socioeconômicos à disposição, preservando a integridade cultural das comunidades do campo. Seus fundamentos incluem a sustentabilidade econômica e ambiental, a maximização de vantagens sociais, a redução da dependência de fontes de energia não-renováveis e a adoção de métodos biológicos e mecânicos em lugar de organismos que foram geneticamente alterados.
O surgimento da agricultura orgânica no Brasil remonta a meados da década de 1970, impulsionado por uma reação ao avanço da Revolução Verde, que propunha uma modernização da agricultura em prol do melhoramento genético, uso de insumos e agrotóxicos. Nessa época, a comercialização de produtos ocorria de maneira direta, baseado em um simples sistema de confiança entre quem produzia e quem comprava.
O mercado inicial consistia em um "segmento natural" oferecendo entregas semanais de cestas contendo frutas, verduras e legumes na casa dos clientes. A presença de lagartas e bichinhos no alimento, era percebida pelos primeiros clientes como uma sinalização de qualidade, indicando que os alimentos tinham sido cultivados sem o uso de produtos químicos. A valorização dos produtos orgânicos não se baseava em certificações formais, mas sim na confiança entre as partes e na evidência concreta da falta de químicos, o que destaca que as origens do movimento no Brasil são fundamentadas em princípios agroecológicos e filosóficos, e não apenas comerciais.
O produtor de orgânicos e feirante na Vila Madalena Carlos Nascimento explica alguns motivos de porque optou pelo orgânico ao invés do convencional. Nascimento afirma que sua decisão surgiu de um desejo de produzir de maneira mais consciente pois ao observar a prática convencional, notou os efeitos negativos do uso incessante de pesticidas e fertilizantes químicos. O solo se tornava exaurido, a biodiversidade se perdia e a saúde das pessoas que lidavam frequentemente com esses produtos era comprometida.
Outro fator que influenciou sua escolha foi a valorização crescente do mercado de produtos orgânicos. O agricultor percebe que esse segmento possui um grande potencial de crescimento, impulsionado por consumidores mais conscientes e prontos para apoiar práticas sustentáveis. Apesar do notável crescimento e das conquistas legislativas, o setor orgânico no Brasil enfrenta desafios estruturais que representam obstáculos significativos ao seu desenvolvimento pleno, e isso implica em tempo e políticas públicas para o setor.
Quando discute o amanhã, o produtor demonstra uma visão otimista, porém fundamentada na realidade. Ele enxerga um grande potencial para o crescimento da agricultura orgânica no Brasil, especialmente devido à mudança na conscientização dos consumidores. Cada vez mais, famílias estão em busca de alimentos que não contenham agrotóxicos, valorizando a origem dos produtos que adquirem e desejando apoiar práticas sustentáveis. Para ele, esse movimento representa não uma moda passageira, mas uma tendência crescente que deve se intensificar nos anos vindouros, alinhando-se à preocupação global com a saúde e o meio ambiente.
Outro aspecto que ele enfatiza é a urgência de aumentar o acesso. Atualmente, os produtos orgânicos ainda alcançam uma fração reduzida da população, frequentemente restrita às grandes áreas urbanas e a consumidores com maior capacidade financeira. Para o futuro, ele aspirar por um cenário em que os orgânicos se tornem mais disponíveis, integrando-se a feiras comunitárias, merendas escolares e até programas de abastecimento público, garantindo que alimentos saudáveis deixem de ser um privilégio e se tornem um direito.
O mercado de orgânicos no Brasil encontra-se em uma fase de crescimento explosivo, impulsionado por uma mudança no perfil do consumidor e políticas de fomento. No entanto, o setor enfrenta desafios estruturais significativos, como o desequilíbrio entre oferta e demanda, a fragmentação dos dados oficiais e as barreiras de entrada para os pequenos produtores. A superação desses gargalos, especialmente a questão da certificação e o fortalecimento da logística e da cadeia de valor, é crucial. Ao abordar essas questões de forma estratégica, o Brasil tem a oportunidade de não apenas manter sua liderança na América Latina, mas de se consolidar como um dos principais players globais, alinhando seu potencial de produção com o vigor de seu mercado consumidor.
Por Laila Santos
Os isqueiros desapareceram das mãos dos jovens. No lugar do estalo familiar, uma luzinha colorida acende e apaga, discreta, enquanto a fumaça doce se espalha pelo ar. Os cigarros eletrônicos chegaram como alternativa para quem queria abandonar a fumaça tradicional. Porém, empurrados pela curiosidade e pelo apelo dos sabores, se infiltraram no cotidiano e viraram o novo vício de uma geração. A indústria do tabaco percebeu rápido a oportunidade. Trocou o cheiro forte do cigarro comum por aromas de frutas e doces, como se a escolha de um pod fosse tão simples quanto escolher um sorvete. A promessa era sedutora: reduzir os danos do cigarro convencional. Mas esse discurso se desfaz quando lembramos que o inimigo continua o mesmo. A nicotina nunca deixou a jogada.
Presente entre 2% e 8% nas folhas de tabaco, é ela quem cria o laço invisível da dependência. Como explica o médico Drauzio Varella, em Como a nicotina age no cérebro, bastam 15 segundos para que a substância chegue ao sistema nervoso e desperte neurotransmissores como dopamina, serotonina e noradrenalina, os receptores do prazer. O problema é que o cérebro se acostuma rápido. E, quando a dose deixa de ser suficiente, ele pede mais. Um ciclo simples, quase silencioso, que transforma curiosidade em necessidade.
Entre os jovens entrevistados, quase todos começaram por impulso: amigos usando, vontade de experimentar, a sensação de novidade. Bruno, de 25 anos, lembra que migrou do narguilé para o pod pela praticidade. Não precisava montar, sempre está pronto para uso. Com o tempo, vieram os sintomas de abstinência - a sensação de faltar algo sempre, ansiedade e sentimentos ruins - quando ficava horas sem vaporizar.
Anny Massen, 23, encontrou nos pods um mundo que se revelou rápido demais. No seu primeiro uso disse ter sentido um gosto maravilhoso e que o produto era muito bom. Ela descreve o primeiro contato como quem lembra de um doce proibido. O dispositivo não deixava cheiro forte no cabelo ou na roupa, vantagem que o cigarro tradicional nunca ofereceu. Com o tempo, Anny passou a escolher pods como quem escolhe perfume: pelas marcas, as que conhece são: Ignite, Lost Mary, Elfbar. Além dos sabores e quantidade de puffs. No entanto, junto com a variedade veio o gasto, R$ 300,00 por mês e a sensação incômoda de que não controla mais o próprio hábito.
O momento de fumar é denunciado quando ela começa a tremer. Tentou parar. Vieram as enxaquecas e os tremores. O ciclo mais próximo pede que ela largue o eletrônico. Ela mesma deseja isso, mas está convencida de que não consegue. Aconselha: “Não comece. Se você não quer se viciar, não traga isso pra sua vida. Depois é um caminho sem volta.”
Lucas, conhecido como 'Oreia', de 20 anos, entrou nesse mundo pela curiosidade, mas também pela oportunidade. Usa e vende os pods. Gosta da praticidade, não precisa de fogo, cabe no bolso, troca de sabor num clique. A compra chega por motoboy como quem recebe um pedido de aplicativo — simples, cotidiano, rotineiro. No primeiro uso, sentiu algo que descreve como “bom e inovador”. Mas não demorou para notar a falta de ar e o relaxamento que vinha logo depois da tragada. Ele fuma quando quer, ou quando a agonia aperta. Fuma sozinho, às vezes com amigos. Tenta não gastar mais de R$ 100,00 por mês.
A venda, para ele, virou renda. Mesmo proibidos os dispositivos circulam com facilidade. Seus fornecedores, todos nacionais, atuam quase todos no centro de São Paulo. Lucas sabe dos riscos: dependência, cortes na garganta e falta de ar. Acredita que quem compra com ele já sabe dos riscos que possivelmente corre. Para ele, a proibição faz sentido, mas não muda o fluxo de vendas. Já que é vantajoso, declara que se vender um por dia, tira no mínimo dois mil no mês. E confirma que a procura só aumentou ao longo dos anos. Seu marketing é discreto, acontece pelas redes sociais e indicações entre amigos. A maioria dos consumidores são jovens e já vão na intenção de adquirir os produtos que querem.
No entanto, o fascínio esconde contradições. Desde 2009, a comercialização, importação e propaganda de cigarros eletrônicos estão proibidas no Brasil. Ainda assim, a venda é comum e de fácil encontro.
Anny acha em lojas de tabacaria e sempre achou fácil para comprar,igualmente Bruno. Para Lucas e Jhonatha, no começo era difícil achar, mas agora tem em todo lugar.As compras acontecem em tabacarias, pela Internet, no centro de São Paulo ou por indicação de amigos. Além da dependência química, há riscos físicos. Alguns dispositivos, especialmente os sem marca ou adulterados, podem explodir ou causar queimaduras. A maioria dos que Bruno compra não tem nem nome, revelando um mercado paralelo e perigoso.
O modelo muda, do cigarro de filtro ao eletrônico com luzes, mas a lógica permanece: a nicotina segue guiando o hábito, cobrando seu preço em silêncio. O vício só muda de rosto, já o problema, não.
Ocorrido entre os dias 9 e 14 de setembro, o IAA Mobility recebeu mais de 500 mil visitantes, superando a sua última edição em 2023. Estiveram presentes as germânicas Audi, BMW, Mercedes, Opel, Porsche e Volkswagen, mas Fiat, Peugeot e nenhuma japonesa compareceu. Com isso, mais uma vez uma grande parte de Munique foi palco para as chinesas se consolidarem e expandirem.
Com o lema “It’s all About Mobility”, em tradução livre, “É Tudo Sobre Mobilidade”, o foco da mostra se manteve em soluções inteligentes e inovadoras. Startups como a Linktour com seus micro carros elétricos, e marcas de bicicletas e motocicletas elétricas estavam por todos os lados do München Expo Center. E repetindo o formato aplicado desde 2021, com o chamado “Open Space”, uma área de experiências interativas gratuitas ao ar livre, os visitantes podiam experimentar tudo isso.
Além disso, a inovação tecnológica foi tema de muitos debates e coletivas de imprensa com representantes da indústria. Fornecedoras como a Bosch, Aisin e Revolt, além de empresas de carregadores como a Charge X e E-Mobilio e a gigante de baterias CATL foram só alguns dos mais de 750 expositores presentes.
Setor premium atento
Falando em eletricidade, ela estava no centro das atenções de todas as marcas, apesar das vendas de carros elétricos (BEV) terem sido prejudicada na Europa no ano passado. O fim ou diminuição de subsídios governamentais e metas de descarbonização estagnadas na União Europeia foram os principais motivos segundo o Global EV Outlook 2025 da International Energy Agency (IEA). No entanto, as projeções para esse ano e os próximos são de crescimento.
De olho nisso a BMW lançou o novo iX3, modelo mais importante em anos ao inaugurar uma nova era para a alemã. A segunda geração do modelo estreia uma plataforma sob medida e exclusiva para elétricos de nova geração, chamada de Neue Klasse. O destaque fica com a nova bateria de 108.7kWh de capacidade integrada ao chassi, compatível com carregamento ultrarrápido de até 800V - ganha 372km em apenas dez minutos - e autonomia de 805km em uma carga segundo o ciclo WLTP.
No quesito design a ruptura com o passado é ainda mais evidente, com uma nova linguagem visual, inspirado nos modelos da BMW dos anos 80. No interior foi inaugurado o Panoramic iDrive, com o painel de instrumentos correndo ao longo de todo o para-brisa, um novo volante de quatro raios e um multimídia com inteligência artificial de 17,5 polegadas. “A Neue Klasse é o nosso maior projeto futuro e marca um grande salto em termos de tecnologias, experiência de condução e design”, frisou o presidente do conselho de administração da marca, Oliver Zipse.
Do outro lado do pavilhão, a Mercedes-Benz fez um movimento parecido, lançando a segunda geração do GLC elétrico. O modelo foi o primeiro elétrico da marca, ainda em 2018 como EQC. Mas pelas vendas baixas havia sido descontinuado no ano passado, e agora retorna com o nome “GLC With EQ Technology”, para evidenciar as mudanças. Rival direto do iX3, segue a linguagem de design inaugurada no novo CLA no ano passado, aqui com uma grade iluminada e enormemente proeminente.
Construído sob a inédita plataforma elétrica MB.EA Medium, independente do GLC, a combustão portanto, possui carregamento de até 800V e uma bateria de 94kWh, traduzidos em 713 km de autonomia. No interior, o SUV inaugura o “Hyperscreen”, transformando o painel inteiro em uma tela de 39.1 polegadas. O interior pode ser todo vegano e certificado, e a comunicação Car-to-X - que coleta e envia dados para comunicar outros veículos - se destaca no quesito segurança. O preço inicial deve girar em €60 mil quando chegar às lojas ainda esse ano, tal qual o rival.
Mas nem só de SUVs o mercado premium é formado, e a Polestar compareceu a Munique para o lançamento mundial do seu novo modelo de topo, o sedã 5. A marca do grupo Geely, divisão de performance da Volvo até 2017, aposta em sustentabilidade e alta performance, estreando a nova plataforma PPA do grupo. São 872 cavalos, tração integral, aceleração de 0 a 100 em 3,2 segundos e ausência de janela traseira, tal qual no crossover 4.
Um presente e futuro elétrico
Nas duas últimas edições do Salão de Munique, ambientalistas protestaram em frente ao evento em defesa de uma mudança sistêmica da indústria, o que se repetiu. As ONGs Extinction Rebellion e Attac levaram placas pedindo por mais investimento em transporte público e justiça social, jogando atenção para uma mentalidade individualista e o preço dos elétricos.
Em relação a essa questão, um estudo da empresa de consultoria, Gartner, mostra que até 2027 os BEVs serão mais baratos de produzir que os carros a combustão (ICEVs), e o Grupo Volkswagen promete preços competitivos para sua nova geração de elétricos.
Foram revelados no evento quatro modelos para o segmento B baseados na plataforma MEB Entry do conglomerado. O principal deles foi o ID.Polo da Volkswagen, com previsão de início de vendas em maio na casa dos € 25 mil. Como o seu nome sugere, é a versão elétrica do hatch Polo, e contará com baterias de 38 e 56 kWh, com uma autonomia de 350 e 450 km respectivamente. Uma versão GTI do modelo será também comercializada, com 223 cavalos.
Continuando o apelo esportivo que a versão encurtada da plataforma em que os modelos do segmento C, ID.3 e ID.4, são construídos, a espanhola Cupra mostrou a versão de produção do Raval. Com dimensões e motorizações basicamente iguais às do ID.Polo, promete continuar a expansão da nova marca do grupo, antigamente uma divisão de performance da Seat.
Como era de se esperar pela relação do Polo com o T-Cross, sua versão SUV, o conceito ID.Cross foi mostrado. Com o mesmo tamanho do modelo que substituirá em 2026, integra o segmento disputado dos B-SUV elétricos, formado por nomes como Peugeot e-2008, Renault 4 e Volvo EX30. Focando em espaço e ergonomia, marca a volta de botões físicos no volante e do ar condicionado, além de um maior uso de materiais reciclados.
Por fim, a Skoda apresentou a sua versão do SUV, denominada Epiq. Tal qual os irmãos de plataforma, será construído em Pamplona, na Espanha, e contará com a capacidade de carregar dispositivos externos como eletrodomésticos (V2L). A velocidade de carregamento é de até 125 kW, indo de 10% a 80% em 20 minutos, e o modelo estreará uma nova identidade visual para a tcheca no ano que vem.
Ascensão chinesa continua
Aprofundando essa questão dos preços, são as marcas chinesas que se destacam globalmente, como destaca a IEA. Com grandes reservas dos minérios utilizados nas baterias, as fábricas para construí-las e anos de investimento estatal na tecnologia, seguiram com sua expansão em solo alemão.
A BYD, maior marca chinesa em números, marcou presença com o recém lançado Dolphin Surf - a versão europeia do Dolphin Mini. Avaliado com cinco estrelas pelo Euro NCAP, é um dos BEVs mais baratos hoje à venda na Europa, custando cerca de € 20 mil. No campo dos híbridos plug-in (PHEV) a Station Wagon do segmento D, Sealion 06, foi lançada, focada em conforto e tecnologia com até 1.092 km de autonomia combinada.
Outra marca com novidades foi a Leapmotor, que já vende o hatch subcompacto T03 e o D-SUV C10 no continente, de lançamento marcado para o Brasil ainda em 2025. Pertencendo 20% à Stellantis, que controla a sua operação internacional, apresentou o inédito hatch B05, rival de Volkswagen ID.3 e BYD Dolphin. Sob a mesma plataforma do C-SUV B10, terá cerca de 400 km de autonomia e início de vendas para o ano que vem por cerca de € 30 mil.
Munique foi para além de um lugar de novos modelos, mais uma vez o palco de marcas inteiras debutando em solo europeu. A marca AITO, do grupo Seres, que usa a tecnologia da Huawei, se lançou no mercado internacional com os SUVs 9, 7 e 5. Mirando as marcas premium alemãs nos segmentos E e D, podem ser tanto BEVs ou elétricos com extensor de autonomia (REEV), repetindo a abordagem da Leapmotor com o C10.
O grupo Changan Auto iniciou as operações da sua marca Deepal com os SUVs de apelo jovem e esportivo S05 e S07, ambos com opções de serem elétricos ou PHEVs. No campo de luxo, a marca Avatr da gigante chinesa mostrou seu primeiro concept car, o Xpectra, além dos modelos 06, 07 e 12, já comercializados em alguns países europeus e com planos de chegarem a 50 mercados em breve.
A premium Hongqi esteve presente e revelou o C-SUV elétrico EHS5, além de anunciar planos de expansão com 15 modelos e 200 pontos de venda pela Europa nos próximos anos. E aumentando a sua aposta no evento, a Xpeng teve um stand dentro do pavilhão e apresentou a nova geração do P7, sedã que começou a ser comercializado na Europa no IAA Mobility 2023.
Além disso, a recém chegada ao Brasil, GAC, estreou no velho continente levando cinco modelos para a mostra. Seguindo com o “European Plan Market” anunciado no ano passado, lançou como modelos de topo o novo GS7, um SUV grande híbrido plug-in, e a MPV híbrida (HEV) E9. Mas os destaques da marca foram o hatch AION UT, rival de BYD Dolphin, e o D-SUV rival de Tesla Model Y, o AION V.
O primeiro possui bateria de 60 kW/h com 430 km de autonomia e previsão de início da comercialização em 2026 na casa dos € 30 mil. Já para o segundo, comercializado no Brasil por R$214.990, o preço de € 35.990 foi anunciado, muito competitivo para o segmento. Com 510km de autonomia e cinco estrelas no teste do Euro NCAP - com mais ADAS que o brasileiro - será o primeiro a chegar às lojas, já em setembro em mercados como Portugal, Finlândia e Polônia. O plano é que a marca venda em todos os países europeus até 2028.
Eletrificação em todos os níveis
Para além das novatas, ícones do mercado aproveitaram os holofotes da feira para se renovarem completamente. Esse foi o caso da única francesa presente, a Renault, que lançou a sexta geração do hatch Clio, o segundo carro mais vendido no continente em 2024.
Construído sob a mesma plataforma que o seu predecessor, mantém o motor 1.2 TCe e uma opção movida a GPL, mas as semelhanças acabam por aqui. No powertrain, estreia um novo sistema full-hybrid (HEV) formado por um motor 1.8 e dois elétricos, resultando em 160 cavalos e modo de condução elétrico na cidade. Conforme a estratégia da marca, o Clio não terá versão elétrica, papel delegado ao hatch de estilo retrô, o 5.
No quesito design, o carro rompe por inteiro com a geração anterior, o oposto do que havia acontecido com a quinta geração em relação à quarta. A frente ostenta uma nova assinatura em DRL, que forma o símbolo da Renault, e a traseira possui lanternas duplas, nunca vistas em um Clio. O interior é todo novo também em relação ao antecessor, mas com o mesmo layout e sistema operacional do Google do irmão elétrico 5.
A Volkswagen foi outra que debutou no IAA uma nova geração de um best-seller, o T-Roc. Em sua segunda encarnação, também não terá versões elétricas, sendo o último novo carro a combustão desenvolvido pela marca. Haverão pela primeira vez no SUV opções micro-híbridas (MHEV), já conhecidas dos irmãos de plataforma como o Golf e A3, além de um novo sistema HEV, com 134 e 168 cavalos. Não haverá, pelo menos por ora, versões PHEV, sendo o único modelo sob a MEB Evo sem essa possibilidade, no entanto.
Seu exterior é uma evolução da primeira geração, mantendo linhas semelhantes e o seu apelo descolado, descrito pela marca. As dimensões aumentaram, 12 centímetros em comprimento, chegando a 4.37 metros, o colocando alinhado a rivais como o Toyota CH-R e Mazda CX-30. Por dentro a abordagem continua, com telas maiores e mais itens de conectividade e segurança assistida, mas com uma disposição de elementos clássica, vista nos últimos Golf e Tiguan.
Concorrência de todos os lados
Além das chinesas em franca expansão nos últimos anos no continente, outras concorrentes vêm se destacando na corrida pelos elétricos principalmente. A coreana Kia compareceu ao evento e mostrou ao público os novos integrantes da família EV, o EV4 e o EV5.
O primeiro é um hatch do segmento C, acompanhado de uma variante sedã. Já o último se trata de um modelo lançado em 2023 - inclusive a venda no Brasil desde o ano passado - mas que chega só agora à União Europeia como a versão elétrica do Sportage. Sua conterrânea e marca irmã também esteve em Munique com o Concept 3, prevendo o futuro Hyundai Ioniq 3, equivalente do EV4.
Mas nem só da Ásia as novidades chegam, com a primeira marca turca de automóveis elétricos, a Togg, debutando em solo alemão a sua ofensiva no continente europeu. Fundada em 2018 e com a primeira fábrica inaugurada em 2022, apresentou o C-SUV T10X e o sedã T10F ao público. A pré-venda dos modelos começará em 29 de setembro na Alemanha, e no ano que vem a empresa pretende iniciar seus trabalhos na França e Itália, com meta de ter até 2030 um milhão de veículos em toda a Europa.
Construídos sob uma plataforma elétrica, ambos receberam nota máxima no Euro NCAP recentemente, com mais de 9% de proteção para adultos e 80% nos ADAS. A respeito do desempenho, a bateria possui 88.5 kWh de capacidade, e autonomias de até 500 e 600 km para o SUV e o sedã respectivamente.
“Nossos modelos proporcionam uma experiência de mobilidade voltada para o usuário e voltada para o futuro”, comentou Gürcan Karakaş, CEO da marca durante o evento. A marca anunciou ainda que trabalha no terceiro de cinco modelos que irá lançar até o fim da década, o B-SUV T8X. Karakaş finalizou destacando que prepara para introduzir baterias de pirofosfato de lítio (LFP), e que a indústria deve estar preparada para as mudanças e maior concorrência.
Por Laila Santos
Na cidade de São Paulo, câmeras penduradas em postes prometem eficiência, segurança e modernidade. A cada anúncio, a cidade parece um passo mais próxima do futuro imaginado pelas propaganda, com: ruas inteligentes, sistemas integrados e criminosos identificados em segundos. A versão oficial fala em inovação. A prática, no entanto, revela um outro roteiro: o da tecnologia que não erra sozinha e que, quando erra, costuma errar sempre do mesmo lado. Enquanto a população se acostuma com a ideia de que está sendo observada, pesquisadoras e movimentos sociais alertam que o reconhecimento facial se tornou muito mais um mecanismo de controle do que uma solução de segurança pública.
Débora Dias, coordenadora pedagógica e articulação política, acompanha esse debate desde 2018, quando o País atravessava um período de endurecimento nas pautas de segurança pública. Para ela, o reconhecimento facial não nasceu como promessa tecnológica, mas como desdobramento de um projeto político anterior. O que começou no governo federal, com propostas que ampliavam a repressão, entre elas, a digitalização de mecanismos de vigilância, acabou, após pressão popular, reaparecendo nos estados e municípios com outra embalagem. A retórica deixou de ser “combate ao crime” e passou a ser “cidade inteligente”.
Assim, o que antes era parte de um pacote anticrime passou a ser defendido como avanço inevitável do urbanismo tecnológico. Foi aí que surgiram projetos como o Smart Sampa, apresentado pela Prefeitura de São Paulo, com a promessa de transformar a cidade em um grande sistema de monitoramento integrado. Durante seu trabalho na Câmara Municipal, Débora participou de audiências públicas, ouviu especialistas, coletivos negros, movimentos de direitos humanos e analisou dados técnicos. O que encontrou foi uma unanimidade, os sistemas de reconhecimento facial cometem erros graves, repetidamente, e esses erros afetam quase sempre os mesmos grupos.
As falhas não aparecem por acaso. O algoritmo aprende com bancos de dados alimentados por pessoas inseridas em estruturas racistas, o que faz com que os erros se concentrem em rostos negros, pobres, indígenas, trans e não conformes. A tecnologia reforça desigualdades históricas e reproduz padrões que já existem fora das telas.
Em cidades brasileiras que adotaram o sistema antes de São Paulo, como Salvador, múltiplos casos de prisões injustas surgiram antes mesmo de qualquer debate público mais profundo. Pessoas que nunca haviam cometido um crime foram indexadas em listas de suspeitos. Fotos de trabalhadores informais apareceram entre procurados. Uma lógica que espelha o sistema carcerário do país, marcado pela predominância de homens negros e pela alta taxa de prisões sem julgamento adequado.
Na avaliação de movimentos negros e organizações de direitos humanos, essa tecnologia falha dentro de uma estrutura que já define quem pode ser confundido com criminoso. Para uma parte da população, a promessa do reconhecimento facial soa reconfortante. A propaganda diz que será possível andar sem medo, que o celular estará mais protegido e que a cidade ficará mais segura. Mas, para moradores das periferias, pessoas negras, mulheres lésbicas, homens trans, pessoas trans e travestis, a sensação é outra: a de ser observado e enquadrado como suspeito antes mesmo de ser visto como cidadão.
Débora destaca que o problema não é apenas o erro técnico, mas o que ele produz. Uma pessoa reconhecida incorretamente pode ser detida, exposta, humilhada e viver um trauma que nenhuma indenização posterior é capaz de apagar. Meses encarcerada injustamente significam tempo perdido com a família, desgaste emocional, danos psíquicos e marcas que não se desfazem.
A tecnologia apresentada como neutra acaba reforçando a mesma lógica que sempre determinou quem é alvo prioritário do Estado. Ainda que os defensores da ferramenta insistam em promessas de precisão e redução da criminalidade, os países que já testaram o reconhecimento facial como solução de segurança pública recuaram. Estudos internacionais apontam que não houve queda significativa nos índices de criminalidade, mesmo onde o sistema foi amplamente implementado.
No Brasil, apesar dos alertas, o discurso da inovação se espalhou rapidamente. Em São Paulo, a justificativa tecnológica ganhou força especialmente em territórios de alta vulnerabilidade, como a região da Cracolândia, onde o monitoramento foi apresentado como uma política de cuidado, mas operou como vigilância. Para Débora, alinhar tecnologia à ideia de neutralidade é esconder que ela nasce de decisões humanas. O algoritmo só reproduz o que foi ensinado: preconceitos, padrões, desigualdades e violências estruturais.
No ambiente digital, a maquinaria da desinformação amplifica os danos. Imagens circulam sem contexto, vídeos editados moldam narrativas e o ódio ganha terreno fértil. Em uma época marcada pela pós-verdade, a opinião se antecipa aos fatos. Quando o sistema identifica, corretamente ou não, uma pessoa negra como suspeita, a reação nas redes tende a reforçar estereótipos já enraizados. Segundo Débora, não é a tecnologia que cria o discurso de ódio, mas ela opera como mais um combustível que alimenta narrativas racistas e punitivistas.
Histórias como a da vendedora do Brás, reconhecida como suspeita de tráfico enquanto vendia paletas e limpadores de para-brisa, revelam a dimensão humana das falhas tecnológicas. Sem acesso às informações sobre o suposto processo e sem meios de se defender, ela foi presa e passou por constrangimentos irreparáveis. O dano emocional, o trauma, o medo e a vergonha permanecem mesmo após a liberdade. Nada devolve o tempo em que foi injustamente encarcerada. Para especialistas e movimentos sociais, esses casos não são exceções, mas sim o retrato do tipo de sociedade que a tecnologia escolhe vigiar.
Enquanto cidades brasileiras continuam apresentando o reconhecimento facial como solução tecnológica, experiências internacionais já abandonaram o método por ineficácia e violação de direitos. Débora defende que a ferramenta não deve ser aprimorada, mas abolida. Para ela, nenhum ajuste técnico corrige uma estrutura que nasce enviesada e aprofunda desigualdades.
No Brasil, onde a violência estatal já tem rosto, CEP e cor definidos, a promessa de uma tecnologia perfeita esconde uma realidade incômoda: a modernização pode ser só uma nova forma de repetir velhos erros. A tecnologia pode até ser vendida como salvadora da pátria. Mas, para quem está sempre na mira, o futuro que ela promete nunca chegou a ser promessa, é só mais um alerta.