Quanto mais mediado por telas se torna o cotidiano, mais o encontro com o real transforma o teatro em uma experiência intensa e necessária
por
Manoella Marinho
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30/03/2026 - 12h

A relação da geração atual com o mundo passa, inevitavelmente, pelas telas. Celulares, redes sociais e plataformas de vídeo moldam não apenas a forma de comunicação, mas também a percepção da realidade. “O teatro é o presente, é o agora, é o sentimento”, afirma Marcello Drummond, diretor do Teatro Oficina, em entrevista à AGEMT. A fala sintetiza uma das principais diferenças entre o teatro e as mídias digitais: enquanto a internet permite o acesso ilimitado e instantâneo a conteúdos, o teatro exige presença, tempo e entrega. Isso torna-se ainda mais evidente quando se observa o impacto físico da cena.

“Quando você vê um ator na tua frente […] é uma coisa viva”, diz Drummond. Ao contrário da imagem mediada por uma tela, o corpo em cena carrega falhas, respiração, improviso, entregam elementos que tornam cada apresentação única. É essa imprevisibilidade que intensifica a experiência do espectador. Ao mesmo tempo, o ambiente digital tem produzido uma mudança significativa nos hábitos culturais. “As pessoas têm pouco contato com o que não é vídeo”, aponta o diretor. A predominância do audiovisual transforma a forma como a arte é consumida, muitas vezes reduzindo a experiência a fragmentos rápidos e descartáveis.

Créditos: Manoella Marinho Teatro Oficina

 

Ainda assim, o impacto da tecnologia não é apenas negativo. “O digital […] está fazendo com que os teatros fiquem mais cheios”, observa Drummond, conversando com AGEMT dentro do espaço do Teatro Oficina. O fenômeno revela um paradoxo: quanto mais imersas no virtual, mais as pessoas parecem buscar experiências concretas. A saturação de estímulos, característica do cotidiano online, gera uma espécie de cansaço que encontra no teatro um espaço de pausa e intensidade.

Esse movimento ajuda a explicar por que o teatro provoca um efeito tão marcante na geração atual. “A gente tem contato com tela […] mas o vivo toca muito”, resume o diretor. O impacto não está apenas no conteúdo da peça, mas na experiência sensorial completa: o silêncio da plateia, a proximidade com os atores, a impossibilidade de pausar ou voltar a cena. Historicamente, o teatro sempre se construiu a partir dessa relação direta. Encenações como “O Rei da Vela”, marco do Teatro Oficina, ou montagens contemporâneas que rompem a divisão entre palco e plateia, evidenciam a potência do encontro ao vivo. Ao eliminar a chamada “quarta parede”, essas obras convidam o espectador a participar ativamente, transformando-o em parte da cena.

Nesse contexto, o teatro também reafirma seu caráter político. “O fato de estar em cena já é um ato político”, diz Drummond. Em um ambiente digital marcado pela circulação massiva de discursos, muitas vezes superficiais ou polarizados, o teatro oferece um espaço de reflexão mais profunda, onde o tempo e a presença permitem a elaboração crítica. Por outro lado, a própria internet carrega contradições. “Tem coisas muito boas […] e coisas muito ruins que se espalharam”, reconhece o diretor. Se por um lado ela democratiza o acesso à informação e à arte, por outro amplia a circulação de desinformação e discursos problemáticos. Nesse cenário, o teatro se destaca como um espaço de construção coletiva e diálogo direto. A diferença fundamental está na experiência. Enquanto o digital tende à repetição e à reprodução infinita, o teatro se ancora no instante. Cada sessão é única, irrepetível. É nesse sentido que o impacto se intensifica: o espectador não apenas assiste no automático mas vivencia, estimulando análise crítica e sensação.

Em um mundo em que o contato com o real se torna cada vez mais mediado, o teatro reafirma a importância do corpo, do encontro e da presença. Mais do que sobreviver à era digital, ele parece ganhar novo sentido dentro dela. Um espaço onde o humano, finalmente, deixa de ser apenas imagem e volta a ser experiência.

 

Um em cada dez brasileiros conversam com chatbots como forma de tratamento para questões psicológicas
por
Joana Prando
Gabriel Giannini
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30/03/2026 - 12h

 

No Brasil, uma em cada dez pessoas utilizam da Inteligência Artificial (IA) para fazer terapia, segundo a revista Superinteressante. Nos Estados Unidos, a situação é ainda mais assustadora. De acordo com uma matéria publicada pela jornalista Tamires Vitorio, pela revista Exame no dia 8 de agosto de 2025, aproximadamente 19% dos americanos, cerca de 49,2 milhões de adultos, utilizam ferramentas baseadas em IA como forma de terapia. O uso de inteligência artificial em conversas sobre sentimentos, ansiedade e solidão cresceu de forma exponencial nos últimos anos. A questão que fica é se a IA realmente é capaz de desvendar o sentimento humano. A psicóloga Bruna Santin Kalil, formada em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e graduanda pela UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos), nos ajuda  a entender os riscos dessa prática. 

Em entrevista à AGEMT, Kalil ressalta que “o uso das tecnologias é um caminho sem volta, principalmente desde a experiência coletiva da pandemia[...]. Eu acho que assim como outros avanços tecnológicos, eles não são em si bons ou ruins, tudo depende do modo como a gente faz uso deles. Uma prática estruturada, um guia, isso pode ser reforçador para a pessoa implementar de fato no dia a dia o que se é proposto pela terapeuta.”  

O Conselho Federal de Psicologia tem feito longas pesquisas sobre a IA, tendo publicado uma cartilha chamada "Chatbots, Inteligência Artificial e sua saúde mental", que nos ajuda a entender para quem essas ferramentas podem (ou não) ser úteis. De acordo com o artigo, os chatbots são comprovadamente inadequados e potencialmente perigosos, especificamente para pessoas que estão passando por crises e pensamentos de atentado contra a própria vida, por exemplo. Além de pessoas que sofrem de esquizofrenia, transtorno bipolar e entre tantos outros. O uso de tais ferramentas digitais para fins de diagnósticos psicológicos e de avaliação psicológica, pode gerar uma fragilidade e até agravamentos em determinados quadros de saúde, o que acaba adiando ou até impedindo a busca por tratamentos verdadeiramente adequados. 

créditos: imagem gerada por IA. Pessoa fazendo uso da terapia com IA

 

 

 

Uma das principais razões de tantos jovens recorrem ao uso da IA como forma de terapia se dá porque essas plataformas são gratuitas e dão repostas rápidas, normalmente aquelas "respostas que gostamos de ouvir" ao invés do que realmente necessitamos. 

Kalil nos ajuda a entender este avanço da IA como terapeuta: "é preciso no processo terapêutico também se trabalhar os limites, também preparar as pessoas para irem desenvolvendo essa autorregulação, essa autonomia" E acrescenta: "não podemos reforçar esse lugar de uma resposta que tem que ser imediata, que não se tenha a sustentação do silêncio, a elaboração, a integração dos insights", explica Kalil.

Uma pesquisa realizada pelo fantástico (G1), publicado em setembro de 2025, aborda os maiores riscos da prática desse tipo de tratamento e da falta de programação específica: Alessandra Santos de Almeida, presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP), afirma categoricamente que não existe evidência científica de psicoterapia realizada por IA, pois essas ferramentas não foram programadas para esse fim terapêutico. Os principais exemplos dos riscos dessas práticas são a incapacidade de diagnóstico. Diferente de um profissional humano, a IA não possui formação clínica, não consegue realizar diagnósticos precisos, não tem preparo para lidar com crises graves ou ideações suicidas.

Um dos principais riscos é a quebra de sigilo: no consultório, o sigilo é um dever ético legal. Na IA, os dados íntimos são armazenados pelas empresas desenvolvedoras e podem ser usados para outros fins, expondo a privacidade do usuário. Ainda sobre o estudo publicado pelo G1, a repórter Renata Ceribelli testou uma ferramenta de IA sob a supervisão do psicanalista e professor da USP, Christian Dunker. A IA demonstrou uma "empatia simulada" e ofereceu conselhos que geraram uma sensação de acolhimento. No entanto, Dunker alerta que essa sensação é enganosa, pois o robô apenas formula respostas automáticas que imitam a interação humana. 

O uso dos chatbots como forma de terapia, se usado da maneira correta e com o auxílio de um profissional pode sim servir como forma de ajuda para tratamentos psicológicos, mas jamais substituíram o "olho no olho", que só a interação humana é capaz de nos proporcionar. Existem diversos meios de conseguir ajuda para questões de saúde mental, o CVV (Centro de Valorização da Vida), oferece apoio emocional e prevenção ao suicídio de forma gratuita, 24 horas por dia, 7 dias por semana, pelo telefone ou chat discando 188, entre tantos outros existentes. Que a tecnologia nos forneça o auxílio para chegar mais longe, mas que nunca nos faça esquecer que a troca humana é o único remédio insubstituível.  

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Lei que proíbe uso de celulares entrou em vigor em janeiro de 2025, mas o uso iletrado de inteligência artificial expõe brechas na infraestrutura das escolas
por
Sophia Aquino
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30/03/2026 - 12h

Há um ano, a proibição do uso de celulares nas escolas brasileiras entrou em vigor. A lei número 15.100/2025, gerou reações diversas de professores e alunos tanto favoráveis quanto contrárias. De um lado, quem defende que o aparelho era uma fonte constante de distração; do outro, quem questiona se banir o celular resolve de fato os problemas de aprendizado. Porém, a lei abre exceção para o uso pedagógico, o que leva a uma outra discussão em relação ao uso da Inteligência Artificial nas escolas.  

Em entrevista à AGEMT,  o estrategista britânico em digital learning, Matt Lovegrove,  discute que “as escolas precisam investir em inteligência artificial (IA). Se eles querem ajudar os alunos a terem o máximo de educação e investir em letramento de Inteligência Artificial, a melhor coisa é fornecer dispositivos one to one (modelo em que cada aluno tem acesso ao próprio  laptop ou tablet)", explica Matt. 

Matt Lovegrove. Fonte: Acervo de fotos pessoal
Matt Lovegrove. Fonte: Acervo de fotos pessoal 

Matt reconhece que nem todas as escolas têm condições de bancar isso. Para esses casos, ele sugere dispositivos compartilhados — e só em último recurso, o uso controlado do celular, restrito a momentos específicos da aula. "Se as escolas forem fazer isso, tem que ser muito cuidadosamente controlado", afirma. Para ele, o celular não deve vazar para os momentos sociais: recreio, almoço, intervalos. A sociabilidade cara a cara, diz ele, é parte essencial do que a escola oferece. No Reino Unido, onde atua, políticas de restrição de celulares coexistem com forte investimento em infraestrutura tecnológica escolar, permitindo que a proibição de dispositivos pessoais não signifique exclusão digital.

No Brasil, a realidade é diferente. Pesquisa do CETIC.br revela que 60% dos estudantes brasileiros já usam inteligência artificial fora da escola, principalmente para realizar tarefas e responder dúvidas. Dentro das escolas, porém, o cenário é de desigualdade: apenas 30,4% das instituições públicas tinham conexão de internet adequada em 2025, contra 54,3% das privadas. Enquanto estudantes de escolas particulares tem mais chances de ter acesso orientado à tecnologia, grande parte dos alunos da rede pública aprende a usar essas ferramentas sozinho, sem mediação de professores e sem nenhum critério pedagógico. 

Guilherme Cintra, diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann, é uma das vozes mais ativas nesse debate. Para ele, o ponto de partida já ficou para trás. "A discussão já não é mais sobre aceitar ou não o uso dessas tecnologias, mas definir limites éticos e seguros para essa implementação", afirmou em artigo publicado pela Fundação Lemann. Cintra também explica o papel dos professores nesse processo de aprendizagem com a I.A em que destaca a capacidade de profissionais de criar uma troca entre os alunos.

"A nossa capacidade de criar e manter relações verdadeiras será o que nos distinguirá das máquinas" diz também Cintra em entrevista a CNN Brasil e acrescenta "Não podemos esperar que os professores assumam sozinhos a responsabilidade de toda essa mudança".

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Claudia Oliveira relatou formas de lidar com esse medo da tecnologia de substituição
por
Anna Sofia Carsughi
Olivia Ferreira
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30/03/2026 - 12h

“A transformação é inevitável: algumas funções mais operacionais tendem a ser reduzidas, mas, ao mesmo tempo, surgem novas carreiras, mais estratégicas e analíticas". Em entrevista à AGEMT, Claudia Oliveira, que trabalha na eCOMEX,  contou, na última semana (24), os desafios ligados ao uso crescente da IA no âmbito do trabalho. A profissional, que está inserida em uma empresa de tecnologia para o comércio exterior, traz diariamente soluções inovadoras para gestão, automação e compliance- e busca, em sua logística, uma maneira de se adaptar às mudanças dessa nova tecnologia empresarialUm estudo feito pela Harvard Business Review em 2023, revelou que inteligências artificiais não substituem nenhum humano, mas os humanos com IA substituirão os humanos sem IA.

Esse artigo expõe que quanto mais as pessoas esperam que as empresas ofereçam experiências perfeitas desenvolvidas por IA, mais os líderes precisarão adotar essas tecnologias em seus negócios. Essas tecnologias cada vez mais estarão presentes no cotidiano de todos os seres humanos e  existirá também uma remodelação dos setores, processos, eficiências e diminuição dos erros humanos. Isso porque quem as adota tem a expectativa de impulsionar cada vez mais a produtividade e a inovação, transformando a dinâmica do mercado de trabalho. 

 

União humanos e IA
Reprodução/ Fia Inteligência Artificial 

 

A substituição dos empregos à medida que as inteligências assumem as tarefas repetitivas é algo discutido pelas grandes empresas, em que certamente existirá mudanças internas que exigirão adaptação das mudanças tecnológicas. A IA está presente não para substituir completamente a capacidade humana, mas sim para completá-la trazendo mais oportunidades de desenvolvimento profissional. "Isso não se trata de eliminação pura e simples, mas de uma migração de competências. O profissional que se adaptar terá oportunidades ainda maiores”, afirmou Claudia.

O crescimento no Brasil

A inserção da tecnologia no mercado de trabalho é um tema que cresce diariamente e não deve ser negligenciado. Discutir o caráter ambivalente das IAS permite uma forma de compreender os seus impactos no cotidiano e as possíveis maneiras para amenizar os seus prejuízos. Se por um lado essa novidade traz uma maior automatização do trabalho, com respostas eficientes às perguntas, por outro lado, substitui grande parte da mão de obra física empresarial. O que entra em discussão é um dilema entre facilidade x temor dentro do mercado de trabalho. 

 

Brasil e o uso da IA
Reprodução/ Lets Go Bahia

O crescimento exponencial das recentes tecnologias vêm surgindo com o desembarque dessa geração tecnológica que se preocupa com resultados rápidos e diversos, na qual as IAs generativas entregam isso de forma acessível e fácil. Para Cláudia, “o interesse das empresas brasileiras por Inteligência Artificial cresce porque ela proporciona ganhos reais de eficiência, escalabilidade e competitividade”.

Essa facilidade dentro do mercado de trabalho pode trazer benefícios como a praticidade e maior produtividade, mas também riscos, como a demissão de trabalhadores devido à automatização de serviços. Apesar disso, ela acredita que o Brasil deva investir em inteligências degenerativas, já que a adoção de tais já é uma realidade presente em grandes potências econômicas globais, tais quais China e Estados Unidos. "Ignorar esse movimento pode significar perda de espaço no mercado global”, relatou ela.

As novas tecnologias substituem determinados tipos de trabalhos, mas indivíduos e empresas que souberem utilizar a IA para ampliar a produtividade e diversificar os serviços ofertados certamente terão vantagens competitivas. Para que esse processo seja levado durante as novas gerações, é necessário que o sistema educacional se adapte para essa nova realidade formando e preparando profissionais qualificados. Para a profissional, não é possível frear o avanço da tecnologia, que cresce diariamente. A fórmula correta seria a da substituição, isso é, o profissional deve usar a seu favor a tecnologia, a partir de uma mudança de postura dentro do trabalho. 

“Funções repetitivas e de baixo valor tendem a perder espaço no mercado de trabalho, mas profissionais que souberem integrar a tecnologia ao seu dia a dia terão grande vantagem competitiva. O ponto central não é temer a IA, mas aprender a utilizá-la como ferramenta para ampliação de capacidades humanas”, diz ela.

Dessa forma, o jeito é aprender a lidar com essa tecnologia, ao desenvolver conhecimentos a seu respeito. Para Cláudia, a melhor forma é investir continuamente em atualização. “Quanto maior o domínio sobre a tecnologia, maior o potencial de utilizá-la como diferencial competitivo. Preparação, curiosidade e adaptação serão determinantes para aproveitar plenamente essa fase de transformação”, falou ela. 

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A concentração de infraestrutura nas mãos de poucas empresas de IA amplia impactos climáticos e desafia a integridade de processos democráticos
por
Julia de Sá Ribeiro
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30/03/2026 - 12h

O avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA) consolidou um oligopólio corporativo que, ao priorizar a busca por uma "superinteligência" utópica, agrava crises ambientais, éticas e geopolíticas no presente. Distante da promessa inicial de emancipação tecnológica, o setor aprofunda a desigualdade, a exploração de dados e a concentração de poder global. 

No Vale do Silício dos anos 1990, a tecnologia era vista como o motor do progresso humano, centrada no empreendedorismo e na genialidade individual, livre de interferências estatais. Contudo, a evolução desse cenário resultou no aprofundamento da desigualdade digital e na consolidação de um modelo neoliberal. Atualmente, a crença de que a inovação resolveria problemas sociais abriu caminho para visões ainda mais ambiciosas, que encaram a IA não como uma ferramenta, mas como um destino civilizatório. 

Pesquisadores como Timnit Gebru e Émile Torres classificam o arcabouço ideológico que guia os atuais líderes tecnológicos sob a sigla TESCREAL (Transumanismo, Extropianismo, Singularitarianismo, Cosmismo, Racionalismo, Altruísmo Efetivo e Longoprazismo). Esse conjunto de crenças normaliza a corrida pela superinteligência como um fim inevitável. O objetivo central dessa vertente deixa de ser a melhoria da condição humana para buscar a sua superação física e mental.  

Na prática, a realidade operacional da tecnologia difere dessas promessas filosóficas. Plataformas de Inteligência Artificial Generativa (IAG), como ChatGPT, Gemini, DeepSeek e Grok, operam com algoritmos focados em tarefas específicas e cálculos probabilísticos. Esses sistemas não possuem compreensão real de significados ou relações sociais. Além disso, a dependência governamental e corporativa dessas tecnologias consolida o controle da infraestrutura global nas mãos de poucas empresas, que se posicionam como guardiãs do futuro. 

Sob a lógica do capitalismo de vigilância, o aprimoramento desses sistemas depende da extração contínua de dados comportamentais. O reflexo imediato desse processamento é a geração de conteúdos hiper-realistas, como deepfakes. O emprego dessa tecnologia para produzir discursos de ódio e notícias falsas tornou-se um dos principais desafios contemporâneos, afetando diretamente o pensamento crítico e a integridade de processos democráticos. 

 

Governador da California, Gavin Newsom. Foto: Sheila Fitzgerald / Shutterstock  

É o impacto prático dessa falta de controle que tem forçado as primeiras reações governamentais. Em 2025, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, promulga lei de regulação para grandes modelos de IA exigindo testes de segurança e transparência nos protocolos de prevenção de abusos. A medida enfrenta resistência de gigantes do setor, que temem impacto na competitividade global. A União Europeia também avança com legislações mais rígidas, enquanto países do G20 discutem padrões internacionais de governança. 

"Temos visto exemplos realmente horríveis e trágicos de jovens prejudicados pela tecnologia não regulamentada, e não ficaremos de braços cruzados enquanto as empresas continuam sem limites necessários e sem prestar contas", diz em comunicado o governador Newson ao promulgar a lei. No âmbito geopolítico, a IA redefine as fronteiras dos conflitos armados. Decisões estratégicas passam a ser mediadas por sistemas algorítmicos, e especialistas em segurança apontam que a guerra moderna tende a favorecer forças com maior poder computacional. O conflito atual envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã evidencia essa assimetria: enquanto Washington e Tel Aviv operam sistemas avançados de defesa automatizada, análise em tempo real e vigilância baseada em IA, o Irã depende de capacidades tecnológicas mais limitadas. A disparidade reforça o desequilíbrio militar global e ilustra como a superioridade computacional se torna elemento central na definição de poder e na condução de operações militares. 

A crise atinge, portanto, o campo ético. A pesquisadora e engenheira elétrica, graduada pela Universidade São Francisco e pós-graduada pela Unicamp, Marcilene Ribeiro, realizou pesquisas sobre a Inteligência Artificial durante os anos de 2024 e 2025 nos Estados Unidos e afirma que, desenvolvida sob interesses corporativos e geopolíticos, a IA tende a perpetuar hierarquias econômicas, políticas e biológicas. 

 

Pesquisadora Marcilene Ribeiro. Foto: Linkedin

 

"Ao focar nas promessas de erradicação futura da pobreza ou reversão climática a partir da superinteligência, o modelo atual de desenvolvimento da IA falha em apresentar soluções práticas para o presente, correndo o risco de justificar o agravamento das crises atuais em nome de um amanhã idealizado.", finaliza Marcilene.  

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Influenciadores, pseudociência e marketing digital transformaram o cuidado em mercadoria e o bem-estar em ilusão.
por
Julia Sena
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27/10/2025 - 12h

Por Julia Sena

 

Era março de 2021, cerca de um ano após o início de um dos períodos mais sombrios do século XXI. O Brasil vivia um dos auges da pandemia de Covid-19. Foi nesse cenário que o tio de Tainara Silva, seu Antônio, começou a sentir os primeiros sintomas. Os dois moravam no mesmo quintal, em Sorocaba, o que possibilitou que a menina acompanhasse de perto as dificuldades.

Segundo Tainara, o primeiro sinal veio discreto, ele já não reclamava do cheiro dos fortes produtos de limpeza usados pela esposa. Naquela mesma noite, a febre ardia em sua pele e ele foi levado ao posto de saúde. Voltou com antitérmico, um receituário e a recomendação de isolamento. Os dias seguintes pareciam melhores, a febre baixou e as dores de cabeça cessaram. Depois do curto período de bem-estar, vieram a tosse e a falta de ar, ainda em pequenas quantidades, porém incessantes. Dessa vez, Antônio se recusou a ir ao posto de saúde, segundo ele, a espera era longa e as soluções, ineficientes.

Tainara conta que o tio já havia guardado há muito tempo um miniestoque do chamado “kit Covid”, um conjunto de remédios sem eficácia comprovada, como hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina. Um ano antes, inclusive, chegou a consumir os medicamentos como medida de prevenção à doença. A menina não concordava, mas era muito nova para se impor diante da convicção do tio.

Após tomar os remédios, Antônio realmente se sentiu melhor, conseguia realizar as tarefas cotidianas sem muitos impeditivos, além da “moleza” habitual que uma doença pode causar. Mas durou pouco. A tosse voltou mais forte e a falta de ar se tornava cada vez mais insuportável, cada vez mais próxima da sensação de falta total de respiração.

O que aconteceu foi que a cloroquina, a azitromicina e a ivermectina que seu Antônio consumia acabaram mascarando a doença por algum tempo. Sem os tratamentos necessários e diante de sua irredutibilidade quanto a uma possível internação, o quadro avançou de maneira desenfreada. Impossibilitado de tomar decisões por si só, o vendedor de móveis, de apenas 54 anos, foi internado, mas era tarde demais.

Irresponsabilidade

Dois anos depois, em 2023, o mercado global de wellness movimentou impressionantes US$ 6,3 trilhões e deve crescer 7,3% ao ano até 2028, segundo o Global Wellness Institute. Os números refletem o apetite global por soluções que prometem saúde, felicidade, energia e longevidade. Mas, nesse mar de promessas, nem tudo o que se vende como “bem-estar” tem respaldo científico e, muitas vezes, o que se propaga é mais perigoso do que parece. O que se vê é uma mistura de interesses econômicos, desinformação e uma relação cada vez mais frágil entre a população e a ciência.

Em um mundo em que a primeira ação ao acordar é checar o celular, não surpreende que o mesmo ocorra quando se busca informações sobre saúde. Se antes consultas médicas e leituras de artigos científicos eram etapas básicas na busca por conhecimento confiável, hoje bastam alguns toques para acessar vídeos virais no TikTok ou threads no X (ex-Twitter), que frequentemente misturam ciência com opiniões infundadas. Esses conteúdos, ainda que envoltos em uma aparência de autoridade, distorcem dados estatísticos, abusam de jargões científicos e promovem teorias sem possibilidade de teste ou validação empírica. Isso configura o que se chama de pseudociência e ela tem encontrado campo fértil justamente onde o acesso à informação deveria significar maior esclarecimento.

Um caso emblemático é o de Paloma Shemirani, de 23 anos, que morreu em julho de 2024 após recusar o tratamento convencional para um linfoma não Hodgkin, câncer considerado tratável, com até 80% de chance de cura. Influenciada por sua mãe, Kate Shemirani, ex-enfermeira britânica conhecida por discursos antivacina e teorias da conspiração, Paloma abandonou a quimioterapia e adotou terapias “naturais”, como enemas de café e dietas restritivas, sem qualquer eficácia comprovada. Sete meses após o diagnóstico, sofreu uma parada cardíaca provocada pelo avanço do tumor. O caso segue em investigação no Reino Unido e serve de alerta para os perigos da desinformação mascarada de cuidado. O drama pessoal ganhou destaque internacional e levantou um debate urgente sobre o papel das redes sociais na saúde pública.

O culto à perfeição foi normalizado, especialmente no que diz respeito à aparência. A ascensão das redes sociais e a valorização de padrões estéticos irreais impuseram um novo tipo de sofrimento, a comparação constante com corpos esculpidos digitalmente, rotinas idealizadas e promessas de transformações milagrosas. Essa pressão estética não é apenas vaidade, é uma questão de saúde pública. Muitos recorrem a dietas extremas, procedimentos invasivos e medicamentos perigosos para alcançar um ideal inatingível. O resultado é o aumento de transtornos alimentares, ansiedade, depressão e uma desconexão crescente entre o corpo real e o corpo desejado. O índice de insatisfação corporal entre adolescentes e jovens adultos tem aumentado significativamente, segundo estudos da Organização Mundial da Saúde. E essa insatisfação muitas vezes começa na infância, alimentada por filtros, comparações e algoritmos que definem o que é bonito, saudável ou aceitável.

O movimento wellness se apresenta como solução holística para o caos da vida moderna. Alimentação consciente, skincare com dezenas de passos, meditação guiada, suplementos e “biohacks” viraram rotina entre influenciadores. O problema é que, por trás desse discurso saudável, existe uma indústria trilionária, impulsionada pela exploração do medo e da insegurança. Enquanto influenciadores acordam às 4h da manhã para tomar cafés com ingredientes exóticos, gominhas para o cabelo e shots de cúrcuma, seus seguidores enfrentam o transporte público lotado e jornadas exaustivas. Entre promessas de equilíbrio e felicidade, vende-se um ideal de vida sedutor, porém inalcançável para a imensa maioria da população. Isso cria um ciclo de frustração, culpa e consumo contínuo. Afinal, se você não está se sentindo bem, é porque não está tentando o suficiente, mais um curso, mais um suplemento, mais uma fórmula.

O jornalista Carlos Orsi, autor do livro Que bobagem! e ganhador do Prêmio Jabuti de Ciência, observa que houve um aumento na divulgação de conteúdos duvidosos, principalmente com a multiplicação de influenciadores de bem-estar no Instagram e no TikTok. Segundo ele, muitos utilizam argumentos científicos de forma equivocada para promover produtos de patrocinadores. Esse grupo, afirma, tem crescido mais rapidamente do que os promotores de práticas esotéricas tradicionais. A fórmula é simples e, ao contrário dos produtos, eficaz, identifica-se um problema urgente e difícil de resolver, define-se um formato vendável (em pó, shot ou cápsula) e adiciona-se um ingrediente com nome complicado, apresentado como “princípio ativo”. Isso garante o apelo científico, mesmo quando não há evidências que comprovem sua eficácia. O marketing se apropria da linguagem da ciência para vender promessas vazias, enquanto a população segue cada vez mais confusa sobre o que é, de fato, saudável.

No Brasil, nomes como Virgínia Fonseca, com mais de 53 milhões de seguidores, exemplificam como a vida pessoal se mistura com recomendações de saúde. Por compartilhar detalhes íntimos da rotina, Virgínia cria com seus fãs uma conexão emocional unidirecional, conhecida como relação parassocial, que leva seguidores a confiar nela como se fosse uma amiga próxima. O problema é que essa confiança ignora o crivo da evidência. Virgínia divulga produtos como cápsulas de colágeno e outros itens “do bem-estar”, mas sem embasamento científico.

Ao contrário da mídia tradicional, onde existe algum controle editorial, nas redes sociais a opinião vira verdade e a propaganda vira prescrição. O próprio Orsi aponta que a falta de transparência sobre os interesses comerciais envolvidos agrava o impacto dessas mensagens, já que os seguidores aceitam recomendações de produtos ou hábitos sem questionar suas origens ou validade. A influência, nesse contexto, se torna uma forma moderna de autoridade sem preparo técnico, mas com enorme poder de convencimento.

No Brasil, a fiscalização de produtos e práticas pseudocientíficas é compartilhada entre diversos órgãos. A Anvisa regula medicamentos, suplementos e cosméticos. O Conar fiscaliza publicidade, inclusive de influenciadores. Conselhos profissionais como CFM, Coren e CRO supervisionam condutas éticas de profissionais de saúde. Além disso, órgãos como o Procon e o Ministério Público atuam na defesa do consumidor. Apesar disso, a eficácia dessa regulação é limitada. Muitos suplementos são registrados como “alimentos”, o que garante a segurança, mas não exige comprovação de eficácia. Orsi afirma que a Anvisa poderia ter um papel mais ativo na fiscalização de conteúdos que violam suas normas, mas que, para isso, a agência precisaria de uma estrutura muito maior do que tem hoje. Também é necessário reconhecer que a responsabilidade sobre o conteúdo das plataformas digitais ainda é uma zona cinzenta. O mesmo algoritmo que prende o usuário à tela também espalha desinformação em massa. As empresas de tecnologia, que controlam o que aparece no feed dos usuários com base em engajamento, raramente são responsabilizadas pelo conteúdo que promovem. Lobbies poderosos atuam para impedir regulamentações mais rígidas, e o controle ético daquilo que é veiculado como publicidade disfarçada de conteúdo segue sendo ignorado.

Para reverter esse cenário, é essencial investir em alfabetização científica desde cedo. A escola precisa deixar de ser um espaço onde se decoram fórmulas prontas e datas de exames e se tornar um ambiente em que se aprende a pensar criticamente, a questionar fontes, a interpretar dados e a entender o funcionamento da ciência. A mudança precisa vir de baixo, com educação, e de cima, com responsabilidade de quem lidera. Orsi explica ainda que o desafio é ainda maior quando o próprio Estado e universidades endossam práticas sem respaldo científico, como a homeopatia no SUS ou cursos de reiki em instituições de ensino superior. Ele considera que Isso mina a confiança na ciência e abre espaço para o crescimento da pseudociência como alternativa viável. Quando a exceção vira regra e a opinião vale tanto quanto a evidência, a sociedade perde sua bússola.

Na era da influência ser influenciado não é opcional. Mas é possível escolher de quem se é influenciado. O bem-estar verdadeiro não se vende em cápsulas, não cabe em vídeos de 15 segundos e, sobretudo, não existe sem ciência. Enquanto não reconhecermos isso, seguiremos, ironicamente, mais doentes do que nunca.


 

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Como os Data Centers podem impactar o Brasil
por
Helena Haddad
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28/10/2025 - 12h

Por Helena Haddad

Os Data Centers - centros de processamento de dados - são instalações físicas que sustentam a infraestrutura digital contemporânea. Na era digital, informação e internet são centrais no cotidiano, e com o crescimento das IAs e da digitalização, a demanda por essas infraestruturas tem aumentado significativamente. No contexto global, a América Latina surge como uma “nova fronteira” para investimentos, e o Brasil busca se destacar no setor, embora a construção dessas instalações levante questionamentos sobre sua sustentabilidade.

O projeto do Data Center do TikTok, uma empresa chinesa, em Caucaia, no Ceará, já aprovado mas sem data de inauguração, gera polêmica. Os indígenas Anacé pedem a derrubada do licenciamento ambiental, alegando ausência de estudos claros sobre impactos ambientais e alertando para o risco ao aquífero de Dunas, considerado vulnerável. Eles também questionam o alto consumo de energia e água, que poderia pressionar recursos locais. Por outro lado, a Casa dos Ventos, responsável pela obra, afirma que a licença foi obtida com base em estudos técnicos conduzidos por especialistas. Outra crítica recai sobre a exclusão do Ministério do Meio Ambiente das negociações iniciais, apesar de seu papel central na avaliação de impactos.

Carlo Pereira, especialista em sustentabilidade, reconhece que os Data Centers demandam grande quantidade de energia, mas lembra que no Brasil esse consumo pode ser atendido por fontes renováveis. Pedro Rodrigues, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, alerta, porém, que a indústria da inteligência artificial cresce mais rápido que a geração elétrica, e sem políticas públicas claras há risco de desequilíbrio e até colapso. O alto consumo de água e energia reforça a necessidade de planejamento para não comprometer recursos finitos.

Além disso, a presença de empresas estrangeiras evidencia uma dimensão geopolítica. Cerca de 60% dos dados brasileiros são processados fora do país, o que submete parte da vida econômica, social e política do Brasil a legislações e interesses de outras nações. A instalação de um Data Center do TikTok levanta a questão de quem realmente terá controle sobre dados críticos.

Soberania digital não significa fechar o mercado, mas exige estratégias claras. Segundo Pereira, isso passa por atrair players globais com contrapartidas — exigindo energia 100% renovável, integração a ecossistemas locais, formação de talentos e armazenamento de certos dados em território nacional; fortalecer operadores brasileiros com incentivos fiscais e zonas especiais que estimulem a competição; e estabelecer regulação estratégica para garantir que dados críticos — saúde, defesa, governo e infraestrutura — permaneçam sob jurisdição nacional.

Por fim, a chamada “nuvem”, embora pareça imaterial, depende de recursos físicos como solo e água, que são finitos. A expansão dos Data Centers no Brasil oferece oportunidade de atrair investimentos e consolidar o país como polo digital, mas impõe desafios relacionados à sustentabilidade, governança e soberania digital. O futuro do setor dependerá da capacidade do Brasil de conciliar desenvolvimento econômico, proteção de recursos naturais e autonomia sobre sua infraestrutura crítica de dados.

Enquanto as tensões comerciais com os Estados Unidos se acentuam, o Brasil fortalece sua parceria estratégica com a China.
por
Inaiá Misnerovicz
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17/11/2025 - 12h

Por Inaiá Misnerovicz

 

O mapa da agricultura brasileira, geralmente descrito a partir das grandes lavouras do Centro-Sul, começa a ganhar novos contornos. Nos últimos meses, uma combinação de fatores geopolíticos e iniciativas locais têm provocado mudanças no modo como o País pensa sua produção de alimentos. De um lado, os Estados Unidos, tradicional parceiro comercial do Brasil, anunciam tarifas que podem elevar em até 50% o valor de importação de produtos brasileiros. De outro, a China expande sua presença no nordeste brasileiro, num movimento que é também fortalecido pela atuação conjunta no âmbito dos Brics. A aproximação com a China ganha força como uma alternativa não apenas comercial, mas também tecnológica. Essa parceria se materializa, hoje, de forma concreta, no semiárido nordestino. Recentemente, cooperativas e comunidades rurais nos estados do Ceará, Maranhão, Rio Grande do Norte e Paraíba receberam um lote de máquinas agrícolas destinadas a fortalecer a agricultura familiar. 

O comboio que atravessou Nordeste levava tratores, colheitadeiras e semeadoras que prometem um novo ciclo. Para agricultores acostumados com o trabalho braçal, a chegada das máquinas é uma grande mudança. São equipamentos de pequeno e médio porte, adaptados às dimensões das propriedades familiares, e pensados para lidar com os desafios específicos do semiárido. 

A distribuição dos equipamentos integra uma política mais ampla de aproximação entre Brasil e China, que têm intensificado a cooperação em setores considerados estratégicos. No campo agrícola, essa parceria representa uma alteração significativa no equilíbrio de forças. Há décadas, os Estados Unidos influencia diretamente o modelo produtivo brasileiro, seja pela venda de máquinas, sementes, insumos ou pelo controle de parte relevante do mercado global de grãos. Agora, com investimentos voltados à agricultura familiar, a China sinaliza disposição para atuar em um terreno que, historicamente, sempre recebeu pouca atenção dos parceiros internacionais.

Além da mecanização, o acordo prevê a instalação de um laboratório de inteligência artificial voltado para a agricultura familiar. O projeto, fruto de colaboração entre o Instituto Nacional do Semiárido (INSA) e a Universidade Agrícola da China, pretende desenvolver ferramentas tecnológicas aplicadas à realidade do pequeno produtor: sistemas de previsão climática, sensores para manejo da água, inteligência de plantio e colheita, entre outras inovações ainda raras no Brasil rural. 

Maria Gomes é militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e coordenadora do projeto de mecanização. Ela diz que parceria simboliza uma chance de corrigir uma injustiça histórica e que a agricultura familiar no Nordeste foi empurrada para o atraso pelas políticas públicas que nunca chegaram por completo. Num território onde só 3% da produção é mecanizada, a ausência de máquinas muitas vezes pode determinar se o agricultor continua no campo ou precisa deixá-lo. Ela reforça que a mecanização não pode caminhar sozinha: precisa estar integrada à agroecologia, à produção de bioinsumos e ao fortalecimento das políticas públicas. E conclui que a chegada das máquinas diminui a penosidade do trabalho, amplia a produção e talvez abra caminho para que mais jovens queiram ficar no campo. 

Tang Xu
Foto: Tang Xu

Enquanto isso, no cenário internacional, o tarifaço do presidente norte-americano Donald Trump age como um lembrete das fragilidades do Brasil diante das políticas protecionistas dos Estados Unidos. Embora as tarifas afetem diretamente commodities como açúcar, café, cacau e carne bovina, e não a agricultura familiar, elas deixam evidente o quanto o país segue vulnerável às oscilações dos interesses externos. Em meio a essas tensões, a aproximação com a China ganha peso não apenas como alternativa comercial, mas como porta para uma outra lógica de desenvolvimento agrícola.

Para João Pedro Stedile, dirigente histórico do MST, a agricultura brasileira foi moldada, ao longo das últimas décadas, sob bases determinadas pelo capital norte-americano. Esse modelo priorizou grandes propriedades, monoculturas, dependência de insumos industriais e exportações voltadas ao mercado internacional. Stedile analisa que a entrada da China representa outro tipo de relação. Se no caso das grandes commodities a presença chinesa ainda está centrada na compra de soja, no semiárido a lógica é distinta: trata-se de fortalecer a agricultura camponesa, voltada ao mercado interno e à soberania alimentar. Isso pode representar o início de um projeto nacional capaz de reduzir desigualdades profundas entre o agronegócio exportador e a produção de alimentos básicos.

Stedile também aponta que as tarifas impostas pelos Estados Unidos ajudam o País a enxergar o quanto é arriscado depender de modelos de produção subordinados a interesses externos. Ele avalia que as máquinas chinesas se integram a um modelo alternativo de desenvolvimento, voltado à produção de alimentos para o povo brasileiro, e não à expansão do mercado global.

Ainda que as tarifas impostas pelos Estados Unidos não atinjam diretamente os agricultores familiares, elas ajudam o Brasil a enxergar o quanto é arriscado depender de modelos de produção subordinados a interesses externos. As máquinas chinesas, ao contrário das tecnologias tradicionais importadas, se integram a um modelo alternativo de desenvolvimento: um modelo que valoriza a produção de alimentos para o povo brasileiro, com preços acessíveis e técnicas adaptadas ao clima e ao solo do Nordeste.

As implicações sociais da entrada dessas tecnologias também são sentidas. Maria Gomes destaca que a juventude rural, muitas vezes desmotivada pela falta de perspectiva no campo, pode se ver mais envolvida com o uso das novas ferramentas. Para ela, a juventude entende rápido essas tecnologias e, quando participa, transforma a comunidade inteira. Mas Maria adverte que a mecanização e a inteligência artificial só terão impacto real se vierem acompanhadas de capacitação, geração de renda, acesso à água, crédito e melhoria das condições de vida.

Para Stedile, não há futuro para o país enquanto continuar dependente do capital estrangeiro. Ele defende um projeto de desenvolvimento baseado na agricultura familiar, apoiado por uma ampla Reforma Agrária e por investimentos em ciência, tecnologia e inovação. Nesse horizonte, a cooperação com a China pode desempenhar um papel estratégico ao permitir avanços em bioinsumos, sementes agroecológicas, energias renováveis e máquinas acessíveis para os pequenos produtores.

A cooperação Brasil-China no semiárido nordestino, portanto, vai muito além da entrega de tratores. Para os movimentos populares, trata-se de um passo importante rumo à soberania alimentar e à construção de um modelo agrícola que não reproduza as desigualdades impostas pelo agronegócio. O objetivo não é depender de importações, mas criar condições para o desenvolvimento de tecnologia própria, fortalecendo instituições públicas e consolidando uma produção voltada à autonomia.

A presença chinesa, somada aos efeitos da disputa geopolítica mundial, transforma o Nordeste em um laboratório vivo de experiências. Nos próximos anos, a região pode se tornar referência na criação de tecnologias adaptadas ao clima semiárido, combinando práticas agroecológicas, conhecimento tradicional e inovação digital. Ao mesmo tempo, a história que se desenrola ali mostra como as decisões tomadas em Washington, Pequim ou Brasília chegam até a vida de quem acorda cedo para plantar feijão, milho, mandioca ou hortaliças.

 

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A nova caneta emagrecedora se popularizou no Brasil.
por
Wanessa Celina
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17/11/2025 - 12h

Por Wanessa Celina

 

O Mounjaro, nome comercial da Tirzepatida, ganhou destaque no Brasil como uma das principais opções para controle do diabetes tipo 2 e para redução de peso em pacientes com obesidade ou sobrepeso associado a doenças. O medicamento, que teve a tenista americana Serena Williams como garota-propaganda nos Estados Unidos, teve sua venda no Brasil crescendo 15,5%, com um custo que chega a variar entre R$ 1.500 a R$ 1.800.

Diferente das canetas emagrecedoras como o Ozempic, que a porcentagem da perda de peso corporal é de 10%, o Mounjaro tem a promessa de perder 20% do peso. Uma das grandes diferenças entre fármacos como o Ozempic, Wegovy, Victoza e o Mounjaro é a substâncias que são análogas. A farmacêutica e professora da USCS, Luciana Vismar, explica que a diferença entre os medicamentos está no tipo de substância. O nosso corpo, principalmente o intestino, produz substâncias chamadas Incretinas, como o GLP-1, que estimula o pâncreas a produzir proteínas, estimula o cérebro você sentir saciado, além de outras funções em sistemas de recompensa cerebral em funções relacionadas ao sistema cardiovascular; o GIP, que estimula a secreção de insulina, além de ajudar a armazenar energia no corpo. 

A Liraglutida (presente no Victoza) e a Semaglutida (Wegovy e Ozempic) são semelhantes ao GLP-1 que produzimos. Já o Mounjaro, que contém Tirzepatida, atua tanto nos receptores de GLP-1 quanto de GIP. Ou seja, ele estimula os receptores de duas moléculas diferentes, as incretinas. Por essa dupla ação, os estudos têm mostrado que o Mounjaro tem um efeito muito mais pronunciado na perda de peso.

Nicoli Ribeiro, é um exemplo de uma experiência positiva na utilização do fármaco para perda de peso. Por recomendação médica, ela utilizou o Mounjaro por ter menos efeitos colaterais e conseguir tratar o seu lipedema. Apesar de algumas reações físicas como náuseas nas primeiras aplicações e intestino preso, que foi regulado com uso de remédios, Nicoli afirma que compraria novamente. 

Nicoli, antes de começar o tratamento com o Mounjaro, já treinava e só manteve os treinos. Entretanto a sua alimentação mudou, com o uso do remédio sua vontade de comer doces e “besteiras” diminuiu. Essa mudança na alimentação, junto com o acompanhamento de um médico, na opinião de Nicole, ajudou bastante na perda de peso. 

Efeitos Coleterais

A ascensão desses medicamentos, exclusivamente do Mounjaro, vem modificando a estética corporal para o que é chamado de “Ozempic Face”, Luciana Vismar explica que essa mudança drástica deve-se a como o medicamento funciona para emagrecimento. Em vez de perder peso só nas áreas que costumam não ser desejadas, a rápida e acentuada perda de gordura leva a perda de gordura em áreas como a face.

Mas não só essa estética modificada preocupa, a perda de peso não é só dada pela perda de gordura, mas também pela perda de massa muscular. Esse que é importante para dar a sustentação do corpo. A perda de massa muscular acarreta no aumento do risco de quedas, reduz o metabolismo basal e, em longo prazo, pode levar ao reganho de peso. “Os estudos têm mostrado em longo prazo com o uso dessas drogas, que é o retorno de um peso até maior do que tinham antes da utilização desses fármacos.”, completa Vismar. 

Neste contexto, a alimentação é fundamental. A utilização do Mounjaro, ou qualquer outra caneta emagrecedora, tem que ser acompanhada por uma mudança no estilo de vida. Essa é a garantia de que esse peso perdido vai ser mantido com a suspensão da droga e a garantia de que não vai haver uma grande perda de massa muscular, atenta a farmacêutica.

Adicionalmente, um dos efeitos observados no uso do Mounjaro é a redução do desejo por hábitos de risco, como o tabagismo. Muitos usuários relatam uma diminuição significativa na vontade de fumar cigarros. Essa alteração de comportamento, ainda está sendo pesquisada por especialistas, “Algumas pesquisas, como na "British Journal of Pharmacology" mostram que agonistas de GLP-1 poderiam atuar nessas áreas de circuito de recompensas de cerebral porque existiriam receptores desse GLP-1 em áreas que controlam esse comportamento de vício”, explica Luciana Vismar. Entretanto, por não haver nenhuma comprovação científica, o medicamento não pode ser  utilizado em pacientes que têm grande consumo de drogas.

A  Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), no dia 25 de agosto, publicou novas regras que dificultam a manipulação de medicamentos  Semaglutida. Essa inversão, explica Vismar,  deu pelo fato de que a patente do Ozempic no Brasil vencer em 2026 e, diante disso, várias indústrias que já estão com sua linha de produção sendo ajustada para produzir medicamentos à base dessa nova molécula, que antes era exclusiva do Novo Nordisk. Vismar explica que o processo de obtenção dos IFAs (insumos farmacêuticos ativos) no Brasil é biológico e que  a molécula do Ozempic, conforme descrito na bula, é produzida por uma tecnologia de DNA recombinante, um processo extremamente elaborado.

No Brasil, a Propranovo Nordis é a única empresa com registro da Anvisa para esse princípio ativo. A agência reguladora não aprova a manipulação de fármacos por outras metodologias, pois não há garantia de segurança e eficácia. Isso se torna um fator limitante para a manipulação de alguns medicamentos. No entanto, o Monjaro (Tirzepatida) não enfrenta essa mesma restrição. Como sua produção não utiliza a tecnologia de DNA recombinante, uma possível manipulação do medicamento não estaria sujeita a essa mesma limitação imposta pela Anvisa.

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Expectativa de Vida no Brasil atinge 76,4 anos; avanços na medicina ditam qualidade de vida
por
Luiza Zequim
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16/11/2025 - 12h

Por Luiza Zequim

 

Leonalino Perez tem 96 anos, uma marca de vida impressionante. Ao contrário da imagem gerada pela junção das 9 dezenas, Leo vai à academia 2 vezes por semana, corta a grama na casa dos filhos, anda pela cidade livremente e ainda se aventura pelo universo da filosofia e dos livros. Prestes a chegar ao centenário, o paulista passou por uma cirurgia para alocação de um stent no coração, procedimento para prevenir a catarata e a retirada do apêndice – a popular apendicite. Atualmente, uma única condição o tira o equilíbrio ocasionalmente: a degeneração macular. A enfermidade afeta ambos os olhos e cercam seu campo de visão. Apesar de lidar diariamente com uma barreira, o uso de tecnologias e procedimentos médicos regulares auxiliam Leonalino em seu cotidiano. 

Esse é um cenário que tende a se repetir nos próximos anos. Embora o acesso a medicina de qualidade não seja igual, o novo índice de expectativa de vida do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) confirma que a população brasileira está vivendo mais – a expectativa de vida ao nascer no país saltou de 71,1 anos em 2000 para 76,4 anos em 2023. 

Ele diz ter muito mais opções de tudo hoje em dia, saúde, respeito, tecnologias que se pode utilizar para benefício próprio. Já na época do seu pai e do seu avô era muito mais restrito essas coisas. Para Leonalino, indubitavelmente, com o que se tem à disposição hoje em dia é muito mais prazeroso viver.

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Leonalino Perez, com 96 anos de idade. Foto: Acervo Pessoal

 

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Evolução da medicina global - Foto: Freepik

Por trás deste novo cenário, há pequenas mudanças essenciais no auxílio ao mantimento da vida. Entre as progressões mais abrangentes estão: o controle de doenças infecciosas e o crescimento de campanhas de vacinação em massa – fator que levou à erradicação ou  controle eficaz de enfermidades como sarampo e poliomielite. 

No campo das doenças crônicas, o desenvolvimento de estatinas para o controle do colesterol, aliado a técnicas de angioplastia, cirurgias de ponte de safena e uma gama de medicamentos anti-hipertensivos, transformou o tratamento de doenças cardiovasculares, que continuam sendo uma das principais causas de morte na região.

O combate ao câncer também fez com que suas taxas de sobrevivência aumentassem significativamente. Terapias como quimioterapia, radioterapia, imunoterapia oferecem novas esperanças aos pacientes. Somam-se a isso os diagnósticos cada vez mais precoces, apontados por exames como mamografias e colonoscopias, que permitem a identificação de tumores em estágios iniciais.  A evolução das tecnologias de diagnóstico por imagem, como a ressonância magnética (MRI) e a tomografia computadorizada (CT scans), foi fundamental para permitir a identificação de problemas de saúde antes mesmo que sintomas severos sejam manifestados.

Maria Beatriz Marcondes Macedo Montaño, geriatra pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e Profa. Dra da faculdade de Medicina de Sorocaba, enfatiza, em entrevista à reportagem, que a medicina preventiva e a promoção de estilos de vida mais saudáveis que vemos cada vez mais nas redes sociais evidenciam o combate a fatores de risco, como sedentarismo, tabagismo, estresse, obesidade e poluição atmosférica, questões que ela descreve como "os vilões para múltiplas complicações". 

 

Envelhecer vs. Envelhecer bem

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Pirâmide Etária Brasileira em 2025 - Foto: Population Pyramid

 

É notório que envelhecer nos dias de hoje, com o auxílio tecnológico e aumento do embasamento científico de centros médicos e hospitais faz com que a comunidade idosa seja melhor atendida e vista com novos olhos. 

Perez conta que no passado, não tinha todas as opções que existem hoje. Mas esse estímulo pela vida, só acontece quando se tem saúde, quando é possível chegar a uma idade avançada com saúde. Existem muitos grupos e atividades que não havia quando era mais jovem. Entretanto, envelhecer por mais tempo traz uma suscita a questão sobre quem sustentará economicamente essa comunidade. 

A inversão crescente da pirâmide etária indica que ao longo dos próximos anos a população brasileira pode enfrentar uma crise monetária e, principalmente, social. Com uma base cada vez mais estreita de jovens e um topo cada vez mais largo de idosos. Essa mudança demográfica traz consigo implicações profundas para a População Economicamente Ativa (PEA) – o contingente de pessoas em idade de trabalhar e que sustenta o sistema previdenciário e os serviços públicos.

 Para Montaño não há dúvidas que na maior parte do mundo, principalmente em sociedades economicamente menos desenvolvidas, a elevação da expectativa de vida não significa qualidade de vida. Prova disso é que duas em cada três pessoas idosas têm uma doença crônica, como artrite, hipertensão, diabetes, cardiopatia, demência entre outras, e as doenças aumentam exponencialmente com a idade e a adesão aos tratamentos não chegam a 50%”.

Embora grande parte da população tenda a enxergar o problema apenas como uma questão econômica, é impossível deixar de lado a face comunitária. O crescimento nos anos de vida é abrangente, mas a melhora da qualidade desse cotidiano para todos não é.  Assim como a maioria das demandas globais, esse avanço enfrenta uma grande barreira: a disparidade social. Muitos cidadãos não contam com plano de saúde, atendimento rápido e eficaz, amparo governamental e previdência social. 

A especialista lembra que apesar dos esforços do SUS, a assistência aos idosos é melhor estruturada no sudeste e sul do Brasil. Além do mais, explica que o envelhecimento se dá ao longo da vida, se ocorreu em condições socioeconômicas precárias, ao chegar na velhice, se for possível, as incapacidades serão muito maiores. 

Além da necessidade de uma análise profunda e social, é importante que também haja uma preocupação com a saúde mental desta parcela da sociedade. Muitas vezes, em razão da época em que cresceram, os sentimentos, dores e ambições de grupos envelhecidos são negligenciados por familiares e profissionais. A geriatra enfatiza que a mudança de mentalidade é necessária no cuidado ao idoso para que em vez de apenas tratar ou prevenir doenças, seja possível promover intervenções que ajudem a prevenir ou postergar o aparecimento de incapacidades e otimizar a habilidade funcional, resultando em um desenvolvimento pessoal contínuo e vida com dignidade.

Para Maria Beatriz é indispensável que o  cotidiano da terceira idade seja repleto de independência e autonomia, quem sabe com um novo ideal, trabalho ou projeto, não apenas anos agregados que antecedem a morte.  Dados estatísticos não refletem amplamente a realidade de nações segregadas. Sem apoio assistência, investimentos na qualidade do atendimento médico, valorização de pesquisas científicas e a criação de olhar equalitário, que atenda as necessidades de cada grupo, não há como garantir que as sociedades vivam mais e bem. 

Se não houver amparo sobre as comunidades menos abastadas, a tendência é que em diversas regiões do país idosos tenham que se manter no trabalho por mais tempo, o Seguro Social não seja capaz de atender financeiramente todos indivíduos e políticas imediatistas sejam criadas como forma de conter o foco da adversidade. 

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