Mostra especial com itens próprios e trajetória do vocalista da banda Charlie Brown Jr. atrai grande público em Santos
por
Ivo de Carvalho
|
05/10/2026 - 12h

A cidade de Santos foi escolhida para receber a exposição Chorão House, entre os dias 26 de agosto e 27 de setembro no Praiamar Shopping. Com acervo histórico de objetos pessoais e ambientes temáticos, uma das grandes atrações está na reconstituição em cenário do próprio quarto do lendário músico. O evento recebeu mais de 12 mil pessoas, de acordo com a Secretaria de Turismo da cidade.

 Grandes bandas foram importantes para a cena do rock nacional nos anos 1990. Porém, pode-se dizer que o Charlie Brown Jr. teve um papel de destaque com suas levadas energéticas, vibrantes e revolucionárias. As letras cantadas pelo vocalista Alexandre Magno Abrão, popularmente conhecido como Chorão, moveram legiões de fãs por todo Brasil. A exposição Chorão House traz uma experiência imersiva para o público. Com objetos pessoais do artista, bonés, guitarras, camisetas de bandas, shapes e medalhas de campeonatos de skate. Campeão de diversas modalidades e etapas, mostrava sempre seu estilo de vida que equilibrava entre a música e a vida em cima das quatro rodinhas. Atividades preferidas que alternava em sua rotina: quando não estava escrevendo letras, poderia estar certamente andando de skate pela orla da cidade de Santos. Especificamente na praia de Aparecida.

(Reconstituição do quarto de Chorão. Fotografia: Ivo Leite)
Reconstituição do quarto de Chorão. Foto: Ivo Leite/AGEMT

Durante a visitação, trechos gravados com sua voz falando de suas histórias de vida estão presentes. Conversas em shows, gravações e risadas. Quase sempre crônicas engraçadas de momentos únicos com amigos e outros músicos ou skatistas. Por exemplo, há um áudio com sua explicação sobre a origem do nome da banda, que foi uma história cômica de uma barraca de cocos. A reconstituição de seu quarto com uma cenografia especial é um dos pontos mais brilhantes da exposição. A tradução da maneira de como  vivia. Sempre intensamente e como se o próximo dia fosse o último. Visivelmente clara a relação apaixonada entre música e skate em seus objetos ao redor de onde dormira diariamente. Andando mais adiante na exposição, encontra-se outra coisa que fazia o coração de Chorão bater mais forte: o Santos Futebol Clube. Camisas feitas pelo próprio clube homenageando o músico em coleções especiais exclusivas mostram a relação afetiva e especial que tinha com o “Peixe da Vila”.

(Ambientação temática sobre sua paixão pelo Santos FC. Fotografia: Ivo Leite)
Ambientação temática sobre sua paixão pelo Santos FC. Foto: Ivo Leite/AGEMT

Chorão morreu em 2013, mas seu legado se mostra  eterno na exposição. Para representar a sua vida nos palcos, a exposição trouxe uma bateria acústica completa e uma guitarra utilizada por ele no videoclipe “Só por uma noite”. Além disso, várias fotos de turnês e com outros artistas parceiros estão presentes. 

Tags:
Segundo volume de “O que separa os homens dos meninos” do rapper aborda temas como saúde mental e amor ao seu filhol
por
Laila Santos
Wanessa Celina
|
30/09/2026 - 12h

Mais de uma década após o lançamento do primeiro volume, Sant volta com  “O Que Separa os Homens dos Meninos, Vol. 2”, lançado em 16 de setembro. Com 11 faixas, o álbum reúne participações de diferentes gerações, como Emicida, KL Jay, Derxan, Duquesa, 2ZDinizz, L7NNON, Bia Ferreira, ADL, Tiago Mac, Céu, Cipriano, Lil Whind, Clara Lima, Pecaos e Nego Damoé.


Como uma continuação da conversa do primeiro volume, Sant explora o seu amadurecimento, a saúde mental, as ruas, os caminhos para conquistar os seus sonhos, o amor ao primogênito e os desafios das periferias brasileiras. A obra também teve uma produção audiovisual lançada antes do álbum, em 7 de setembro. Com esse trabalho, o rapper buscou trazer, cinematograficamente, os sentimentos do álbum, além de homenagear dois amigos mortos em abril deste ano: Kauan "Faraó" de Souza Marques da Silva e Leonardo "KBL" Abrão de Aquino.

cartaz do filme
Cartaz do filme “Isso é Exatamente O Que Separa Os Homens dos Meninos II” (Divulgação: Instagram @aqueminina)

O artista e seu território 


Ser da Zona Norte do Rio de Janeiro, mais especificamente do bairro de Pilares, não é só uma curiosidade de Sant. No curta-metragem, além de muitas imagens, alguns cortes das faixas do projeto e diálogos importantes para o artista, como a dificuldade financeira, a falta de perspectivas nas comunidades, um acontecimento entre ele e seu pai que o tocou profundamente e trouxe uma reação que ele não quer mais encontrar ou ser engatilhado para ter e a cultura e festa do bate-bola. 
Músicas como “Fronteira”, que divide com o cantor de pagode Nego Damoé, e em “Meio”, que divide com o rapper L7NNON e produção de MC Marechal, mentor de Sant no início da carreira, o espaço é o principal personagem da história. A Zona Norte é tratada como um lugar tão sagrado quanto Jerusalém, mas que vive “sob a paz da Síria”, que vive em constante instabilidade após o fim da guerra civil.


Se o primeiro trabalho dessa futura trilogia registrou a revolta, as perguntas, a mágoa e o começo da construção de carreira, em “Meio”, mostra o homem que ele se tornou, agora, pai, com algumas perdas e ganhos no caminho e com a mentalidade de revisitar o passado e olhar para o presente conjuntamente sem a necessidade de se autojustificar, ver as mudanças e entender que já não é mais o mesmo. Sant, que se denomina “filho do meio”, observa os males dos mais velhos e dos mais novos, ele entende que o medo é o empecilho nas ruas. 


Na parte de L7NNON, que cresceu na Zona Oeste do Rio de Janeiro, quando percebe as semelhanças entre as duas zonas, ele traz o entendimento de que o que separa os homens dos meninos nas duas regiões é ver que não importa quanto corra atrás de um sonho, ainda não está perto. L7 vê que para viver no território o dinheiro é indispensável, mas vencer nem sempre é ser o primeiro.  


“Tеrapia é pra quem não tem conta pra engolir choro”


Um fator importante para a trajetória de Sant, tanto pessoal quanto artística, e que está bem presente no disco de ponta a ponta, é a saúde mental. Para o compositor, esse tema foi excepcional para o seu amadurecimento e evolução para esta nova era.  Na segunda faixa do álbum, “Sobrevivente”, Sant aborda a saúde mental, ou melhor, a falta dela em pessoas periféricas. Na música, sobreviver é mais importante do que pensar no bem-estar psíquico. Sant questiona como demonstrar vulnerabilidade mental quando se aprende que não se pode desistir. Na música, Sant rima “Não finjo ser forte, eu tive de ser a força/ Porque o que dignifica a honra é somente o esforço, né?”.


Entretanto, logo que a faixa acaba, surge o “Interlúdio (estratégia mental e emocional de libertação)”, em que Cipriano pensa em outra forma de ver a saúde mental de pessoas negras em um país que historicamente mata, explora e vive do suor e sangue da população negra. O que o terapeuta mostra é que não basta a população negra sobreviver, que é necessário, por meio  da terapia, encontrar margens para a libertação. 


Onze anos depois, vem o amadurecimento


Em “O que separa os homens dos meninos 2”, faixa principal em colaboração com o rapper Emicida e com a produção de LP Beatzz, Sant traz a continuação da sua música “O Que Separa Os Homens Dos Meninos Vol. 1”, lançada em 2015. Onze anos depois, o artista mostra um olhar mais amadurecido sobre sua relação familiar, relação consigo e seu trabalho. Mais calmo e menos autopunitivo, Sant agora é o adulto olhando para o percurso de sua vida.

Capa do álbum do Sant
Capa do álbum “O Que Separa Os Homens dos Meninos Vol.2”  (Divulgação: Instagram @originalsant)


Sant usa a ideia de que era um incendiário e se tornou bombeiro. Esse trabalho nos mostra outra linha de raciocínio: o amadurecimento do rapper. Ainda em busca de respostas e trazendo novos questionamentos sobre o nome do álbum, o artista troca a revolta da primeira parte por paternidade, saúde mental e perdão, a partir dos acontecimentos pessoais nesse intervalo entre os dois ”mundos”. 


Com referência a artistas mulheres brasileiras, Emicida complementa a música afirmando que o seu rap é uma forma de lançar à periferia a ideia de sonhar. O paulista, por fim, lembra que um homem, na verdade, é o resultado daquilo que fizeram com um menino. 


Sant, Pecaos, 2ZDinizz, Duquesa, ADL e Clara Lima se juntam para fazer a sétima faixa do álbum, “Corre”. Na música, o amadurecimento é contado com a história pela perspectiva dos outros rappers. Nas rimas, o tema principal é o movimento. “Só que parar também é movimento”, a letra toca numa realidade não restrita aos artistas, mas uma realidade vista muitas vezes na periferia, onde se movimentar é uma das principais regras para nunca ser “devorado” pelo mundo.


“Esse é meu testamento, as outras cartas são rascunhos”


“Cartas de Amor”, quinta faixa do álbum, mostra uma versão mais apaixonada de Sant. Escrita como uma carta para o seu filho, Arthur, a faixa exprime sua vontade de ser alguém melhor para o filho. Como um testemunho, os versos mostram a delicadeza com com que o amor pelo primogênito mudou as escolhas de sua vida.
 

Rapper Sant posando para foto
Rapper Sant em foto de divulgação do álbum “O que Separa Os Homens dos Meninos Vol.2”. Foto: Ciro Neves/Divilgação

“Ônus”, a última faixa do álbum, é mais do que um pós-crédito. Mais do que um mero agradecimento, Sant termina o curta e o álbum agradecendo a pessoas importantes para a realização do curta e fazendo fazendo uma declaração a moradores e moradoras de bairros da Zona Norte. Ônus vem como uma “lição de moral”, assim como nos contos infantis, mostrando que ainda não é o fim de uma história em constante movimento.
 

Tags:
Cineasta responsável por “A Batalha do Chile” sofreu uma parada cardiorrespiratória
por
Enrico Peres
|
17/09/2026 - 12h

Na madrugada da última terça-feira (15), o documentarista chileno Patrício Guzmán faleceu após uma parada cardiorrespiratória. O cineasta estava internado em um hospital em Paris, cidade em que residia. 

Guzmán é reconhecido como um dos grandes nomes do cinema documental na América Latina, e ficou marcado principalmente por seus trabalhos relacionados à ditadura militar chilena, iniciada em setembro de 1973. Entre suas obras, a de maior destaque foi “A Batalha do Chile”, filme dividido em três partes que documenta o final do governo de Salvador Allende, a pressão opositora financiada pelos Estados Unidos e o golpe que pôs fim à utopia que chegara ao poder pelas urnas. Inicialmente, a ideia do documentário seria a de acompanhar o terceiro ano de governo da UP, a Unidade Popular. O filme, cujas filmagens foram iniciadas em 1972 até depois do golpe de estado, foi montado como uma trilogia em que cada parte retrata diferentes aspectos da organização popular e do golpe. 

A primeira parte, intitulada de “A insurreição da burguesia”, apresenta o cenário das eleições parlamentares no país e as tentativas falhas da burguesia chilena de derrubar o governo de Allende. A segunda, “O golpe de Estado”, segue mostrando os prelúdios da derrubada até culminar no dia 11 de Setembro de 1973, com o golpe e a morte de Allende. A última parte, “O poder popular”, foca nos movimentos sociais do país antes e depois da tomada do governo. Guzmán foi exilado e teve que finalizar o filme em Cuba.

Mais tarde em sua filmografia, o documentarista procurou produzir seus filmes sobre o período ditatorial no Chile, como em “Nostalgia da Luz”, em que acompanha mulheres que procuram corpos de seus parentes mortos pela ditadura. Na biografia de “Salvador Allende”, ele parte de uma perspectiva de revisitação, isto é, produz um cinema de memória, nomeado pelo próprio Guzmán como Cinema Testemunhal.

Patricio Guzmán seguiu fazendo filmes até 2022, quando lançou sua última obra, “Meu país imaginário”, que registra os protestos em Santiago, capital de seu país, mirando o futuro da democracia chilena.

 

Tags:
Com quase sete décadas de carreira, cantora morreu após enfrentar um câncer nos últimos meses
por
Luis Henrique Oliveira
Natália Matvyenko
|
28/08/2026 - 12h

A cantora e compositora americana Dolly Parton morreu aos 80 anos nesta terça-feira (25), no hospital Vanderbilt-Ingram Cancer Center, em Nashville, Tennessee, nos Estados Unidos. A informação foi divulgada nas redes sociais da artista por um vídeo de seu sobrinho e chefe de segurança, Brian Seaver: “Esse anúncio em vídeo é algo que Dolly me pediu há anos, antes que eu tivesse absorvido totalmente como uma realidade no futuro. [...] Dolly viveu na luz e está nos braços de Jesus, certamente recebida por Carl [Thomas Dean], seus pais e inúmeras outras pessoas que a observaram e ansiaram por encontrá-la nos céus”

Em comunicado para a revista People, a assessoria da artista revelou que Parton havia recebido um diagnóstico de câncer nos últimos meses, travando uma “breve batalha” contra a doença, e passou os momentos finais cercada da família e amigos. Mais detalhes não foram revelados. 

Em maio, a cantora cancelou uma série de shows que faria em Las Vegas para focar em sua saúde, que estava debilitada desde a morte de seu marido, Carl Thomas Dean, em março do último ano.

Cantora country Dolly Parton sorrindo em frente à bandeira americana.
Dolly Parton é a terceira mulher com mais indicações na história do Grammy. Foto: Instagram/@DollyParton

Conhecida por suas perucas loiras, voz única e figurinos extravagantes, Dolly construiu uma carreira de quase sete décadas marcada por hits como “Jolene”, “9 to 5” e “I Will Always Love You”, eternizado na voz de Whitney Houston em 1992, acumulando um total de 11 Grammys, além de indicações ao Oscar, Emmy e Tony.

Nascida em janeiro de 1946, em uma cabana de apenas um cômodo às margens do rio Little Pigeon, Dolly Rebecca Parton era a quarta entre 12 filhos de dois agricultores sem terra e cresceu em situação de extrema pobreza rural. Sem acesso a energia elétrica ou encanamento, a mãe costurava seus vestidos com restos de pano, experiência que resultou na canção “Coat Of Many Colors”. “Essa música significa muito para mim de tantas maneiras e por tantos motivos. É mais uma filosofia do que uma música”, explicou em entrevista para a Rolling Stone, em 2021.

Sua entrada no mundo artístico aconteceu em 1959, aos 13 anos, influenciada pela família que possuía fortes raízes musicais. Contudo, foi apenas em 1967 que sua ocupação atingiu um novo patamar, quando integrou a equipe do programa do cantor Porter Wagoner e firmou uma parceria com este, resultando em 13 álbuns de estúdio antes da separação oficial.

Em 1980, Parton resolveu se aventurar nas telonas, marcando sua estreia como atriz na comédia Como Eliminar Seu Chefe (9 to 5, dir. Colin Higgins). O filme rendeu para a musicista três indicações ao Globo de Ouro por sua atuação como a secretária Doralee Rhodes e uma indicação ao Oscar em Melhor Música Original pela canção homônima 9 to 5.

Dois anos mais tarde, renovou a parceria com Higgins e integrou o elenco do musical A Melhor Casa Suspeita do Texas (The Best Little Whorehouse in Texas) como a protagonista Mona Stangley. O papel lhe trouxe outra indicação ao Globo de Ouro em Melhor Atriz em Comédia ou Musical. Após isso, sua filmografia foi ganhando novos títulos como Rhinestone: Um Brilho na Noite (Rhinestone, dir. Bob Clark), em 1984, e o romance "Flores de Aço" (Steel Magnolias, dir. Herbert Ross), em 1989.

Cantora country Dolly Parton sorrindo em frente um fundo azul, usando roupas verdes e unhas pintadas de vermelho
“I Will Always Love You” foi o primeiro single de Dolly Parton à chegar no topo das paradas country. Foto: Instagram/@DollyParton

Muito mais do que apenas uma figura do entretenimento, Dolly Parton também era reconhecida por seus projetos filantrópicos. Em 1988, criou a Fundação Dollywood, instituição que tem como intuito reduzir a evasão escolar e incentivar a educação infantil. Alguns anos mais tarde, começou a financiar o projeto Dolly Parton's Imagination Library, que envia mensalmente livros de forma gratuita para crianças com até cinco anos.

Mas seu feito mais conceituado veio durante a pandemia do COVID-19. Em 2020, a cantora doou US$1 milhão para o Centro Médico da Universidade Vanderbilt, em Nashville, ajudando a financiar as etapas primárias da vacina produzida pela farmacêutica Moderna.

A notícia sobre seu falecimento provocou uma onda de homenagens entre fãs e artistas. Dentre eles, nomes como Taylor Swift, Miley Cyrus, Stevie Nicks, Paul McCartney e Beyoncé prestaram seus tributos à Dolly nas redes sociais, destacando a admiração que sentiam e sua importância, tanto para a indústria cultural quanto para as causas sociais.

Miley Cyrus, afilhada de Parton, publicou uma despedida emocionada, afirmando que os momentos mais especiais com sua “tia Dolly” permaneceriam privados “por trás do glamour e guardados entre nossos corações”.

“O que eu sei é que Dolly gostaria que eu sentisse tudo isso, escrevesse uma música sobre isso e depois seguisse em frente, sendo forte. Tenho um anjo ao meu lado. Sempre tive. Uma das nossas últimas conversas foi sobre música e metamorfose.”

Miley Cyrus e Dolly Parton, respectivamente, sorrindo em foto
Dolly Parton fez participação especial em Hannah Montana, série protagonizada por Miley. Foto: Instagram/@mileycyrus

Consciente de seu legado, Dolly Parton ainda possui uma última música para ser lançada futuramente, em 2046, quando fizer 100 anos. Intitulada “My Place in History”, a faixa está enterrada em uma caixa de madeira no hotel Dollywood Dreammore Resort e contém cópias físicas em CD e fitas cassetes, junto de aparelhos próprios para ouvi-la.

“Eu tive que escrever essa música que ninguém ia ouvir até então. E eu te digo, você não tem ideia de como isso me incomodou. Eu quero muito desenterrá-la e pensar: 'Bem, eu preciso usar essa música', porque ela é... é uma música muito boa.”, explicou.

Tags:
Paróquias da cidade têm programação junina, reunindo fiéis e moradores em festas com comidas típicas, brincadeiras e atrações para toda a família
por
Raissa Santos
|
23/06/2026 - 12h

O mês de junho sempre traz consigo o cheirinho agradável do vinho quente, decorações com bandeirinhas coloridas e festividades que movimentam comunidades religiosas por todo país. Em São Caetano do Sul, sete das 11 paróquias que compõem a Forania da cidade preparam quermesses que reúnem fiéis em celebrações marcadas por comidas típicas, música e atividades para toda a família. 

As festividades, que começaram em maio com a quermesse da Paróquia São Bento — já encerrada — se estendem até o fim de julho, tomando conta dos pátios das igrejas espalhadas pela cidade. No Centro, a festa da Matriz Sagrada Família segue até o dia 28 de junho, sempre das 16h às 22h. O cardápio oferece aos visitantes opções clássicas como cachorro-quente, espetinhos, milho-verde, além de bebidas típicas como quentão, vinho quente e o tradicional chá do padre. 

No bairro Jardim São Caetano, a Paróquia Santo Antônio também segue com a quermesse até o dia 28, quando realizará o seu tradicional bingão. Voluntária desde 2023, Milena Drudi, de 22 anos, destaca que participar da organização da festa é uma experiência desafiadora e divertida ao mesmo tempo. Neste ano, após deixar a coordenação da barraca das brincadeiras, ela passou a colaborar em diferentes setores da quermesse. Segundo ela, a mudança permitiu conhecer novas funções e ter mais contato com o público. “Foi muito divertido trabalhar como voluntária e também exercitar minhas habilidades sociais. A experiência no caixa foi uma das mais desafiadoras e, ao mesmo tempo, uma das mais divertidas”, conta. 

Já a Paróquia Nossa Senhora da Candelária, no bairro Cerâmica, mantém sua quermesse até o dia 5 de julho, oferecendo ao público as tradicionais barracas de comidas típicas e um ambiente de confraternização para a comunidade. O mesmo acontece na Paróquia São João Batista, que também segue com sua programação até 5 de julho, mantendo seu tradicional bingo e reunindo fiéis e moradores para celebrar o período junino. 

Domitila Barbosa, de 15 anos, conta que frequenta a São João Batista com a família desde 2008, e participa da barraca do bingo junto de seu pai desde que ele assumiu a coordenação em 2018. “No nosso bingo, quase todo final de semana, temos uma rodada que sorteia um bicho de pelúcia gigante e as crianças ficam super animadas pedindo para os pais participarem do bingo”, destaca.

Frequentadores em bingo da Paróquia São João Batista. Foto: Reprodução / Instagram Paróquia São João Batista SCS
Frequentadores em bingo da Paróquia São João Batista. Foto: Reprodução / Instagram Paróquia São João Batista SCS 

Na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, as festividades acontecem até o dia 5 de julho, das 18h às 22h. Além das comidas e bebidas típicas que marcam as quermesses, a paróquia preparou atrações especiais para o público. Entre os destaques estão o posto de troca de figurinhas e um telão que transmitirá os jogos do Brasil na Copa. Heitor Souza Móda, de 15 anos, frequenta a paróquia desde os 10 anos de idade e esteve na quermesse durante o jogo do Brasil contra o Marrocos ao lado dos amigos do grupo de jovens. “É um ambiente gostoso que podemos conviver, é legal ver o jogo com a família, mas com todo o pessoal aqui e as comidas, tudo fica melhor” contou ele. 

Foto 2
Quermesse da Paróquia Nossa Senhora Aparecida. Foto: Jaqueline Borges

Encerrando a programação, a Paróquia Nossa Senhora das Graças realiza sua quermesse até o dia 26 de julho, sempre das 18h às 22h. Além dos tradicionais lanches, doces e bebidas típicas, a festa também incorporou ao cardápio opções de tempurá de legumes e camarão, oferecendo um diferencial gastronômico aos visitantes.

Com opções espalhadas por diferentes bairros e datas que se estendem até o final de julho, às quermesses de São Caetano do Sul surgem como uma oportunidade para reunir a família, estreitar laços e fortalecer a convivência comunitária, mantendo viva uma das tradições mais populares do calendário brasileiro.

Tags:
O Brasil é pioneiro na criação de um medicamento que regenere a medula óssea de pacientes
por
manuela schenk scussiato
|
03/11/2025 - 12h

Por Manuela Schenk

 

Não fora uma sexta-feira qualquer para Júlia. A caminho do ponto de ônibus para voltar para sua casa após um dia de aula na faculdade um motorista embriagado atropelou-a e fugiu sem prestar socorro que mudou sua vida para sempre quando tinha apenas 19 anos. Júlia teve lesões nas vértebras T8, T9 e T10 que a deixaram paraplégica depois de cinco dias em coma quando recebeu a notícia de que jamais andaria novamente.

Hoje Júlia tem 22 anos e teve que reaprender a viver. Coisas que jamais imaginou ter dificuldades agora são grandes conquistas, como quando conseguiu tomar banho sozinha pela primeira vez ou quando pode se deitar na própria cama sem auxílio. Escadas se tornaram rampas, seu restaurante favorito virou delivery, já que não possui acessibilidade para que ela consiga entrar na cadeira de rodas. As festas que frequentava semanalmente agora são eventos anuais, pois a locomoção dentro de uma balada é quase impossível para alguém que não consegue usar as próprias pernas.

No início se adaptar parecia impossível, noites mal dormidas quando chorava no travesseiro até seus olhos cederem. Depois de receber alta do hospital ela foi encaminhada para terapia, consultas três vezes por semana que depois de dois anos se tornaram duas. A fisioterapia que antes era uma tortura aos poucos se tornou um momento divertido.

Nos anos que se passaram Júlia conheceu mais pessoas na mesma situação que ela e de pouco a pouco sua nova vida se tornou mais tolerável, mas mesmo depois de quase 4 anos do acidente ela ainda tem dias ruins, sua autoestima nunca mais foi a mesma já que por muito tempo não conseguia se arrumar como antes. Júlia conta que o momento mais difícil da vida dela foi descobrir que seu caso não tinha cura. Sem possibilidade de tratamento ou cirurgia, uma menina que antes era ativa, amava se exercitar, sair com suas amigas, passear com sua cachorrinha, agora se vê forçada a reaprender a viver.   

É possível perceber as dificuldades que marcam a vida das pessoas que são afetadas pela paraplegia. Infelizmente muitos casos não são reversíveis, mas graças a estudos de um grupo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o mundo pode estar mais próximo de encontrar uma cura para uma deficiência que interrompe a vida de tantas pessoas.

A pesquisa, desenvolvida no Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, representa um marco para a medicina brasileira. O medicamento experimental chamado Polilaminina foi criado a partir de uma proteína natural da placenta humana, capaz de estimular a regeneração das células nervosas. Em estudos com animais, especialmente cães que haviam perdido os movimentos, o tratamento apresentou resultados impressionantes: alguns conseguiram voltar a andar mesmo após anos de paralisia. Esse avanço chamou a atenção da comunidade científica internacional e fez com que o Ministério da Saúde e a Anvisa classificassem o estudo como de prioridade absoluta no País.

A equipe liderada por Tatiana Sampaio começou o estudo da eficiência polilaminina para promover a regeneração de fibras nervosas/axônios e reconectar áreas lesadas da medula espinhal começou em 2007, embasado em outro estudo da faculdade que iniciou em 1998. São quase três décadas de trabalho árduo que trouxeram a equipe ao sucesso que é exposto para o mundo hoje, com seis dos oito pacientes humanos recuperando, parcial ou completamente, os movimentos que lhes foram tomados. 

Além dos testes clínicos em andamento, o projeto da UFRJ tem recebido apoio de instituições públicas e privadas, como o Laboratório Cristália, que colabora na etapa de desenvolvimento farmacêutico e produção em larga escala da substância. O próximo passo dos pesquisadores é a realização de estudos em uma quantidade maior de voluntários, o que permitirá avaliar com mais precisão a segurança e a eficácia do medicamento. Caso os resultados se confirmem, o Brasil poderá ser o primeiro país a oferecer um tratamento realmente regenerativo para lesões medulares, uma conquista inédita na história da ciência.

Para Júlia e milhares de pessoas que convivem com a paraplegia, essa descoberta reacende uma esperança que parecia perdida. Mesmo que o caminho até a cura ainda seja longo, cada passo da pesquisa representa uma vitória contra a limitação imposta pela lesão medular. A história de Júlia mostra a força de quem se reinventa diante da adversidade. O que a ciência da UFRJ faz agora é provar que o impossível pode estar mais perto do que se imagina. Aquilo que antes era apenas sonho, agora começa a ganhar forma nas mãos de pesquisadores brasileiros dedicados a devolver o movimento e com ele a liberdade a tantas vidas interrompidas.

Com jornadas mais longas e ganhos instáveis, cresce o número de pessoas que fazem dos apps seu principal meio de sustento
por
Tamara Ferreira Santos
|
17/11/2025 - 12h

Por Tamara Ferreira

 

Nicolas pilotava sua moto pelas ruas de São Paulo e a única coisa que o importava era o vento batendo no rosto. Aos 22 anos, o entregador do iFood aprendeu a gostar da cidade de um jeito diferente. Com o céu cinza da cidade, pelas ruas estreitas e pelo vai e vem de pedidos que, para ele, significam liberdade. “Gosto de sentir o vento”, repete, como quem encontra no movimento uma forma de vida. Mas, neste ano, a rotina ganhou outro ritmo. Além das entregas, Nicolas passou a trabalhar com carteira assinada. O contraste entre os dois mundos opostos,  o fez analisar os lados diferentes, em um deles, ele ter patrão, um horário fixo e salário mensal, mas quando fazia apenas entrega, não tem uma pessoa cobrando, uma equipe ou meta.

A realidade de Nicolas não é isolada. Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na última quinta-feira (17), o número de trabalhadores de plataformas digitais cresceu 25% em dois anos. De acordo com a pesquisa, no terceiro trimestre de 2024, cerca de 1,7 milhão de pessoas utilizaram o trabalho por aplicativos como principal fonte de renda. O rendimento médio mensal desse grupo foi de R$ 2.996, valor acima da média do mercado, embora essas pessoas trabalhem, em média, 5,5 horas a mais por semana. O levantamento identificou quatro tipos de aplicativos usados como fonte de renda: transporte particular de passageiros (exceto táxi), entrega de comida e produtos, plataformas de serviços gerais ou profissionais e aplicativos voltados para taxistas.

Enquanto Nicolas tenta equilibrar os dois empregos, pensando única e exclusivamente em ter os benefícios garantidos, uma nova geração já observa o trabalho de longe com um estranhamento incomum.

Homem trabalhando de bicicleta para o IFood. Foto: Reprodução
Homem trabalhando de bicicleta para o iFood. Foto: Reprodução

Recentemente, o número de adolescentes que rejeitam a ideia de trabalhar com carteira assinada cresceu. Em um vídeo publicado no TikTok, a influenciadora Fabiana Sobrinho, mais conhecida como Fabi Bubu, aparece ao lado da Valentina, sua filha de 12 anos, que afirma não querer ser CLT para não precisar “andar de ônibus” ou estar “em um ambiente com muitas pessoas e com um chefe mandando nela”.

Enquanto Valentina pensa assim, José Carlos, de 68 anos, formou-se em Economia, mas, como não conseguiu emprego na área, passou a trabalhar com corridas de táxi, de forma autônoma. Nas ruas desde 1989, ele tem diabetes e, mesmo não podendo ficar muito tempo sentado, já chegou a trabalhar 30 horas seguidas, porque, apesar de estar aposentado, o dinheiro que recebe não é suficiente para suprir suas necessidades — como contas médicas e despesas diárias. As dores na perna são constantes, mas José relata que trabalha muito por necessidade, para poder arcar com as suas despesas, comer e comprar os remédios que precisa. No último domingo, foram 16 horas sem descanso. O dinheiro da aposentadoria não dá para remédios, contas, comida. Sentar por tantas horas agrava sua condição, mas parar não parece uma opção.

Entre correrias e recibos, José vive o oposto da liberdade que atrai Nicolas e em um “tão tão distante” em relação ao mundo que Valentina imagina estar. A rotina dupla de Nicolas tem aumentado o cansaço.  O jovem revelou que sua rotina anda mais estressante e menos lucrativa, sendo cansativo trabalhar em dois empregos. Apesar de ainda achar que, com as entregas, pode ganhar mais, já que quanto mais produz, mais recebe, hoje ele enxerga no trabalho com carteira assinada uma maior estabilidade, por saber que tem direitos garantidos e um salário fixo. Mesmo gerando certa ansiedade por ser um valor menor do que o que recebia apenas com as entregas, o modelo CLT lhe traz conforto e segurança. Esse foi, inclusive, um dos motivos pelos quais Nicolas decidiu aceitar um emprego de carteira assinada e manter as entregas no restante do dia.

Entre as diferentes gerações, expectativas e necessidades, o trabalho segue se reinventando, para uns por por prazer, para outros por sobrevivência — alguns fazem por liberdade, outros por urgência.

Local de ensino, pesquisa e mobilização social para a conservação do cerrado em Ituiutaba
por
JESSICA AMANDA CASTRO
|
17/11/2025 - 12h

Por Jessica Castro

 

A cidade de Ituiutaba - MG guarda, bem ao lado do campus da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), campus Pontal, um tesouro ambiental. O Parque Municipal Doutor Petrônio Rodrigues Chaves, mais conhecido como Parque do Goiabal, é um dos últimos refúgios do cerrado em meio à malha urbana da cidade localizada no Triângulo Mineiro. Criado em 1977 para preservar a fauna, a flora e as nascentes da região, o parque hoje cumpre um papel que vai muito além da recreação: tornou-se um laboratório vivo para o ensino, a pesquisa e a extensão universitária.

Com cerca de 37 hectares, o Goiabal abriga uma rica diversidade de espécies nativas e cumpre um papel essencial na regulação do microclima urbano. O local já viveu dias de intensa movimentação: nos anos 1980 e 1990, era ponto de encontro para famílias e abrigava quadras, lagos e até um pequeno zoológico. Mas o tempo e a falta de manutenção por parte da gestão do município de Ituiutaba transformaram o cenário. O parque, abandonado, enfrenta atualmente diversos desafios como o avanço de moradias para dentro de sua demarcação, queimadas e poluição.  

Foi nesse contexto que a comunidade acadêmica percebeu o potencial científico do espaço. Professores e alunos da UFU, campus Pontal, começaram a utilizar o parque para aulas de campo, levantamentos ambientais e pesquisas científicas sobre o cerrado urbano. Aos poucos, o Goiabal ressurgiu como uma sala de aula a céu aberto.

Essa conexão com o local envolve cada pessoa que resolve estudar seu ambiente. O parque, hoje categorizado como APA pela Prefeitura, tem uma aparência clara de cerradão. Árvores grandes que hora se adensam, hora se esvaem em pequenas clareiras que servem de lar a uma comunidade pequena de macacos-prego, que já são levemente habituados com a presença humana.

A proximidade física entre a UFU e o parque é simbiótica. Separados apenas por uma rua, os dois espaços se complementam. Estudantes de Ciências Biológicas, Geografia e Química realizam ali desde monitoramentos de solo e vegetação até estudos de biodiversidade, erosão, fungos e musgos. Trabalhos de conclusão de curso e iniciações científicas utilizam o parque como base empírica, contribuindo para a produção de dados locais e para o fortalecimento da consciência ambiental na região.

Mais do que um campo de estudos, o Goiabal virou um símbolo de resistência: um espaço onde a ciência se entrelaça à comunidade, e o cerrado, tão ameaçado no Triângulo Mineiro, encontra defensores apaixonados. Em 2018, um grupo de alunos da UFU decidiu transformar o incômodo em ação. Nascia o Coletivo Goiabal Vivo, uma rede de voluntários comprometida em reativar o parque como espaço de educação ambiental e mobilização social.

A bióloga formada pela Universidade Federal de Uberlândia e membro fundadora do coletivo, Karen Evangelista Marques, fez parte do grupo durante 7 anos e neste tempo, lutou com os demais integrantes para chamar atenção à importância do parque para a comunidade. Karen relembra como foi o primeiro momento do coletivo: no início, em 2018, houve uma forte conexão entre as pessoas. Todos ansiavam pela reabertura e reestruturação do Parque do Goiabal e, a partir da iniciativa, surgiu uma aliança de amizade. O grupo passava horas e horas da semana pensando e planejando formas de desenvolver atividades de cunho ambiental que chamassem a atenção do público, ao mesmo tempo em que se reuniam nas casas uns dos outros para momentos de lazer e entrosamento. Era a partir desses encontros que as ideias surgiam.

Entre as atividades, os membros realizam mutirões, trilhas educativas, projetos de extensão e oficinas em escolas. Também produziu o documentário chamado “Um Olhar para o Cerrado” (2021), que retrata a luta pela conservação do bioma e o renascimento do parque.

 

 

 

No mesmo ano da produção do documentário, membros do coletivo descobriram que a prefeitura havia feito a recategorização oficial do parque, que agora era considerado uma Área de Proteção Ambiental (APA), categoria que permite o uso sustentável dos recursos naturais. Na prática, isso significa que atividades humanas podem ocorrer no local, desde que respeitem os critérios de conservação e garantam o equilíbrio entre o meio ambiente e a presença das comunidades.

A mudança, porém, trouxe uma flexibilização significativa nas regras de preservação. Diferente da antiga classificação de Parque, que proibia construções e moradias dentro da área, a categoria de APA admite esses usos sob determinadas condições. Karen e os demais integrantes ficaram bastante preocupados na época, pois não havia sido comunicada à população a nova classificação do Goiabal. A designação como APA abriu brechas para que alterações antrópicas fossem realizadas dentro do espaço.  A maior preocupação foi como essas mudanças poderiam impactar a vida silvestre local, especialmente a fauna e a flora.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, MMA, existem doze classificações de Unidades de conservação, UCs, sendo estas divididas em dois grupos: Proteção integral e Uso sustentável. Essas nomenclaturas são o que determinam sobre qual conjunto legislativo de proteção ambiental aquele ambiente estará sujeito.

 

Pandemia

Anos após a pandemia, algo natural ocorreu: os antigos membros do Coletivo seguiram caminhos diferentes, o grupo se desfez e novas pessoas, com ideias e metodologias distintas, passaram a integrá-lo. A principal diferença para mim foram, de fato, as novas direções metodológicas que surgiram, mas sempre mantendo o mesmo ideal.

O Goiabal Vivo tornou-se, assim, um elo entre poder público, universidade e comunidade mostrando que a defesa do meio ambiente é também um ato de cidadania. Os estudos realizados no parque são múltiplos e contínuos. Pesquisas de diagnóstico socioambiental, levantamento de espécies nativas, análise de solo e água e projetos de educação ambiental já renderam publicações e apresentações em congressos científicos.

Em uma das trilhas, é possível observar o contraste entre as árvores retorcidas do cerrado e os muros da cidade que avançam cada vez mais próximos. Esse cenário faz do Goiabal um espaço perfeito para compreender os impactos da urbanização sobre o bioma e para desenvolver estratégias de manejo sustentável em áreas urbanas. O parque é um grande laboratório de ensino-aprendizagem. Ele permite que o estudante veja, toque e sinta o cerrado, algo que nenhum slide poderia substituir. 

Parque do Goiaba, Ituiutaba - MG
Trilha educativa. Foto: Acervo Coletivo Goiabal Vivo

Palco de projetos de extensão, o local é protagonista em ações que envolvem crianças e adolescentes das escolas de Ituiutaba com o objetivo de apresentar para a geração mais nova o potencial ambiental que ali existe. O objetivo é reconectar a comunidade ao território, resgatando a ideia de que o Goiabal é um bem coletivo. Durante as oficinas, os alunos aprendem a identificar espécies de fauna e flora, a reconhecer o valor das nascentes e a entender como o cerrado regula o equilíbrio climático da cidade. Em algumas atividades, o coletivo leva até as crianças frutos secos, jogos educativos como jogo da memória com as espécies existentes no parque e palestras que aguçam a curiosidade científica.

 

Parque do Goiaba, Ituiutaba - MG
Palestra na escola municipal Maria de Barros, 2025. Foto: Acervo Coletivo Goiabal Vivo

 

Apesar dos avanços, o parque ainda enfrenta desafios: falta de infraestrutura, riscos frequentes de queimadas, lixo acumulado e pressões urbanas ao redor. A gestão pública é um dos gargalos. Sem estrutura formal de administração e com nenhuma verba, o parque sobrevive muito mais pela dedicação dos voluntários e da universidade do que por políticas efetivas. Por isso, o coletivo defende a criação de um conselho gestor participativo e a transformação do parque em uma unidade de conservação municipal reconhecida, com plano de manejo e investimentos contínuos.

Incêndio

Em 2024, uma tragédia atingiu o Goiabal em cheio. Na noite de 27 de outubro, uma quarta-feira, ocorreu um incêndio em parte da vegetação do parque, com fortes suspeitas de intencional. Segundo o Corpo de bombeiros e a polícia militar da região, cerca de 15 mil metros quadrados de vegetação foram devastados no processo. O coletivo verificou os danos causados pelo fogo, quase um ano depois do ocorrido, determinando que a situação continua deplorável. Segundo sua análise, várias partes do parque, se encontram amontoadas de lixo e com permanência de animais de cunho doméstico, como cavalos, prejudicando a vida dos outros animais nativos do cerrado. Além da persistência de outros problemas antigos, como a falta de cerceamento do perímetro e o descarte ilegal de carcaça pela área.

Parque do Goiaba, Ituiutaba - MG
Brigadistas e membros do coletivo apagando o fogo. Foto: Acervo Coletivo Goiabal Vivo.

O bioma cerrado constitui cerca de 23% do território nacional segundo a última análise do IBGE. O bioma que percorre o estado mineiro é constituído, em sua maior parte, pelo cerrado, porém com base no último estudo feito pela SEMAD, Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, a taxa de desmatamento do cerrado segue em queda sendo em 2023 duzentos e quatro mil quilômetros quadrados de desmatamento comparados ao índice de sessenta e sete mil quilômetros em 2024. 

Essa queda vem sendo representada há pelo menos seis anos, porém áreas mais afastadas como Ituiutaba acabam não sendo o centro do radar da Secretaria. Entre os animais que vivem ou frequentam o perímetro do parque, se destacam espécies ameaçadas de extinção como, Lobo Guará.

O Goiabal é considerado um dos últimos redutos de vegetação nativa do Cerrado em Ituiutaba, o que o torna um espaço de relevância ecológica e científica inestimável. Em meio a um território cada vez mais pressionado pelo avanço urbano e pela expansão agropecuária, o parque preserva fragmentos de flora e fauna que já desapareceram em outras áreas do município. Sua cobertura vegetal abriga espécies típicas do Cerrado mineiro, árvores retorcidas, gramíneas adaptadas à seca e uma fauna diversa que inclui aves, insetos polinizadores e pequenos mamíferos, configurando-se como um verdadeiro refúgio biológico em meio ao concreto e às plantações.

A importância do parque, porém, contrasta com o histórico de negligência e omissão institucional. Diversos planos e propostas de manejo ambiental elaborados por estudantes e moradores locais seguem sem implementação efetiva, revelando uma distância preocupante entre o discurso oficial de sustentabilidade e as ações concretas de preservação. O abandono do Goiabal é reflexo de uma lógica regional marcada pelo predomínio do agronegócio e da monocultura, setores que moldam a economia do Triângulo Mineiro e frequentemente impõem uma visão utilitarista da terra, reduzindo o valor ambiental a um obstáculo ao desenvolvimento econômico.

Esse contexto evidencia uma disputa simbólica e política em torno do território: de um lado, a perspectiva produtivista que privilegia a exploração do solo e a expansão de fronteiras agrícolas; de outro, a resistência ambiental que tenta manter viva a memória natural de Ituiutaba. Assim, o Goiabal torna-se não apenas um espaço físico de preservação, mas também um símbolo de resistência contra o apagamento ambiental e o silenciamento das vozes comunitárias que lutam pela sua proteção.

Mais do que uma área verde, o Parque Doutor Petrônio Chaves é um espelho da relação entre sociedade, ciência e natureza. É nele que estudantes aprendem sobre o cerrado e cidadãos redescobrem o valor do ambiente natural dentro da cidade, um lembrete de que o cerrado ainda resiste, e que a gente pode resistir junto com ele.

Tags:
O CPF se tornou ferramenta de identificação e registros revelam a perda da privacidade nas redes
por
Juliana Salomão
|
17/11/2025 - 12h

Entre esmaltes, conversas e o som constante das notificações do celular, a profissional de manicure Maria Conceição percebe como o mundo digital exige das pessoas mais do que apenas tempo. Ela comenta que cada compra, seja no supermercado, no aplicativo da farmácia ou em uma loja virtual, envolve uma troca silenciosa. Ao digitar o CPF, os consumidores oferecem informações que raramente sabem como serão utilizadas, permitindo acesso a dados como e-mail, endereço, histórico de consumo e preferências de compra. Para Maria, cada registro é uma troca invisível: uma oferta aqui, um dado pessoal ali. Ela dizia que muitas pessoas inseriam o CPF quase no automático, sem perceber que aquele pequeno gesto revelava muito mais sobre elas do que imaginavam. Comentava que grande parte dos consumidores nem fazia ideia da quantidade de informações que alimentava diariamente, enquanto acreditava estar apenas concluindo uma compra comum.

Ela reflete sobre como o CPF deixou de ser apenas um registro fiscal e passou a se tornar uma das principais chaves de identificação no universo digital. Informações coletadas, armazenadas e organizadas alimentam um mercado bilionário de dados pessoais. Empresas especializadas, conhecidas como data brokers, compram e vendem perfis segmentados por idade, renda, localização, hábitos de consumo e até opiniões políticas.

Os dados obtidos a partir de ações cotidianas, como uma simples compra, se transformam em ferramentas estratégicas para marketing e publicidade, mas também podem moldar decisões importantes na vida das pessoas. Assim, anúncios se tornam mais precisos, campanhas publicitárias mais eficientes, e empresas conseguem atingir públicos específicos. Maria, no entanto, lembra que essa eficiência tem um lado preocupante. Vazamentos, perfis incorretos ou discriminatórios podem influenciar decisões de crédito, oportunidades de emprego e acesso a serviços. Para ela, cada clique deixa rastros que alimentam um poder silencioso, capaz de moldar trajetórias de vida de forma quase invisível.

Em seus atendimentos, ela também costumava mencionar que, se uma simples compra era capaz de revelar gostos e hábitos, outras ações provavelmente forneciam ainda mais detalhes. Para ela, essa sensação constante de estar sendo observada era silenciosa, mas presente, e quase nunca chegava de forma clara ao conhecimento do público. Acrescentava que, quando algum problema de dados vinha à tona, muitas vezes o dano já estava feito.

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) busca equilibrar essa relação, determinando que empresas coletem apenas o necessário e informem claramente para que os dados serão utilizados. A legislação garante direitos de acesso, correção e exclusão de informações, além de prever sanções que podem chegar a 2% do faturamento da empresa, limitadas a R$ 50 milhões. Mesmo com essas regras, Maria percebe que muitas pessoas desconhecem seus direitos e permanecem vulneráveis. Empresas já foram multadas por vender contatos telefônicos para campanhas eleitorais e por comercializar informações sem consentimento. Vazamentos em larga escala, como o da Netshoes, expuseram milhões de registros, mostrando que a vulnerabilidade digital pode afetar diretamente a vida de cidadãos comuns. Cada notícia desse tipo reforça que o que parece banal, como informar o CPF, carrega consequências invisíveis já previstas em legislação vigente. Ela lembrava de casos amplamente divulgados, comentando que, se empresas gigantes tinham dificuldades para proteger informações, as menores estariam ainda mais vulneráveis. Observava que o consumidor confiava nas plataformas sem saber exatamente onde estava pisando, o que tornava essa relação ainda mais frágil.

O Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) complementa a LGPD ao definir princípios sobre privacidade, neutralidade da rede e guarda de registros online, mas especialistas apontam que a fiscalização ainda enfrenta desafios diante da rapidez das novas tecnologias. Maria observa que a ética na coleta de dados é essencial: o consentimento precisa ser claro e informado, evitando que usuários aceitem termos sem compreender totalmente o que estão autorizando. Apenas o estritamente necessário deve ser coletado e tratado com responsabilidade, sobretudo quando eles podem ser usados para outras finalidades. Ela reconhecia que quase ninguém lia os termos de uso e políticas de privacidade. Dizia que ela mesma raramente parava para analisar aqueles textos extensos, o que a fazia questionar se não estava autorizando mais do que deveria ao aceitar rapidamente as condições impostas pelas plataformas.

O uso de dados não se limita à publicidade e ao comércio. Ele se expande para o campo político, influenciando comportamentos e campanhas eleitorais. Nos Estados Unidos, empresas como Twitter e Meta foram investigadas por falhas na proteção de dados e pelo uso indevido de informações em campanhas de desinformação. No Brasil, a regulação busca evitar que práticas semelhantes comprometam a privacidade e a integridade do debate público. A dimensão desse impacto mostra que ações cotidianas, como digitar um número de CPF, fazem parte de um sistema muito maior, que conecta indivíduos e políticas em uma rede complexa de informação.

Durante o episódio do bloqueio da plataforma X, ela comentava que a situação parecia distante, mas afetava diretamente a rotina das pessoas. Observava como a dependência das redes sociais era profunda e como qualquer instabilidade mostrava a vulnerabilidade de trabalhadores e usuários, que dependiam desses espaços para vender, divulgar serviços e se comunicar. Foi o caso do episódio do bloqueio da plataforma X em 2024 que evidencia essa complexidade. A suspensão determinada pelo Supremo Tribunal Federal afetou o fluxo de dados, o mercado publicitário e levantou questões sobre a proteção de informações pessoais armazenadas em servidores estrangeiros. Durante cerca de 40 dias, a plataforma controlada por Elon Musk permaneceu inacessível, mostrando que a dependência de plataformas internacionais pode colocar em risco tanto dados quanto oportunidades de negócios. Mesmo em decisões legais, cada dado armazenado carrega implicações reais na vida de milhões de pessoas.

Cada CPF digitado, cada clique e cada registro digital deixam um rastro invisível que conecta o cotidiano à estrutura global de informações, já que por trás de números e algoritmos, ainda existem pessoas. A tecnologia sem transparência transforma-se em poder silencioso, e a privacidade se torna uma moeda invisível que circula entre empresas, plataformas digitais e cidadãos, exigindo atenção, consciência e reflexão sobre o valor de nossos próprios dados.

No fim de suas reflexões, ela afirmava que o mundo digital exigia aprendizado constante e que a proteção de dados deveria ser uma preocupação diária. Para ela, se as pessoas não se responsabilizassem pelos próprios dados, ninguém faria isso por elas. Acrescentava que, assim como cuidava das unhas das clientes com precisão e cuidado, acreditava que cada pessoa deveria tratar seus dados com a mesma atenção.

Tags:
Entre desafios e avanços, escolas brasileiras reinventam o ensino com tecnologia sem abrir mão do papel do professor.
por
Carolina Hernandez
|
23/11/2025 - 12h

Por Carolina Hernandez

 

No corredor silencioso de uma escola em São Paulo, ainda ecoam lembranças de um tempo em que o giz era soberano. Antes de 2020, a tecnologia entrava na sala de aula apenas de mansinho, um laboratório de informática esquecido no fim do pátio, algumas plataformas de apoio pedagógico que poucos exploravam, um projetor que funcionava quando queria. Era uma educação ancorada no papel, no toque, na presença. Até que o mundo parou, e a escola precisou se reinventar em velocidade de queda livre.

Quando as portas fecharam, a sala de aula se espraiou pelas cozinhas, quartos, varandas e mesas improvisadas pelo país. Professores descobriram o peso de falar para uma tela vazia, estudantes sentiram o cansaço de aprender sozinhos e pais se viram mediadores do impossível. A educação brasileira, de uma hora para outra, atravessou um portal digital para o qual ninguém estava realmente preparado.

Em meio ao caos, brotaram gestos de tentativa e erro. Professores aprendiam a usar plataformas enquanto davam aula, vasculhando botões, tentando compartilhar telas, improvisando explicações quando a conexão falhava. Entre eles, Ana Paula, do Colégio Santo Agostinho, relembra aqueles dias corridos como quem remexe um caderno antigo. Conta que o período parecia um mergulho no escuro: ao mesmo tempo em que descobria novas ferramentas, tentava não perder alunos que lutavam para acompanhar a aula pelo celular emprestado da mãe, com o sinal oscilando na janela.

Aos poucos, a tecnologia deixou de ser muleta e virou parte da rotina. Mesmo depois do retorno presencial, Ana Paula segue combinando lousa e plataforma digital, e encontra na inteligência artificial um apoio para preparar materiais, adaptar atividades para estudantes neurodivergentes e acompanhar ritmos de aprendizado antes difíceis de perceber. A docente, no entanto, insiste que nada disso elimina o papel do professor: o gesto humano, diz ela, ainda é o que dá sentido à tecnologia.

Mas o salto digital expôs um problema que não cabe numa tela: a desigualdade. A pesquisa TIC Educação 2023 mostrou que mais de um terço das escolas públicas enfrenta sérias limitações de conectividade. Em muitas delas, o único ponto de acesso à internet se resume a um roteador frágil que pouco alcança. Há instituições em que o laboratório de informática virou depósito e estudantes seguem tentando assistir a videoaulas pelo único celular da casa.

Enquanto algumas escolas particulares investem em ambientes de realidade virtual e plataformas capazes de simular experiências históricas, muitas escolas públicas seguem à margem dessa revolução. Apenas 58% das instituições urbanas possuem banda larga de qualidade, e boa parte dos estudantes depende de um pacote de dados limitado para participar da aula. A tecnologia, que poderia democratizar, ainda funciona como um filtro social.

Nas universidades, o movimento também se espalha. Pedro Silva, estudante de pedagogia, vive o modelo híbrido todos os dias e afirma que não há mais caminho de volta: quem nasceu conectado espera que a escola dialogue com esse ritmo. Ele vê nas plataformas digitais a chance de personalizar o ensino, acompanhar com precisão as dificuldades de cada aluno e criar trilhas que avancem no tempo de cada um, algo que, no modelo tradicional, exigia uma atenção quase impossível.

Mas o entusiasmo vem acompanhado de alertas. Especialistas lembram que a tecnologia precisa de regras claras, proteção de dados e políticas que garantam acesso igualitário. Lembram também que ela não substitui a mediação pedagógica, nem cria, sozinha, pensamento crítico. A educação, afinal, não é apenas transmissão de conteúdo: é encontro, é vínculo, é interpretação do mundo.

O mercado global segue acelerando, prevendo mais de 400 bilhões de dólares investidos em soluções educacionais até 2030. Mas a pergunta que ecoa nas salas de aula brasileiras é outra: quem poderá acompanhar esse futuro?

A pandemia forçou a porta. O que era emergência virou estrutura. Hoje, a sala de aula não termina mais na parede; ela se estende pela tela, pelo laboratório de realidade virtual, pelo aplicativo que avisa o desempenho, pelo vídeo que explica o que faltou na explicação anterior. Ainda assim, nenhum algoritmo substitui o olhar que percebe o silêncio de um aluno perdido, nem a mão que redesenha uma explicação até que faça sentido.

A educação brasileira segue nesse entremeio, metade digital, metade analógica, inteiramente humana. O futuro já chegou, dizem. Mas ainda precisa aprender a incluir todos que vivem no presente.

 

Tags: