Quanto mais mediado por telas se torna o cotidiano, mais o encontro com o real transforma o teatro em uma experiência intensa e necessária
por
Manoella Marinho
|
30/03/2026 - 12h

A relação da geração atual com o mundo passa, inevitavelmente, pelas telas. Celulares, redes sociais e plataformas de vídeo moldam não apenas a forma de comunicação, mas também a percepção da realidade. “O teatro é o presente, é o agora, é o sentimento”, afirma Marcello Drummond, diretor do Teatro Oficina, em entrevista à AGEMT. A fala sintetiza uma das principais diferenças entre o teatro e as mídias digitais: enquanto a internet permite o acesso ilimitado e instantâneo a conteúdos, o teatro exige presença, tempo e entrega. Isso torna-se ainda mais evidente quando se observa o impacto físico da cena.

“Quando você vê um ator na tua frente […] é uma coisa viva”, diz Drummond. Ao contrário da imagem mediada por uma tela, o corpo em cena carrega falhas, respiração, improviso, entregam elementos que tornam cada apresentação única. É essa imprevisibilidade que intensifica a experiência do espectador. Ao mesmo tempo, o ambiente digital tem produzido uma mudança significativa nos hábitos culturais. “As pessoas têm pouco contato com o que não é vídeo”, aponta o diretor. A predominância do audiovisual transforma a forma como a arte é consumida, muitas vezes reduzindo a experiência a fragmentos rápidos e descartáveis.

Créditos: Manoella Marinho Teatro Oficina

 

Ainda assim, o impacto da tecnologia não é apenas negativo. “O digital […] está fazendo com que os teatros fiquem mais cheios”, observa Drummond, conversando com AGEMT dentro do espaço do Teatro Oficina. O fenômeno revela um paradoxo: quanto mais imersas no virtual, mais as pessoas parecem buscar experiências concretas. A saturação de estímulos, característica do cotidiano online, gera uma espécie de cansaço que encontra no teatro um espaço de pausa e intensidade.

Esse movimento ajuda a explicar por que o teatro provoca um efeito tão marcante na geração atual. “A gente tem contato com tela […] mas o vivo toca muito”, resume o diretor. O impacto não está apenas no conteúdo da peça, mas na experiência sensorial completa: o silêncio da plateia, a proximidade com os atores, a impossibilidade de pausar ou voltar a cena. Historicamente, o teatro sempre se construiu a partir dessa relação direta. Encenações como “O Rei da Vela”, marco do Teatro Oficina, ou montagens contemporâneas que rompem a divisão entre palco e plateia, evidenciam a potência do encontro ao vivo. Ao eliminar a chamada “quarta parede”, essas obras convidam o espectador a participar ativamente, transformando-o em parte da cena.

Nesse contexto, o teatro também reafirma seu caráter político. “O fato de estar em cena já é um ato político”, diz Drummond. Em um ambiente digital marcado pela circulação massiva de discursos, muitas vezes superficiais ou polarizados, o teatro oferece um espaço de reflexão mais profunda, onde o tempo e a presença permitem a elaboração crítica. Por outro lado, a própria internet carrega contradições. “Tem coisas muito boas […] e coisas muito ruins que se espalharam”, reconhece o diretor. Se por um lado ela democratiza o acesso à informação e à arte, por outro amplia a circulação de desinformação e discursos problemáticos. Nesse cenário, o teatro se destaca como um espaço de construção coletiva e diálogo direto. A diferença fundamental está na experiência. Enquanto o digital tende à repetição e à reprodução infinita, o teatro se ancora no instante. Cada sessão é única, irrepetível. É nesse sentido que o impacto se intensifica: o espectador não apenas assiste no automático mas vivencia, estimulando análise crítica e sensação.

Em um mundo em que o contato com o real se torna cada vez mais mediado, o teatro reafirma a importância do corpo, do encontro e da presença. Mais do que sobreviver à era digital, ele parece ganhar novo sentido dentro dela. Um espaço onde o humano, finalmente, deixa de ser apenas imagem e volta a ser experiência.

 

Lei que proíbe uso de celulares entrou em vigor em janeiro de 2025, mas o uso iletrado de inteligência artificial expõe brechas na infraestrutura das escolas
por
Sophia Aquino
|
30/03/2026 - 12h

Há um ano, a proibição do uso de celulares nas escolas brasileiras entrou em vigor. A lei número 15.100/2025, gerou reações diversas de professores e alunos tanto favoráveis quanto contrárias. De um lado, quem defende que o aparelho era uma fonte constante de distração; do outro, quem questiona se banir o celular resolve de fato os problemas de aprendizado. Porém, a lei abre exceção para o uso pedagógico, o que leva a uma outra discussão em relação ao uso da Inteligência Artificial nas escolas.  

Em entrevista à AGEMT,  o estrategista britânico em digital learning, Matt Lovegrove,  discute que “as escolas precisam investir em inteligência artificial (IA). Se eles querem ajudar os alunos a terem o máximo de educação e investir em letramento de Inteligência Artificial, a melhor coisa é fornecer dispositivos one to one (modelo em que cada aluno tem acesso ao próprio  laptop ou tablet)", explica Matt. 

Matt Lovegrove. Fonte: Acervo de fotos pessoal
Matt Lovegrove. Fonte: Acervo de fotos pessoal 

Matt reconhece que nem todas as escolas têm condições de bancar isso. Para esses casos, ele sugere dispositivos compartilhados — e só em último recurso, o uso controlado do celular, restrito a momentos específicos da aula. "Se as escolas forem fazer isso, tem que ser muito cuidadosamente controlado", afirma. Para ele, o celular não deve vazar para os momentos sociais: recreio, almoço, intervalos. A sociabilidade cara a cara, diz ele, é parte essencial do que a escola oferece. No Reino Unido, onde atua, políticas de restrição de celulares coexistem com forte investimento em infraestrutura tecnológica escolar, permitindo que a proibição de dispositivos pessoais não signifique exclusão digital.

No Brasil, a realidade é diferente. Pesquisa do CETIC.br revela que 60% dos estudantes brasileiros já usam inteligência artificial fora da escola, principalmente para realizar tarefas e responder dúvidas. Dentro das escolas, porém, o cenário é de desigualdade: apenas 30,4% das instituições públicas tinham conexão de internet adequada em 2025, contra 54,3% das privadas. Enquanto estudantes de escolas particulares tem mais chances de ter acesso orientado à tecnologia, grande parte dos alunos da rede pública aprende a usar essas ferramentas sozinho, sem mediação de professores e sem nenhum critério pedagógico. 

Guilherme Cintra, diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann, é uma das vozes mais ativas nesse debate. Para ele, o ponto de partida já ficou para trás. "A discussão já não é mais sobre aceitar ou não o uso dessas tecnologias, mas definir limites éticos e seguros para essa implementação", afirmou em artigo publicado pela Fundação Lemann. Cintra também explica o papel dos professores nesse processo de aprendizagem com a I.A em que destaca a capacidade de profissionais de criar uma troca entre os alunos.

"A nossa capacidade de criar e manter relações verdadeiras será o que nos distinguirá das máquinas" diz também Cintra em entrevista a CNN Brasil e acrescenta "Não podemos esperar que os professores assumam sozinhos a responsabilidade de toda essa mudança".

Claudia Oliveira relatou formas de lidar com esse medo da tecnologia de substituição
por
Anna Sofia Carsughi
Olivia Ferreira
|
30/03/2026 - 12h

“A transformação é inevitável: algumas funções mais operacionais tendem a ser reduzidas, mas, ao mesmo tempo, surgem novas carreiras, mais estratégicas e analíticas". Em entrevista à AGEMT, Claudia Oliveira, que trabalha na eCOMEX,  contou, na última semana (24), os desafios ligados ao uso crescente da IA no âmbito do trabalho. A profissional, que está inserida em uma empresa de tecnologia para o comércio exterior, traz diariamente soluções inovadoras para gestão, automação e compliance- e busca, em sua logística, uma maneira de se adaptar às mudanças dessa nova tecnologia empresarialUm estudo feito pela Harvard Business Review em 2023, revelou que inteligências artificiais não substituem nenhum humano, mas os humanos com IA substituirão os humanos sem IA.

Esse artigo expõe que quanto mais as pessoas esperam que as empresas ofereçam experiências perfeitas desenvolvidas por IA, mais os líderes precisarão adotar essas tecnologias em seus negócios. Essas tecnologias cada vez mais estarão presentes no cotidiano de todos os seres humanos e  existirá também uma remodelação dos setores, processos, eficiências e diminuição dos erros humanos. Isso porque quem as adota tem a expectativa de impulsionar cada vez mais a produtividade e a inovação, transformando a dinâmica do mercado de trabalho. 

 

União humanos e IA
Reprodução/ Fia Inteligência Artificial 

 

A substituição dos empregos à medida que as inteligências assumem as tarefas repetitivas é algo discutido pelas grandes empresas, em que certamente existirá mudanças internas que exigirão adaptação das mudanças tecnológicas. A IA está presente não para substituir completamente a capacidade humana, mas sim para completá-la trazendo mais oportunidades de desenvolvimento profissional. "Isso não se trata de eliminação pura e simples, mas de uma migração de competências. O profissional que se adaptar terá oportunidades ainda maiores”, afirmou Claudia.

O crescimento no Brasil

A inserção da tecnologia no mercado de trabalho é um tema que cresce diariamente e não deve ser negligenciado. Discutir o caráter ambivalente das IAS permite uma forma de compreender os seus impactos no cotidiano e as possíveis maneiras para amenizar os seus prejuízos. Se por um lado essa novidade traz uma maior automatização do trabalho, com respostas eficientes às perguntas, por outro lado, substitui grande parte da mão de obra física empresarial. O que entra em discussão é um dilema entre facilidade x temor dentro do mercado de trabalho. 

 

Brasil e o uso da IA
Reprodução/ Lets Go Bahia

O crescimento exponencial das recentes tecnologias vêm surgindo com o desembarque dessa geração tecnológica que se preocupa com resultados rápidos e diversos, na qual as IAs generativas entregam isso de forma acessível e fácil. Para Cláudia, “o interesse das empresas brasileiras por Inteligência Artificial cresce porque ela proporciona ganhos reais de eficiência, escalabilidade e competitividade”.

Essa facilidade dentro do mercado de trabalho pode trazer benefícios como a praticidade e maior produtividade, mas também riscos, como a demissão de trabalhadores devido à automatização de serviços. Apesar disso, ela acredita que o Brasil deva investir em inteligências degenerativas, já que a adoção de tais já é uma realidade presente em grandes potências econômicas globais, tais quais China e Estados Unidos. "Ignorar esse movimento pode significar perda de espaço no mercado global”, relatou ela.

As novas tecnologias substituem determinados tipos de trabalhos, mas indivíduos e empresas que souberem utilizar a IA para ampliar a produtividade e diversificar os serviços ofertados certamente terão vantagens competitivas. Para que esse processo seja levado durante as novas gerações, é necessário que o sistema educacional se adapte para essa nova realidade formando e preparando profissionais qualificados. Para a profissional, não é possível frear o avanço da tecnologia, que cresce diariamente. A fórmula correta seria a da substituição, isso é, o profissional deve usar a seu favor a tecnologia, a partir de uma mudança de postura dentro do trabalho. 

“Funções repetitivas e de baixo valor tendem a perder espaço no mercado de trabalho, mas profissionais que souberem integrar a tecnologia ao seu dia a dia terão grande vantagem competitiva. O ponto central não é temer a IA, mas aprender a utilizá-la como ferramenta para ampliação de capacidades humanas”, diz ela.

Dessa forma, o jeito é aprender a lidar com essa tecnologia, ao desenvolver conhecimentos a seu respeito. Para Cláudia, a melhor forma é investir continuamente em atualização. “Quanto maior o domínio sobre a tecnologia, maior o potencial de utilizá-la como diferencial competitivo. Preparação, curiosidade e adaptação serão determinantes para aproveitar plenamente essa fase de transformação”, falou ela. 

A concentração de infraestrutura nas mãos de poucas empresas de IA amplia impactos climáticos e desafia a integridade de processos democráticos
por
Julia de Sá Ribeiro
|
30/03/2026 - 12h

O avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA) consolidou um oligopólio corporativo que, ao priorizar a busca por uma "superinteligência" utópica, agrava crises ambientais, éticas e geopolíticas no presente. Distante da promessa inicial de emancipação tecnológica, o setor aprofunda a desigualdade, a exploração de dados e a concentração de poder global. 

No Vale do Silício dos anos 1990, a tecnologia era vista como o motor do progresso humano, centrada no empreendedorismo e na genialidade individual, livre de interferências estatais. Contudo, a evolução desse cenário resultou no aprofundamento da desigualdade digital e na consolidação de um modelo neoliberal. Atualmente, a crença de que a inovação resolveria problemas sociais abriu caminho para visões ainda mais ambiciosas, que encaram a IA não como uma ferramenta, mas como um destino civilizatório. 

Pesquisadores como Timnit Gebru e Émile Torres classificam o arcabouço ideológico que guia os atuais líderes tecnológicos sob a sigla TESCREAL (Transumanismo, Extropianismo, Singularitarianismo, Cosmismo, Racionalismo, Altruísmo Efetivo e Longoprazismo). Esse conjunto de crenças normaliza a corrida pela superinteligência como um fim inevitável. O objetivo central dessa vertente deixa de ser a melhoria da condição humana para buscar a sua superação física e mental.  

Na prática, a realidade operacional da tecnologia difere dessas promessas filosóficas. Plataformas de Inteligência Artificial Generativa (IAG), como ChatGPT, Gemini, DeepSeek e Grok, operam com algoritmos focados em tarefas específicas e cálculos probabilísticos. Esses sistemas não possuem compreensão real de significados ou relações sociais. Além disso, a dependência governamental e corporativa dessas tecnologias consolida o controle da infraestrutura global nas mãos de poucas empresas, que se posicionam como guardiãs do futuro. 

Sob a lógica do capitalismo de vigilância, o aprimoramento desses sistemas depende da extração contínua de dados comportamentais. O reflexo imediato desse processamento é a geração de conteúdos hiper-realistas, como deepfakes. O emprego dessa tecnologia para produzir discursos de ódio e notícias falsas tornou-se um dos principais desafios contemporâneos, afetando diretamente o pensamento crítico e a integridade de processos democráticos. 

 

Governador da California, Gavin Newsom. Foto: Sheila Fitzgerald / Shutterstock  

É o impacto prático dessa falta de controle que tem forçado as primeiras reações governamentais. Em 2025, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, promulga lei de regulação para grandes modelos de IA exigindo testes de segurança e transparência nos protocolos de prevenção de abusos. A medida enfrenta resistência de gigantes do setor, que temem impacto na competitividade global. A União Europeia também avança com legislações mais rígidas, enquanto países do G20 discutem padrões internacionais de governança. 

"Temos visto exemplos realmente horríveis e trágicos de jovens prejudicados pela tecnologia não regulamentada, e não ficaremos de braços cruzados enquanto as empresas continuam sem limites necessários e sem prestar contas", diz em comunicado o governador Newson ao promulgar a lei. No âmbito geopolítico, a IA redefine as fronteiras dos conflitos armados. Decisões estratégicas passam a ser mediadas por sistemas algorítmicos, e especialistas em segurança apontam que a guerra moderna tende a favorecer forças com maior poder computacional. O conflito atual envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã evidencia essa assimetria: enquanto Washington e Tel Aviv operam sistemas avançados de defesa automatizada, análise em tempo real e vigilância baseada em IA, o Irã depende de capacidades tecnológicas mais limitadas. A disparidade reforça o desequilíbrio militar global e ilustra como a superioridade computacional se torna elemento central na definição de poder e na condução de operações militares. 

A crise atinge, portanto, o campo ético. A pesquisadora e engenheira elétrica, graduada pela Universidade São Francisco e pós-graduada pela Unicamp, Marcilene Ribeiro, realizou pesquisas sobre a Inteligência Artificial durante os anos de 2024 e 2025 nos Estados Unidos e afirma que, desenvolvida sob interesses corporativos e geopolíticos, a IA tende a perpetuar hierarquias econômicas, políticas e biológicas. 

 

Pesquisadora Marcilene Ribeiro. Foto: Linkedin

 

"Ao focar nas promessas de erradicação futura da pobreza ou reversão climática a partir da superinteligência, o modelo atual de desenvolvimento da IA falha em apresentar soluções práticas para o presente, correndo o risco de justificar o agravamento das crises atuais em nome de um amanhã idealizado.", finaliza Marcilene.  

Com a simplificação do uso dos prompts, compreender as ameaças e aprender a usar a IA torna-se essencial
por
Chiara Abreu
|
24/03/2026 - 12h

Com a rápida evolução das Inteligências Artificiais (IA), desde a primeira versão do ChatGPT em novembro de 2022, o mundo se encontra em um estado de vulnerabilidade constante. Enquanto a tecnologia coloca um poder imenso nas mãos de qualquer usuário, a sociedade enfrenta a dificuldade para lidar com as consequências dessa facilidade. A desinformação em massa, o surgimento de relações emocionais com algoritmos e a perda de escolhas cotidianas são apenas reflexo dessa falta de preparo.

Vídeos feitos por IA tem se tornado cada vez mais comuns nas redes sociais. Gatos cantando, utensílios de cozinha contando curiosidades culinárias e até mesmo dramas familiares como espécies de brigadeiros são publicados diariamente, ganhando muitas visualizações. Nestes casos, é claro perceber que aqueles vídeos não condizem com a realidade, mas com o avanço de tecnologias como Sora2, VEO3 e Kling V2.1, vídeos ultrarrealistas têm disputado cada vez mais tempo nas telas do público, que encontra uma dificuldade crescente em diferenciar o que é real, e o que não é.

Anteriormente, esses deepfakes existiam, mas eram complexos de serem feitos. Com a ajuda das ferramentas proporcionadas pela computação cognitiva, qualquer pessoa pode criar com facilidade esses vídeos. A população tem um grande instrumento em mãos, mas não possui um preparo devido, o que gera muitas vezes, uma desinformação em massa. Segundo Renato Pereira, administrador especialista em data sciense e analytics pela USP, “as pessoas perderam um pouco a dimensão do quão pernicioso é isso, e o impacto que isso pode ter”, ressalta Pereira.

As principais empresas de tecnologia têm investido muito dinheiro criando softwares que carimbam os vídeos produzidos por suas IAs, através de marcas d’água invisíveis, assim, ao passar por uma verificação, rapidamente são identificados como conteúdo produzido por máquinas. O Gemini do Google, por exemplo, possui um serviço gratuito de investigação, feito para que usuários possam ter certeza no que confiar. Programas do tipo devolvem um pouco do senso crítico que a atualidade vem removendo. Contudo, não são muitos que utilizam essas plataformas.

As múltiplas personalidades que os computadores podem ter também são perigosas. A cada dia que passa se torna mais recorrente ver jovens se apaixonando por Inteligências Artificiais e as utilizando para fazer sessões de terapia, por exemplo. Websites como POE apresentam uma vasta gama de caracteres possíveis, desde extremamente gentis a até mesmo superagressivos, e que constantemente xingam o humano. Já empresas de venda de soluções utilizam prompts preparados para o trabalho com o público, em que a assistente da loja acaba influenciando compras muitas vezes desnecessárias para o consumidor. Elas sabem exatamente o que recomendar porque analisam os clientes, através de históricos de pesquisa, e histórico de compras. 

Pereira acrescenta  que “tem agora programas de IA que compram o seu pão de cada dia, indicam os melhores restaurantes e padarias. Essas parecem decisões inofensivas, mas elas podem destruir os mercadinhos de bairro, gerar desemprego. São decisões que podem afetar muito a nossa sociedade”. Apesar dos riscos, o administrador acredita que impedir as pessoas de acessar prompts não é uma solução viável. Para ele, o crucial é entender até onde podemos contar com a ajuda da IA. “A  inteligência artificial não deveria tomar decisão por ninguém, nem servir para analisar. Isso que a gente deveria estar preocupado: impedir que ela tome decisões e faça análises por nós”. Compreender as limitações da máquina e como ela opera é a melhor forma de se defender contra seus riscos. 

O funk bruxaria e a discotecagem no caminho do autoconhecimento
por
Natália Matvyenko
|
16/11/2025 - 12h
Bea DJ comandando a controladora concentrada

 

Por Natália Matvyenko
 

O funk fincou raízes em São Paulo nos anos 1990, marcando o início de uma adaptação vitalícia do funk carioca. Nessa fase embrionária, DJs e MCs locais infundiram o ritmo com sotaques e referências próprias, estabelecendo as bases do gênero. Nomes como a dupla Jorginho & Daniel, que celebram 30 anos de estrada com o ritmo de festa, e Felipe Boladão, que puxou o movimento para o lado do "funk consciente", são marcos dessa fundação. A cena rapidamente se consolidou nos bailes de periferia que incluíam clubes, lajes e, sobretudo, bailes de rua, onde o som se tornava onipresente, ecoando a força de um movimento que resistia ao confinamento.

Essa evolução ganhou corpo nos anos 2000, quando o funk ostentação ascendeu, servindo como espelho tanto da realidade quanto dos ambiciosos sonhos de ascensão da juventude periférica. Em 2010, São Paulo se estabeleceu definitivamente como um polo criativo. Artistas como Guimê, Daleste e MC Kauan, ao lado de figuras cariocas que fizeram sucesso estrondoso na capital, como Pocahontas (hoje Pocah), Mc Beyoncé (Ludmilla) e Mc Magrinho misturaram ostentação e putaria,

A força do funk paulista nunca parou de se afirmar, transcendendo a música. Mais tarde, as irmãs Tasha & Tracie expandiram as fronteiras, misturando rap, funk e trap. Nascidas no Jardim Peri, elas começaram como DJs ainda bem jovens, circulando por batalhas de rima e festas de quebrada, transformaram seus trabalhos em uma fusão de música, moda e ativismo periférico. A revisitação de marcas como Cyclone e o uso de Mizuno e 12 molas como artigo de orgulho e não mais de chacota pela classe média paulistana, que antes era "coisa de maloqueiro", tomaram as passarelas e se tornou objeto de admiração, como ilustra o verso de Mano Brown em Nego Drama do Racionais Mc's "Entrei pelo seu rádio, tomei, cê nem viu! Nóis é isso ou aquilo, o quê? Cê não dizia? Seu filho quer ser preto, ah, que ironia, cola o pôster do 2Pac aí, que tal?". 

Provando que o funk é uma afirmação cultural e política, a partir de 2020 houve um notável retorno dos DJs à linha de frente, ao lado dos MCs, em um movimento que reafirma as origens da batida. Nomes como DJ Mu5ão, DJ Arana e DJ Th4ys demonstram que a batida paulista está em constante mutação. Entre um story do Instagram e outro, ela agita o cabelo cor de mel e sorri se divertindo com seus amigos em festas que marca presença como DJ. O grave do funk atravessa o corpo de quem dança, as batidas ecoam como um ritual coletivo e libertador. Para ela, não se trata apenas de animar o público — é bruxaria, é raiz, é liberdade.

Num rolê de amigas em comum e a desenvoltura de comandar a festa já me intrigou. Beatriz Pereira de Souza tem 24 anos e descobriu a música ainda criança, onde muitos artistas brasileiros a encontram, na igreja. Não gostava dos cultos, mas se deixava levar pelo encanto dos louvores e instrumentos. Ali, entre bancos e hinos religiosos, aprendeu os primeiros acordes no piano e foi testando instrumentos às “escondidas” após os ensaios. O ambiente era rígido e conservador, mas a música lhe abriu uma fenda de possibilidades: “eu posso tocar o que eu quiser”, pensou, ainda adolescente. Em duas conversas sobre sua história o que é de fato, intrigante, o primeiro papo foi algo mais descontraído e solto, em meio a fumaça de tabaco, erva e dança, falamos sobre música e Bea compartilhou um pouco da sua jornada que apesar de pouca idade é complexa.A cada transição, sente que não está sozinha: se sente parte do coletivo e se sente ela mesma.

Destaca que as mulheres, desde cedo, demonstraram uma força tremenda. A MC Menorzinha, irmã do Menor, foi um exemplo disso, começou a cantar criança e, aos 12 anos, já estava estourada com hits como “Bonde da Ecko Red” e “A Melhor do Baile”, sua presença nos bailes e em palcos como o extinto Playcenter já atestava a força feminina e jovem na cena desde cedo.

A liberdade de Bea, ao contrário de Menorzinha, no entanto, só foi sendo construída e fortalecida quando em 2021, saiu de casa após enfrentar a violência de não ser aceita como mulher bissexual em um lar religioso. Encontrou acolhimento em uma república estudantil conhecida como P1, onde a música voltou a pulsar em sua vida. Ali, entre gringos e amigos que se tornaram família, surgiram as primeiras festas e contato com a controladora, aparelho que os DJ’s usam pra discotecar. Um dos moradores tinha o equipamento, e foi nesse improviso que nasceu o selo que leva o mesmo nome da casa. Era o embrião do que viria a se tornar sua trajetória como alma da festa.

Daí não parou mais. Se a igreja lhe ensinou os fundamentos da música, foi a vivência quem moldou sua essência. Relembrando o passado, conta que cresceu na quebrada – coincidentemente próxima a que cresci também, vivi 16 anos no Jardim Elba, na Zona Leste de São Paulo – ouvindo os bailes da laje de casa sem poder participar, pois seus pais não permitiam. Mas o som atravessava os muros. Quando enfim começou a discotecar, trouxe para a pista o que sempre esteve em sua memória: o funk da periferia, mais especificamente o subgênero nomeado de Bruxaria.
Esse estilo que mescla agudos com sons experimentais e obscuros com efeitos sonoros do audiovisual e uma salada muito bem estudada de experimental, se popularizou no final da pandemia de Covid-19, depois do Mandelão, outro subgênero que desaguaria no que temos hoje nos bailes de rua de São Paulo. No meio da segunda festa que nos encontramos, Beatriz me diz algo marcante: É a minha essência pura. É cultivar a minha raiz e fazer com que a pista sinta a força dessa raiz também.

Como há milhares de anos, a experiência de fazer e ouvir música beira o espiritual. Quando toca, Bea entra em transe: não se prende ao que passou nem se preocupa com o que virá. Está inteira no instante, diz — A liberdade está no presente. É isso que eu jogo na pista. Quando você dança, você está livre, completa — Para ela, DJ não é só quem seleciona músicas, mas quem conduz a festa a esse estado de liberdade coletiva.

Com pouco tempo de trajetória mas muitas vidas de história, já fundou seu próprio selo, P1 Records, nome em homenagem a moradia que reside com os amigos e colegas de corre, vem se conectando a outros coletivos que fomentam a cena underground. Não são apenas festas: são espaços de cultura, educação e resistência. Ao mesmo tempo, tem consciência de que o cenário ainda é desigual mesmo não tendo sofrido nenhuma violência direta na cena, homem ainda tem mais privilégio, até porque um ajuda o outro. Mas as mulheres estão se movimentando com força e mudando esse cenário, reflete. Hoje, Bea olha para trás e reconhece que tudo se costura: a menina curiosa da igreja, a adolescente que aprendeu bateria e violão sozinha, a jovem que rompeu com o que barrava sua liberdade e encontrou abrigo entre amigos. Cada instrumento que aprendeu a tocar é um pedaço dela. Cada festa que conduz é uma oferenda à sua história e à sua caminhada na música.

 

A história de Felipe Salvatore é um exemplo de como a Internet ainda está aprendendo a lidar com reprodução de imagem.
por
Lorena Basilia
|
17/11/2025 - 12h

Por Lorena Basília

 

Os memes engraçados estão no cotidiano dos brasileiros, especialmente entre a Geração Z. Mas, por detrás das risadas, há um território complexo de direitos autorais e proteção de imagem, que nem todos percebem. Felipe Salvatore mergulhou nesse universo ao perceber na prática como o compartilhamento de vídeos pode gerar problemas jurídicos.

Durante seus estudos na Boston University, nos Estados Unidos, Felipe produziu um vídeo de análise do desempenho dos times de futebol brasileiros, São Paulo se destacava. Pouco depois, descobriu que a torcida organizada, Dragões da Real, compartilhou seu vídeo sem autorização e sem créditos. Foi então que ele entendeu que, na Internet, dar crédito não é suficiente: é preciso ter autorização expressa para usar qualquer conteúdo.

Atento ao crescimento desenfreado de vídeos virais Felipe começou a estudar as ferramentas que poderiam proteger criadores de conteúdo. Descobriu o Rights Manager do Facebook, o Content ID do YouTube e o formulário DMCA, que permite remover rapidamente conteúdos compartilhados ilegalmente. O formulário de DMCA (Lei de Direitos Autorais do Milênio Digital) é uma lei estadounidense que garante a proteção autoral, além de exigir que as medidas de proteção sejam cumpridas e o compartilhamento ilegal diminua no meio das redes sociais.  Hoje, o formulário é a forma mais rápida para o conteúdo ser desativado. Mas isso não tira o benefício de pleitear uma ação cível. 

 A experiência de ter seu vídeo desativado na página da torcida organizada, em menos de 24 horas, fez com que ele percebesse uma oportunidade de negócio. Junto ao irmão Alexandre, fundou a plataforma MyHood, dedicada ao licenciamento de vídeos virais, que garante direitos autorais e denúncia em caso de uso indevido.

Felipe observa que o problema não está apenas nas plataformas. Os próprios usuários precisam proteger sua privacidade e ajustar configurações de compartilhamento. Quando alguém grava ou captura vídeos de maneira ilícita, é possível recorrer à Justiça. No Brasil, a Constituição, o Código Civil e a Lei de Direitos Autorais asseguram indenização por violação de imagem, enquanto o Marco Civil da Internet e a LGPD reforçam a proteção de dados pessoais e a privacidade.

A situação se torna ainda mais delicada quando crianças e adolescentes aparecem em memes e vídeos virais. Felipe conta que já viu casos alarmantes, como o de Duda, uma menina que produzia conteúdo digital com a autorização de seus pais. Inicialmente, era apenas uma brincadeira divertida, mas aos poucos os responsáveis encontraram conteúdos da filha em outros perfis e tirados de contexto. A imagem dela sem consentimento, o risco de violação de direitos preocupou os pais. Eles decidiram desativar todas as redes da filha e interromper a produção de conteúdo. O cuidado com a privacidade e a proteção da infância se sobrepunha à fama digital. O caso de Duda é um alerta: mesmo quando o conteúdo é inofensivo, a exposição sem controle pode gerar consequências graves para a criança. Vídeos de menores em situações constrangedoras são virais na internet, mas não há nada de inocente em divulgar imagens de menores sem regulamentação . Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a proteção da honra e da dignidade de crianças e adolescentes é responsabilidade de todos. Isso significa que não apenas os pais, mas também empresas intermediadoras e páginas que replicam esses conteúdos podem ser responsabilizados judicialmente.

Para Felipe, o futuro da Internet passa pelo licenciamento de vídeos, para que os conteúdos sejam compartilhados de forma segura, com autorização clara e proteção contra uso indevido. Apesar das leis brasileiras já oferecerem certa proteção, ele reconhece que a legislação ainda tem lacunas, principalmente em relação ao compartilhamento em massa, consentimento presumido e responsabilidades das plataformas. Seu grande desafio é mostrar que um vídeo curto de internet merece a mesma proteção que uma obra cinematográfica, e que todos — criadores, usuários e plataformas — têm responsabilidade na preservação da imagem e da privacidade.

O futuro climático do País depende de transformar conhecimento em políticas concretas que protejam pessoas e ecossistemas.
por
AMANDA CAMPOS
|
17/11/2025 - 12h

Por Amanda Campos

A Cop 30 é um evento global que reúne líderes mundiais para discutir ações contra a crise climática, mas o Brasil enfrenta um dilema: enquanto o mundo olha para o País como um player chave nas negociações, a realidade interna revela uma nação já castigada pelos efeitos devastadores do aquecimento global. Tornado que devasta cidade, enchentes que destroem municípios inteiros, queimadas que devoram florestas e ondas de calor que esgotam até os mais resilientes no semiárido não são mais previsões distantes — são tragédias diárias que afetam milhões de vidas, forçando famílias a reconstruírem suas rotinas em meio ao caos e ao medo. A COP30 poderia ser uma chance de o Brasil liderar mudanças reais, mas o histórico de conferências passadas, como o Acordo de Paris, que ficou aquém das promessas, gera ceticismo. Muitos países, em vez de avançarem, recuaram em seus compromissos, deixando os nações do Sul Global, como o Brasil, pagando o preço mais alto por uma crise que não criaram.

Para ilustrar essa dor humana, basta olhar para as enchentes devastadoras que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Famílias inteiras acordaram com a água invadindo suas casas, carregando móveis, lembranças e sonhos de uma vida estável. Pessoas que perderam tudo o que tinha construído em décadas, ou jovens pais que nadaram para salvar seus filhos das correntezas impiedosas, testemunharam a impotência diante de uma natureza furiosa. Essas enchentes não foram apenas um desastre natural; foram o resultado de anos de negligência, de cidades crescendo sem planejamento adequado, de rios poluídos e de governos que ignoraram alertas científicos. Milhões de pessoas sofreram, com comunidades inteiras desalojadas, economias locais destruídas e cicatrizes emocionais que marcarão gerações. É nessas histórias pessoais, de perda e resiliência, que vemos o verdadeiro custo da crise climática, a angústia de quem viu sua casa virar lama e sua esperança afundar nas águas.

Essa urgência climática no Brasil é sentida na pele de quem vive aqui, mas as respostas governamentais têm sido insuficiente e desigual. A ciência brasileira oferece ferramentas valiosas, como satélites que rastreiam queimadas e tecnologias que ajudam a prever chuvas extremas, mas grande parte desses esforços se concentra na proteção da agricultura, deixando a população comum exposta aos riscos. Em vez de transformar conhecimento em ações preventivas, o sistema muitas vezes reage apenas às catástrofes, com custos altos e resultados lentos. Guilherme Kiraly, internacionalista e especialista em ciência, tecnologia e inovação pela Universidade Federal da Bahia, vê nessa crise não apenas um fenômeno natural, mas o resultado direto de escolhas políticas e econômicas que exploraram recursos sem considerar o impacto nas pessoas. Ele argumenta que o que vivemos hoje é fruto de decisões que priorizaram o lucro imediato sobre a sobrevivência coletiva, deixando comunidades inteiras à mercê de desastres evitáveis.

O Brasil participa de acordos internacionais sobre clima, mas a lacuna entre o que é prometido e o que acontece na prática é enorme. Muitos tratados ficam no papel, sem metas claras, orçamentos definidos ou benefícios reais para quem mais sofre. O país monitora o clima há décadas, mas depende de soluções importadas, adaptando equipamentos estrangeiros em vez de investir em inovações próprias. Guilherme critica essa dependência, dizendo que ela torna o sistema caro e ineficaz, focado em respostas emergenciais em vez de prevenção. Tecnologias como barragens de contenção ou softwares de previsão existem, mas não impedem que famílias sejam desalojadas por enchentes ou que florestas sejam consumidas pelo fogo. O que falta, segundo ele, são políticas públicas que transformem a ciência em proteção concreta para as pessoas, não apenas para os negócios.

Há alternativas promissoras que poderiam aliviar os impactos, mas elas são ignoradas em favor do agronegócio. Parques alagáveis em cidades como Curitiba e São Paulo, por exemplo, ajudam a conter enchentes, enquanto experiências de agrofloresta recuperam terras degradadas. Guilherme destaca que, além da tecnologia, há lições valiosas nos saberes tradicionais de povos indígenas e comunidades do semiárido, que convivem com secas há séculos adaptando-se à natureza em vez de combatê-la. Integrar essa sabedoria à ciência moderna poderia criar caminhos mais sustentáveis e humanos, respeitando a vida das pessoas e dos ecossistemas. Mas o maior obstáculo permanece: acordos internacionais frágeis, sem cronogramas, metas ou financiamentos garantidos, fazem com que projetos acabem parados na fase inicial. A cooperação entre países, que poderia gerar soluções compartilhadas, se resume a declarações vazias.

Essa fragilidade reflete uma contradição dolorosa no Brasil: enquanto os impactos climáticos se aceleram, as respostas políticas andam em ritmo de tartaruga. O País acumula tratados assinados, mas poucos projetos efetivos, revelando uma falta de compromisso real. Ainda assim, há sinais de esperança. Universidades, organizações da sociedade civil e movimentos sociais estão pressionando por mudanças, mostrando que soluções locais podem ser rápidas e eficazes, mesmo quando fóruns globais falham. Comunidades indígenas, por exemplo, demonstram que estratégias coletivas de organização e solidariedade podem enfrentar desafios compartilhados de forma duradoura, independentemente de fronteiras. Guilherme observa que esses povos cooperam entre si há séculos, provando que é possível lidar com problemas comuns em rede, algo que os Estados deveriam aprender, em vez de competir ou ignorar.

O desafio é garantir que países como o Brasil tenham voz nas negociações, para que as decisões globais considerem as necessidades dos mais afetados. O futuro diante da crise climática exige uma mudança profunda de perspectiva: não apenas reagir a desastres ou cumprir acordos superficiais, mas construir uma cultura de prevenção e harmonia com a natureza. É preciso integrar ciência, tecnologia e saberes tradicionais para valorizar soluções locais que respeitem as comunidades e os ecossistemas. Enquanto o aquecimento global avança sem piedade, o Brasil e o mundo enfrentam uma escolha crítica: continuar apagando incêndios ou criar, de forma colaborativa e estratégica, defesas que protejam vidas e recursos naturais antes que seja tarde demais.

A obsolecência programada mudou não apenas a forma como os produtos são feitos, mas como as pessoas os consomem
por
Yan Gutterres
|
14/11/2025 - 12h

Por Yan Gutterres

 

Por vezes, ela chega de forma quase imperceptível. O celular que ontem parecia veloz hoje é lento. A impressora que funcionava perfeitamente decide travar justamente quando você mais precisa. A geladeira, antes silenciosa, passa a emitir ruídos que ninguém consegue identificar. Há quem chame de azar, de desgaste natural, de “coisas que acontecem”. Mas nas entrelinhas de muitos desses episódios, mora um conceito silencioso, polêmico e antigo: a obsolescência programada, ou a prática de criar produtos com vida útil deliberadamente limitada para estimular o consumo constante.

Embora soe como algo moderno, a obsolescência programada começou no século XX, impulsionada pela indústria automotiva norte-americana, especialmente a partir de 1924, quando a General Motors (GM) começou a lançar novos modelos anualmente com mudanças de design para estimular a compra. Paralelamente, um grupo de fabricantes de lâmpadas em Genebra, em 1924, conspirou para reduzir a vida útil das lâmpadas. A estratégia se consolidou como uma forma de manter as vendas em alta, respondendo à superprodução e à saturação do mercado. A lógica era simples, porém implacável: se um produto dura muito, vende pouco. O pacto não durou oficialmente muito tempo, mas o princípio colocado em prática se espalhou como um vírus silencioso por toda a indústria do século XX.

Imagem de modelo de carro projetado nos anos 1920
Modelo de carro da General Motors apontado com o "marco zero" da obsolescência programada. Foto: Reprodução

Fabiano Michaelsen, CEO da XTech Digital Company, empresa do ramo de tecnologia, explica que essa prática tem impacto tanto financeiro quanto ambiental, já que o consumidor é levado a trocar o produto antes do necessário, aumentando o custo total de propriedade e o volume de resíduos. Ele esclarece também que a maioria das pessoas não têm consciência de que muitos desses produtos são desenvolvidos com a finalidade de durarem menos, fazendo com que associem essa substituição à uma chamada “evolução tecnológica”, sem perceber que isso faz parte de um ciclo planejado de consumo.

Um reflexo desse problema se manifesta no volume de lixo eletrônico gerado globalmente. Dados do Monitor Global de Resíduos Eletrônicos, da Organização das Nações Unidas (ONU), indicam que em 2022, foram produzidas 62 milhões de toneladas de resíduos, número que cresce anualmente em cerca de 2,6 milhões e poderá atingir 82 milhões até 2030. Além disso, apenas 22% desse total é reciclado de forma formal, expondo o restante dos resíduos a riscos de contaminação ambiental e perda de recursos valiosos. Em termos de durabilidade, estudos indicam que a vida útil média de grandes eletrodomésticos em países como Itália e diretrizes da União Europeia caiu de 10 anos em 2010 para apenas 7 anos em 2018, uma redução de 30% em menos de uma década.

Hoje, a obsolescência programada está presente em praticamente todos os setores, desde eletrônicos até vestuário. Um dos exemplos mais recentes e controversos é o das atualizações de software que deliberadamente reduzem o desempenho de dispositivos eletrônicos. Em 2017, a Apple admitiu que desacelerava iPhones mais antigos para "preservar a vida útil da bateria". A empresa foi multada em €25 milhões na França por não informar os consumidores sobre essa prática. Outro exemplo da empresa é o dos fones de ouvido sem fio, como os AirPods, que possuem baterias não substituíveis. Quando a bateria se esgota após 2 a 3 anos, o consumidor é forçado a comprar um novo par, gerando mais resíduos eletrônicos. Fabiano conta que as empresas recorrem à obsolescência programada como uma forma de manter o consumo constante e garantir probabilidade de receita, mas que hoje já existem alternativas sustentáveis e economicamente mais inteligentes, como recondicionamento, reuso e economia celular, permitindo reduzir custos, preservar recursos e ainda gerar novas oportunidades de receita.

Fachada de loja da Apple
Apple, multinacional norte-americana de tecnologia, é apontada como um dos maiores expoentes da prática da obsolescência programada. Foto: VILTVART/Shutterstock

Algumas ações já estão sendo tomadas para acabar com essa prática abusiva. Fabiano comenta que alguns países, como a França, já contam com leis específicas que punem a obsolescência programada, e que no Brasil, ainda estamos em um estágio inicial, mas há regulamentações ligadas à logística reversa e à responsabilidade pós-consumo que caminham nesse sentido, e que medidas como essa são importantes, mas que a sua eficácia depende da fiscalização e do engajamento das empresas em adotar práticas reais e transparentes.

O movimento "Right to Repair" (“Direito ao Reparo”) ganhou força nos últimos anos justamente porque consumidores e especialistas perceberam que a durabilidade estava se tornando uma peça de museu. Para Fabiano, esse movimento é um grande avanço, pois pressiona as empresas a permitir que os consumidores e técnicos independentes possam consertar produtos, prolongando sua vida útil, e que a obsolescência programada tende a diminuir à medida que o consumidor se torna mais consciente e exigente quanto à durabilidade e impacto ambiental dos produtos.

No fim do ciclo, o que sobra são resíduos. Em 2023, o mundo produziu mais de 60 milhões de toneladas de lixo eletrônico, segundo estimativa da ONU, com a maior parte descartada de forma irregular. Desse número, apenas uma fração é reciclada, e ainda assim de modo precário. O planeta não consegue acompanhar o ritmo em que substituímos aparelhos. Metais raros, como o cobalto e o lítio, extraídos para alimentar baterias, vêm de regiões marcadas por conflitos e exploração trabalhista. Enquanto isso, rios e solos de países pobres tornam-se depósitos tóxicos de placas-mãe e carcaças de plástico que viajaram milhares de quilômetros desde centros urbanos do outro lado do mundo. A obsolescência programada não é apenas um debate sobre consumo excessivo. É uma crise ambiental e ética. Ela é a soma de estratégias comerciais, comportamentos culturais, avanços tecnológicos e escolhas pessoais. É a história de um mundo que decidiu acelerar e agora precisa lidar com as consequências.

Influenciadores, pseudociência e marketing digital transformaram o cuidado em mercadoria e o bem-estar em ilusão.
por
Julia Sena
|
27/10/2025 - 12h

Por Julia Sena

 

Era março de 2021, cerca de um ano após o início de um dos períodos mais sombrios do século XXI. O Brasil vivia um dos auges da pandemia de Covid-19. Foi nesse cenário que o tio de Tainara Silva, seu Antônio, começou a sentir os primeiros sintomas. Os dois moravam no mesmo quintal, em Sorocaba, o que possibilitou que a menina acompanhasse de perto as dificuldades.

Segundo Tainara, o primeiro sinal veio discreto, ele já não reclamava do cheiro dos fortes produtos de limpeza usados pela esposa. Naquela mesma noite, a febre ardia em sua pele e ele foi levado ao posto de saúde. Voltou com antitérmico, um receituário e a recomendação de isolamento. Os dias seguintes pareciam melhores, a febre baixou e as dores de cabeça cessaram. Depois do curto período de bem-estar, vieram a tosse e a falta de ar, ainda em pequenas quantidades, porém incessantes. Dessa vez, Antônio se recusou a ir ao posto de saúde, segundo ele, a espera era longa e as soluções, ineficientes.

Tainara conta que o tio já havia guardado há muito tempo um miniestoque do chamado “kit Covid”, um conjunto de remédios sem eficácia comprovada, como hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina. Um ano antes, inclusive, chegou a consumir os medicamentos como medida de prevenção à doença. A menina não concordava, mas era muito nova para se impor diante da convicção do tio.

Após tomar os remédios, Antônio realmente se sentiu melhor, conseguia realizar as tarefas cotidianas sem muitos impeditivos, além da “moleza” habitual que uma doença pode causar. Mas durou pouco. A tosse voltou mais forte e a falta de ar se tornava cada vez mais insuportável, cada vez mais próxima da sensação de falta total de respiração.

O que aconteceu foi que a cloroquina, a azitromicina e a ivermectina que seu Antônio consumia acabaram mascarando a doença por algum tempo. Sem os tratamentos necessários e diante de sua irredutibilidade quanto a uma possível internação, o quadro avançou de maneira desenfreada. Impossibilitado de tomar decisões por si só, o vendedor de móveis, de apenas 54 anos, foi internado, mas era tarde demais.

Irresponsabilidade

Dois anos depois, em 2023, o mercado global de wellness movimentou impressionantes US$ 6,3 trilhões e deve crescer 7,3% ao ano até 2028, segundo o Global Wellness Institute. Os números refletem o apetite global por soluções que prometem saúde, felicidade, energia e longevidade. Mas, nesse mar de promessas, nem tudo o que se vende como “bem-estar” tem respaldo científico e, muitas vezes, o que se propaga é mais perigoso do que parece. O que se vê é uma mistura de interesses econômicos, desinformação e uma relação cada vez mais frágil entre a população e a ciência.

Em um mundo em que a primeira ação ao acordar é checar o celular, não surpreende que o mesmo ocorra quando se busca informações sobre saúde. Se antes consultas médicas e leituras de artigos científicos eram etapas básicas na busca por conhecimento confiável, hoje bastam alguns toques para acessar vídeos virais no TikTok ou threads no X (ex-Twitter), que frequentemente misturam ciência com opiniões infundadas. Esses conteúdos, ainda que envoltos em uma aparência de autoridade, distorcem dados estatísticos, abusam de jargões científicos e promovem teorias sem possibilidade de teste ou validação empírica. Isso configura o que se chama de pseudociência e ela tem encontrado campo fértil justamente onde o acesso à informação deveria significar maior esclarecimento.

Um caso emblemático é o de Paloma Shemirani, de 23 anos, que morreu em julho de 2024 após recusar o tratamento convencional para um linfoma não Hodgkin, câncer considerado tratável, com até 80% de chance de cura. Influenciada por sua mãe, Kate Shemirani, ex-enfermeira britânica conhecida por discursos antivacina e teorias da conspiração, Paloma abandonou a quimioterapia e adotou terapias “naturais”, como enemas de café e dietas restritivas, sem qualquer eficácia comprovada. Sete meses após o diagnóstico, sofreu uma parada cardíaca provocada pelo avanço do tumor. O caso segue em investigação no Reino Unido e serve de alerta para os perigos da desinformação mascarada de cuidado. O drama pessoal ganhou destaque internacional e levantou um debate urgente sobre o papel das redes sociais na saúde pública.

O culto à perfeição foi normalizado, especialmente no que diz respeito à aparência. A ascensão das redes sociais e a valorização de padrões estéticos irreais impuseram um novo tipo de sofrimento, a comparação constante com corpos esculpidos digitalmente, rotinas idealizadas e promessas de transformações milagrosas. Essa pressão estética não é apenas vaidade, é uma questão de saúde pública. Muitos recorrem a dietas extremas, procedimentos invasivos e medicamentos perigosos para alcançar um ideal inatingível. O resultado é o aumento de transtornos alimentares, ansiedade, depressão e uma desconexão crescente entre o corpo real e o corpo desejado. O índice de insatisfação corporal entre adolescentes e jovens adultos tem aumentado significativamente, segundo estudos da Organização Mundial da Saúde. E essa insatisfação muitas vezes começa na infância, alimentada por filtros, comparações e algoritmos que definem o que é bonito, saudável ou aceitável.

O movimento wellness se apresenta como solução holística para o caos da vida moderna. Alimentação consciente, skincare com dezenas de passos, meditação guiada, suplementos e “biohacks” viraram rotina entre influenciadores. O problema é que, por trás desse discurso saudável, existe uma indústria trilionária, impulsionada pela exploração do medo e da insegurança. Enquanto influenciadores acordam às 4h da manhã para tomar cafés com ingredientes exóticos, gominhas para o cabelo e shots de cúrcuma, seus seguidores enfrentam o transporte público lotado e jornadas exaustivas. Entre promessas de equilíbrio e felicidade, vende-se um ideal de vida sedutor, porém inalcançável para a imensa maioria da população. Isso cria um ciclo de frustração, culpa e consumo contínuo. Afinal, se você não está se sentindo bem, é porque não está tentando o suficiente, mais um curso, mais um suplemento, mais uma fórmula.

O jornalista Carlos Orsi, autor do livro Que bobagem! e ganhador do Prêmio Jabuti de Ciência, observa que houve um aumento na divulgação de conteúdos duvidosos, principalmente com a multiplicação de influenciadores de bem-estar no Instagram e no TikTok. Segundo ele, muitos utilizam argumentos científicos de forma equivocada para promover produtos de patrocinadores. Esse grupo, afirma, tem crescido mais rapidamente do que os promotores de práticas esotéricas tradicionais. A fórmula é simples e, ao contrário dos produtos, eficaz, identifica-se um problema urgente e difícil de resolver, define-se um formato vendável (em pó, shot ou cápsula) e adiciona-se um ingrediente com nome complicado, apresentado como “princípio ativo”. Isso garante o apelo científico, mesmo quando não há evidências que comprovem sua eficácia. O marketing se apropria da linguagem da ciência para vender promessas vazias, enquanto a população segue cada vez mais confusa sobre o que é, de fato, saudável.

No Brasil, nomes como Virgínia Fonseca, com mais de 53 milhões de seguidores, exemplificam como a vida pessoal se mistura com recomendações de saúde. Por compartilhar detalhes íntimos da rotina, Virgínia cria com seus fãs uma conexão emocional unidirecional, conhecida como relação parassocial, que leva seguidores a confiar nela como se fosse uma amiga próxima. O problema é que essa confiança ignora o crivo da evidência. Virgínia divulga produtos como cápsulas de colágeno e outros itens “do bem-estar”, mas sem embasamento científico.

Ao contrário da mídia tradicional, onde existe algum controle editorial, nas redes sociais a opinião vira verdade e a propaganda vira prescrição. O próprio Orsi aponta que a falta de transparência sobre os interesses comerciais envolvidos agrava o impacto dessas mensagens, já que os seguidores aceitam recomendações de produtos ou hábitos sem questionar suas origens ou validade. A influência, nesse contexto, se torna uma forma moderna de autoridade sem preparo técnico, mas com enorme poder de convencimento.

No Brasil, a fiscalização de produtos e práticas pseudocientíficas é compartilhada entre diversos órgãos. A Anvisa regula medicamentos, suplementos e cosméticos. O Conar fiscaliza publicidade, inclusive de influenciadores. Conselhos profissionais como CFM, Coren e CRO supervisionam condutas éticas de profissionais de saúde. Além disso, órgãos como o Procon e o Ministério Público atuam na defesa do consumidor. Apesar disso, a eficácia dessa regulação é limitada. Muitos suplementos são registrados como “alimentos”, o que garante a segurança, mas não exige comprovação de eficácia. Orsi afirma que a Anvisa poderia ter um papel mais ativo na fiscalização de conteúdos que violam suas normas, mas que, para isso, a agência precisaria de uma estrutura muito maior do que tem hoje. Também é necessário reconhecer que a responsabilidade sobre o conteúdo das plataformas digitais ainda é uma zona cinzenta. O mesmo algoritmo que prende o usuário à tela também espalha desinformação em massa. As empresas de tecnologia, que controlam o que aparece no feed dos usuários com base em engajamento, raramente são responsabilizadas pelo conteúdo que promovem. Lobbies poderosos atuam para impedir regulamentações mais rígidas, e o controle ético daquilo que é veiculado como publicidade disfarçada de conteúdo segue sendo ignorado.

Para reverter esse cenário, é essencial investir em alfabetização científica desde cedo. A escola precisa deixar de ser um espaço onde se decoram fórmulas prontas e datas de exames e se tornar um ambiente em que se aprende a pensar criticamente, a questionar fontes, a interpretar dados e a entender o funcionamento da ciência. A mudança precisa vir de baixo, com educação, e de cima, com responsabilidade de quem lidera. Orsi explica ainda que o desafio é ainda maior quando o próprio Estado e universidades endossam práticas sem respaldo científico, como a homeopatia no SUS ou cursos de reiki em instituições de ensino superior. Ele considera que Isso mina a confiança na ciência e abre espaço para o crescimento da pseudociência como alternativa viável. Quando a exceção vira regra e a opinião vale tanto quanto a evidência, a sociedade perde sua bússola.

Na era da influência ser influenciado não é opcional. Mas é possível escolher de quem se é influenciado. O bem-estar verdadeiro não se vende em cápsulas, não cabe em vídeos de 15 segundos e, sobretudo, não existe sem ciência. Enquanto não reconhecermos isso, seguiremos, ironicamente, mais doentes do que nunca.