Por Helena Haddad
Os Data Centers - centros de processamento de dados - são instalações físicas que sustentam a infraestrutura digital contemporânea. Na era digital, informação e internet são centrais no cotidiano, e com o crescimento das IAs e da digitalização, a demanda por essas infraestruturas tem aumentado significativamente. No contexto global, a América Latina surge como uma “nova fronteira” para investimentos, e o Brasil busca se destacar no setor, embora a construção dessas instalações levante questionamentos sobre sua sustentabilidade.
O projeto do Data Center do TikTok, uma empresa chinesa, em Caucaia, no Ceará, já aprovado mas sem data de inauguração, gera polêmica. Os indígenas Anacé pedem a derrubada do licenciamento ambiental, alegando ausência de estudos claros sobre impactos ambientais e alertando para o risco ao aquífero de Dunas, considerado vulnerável. Eles também questionam o alto consumo de energia e água, que poderia pressionar recursos locais. Por outro lado, a Casa dos Ventos, responsável pela obra, afirma que a licença foi obtida com base em estudos técnicos conduzidos por especialistas. Outra crítica recai sobre a exclusão do Ministério do Meio Ambiente das negociações iniciais, apesar de seu papel central na avaliação de impactos.
Carlo Pereira, especialista em sustentabilidade, reconhece que os Data Centers demandam grande quantidade de energia, mas lembra que no Brasil esse consumo pode ser atendido por fontes renováveis. Pedro Rodrigues, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, alerta, porém, que a indústria da inteligência artificial cresce mais rápido que a geração elétrica, e sem políticas públicas claras há risco de desequilíbrio e até colapso. O alto consumo de água e energia reforça a necessidade de planejamento para não comprometer recursos finitos.
Além disso, a presença de empresas estrangeiras evidencia uma dimensão geopolítica. Cerca de 60% dos dados brasileiros são processados fora do país, o que submete parte da vida econômica, social e política do Brasil a legislações e interesses de outras nações. A instalação de um Data Center do TikTok levanta a questão de quem realmente terá controle sobre dados críticos.
Soberania digital não significa fechar o mercado, mas exige estratégias claras. Segundo Pereira, isso passa por atrair players globais com contrapartidas — exigindo energia 100% renovável, integração a ecossistemas locais, formação de talentos e armazenamento de certos dados em território nacional; fortalecer operadores brasileiros com incentivos fiscais e zonas especiais que estimulem a competição; e estabelecer regulação estratégica para garantir que dados críticos — saúde, defesa, governo e infraestrutura — permaneçam sob jurisdição nacional.
Por fim, a chamada “nuvem”, embora pareça imaterial, depende de recursos físicos como solo e água, que são finitos. A expansão dos Data Centers no Brasil oferece oportunidade de atrair investimentos e consolidar o país como polo digital, mas impõe desafios relacionados à sustentabilidade, governança e soberania digital. O futuro do setor dependerá da capacidade do Brasil de conciliar desenvolvimento econômico, proteção de recursos naturais e autonomia sobre sua infraestrutura crítica de dados.
Por Inaiá Misnerovicz
O mapa da agricultura brasileira, geralmente descrito a partir das grandes lavouras do Centro-Sul, começa a ganhar novos contornos. Nos últimos meses, uma combinação de fatores geopolíticos e iniciativas locais têm provocado mudanças no modo como o País pensa sua produção de alimentos. De um lado, os Estados Unidos, tradicional parceiro comercial do Brasil, anunciam tarifas que podem elevar em até 50% o valor de importação de produtos brasileiros. De outro, a China expande sua presença no nordeste brasileiro, num movimento que é também fortalecido pela atuação conjunta no âmbito dos Brics. A aproximação com a China ganha força como uma alternativa não apenas comercial, mas também tecnológica. Essa parceria se materializa, hoje, de forma concreta, no semiárido nordestino. Recentemente, cooperativas e comunidades rurais nos estados do Ceará, Maranhão, Rio Grande do Norte e Paraíba receberam um lote de máquinas agrícolas destinadas a fortalecer a agricultura familiar.
O comboio que atravessou Nordeste levava tratores, colheitadeiras e semeadoras que prometem um novo ciclo. Para agricultores acostumados com o trabalho braçal, a chegada das máquinas é uma grande mudança. São equipamentos de pequeno e médio porte, adaptados às dimensões das propriedades familiares, e pensados para lidar com os desafios específicos do semiárido.
A distribuição dos equipamentos integra uma política mais ampla de aproximação entre Brasil e China, que têm intensificado a cooperação em setores considerados estratégicos. No campo agrícola, essa parceria representa uma alteração significativa no equilíbrio de forças. Há décadas, os Estados Unidos influencia diretamente o modelo produtivo brasileiro, seja pela venda de máquinas, sementes, insumos ou pelo controle de parte relevante do mercado global de grãos. Agora, com investimentos voltados à agricultura familiar, a China sinaliza disposição para atuar em um terreno que, historicamente, sempre recebeu pouca atenção dos parceiros internacionais.
Além da mecanização, o acordo prevê a instalação de um laboratório de inteligência artificial voltado para a agricultura familiar. O projeto, fruto de colaboração entre o Instituto Nacional do Semiárido (INSA) e a Universidade Agrícola da China, pretende desenvolver ferramentas tecnológicas aplicadas à realidade do pequeno produtor: sistemas de previsão climática, sensores para manejo da água, inteligência de plantio e colheita, entre outras inovações ainda raras no Brasil rural.
Maria Gomes é militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e coordenadora do projeto de mecanização. Ela diz que parceria simboliza uma chance de corrigir uma injustiça histórica e que a agricultura familiar no Nordeste foi empurrada para o atraso pelas políticas públicas que nunca chegaram por completo. Num território onde só 3% da produção é mecanizada, a ausência de máquinas muitas vezes pode determinar se o agricultor continua no campo ou precisa deixá-lo. Ela reforça que a mecanização não pode caminhar sozinha: precisa estar integrada à agroecologia, à produção de bioinsumos e ao fortalecimento das políticas públicas. E conclui que a chegada das máquinas diminui a penosidade do trabalho, amplia a produção e talvez abra caminho para que mais jovens queiram ficar no campo.

Enquanto isso, no cenário internacional, o tarifaço do presidente norte-americano Donald Trump age como um lembrete das fragilidades do Brasil diante das políticas protecionistas dos Estados Unidos. Embora as tarifas afetem diretamente commodities como açúcar, café, cacau e carne bovina, e não a agricultura familiar, elas deixam evidente o quanto o país segue vulnerável às oscilações dos interesses externos. Em meio a essas tensões, a aproximação com a China ganha peso não apenas como alternativa comercial, mas como porta para uma outra lógica de desenvolvimento agrícola.
Para João Pedro Stedile, dirigente histórico do MST, a agricultura brasileira foi moldada, ao longo das últimas décadas, sob bases determinadas pelo capital norte-americano. Esse modelo priorizou grandes propriedades, monoculturas, dependência de insumos industriais e exportações voltadas ao mercado internacional. Stedile analisa que a entrada da China representa outro tipo de relação. Se no caso das grandes commodities a presença chinesa ainda está centrada na compra de soja, no semiárido a lógica é distinta: trata-se de fortalecer a agricultura camponesa, voltada ao mercado interno e à soberania alimentar. Isso pode representar o início de um projeto nacional capaz de reduzir desigualdades profundas entre o agronegócio exportador e a produção de alimentos básicos.
Stedile também aponta que as tarifas impostas pelos Estados Unidos ajudam o País a enxergar o quanto é arriscado depender de modelos de produção subordinados a interesses externos. Ele avalia que as máquinas chinesas se integram a um modelo alternativo de desenvolvimento, voltado à produção de alimentos para o povo brasileiro, e não à expansão do mercado global.
Ainda que as tarifas impostas pelos Estados Unidos não atinjam diretamente os agricultores familiares, elas ajudam o Brasil a enxergar o quanto é arriscado depender de modelos de produção subordinados a interesses externos. As máquinas chinesas, ao contrário das tecnologias tradicionais importadas, se integram a um modelo alternativo de desenvolvimento: um modelo que valoriza a produção de alimentos para o povo brasileiro, com preços acessíveis e técnicas adaptadas ao clima e ao solo do Nordeste.
As implicações sociais da entrada dessas tecnologias também são sentidas. Maria Gomes destaca que a juventude rural, muitas vezes desmotivada pela falta de perspectiva no campo, pode se ver mais envolvida com o uso das novas ferramentas. Para ela, a juventude entende rápido essas tecnologias e, quando participa, transforma a comunidade inteira. Mas Maria adverte que a mecanização e a inteligência artificial só terão impacto real se vierem acompanhadas de capacitação, geração de renda, acesso à água, crédito e melhoria das condições de vida.
Para Stedile, não há futuro para o país enquanto continuar dependente do capital estrangeiro. Ele defende um projeto de desenvolvimento baseado na agricultura familiar, apoiado por uma ampla Reforma Agrária e por investimentos em ciência, tecnologia e inovação. Nesse horizonte, a cooperação com a China pode desempenhar um papel estratégico ao permitir avanços em bioinsumos, sementes agroecológicas, energias renováveis e máquinas acessíveis para os pequenos produtores.
A cooperação Brasil-China no semiárido nordestino, portanto, vai muito além da entrega de tratores. Para os movimentos populares, trata-se de um passo importante rumo à soberania alimentar e à construção de um modelo agrícola que não reproduza as desigualdades impostas pelo agronegócio. O objetivo não é depender de importações, mas criar condições para o desenvolvimento de tecnologia própria, fortalecendo instituições públicas e consolidando uma produção voltada à autonomia.
A presença chinesa, somada aos efeitos da disputa geopolítica mundial, transforma o Nordeste em um laboratório vivo de experiências. Nos próximos anos, a região pode se tornar referência na criação de tecnologias adaptadas ao clima semiárido, combinando práticas agroecológicas, conhecimento tradicional e inovação digital. Ao mesmo tempo, a história que se desenrola ali mostra como as decisões tomadas em Washington, Pequim ou Brasília chegam até a vida de quem acorda cedo para plantar feijão, milho, mandioca ou hortaliças.
Por Wanessa Celina
O Mounjaro, nome comercial da Tirzepatida, ganhou destaque no Brasil como uma das principais opções para controle do diabetes tipo 2 e para redução de peso em pacientes com obesidade ou sobrepeso associado a doenças. O medicamento, que teve a tenista americana Serena Williams como garota-propaganda nos Estados Unidos, teve sua venda no Brasil crescendo 15,5%, com um custo que chega a variar entre R$ 1.500 a R$ 1.800.
Diferente das canetas emagrecedoras como o Ozempic, que a porcentagem da perda de peso corporal é de 10%, o Mounjaro tem a promessa de perder 20% do peso. Uma das grandes diferenças entre fármacos como o Ozempic, Wegovy, Victoza e o Mounjaro é a substâncias que são análogas. A farmacêutica e professora da USCS, Luciana Vismar, explica que a diferença entre os medicamentos está no tipo de substância. O nosso corpo, principalmente o intestino, produz substâncias chamadas Incretinas, como o GLP-1, que estimula o pâncreas a produzir proteínas, estimula o cérebro você sentir saciado, além de outras funções em sistemas de recompensa cerebral em funções relacionadas ao sistema cardiovascular; o GIP, que estimula a secreção de insulina, além de ajudar a armazenar energia no corpo.
A Liraglutida (presente no Victoza) e a Semaglutida (Wegovy e Ozempic) são semelhantes ao GLP-1 que produzimos. Já o Mounjaro, que contém Tirzepatida, atua tanto nos receptores de GLP-1 quanto de GIP. Ou seja, ele estimula os receptores de duas moléculas diferentes, as incretinas. Por essa dupla ação, os estudos têm mostrado que o Mounjaro tem um efeito muito mais pronunciado na perda de peso.
Nicoli Ribeiro, é um exemplo de uma experiência positiva na utilização do fármaco para perda de peso. Por recomendação médica, ela utilizou o Mounjaro por ter menos efeitos colaterais e conseguir tratar o seu lipedema. Apesar de algumas reações físicas como náuseas nas primeiras aplicações e intestino preso, que foi regulado com uso de remédios, Nicoli afirma que compraria novamente.
Nicoli, antes de começar o tratamento com o Mounjaro, já treinava e só manteve os treinos. Entretanto a sua alimentação mudou, com o uso do remédio sua vontade de comer doces e “besteiras” diminuiu. Essa mudança na alimentação, junto com o acompanhamento de um médico, na opinião de Nicole, ajudou bastante na perda de peso.
Efeitos Coleterais
A ascensão desses medicamentos, exclusivamente do Mounjaro, vem modificando a estética corporal para o que é chamado de “Ozempic Face”, Luciana Vismar explica que essa mudança drástica deve-se a como o medicamento funciona para emagrecimento. Em vez de perder peso só nas áreas que costumam não ser desejadas, a rápida e acentuada perda de gordura leva a perda de gordura em áreas como a face.
Mas não só essa estética modificada preocupa, a perda de peso não é só dada pela perda de gordura, mas também pela perda de massa muscular. Esse que é importante para dar a sustentação do corpo. A perda de massa muscular acarreta no aumento do risco de quedas, reduz o metabolismo basal e, em longo prazo, pode levar ao reganho de peso. “Os estudos têm mostrado em longo prazo com o uso dessas drogas, que é o retorno de um peso até maior do que tinham antes da utilização desses fármacos.”, completa Vismar.
Neste contexto, a alimentação é fundamental. A utilização do Mounjaro, ou qualquer outra caneta emagrecedora, tem que ser acompanhada por uma mudança no estilo de vida. Essa é a garantia de que esse peso perdido vai ser mantido com a suspensão da droga e a garantia de que não vai haver uma grande perda de massa muscular, atenta a farmacêutica.
Adicionalmente, um dos efeitos observados no uso do Mounjaro é a redução do desejo por hábitos de risco, como o tabagismo. Muitos usuários relatam uma diminuição significativa na vontade de fumar cigarros. Essa alteração de comportamento, ainda está sendo pesquisada por especialistas, “Algumas pesquisas, como na "British Journal of Pharmacology" mostram que agonistas de GLP-1 poderiam atuar nessas áreas de circuito de recompensas de cerebral porque existiriam receptores desse GLP-1 em áreas que controlam esse comportamento de vício”, explica Luciana Vismar. Entretanto, por não haver nenhuma comprovação científica, o medicamento não pode ser utilizado em pacientes que têm grande consumo de drogas.
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), no dia 25 de agosto, publicou novas regras que dificultam a manipulação de medicamentos Semaglutida. Essa inversão, explica Vismar, deu pelo fato de que a patente do Ozempic no Brasil vencer em 2026 e, diante disso, várias indústrias que já estão com sua linha de produção sendo ajustada para produzir medicamentos à base dessa nova molécula, que antes era exclusiva do Novo Nordisk. Vismar explica que o processo de obtenção dos IFAs (insumos farmacêuticos ativos) no Brasil é biológico e que a molécula do Ozempic, conforme descrito na bula, é produzida por uma tecnologia de DNA recombinante, um processo extremamente elaborado.
No Brasil, a Propranovo Nordis é a única empresa com registro da Anvisa para esse princípio ativo. A agência reguladora não aprova a manipulação de fármacos por outras metodologias, pois não há garantia de segurança e eficácia. Isso se torna um fator limitante para a manipulação de alguns medicamentos. No entanto, o Monjaro (Tirzepatida) não enfrenta essa mesma restrição. Como sua produção não utiliza a tecnologia de DNA recombinante, uma possível manipulação do medicamento não estaria sujeita a essa mesma limitação imposta pela Anvisa.
Por Luiza Zequim
Leonalino Perez tem 96 anos, uma marca de vida impressionante. Ao contrário da imagem gerada pela junção das 9 dezenas, Leo vai à academia 2 vezes por semana, corta a grama na casa dos filhos, anda pela cidade livremente e ainda se aventura pelo universo da filosofia e dos livros. Prestes a chegar ao centenário, o paulista passou por uma cirurgia para alocação de um stent no coração, procedimento para prevenir a catarata e a retirada do apêndice – a popular apendicite. Atualmente, uma única condição o tira o equilíbrio ocasionalmente: a degeneração macular. A enfermidade afeta ambos os olhos e cercam seu campo de visão. Apesar de lidar diariamente com uma barreira, o uso de tecnologias e procedimentos médicos regulares auxiliam Leonalino em seu cotidiano.
Esse é um cenário que tende a se repetir nos próximos anos. Embora o acesso a medicina de qualidade não seja igual, o novo índice de expectativa de vida do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) confirma que a população brasileira está vivendo mais – a expectativa de vida ao nascer no país saltou de 71,1 anos em 2000 para 76,4 anos em 2023.
Ele diz ter muito mais opções de tudo hoje em dia, saúde, respeito, tecnologias que se pode utilizar para benefício próprio. Já na época do seu pai e do seu avô era muito mais restrito essas coisas. Para Leonalino, indubitavelmente, com o que se tem à disposição hoje em dia é muito mais prazeroso viver.


Por trás deste novo cenário, há pequenas mudanças essenciais no auxílio ao mantimento da vida. Entre as progressões mais abrangentes estão: o controle de doenças infecciosas e o crescimento de campanhas de vacinação em massa – fator que levou à erradicação ou controle eficaz de enfermidades como sarampo e poliomielite.
No campo das doenças crônicas, o desenvolvimento de estatinas para o controle do colesterol, aliado a técnicas de angioplastia, cirurgias de ponte de safena e uma gama de medicamentos anti-hipertensivos, transformou o tratamento de doenças cardiovasculares, que continuam sendo uma das principais causas de morte na região.
O combate ao câncer também fez com que suas taxas de sobrevivência aumentassem significativamente. Terapias como quimioterapia, radioterapia, imunoterapia oferecem novas esperanças aos pacientes. Somam-se a isso os diagnósticos cada vez mais precoces, apontados por exames como mamografias e colonoscopias, que permitem a identificação de tumores em estágios iniciais. A evolução das tecnologias de diagnóstico por imagem, como a ressonância magnética (MRI) e a tomografia computadorizada (CT scans), foi fundamental para permitir a identificação de problemas de saúde antes mesmo que sintomas severos sejam manifestados.
Maria Beatriz Marcondes Macedo Montaño, geriatra pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e Profa. Dra da faculdade de Medicina de Sorocaba, enfatiza, em entrevista à reportagem, que a medicina preventiva e a promoção de estilos de vida mais saudáveis que vemos cada vez mais nas redes sociais evidenciam o combate a fatores de risco, como sedentarismo, tabagismo, estresse, obesidade e poluição atmosférica, questões que ela descreve como "os vilões para múltiplas complicações".
Envelhecer vs. Envelhecer bem

É notório que envelhecer nos dias de hoje, com o auxílio tecnológico e aumento do embasamento científico de centros médicos e hospitais faz com que a comunidade idosa seja melhor atendida e vista com novos olhos.
Perez conta que no passado, não tinha todas as opções que existem hoje. Mas esse estímulo pela vida, só acontece quando se tem saúde, quando é possível chegar a uma idade avançada com saúde. Existem muitos grupos e atividades que não havia quando era mais jovem. Entretanto, envelhecer por mais tempo traz uma suscita a questão sobre quem sustentará economicamente essa comunidade.
A inversão crescente da pirâmide etária indica que ao longo dos próximos anos a população brasileira pode enfrentar uma crise monetária e, principalmente, social. Com uma base cada vez mais estreita de jovens e um topo cada vez mais largo de idosos. Essa mudança demográfica traz consigo implicações profundas para a População Economicamente Ativa (PEA) – o contingente de pessoas em idade de trabalhar e que sustenta o sistema previdenciário e os serviços públicos.
Para Montaño não há dúvidas que na maior parte do mundo, principalmente em sociedades economicamente menos desenvolvidas, a elevação da expectativa de vida não significa qualidade de vida. Prova disso é que duas em cada três pessoas idosas têm uma doença crônica, como artrite, hipertensão, diabetes, cardiopatia, demência entre outras, e as doenças aumentam exponencialmente com a idade e a adesão aos tratamentos não chegam a 50%”.
Embora grande parte da população tenda a enxergar o problema apenas como uma questão econômica, é impossível deixar de lado a face comunitária. O crescimento nos anos de vida é abrangente, mas a melhora da qualidade desse cotidiano para todos não é. Assim como a maioria das demandas globais, esse avanço enfrenta uma grande barreira: a disparidade social. Muitos cidadãos não contam com plano de saúde, atendimento rápido e eficaz, amparo governamental e previdência social.
A especialista lembra que apesar dos esforços do SUS, a assistência aos idosos é melhor estruturada no sudeste e sul do Brasil. Além do mais, explica que o envelhecimento se dá ao longo da vida, se ocorreu em condições socioeconômicas precárias, ao chegar na velhice, se for possível, as incapacidades serão muito maiores.
Além da necessidade de uma análise profunda e social, é importante que também haja uma preocupação com a saúde mental desta parcela da sociedade. Muitas vezes, em razão da época em que cresceram, os sentimentos, dores e ambições de grupos envelhecidos são negligenciados por familiares e profissionais. A geriatra enfatiza que a mudança de mentalidade é necessária no cuidado ao idoso para que em vez de apenas tratar ou prevenir doenças, seja possível promover intervenções que ajudem a prevenir ou postergar o aparecimento de incapacidades e otimizar a habilidade funcional, resultando em um desenvolvimento pessoal contínuo e vida com dignidade.
Para Maria Beatriz é indispensável que o cotidiano da terceira idade seja repleto de independência e autonomia, quem sabe com um novo ideal, trabalho ou projeto, não apenas anos agregados que antecedem a morte. Dados estatísticos não refletem amplamente a realidade de nações segregadas. Sem apoio assistência, investimentos na qualidade do atendimento médico, valorização de pesquisas científicas e a criação de olhar equalitário, que atenda as necessidades de cada grupo, não há como garantir que as sociedades vivam mais e bem.
Se não houver amparo sobre as comunidades menos abastadas, a tendência é que em diversas regiões do país idosos tenham que se manter no trabalho por mais tempo, o Seguro Social não seja capaz de atender financeiramente todos indivíduos e políticas imediatistas sejam criadas como forma de conter o foco da adversidade.
Por Júlia Polito
Na zona norte de São Paulo, precisamente no bairro do Limão, Maria Adelina, de 74 anos, convive com uma prática que se tornou comum entre muitos brasileiros: a automedicação. Há cerca de dez anos, um médico prescreveu a ela um remédio que, na época, funcionou bem para controlar suas dores na perna. Desde então, Adelina manteve o hábito de recorrer à mesma medicação, mesmo sem acompanhamento regular de um especialista, acreditando que o tratamento indicado no passado ainda resolveria seus problemas de saúde atuais.
Hoje não procura mais clínicas médicas por um motivo: o neto recém-formado em medicina. Adelina passou a pedir a ele receitas para continuar comprando o medicamento nas farmácias que conhece de longa data no bairro, sobretudo as pessoas que trabalham nelas. Considerou adotar esse hábito após algumas experiências negativas com seu plano de saúde. Infelizmente nem todas as pessoas possuem a sorte de ter um médico disponível na família. Caso ele não tivesse se formado, Maria continuaria tomando remédios sem necessidade. Esse ciclo, no entanto, chama atenção para os riscos de manter um tratamento sem avaliação médica atualizada, já que o organismo e as condições clínicas podem mudar com o tempo. E tempo é demasiadamente importante para diagnosticar e oferecer tratamento adequado.
Essa é uma das preocupações de Lucas Verdasca, recém-formado em Medicina. Ele conta que tem sido uma experiência especial poder cuidar da avó e orientá-la de forma correta sobre o uso de medicamentos. Para ele, além de um dever profissional, é também um gesto de carinho.

A atenção de Lucas reflete um desafio que vai além das relações familiares. Em um cenário cada vez mais digital, a mesma tecnologia que facilita o acesso à informação e impulsiona campanhas de conscientização como o Outubro Rosa e o Setembro Roxo é também a que pode levar um paciente a interpretar mal os sintomas e buscar soluções por conta própria. Essa é a dualidade da era da informação na saúde.
Diante desse cenário, o médico destaca a diferença crucial entre ter acesso à informação e possuir conhecimento de fato. Ele observa que a facilidade em encontrar conteúdos sobre saúde na internet não significa que o público saiba aplicá-los corretamente. Para ele, informação e formação são conceitos distintos: o acesso não garante domínio sobre a prática nem compreensão sobre como cada caso se aplica a um indivíduo. A Internet não é capaz de construir um raciocínio clínico, o que faz com que muitas pessoas se apeguem aos piores cenários e ignorem que as condutas médicas são sempre individualizadas, jamais universais.
O risco, portanto, é duplo: além do sofrimento psicológico de se autodiagnosticar com uma doença grave, há o perigo físico do uso incorreto de medicamentos. Verdasca lembra que até mesmo anti-inflamatórios, vendidos sem receita e amplamente utilizados, são medicações perigosas e que podem trazer diversos danos à saúde, como lesões nos rins e no estômago, provando que nenhum tratamento deveria começar com um clique, e sim com uma consulta.
A automedicação ganhou novas dimensões na era digital. Uma pesquisa recente do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) mostra que 86% da população recorre a remédios sem orientação médica, principalmente para dores de cabeça, gripes e febre. O fenômeno, hoje é intensificado por dois fatores: a influência das redes sociais, onde proliferam dicas de saúde sem comprovação científica, e a má interpretação de estudos acadêmicos ou científicos, que chegam ao público de forma simplificada e fora de contexto. A ausência de uma receita não significa ausência de perigo. Mesmo usando medicações que não precisam de receituário médico, como os anti-inflamatórios, ainda sim são medicações perigosas que podem trazer diversos danos à saúde da pessoa. Segundo o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox/Fiocruz), mais de 30 mil internações anuais estão relacionadas a intoxicações por medicamentos. E com a evolução da tecnologia, esse problema tem se tornado cada vez pior.

Segundo Lucas, mesmo medicamentos aparentemente simples, como os anti-inflamatórios, podem causar danos sérios aos rins e ao estômago quando usados de forma inadequada. Entre os principais sinais de risco estão dor abdominal intensa, especialmente na parte superior do abdômen, diminuição do volume de urina e a presença de sangramentos, que indicam a necessidade imediata de procurar orientação médica. Além disso, existem os riscos das reações adversas, que são imprevisíveis e podem ser fatais. Cada medicação tem suas particularidades, assim como cada indivíduo apresenta condições de saúde e comorbidades próprias, o que faz com que um mesmo medicamento seja adequado para uma pessoa, mas inadequado para outra, sem contar os quadros de alergias que podem se tornar potencialmente graves.
A presença digital transformou as redes sociais em grandes “consultórios informais”, aplicativos como TikTok, Instagram e YouTube concentram milhares de vídeos e postagens que ensinam, de forma simplificada, a lidar com sintomas do dia a dia. O problema é que muitas dessas informações não possuem comprovação científica. Uma investigação do The Guardian revelou que mais da metade dos 100 vídeos mais populares com a hashtag #mentalhealthtips no TikTok contém dados incorretos ou enganosos, que são capazes de induzir a auto diagnósticos equivocados e ao uso inadequado de remédios.
Esse tipo de conteúdo atinge um público massivo. Praticamente todo usuário de redes sociais já se deparou com algum vídeo ou postagem sugerindo medicamentos ou “truques de saúde”. As famosas trends, desafios ou modas virais funcionam como multiplicadores dessa desinformação, espalhando recomendações sem qualquer base técnica. O papel dos influenciadores digitais se torna perigoso para o público, ao compartilhar experiências pessoais como se fossem orientações universais, eles criam um efeito de validação social. Se alguém em quem o seguidor confia recomenda, a tendência é acreditar que o produto ou técnica funcione. Essa relação de confiança, típica do ambiente digital, aumenta o risco de que milhões de pessoas adotem práticas inadequadas sem questionar a segurança delas.
Não apenas a desinformação contribui para a automedicação. O uso inadequado da ciência também alimenta o problema. Pesquisas científicas complexas, divulgadas em linguagem simplificada, acabam sendo interpretadas de maneira incorreta pelo público, criando uma rede de informações falsas. Um exemplo claro desse fenômeno está no uso de ferramentas de inteligência artificial. Um estudo publicado na Royal Society Open Science mostrou que sistemas como ChatGPT, LLaMA e DeepSeek tendem a generalizar resultados de pesquisas científicas, omitindo detalhes cruciais como dosagem ou riscos. Isso favorece interpretações superficiais e potencialmente perigosas, quando aplicadas diretamente ao consumo de medicamentos.
Essa perigosa generalização é reforçada na prática clínica, como detalha o médico Lucas Verdasca, ao exemplificar o porquê a IA não pode e não deve substituir uma consulta. Pelo simples fato de que ela não foi feita para ocupar o conhecimento e o saber técnico, foi feita para facilitar o que já existe e é humano. Ele ressalta que, embora a tecnologia seja uma aliada dos próprios médicos, ela não possui os elementos essenciais de um diagnóstico, pois existe todo um raciocínio montado não com base em um texto, mas sim em uma avaliação física, exames complementares, análise estruturada, que muitas vezes a inteligência artificial não tem acesso. A tecnologia funciona como facilitadora do trabalho médico, não um contato direto entre o paciente e a IA.
A automedicação no Brasil aumentou com a chegada da era digital e, embora as redes ajudem a disseminar campanhas de saúde, elas também prejudicam. O quadro é preocupante não apenas pela frequência, mas pelo impacto na saúde pública e no aumento de internações evitáveis. A busca por soluções rápidas e a confiança em fontes não verificadas contribuem para um cenário em que milhões de brasileiros colocam a própria saúde em risco.


