Em São Paulo, a rotina de um motorista de aplicativo revela como o trabalho passou a ser guiado por notificações, cansaço digital e um cotidiano moldado pelo brilho constante do celular
por
Carolina Hernandez
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24/11/2025 - 12h

 

Por Carolina Hernandez 

O celular vibra antes que qualquer clarão toque os prédios da Mooca, e essa vibração curta, metálica e insistente desperta Jonas de um sono leve, como se fosse uma convocação, um chamado que não permite adiamentos. Ele estende a mão ainda no escuro, alcança o aparelho, observa a luz que se espalha pelo quarto e lê a notificação do aplicativo que já anuncia alta demanda, fluxo intenso, oportunidade. Nos últimos anos, aprendeu a acordar assim, preso ao brilho do celular antes mesmo de sentir o chão frio sob os pés. O trabalho começa na tela, e não na rua.

No carro, um sedan prata que carrega o desgaste dos dias longos, Jonas encaixa o celular no suporte. O gesto é tão automático que parece parte do ritual de ligar o motor, como se o carro só funcionasse plenamente depois que o aplicativo estivesse ativo. A tela mostra a cidade em azul e amarelo, um mapa vivo onde cada área fervilha com informações que determinam para onde ele deve ir, quanto irá ganhar, quanto tempo deve esperar. O aplicativo calcula rotas, horários, riscos e recompensas, e Jonas respira fundo antes de seguir, como quem aceita que o destino do dia será guiado por aquele retângulo luminoso.

A primeira corrida aparece em menos de quinze segundos. Ele aceita. O carro avança devagar pelas ruas que ainda não despertaram, e Jonas observa o céu sem forma, as luzes dos postes refletidas no capô, o reflexo da tela pressionando seus olhos desde a madrugada. Logo, o trânsito cresce, e a cidade parece surgir inteira de dentro dos celulares dos próprios motoristas, porque ninguém conduz apenas pelas ruas, todos conduzem pelos mapas, pelas notificações, pelas coordenadas enviadas de longe.

A dependência da tela dita o ritmo. Jonas percebe isso a cada minuto. Ignorar uma notificação pode significar perder corridas, perder pontos, perder visibilidade diante do algoritmo. Ele sabe que o sistema registra cada movimento, cada segundo parado, cada mudança de rota, cada hesitação. Uma espécie de patrão silencioso observa sua velocidade, suas notas, seus cancelamentos, suas escolhas. Não há voz, não há rosto, mas há controle. Ele comenta que antes achava que dirigia para pessoas, e hoje sente que dirige para um conjunto de cálculos invisíveis.

O cansaço começa sempre pelos olhos. A luz azulada se infiltra pelas pálpebras como um grão de areia persistente. Mesmo nos poucos minutos de pausa, ele sente o celular vibrar no bolso, chamando de volta, lembrando que há demandas próximas. A Pesquisa TIC Domicílios mostra que o celular tornou-se o principal dispositivo de acesso à internet para a maioria dos brasileiros, mas, para motoristas de aplicativo, é mais que isso, é ferramenta, ponte, segurança, salário e vigilância. Jonas passa mais tempo olhando para a tela do que para qualquer rosto durante o dia.

Os passageiros entram no carro sempre com pressa, sempre conectados a outra conversa que não está ali. Há estudantes que assistem aulas no banco traseiro, executivos que participam de reuniões por vídeo, mães que equilibram sacolas e chamadas, jovens que respondem mensagens durante trajetos de poucas quadras. O carro se transforma em cápsula de passagens breves, onde cada um leva sua própria tela, e Jonas conduz tantas luzes simultâneas que, às vezes, o interior do carro parece mais iluminado durante a noite do que durante o dia.

Ele já ouviu histórias que não estavam destinadas a ele, conversas que vazavam das telas para o espaço do carro, lágrimas silenciosas de quem lia mensagens difíceis, risadas altas de grupos que relembravam memórias por vídeos compartilhados. Jonas sempre percebe que as pessoas falam menos com ele e mais com seus celulares, que olham menos pela janela e mais para notificações. Nos raros momentos de silêncio, apenas as telas respiram, emitindo luzes diferentes em intervalos variados.

No fim da tarde, quando o corpo já pesa, o aplicativo avisa aumento de demanda. Jonas pensa em parar, mas o aviso insiste, promete ganhos extras, sinaliza movimento crescente. Ele encosta em um posto para comprar um café, tenta alongar as costas, tenta piscar devagar para aliviar a ardência nos olhos. O celular vibra antes da primeira golada. Ele volta para o volante. Recusar seria uma escolha, mas uma escolha com consequências. Descanso e trabalho, na lógica do aplicativo, nunca estão em equilíbrio.

A madrugada avança e a cidade se torna uma paisagem de luzes espaçadas, com corredores vazios e poucos ruídos. Jonas leva um jovem que saiu do trabalho no shopping, e o rapaz passa o trajeto inteiro olhando para o celular enquanto mensagens surgem em sequência. Jonas também observa o seu próprio aparelho, que marca a rota até o destino. O carro segue pelas avenidas escuras com apenas as duas telas iluminando o interior, criando um silêncio que parece suspenso no ar.

Quando chega em casa, Jonas desliga o carro, depois o aplicativo, e por fim o celular, que insiste em vibrar com atualizações e resumos do dia. A sala escura o acolhe em um silêncio que chega a parecer estranho, como se o mundo tivesse diminuído de volume. Ele se recosta no sofá e sente o peso acumulado do dia, não apenas o peso físico, mas o peso da luz constante, da atenção exigida, da vigilância permanente que o acompanha desde o amanhecer. O corpo quer descanso, mas a mente ainda repassa rotas, mensagens, barulhos de notificação que permanecem mesmo após a tela apagar.

Amanhã, muito antes de a luz do sol tocar a janela, o celular irá vibrar novamente, e Jonas atenderá, não por escolha, mas por necessidade. Ainda assim, enquanto respira profundamente, sente uma dúvida surgir devagar, como quem desperta de um sonho longo. Ele se pergunta se ainda guia o carro, se ainda conduz o trajeto, ou se apenas segue o ritmo imposto pela tela que nunca dorme. E essa pergunta, ele sabe, continuará voltando. Porque, na madrugada das grandes cidades, o trabalho e a vida estão cada vez mais presos ao mesmo brilho.

Com o avanço do sistema de pedágio eletrônico nas rodovias paulistas, motoristas vivem a combinação entre fluidez no trânsito e incertezas sobre tarifas, prazos e adaptação ao novo modelo.
por
Inaiá Misnerovicz
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25/11/2025 - 12h

Por Inaiá Misnerovicz

 

Dirigir pelas rodovias da Grande São Paulo já não é mais como antes. Com a chegada do sistema free-flow - o pedágio eletrônico sem cancelas -, muitos motoristas sentem que atravessam uma fronteira invisível: não há mais a cancela para frear o carro, mas também não há a certeza imediata de quanto vão pagar. Para Jerônimo, motorista de carro, morador da zona leste de São Paulo que faz quase todos os dias o trajeto até Guararema a trabalho, essa sensação de fluxo e incerteza convive em cada viagem.

Antes da implantação do free-flow, Jerônimo parava em praças de pedágio, esperava, conferia o valor, calculava se valia a pena seguir por um trecho ou desviar. Hoje, ao cruzar os pórticos da Via Dutra ou de outras rodovias, ele simplesmente segue adiante. Só depois, no no aplicativo, descobre quanto foi cobrado, isso quando ele lembra de conferir a fatura. Para quem tem TAG, o débito cai automaticamente, mas para quem não tem, o sistema registra a placa e envia a cobrança que deve ser paga em até 30 dias, sob pena de multa, como prevê a regulamentação da CCR RioSP.

Esse modelo evita paradas e acelera o tráfego, especialmente nas pistas expressas. Segundo a concessionária Motiva/RioSP, quem trafega pelas marginais da Via Dutra (sem acessar a via expressa) não é tarifado. Mas Jerônimo ressalta que essa economia de tempo nem sempre vem acompanhada de previsibilidade de custo: “só sabendo depois quanto foi cobrado, ainda dependo de consultar o site para ver se registrou todas as passagens”, ele diz. A tarifa depende do horário e do dia da semana, pode variar, e para quem usa TAG há desconto de 5%. 

Para tornar essa transição mais suave, a RioSP intensificou ações de orientação nas margens da rodovia e em pontos públicos de Guarulhos. Na capital, promotores usam realidade virtual para explicar como os pórticos funcionam, há vídeos e atendimentos nos postos de serviço. Mais de 500 pessoas já participaram de eventos para esclarecer dúvidas sobre o funcionamento, formas de pagamento e salto entre pistas expressas e marginais.

As novas tarifas também entraram em vigor recentemente: desde 1º de setembro de 2025, os valores para veículos leves nas praças da Via Dutra foram reajustados pela ANTT, e nos pórticos do free-flow os preços também foram atualizados. No caso das rodovias geridas pela Concessionária Novo Litoral - especificamente a SP-088 (Mogi-Dutra), SP-098 (Mogi-Bertioga) e SP-055 (Padre Manoel da Nóbrega) - os valores por pórtico variam de R$ 0,57 a R$ 6,95 para veículos de passeio, dependendo do trecho.

Essa lógica de cobrança por trecho, sem a presença física de praças, exige do motorista algo além de atenção na pista: exige educação para se entender onde entrou, onde passou e quanto isso custou. Para Jerônimo, isso é mais difícil do que simplesmente parar e pagar. Ele admite que, apesar da melhoria no fluxo, teme que algum pórtico não tenha sido registrado, ou que haja diferença entre o que ele acredita ter passado e o que vai aparecer na fatura.

Além disso, há risco real para quem não paga no prazo. A CCR RioSP adverte que a não quitação da tarifa em até 30 dias configura evasão de pedágio, o que pode gerar infração de trânsito, multa fixada e até pontos na carteira. Para muitos, essa penalidade ainda parece pesada diante da novidade e da complexidade do sistema.

Por outro lado, o free-flow traz ganhos concretos para a mobilidade: ao eliminar paradas bruscas nas praças, reduz o risco de acidentes por frenagem repentina e melhora o desempenho das rodovias. A tecnologia permite modernizar a gestão do tráfego, e os pórticos com sensores garantem identificação precisa por TAG ou leitura de placa. Ainda assim, a transformação não se resume à pista. Ela repercute no cotidiano de quem vive dessa estrada, como Jerônimo, e também na forma como a concessionária se relaciona com os motoristas. A campanha de orientação mostra que há consciência de que nem todos se adaptarão imediatamente. As ações de atendimento por WhatsApp, aplicativo, site, totens e até no posto de serviço reforçam a aposta na transparência. 

Há também a perspectiva de que esse modelo se torne cada vez mais comum. Segundo planejamento de concessões futuras, mais pórticos free-flow poderão ser instalados nas rodovias paulistas até 2030, o que tornaria esse tipo de cobrança mais frequente para usuários regulares da malha estadual. Mas para que ele seja efetivamente equitativo, será preciso manter a educação viária, oferecer canais de pagamento amplos e garantir que os motoristas não sejam penalizados por simples falhas de entendimento.

Para Jerônimo, a estrada continua sendo um espaço de tensão e de liberdade. Ele ganha tempo, mas precisa vigiar sua fatura. Ele cruza Guararema, volta para São Paulo, e vive uma experiência nova: a de rodar e pagar depois, sem parar, mas sempre com a incerteza de que quanto passou pode não ser exatamente quanto será cobrado. A cancela desapareceu, mas o pedágio segue presente, só que disfarçado em números, e não em uma barreira física. 

Colunista Marcelo Leite revela que a área perde cada vez mais influência no país
por
Giovanna Britto
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24/11/2025 - 12h

 

Durante a pandemia de Covid-19, o Brasil se reinventou em assuntos a respeito de hábitos higiênicos, debates sobre saúde mental e destacou a importância do jornalismo científico, área  responsável por comunicar à população a respeito das vacinas, o avanço ao combate do vírus e outros assuntos de saúde pública. Entretanto, três anos após o fim do estado emergencial causado pela pandemia, a falta de adesão do público à ciência tem ameaçado o trabalho dos jornalistas desse segmento.

Entre 2020 e 2022, os profissionais da mídia foram expostos ao desafio de comunicar a incerteza científica, traduzir termos e conscientizar a sociedade sobre a pandemia. Muitos jornalistas já eram especializados na área, outros aprenderam a falar sobre ciência devido a alta demanda de notícias para divulgar. A pandemia serviu como ponto de virada para o jornalismo científico - que já existia no Brasil, mas ganhou repercussão graças à necessidade de dar foco ao assunto que ditou o estilo de vida de um mundo inteiro.

Nomes como Atila Iamarino, Natália Pasternak e Álvaro Pereira Júnior se destacaram como grandes vozes da divulgação do jornalismo de ciência. Em entrevista à AGEMT, Marcelo Leite, jornalista e colunista da Folha de São Paulo especializado na área de ciência e ambiente, comenta sobre esse período: “Nunca se valorizou tanto do ponto de vista de espaço, de tempo, de audiência, a divulgação de informações científicas de base para entender o que estava acontecendo.” Hoje, o espaço de fala e a repercussão em temas científicos são menores, uma vez que as pessoas estão cada vez menos interessadas em saber de que forma isso implica em suas vidas pessoais.

Jornalista Marcelo Leite posando para câmera
Formado em jornalismo pela USP, Marcelo também atuou na Revista Piauí e é autor do livro “Psiconautas: Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira”. Foto: Divulgação/Unicamp.

 

Marcelo relembra que o jornalismo científico já sofria com ameaças à sua credibilidade, com falsos especialistas, médicos sem conduta ética e  com o presidente da época, Jair Bolsonaro, reproduzindo falas que levantavam mais dúvidas e ondas de ódio. “Foi um período terrível, e talvez a parte principal, que me deixa mais frustrado, é que o público se dividiu em dois. Uma parte passou  a desconsiderar as informações que a gente, do jornalismo científico, se esforçava por apresentar como informações objetivas, fundadas em dados, com a qualidade que se espera da ciência ", completa.

Na fase posterior à pandemia, após o declarado fim do período emergencial do coronavírus em 5 de maio de 2023, foi possível observar as consequências e heranças que a abundância de informações equivocadas, negacionistas e falsas deixaram na rede de informação, seja online ou offline. Os movimentos anti vacinas, impulsionados durante o Covid, emitiram um alerta para a Organização Mundial de Saúde. Dados divulgados pelo jornal Humanista da UFRGS evidenciam que a cobertura de vacinas contra poliomielite, HPV e sarampo estão em constante queda e sequer atingem a meta em lugares como Norte e Nordeste. 

No anuário de Vacinas de 2025 da Unicef, os dados indicam que até 14 de julho de 2025, a cobertura vacinal dos grupos prioritários permanecia abaixo da meta de 90%: crianças de seis meses a seis anos com 39,5%, idosos com 53,2% e gestantes com 29,8%, correspondendo a menos da metade do público-alvo.

A questão ambiental também é desconsiderada por muitas pessoas. Marcelo afirma que há muitos temas pelos quais o jornalismo científico lutou pelo progresso e que atualmente são banalizados. “se houve alguma dúvida no passado, há 20, 30 anos atrás, hoje não há mais nenhuma dúvida sobre os impactos que estão vindo e virão da mudança climática, cada vez mais sérios. Mas ainda tem gente que questiona.”

Recentemente, casos de metanol que alertaram a população em outubro deste ano, trouxeram uma onda de informações falsas que prejudicaram profissionais da área jornalística e médica, motivando o pronunciamento deles a respeito. Vídeos tentando realizar testes caseiros para identificar a presença da substância nas bebidas, sem comprovação científica, viralizaram nas redes sociais.

Essa situação se assemelha com as polêmicas envolvendo o uso da cloroquina na pandemia. Um levantamento realizado por pesquisadores do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário da USP (Cepedisa) em colaboração com a Conectas Direitos Humanos, mostra que, entre março de 2020 e janeiro de 2021 houve pelo menos quatro medidas federais promovendo diretamente ou facilitando a prescrição do medicamento. Jair Bolsonaro foi um dos maiores promotores da cloroquina na época e quem motivou o uso para a população. Apesar de ter sido associada no combate ao Covid, a cloroquina é um medicamento que atua contra doenças inflamatórias crônicas e no combate a parasitas e cuja eficácia de uso para o coronavírus não é comprovada.

O estudo que deu início a essa ideia foi inicialmente publicado na revista científica International Journal of Antimicrobial Agents e assinado por mais de 10 profissionais. Hoje, a editora da revista, Elsevier, anunciou a retratação deste artigo após uma pesquisa aprofundada, com o apoio de um “especialista imparcial que atua como consultor independente em ética editorial”.

Os profissionais continuam exercendo seu trabalho com excelência, alguns optando pela mídia tradicional, outros inovando nas redes através de vídeos curtos. Mas é inegável a forma com que o jornalismo científico perdeu a influência e como falta apoio em todas as áreas. “É muito triste, porque eu dediquei minha vida inteira ao jornalismo científico, para ver isso acontecer no fim da minha carreira” conclui o jornalista.

Após sete anos, evento volta ao calendário impulsionado pelo avanço dos carros eletrificados
por
Fábio Pinheiro
Vítor Nhoatto
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22/11/2025 - 12h

O Salão Internacional do Automóvel de São Paulo, um dos eventos mais tradicionais do setor automotivo brasileiro, está de volta após um hiato de sete anos. A edição de 2025 acontece entre os dias 22 e 30 de novembro, em um contexto de profundas transformações na indústria e impulsionada pela expansão de veículos eletrificados, entrada de novas marcas no país e a necessidade das montadoras de reconectar consumidores às experiências presenciais.

De acordo com a RX Eventos, organizadora da mostra bienal, a volta acontece em razão da reestruturação e aquecimento do mercado. A última edição havia sido realizada em 2018 e contou com cerca de 740 mil visitantes, mas devido a pandemia de COVID-19 o Salão de 2020 foi cancelado. Nos anos seguintes, a volta do evento ficou só na especulação. Segundo a Associação Nacional de Fabricantes Automotores (Anfavea), a pausa também pode ser atribuída à crise de matéria-prima, à retração econômica deste então e ao formato caro para as montadoras que estavam distantes do público.

Embora as duas últimas edições tenham sido no São Paulo Expo, esta acontece no Complexo do Anhembi, casa oficial do evento desde 1970. A mudança foi celebrada por expositores e pelo público, já que o Anhembi permite maior fluxo de visitantes, oferece áreas amplas para test-drive e atividades externas, recuperando a identidade histórica do salão. O retorno também faz parte da estratégia de reposicionar o evento como uma grande vitrine de experiências automotivas, com pistas, ativações e zonas imersivas distribuídas pelo pavilhão.

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Renault anuncia o seu novo carro “Niagara” - Foto: Fábio Pinheiro

Entre as montadoras que vão expor, estão nomes de peso que apostam na ocasião para apresentar novidades ao consumidor brasileiro. A BYD leva ao Salão uma linha reforçada de elétricos e híbridos, aproveitando o crescimento expressivo da marca no Brasil, além de lançar no evento a marca de luxo do grupo, Denza. A rival chinesa GWM também estará presente, com o facelift do SUV H6, o jipe Tank 700 e a minivam Wey 09.

Em relação às marcas tradicionais, a Stellantis vai em peso para o Anhembi. A Fiat, apesar de não ter apresentado nenhum modelo novo, trará o Abarth 600, um SUV elétrico esportivo. A Peugeot terá os 208 e 2008 eletrificados e, principalmente, o lançamento da nova geração do 3008 para o mercado nacional, equipado com o tradicional motor THP. 

Enquanto isso, a Toyota investe na divulgação de novidades híbridas flex, com a chegada do Yaris Cross para brigar com o recém-lançado HR-V, e os líderes Hyundai Creta e Chevrolet Tracker. Juntas, as marcas representam parte do movimento de transformação do mercado brasileiro, que tem apostado cada vez mais na eletrificação e em tecnologias avançadas para rivalizar com a expansão chinesa.

O Salão 2025 também será palco de novas marcas como a Leapmotor, parte do grupo Stellantis. O SUV C10 será o primeiro modelo a chegar às ruas, ainda neste ano, e conta com a versão elétrica (R$189.990) e com extensor de autonomia (R$199.990). O segundo modelo será e o C-SUV elétrico B10, por R$172.990, 60 mil a menos que o rival BYD Yuan Plus, e mais recheado de tecnologia, como teto panorâmico, nível 2 de condução semi autônoma, câmera de monitoramento do motorista e airbag central.

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Presidente da Stellantis para a América do Sul, Herlander Zola, anunciou os planos para o grupo - Foto: Stellantis / Divulgação

Já a britânica MG Motor, propriedade da chinesa SAIC, investirá em esportividade elétrica, além de custo-benefício. O modelo de maior volume de vendas deve ser o SUV S5, rival de Yaun Plus, e igualmente equipado ao B10. Em seguida, o MG 4 chega para rivalizar com Golf GTI e Corolla GR, com mais de 400 cavalos, tração integral, pacote de ADAS completo, e pela metade do preço dos rivais. Por fim, o Roadster será o chamariz de atenção no estande, com portas de lamborghini e em homenagem à tradição da marca. 

O grupo CAOA também fará a estreia da nova marca que trará ao Brasil a Changan, com a chegada prevista para 2026 com os modelos de super-luxo elétricos Avatr 11 e 12, além do SUV UNI-T, rival do Compass e Corolla Cross. 

O pavilhão do Anhembi contará com pistas de test-drive, áreas dedicadas a modelos clássicos como o McLaren de Senna, e até mesmo uma área do CARDE Museu. No Dream Lounge estarão presentes super carros como Ferrari e Lamborghini, além da Racing Game Zone para os amantes de videogame e simuladores de corrida. 

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Área externa do Anhembi terá pista de slalom, frenagem e test-drive de dezenas de modelos - Foto: Salão do Automóvel / Divulgação

Apesar da ausência de marcas como Chevrolet, Ford, Mercedes, Volvo e Volkswagen, 2520 montadoras estarão presentes, incluindo Chery, Hyundai, Mitsubishi e Renault. O Salão espera receber cerca de 700 mil visitantes e a edição 2027 já está confirmada. Os ingressos custam a partir de R$63 (meia-entrada) nos dias de semana.

Projeto aprovado pelo Congresso libera R$ 22 milhões do Fundo de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT)
por
Helena Barra
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17/11/2025 - 12h

Por Helena Barra

 

No dia 4 de agosto de 2025, o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou o Projeto de Lei 847/2025. O plano, aprovado pelo Congresso brasileiro, regulamenta o uso dos recursos do Fundo de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), liberando o valor de R$ 22 bilhões para investimentos nas áreas da ciência e tecnologia.  O FNDCT é o principal instrumento de financiamento público da ciência, tecnologia e inovação no Brasil. Ele apoia pesquisas científicas, a formação de recursos humanos qualificados, a inovação tecnológica nas empresas, a infraestrutura de pesquisa e o desenvolvimento de projetos estratégicos nacionais.

A professora de economia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Norma Cristina Brasil Casseb, explica que fundos como o FNDCT possuem legislação própria. No caso do FNDCT, segundo dados da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), os recursos são provenientes de diversas fontes. A composição deles evidencia o importante papel do Estado tanto no direcionamento de incentivos diretos do orçamento público e do tesouro, quanto na garantia de que parte dos lucros obtidos pelas empresas do setor detentor e gerador de tecnologia retorne para a sociedade e permita que ela se desenvolva de forma mais igualitária.

Nas redes sociais, o presidente Lula, afirmou que a medida visa fortalecer a base industrial brasileira. “Com essa medida, vamos fortalecer a inovação nas seis missões da Nova Indústria Brasil e nas Instituições Científicas e Tecnológicas, levando infraestrutura, redes de pesquisa e oportunidades para todos os territórios do país. Investir em pesquisa e inovação é investir no futuro do Brasil”, comentou na divulgação.  Além disso, o projeto também tem como objetivo estimular o emprego qualificado em pesquisa e desenvolvimento, de maneira a ampliar o número de doutores em empresas, startups, parques tecnológicos e instituições de ensino. 

Para Norma Casseb, em um país como o Brasil, com alta desigualdade social e elevada concentração de renda, a liberação deste recurso é importante, não só para a sociedade, mas como para a economia nacional. “Neste contexto, o investimento em tecnologia e inovação, combinado a uma estratégia voltada para a industrialização do país, tem uma alta capacidade de geração de empregos de qualidade especialmente no setor produtivo, permitindo elevação na renda da população e, por consequência, maior expansão econômica”, informa a doutoranda. 

Segundo a Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), representante das instituições financeiras de fomento habilitadas a operar os recursos do fundo, a nova lei marca uma mudança de postura em relação ao uso dos fundos públicos voltados à inovação. Ao garantir previsibilidade e autonomia na aplicação dos recursos, o Brasil se alinha a boas práticas internacionais de apoio à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico. 

Em entrevista à Agência Brasil, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, destacou que, apesar de o FNDCT ter sido criado em 1969, o fundo ganhou maior relevância nos governos do presidente Lula, inclusive no atual mandato. De acordo com o governo, nos últimos dois anos, os investimentos em ciência, tecnologia e inovação por meio do FNDCT aumentaram seis vezes. Saíram de R$ 2 bilhões, em 2021, para R$ 12 bilhões, em 2024. A previsão para 2025 é de cerca de R$ 14 bilhões.

A professora também reforça que o investimento em ciência e tecnologia é um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento econômico e social de uma nação. Eles permitem adicionar valor agregado aos produtos brasileiros, além de elevar a produtividade e a competitividade da economia nacional, permitindo que sejam cada vez mais competitivos no comércio internacional.  Além disso, investimentos como o FNDCT podem tornar o País mais que um exportador de produtos de maior valor agregado, mas também um exportador de tecnologia para outros países, que muitas das vezes não possuem capacidade financeira ou de infraestrutura para desenvolverem suas próprias tecnologias.


 

 





 

Como os Data Centers podem impactar o Brasil
por
Helena Haddad
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28/10/2025 - 12h

Por Helena Haddad

Os Data Centers - centros de processamento de dados - são instalações físicas que sustentam a infraestrutura digital contemporânea. Na era digital, informação e internet são centrais no cotidiano, e com o crescimento das IAs e da digitalização, a demanda por essas infraestruturas tem aumentado significativamente. No contexto global, a América Latina surge como uma “nova fronteira” para investimentos, e o Brasil busca se destacar no setor, embora a construção dessas instalações levante questionamentos sobre sua sustentabilidade.

O projeto do Data Center do TikTok, uma empresa chinesa, em Caucaia, no Ceará, já aprovado mas sem data de inauguração, gera polêmica. Os indígenas Anacé pedem a derrubada do licenciamento ambiental, alegando ausência de estudos claros sobre impactos ambientais e alertando para o risco ao aquífero de Dunas, considerado vulnerável. Eles também questionam o alto consumo de energia e água, que poderia pressionar recursos locais. Por outro lado, a Casa dos Ventos, responsável pela obra, afirma que a licença foi obtida com base em estudos técnicos conduzidos por especialistas. Outra crítica recai sobre a exclusão do Ministério do Meio Ambiente das negociações iniciais, apesar de seu papel central na avaliação de impactos.

Carlo Pereira, especialista em sustentabilidade, reconhece que os Data Centers demandam grande quantidade de energia, mas lembra que no Brasil esse consumo pode ser atendido por fontes renováveis. Pedro Rodrigues, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, alerta, porém, que a indústria da inteligência artificial cresce mais rápido que a geração elétrica, e sem políticas públicas claras há risco de desequilíbrio e até colapso. O alto consumo de água e energia reforça a necessidade de planejamento para não comprometer recursos finitos.

Além disso, a presença de empresas estrangeiras evidencia uma dimensão geopolítica. Cerca de 60% dos dados brasileiros são processados fora do país, o que submete parte da vida econômica, social e política do Brasil a legislações e interesses de outras nações. A instalação de um Data Center do TikTok levanta a questão de quem realmente terá controle sobre dados críticos.

Soberania digital não significa fechar o mercado, mas exige estratégias claras. Segundo Pereira, isso passa por atrair players globais com contrapartidas — exigindo energia 100% renovável, integração a ecossistemas locais, formação de talentos e armazenamento de certos dados em território nacional; fortalecer operadores brasileiros com incentivos fiscais e zonas especiais que estimulem a competição; e estabelecer regulação estratégica para garantir que dados críticos — saúde, defesa, governo e infraestrutura — permaneçam sob jurisdição nacional.

Por fim, a chamada “nuvem”, embora pareça imaterial, depende de recursos físicos como solo e água, que são finitos. A expansão dos Data Centers no Brasil oferece oportunidade de atrair investimentos e consolidar o país como polo digital, mas impõe desafios relacionados à sustentabilidade, governança e soberania digital. O futuro do setor dependerá da capacidade do Brasil de conciliar desenvolvimento econômico, proteção de recursos naturais e autonomia sobre sua infraestrutura crítica de dados.

Enquanto as tensões comerciais com os Estados Unidos se acentuam, o Brasil fortalece sua parceria estratégica com a China.
por
Inaiá Misnerovicz
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17/11/2025 - 12h

Por Inaiá Misnerovicz

 

O mapa da agricultura brasileira, geralmente descrito a partir das grandes lavouras do Centro-Sul, começa a ganhar novos contornos. Nos últimos meses, uma combinação de fatores geopolíticos e iniciativas locais têm provocado mudanças no modo como o País pensa sua produção de alimentos. De um lado, os Estados Unidos, tradicional parceiro comercial do Brasil, anunciam tarifas que podem elevar em até 50% o valor de importação de produtos brasileiros. De outro, a China expande sua presença no nordeste brasileiro, num movimento que é também fortalecido pela atuação conjunta no âmbito dos Brics. A aproximação com a China ganha força como uma alternativa não apenas comercial, mas também tecnológica. Essa parceria se materializa, hoje, de forma concreta, no semiárido nordestino. Recentemente, cooperativas e comunidades rurais nos estados do Ceará, Maranhão, Rio Grande do Norte e Paraíba receberam um lote de máquinas agrícolas destinadas a fortalecer a agricultura familiar. 

O comboio que atravessou Nordeste levava tratores, colheitadeiras e semeadoras que prometem um novo ciclo. Para agricultores acostumados com o trabalho braçal, a chegada das máquinas é uma grande mudança. São equipamentos de pequeno e médio porte, adaptados às dimensões das propriedades familiares, e pensados para lidar com os desafios específicos do semiárido. 

A distribuição dos equipamentos integra uma política mais ampla de aproximação entre Brasil e China, que têm intensificado a cooperação em setores considerados estratégicos. No campo agrícola, essa parceria representa uma alteração significativa no equilíbrio de forças. Há décadas, os Estados Unidos influencia diretamente o modelo produtivo brasileiro, seja pela venda de máquinas, sementes, insumos ou pelo controle de parte relevante do mercado global de grãos. Agora, com investimentos voltados à agricultura familiar, a China sinaliza disposição para atuar em um terreno que, historicamente, sempre recebeu pouca atenção dos parceiros internacionais.

Além da mecanização, o acordo prevê a instalação de um laboratório de inteligência artificial voltado para a agricultura familiar. O projeto, fruto de colaboração entre o Instituto Nacional do Semiárido (INSA) e a Universidade Agrícola da China, pretende desenvolver ferramentas tecnológicas aplicadas à realidade do pequeno produtor: sistemas de previsão climática, sensores para manejo da água, inteligência de plantio e colheita, entre outras inovações ainda raras no Brasil rural. 

Maria Gomes é militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e coordenadora do projeto de mecanização. Ela diz que parceria simboliza uma chance de corrigir uma injustiça histórica e que a agricultura familiar no Nordeste foi empurrada para o atraso pelas políticas públicas que nunca chegaram por completo. Num território onde só 3% da produção é mecanizada, a ausência de máquinas muitas vezes pode determinar se o agricultor continua no campo ou precisa deixá-lo. Ela reforça que a mecanização não pode caminhar sozinha: precisa estar integrada à agroecologia, à produção de bioinsumos e ao fortalecimento das políticas públicas. E conclui que a chegada das máquinas diminui a penosidade do trabalho, amplia a produção e talvez abra caminho para que mais jovens queiram ficar no campo. 

Tang Xu
Foto: Tang Xu

Enquanto isso, no cenário internacional, o tarifaço do presidente norte-americano Donald Trump age como um lembrete das fragilidades do Brasil diante das políticas protecionistas dos Estados Unidos. Embora as tarifas afetem diretamente commodities como açúcar, café, cacau e carne bovina, e não a agricultura familiar, elas deixam evidente o quanto o país segue vulnerável às oscilações dos interesses externos. Em meio a essas tensões, a aproximação com a China ganha peso não apenas como alternativa comercial, mas como porta para uma outra lógica de desenvolvimento agrícola.

Para João Pedro Stedile, dirigente histórico do MST, a agricultura brasileira foi moldada, ao longo das últimas décadas, sob bases determinadas pelo capital norte-americano. Esse modelo priorizou grandes propriedades, monoculturas, dependência de insumos industriais e exportações voltadas ao mercado internacional. Stedile analisa que a entrada da China representa outro tipo de relação. Se no caso das grandes commodities a presença chinesa ainda está centrada na compra de soja, no semiárido a lógica é distinta: trata-se de fortalecer a agricultura camponesa, voltada ao mercado interno e à soberania alimentar. Isso pode representar o início de um projeto nacional capaz de reduzir desigualdades profundas entre o agronegócio exportador e a produção de alimentos básicos.

Stedile também aponta que as tarifas impostas pelos Estados Unidos ajudam o País a enxergar o quanto é arriscado depender de modelos de produção subordinados a interesses externos. Ele avalia que as máquinas chinesas se integram a um modelo alternativo de desenvolvimento, voltado à produção de alimentos para o povo brasileiro, e não à expansão do mercado global.

Ainda que as tarifas impostas pelos Estados Unidos não atinjam diretamente os agricultores familiares, elas ajudam o Brasil a enxergar o quanto é arriscado depender de modelos de produção subordinados a interesses externos. As máquinas chinesas, ao contrário das tecnologias tradicionais importadas, se integram a um modelo alternativo de desenvolvimento: um modelo que valoriza a produção de alimentos para o povo brasileiro, com preços acessíveis e técnicas adaptadas ao clima e ao solo do Nordeste.

As implicações sociais da entrada dessas tecnologias também são sentidas. Maria Gomes destaca que a juventude rural, muitas vezes desmotivada pela falta de perspectiva no campo, pode se ver mais envolvida com o uso das novas ferramentas. Para ela, a juventude entende rápido essas tecnologias e, quando participa, transforma a comunidade inteira. Mas Maria adverte que a mecanização e a inteligência artificial só terão impacto real se vierem acompanhadas de capacitação, geração de renda, acesso à água, crédito e melhoria das condições de vida.

Para Stedile, não há futuro para o país enquanto continuar dependente do capital estrangeiro. Ele defende um projeto de desenvolvimento baseado na agricultura familiar, apoiado por uma ampla Reforma Agrária e por investimentos em ciência, tecnologia e inovação. Nesse horizonte, a cooperação com a China pode desempenhar um papel estratégico ao permitir avanços em bioinsumos, sementes agroecológicas, energias renováveis e máquinas acessíveis para os pequenos produtores.

A cooperação Brasil-China no semiárido nordestino, portanto, vai muito além da entrega de tratores. Para os movimentos populares, trata-se de um passo importante rumo à soberania alimentar e à construção de um modelo agrícola que não reproduza as desigualdades impostas pelo agronegócio. O objetivo não é depender de importações, mas criar condições para o desenvolvimento de tecnologia própria, fortalecendo instituições públicas e consolidando uma produção voltada à autonomia.

A presença chinesa, somada aos efeitos da disputa geopolítica mundial, transforma o Nordeste em um laboratório vivo de experiências. Nos próximos anos, a região pode se tornar referência na criação de tecnologias adaptadas ao clima semiárido, combinando práticas agroecológicas, conhecimento tradicional e inovação digital. Ao mesmo tempo, a história que se desenrola ali mostra como as decisões tomadas em Washington, Pequim ou Brasília chegam até a vida de quem acorda cedo para plantar feijão, milho, mandioca ou hortaliças.

 

A nova caneta emagrecedora se popularizou no Brasil.
por
Wanessa Celina
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17/11/2025 - 12h

Por Wanessa Celina

 

O Mounjaro, nome comercial da Tirzepatida, ganhou destaque no Brasil como uma das principais opções para controle do diabetes tipo 2 e para redução de peso em pacientes com obesidade ou sobrepeso associado a doenças. O medicamento, que teve a tenista americana Serena Williams como garota-propaganda nos Estados Unidos, teve sua venda no Brasil crescendo 15,5%, com um custo que chega a variar entre R$ 1.500 a R$ 1.800.

Diferente das canetas emagrecedoras como o Ozempic, que a porcentagem da perda de peso corporal é de 10%, o Mounjaro tem a promessa de perder 20% do peso. Uma das grandes diferenças entre fármacos como o Ozempic, Wegovy, Victoza e o Mounjaro é a substâncias que são análogas. A farmacêutica e professora da USCS, Luciana Vismar, explica que a diferença entre os medicamentos está no tipo de substância. O nosso corpo, principalmente o intestino, produz substâncias chamadas Incretinas, como o GLP-1, que estimula o pâncreas a produzir proteínas, estimula o cérebro você sentir saciado, além de outras funções em sistemas de recompensa cerebral em funções relacionadas ao sistema cardiovascular; o GIP, que estimula a secreção de insulina, além de ajudar a armazenar energia no corpo. 

A Liraglutida (presente no Victoza) e a Semaglutida (Wegovy e Ozempic) são semelhantes ao GLP-1 que produzimos. Já o Mounjaro, que contém Tirzepatida, atua tanto nos receptores de GLP-1 quanto de GIP. Ou seja, ele estimula os receptores de duas moléculas diferentes, as incretinas. Por essa dupla ação, os estudos têm mostrado que o Mounjaro tem um efeito muito mais pronunciado na perda de peso.

Nicoli Ribeiro, é um exemplo de uma experiência positiva na utilização do fármaco para perda de peso. Por recomendação médica, ela utilizou o Mounjaro por ter menos efeitos colaterais e conseguir tratar o seu lipedema. Apesar de algumas reações físicas como náuseas nas primeiras aplicações e intestino preso, que foi regulado com uso de remédios, Nicoli afirma que compraria novamente. 

Nicoli, antes de começar o tratamento com o Mounjaro, já treinava e só manteve os treinos. Entretanto a sua alimentação mudou, com o uso do remédio sua vontade de comer doces e “besteiras” diminuiu. Essa mudança na alimentação, junto com o acompanhamento de um médico, na opinião de Nicole, ajudou bastante na perda de peso. 

Efeitos Coleterais

A ascensão desses medicamentos, exclusivamente do Mounjaro, vem modificando a estética corporal para o que é chamado de “Ozempic Face”, Luciana Vismar explica que essa mudança drástica deve-se a como o medicamento funciona para emagrecimento. Em vez de perder peso só nas áreas que costumam não ser desejadas, a rápida e acentuada perda de gordura leva a perda de gordura em áreas como a face.

Mas não só essa estética modificada preocupa, a perda de peso não é só dada pela perda de gordura, mas também pela perda de massa muscular. Esse que é importante para dar a sustentação do corpo. A perda de massa muscular acarreta no aumento do risco de quedas, reduz o metabolismo basal e, em longo prazo, pode levar ao reganho de peso. “Os estudos têm mostrado em longo prazo com o uso dessas drogas, que é o retorno de um peso até maior do que tinham antes da utilização desses fármacos.”, completa Vismar. 

Neste contexto, a alimentação é fundamental. A utilização do Mounjaro, ou qualquer outra caneta emagrecedora, tem que ser acompanhada por uma mudança no estilo de vida. Essa é a garantia de que esse peso perdido vai ser mantido com a suspensão da droga e a garantia de que não vai haver uma grande perda de massa muscular, atenta a farmacêutica.

Adicionalmente, um dos efeitos observados no uso do Mounjaro é a redução do desejo por hábitos de risco, como o tabagismo. Muitos usuários relatam uma diminuição significativa na vontade de fumar cigarros. Essa alteração de comportamento, ainda está sendo pesquisada por especialistas, “Algumas pesquisas, como na "British Journal of Pharmacology" mostram que agonistas de GLP-1 poderiam atuar nessas áreas de circuito de recompensas de cerebral porque existiriam receptores desse GLP-1 em áreas que controlam esse comportamento de vício”, explica Luciana Vismar. Entretanto, por não haver nenhuma comprovação científica, o medicamento não pode ser  utilizado em pacientes que têm grande consumo de drogas.

A  Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), no dia 25 de agosto, publicou novas regras que dificultam a manipulação de medicamentos  Semaglutida. Essa inversão, explica Vismar,  deu pelo fato de que a patente do Ozempic no Brasil vencer em 2026 e, diante disso, várias indústrias que já estão com sua linha de produção sendo ajustada para produzir medicamentos à base dessa nova molécula, que antes era exclusiva do Novo Nordisk. Vismar explica que o processo de obtenção dos IFAs (insumos farmacêuticos ativos) no Brasil é biológico e que  a molécula do Ozempic, conforme descrito na bula, é produzida por uma tecnologia de DNA recombinante, um processo extremamente elaborado.

No Brasil, a Propranovo Nordis é a única empresa com registro da Anvisa para esse princípio ativo. A agência reguladora não aprova a manipulação de fármacos por outras metodologias, pois não há garantia de segurança e eficácia. Isso se torna um fator limitante para a manipulação de alguns medicamentos. No entanto, o Monjaro (Tirzepatida) não enfrenta essa mesma restrição. Como sua produção não utiliza a tecnologia de DNA recombinante, uma possível manipulação do medicamento não estaria sujeita a essa mesma limitação imposta pela Anvisa.

Expectativa de Vida no Brasil atinge 76,4 anos; avanços na medicina ditam qualidade de vida
por
Luiza Zequim
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16/11/2025 - 12h

Por Luiza Zequim

 

Leonalino Perez tem 96 anos, uma marca de vida impressionante. Ao contrário da imagem gerada pela junção das 9 dezenas, Leo vai à academia 2 vezes por semana, corta a grama na casa dos filhos, anda pela cidade livremente e ainda se aventura pelo universo da filosofia e dos livros. Prestes a chegar ao centenário, o paulista passou por uma cirurgia para alocação de um stent no coração, procedimento para prevenir a catarata e a retirada do apêndice – a popular apendicite. Atualmente, uma única condição o tira o equilíbrio ocasionalmente: a degeneração macular. A enfermidade afeta ambos os olhos e cercam seu campo de visão. Apesar de lidar diariamente com uma barreira, o uso de tecnologias e procedimentos médicos regulares auxiliam Leonalino em seu cotidiano. 

Esse é um cenário que tende a se repetir nos próximos anos. Embora o acesso a medicina de qualidade não seja igual, o novo índice de expectativa de vida do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) confirma que a população brasileira está vivendo mais – a expectativa de vida ao nascer no país saltou de 71,1 anos em 2000 para 76,4 anos em 2023. 

Ele diz ter muito mais opções de tudo hoje em dia, saúde, respeito, tecnologias que se pode utilizar para benefício próprio. Já na época do seu pai e do seu avô era muito mais restrito essas coisas. Para Leonalino, indubitavelmente, com o que se tem à disposição hoje em dia é muito mais prazeroso viver.

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Leonalino Perez, com 96 anos de idade. Foto: Acervo Pessoal

 

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Evolução da medicina global - Foto: Freepik

Por trás deste novo cenário, há pequenas mudanças essenciais no auxílio ao mantimento da vida. Entre as progressões mais abrangentes estão: o controle de doenças infecciosas e o crescimento de campanhas de vacinação em massa – fator que levou à erradicação ou  controle eficaz de enfermidades como sarampo e poliomielite. 

No campo das doenças crônicas, o desenvolvimento de estatinas para o controle do colesterol, aliado a técnicas de angioplastia, cirurgias de ponte de safena e uma gama de medicamentos anti-hipertensivos, transformou o tratamento de doenças cardiovasculares, que continuam sendo uma das principais causas de morte na região.

O combate ao câncer também fez com que suas taxas de sobrevivência aumentassem significativamente. Terapias como quimioterapia, radioterapia, imunoterapia oferecem novas esperanças aos pacientes. Somam-se a isso os diagnósticos cada vez mais precoces, apontados por exames como mamografias e colonoscopias, que permitem a identificação de tumores em estágios iniciais.  A evolução das tecnologias de diagnóstico por imagem, como a ressonância magnética (MRI) e a tomografia computadorizada (CT scans), foi fundamental para permitir a identificação de problemas de saúde antes mesmo que sintomas severos sejam manifestados.

Maria Beatriz Marcondes Macedo Montaño, geriatra pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e Profa. Dra da faculdade de Medicina de Sorocaba, enfatiza, em entrevista à reportagem, que a medicina preventiva e a promoção de estilos de vida mais saudáveis que vemos cada vez mais nas redes sociais evidenciam o combate a fatores de risco, como sedentarismo, tabagismo, estresse, obesidade e poluição atmosférica, questões que ela descreve como "os vilões para múltiplas complicações". 

 

Envelhecer vs. Envelhecer bem

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Pirâmide Etária Brasileira em 2025 - Foto: Population Pyramid

 

É notório que envelhecer nos dias de hoje, com o auxílio tecnológico e aumento do embasamento científico de centros médicos e hospitais faz com que a comunidade idosa seja melhor atendida e vista com novos olhos. 

Perez conta que no passado, não tinha todas as opções que existem hoje. Mas esse estímulo pela vida, só acontece quando se tem saúde, quando é possível chegar a uma idade avançada com saúde. Existem muitos grupos e atividades que não havia quando era mais jovem. Entretanto, envelhecer por mais tempo traz uma suscita a questão sobre quem sustentará economicamente essa comunidade. 

A inversão crescente da pirâmide etária indica que ao longo dos próximos anos a população brasileira pode enfrentar uma crise monetária e, principalmente, social. Com uma base cada vez mais estreita de jovens e um topo cada vez mais largo de idosos. Essa mudança demográfica traz consigo implicações profundas para a População Economicamente Ativa (PEA) – o contingente de pessoas em idade de trabalhar e que sustenta o sistema previdenciário e os serviços públicos.

 Para Montaño não há dúvidas que na maior parte do mundo, principalmente em sociedades economicamente menos desenvolvidas, a elevação da expectativa de vida não significa qualidade de vida. Prova disso é que duas em cada três pessoas idosas têm uma doença crônica, como artrite, hipertensão, diabetes, cardiopatia, demência entre outras, e as doenças aumentam exponencialmente com a idade e a adesão aos tratamentos não chegam a 50%”.

Embora grande parte da população tenda a enxergar o problema apenas como uma questão econômica, é impossível deixar de lado a face comunitária. O crescimento nos anos de vida é abrangente, mas a melhora da qualidade desse cotidiano para todos não é.  Assim como a maioria das demandas globais, esse avanço enfrenta uma grande barreira: a disparidade social. Muitos cidadãos não contam com plano de saúde, atendimento rápido e eficaz, amparo governamental e previdência social. 

A especialista lembra que apesar dos esforços do SUS, a assistência aos idosos é melhor estruturada no sudeste e sul do Brasil. Além do mais, explica que o envelhecimento se dá ao longo da vida, se ocorreu em condições socioeconômicas precárias, ao chegar na velhice, se for possível, as incapacidades serão muito maiores. 

Além da necessidade de uma análise profunda e social, é importante que também haja uma preocupação com a saúde mental desta parcela da sociedade. Muitas vezes, em razão da época em que cresceram, os sentimentos, dores e ambições de grupos envelhecidos são negligenciados por familiares e profissionais. A geriatra enfatiza que a mudança de mentalidade é necessária no cuidado ao idoso para que em vez de apenas tratar ou prevenir doenças, seja possível promover intervenções que ajudem a prevenir ou postergar o aparecimento de incapacidades e otimizar a habilidade funcional, resultando em um desenvolvimento pessoal contínuo e vida com dignidade.

Para Maria Beatriz é indispensável que o  cotidiano da terceira idade seja repleto de independência e autonomia, quem sabe com um novo ideal, trabalho ou projeto, não apenas anos agregados que antecedem a morte.  Dados estatísticos não refletem amplamente a realidade de nações segregadas. Sem apoio assistência, investimentos na qualidade do atendimento médico, valorização de pesquisas científicas e a criação de olhar equalitário, que atenda as necessidades de cada grupo, não há como garantir que as sociedades vivam mais e bem. 

Se não houver amparo sobre as comunidades menos abastadas, a tendência é que em diversas regiões do país idosos tenham que se manter no trabalho por mais tempo, o Seguro Social não seja capaz de atender financeiramente todos indivíduos e políticas imediatistas sejam criadas como forma de conter o foco da adversidade. 

Má interpretação científica e tecnologia impulsionam um hábito arriscado que já atinge milhões de brasileiros.
por
Júlia Polito
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16/11/2025 - 12h

Por Júlia Polito

 

Na zona norte de São Paulo, precisamente no bairro do Limão, Maria Adelina, de 74 anos, convive com uma prática que se tornou comum entre muitos brasileiros: a automedicação. Há cerca de dez anos, um médico prescreveu a ela um remédio que, na época, funcionou bem para controlar suas dores na perna. Desde então, Adelina manteve o hábito de recorrer à mesma medicação, mesmo sem acompanhamento regular de um especialista, acreditando que o tratamento indicado no passado ainda resolveria seus problemas de saúde atuais.

Hoje não procura mais clínicas médicas por um motivo: o neto recém-formado em medicina. Adelina passou a pedir a ele receitas para continuar comprando o medicamento nas farmácias que conhece de longa data no bairro, sobretudo as pessoas que trabalham nelas. Considerou adotar esse hábito após algumas experiências negativas com seu plano de saúde. Infelizmente nem todas as pessoas possuem a sorte de ter um médico disponível na família. Caso ele não tivesse se formado, Maria continuaria tomando remédios sem necessidade. Esse ciclo, no entanto, chama atenção para os riscos de manter um tratamento sem avaliação médica atualizada, já que o organismo e as condições clínicas podem mudar com o tempo. E tempo é demasiadamente importante para diagnosticar e oferecer tratamento adequado.

Essa é uma das preocupações de Lucas Verdasca, recém-formado em Medicina. Ele conta que tem sido uma experiência especial poder cuidar da avó e orientá-la de forma correta sobre o uso de medicamentos. Para ele, além de um dever profissional, é também um gesto de carinho.

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                            (Imagem/Reprodução: arquivo pessoal)

 

 

A atenção de Lucas reflete um desafio que vai além das relações familiares. Em um cenário cada vez mais digital, a mesma tecnologia que facilita o acesso à informação e impulsiona campanhas de conscientização como o Outubro Rosa e o Setembro Roxo é também a que pode levar um paciente a interpretar mal os sintomas e buscar soluções por conta própria. Essa é a dualidade da era da informação na saúde.

Diante desse cenário, o médico destaca a diferença crucial entre ter acesso à informação e possuir conhecimento de fato. Ele observa que a facilidade em encontrar conteúdos sobre saúde na internet não significa que o público saiba aplicá-los corretamente. Para ele, informação e formação são conceitos distintos: o acesso não garante domínio sobre a prática nem compreensão sobre como cada caso se aplica a um indivíduo. A Internet não é capaz de construir um raciocínio clínico, o que faz com que muitas pessoas se apeguem aos piores cenários e ignorem que as condutas médicas são sempre individualizadas, jamais universais.

O risco, portanto, é duplo: além do sofrimento psicológico de se autodiagnosticar com uma doença grave, há o perigo físico do uso incorreto de medicamentos. Verdasca lembra que até mesmo anti-inflamatórios, vendidos sem receita e amplamente utilizados, são medicações perigosas e que podem trazer diversos danos à saúde, como lesões nos rins e no estômago, provando que nenhum tratamento deveria começar com um clique, e sim com uma consulta.

A automedicação ganhou novas dimensões na era digital. Uma pesquisa recente do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) mostra que 86% da população recorre a remédios sem orientação médica, principalmente para dores de cabeça, gripes e febre. O fenômeno, hoje é intensificado por dois fatores: a influência das redes sociais, onde proliferam dicas de saúde sem comprovação científica, e a má interpretação de estudos acadêmicos ou científicos, que chegam ao público de forma simplificada e fora de contexto. A ausência de uma receita não significa ausência de perigo. Mesmo usando medicações que não precisam de receituário médico, como os anti-inflamatórios, ainda sim são medicações perigosas que podem trazer diversos danos à saúde da pessoa. Segundo o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox/Fiocruz), mais de 30 mil internações anuais estão relacionadas a intoxicações por medicamentos. E com a evolução da tecnologia, esse problema tem se tornado cada vez pior.

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                               (Imagem/Reprodução: Divina Providência)                                                                                                                                                    

Segundo Lucas, mesmo medicamentos aparentemente simples, como os anti-inflamatórios, podem causar danos sérios aos rins e ao estômago quando usados de forma inadequada. Entre os principais sinais de risco estão dor abdominal intensa, especialmente na parte superior do abdômen, diminuição do volume de urina e a presença de sangramentos, que indicam a necessidade imediata de procurar orientação médica. Além disso, existem os riscos das reações adversas, que são imprevisíveis e podem ser fatais. Cada medicação tem suas particularidades, assim como cada indivíduo apresenta condições de saúde e comorbidades próprias, o que faz com que um mesmo medicamento seja adequado para uma pessoa, mas inadequado para outra, sem contar os quadros de alergias que podem se tornar potencialmente graves.

A presença digital transformou as redes sociais em grandes “consultórios informais”, aplicativos como TikTok, Instagram e YouTube concentram milhares de vídeos e postagens que ensinam, de forma simplificada, a lidar com sintomas do dia a dia. O problema é que muitas dessas informações não possuem comprovação científica. Uma investigação do The Guardian revelou que mais da metade dos 100 vídeos mais populares com a hashtag #mentalhealthtips no TikTok contém dados incorretos ou enganosos, que são capazes de induzir a auto diagnósticos equivocados e ao uso inadequado de remédios. 

Esse tipo de conteúdo atinge um público massivo. Praticamente todo usuário de redes sociais já se deparou com algum vídeo ou postagem sugerindo medicamentos ou “truques de saúde”. As famosas trends, desafios ou modas virais funcionam como multiplicadores dessa desinformação, espalhando recomendações sem qualquer base técnica. O papel dos influenciadores digitais se torna perigoso para o público, ao compartilhar experiências pessoais como se fossem orientações universais, eles criam um efeito de validação social. Se alguém em quem o seguidor confia recomenda, a tendência é acreditar que o produto ou técnica funcione. Essa relação de confiança, típica do ambiente digital, aumenta o risco de que milhões de pessoas adotem práticas inadequadas sem questionar a segurança delas.

Não apenas a desinformação contribui para a automedicação. O uso inadequado da ciência também alimenta o problema. Pesquisas científicas complexas, divulgadas em linguagem simplificada, acabam sendo interpretadas de maneira incorreta pelo público, criando uma rede de informações falsas. Um exemplo claro desse fenômeno está no uso de ferramentas de inteligência artificial. Um estudo publicado na Royal Society Open Science mostrou que sistemas como ChatGPT, LLaMA e DeepSeek tendem a generalizar resultados de pesquisas científicas, omitindo detalhes cruciais como dosagem ou riscos. Isso favorece interpretações superficiais e potencialmente perigosas, quando aplicadas diretamente ao consumo de medicamentos.

Essa perigosa generalização é reforçada na prática clínica, como detalha o médico Lucas Verdasca, ao exemplificar o porquê a IA não pode e não deve substituir uma consulta. Pelo simples fato de que ela não foi feita para ocupar o conhecimento e o saber técnico, foi feita para facilitar o que já existe e é humano. Ele ressalta que, embora a tecnologia seja uma aliada dos próprios médicos, ela não possui os elementos essenciais de um diagnóstico, pois existe todo um raciocínio montado não com base em um texto, mas sim em uma avaliação física, exames complementares, análise estruturada, que muitas vezes a inteligência artificial não tem acesso. A tecnologia funciona como facilitadora do trabalho médico,  não um contato direto entre o paciente e a IA.

A automedicação no Brasil aumentou com a chegada da era digital e, embora as redes ajudem a disseminar campanhas de saúde, elas também prejudicam. O quadro é preocupante não apenas pela frequência, mas pelo impacto na saúde pública e no aumento de internações evitáveis. A busca por soluções rápidas e a confiança em fontes não verificadas contribuem para um cenário em que milhões de brasileiros colocam a própria saúde em risco.