Por Manuela Schenk
Não fora uma sexta-feira qualquer para Júlia. A caminho do ponto de ônibus para voltar para sua casa após um dia de aula na faculdade um motorista embriagado atropelou-a e fugiu sem prestar socorro que mudou sua vida para sempre quando tinha apenas 19 anos. Júlia teve lesões nas vértebras T8, T9 e T10 que a deixaram paraplégica depois de cinco dias em coma quando recebeu a notícia de que jamais andaria novamente.
Hoje Júlia tem 22 anos e teve que reaprender a viver. Coisas que jamais imaginou ter dificuldades agora são grandes conquistas, como quando conseguiu tomar banho sozinha pela primeira vez ou quando pode se deitar na própria cama sem auxílio. Escadas se tornaram rampas, seu restaurante favorito virou delivery, já que não possui acessibilidade para que ela consiga entrar na cadeira de rodas. As festas que frequentava semanalmente agora são eventos anuais, pois a locomoção dentro de uma balada é quase impossível para alguém que não consegue usar as próprias pernas.
No início se adaptar parecia impossível, noites mal dormidas quando chorava no travesseiro até seus olhos cederem. Depois de receber alta do hospital ela foi encaminhada para terapia, consultas três vezes por semana que depois de dois anos se tornaram duas. A fisioterapia que antes era uma tortura aos poucos se tornou um momento divertido.
Nos anos que se passaram Júlia conheceu mais pessoas na mesma situação que ela e de pouco a pouco sua nova vida se tornou mais tolerável, mas mesmo depois de quase 4 anos do acidente ela ainda tem dias ruins, sua autoestima nunca mais foi a mesma já que por muito tempo não conseguia se arrumar como antes. Júlia conta que o momento mais difícil da vida dela foi descobrir que seu caso não tinha cura. Sem possibilidade de tratamento ou cirurgia, uma menina que antes era ativa, amava se exercitar, sair com suas amigas, passear com sua cachorrinha, agora se vê forçada a reaprender a viver.
É possível perceber as dificuldades que marcam a vida das pessoas que são afetadas pela paraplegia. Infelizmente muitos casos não são reversíveis, mas graças a estudos de um grupo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o mundo pode estar mais próximo de encontrar uma cura para uma deficiência que interrompe a vida de tantas pessoas.
A pesquisa, desenvolvida no Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, representa um marco para a medicina brasileira. O medicamento experimental chamado Polilaminina foi criado a partir de uma proteína natural da placenta humana, capaz de estimular a regeneração das células nervosas. Em estudos com animais, especialmente cães que haviam perdido os movimentos, o tratamento apresentou resultados impressionantes: alguns conseguiram voltar a andar mesmo após anos de paralisia. Esse avanço chamou a atenção da comunidade científica internacional e fez com que o Ministério da Saúde e a Anvisa classificassem o estudo como de prioridade absoluta no País.
A equipe liderada por Tatiana Sampaio começou o estudo da eficiência polilaminina para promover a regeneração de fibras nervosas/axônios e reconectar áreas lesadas da medula espinhal começou em 2007, embasado em outro estudo da faculdade que iniciou em 1998. São quase três décadas de trabalho árduo que trouxeram a equipe ao sucesso que é exposto para o mundo hoje, com seis dos oito pacientes humanos recuperando, parcial ou completamente, os movimentos que lhes foram tomados.
Além dos testes clínicos em andamento, o projeto da UFRJ tem recebido apoio de instituições públicas e privadas, como o Laboratório Cristália, que colabora na etapa de desenvolvimento farmacêutico e produção em larga escala da substância. O próximo passo dos pesquisadores é a realização de estudos em uma quantidade maior de voluntários, o que permitirá avaliar com mais precisão a segurança e a eficácia do medicamento. Caso os resultados se confirmem, o Brasil poderá ser o primeiro país a oferecer um tratamento realmente regenerativo para lesões medulares, uma conquista inédita na história da ciência.
Para Júlia e milhares de pessoas que convivem com a paraplegia, essa descoberta reacende uma esperança que parecia perdida. Mesmo que o caminho até a cura ainda seja longo, cada passo da pesquisa representa uma vitória contra a limitação imposta pela lesão medular. A história de Júlia mostra a força de quem se reinventa diante da adversidade. O que a ciência da UFRJ faz agora é provar que o impossível pode estar mais perto do que se imagina. Aquilo que antes era apenas sonho, agora começa a ganhar forma nas mãos de pesquisadores brasileiros dedicados a devolver o movimento e com ele a liberdade a tantas vidas interrompidas.
Por Tamara Ferreira
Nicolas pilotava sua moto pelas ruas de São Paulo e a única coisa que o importava era o vento batendo no rosto. Aos 22 anos, o entregador do iFood aprendeu a gostar da cidade de um jeito diferente. Com o céu cinza da cidade, pelas ruas estreitas e pelo vai e vem de pedidos que, para ele, significam liberdade. “Gosto de sentir o vento”, repete, como quem encontra no movimento uma forma de vida. Mas, neste ano, a rotina ganhou outro ritmo. Além das entregas, Nicolas passou a trabalhar com carteira assinada. O contraste entre os dois mundos opostos, o fez analisar os lados diferentes, em um deles, ele ter patrão, um horário fixo e salário mensal, mas quando fazia apenas entrega, não tem uma pessoa cobrando, uma equipe ou meta.
A realidade de Nicolas não é isolada. Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na última quinta-feira (17), o número de trabalhadores de plataformas digitais cresceu 25% em dois anos. De acordo com a pesquisa, no terceiro trimestre de 2024, cerca de 1,7 milhão de pessoas utilizaram o trabalho por aplicativos como principal fonte de renda. O rendimento médio mensal desse grupo foi de R$ 2.996, valor acima da média do mercado, embora essas pessoas trabalhem, em média, 5,5 horas a mais por semana. O levantamento identificou quatro tipos de aplicativos usados como fonte de renda: transporte particular de passageiros (exceto táxi), entrega de comida e produtos, plataformas de serviços gerais ou profissionais e aplicativos voltados para taxistas.
Enquanto Nicolas tenta equilibrar os dois empregos, pensando única e exclusivamente em ter os benefícios garantidos, uma nova geração já observa o trabalho de longe com um estranhamento incomum.

Recentemente, o número de adolescentes que rejeitam a ideia de trabalhar com carteira assinada cresceu. Em um vídeo publicado no TikTok, a influenciadora Fabiana Sobrinho, mais conhecida como Fabi Bubu, aparece ao lado da Valentina, sua filha de 12 anos, que afirma não querer ser CLT para não precisar “andar de ônibus” ou estar “em um ambiente com muitas pessoas e com um chefe mandando nela”.
Enquanto Valentina pensa assim, José Carlos, de 68 anos, formou-se em Economia, mas, como não conseguiu emprego na área, passou a trabalhar com corridas de táxi, de forma autônoma. Nas ruas desde 1989, ele tem diabetes e, mesmo não podendo ficar muito tempo sentado, já chegou a trabalhar 30 horas seguidas, porque, apesar de estar aposentado, o dinheiro que recebe não é suficiente para suprir suas necessidades — como contas médicas e despesas diárias. As dores na perna são constantes, mas José relata que trabalha muito por necessidade, para poder arcar com as suas despesas, comer e comprar os remédios que precisa. No último domingo, foram 16 horas sem descanso. O dinheiro da aposentadoria não dá para remédios, contas, comida. Sentar por tantas horas agrava sua condição, mas parar não parece uma opção.
Entre correrias e recibos, José vive o oposto da liberdade que atrai Nicolas e em um “tão tão distante” em relação ao mundo que Valentina imagina estar. A rotina dupla de Nicolas tem aumentado o cansaço. O jovem revelou que sua rotina anda mais estressante e menos lucrativa, sendo cansativo trabalhar em dois empregos. Apesar de ainda achar que, com as entregas, pode ganhar mais, já que quanto mais produz, mais recebe, hoje ele enxerga no trabalho com carteira assinada uma maior estabilidade, por saber que tem direitos garantidos e um salário fixo. Mesmo gerando certa ansiedade por ser um valor menor do que o que recebia apenas com as entregas, o modelo CLT lhe traz conforto e segurança. Esse foi, inclusive, um dos motivos pelos quais Nicolas decidiu aceitar um emprego de carteira assinada e manter as entregas no restante do dia.
Entre as diferentes gerações, expectativas e necessidades, o trabalho segue se reinventando, para uns por por prazer, para outros por sobrevivência — alguns fazem por liberdade, outros por urgência.
Por Jessica Castro
A cidade de Ituiutaba - MG guarda, bem ao lado do campus da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), campus Pontal, um tesouro ambiental. O Parque Municipal Doutor Petrônio Rodrigues Chaves, mais conhecido como Parque do Goiabal, é um dos últimos refúgios do cerrado em meio à malha urbana da cidade localizada no Triângulo Mineiro. Criado em 1977 para preservar a fauna, a flora e as nascentes da região, o parque hoje cumpre um papel que vai muito além da recreação: tornou-se um laboratório vivo para o ensino, a pesquisa e a extensão universitária.
Com cerca de 37 hectares, o Goiabal abriga uma rica diversidade de espécies nativas e cumpre um papel essencial na regulação do microclima urbano. O local já viveu dias de intensa movimentação: nos anos 1980 e 1990, era ponto de encontro para famílias e abrigava quadras, lagos e até um pequeno zoológico. Mas o tempo e a falta de manutenção por parte da gestão do município de Ituiutaba transformaram o cenário. O parque, abandonado, enfrenta atualmente diversos desafios como o avanço de moradias para dentro de sua demarcação, queimadas e poluição.
Foi nesse contexto que a comunidade acadêmica percebeu o potencial científico do espaço. Professores e alunos da UFU, campus Pontal, começaram a utilizar o parque para aulas de campo, levantamentos ambientais e pesquisas científicas sobre o cerrado urbano. Aos poucos, o Goiabal ressurgiu como uma sala de aula a céu aberto.
Essa conexão com o local envolve cada pessoa que resolve estudar seu ambiente. O parque, hoje categorizado como APA pela Prefeitura, tem uma aparência clara de cerradão. Árvores grandes que hora se adensam, hora se esvaem em pequenas clareiras que servem de lar a uma comunidade pequena de macacos-prego, que já são levemente habituados com a presença humana.
A proximidade física entre a UFU e o parque é simbiótica. Separados apenas por uma rua, os dois espaços se complementam. Estudantes de Ciências Biológicas, Geografia e Química realizam ali desde monitoramentos de solo e vegetação até estudos de biodiversidade, erosão, fungos e musgos. Trabalhos de conclusão de curso e iniciações científicas utilizam o parque como base empírica, contribuindo para a produção de dados locais e para o fortalecimento da consciência ambiental na região.
Mais do que um campo de estudos, o Goiabal virou um símbolo de resistência: um espaço onde a ciência se entrelaça à comunidade, e o cerrado, tão ameaçado no Triângulo Mineiro, encontra defensores apaixonados. Em 2018, um grupo de alunos da UFU decidiu transformar o incômodo em ação. Nascia o Coletivo Goiabal Vivo, uma rede de voluntários comprometida em reativar o parque como espaço de educação ambiental e mobilização social.
A bióloga formada pela Universidade Federal de Uberlândia e membro fundadora do coletivo, Karen Evangelista Marques, fez parte do grupo durante 7 anos e neste tempo, lutou com os demais integrantes para chamar atenção à importância do parque para a comunidade. Karen relembra como foi o primeiro momento do coletivo: no início, em 2018, houve uma forte conexão entre as pessoas. Todos ansiavam pela reabertura e reestruturação do Parque do Goiabal e, a partir da iniciativa, surgiu uma aliança de amizade. O grupo passava horas e horas da semana pensando e planejando formas de desenvolver atividades de cunho ambiental que chamassem a atenção do público, ao mesmo tempo em que se reuniam nas casas uns dos outros para momentos de lazer e entrosamento. Era a partir desses encontros que as ideias surgiam.
Entre as atividades, os membros realizam mutirões, trilhas educativas, projetos de extensão e oficinas em escolas. Também produziu o documentário chamado “Um Olhar para o Cerrado” (2021), que retrata a luta pela conservação do bioma e o renascimento do parque.
No mesmo ano da produção do documentário, membros do coletivo descobriram que a prefeitura havia feito a recategorização oficial do parque, que agora era considerado uma Área de Proteção Ambiental (APA), categoria que permite o uso sustentável dos recursos naturais. Na prática, isso significa que atividades humanas podem ocorrer no local, desde que respeitem os critérios de conservação e garantam o equilíbrio entre o meio ambiente e a presença das comunidades.
A mudança, porém, trouxe uma flexibilização significativa nas regras de preservação. Diferente da antiga classificação de Parque, que proibia construções e moradias dentro da área, a categoria de APA admite esses usos sob determinadas condições. Karen e os demais integrantes ficaram bastante preocupados na época, pois não havia sido comunicada à população a nova classificação do Goiabal. A designação como APA abriu brechas para que alterações antrópicas fossem realizadas dentro do espaço. A maior preocupação foi como essas mudanças poderiam impactar a vida silvestre local, especialmente a fauna e a flora.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, MMA, existem doze classificações de Unidades de conservação, UCs, sendo estas divididas em dois grupos: Proteção integral e Uso sustentável. Essas nomenclaturas são o que determinam sobre qual conjunto legislativo de proteção ambiental aquele ambiente estará sujeito.
Pandemia
Anos após a pandemia, algo natural ocorreu: os antigos membros do Coletivo seguiram caminhos diferentes, o grupo se desfez e novas pessoas, com ideias e metodologias distintas, passaram a integrá-lo. A principal diferença para mim foram, de fato, as novas direções metodológicas que surgiram, mas sempre mantendo o mesmo ideal.
O Goiabal Vivo tornou-se, assim, um elo entre poder público, universidade e comunidade mostrando que a defesa do meio ambiente é também um ato de cidadania. Os estudos realizados no parque são múltiplos e contínuos. Pesquisas de diagnóstico socioambiental, levantamento de espécies nativas, análise de solo e água e projetos de educação ambiental já renderam publicações e apresentações em congressos científicos.
Em uma das trilhas, é possível observar o contraste entre as árvores retorcidas do cerrado e os muros da cidade que avançam cada vez mais próximos. Esse cenário faz do Goiabal um espaço perfeito para compreender os impactos da urbanização sobre o bioma e para desenvolver estratégias de manejo sustentável em áreas urbanas. O parque é um grande laboratório de ensino-aprendizagem. Ele permite que o estudante veja, toque e sinta o cerrado, algo que nenhum slide poderia substituir.

Palco de projetos de extensão, o local é protagonista em ações que envolvem crianças e adolescentes das escolas de Ituiutaba com o objetivo de apresentar para a geração mais nova o potencial ambiental que ali existe. O objetivo é reconectar a comunidade ao território, resgatando a ideia de que o Goiabal é um bem coletivo. Durante as oficinas, os alunos aprendem a identificar espécies de fauna e flora, a reconhecer o valor das nascentes e a entender como o cerrado regula o equilíbrio climático da cidade. Em algumas atividades, o coletivo leva até as crianças frutos secos, jogos educativos como jogo da memória com as espécies existentes no parque e palestras que aguçam a curiosidade científica.

Apesar dos avanços, o parque ainda enfrenta desafios: falta de infraestrutura, riscos frequentes de queimadas, lixo acumulado e pressões urbanas ao redor. A gestão pública é um dos gargalos. Sem estrutura formal de administração e com nenhuma verba, o parque sobrevive muito mais pela dedicação dos voluntários e da universidade do que por políticas efetivas. Por isso, o coletivo defende a criação de um conselho gestor participativo e a transformação do parque em uma unidade de conservação municipal reconhecida, com plano de manejo e investimentos contínuos.
Incêndio
Em 2024, uma tragédia atingiu o Goiabal em cheio. Na noite de 27 de outubro, uma quarta-feira, ocorreu um incêndio em parte da vegetação do parque, com fortes suspeitas de intencional. Segundo o Corpo de bombeiros e a polícia militar da região, cerca de 15 mil metros quadrados de vegetação foram devastados no processo. O coletivo verificou os danos causados pelo fogo, quase um ano depois do ocorrido, determinando que a situação continua deplorável. Segundo sua análise, várias partes do parque, se encontram amontoadas de lixo e com permanência de animais de cunho doméstico, como cavalos, prejudicando a vida dos outros animais nativos do cerrado. Além da persistência de outros problemas antigos, como a falta de cerceamento do perímetro e o descarte ilegal de carcaça pela área.

O bioma cerrado constitui cerca de 23% do território nacional segundo a última análise do IBGE. O bioma que percorre o estado mineiro é constituído, em sua maior parte, pelo cerrado, porém com base no último estudo feito pela SEMAD, Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, a taxa de desmatamento do cerrado segue em queda sendo em 2023 duzentos e quatro mil quilômetros quadrados de desmatamento comparados ao índice de sessenta e sete mil quilômetros em 2024.
Essa queda vem sendo representada há pelo menos seis anos, porém áreas mais afastadas como Ituiutaba acabam não sendo o centro do radar da Secretaria. Entre os animais que vivem ou frequentam o perímetro do parque, se destacam espécies ameaçadas de extinção como, Lobo Guará.
O Goiabal é considerado um dos últimos redutos de vegetação nativa do Cerrado em Ituiutaba, o que o torna um espaço de relevância ecológica e científica inestimável. Em meio a um território cada vez mais pressionado pelo avanço urbano e pela expansão agropecuária, o parque preserva fragmentos de flora e fauna que já desapareceram em outras áreas do município. Sua cobertura vegetal abriga espécies típicas do Cerrado mineiro, árvores retorcidas, gramíneas adaptadas à seca e uma fauna diversa que inclui aves, insetos polinizadores e pequenos mamíferos, configurando-se como um verdadeiro refúgio biológico em meio ao concreto e às plantações.
A importância do parque, porém, contrasta com o histórico de negligência e omissão institucional. Diversos planos e propostas de manejo ambiental elaborados por estudantes e moradores locais seguem sem implementação efetiva, revelando uma distância preocupante entre o discurso oficial de sustentabilidade e as ações concretas de preservação. O abandono do Goiabal é reflexo de uma lógica regional marcada pelo predomínio do agronegócio e da monocultura, setores que moldam a economia do Triângulo Mineiro e frequentemente impõem uma visão utilitarista da terra, reduzindo o valor ambiental a um obstáculo ao desenvolvimento econômico.
Esse contexto evidencia uma disputa simbólica e política em torno do território: de um lado, a perspectiva produtivista que privilegia a exploração do solo e a expansão de fronteiras agrícolas; de outro, a resistência ambiental que tenta manter viva a memória natural de Ituiutaba. Assim, o Goiabal torna-se não apenas um espaço físico de preservação, mas também um símbolo de resistência contra o apagamento ambiental e o silenciamento das vozes comunitárias que lutam pela sua proteção.
Mais do que uma área verde, o Parque Doutor Petrônio Chaves é um espelho da relação entre sociedade, ciência e natureza. É nele que estudantes aprendem sobre o cerrado e cidadãos redescobrem o valor do ambiente natural dentro da cidade, um lembrete de que o cerrado ainda resiste, e que a gente pode resistir junto com ele.
Entre esmaltes, conversas e o som constante das notificações do celular, a profissional de manicure Maria Conceição percebe como o mundo digital exige das pessoas mais do que apenas tempo. Ela comenta que cada compra, seja no supermercado, no aplicativo da farmácia ou em uma loja virtual, envolve uma troca silenciosa. Ao digitar o CPF, os consumidores oferecem informações que raramente sabem como serão utilizadas, permitindo acesso a dados como e-mail, endereço, histórico de consumo e preferências de compra. Para Maria, cada registro é uma troca invisível: uma oferta aqui, um dado pessoal ali. Ela dizia que muitas pessoas inseriam o CPF quase no automático, sem perceber que aquele pequeno gesto revelava muito mais sobre elas do que imaginavam. Comentava que grande parte dos consumidores nem fazia ideia da quantidade de informações que alimentava diariamente, enquanto acreditava estar apenas concluindo uma compra comum.
Ela reflete sobre como o CPF deixou de ser apenas um registro fiscal e passou a se tornar uma das principais chaves de identificação no universo digital. Informações coletadas, armazenadas e organizadas alimentam um mercado bilionário de dados pessoais. Empresas especializadas, conhecidas como data brokers, compram e vendem perfis segmentados por idade, renda, localização, hábitos de consumo e até opiniões políticas.
Os dados obtidos a partir de ações cotidianas, como uma simples compra, se transformam em ferramentas estratégicas para marketing e publicidade, mas também podem moldar decisões importantes na vida das pessoas. Assim, anúncios se tornam mais precisos, campanhas publicitárias mais eficientes, e empresas conseguem atingir públicos específicos. Maria, no entanto, lembra que essa eficiência tem um lado preocupante. Vazamentos, perfis incorretos ou discriminatórios podem influenciar decisões de crédito, oportunidades de emprego e acesso a serviços. Para ela, cada clique deixa rastros que alimentam um poder silencioso, capaz de moldar trajetórias de vida de forma quase invisível.
Em seus atendimentos, ela também costumava mencionar que, se uma simples compra era capaz de revelar gostos e hábitos, outras ações provavelmente forneciam ainda mais detalhes. Para ela, essa sensação constante de estar sendo observada era silenciosa, mas presente, e quase nunca chegava de forma clara ao conhecimento do público. Acrescentava que, quando algum problema de dados vinha à tona, muitas vezes o dano já estava feito.
No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) busca equilibrar essa relação, determinando que empresas coletem apenas o necessário e informem claramente para que os dados serão utilizados. A legislação garante direitos de acesso, correção e exclusão de informações, além de prever sanções que podem chegar a 2% do faturamento da empresa, limitadas a R$ 50 milhões. Mesmo com essas regras, Maria percebe que muitas pessoas desconhecem seus direitos e permanecem vulneráveis. Empresas já foram multadas por vender contatos telefônicos para campanhas eleitorais e por comercializar informações sem consentimento. Vazamentos em larga escala, como o da Netshoes, expuseram milhões de registros, mostrando que a vulnerabilidade digital pode afetar diretamente a vida de cidadãos comuns. Cada notícia desse tipo reforça que o que parece banal, como informar o CPF, carrega consequências invisíveis já previstas em legislação vigente. Ela lembrava de casos amplamente divulgados, comentando que, se empresas gigantes tinham dificuldades para proteger informações, as menores estariam ainda mais vulneráveis. Observava que o consumidor confiava nas plataformas sem saber exatamente onde estava pisando, o que tornava essa relação ainda mais frágil.
O Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) complementa a LGPD ao definir princípios sobre privacidade, neutralidade da rede e guarda de registros online, mas especialistas apontam que a fiscalização ainda enfrenta desafios diante da rapidez das novas tecnologias. Maria observa que a ética na coleta de dados é essencial: o consentimento precisa ser claro e informado, evitando que usuários aceitem termos sem compreender totalmente o que estão autorizando. Apenas o estritamente necessário deve ser coletado e tratado com responsabilidade, sobretudo quando eles podem ser usados para outras finalidades. Ela reconhecia que quase ninguém lia os termos de uso e políticas de privacidade. Dizia que ela mesma raramente parava para analisar aqueles textos extensos, o que a fazia questionar se não estava autorizando mais do que deveria ao aceitar rapidamente as condições impostas pelas plataformas.
O uso de dados não se limita à publicidade e ao comércio. Ele se expande para o campo político, influenciando comportamentos e campanhas eleitorais. Nos Estados Unidos, empresas como Twitter e Meta foram investigadas por falhas na proteção de dados e pelo uso indevido de informações em campanhas de desinformação. No Brasil, a regulação busca evitar que práticas semelhantes comprometam a privacidade e a integridade do debate público. A dimensão desse impacto mostra que ações cotidianas, como digitar um número de CPF, fazem parte de um sistema muito maior, que conecta indivíduos e políticas em uma rede complexa de informação.
Durante o episódio do bloqueio da plataforma X, ela comentava que a situação parecia distante, mas afetava diretamente a rotina das pessoas. Observava como a dependência das redes sociais era profunda e como qualquer instabilidade mostrava a vulnerabilidade de trabalhadores e usuários, que dependiam desses espaços para vender, divulgar serviços e se comunicar. Foi o caso do episódio do bloqueio da plataforma X em 2024 que evidencia essa complexidade. A suspensão determinada pelo Supremo Tribunal Federal afetou o fluxo de dados, o mercado publicitário e levantou questões sobre a proteção de informações pessoais armazenadas em servidores estrangeiros. Durante cerca de 40 dias, a plataforma controlada por Elon Musk permaneceu inacessível, mostrando que a dependência de plataformas internacionais pode colocar em risco tanto dados quanto oportunidades de negócios. Mesmo em decisões legais, cada dado armazenado carrega implicações reais na vida de milhões de pessoas.
Cada CPF digitado, cada clique e cada registro digital deixam um rastro invisível que conecta o cotidiano à estrutura global de informações, já que por trás de números e algoritmos, ainda existem pessoas. A tecnologia sem transparência transforma-se em poder silencioso, e a privacidade se torna uma moeda invisível que circula entre empresas, plataformas digitais e cidadãos, exigindo atenção, consciência e reflexão sobre o valor de nossos próprios dados.
No fim de suas reflexões, ela afirmava que o mundo digital exigia aprendizado constante e que a proteção de dados deveria ser uma preocupação diária. Para ela, se as pessoas não se responsabilizassem pelos próprios dados, ninguém faria isso por elas. Acrescentava que, assim como cuidava das unhas das clientes com precisão e cuidado, acreditava que cada pessoa deveria tratar seus dados com a mesma atenção.
Por Carolina Hernandez
No corredor silencioso de uma escola em São Paulo, ainda ecoam lembranças de um tempo em que o giz era soberano. Antes de 2020, a tecnologia entrava na sala de aula apenas de mansinho, um laboratório de informática esquecido no fim do pátio, algumas plataformas de apoio pedagógico que poucos exploravam, um projetor que funcionava quando queria. Era uma educação ancorada no papel, no toque, na presença. Até que o mundo parou, e a escola precisou se reinventar em velocidade de queda livre.
Quando as portas fecharam, a sala de aula se espraiou pelas cozinhas, quartos, varandas e mesas improvisadas pelo país. Professores descobriram o peso de falar para uma tela vazia, estudantes sentiram o cansaço de aprender sozinhos e pais se viram mediadores do impossível. A educação brasileira, de uma hora para outra, atravessou um portal digital para o qual ninguém estava realmente preparado.
Em meio ao caos, brotaram gestos de tentativa e erro. Professores aprendiam a usar plataformas enquanto davam aula, vasculhando botões, tentando compartilhar telas, improvisando explicações quando a conexão falhava. Entre eles, Ana Paula, do Colégio Santo Agostinho, relembra aqueles dias corridos como quem remexe um caderno antigo. Conta que o período parecia um mergulho no escuro: ao mesmo tempo em que descobria novas ferramentas, tentava não perder alunos que lutavam para acompanhar a aula pelo celular emprestado da mãe, com o sinal oscilando na janela.
Aos poucos, a tecnologia deixou de ser muleta e virou parte da rotina. Mesmo depois do retorno presencial, Ana Paula segue combinando lousa e plataforma digital, e encontra na inteligência artificial um apoio para preparar materiais, adaptar atividades para estudantes neurodivergentes e acompanhar ritmos de aprendizado antes difíceis de perceber. A docente, no entanto, insiste que nada disso elimina o papel do professor: o gesto humano, diz ela, ainda é o que dá sentido à tecnologia.
Mas o salto digital expôs um problema que não cabe numa tela: a desigualdade. A pesquisa TIC Educação 2023 mostrou que mais de um terço das escolas públicas enfrenta sérias limitações de conectividade. Em muitas delas, o único ponto de acesso à internet se resume a um roteador frágil que pouco alcança. Há instituições em que o laboratório de informática virou depósito e estudantes seguem tentando assistir a videoaulas pelo único celular da casa.
Enquanto algumas escolas particulares investem em ambientes de realidade virtual e plataformas capazes de simular experiências históricas, muitas escolas públicas seguem à margem dessa revolução. Apenas 58% das instituições urbanas possuem banda larga de qualidade, e boa parte dos estudantes depende de um pacote de dados limitado para participar da aula. A tecnologia, que poderia democratizar, ainda funciona como um filtro social.
Nas universidades, o movimento também se espalha. Pedro Silva, estudante de pedagogia, vive o modelo híbrido todos os dias e afirma que não há mais caminho de volta: quem nasceu conectado espera que a escola dialogue com esse ritmo. Ele vê nas plataformas digitais a chance de personalizar o ensino, acompanhar com precisão as dificuldades de cada aluno e criar trilhas que avancem no tempo de cada um, algo que, no modelo tradicional, exigia uma atenção quase impossível.
Mas o entusiasmo vem acompanhado de alertas. Especialistas lembram que a tecnologia precisa de regras claras, proteção de dados e políticas que garantam acesso igualitário. Lembram também que ela não substitui a mediação pedagógica, nem cria, sozinha, pensamento crítico. A educação, afinal, não é apenas transmissão de conteúdo: é encontro, é vínculo, é interpretação do mundo.
O mercado global segue acelerando, prevendo mais de 400 bilhões de dólares investidos em soluções educacionais até 2030. Mas a pergunta que ecoa nas salas de aula brasileiras é outra: quem poderá acompanhar esse futuro?
A pandemia forçou a porta. O que era emergência virou estrutura. Hoje, a sala de aula não termina mais na parede; ela se estende pela tela, pelo laboratório de realidade virtual, pelo aplicativo que avisa o desempenho, pelo vídeo que explica o que faltou na explicação anterior. Ainda assim, nenhum algoritmo substitui o olhar que percebe o silêncio de um aluno perdido, nem a mão que redesenha uma explicação até que faça sentido.
A educação brasileira segue nesse entremeio, metade digital, metade analógica, inteiramente humana. O futuro já chegou, dizem. Mas ainda precisa aprender a incluir todos que vivem no presente.


