Paróquias da cidade têm programação junina, reunindo fiéis e moradores em festas com comidas típicas, brincadeiras e atrações para toda a família
por
Raissa Santos
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23/06/2026 - 12h

O mês de junho sempre traz consigo o cheirinho agradável do vinho quente, decorações com bandeirinhas coloridas e festividades que movimentam comunidades religiosas por todo país. Em São Caetano do Sul, sete das 11 paróquias que compõem a Forania da cidade preparam quermesses que reúnem fiéis em celebrações marcadas por comidas típicas, música e atividades para toda a família. 

As festividades, que começaram em maio com a quermesse da Paróquia São Bento — já encerrada — se estendem até o fim de julho, tomando conta dos pátios das igrejas espalhadas pela cidade. No Centro, a festa da Matriz Sagrada Família segue até o dia 28 de junho, sempre das 16h às 22h. O cardápio oferece aos visitantes opções clássicas como cachorro-quente, espetinhos, milho-verde, além de bebidas típicas como quentão, vinho quente e o tradicional chá do padre. 

No bairro Jardim São Caetano, a Paróquia Santo Antônio também segue com a quermesse até o dia 28, quando realizará o seu tradicional bingão. Voluntária desde 2023, Milena Drudi, de 22 anos, destaca que participar da organização da festa é uma experiência desafiadora e divertida ao mesmo tempo. Neste ano, após deixar a coordenação da barraca das brincadeiras, ela passou a colaborar em diferentes setores da quermesse. Segundo ela, a mudança permitiu conhecer novas funções e ter mais contato com o público. “Foi muito divertido trabalhar como voluntária e também exercitar minhas habilidades sociais. A experiência no caixa foi uma das mais desafiadoras e, ao mesmo tempo, uma das mais divertidas”, conta. 

Já a Paróquia Nossa Senhora da Candelária, no bairro Cerâmica, mantém sua quermesse até o dia 5 de julho, oferecendo ao público as tradicionais barracas de comidas típicas e um ambiente de confraternização para a comunidade. O mesmo acontece na Paróquia São João Batista, que também segue com sua programação até 5 de julho, mantendo seu tradicional bingo e reunindo fiéis e moradores para celebrar o período junino. 

Domitila Barbosa, de 15 anos, conta que frequenta a São João Batista com a família desde 2008, e participa da barraca do bingo junto de seu pai desde que ele assumiu a coordenação em 2018. “No nosso bingo, quase todo final de semana, temos uma rodada que sorteia um bicho de pelúcia gigante e as crianças ficam super animadas pedindo para os pais participarem do bingo”, destaca.

Frequentadores em bingo da Paróquia São João Batista. Foto: Reprodução / Instagram Paróquia São João Batista SCS
Frequentadores em bingo da Paróquia São João Batista. Foto: Reprodução / Instagram Paróquia São João Batista SCS 

Na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, as festividades acontecem até o dia 5 de julho, das 18h às 22h. Além das comidas e bebidas típicas que marcam as quermesses, a paróquia preparou atrações especiais para o público. Entre os destaques estão o posto de troca de figurinhas e um telão que transmitirá os jogos do Brasil na Copa. Heitor Souza Móda, de 15 anos, frequenta a paróquia desde os 10 anos de idade e esteve na quermesse durante o jogo do Brasil contra o Marrocos ao lado dos amigos do grupo de jovens. “É um ambiente gostoso que podemos conviver, é legal ver o jogo com a família, mas com todo o pessoal aqui e as comidas, tudo fica melhor” contou ele. 

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Quermesse da Paróquia Nossa Senhora Aparecida. Foto: Jaqueline Borges

Encerrando a programação, a Paróquia Nossa Senhora das Graças realiza sua quermesse até o dia 26 de julho, sempre das 18h às 22h. Além dos tradicionais lanches, doces e bebidas típicas, a festa também incorporou ao cardápio opções de tempurá de legumes e camarão, oferecendo um diferencial gastronômico aos visitantes.

Com opções espalhadas por diferentes bairros e datas que se estendem até o final de julho, às quermesses de São Caetano do Sul surgem como uma oportunidade para reunir a família, estreitar laços e fortalecer a convivência comunitária, mantendo viva uma das tradições mais populares do calendário brasileiro.

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Ele é o responsável por manter o padrão de qualidade e credibilidade de alguns veículos de imprensa de grande circulação no país
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Julia Jorge de Oliveira
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08/06/2026 - 12h

O profissional de edição atua em redações jornalísticas e realiza suas funções em equipe. Sua responsabilidade é verificar, filtrar e hierarquizar as informações que chegam aos veículos de imprensa. O objetivo é transformar essas informações em um produto, ou seja, a notícia final, para ser comercializada e entregue ao público de maneira clara e objetiva. O editor de vídeo Gabriel Neri Reis, 26, trabalha na redação da Revista Oeste desde 2022 e afirma que, desde criança, sonhava em ser editor de vídeo em um  veículo de comunicação do país. Aos 11 anos, iniciou sua trajetória na fotografia, mas logo migrou para a área de edição em razão do grande volume de trabalho gerado pela internet, principalmente após o surgimento do YouTube. 

Segundo Reis, as habilidades mais importantes para trabalhar na área são ter boas referências sobre os assuntos abordados, muita paciência e um olhar preciso e sensível para as imagens utilizadas em uma edição de vídeo. Ele complementa que existem diferentes tipos de edição no mercado jornalístico, como a edição de documentários, filmes e telejornais. Esta última é mais objetiva e busca apresentar informações, relatos e imagens reais. 

Reis declara que a profissão é voltada para pessoas que não estão em busca de reconhecimento imediato, afinal, o nome dos editores aparece discretamente ao final dos trabalhos. O editor não é apenas o responsável por criar projetos audiovisuais, mas também por aprimorar o conteúdo gravado e adaptá-lo aos formatos das redes sociais. Três grandes projetos marcaram sua trajetória profissional. O primeiro foi uma série documental de investigação sobre a morte de Marielle Franco, no GloboPlay; o segundo, um documentário sobre o cinema; e o terceiro, um documentário sobre as chuvas que atingiram e devastaram diversas famílias no Rio Grande do Sul. 

O especialista em edição afirma que a Inteligência Artificial não tende a eliminar a função do editor de vídeo, mas a transformá-la. Tarefas consideradas repetitivas e operacionais podem ser automatizadas, à medida que cresce a demanda por profissionais capazes de interpretar dados e tomar decisões editoriais complexas. Ao mesmo tempo, surgem preocupações relacionadas à redução de postos de trabalho em atividades mais rotineiras e à necessidade de requalificação profissional, pois nossa principal responsabilidade é transformar imagens brutas, entrevistas e materiais gravados em uma narrativa clara, objetiva e informativa, respeitando os critérios editoriais e éticos de cada veículo de comunicação. 

A tendência no jornalismo brasileiro é a valorização do trabalho do editor como verificador e gestor da qualidade editorial. Em vez de substituir esse profissional, a Inteligência Artificial tende a ampliar sua capacidade de trabalho, exigindo novas competências ligadas à tecnologia e à análise de dados. É importante destacar que a credibilidade, o julgamento humano e a sensibilidade jornalística continuam sendo elementos essenciais para a atividade editorial no jornalismo brasileiro.

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Em outubro, o cantor apresenta o espetáculo “Alquimia Popular Brasileira” no Nubank Parque
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Thais Oliveira
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03/06/2026 - 12h

O cantor e compositor Jorge Ben Jor, 87, retorna aos palcos paulistas no dia 17 de outubro com o espetáculo “Alquimia Popular Brasileira”. A apresentação acontece no Nubank Parque, o antigo Allianz Parque, em São Paulo, e propõe uma celebração da trajetória do artista por meio de um repertório que atravessa diferentes fases da sua carreira.

Com produção da 30e, o show vai reunir clássicos que marcaram gerações, como “País Tropical”, “Mas Que Nada” e “Taj Mahal”. O título do espetáculo faz referência à mistura de ritmos e influências que caracterizam a obra de Jorge Ben Jor, desde os anos 1960. Ao longo da carreira, o artista consolidou uma linguagem musical única ao unir samba, soul, funk, rock e elementos da música afro-brasileira.

Pôster de divulgação do novo show 'Alquimia Popular Brasileira', de Jorge Ben Jor. (Foto: Divulgação/Eventim)
Pôster de divulgação do novo show 'Alquimia Popular Brasileira', de Jorge Ben Jor Foto: Divulgação/Eventim ​​​​​

 

Com mais de seis décadas de carreira, Jorge Ben construiu uma trajetória marcada por sucessos que permanecem entre os mais conhecidos na música popular brasileira. Desde os anos 1960, o artista acumula canções que seguem presentes no imaginário popular e continuam sendo regravadas por outros artistas, mantendo o repertório em circulação até os dias atuais.

A dimensão de sua trajetória também se reflete nos palcos. Em 1993, Jorge Ben Jor e Tim Maia reuniram cerca de três milhões de pessoas em um show de Réveillon na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, um dos maiores públicos já registrados para uma apresentação musical no Brasil. O show entrou para a história  e permanece como um dos momentos mais emblemáticos da trajetória do cantor. 

Em comunicado à imprensa, Jorge Ben Jor destacou a importância da troca com o público durante as apresentações ao vivo. Segundo o artista, o show em São Paulo será uma oportunidade de celebrar sua trajetória musical por meio de canções que marcaram diferentes momentos de sua carreira.

A apresentação no Nubank Parque será a única passagem do espetáculo “Alquimia Popular Brasileira” por São Paulo e integra uma série de shows especiais previstos para 2026.

Ingressos

O show na capital paulista será realizado no Nubank Parque, na Zona Oeste, no dia 17 de outubro. A abertura dos portões está programada para as 15h. A classificação etária é de 16 anos. Menores de idade têm acesso permitido apenas acompanhados pelos pais ou responsáveis legais.

Os ingressos para o público geral estão à venda pela plataforma Eventim. Os valores variam de R$ 147,50 a R$ 1.295,00, de acordo com o setor da arena.

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Baseada no texto da dramaturga britânica Amanda Wilkin, a peça acompanha uma mulher que decide reconstruir a própria vida após sucessivas rupturas
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Daniela Monteiro Marinho
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02/06/2026 - 12h

Após uma temporada de sucesso no Rio de Janeiro, “Mudando de Pele" estreia em São Paulo no dia 4 de junho e segue em cartaz até 5 de julho no Sesc 14 Bis. A montagem marca o retorno de Taís Araújo aos palcos e apresenta ao público uma história sobre transformação, pertencimento e a coragem de recomeçar.

Inspirada no texto “Shedding a Skin”, da dramaturga britânica Amanda Wilkin, a peça acompanha Mayah, uma mulher prestes a completar 40 anos que decide romper com um relacionamento desgastado, abandonar um emprego marcado pelo racismo estrutural e reconstruir a própria vida. O que poderia se tornar apenas mais uma narrativa sobre dor e resistência ganha contornos mais complexos: a obra escolhe falar sobre liberdade, cura, ancestralidade e pertencimento.  

No palco, Taís conduz essa transformação com naturalidade impressionante. Sua interpretação evita exageros e aposta em pequenos gestos, silêncios e mudanças de energia que revelam as múltiplas camadas da personagem. O resultado é uma atuação que aproxima o público de Mayah e faz com que suas inquietações pareçam universais.

  

A atriz Taís Araújo durante apresentação de Mudando de Pele, em São Paulo
A atriz Taís Araújo durante apresentação de Mudando de Pele, em São Paulo. / Foto: Nana Moraes 

 

Embora seja apresentado como um solo, “Mudando de Pele” nunca parece solitário. A presença das musicistas Dani Nega e Layla adiciona textura à narrativa. A música executada ao vivo funciona como uma extensão das emoções da protagonista, criando momentos de delicadeza e força que ampliam a experiência sensorial do espetáculo.  

Outro destaque é a direção de Yara de Novaes, que constrói uma encenação elegante e fluida. Sem recorrer a grandes efeitos, a montagem aposta na força do texto, na expressividade do corpo e na simbologia do figurino para representar as sucessivas “peles” que Mayah abandona ao longo da história.  

A delicadeza é um dos principais acertos do espetáculo. Ao acompanhar uma protagonista em meio a sucessivas transformações, a peça aborda questões sociais e políticas de forma orgânica, sem didatismos, e encontra força justamente nos silêncios, nas ambiguidades e nas emoções que atravessam a narrativa.

 

Serviço

Sesc 14 Bis – Teatro Raul Cortez
Temporada: de 4 de junho a 5 de julho de 2026
Horários: quinta a sábado, às 20h; domingos, às 18h
Sessões especiais da Copa: 13/6, 19/6 e 5/7, às 15h
Ingressos: R$ 80 (inteira), R$ 40 (meia) e R$ 24 (credencial plena Sesc)
Classificação: 14 anos
Duração: 80 minutos  

 

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Tradicional cinema de rua sofre despejo e movimento de resistência se inicia nas redes sociais
por
Beatriz Foz
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25/05/2026 - 12h

 

Na quinta-feira, 14 de maio, foi cumprida uma medida de reintegração de posse do anexo Espaço Petrobras de Cinema, estabelecida pela Justiça de São Paulo. Caminhões chegaram no local pela manhã e desativaram as salas 4 e 5 do espaço, e o Café Fellini, anexado ao local, congelou suas atividades. Poltronas e equipamentos foram retirados, além de esvaziado o espaço do café.

O Espaço Petrobras de Cinema é um dos cinemas de rua mais antigos da cidade de São Paulo. O anexo funciona em um casarão da década de 1930 e antes de se tornar um espaço de cinema o imóvel abrigava o Instituto Goethe, que foi um local importante na formação de cineastas brasileiros. Eleito um dos melhores cinemas da cidade, conta com cinco salas de exibição que priorizam produções nacionais, cinema de arte e filmes independentes. O cinema era mantido através de um acordo de patrocínio com a Petrobras, via Lei de Incentivo à Cultura, com o objetivo de fortalecer a exibição do cinema brasileiro e internacional na cidade de São Paulo. 

Anexo ao Espaço Petrobras, o Café Fellini era um dos cafés mais tradicionais da cidade e funcionou por mais de 30 anos junto ao cinema. O café ganhou o prêmio de “Melhor Café e Bomboniere dos Cinemas de São Paulo” pelo Guia Folha por oito anos consecutivos. Na última semana o café fechou as portas. 

A luta pela permanência do local começou em 2022, quando o imóvel foi vendido a uma construtora que tinha a intenção de construir um prédio residencial no local. No mesmo ano, a comunidade de cinéfilos que frequentava o anexo organizou um abaixo assinado defendendo a preservação do cinema. Cerca de 50 mil assinaturas foram conquistadas na primeira campanha e o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo) intitulou o terreno como “Zona Especial de Preservação Cultural”, classificando o anexo como um patrimônio afetivo e cultural da cidade. Tal categorização não impede a demolição, mas obriga a incorporadora a manter o uso cultural do espaço mesmo com a reforma. Na prática, a empresa poderá demolir o espaço, desde que ceda duas salas de cinema e um espaço para o Café Fellini após as obras. 

No entanto, tais mobilizações não foram suficientes para proteger o espaço da batalha judicial. Na última semana, a ordem de reintegração de posse pedida pela Rec Vila 15 Empreendimentos Imobiliários foi cumprida. A incorporadora adquiriu o imóvel da Arteplex, responsável pela operação do cinema.

Um novo abaixo assinado foi criado pelo Café Fellini, reiterando o apelo pela permanência do estabelecimento e do anexo do Espaço Petrobras, já tendo conquistado mais de 90 mil assinaturas. Em um comunicado oficial postado nas redes sociais do café (@cinecafefellini), o estabelecimento agradece o engajamento dos clientes na luta pela permanência e declara que “precisamos defender espaços de convivência abertos para a cidade e para as pessoas”. 

O Espaço Petrobras de Cinema também publicou nas redes uma nota oficial à imprensa, destacando que todas as medidas legais cabíveis para buscar a reversão da situação estão sendo adotadas:  

  • “Seguimos comprometidos com a defesa de uma cidade mais equilibrada, culturalmente rica e voltada às pessoas, às suas formas de convivência e às experiências coletivas que também encontram expressão no cinema de rua.”

Letícia Souza, estudante e ávida frequentadora do Espaço Petrobras de Cinema, lamenta o despejo e o interpreta como uma perda da memória coletiva da cidade de São Paulo: “eu fico muito triste porque cada vez mais a gente vai vendo os cinemas de rua falindo e eu acho que eles fazem parte da memória dos cidadãos de São Paulo”. Letícia destaca que os cinemas de rua encontram dificuldades em se manter ativos com a popularização dos cinemas comerciais. “É difícil competir com algumas redes de cinema que ficam em shoppings como Cinemark, Kinoplex, Cinépolis… quando as pessoas pensam em ir ao cinema elas não pensam mais em ir aos cinemas de rua, mas pensam nesses de shoppings”, acrescenta a estudante. 

A hashtag “#anexofica” foi criada nas redes sociais como forma de protesto contra as medidas jurídicas estabelecidas. Diversos posts destacam a importância cultural do espaço e tratam o despejo como uma forma de descaso com a história da cidade. Outros tradicionais cinemas de rua como o CineSala, localizado em Pinheiros, expressaram seu apoio à luta do anexo através da hashtag. 

 

Publicação da página oficial do CineSala em apoio à permanência do anexo. Reprodução/ (@cinesala).
Publicação da página oficial do CineSala em apoio à permanência do anexo. Reprodução/ (@cinesala). 

As salas 1, 2 e 3 do Espaço Petrobras continuam com a programação usual, porém a direção do espaço ainda tenta a reativação das salas 4 e 5. O café permanece fora de atividade. 

 

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A história de Hugo e a análise de Norival mostram como a tecnologia, a rotina e a falta de incentivo moldam o declínio do leitor brasileiro
por
Lorena Basilia
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17/11/2025 - 12h

 

Por Lorena Basilia

 

A luz azul do celular ilumina o rosto de Hugo no fim da noite. O quarto está em silêncio, mas o som das notificações preenche o espaço. Ele rola a tela por instinto, sem pensar. Vídeos curtos, comentários, mensagens, publicidades . Quando o relógio marca quase meia-noite, ele percebe que não leu nenhuma página do livro que está na sua cabeceira e se sente muito cansado, mesmo que esteja deitado há horas. Na prateleira, seus outros livros empoeirados o observam de volta. Na infância dele, ler era um prazer, não uma obrigação. Hugo costumava deitar na cama e abrir o livro sem pressa. Lia sobre mundos distantes e personagens que pareciam vivos. Naquele tempo, a imaginação era o seu refúgio mais seguro, mas aos 20 anos, a rotina é outra. Trabalha em uma loja de eletrônicos em Curitiba, passa o dia cercado por telas e clientes apressados e em casa busca alívio nas redes sociais. O tempo passa rápido e a concentração se dissolve, ele lembra dos livros com saudade, mas diz que perdeu o ritmo. A leitura parece exigir um tipo de tempo que já não existe.

Segundo o Instituto Pró-Livro, o número de leitores no Brasil caiu de 104 milhões em 2015 para 89 milhões em 2023. São 15 milhões de pessoas a menos que declaram ler por prazer. A maior queda está entre os jovens, que passam mais de sete horas diárias diante de telas, de acordo com a pesquisa TIC Domicílios. Para o professor e escritor Norival Leme Júnior, mestre em Filosofia e docente de literatura e produção textual, o problema é antigo e vai além do desinteresse. Ele afirma que o Brasil nunca foi um País de leitores porque nunca resolveu suas bases educacionais. Norival recorda que o analfabetismo funcional ainda afeta a maioria da população adulta, mesmo entre os alfabetizados, muitos não conseguem compreender textos longos ou complexos. Ele lembra que, em meados de 2015, cerca de 75% dos brasileiros estavam em algum nível de analfabetismo funcional, isso significa que liam, mas não entendiam.

Em sua análise, o déficit histórico da leitura impede o desenvolvimento de um pensamento crítico consistente. Pare ele o ser humano é do tamanho da própria linguagem, quando o vocabulário se empobrece e o contato com a linguagem se torna superficial, o pensamento se estreita junto - pensar exige palavras, e palavras nascem da leitura. Norival vê a crise presente como consequência de um longo processo, em que o país nunca tratou a alfabetização e o acesso ao livro como prioridade nacional. Desde o rádio, televisão e a última revolução da Internet, a história do Brasil é marcada pela substituição da leitura por meios mais imediatos de comunicação. Em muitas regiões, o rádio ainda é a principal fonte de informação, com a chegada do celular, o livro se tornou quase um luxo.

Hugo sente vontade de voltar a ler, mas não encontra tempo nem disposição. O trabalho o consome, o transporte é desgastante e, ao fim do dia, sobra apenas o cansaço. Abre o celular porque é o que exige menos esforço, rola vídeos curtos, lê manchetes rápidas e, quando percebe, já é hora de dormir. A rotina dele se repete em milhões de pessoas. Norival acredita que o problema não é apenas a correria, mas o modo como o tempo livre foi tomado pela lógica da produtividade. Ele explica que a sociedade atual valoriza a pressa, o resultado imediato e o conteúdo rápido. A leitura, que exige pausa e reflexão, acaba parecendo uma perda de tempo. Esse padrão afeta não só o prazer de ler, mas também a capacidade de pensar. Para o professor, o excesso de estímulos visuais e de informações fragmentadas cria uma geração que se comunica muito, mas reflete pouco. O celular não é o inimigo, mas um sintoma de uma era em que a profundidade se tornou rara.

A crise da leitura não se explica apenas pela tecnologia, é também fruto da desigualdade social, entende o professor. Lembra que há cidades inteiras sem livrarias e escolas públicas com bibliotecas fechadas. Em algumas regiões não existe sequer um espaço de leitura em um raio de centenas de quilômetros. Ele afirma que o problema é político, sem políticas públicas de incentivo à leitura, o acesso ao livro continua restrito. Nos últimos anos, a falta de investimento em cultura e educação reduziu ainda mais as possibilidades de formação de leitores. O professor defende que a leitura deve ser tratada como questão de Estado. O mercado editorial não tem força para resolver o problema sozinho. Também critica a falta de interesse político em promover o pensamento crítico. Em sua avaliação, parte das lideranças brasileiras vê a leitura como uma ameaça, porque ler desperta consciência. Também acredita que a ausência de incentivo à leitura é, em parte, uma forma de manter o controle sobre uma população que pensa e questiona pouco.

Os dados do mercado editorial confirmam a visão do professor. Entre os livros mais vendidos do país estão títulos de autoajuda, religiosos e obras ligadas a influenciadores digitais. Livros clássicos e literatura contemporânea aparecem em posições muito inferiores, a leitura virou consumo, não reflexão. Norival observa que as pessoas leem buscando resultados imediatos. Querem enriquecer, melhorar a produtividade, encontrar soluções rápidas. A leitura literária, que estimula o pensamento e a imaginação, perde espaço para textos utilitários. Essa tendência, segundo ele, é reflexo direto de um modelo social que transforma até o conhecimento em produto.

Hugo e Norival se movem pela mesma convicção: a de que o contato com as palavras ainda é essencial para manter viva a capacidade de pensar. A leitura exige tempo, silêncio e disposição, três coisas cada vez mais escassas. No entanto, é ela que amplia a linguagem e, com ela, o entendimento da realidade. Sem leitura, o pensamento se reduz e a imaginação se apaga. Enquanto Hugo enfrenta o cansaço diário e tenta resgatar o prazer de ler, Norival continua insistindo em sala de aula, convencido de que ensinar literatura é desafiar o esquecimento. Entre o brilho das telas e o silêncio das páginas, os dois representam o retrato de um Brasil que lê cada vez menos e, por isso mesmo, se compreende cada vez menos.

Os hormônios chamados bioidênticos têm sido usados no tratamento de sintomas da menopausa.
por
manuela schenk scussiato
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17/11/2025 - 12h

Por: Manuela Schenk

 

Maria Rosa é moradora de um bairro tranquilo em Belo Horizonte e tem 58 anos. Vivia dias que pareciam sempre nublados. A menopausa havia chegado silenciosa, mas dominando cada detalhe de sua rotina: noites interrompidas por ondas de calor, cansaço persistente e um humor tão instável quanto o clima da cidade. Professora aposentada, ela se viu pela primeira vez incapaz de organizar sua própria vida, como se o corpo tivesse assumido o comando sem pedir permissão.

Os meses seguintes foram marcados por idas e vindas a médicos, tentativas de adaptar a rotina e conversas demoradas com amigas que compartilhavam experiências semelhantes. Nada parecia surtir efeito, até que ouviu falar de uma abordagem que ganhava espaço em consultórios especializados: a terapia com hormônios bioidênticos. Curiosa e cansada de sentir que estava vivendo apenas no piloto automático, Maria decidiu buscar uma avaliação completa para entender se aquela alternativa poderia ser adequada para ela.

A equipe médica analisou seu histórico e, após uma explicação detalhada sobre os possíveis benefícios e limitações, apresentou a reposição hormonal bioidêntica como uma opção. Maria aceitou iniciar o tratamento, não como uma promessa de solução mágica, mas como a possibilidade de reencontrar a si mesma. Nos dias seguintes, seu ceticismo dividia espaço com uma esperança tímida, que ela mal ousava verbalizar.

As mudanças começaram de forma sutil. As noites tornaram-se menos turbulentas, os suores repentinos diminuíram e, com o sono mais estável, veio também uma energia que Maria acreditava ter perdido para sempre. Pequenas vitórias foram se acumulando: a disposição para caminhar pela manhã, o prazer em preparar o próprio café e até a vontade de retomar projetos que havia abandonado quando os sintomas apertavam.

Com o passar dos meses, a melhora deixou de ser apenas física, ela sentiu seu mundo voltando a ter cor. Amigos próximos notaram o brilho renovado no olhar, e Maria passou a falar abertamente sobre sua experiência, sempre destacando que cada mulher tem sua trajetória e que o acompanhamento profissional é indispensável. Para ela, a reposição hormonal bioidêntica representou mais do que um tratamento: foi a reconquista de uma vida que parecia ter escapado pelas frestas do tempo.

Hoje, Maria Rosa caminha pela praça do bairro com passos firmes, como quem recuperou não só o controle do próprio corpo, mas também o entusiasmo pelos dias que virão. Sua história é uma entre tantas que ilustram a complexidade da menopausa e a importância de abordar o tema com informação, cuidado e sensibilidade. E, enquanto observava o movimento ao redor, ela resumiu sua jornada com simplicidade dizendo que a menopausa tentou paralisá-la mas aos poucos ela aprendeu que existe sempre um caminho para voltar a florescer.

Com o tempo, Maria foi percebendo que a melhora não se refletia apenas no cotidiano, mas também em suas relações. Ela voltou a frequentar rodas de leitura, retomou encontros semanais com antigas colegas de profissão e até se animou a planejar pequenas viagens. “Parece que eu reencontrei minha própria companhia”, comentou certa vez, rindo com a naturalidade que havia deixado de sentir. O que antes era medo de enfrentar os dias transformou-se em vontade de ocupar novamente os espaços que sempre foram seus.

Seu marido, Antônio, também testemunhou essa transformação de perto. Ele lembra que, antes do tratamento, as noites eram marcadas por inquietação e cansaço, e as conversas acabavam ofuscadas pela exaustão. Agora, o casal redescobre uma rotina mais leve, com caminhadas ao entardecer e longas conversas na cozinha. Para ambos, a mudança de Maria representou não apenas um avanço individual, mas uma renovação de laços, mostrando como o bem-estar de uma mulher reverbera por toda a família.

Os hormônios desempenham papéis essenciais no equilíbrio do organismo, regulando funções como metabolismo, humor, sono e, quando falamos em reposição hormonal, especialmente para mulheres na menopausa, é comum surgirem dúvidas sobre a diferença entre hormônios tradicionais (sintéticos) e hormônios bioidênticos. Embora ambos tenham o objetivo de aliviar sintomas decorrentes da queda hormonal, eles se distinguem principalmente pela estrutura química e pela forma como o corpo os reconhece.

Os hormônios tradicionais, frequentemente chamados de sintéticos ou não bioidênticos, são produzidos em laboratório, mas não necessariamente possuem a mesma estrutura molecular dos hormônios humanos. Apesar de eficazes para muitas mulheres, podem apresentar respostas variáveis no organismo porque sua interação com os receptores hormonais nem sempre ocorre da mesma forma que com os hormônios naturais. Isso pode influenciar tanto os efeitos desejados quanto o perfil de efeitos colaterais.

Já os hormônios bioidênticos são formulados para terem estrutura molecular idêntica à dos hormônios produzidos naturalmente pelo corpo humano. Por esse motivo, o organismo costuma reconhecê-los e metabolizá-los de maneira mais semelhante aos hormônios endógenos. Essa similaridade é o principal argumento de profissionais e pacientes que relatam maior tolerabilidade e adaptação, embora a resposta possa variar de pessoa para pessoa.

A reposição hormonal feita com hormônios bioidênticos pode oferecer benefícios para mulheres na menopausa, como alívio de ondas de calor, melhora da qualidade do sono, redução da irritabilidade, maior lubrificação vaginal e, em alguns casos, melhora da vitalidade e do bem-estar geral. Algumas mulheres relatam que os bioidênticos promovem um equilíbrio mais suave, possivelmente por serem metabolizados de forma mais natural pelo organismo.

Além disso, especialistas ressaltam que os hormônios bioidênticos podem ser formulados de maneira personalizada, ajustando dosagens e combinações conforme as necessidades individuais de cada mulher, sempre com supervisão de profissionais qualificados. Essa possibilidade de personalização é um dos pontos que costumam atrair pacientes que buscam uma abordagem mais adaptada ao próprio corpo, embora continue sendo fundamental o acompanhamento regular, exames periódicos e avaliação cuidadosa dos resultados.

Apesar das vantagens relatadas, é importante lembrar que qualquer terapia hormonal exige acompanhamento médico, independentemente de ser feita com hormônios sintéticos ou bioidênticos. A combinação adequada de hormônios, a forma de administração e o monitoramento regular são fundamentais para garantir segurança e eficácia. Cada mulher possui necessidades individuais, e somente um profissional qualificado pode orientar a melhor abordagem para cada caso.


 

Vídeos curtos e a mudança no ritmo dos conteúdos infantis têm impactado profundamente o foco e o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes.
por
AMANDA CAMPOS
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17/11/2025 - 12h

Por Amanda Campos

 

Paula, atualmente com 35 anos, é mãe de Júlia, que tem um ano e dez meses. Desde a gravidez, ela se aprofundou em estudos sobre desenvolvimento infantil, neurociência e práticas de criação que priorizam presença, silêncio e estímulos naturais. Inspirada pelas recomendações da Organização Mundial da Saúde e pela literatura especializada, decidiu que a filha não teria contato com telas nos primeiros anos de vida. Não se tratava apenas de evitar o celular durante as refeições; Paula escolheu construir um cotidiano totalmente livre de telas, algo raro na geração atual.

A casa dela reflete essa decisão: poucos brinquedos, todos acessíveis, com texturas reais, madeira, tecidos, objetos simples do dia a dia. Júlia passa longos períodos apenas observando, manipulando ou tentando entender um único objeto. A ausência de estímulos digitais permitiu que ela desenvolvesse uma tolerância incomum ao tédio para sua idade, algo que chama a atenção de quem convive com a criança. Ela observa detalhes, mantém contato visual intenso, sustenta brincadeiras por vários minutos sem se distrair. Paula percebe esse ritmo mais calmo como consequência direta de suas escolhas diárias, não como um dom natural.

Paula comentou que a ausência de telas não tornou seus dias mais fáceis, mas sim mais presentes. Ela descobriu que, sem o recurso rápido de um vídeo para silenciar o choro ou interromper uma birra, precisou desenvolver uma escuta mais profunda da filha, entendendo seus limites, seu ritmo, suas necessidades reais. Um exemplo que a mãe contou é o uso de músicas da banda Falamansa, principalmente Xote dos Milagres, som usado para acalmar a pequena. Júlia, por consequência, se tornou uma criança que resolve frustrações pelo corpo: às vezes senta no chão para observar as próprias mãos, outras vezes abraça um brinquedo até se acalmar, outras simplesmente espera. O que poderia parecer exaustivo transformou o vínculo entre as duas em algo mais íntimo, quase visceral. Paula acredita que essa conexão é, em grande parte, resultado da rotina desacelerada que construiu, uma rotina em que o tempo existe sem interrupções artificiais e em que a curiosidade da filha pode florescer no próprio compasso.

Nos últimos anos, neuropediatras e especialistas em desenvolvimento infantil têm registrado um fenômeno preocupante: crianças e adolescentes apresentando dificuldades crescentes de atenção, impulsividade acentuada e uma incapacidade quase física de lidar com o silêncio, o tédio e a lentidão. Esse quadro, cada vez mais recorrente em consultórios e escolas, não é apenas coincidência. Ele acompanha o avanço do consumo de telas, especialmente vídeos rápidos e hiperestimulantes. Segundo levantamentos da USP (Universidade de São Paulo) o tempo médio que uma criança de 4 a 7 anos passa diante de telas subiu de uma hora e vinte minutos por dia em 2010 para quatro horas e quinze minutos em 2024. O consumo de vídeos curtos, como Reels, TikTok e YouTube Shorts, aumentou mais de 600% entre crianças de 5 a 10 anos.

A Era da Tecnologia foi responsável por essa mudança nos conteúdos consumidos por crianças, quem cresceu nos anos 2000 e 2010 lembra dos episódios longos e de narrativa lenta de desenhos como Peixonauta, Os Backyardigans, Dora Aventureira, Pocoyo e Charlie e Lola. Esses programas tinham ritmo cadenciado, pausas, repetições e até momentos de silêncio — elementos essenciais para o desenvolvimento da atenção e importantes para a construção da linguagem e da concentração. Hoje, o consumo predominante nas infâncias é formado por cortes acelerados, animações com troca constante de plano, músicas repetitivas em alta frequência e vídeos que não duram mais do que alguns segundos. Esse excesso de estímulos reorganiza o sistema de recompensa e treina o cérebro infantil a esperar novidade permanente, criando dificuldade na atenção sustentada.

Enquanto isso, a trajetória de Lucas, irmão mais novo de Paula, de 28 anos, seguiu por outro caminho. Ele é pai de Davi, atualmente com 6 anos, e quando o menino nasceu, Lucas não imaginava que permitir o uso do celular poderia gerar impactos tão profundos. Na rotina apertada, o aparelho se tornou ferramenta de conveniência: primeiro para que o filho comesse com tranquilidade, depois para distraí-lo no carro, depois para acalmá-lo antes de dormir. O que parecia um recurso eventual se tornou hábito, e o hábito se transformou em dependência. Aos poucos, Lucas percebeu que Davi reagia com irritação quando ficava sem o celular, que passava de um vídeo para outro em poucos segundos, que não conseguia acompanhar sequer um desenho infantil tradicional. A concentração fragmentada se agravou com o tempo. Hoje, Davi tem dificuldade de completar tarefas simples, perde o interesse em atividades que não envolvem estímulos rápidos, demonstra inquietação e apresenta sinais claros de déficit de atenção. Um neuropediatra o avaliou e apontou que os padrões comportamentais estavam fortemente associados ao uso excessivo de telas nos primeiros anos de vida, justamente o período mais sensível do desenvolvimento cerebral.

A diferença entre Júlia e Davi aparece de forma quase simbólica quando as famílias se reúnem. Júlia explora objetos, empilha blocos e observa o ambiente com calma; Davi, por outro lado, demonstra inquietação constante, toca em tudo, busca estímulos imediatos e, muitas vezes, abandona qualquer brincadeira em poucos segundos. Paula enxerga esse contraste com cuidado, sem julgamento. Ela entende que Lucas fez escolhas comuns à maior parte dos pais da geração atual. Lucas, por sua vez, carrega uma mistura de culpa e vontade de mudança. Ele tem tentado iniciar um processo de redução das telas, introduzindo brincadeiras mais estruturadas, atividades ao ar livre e momentos de leitura compartilhada, ainda que o caminho seja lento e cercado de desafios.

A história dos dois irmãos ajuda a ilustrar um fenômeno nacional: o País vive uma geração de crianças que raramente experimentam o silêncio, a pausa, o ócio e o tempo real das coisas. Crescem em meio a estímulos que não refletem o ritmo da vida, e quando o mundo não se movimenta na velocidade do algoritmo, o cérebro não sabe como reagir. Ao observar Paula, Lucas, Júlia e Davi, fica claro que a infância digitalizada não é destino inevitável. A cada gesto, a cada limite estabelecido, a cada momento de presença, os adultos definem o tipo de infância que as próximas gerações irão viver. Entre a velocidade artificial das telas e o ritmo humano da vida real, existe um espaço possível, e urgente,de equilíbrio, cuidado e reconstrução.

A pediatra Helena Marcondes acompanha há mais de uma década a evolução do comportamento infantil em meio às mudanças tecnológicas. Ela conta que em suas consultas, é comum receber pais que acreditavam estar diante de problemas de comportamento isolados e descobrem, pela análise detalhada da médica, que a raiz de muitos desses desafios está no excesso de estímulos digitais. Helena costuma explicar que a neuroplasticidade infantil, especialmente nos primeiros cinco anos de vida, é intensa e sensível; quando o ambiente oferece estímulos rápidos e constantes, o cérebro passa a buscá-los como única forma de interesse. Ela observa que crianças que crescem assistindo vídeos curtos apresentam uma aceleração artificial do ritmo interno, uma urgência constante por novidade e uma queda significativa na qualidade da atenção.

Essa transformação pode ser percebida de forma quase didática quando se observa a história de dois irmãos: Paula e Lucas. Embora tenham crescido na mesma casa, seguiram caminhos completamente distintos ao construir as rotinas dos próprios filhos, caminhos que, hoje, revelam impactos opostos no desenvolvimento de cada criança.

 

 

O meio musical se reinventa no TikTok, mas perde simbolismo pela "trend"
por
JESSICA AMANDA CASTRO
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14/11/2025 - 12h

Por Jessica Castro

O cenário musical mudou drasticamente, especificamente com a criação do TikTok. A plataforma, com seu modelo de vídeos rápidos e altamente compartilháveis, serviu como palco para novos artistas e hits, além de revolucionar a carreira de cantores já consagrados. Mas esse impacto não é necessariamente só positivo ou negativo: ele também trouxe discussões sobre a velocidade da indústria, a efemeridade dos sucessos e a transformação da forma como consumimos música.

É comum que a música acompanhe a evolução humana de forma extremamente próxima, por meio das tendências geracionais e sociais. Nos anos 1950, o rock encarnava o espírito rebelde do pós-guerra, representado por ícones como Elvis Presley, que não só moldaram o som da época como também estabeleceram a base da cultura pop moderna. Já nas décadas de 1990 e 2000, o fenômeno dos girl groups, como Spice Girls e Destiny’s Child, ditava moda, comportamento e até mesmo valores de empoderamento, se consolidando como símbolos de uma geração e permanecendo relevantes até hoje nas plataformas digitais.

No Brasil, exemplos não faltam: o funk carioca dos anos 2000, nascido da Miami Bass e do soul americano, ganhou força com equipes como a Furacão 2000. Mais tarde, o sertanejo universitário da década de 2010, liderado por nomes como Luan Santana e Cristiano Araújo, marcou uma nova era de consumo e identidade musical. Esses movimentos mostram que a música, além de acompanhar, também impulsiona transformações sociais e culturais.

A indústria musical, por ser uma das manifestações artísticas mais populares da atualidade, não se deixa ficar para trás. Assim como gigantes da tecnologia, as gravadoras e produtoras seguem o “cheiro do dinheiro” e a corrida pela atenção.

Em entrevista com o jornalista e ex-editor da Rolling Stone, Pablo Miyazawa, a lógica fica clara. O jornalista conta como todo mundo está concorrendo pelo tempo das pessoas. A Netflix compete com a Nintendo que compete com o TikTok. Ele ressalta que a nova geração tem uma atenção cada vez mais limitada, e isso força a criação de produtos culturais condensados, rápidos e facilmente compartilháveis. O resultado é um consumo musical cada vez mais moldado por algoritmos que priorizam a dopamina e a instantaneidade.

Esse fenômeno também revela a dependência da música em relação às grandes plataformas digitais. Assim como o rádio moldou carreiras no século XX e o YouTube foi decisivo na década de 2010, hoje o TikTok ocupa esse espaço central. O problema é que o domínio de uma única rede social cria um tipo de monocultura: se um artista não viraliza ali, muitas vezes sua chance de alcançar o grande público diminui.

Esse modelo favorece a criação dos chamados “hits de momento”: músicas produzidas quase sob medida para viralizar. Cada detalhe, seja a melodia, harmonia, ritmo e até as palavras-chave da letra, é pensado para o algoritmo, priorizando a simplicidade e a facilidade de reprodução.

Um exemplo é a faixa Resenha do Arrocha, de Eskine, que acumula mais de 34,7 mil publicações no TikTok. O sucesso não está em sua profundidade lírica, mas na repetição, nos trechos fáceis de decorar e na nostalgia, citando tendências já conhecidas. Outro caso é “Descer Pra BC”, da dupla Brenno & Matheus, que ganhou projeção graças a um meme e a um título inusitado, facilitando a pesquisa e a viralização. Nesse cenário, o lirismo tradicional cede espaço à praticidade: no TikTok, a chance de criar uma trend vale muito mais do que uma letra sofisticada.

No Brasil, nomes como Anitta, Ludmilla e Gloria Groove também perceberam o poder da plataforma. Canções como “Envolver”, que gerou o famoso “El paso de Anitta”, só alcançaram o topo das paradas globais porque foram amplamente reproduzidas no TikTok, em coreografias que se espalharam pelo mundo. O mesmo aconteceu com “Vermelho”, de Gloria Groove, que ganhou vida nova com dancinhas e memes, ultrapassando os limites do público já estabelecido.

A velocidade de consumo musical também se transformou. Miyazawa lembra que antigamente você precisava esperar o álbum sair, gastar o seu dinheiro e depois ouvir as músicas daquele artista. Mas hoje em dia tudo é muito rápido.

Até 2021, os vídeos da plataforma eram limitados a três minutos, o que estimulava ciclos de consumo infinitos. Somado à pandemia de Covid-19, quando milhões de pessoas se trancaram em casa, esse formato fomentou ainda mais a indústria da pressa. Muitos artistas independentes encontraram aí uma alternativa acessível para divulgar seu trabalho sem precisar de grandes gravadoras.

Esse período marcou a ascensão de carreiras inteiras. Jovens que gravavam músicas em seus quartos, muitas vezes sem recursos, passaram a ser descobertos por gravadoras depois que viralizaram no TikTok. É o caso do cantor JVKE, que ganhou visibilidade global com “Golden Hour”, ou mesmo de artistas brasileiros que conseguem alcançar estes marcos de maneira espontânea, como a dupla Os Barões da Pisadinha, que virou trilha sonora de milhões de vídeos durante a pandemia.

Cantores como Doja Cat souberam usar esse novo mercado. Hits como “Say So” (7,6 milhões de conteúdos virais) e “Kiss Me More” (1,5 milhão de usos) consolidaram sua imagem global. O rapper canadense bbno$, por sua vez, conquistou a comunidade de edição com músicas como “Edamame” (955 mil publicações), transformando-se em um nome presente nos trends semanais.

Mas não foram apenas novos artistas: velhos sucessos também renasceram. O clássico “Pretty Little Baby”, de Connie Francis, voltou às paradas quase 60 anos após seu lançamento, acumulando mais de 2,2 milhões de vídeos. Isso mostra que o TikTok não cria apenas novidades, mas recontextualiza o passado, transformando músicas esquecidas em fenômenos para novas gerações.

Outro exemplo é “Dreams”, do Fleetwood Mac, que viralizou em 2020 com o vídeo de um homem andando de skate enquanto bebia suco de cranberry. O clipe transformou uma música de 1977 em hit contemporâneo, provando que o TikTok pode atuar como máquina do tempo cultural.

Algoritmo

Ainda assim, esse sucesso não é totalmente orgânico. O algoritmo é cuidadosamente projetado para manter o padrão de consumo acelerado, como lembra a pesquisadora Isabela Andrade. Para ela a rede de algoritmos não é um organismo vivo, ele é formado por elementos neoliberais, onde a venda da imagem e do som se tornam o produto central.

Isso cria desigualdades. Quem não se adapta às regras da plataforma perde espaço. O caso da sueca Zara Larsson é ilustrativo: mesmo com 13 anos de carreira, acabou relegada ao posto de artista de abertura da turnê Miss Possessive em 2025, enquanto a canadense Tate McRae, que cresceu dentro da lógica do TikTok, se tornou headliner global em menos de uma década. Sua música “Greedy” já soma mais de 1,8 milhão de publicações.

O desequilíbrio também afeta a forma como os fãs se relacionam com a música. Ao mesmo tempo em que o TikTok permite uma conexão direta entre público e artista, ele cria um vínculo muitas vezes superficial, baseado em fragmentos de 15 segundos. Essa relação, altamente volátil, pode transformar carreiras da noite para o dia, mas também pode deixá-las esquecidas tão rápido quanto surgiram.

A grande questão que emerge é: até que ponto a música continua sendo arte, e quando se transforma apenas em produto? O TikTok trouxe novas oportunidades, mas também colocou em xeque a durabilidade das carreiras. Se antes o sucesso era medido em álbuns, turnês e fidelidade de fãs, hoje a métrica está em cliques, curtidas e número de vídeos criados.

Ao mesmo tempo, há espaço para reflexão: será que essa velocidade mata a criatividade, ou apenas abre caminhos diferentes de expressão? Assim como Elvis, as Spice Girls e o funk carioca moldaram gerações, talvez o TikTok esteja apenas cumprindo o papel que sempre coube à música: traduzir o espírito de seu tempo, agora marcado pela pressa, pela viralização e pelo consumo imediato.

 

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Estudo indica que uso excessivo das plataformas está associado a 45% dos casos de ansiedade em jovens de 15 a 29 anos
por
Luiza Zequim
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18/11/2025 - 12h

Por Luiza Zequim

 

O primeiro gesto da manhã, antes mesmo de escovar os dentes, é verificar o celular. A última coisa antes de dormir é uma rolagem final pelo feed, muitas vezes prolongada até a madrugada. Esta é a rotina de Sofia Molim, uma estudante paulista de 21 anos da faculdade de administração da FGV (Fundação Getúlio Vargas). Essa prática descreve um ciclo vicioso que muitos jovens e  adultos não conseguem escapar na era digital. O que começou como entretenimento se tornou uma fonte de ansiedade e perda de produtividade sem fim. Uma pausa no almoço para relaxar se torna mais 15 minutos vidrada em uma tela com vídeos super estimulantes. E a dependência digital vem acompanhada da constante sensação de estar perdendo algo, a popular "FOMO" (Fear of Missing Out).

A jovem descreve como a sua autoestima se tornou submissa à validação digital, às curtidas e aos comentários. Para ela, ver a vida aparentemente “perfeita” de colegas e influenciadores gera uma comparação exaustiva que afeta seu bem-estar. Porém, ela compartilha que o impacto mais concreto é no seu desempenho acadêmico. Horas que deveriam ser dedicadas aos estudos de gestão e finanças são perdidas em filmagens curtas e discussões banais online. A questão se tornou um problema diário quando o consumo de produtos digitais começou a ser incontrolável e inconsciente. Sempre há espaço para um checada nas mensagens, nas fotos no Instagram ou nos vídeos rápidos do TikTok.  

Embora comum, o caso da estudante não é isolado. O Brasil é o terceiro país do mundo onde as pessoas passam mais tempo em redes sociais, o enraizamento da doença acaba acarretando um aumento considerável nos laudos psiquiátricos e no consumo de remédios com efeito calmante. Um levantamento do Instituto Cactus, em parceria com a AtlasIntel, revelou que o uso excessivo das plataformas está associado a 45% dos casos de ansiedade em jovens de 15 a 29 anos.

O aumento na procura por ajuda é visível. Ambulatórios especializados em dependência digital, como o da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), registraram um aumento de 400% no número de atendimentos entre 2023 e 2024. Agora, a adversidade até ganhou um nome: nomofobia, o medo irracional de ficar sem o celular. Os sintomas relatados por cidadãos ao redor do mundo são claros: ansiedade, irritabilidade quando desconectado e uma incapacidade de controlar o tempo gasto nas telas.

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Vício em celular afeta bem-estar mental de jovens e cria dependência dos aparelhos eletrônicos. Foto: Freepik

 

Hoje em dia, as plataformas são desenhadas para o engajamento máximo, utilizando algoritmos que fornecem doses constantes e escassas de dopamina para que o cérebro sempre queira mais do que é possível consumir e isso torna quase impossível conseguir uma solução por conta própria

A estudante paulista conta que já tentou se afastar, desinstalando aplicativos, mas a pressão social e o sentimento de exclusão a fizeram voltar. Ainda que tenha nome e seja reconhecida por órgãos competentes, os afetados pela condição nociva sofrem com um fator indispensável: o silêncio. Muitas vezes, este novo vício não é sonoro como o alcoolismo ou a compulsão por drogas. Os pacientes sofrem de forma silenciosa e muitos demoram a identificar a origem do cansaço extremo, da falta de atenção, da queda na produtividade, do estresse constante e da falta de um estímulo em atividades do mundo real. Embora ainda seja difícil para muitos aceitar e acolher a questão, ela deve ser tratada pelo que é: um vício. Uma adicção não é curada rapidamente e os afetados por ela estão sempre sujeitos a recaídas, mas ignorar o problema  invalida a exaustão mental e faz com que a vida de quem lida com ele diariamente seja ainda mais complexa. 

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