Em São Paulo, a rotina de um motorista de aplicativo revela como o trabalho passou a ser guiado por notificações, cansaço digital e um cotidiano moldado pelo brilho constante do celular
por
Carolina Hernandez
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24/11/2025 - 12h

 

Por Carolina Hernandez 

O celular vibra antes que qualquer clarão toque os prédios da Mooca, e essa vibração curta, metálica e insistente desperta Jonas de um sono leve, como se fosse uma convocação, um chamado que não permite adiamentos. Ele estende a mão ainda no escuro, alcança o aparelho, observa a luz que se espalha pelo quarto e lê a notificação do aplicativo que já anuncia alta demanda, fluxo intenso, oportunidade. Nos últimos anos, aprendeu a acordar assim, preso ao brilho do celular antes mesmo de sentir o chão frio sob os pés. O trabalho começa na tela, e não na rua.

No carro, um sedan prata que carrega o desgaste dos dias longos, Jonas encaixa o celular no suporte. O gesto é tão automático que parece parte do ritual de ligar o motor, como se o carro só funcionasse plenamente depois que o aplicativo estivesse ativo. A tela mostra a cidade em azul e amarelo, um mapa vivo onde cada área fervilha com informações que determinam para onde ele deve ir, quanto irá ganhar, quanto tempo deve esperar. O aplicativo calcula rotas, horários, riscos e recompensas, e Jonas respira fundo antes de seguir, como quem aceita que o destino do dia será guiado por aquele retângulo luminoso.

A primeira corrida aparece em menos de quinze segundos. Ele aceita. O carro avança devagar pelas ruas que ainda não despertaram, e Jonas observa o céu sem forma, as luzes dos postes refletidas no capô, o reflexo da tela pressionando seus olhos desde a madrugada. Logo, o trânsito cresce, e a cidade parece surgir inteira de dentro dos celulares dos próprios motoristas, porque ninguém conduz apenas pelas ruas, todos conduzem pelos mapas, pelas notificações, pelas coordenadas enviadas de longe.

A dependência da tela dita o ritmo. Jonas percebe isso a cada minuto. Ignorar uma notificação pode significar perder corridas, perder pontos, perder visibilidade diante do algoritmo. Ele sabe que o sistema registra cada movimento, cada segundo parado, cada mudança de rota, cada hesitação. Uma espécie de patrão silencioso observa sua velocidade, suas notas, seus cancelamentos, suas escolhas. Não há voz, não há rosto, mas há controle. Ele comenta que antes achava que dirigia para pessoas, e hoje sente que dirige para um conjunto de cálculos invisíveis.

O cansaço começa sempre pelos olhos. A luz azulada se infiltra pelas pálpebras como um grão de areia persistente. Mesmo nos poucos minutos de pausa, ele sente o celular vibrar no bolso, chamando de volta, lembrando que há demandas próximas. A Pesquisa TIC Domicílios mostra que o celular tornou-se o principal dispositivo de acesso à internet para a maioria dos brasileiros, mas, para motoristas de aplicativo, é mais que isso, é ferramenta, ponte, segurança, salário e vigilância. Jonas passa mais tempo olhando para a tela do que para qualquer rosto durante o dia.

Os passageiros entram no carro sempre com pressa, sempre conectados a outra conversa que não está ali. Há estudantes que assistem aulas no banco traseiro, executivos que participam de reuniões por vídeo, mães que equilibram sacolas e chamadas, jovens que respondem mensagens durante trajetos de poucas quadras. O carro se transforma em cápsula de passagens breves, onde cada um leva sua própria tela, e Jonas conduz tantas luzes simultâneas que, às vezes, o interior do carro parece mais iluminado durante a noite do que durante o dia.

Ele já ouviu histórias que não estavam destinadas a ele, conversas que vazavam das telas para o espaço do carro, lágrimas silenciosas de quem lia mensagens difíceis, risadas altas de grupos que relembravam memórias por vídeos compartilhados. Jonas sempre percebe que as pessoas falam menos com ele e mais com seus celulares, que olham menos pela janela e mais para notificações. Nos raros momentos de silêncio, apenas as telas respiram, emitindo luzes diferentes em intervalos variados.

No fim da tarde, quando o corpo já pesa, o aplicativo avisa aumento de demanda. Jonas pensa em parar, mas o aviso insiste, promete ganhos extras, sinaliza movimento crescente. Ele encosta em um posto para comprar um café, tenta alongar as costas, tenta piscar devagar para aliviar a ardência nos olhos. O celular vibra antes da primeira golada. Ele volta para o volante. Recusar seria uma escolha, mas uma escolha com consequências. Descanso e trabalho, na lógica do aplicativo, nunca estão em equilíbrio.

A madrugada avança e a cidade se torna uma paisagem de luzes espaçadas, com corredores vazios e poucos ruídos. Jonas leva um jovem que saiu do trabalho no shopping, e o rapaz passa o trajeto inteiro olhando para o celular enquanto mensagens surgem em sequência. Jonas também observa o seu próprio aparelho, que marca a rota até o destino. O carro segue pelas avenidas escuras com apenas as duas telas iluminando o interior, criando um silêncio que parece suspenso no ar.

Quando chega em casa, Jonas desliga o carro, depois o aplicativo, e por fim o celular, que insiste em vibrar com atualizações e resumos do dia. A sala escura o acolhe em um silêncio que chega a parecer estranho, como se o mundo tivesse diminuído de volume. Ele se recosta no sofá e sente o peso acumulado do dia, não apenas o peso físico, mas o peso da luz constante, da atenção exigida, da vigilância permanente que o acompanha desde o amanhecer. O corpo quer descanso, mas a mente ainda repassa rotas, mensagens, barulhos de notificação que permanecem mesmo após a tela apagar.

Amanhã, muito antes de a luz do sol tocar a janela, o celular irá vibrar novamente, e Jonas atenderá, não por escolha, mas por necessidade. Ainda assim, enquanto respira profundamente, sente uma dúvida surgir devagar, como quem desperta de um sonho longo. Ele se pergunta se ainda guia o carro, se ainda conduz o trajeto, ou se apenas segue o ritmo imposto pela tela que nunca dorme. E essa pergunta, ele sabe, continuará voltando. Porque, na madrugada das grandes cidades, o trabalho e a vida estão cada vez mais presos ao mesmo brilho.

Com o avanço do sistema de pedágio eletrônico nas rodovias paulistas, motoristas vivem a combinação entre fluidez no trânsito e incertezas sobre tarifas, prazos e adaptação ao novo modelo.
por
Inaiá Misnerovicz
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25/11/2025 - 12h

Por Inaiá Misnerovicz

 

Dirigir pelas rodovias da Grande São Paulo já não é mais como antes. Com a chegada do sistema free-flow - o pedágio eletrônico sem cancelas -, muitos motoristas sentem que atravessam uma fronteira invisível: não há mais a cancela para frear o carro, mas também não há a certeza imediata de quanto vão pagar. Para Jerônimo, motorista de carro, morador da zona leste de São Paulo que faz quase todos os dias o trajeto até Guararema a trabalho, essa sensação de fluxo e incerteza convive em cada viagem.

Antes da implantação do free-flow, Jerônimo parava em praças de pedágio, esperava, conferia o valor, calculava se valia a pena seguir por um trecho ou desviar. Hoje, ao cruzar os pórticos da Via Dutra ou de outras rodovias, ele simplesmente segue adiante. Só depois, no no aplicativo, descobre quanto foi cobrado, isso quando ele lembra de conferir a fatura. Para quem tem TAG, o débito cai automaticamente, mas para quem não tem, o sistema registra a placa e envia a cobrança que deve ser paga em até 30 dias, sob pena de multa, como prevê a regulamentação da CCR RioSP.

Esse modelo evita paradas e acelera o tráfego, especialmente nas pistas expressas. Segundo a concessionária Motiva/RioSP, quem trafega pelas marginais da Via Dutra (sem acessar a via expressa) não é tarifado. Mas Jerônimo ressalta que essa economia de tempo nem sempre vem acompanhada de previsibilidade de custo: “só sabendo depois quanto foi cobrado, ainda dependo de consultar o site para ver se registrou todas as passagens”, ele diz. A tarifa depende do horário e do dia da semana, pode variar, e para quem usa TAG há desconto de 5%. 

Para tornar essa transição mais suave, a RioSP intensificou ações de orientação nas margens da rodovia e em pontos públicos de Guarulhos. Na capital, promotores usam realidade virtual para explicar como os pórticos funcionam, há vídeos e atendimentos nos postos de serviço. Mais de 500 pessoas já participaram de eventos para esclarecer dúvidas sobre o funcionamento, formas de pagamento e salto entre pistas expressas e marginais.

As novas tarifas também entraram em vigor recentemente: desde 1º de setembro de 2025, os valores para veículos leves nas praças da Via Dutra foram reajustados pela ANTT, e nos pórticos do free-flow os preços também foram atualizados. No caso das rodovias geridas pela Concessionária Novo Litoral - especificamente a SP-088 (Mogi-Dutra), SP-098 (Mogi-Bertioga) e SP-055 (Padre Manoel da Nóbrega) - os valores por pórtico variam de R$ 0,57 a R$ 6,95 para veículos de passeio, dependendo do trecho.

Essa lógica de cobrança por trecho, sem a presença física de praças, exige do motorista algo além de atenção na pista: exige educação para se entender onde entrou, onde passou e quanto isso custou. Para Jerônimo, isso é mais difícil do que simplesmente parar e pagar. Ele admite que, apesar da melhoria no fluxo, teme que algum pórtico não tenha sido registrado, ou que haja diferença entre o que ele acredita ter passado e o que vai aparecer na fatura.

Além disso, há risco real para quem não paga no prazo. A CCR RioSP adverte que a não quitação da tarifa em até 30 dias configura evasão de pedágio, o que pode gerar infração de trânsito, multa fixada e até pontos na carteira. Para muitos, essa penalidade ainda parece pesada diante da novidade e da complexidade do sistema.

Por outro lado, o free-flow traz ganhos concretos para a mobilidade: ao eliminar paradas bruscas nas praças, reduz o risco de acidentes por frenagem repentina e melhora o desempenho das rodovias. A tecnologia permite modernizar a gestão do tráfego, e os pórticos com sensores garantem identificação precisa por TAG ou leitura de placa. Ainda assim, a transformação não se resume à pista. Ela repercute no cotidiano de quem vive dessa estrada, como Jerônimo, e também na forma como a concessionária se relaciona com os motoristas. A campanha de orientação mostra que há consciência de que nem todos se adaptarão imediatamente. As ações de atendimento por WhatsApp, aplicativo, site, totens e até no posto de serviço reforçam a aposta na transparência. 

Há também a perspectiva de que esse modelo se torne cada vez mais comum. Segundo planejamento de concessões futuras, mais pórticos free-flow poderão ser instalados nas rodovias paulistas até 2030, o que tornaria esse tipo de cobrança mais frequente para usuários regulares da malha estadual. Mas para que ele seja efetivamente equitativo, será preciso manter a educação viária, oferecer canais de pagamento amplos e garantir que os motoristas não sejam penalizados por simples falhas de entendimento.

Para Jerônimo, a estrada continua sendo um espaço de tensão e de liberdade. Ele ganha tempo, mas precisa vigiar sua fatura. Ele cruza Guararema, volta para São Paulo, e vive uma experiência nova: a de rodar e pagar depois, sem parar, mas sempre com a incerteza de que quanto passou pode não ser exatamente quanto será cobrado. A cancela desapareceu, mas o pedágio segue presente, só que disfarçado em números, e não em uma barreira física. 

Colunista Marcelo Leite revela que a área perde cada vez mais influência no país
por
Giovanna Britto
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24/11/2025 - 12h

 

Durante a pandemia de Covid-19, o Brasil se reinventou em assuntos a respeito de hábitos higiênicos, debates sobre saúde mental e destacou a importância do jornalismo científico, área  responsável por comunicar à população a respeito das vacinas, o avanço ao combate do vírus e outros assuntos de saúde pública. Entretanto, três anos após o fim do estado emergencial causado pela pandemia, a falta de adesão do público à ciência tem ameaçado o trabalho dos jornalistas desse segmento.

Entre 2020 e 2022, os profissionais da mídia foram expostos ao desafio de comunicar a incerteza científica, traduzir termos e conscientizar a sociedade sobre a pandemia. Muitos jornalistas já eram especializados na área, outros aprenderam a falar sobre ciência devido a alta demanda de notícias para divulgar. A pandemia serviu como ponto de virada para o jornalismo científico - que já existia no Brasil, mas ganhou repercussão graças à necessidade de dar foco ao assunto que ditou o estilo de vida de um mundo inteiro.

Nomes como Atila Iamarino, Natália Pasternak e Álvaro Pereira Júnior se destacaram como grandes vozes da divulgação do jornalismo de ciência. Em entrevista à AGEMT, Marcelo Leite, jornalista e colunista da Folha de São Paulo especializado na área de ciência e ambiente, comenta sobre esse período: “Nunca se valorizou tanto do ponto de vista de espaço, de tempo, de audiência, a divulgação de informações científicas de base para entender o que estava acontecendo.” Hoje, o espaço de fala e a repercussão em temas científicos são menores, uma vez que as pessoas estão cada vez menos interessadas em saber de que forma isso implica em suas vidas pessoais.

Jornalista Marcelo Leite posando para câmera
Formado em jornalismo pela USP, Marcelo também atuou na Revista Piauí e é autor do livro “Psiconautas: Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira”. Foto: Divulgação/Unicamp.

 

Marcelo relembra que o jornalismo científico já sofria com ameaças à sua credibilidade, com falsos especialistas, médicos sem conduta ética e  com o presidente da época, Jair Bolsonaro, reproduzindo falas que levantavam mais dúvidas e ondas de ódio. “Foi um período terrível, e talvez a parte principal, que me deixa mais frustrado, é que o público se dividiu em dois. Uma parte passou  a desconsiderar as informações que a gente, do jornalismo científico, se esforçava por apresentar como informações objetivas, fundadas em dados, com a qualidade que se espera da ciência ", completa.

Na fase posterior à pandemia, após o declarado fim do período emergencial do coronavírus em 5 de maio de 2023, foi possível observar as consequências e heranças que a abundância de informações equivocadas, negacionistas e falsas deixaram na rede de informação, seja online ou offline. Os movimentos anti vacinas, impulsionados durante o Covid, emitiram um alerta para a Organização Mundial de Saúde. Dados divulgados pelo jornal Humanista da UFRGS evidenciam que a cobertura de vacinas contra poliomielite, HPV e sarampo estão em constante queda e sequer atingem a meta em lugares como Norte e Nordeste. 

No anuário de Vacinas de 2025 da Unicef, os dados indicam que até 14 de julho de 2025, a cobertura vacinal dos grupos prioritários permanecia abaixo da meta de 90%: crianças de seis meses a seis anos com 39,5%, idosos com 53,2% e gestantes com 29,8%, correspondendo a menos da metade do público-alvo.

A questão ambiental também é desconsiderada por muitas pessoas. Marcelo afirma que há muitos temas pelos quais o jornalismo científico lutou pelo progresso e que atualmente são banalizados. “se houve alguma dúvida no passado, há 20, 30 anos atrás, hoje não há mais nenhuma dúvida sobre os impactos que estão vindo e virão da mudança climática, cada vez mais sérios. Mas ainda tem gente que questiona.”

Recentemente, casos de metanol que alertaram a população em outubro deste ano, trouxeram uma onda de informações falsas que prejudicaram profissionais da área jornalística e médica, motivando o pronunciamento deles a respeito. Vídeos tentando realizar testes caseiros para identificar a presença da substância nas bebidas, sem comprovação científica, viralizaram nas redes sociais.

Essa situação se assemelha com as polêmicas envolvendo o uso da cloroquina na pandemia. Um levantamento realizado por pesquisadores do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário da USP (Cepedisa) em colaboração com a Conectas Direitos Humanos, mostra que, entre março de 2020 e janeiro de 2021 houve pelo menos quatro medidas federais promovendo diretamente ou facilitando a prescrição do medicamento. Jair Bolsonaro foi um dos maiores promotores da cloroquina na época e quem motivou o uso para a população. Apesar de ter sido associada no combate ao Covid, a cloroquina é um medicamento que atua contra doenças inflamatórias crônicas e no combate a parasitas e cuja eficácia de uso para o coronavírus não é comprovada.

O estudo que deu início a essa ideia foi inicialmente publicado na revista científica International Journal of Antimicrobial Agents e assinado por mais de 10 profissionais. Hoje, a editora da revista, Elsevier, anunciou a retratação deste artigo após uma pesquisa aprofundada, com o apoio de um “especialista imparcial que atua como consultor independente em ética editorial”.

Os profissionais continuam exercendo seu trabalho com excelência, alguns optando pela mídia tradicional, outros inovando nas redes através de vídeos curtos. Mas é inegável a forma com que o jornalismo científico perdeu a influência e como falta apoio em todas as áreas. “É muito triste, porque eu dediquei minha vida inteira ao jornalismo científico, para ver isso acontecer no fim da minha carreira” conclui o jornalista.

Após sete anos, evento volta ao calendário impulsionado pelo avanço dos carros eletrificados
por
Fábio Pinheiro
Vítor Nhoatto
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22/11/2025 - 12h

O Salão Internacional do Automóvel de São Paulo, um dos eventos mais tradicionais do setor automotivo brasileiro, está de volta após um hiato de sete anos. A edição de 2025 acontece entre os dias 22 e 30 de novembro, em um contexto de profundas transformações na indústria e impulsionada pela expansão de veículos eletrificados, entrada de novas marcas no país e a necessidade das montadoras de reconectar consumidores às experiências presenciais.

De acordo com a RX Eventos, organizadora da mostra bienal, a volta acontece em razão da reestruturação e aquecimento do mercado. A última edição havia sido realizada em 2018 e contou com cerca de 740 mil visitantes, mas devido a pandemia de COVID-19 o Salão de 2020 foi cancelado. Nos anos seguintes, a volta do evento ficou só na especulação. Segundo a Associação Nacional de Fabricantes Automotores (Anfavea), a pausa também pode ser atribuída à crise de matéria-prima, à retração econômica deste então e ao formato caro para as montadoras que estavam distantes do público.

Embora as duas últimas edições tenham sido no São Paulo Expo, esta acontece no Complexo do Anhembi, casa oficial do evento desde 1970. A mudança foi celebrada por expositores e pelo público, já que o Anhembi permite maior fluxo de visitantes, oferece áreas amplas para test-drive e atividades externas, recuperando a identidade histórica do salão. O retorno também faz parte da estratégia de reposicionar o evento como uma grande vitrine de experiências automotivas, com pistas, ativações e zonas imersivas distribuídas pelo pavilhão.

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Renault anuncia o seu novo carro “Niagara” - Foto: Fábio Pinheiro

Entre as montadoras que vão expor, estão nomes de peso que apostam na ocasião para apresentar novidades ao consumidor brasileiro. A BYD leva ao Salão uma linha reforçada de elétricos e híbridos, aproveitando o crescimento expressivo da marca no Brasil, além de lançar no evento a marca de luxo do grupo, Denza. A rival chinesa GWM também estará presente, com o facelift do SUV H6, o jipe Tank 700 e a minivam Wey 09.

Em relação às marcas tradicionais, a Stellantis vai em peso para o Anhembi. A Fiat, apesar de não ter apresentado nenhum modelo novo, trará o Abarth 600, um SUV elétrico esportivo. A Peugeot terá os 208 e 2008 eletrificados e, principalmente, o lançamento da nova geração do 3008 para o mercado nacional, equipado com o tradicional motor THP. 

Enquanto isso, a Toyota investe na divulgação de novidades híbridas flex, com a chegada do Yaris Cross para brigar com o recém-lançado HR-V, e os líderes Hyundai Creta e Chevrolet Tracker. Juntas, as marcas representam parte do movimento de transformação do mercado brasileiro, que tem apostado cada vez mais na eletrificação e em tecnologias avançadas para rivalizar com a expansão chinesa.

O Salão 2025 também será palco de novas marcas como a Leapmotor, parte do grupo Stellantis. O SUV C10 será o primeiro modelo a chegar às ruas, ainda neste ano, e conta com a versão elétrica (R$189.990) e com extensor de autonomia (R$199.990). O segundo modelo será e o C-SUV elétrico B10, por R$172.990, 60 mil a menos que o rival BYD Yuan Plus, e mais recheado de tecnologia, como teto panorâmico, nível 2 de condução semi autônoma, câmera de monitoramento do motorista e airbag central.

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Presidente da Stellantis para a América do Sul, Herlander Zola, anunciou os planos para o grupo - Foto: Stellantis / Divulgação

Já a britânica MG Motor, propriedade da chinesa SAIC, investirá em esportividade elétrica, além de custo-benefício. O modelo de maior volume de vendas deve ser o SUV S5, rival de Yaun Plus, e igualmente equipado ao B10. Em seguida, o MG 4 chega para rivalizar com Golf GTI e Corolla GR, com mais de 400 cavalos, tração integral, pacote de ADAS completo, e pela metade do preço dos rivais. Por fim, o Roadster será o chamariz de atenção no estande, com portas de lamborghini e em homenagem à tradição da marca. 

O grupo CAOA também fará a estreia da nova marca que trará ao Brasil a Changan, com a chegada prevista para 2026 com os modelos de super-luxo elétricos Avatr 11 e 12, além do SUV UNI-T, rival do Compass e Corolla Cross. 

O pavilhão do Anhembi contará com pistas de test-drive, áreas dedicadas a modelos clássicos como o McLaren de Senna, e até mesmo uma área do CARDE Museu. No Dream Lounge estarão presentes super carros como Ferrari e Lamborghini, além da Racing Game Zone para os amantes de videogame e simuladores de corrida. 

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Área externa do Anhembi terá pista de slalom, frenagem e test-drive de dezenas de modelos - Foto: Salão do Automóvel / Divulgação

Apesar da ausência de marcas como Chevrolet, Ford, Mercedes, Volvo e Volkswagen, 2520 montadoras estarão presentes, incluindo Chery, Hyundai, Mitsubishi e Renault. O Salão espera receber cerca de 700 mil visitantes e a edição 2027 já está confirmada. Os ingressos custam a partir de R$63 (meia-entrada) nos dias de semana.

Projeto aprovado pelo Congresso libera R$ 22 milhões do Fundo de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT)
por
Helena Barra
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17/11/2025 - 12h

Por Helena Barra

 

No dia 4 de agosto de 2025, o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou o Projeto de Lei 847/2025. O plano, aprovado pelo Congresso brasileiro, regulamenta o uso dos recursos do Fundo de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), liberando o valor de R$ 22 bilhões para investimentos nas áreas da ciência e tecnologia.  O FNDCT é o principal instrumento de financiamento público da ciência, tecnologia e inovação no Brasil. Ele apoia pesquisas científicas, a formação de recursos humanos qualificados, a inovação tecnológica nas empresas, a infraestrutura de pesquisa e o desenvolvimento de projetos estratégicos nacionais.

A professora de economia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Norma Cristina Brasil Casseb, explica que fundos como o FNDCT possuem legislação própria. No caso do FNDCT, segundo dados da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), os recursos são provenientes de diversas fontes. A composição deles evidencia o importante papel do Estado tanto no direcionamento de incentivos diretos do orçamento público e do tesouro, quanto na garantia de que parte dos lucros obtidos pelas empresas do setor detentor e gerador de tecnologia retorne para a sociedade e permita que ela se desenvolva de forma mais igualitária.

Nas redes sociais, o presidente Lula, afirmou que a medida visa fortalecer a base industrial brasileira. “Com essa medida, vamos fortalecer a inovação nas seis missões da Nova Indústria Brasil e nas Instituições Científicas e Tecnológicas, levando infraestrutura, redes de pesquisa e oportunidades para todos os territórios do país. Investir em pesquisa e inovação é investir no futuro do Brasil”, comentou na divulgação.  Além disso, o projeto também tem como objetivo estimular o emprego qualificado em pesquisa e desenvolvimento, de maneira a ampliar o número de doutores em empresas, startups, parques tecnológicos e instituições de ensino. 

Para Norma Casseb, em um país como o Brasil, com alta desigualdade social e elevada concentração de renda, a liberação deste recurso é importante, não só para a sociedade, mas como para a economia nacional. “Neste contexto, o investimento em tecnologia e inovação, combinado a uma estratégia voltada para a industrialização do país, tem uma alta capacidade de geração de empregos de qualidade especialmente no setor produtivo, permitindo elevação na renda da população e, por consequência, maior expansão econômica”, informa a doutoranda. 

Segundo a Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), representante das instituições financeiras de fomento habilitadas a operar os recursos do fundo, a nova lei marca uma mudança de postura em relação ao uso dos fundos públicos voltados à inovação. Ao garantir previsibilidade e autonomia na aplicação dos recursos, o Brasil se alinha a boas práticas internacionais de apoio à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico. 

Em entrevista à Agência Brasil, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, destacou que, apesar de o FNDCT ter sido criado em 1969, o fundo ganhou maior relevância nos governos do presidente Lula, inclusive no atual mandato. De acordo com o governo, nos últimos dois anos, os investimentos em ciência, tecnologia e inovação por meio do FNDCT aumentaram seis vezes. Saíram de R$ 2 bilhões, em 2021, para R$ 12 bilhões, em 2024. A previsão para 2025 é de cerca de R$ 14 bilhões.

A professora também reforça que o investimento em ciência e tecnologia é um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento econômico e social de uma nação. Eles permitem adicionar valor agregado aos produtos brasileiros, além de elevar a produtividade e a competitividade da economia nacional, permitindo que sejam cada vez mais competitivos no comércio internacional.  Além disso, investimentos como o FNDCT podem tornar o País mais que um exportador de produtos de maior valor agregado, mas também um exportador de tecnologia para outros países, que muitas das vezes não possuem capacidade financeira ou de infraestrutura para desenvolverem suas próprias tecnologias.


 

 





 

O Brasil é pioneiro na criação de um medicamento que regenere a medula óssea de pacientes
por
manuela schenk scussiato
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03/11/2025 - 12h

Por Manuela Schenk

 

Não fora uma sexta-feira qualquer para Júlia. A caminho do ponto de ônibus para voltar para sua casa após um dia de aula na faculdade um motorista embriagado atropelou-a e fugiu sem prestar socorro que mudou sua vida para sempre quando tinha apenas 19 anos. Júlia teve lesões nas vértebras T8, T9 e T10 que a deixaram paraplégica depois de cinco dias em coma quando recebeu a notícia de que jamais andaria novamente.

Hoje Júlia tem 22 anos e teve que reaprender a viver. Coisas que jamais imaginou ter dificuldades agora são grandes conquistas, como quando conseguiu tomar banho sozinha pela primeira vez ou quando pode se deitar na própria cama sem auxílio. Escadas se tornaram rampas, seu restaurante favorito virou delivery, já que não possui acessibilidade para que ela consiga entrar na cadeira de rodas. As festas que frequentava semanalmente agora são eventos anuais, pois a locomoção dentro de uma balada é quase impossível para alguém que não consegue usar as próprias pernas.

No início se adaptar parecia impossível, noites mal dormidas quando chorava no travesseiro até seus olhos cederem. Depois de receber alta do hospital ela foi encaminhada para terapia, consultas três vezes por semana que depois de dois anos se tornaram duas. A fisioterapia que antes era uma tortura aos poucos se tornou um momento divertido.

Nos anos que se passaram Júlia conheceu mais pessoas na mesma situação que ela e de pouco a pouco sua nova vida se tornou mais tolerável, mas mesmo depois de quase 4 anos do acidente ela ainda tem dias ruins, sua autoestima nunca mais foi a mesma já que por muito tempo não conseguia se arrumar como antes. Júlia conta que o momento mais difícil da vida dela foi descobrir que seu caso não tinha cura. Sem possibilidade de tratamento ou cirurgia, uma menina que antes era ativa, amava se exercitar, sair com suas amigas, passear com sua cachorrinha, agora se vê forçada a reaprender a viver.   

É possível perceber as dificuldades que marcam a vida das pessoas que são afetadas pela paraplegia. Infelizmente muitos casos não são reversíveis, mas graças a estudos de um grupo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o mundo pode estar mais próximo de encontrar uma cura para uma deficiência que interrompe a vida de tantas pessoas.

A pesquisa, desenvolvida no Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, representa um marco para a medicina brasileira. O medicamento experimental chamado Polilaminina foi criado a partir de uma proteína natural da placenta humana, capaz de estimular a regeneração das células nervosas. Em estudos com animais, especialmente cães que haviam perdido os movimentos, o tratamento apresentou resultados impressionantes: alguns conseguiram voltar a andar mesmo após anos de paralisia. Esse avanço chamou a atenção da comunidade científica internacional e fez com que o Ministério da Saúde e a Anvisa classificassem o estudo como de prioridade absoluta no País.

A equipe liderada por Tatiana Sampaio começou o estudo da eficiência polilaminina para promover a regeneração de fibras nervosas/axônios e reconectar áreas lesadas da medula espinhal começou em 2007, embasado em outro estudo da faculdade que iniciou em 1998. São quase três décadas de trabalho árduo que trouxeram a equipe ao sucesso que é exposto para o mundo hoje, com seis dos oito pacientes humanos recuperando, parcial ou completamente, os movimentos que lhes foram tomados. 

Além dos testes clínicos em andamento, o projeto da UFRJ tem recebido apoio de instituições públicas e privadas, como o Laboratório Cristália, que colabora na etapa de desenvolvimento farmacêutico e produção em larga escala da substância. O próximo passo dos pesquisadores é a realização de estudos em uma quantidade maior de voluntários, o que permitirá avaliar com mais precisão a segurança e a eficácia do medicamento. Caso os resultados se confirmem, o Brasil poderá ser o primeiro país a oferecer um tratamento realmente regenerativo para lesões medulares, uma conquista inédita na história da ciência.

Para Júlia e milhares de pessoas que convivem com a paraplegia, essa descoberta reacende uma esperança que parecia perdida. Mesmo que o caminho até a cura ainda seja longo, cada passo da pesquisa representa uma vitória contra a limitação imposta pela lesão medular. A história de Júlia mostra a força de quem se reinventa diante da adversidade. O que a ciência da UFRJ faz agora é provar que o impossível pode estar mais perto do que se imagina. Aquilo que antes era apenas sonho, agora começa a ganhar forma nas mãos de pesquisadores brasileiros dedicados a devolver o movimento e com ele a liberdade a tantas vidas interrompidas.

Com jornadas mais longas e ganhos instáveis, cresce o número de pessoas que fazem dos apps seu principal meio de sustento
por
Tamara Ferreira Santos
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17/11/2025 - 12h

Por Tamara Ferreira

 

Nicolas pilotava sua moto pelas ruas de São Paulo e a única coisa que o importava era o vento batendo no rosto. Aos 22 anos, o entregador do iFood aprendeu a gostar da cidade de um jeito diferente. Com o céu cinza da cidade, pelas ruas estreitas e pelo vai e vem de pedidos que, para ele, significam liberdade. “Gosto de sentir o vento”, repete, como quem encontra no movimento uma forma de vida. Mas, neste ano, a rotina ganhou outro ritmo. Além das entregas, Nicolas passou a trabalhar com carteira assinada. O contraste entre os dois mundos opostos,  o fez analisar os lados diferentes, em um deles, ele ter patrão, um horário fixo e salário mensal, mas quando fazia apenas entrega, não tem uma pessoa cobrando, uma equipe ou meta.

A realidade de Nicolas não é isolada. Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na última quinta-feira (17), o número de trabalhadores de plataformas digitais cresceu 25% em dois anos. De acordo com a pesquisa, no terceiro trimestre de 2024, cerca de 1,7 milhão de pessoas utilizaram o trabalho por aplicativos como principal fonte de renda. O rendimento médio mensal desse grupo foi de R$ 2.996, valor acima da média do mercado, embora essas pessoas trabalhem, em média, 5,5 horas a mais por semana. O levantamento identificou quatro tipos de aplicativos usados como fonte de renda: transporte particular de passageiros (exceto táxi), entrega de comida e produtos, plataformas de serviços gerais ou profissionais e aplicativos voltados para taxistas.

Enquanto Nicolas tenta equilibrar os dois empregos, pensando única e exclusivamente em ter os benefícios garantidos, uma nova geração já observa o trabalho de longe com um estranhamento incomum.

Homem trabalhando de bicicleta para o IFood. Foto: Reprodução
Homem trabalhando de bicicleta para o iFood. Foto: Reprodução

Recentemente, o número de adolescentes que rejeitam a ideia de trabalhar com carteira assinada cresceu. Em um vídeo publicado no TikTok, a influenciadora Fabiana Sobrinho, mais conhecida como Fabi Bubu, aparece ao lado da Valentina, sua filha de 12 anos, que afirma não querer ser CLT para não precisar “andar de ônibus” ou estar “em um ambiente com muitas pessoas e com um chefe mandando nela”.

Enquanto Valentina pensa assim, José Carlos, de 68 anos, formou-se em Economia, mas, como não conseguiu emprego na área, passou a trabalhar com corridas de táxi, de forma autônoma. Nas ruas desde 1989, ele tem diabetes e, mesmo não podendo ficar muito tempo sentado, já chegou a trabalhar 30 horas seguidas, porque, apesar de estar aposentado, o dinheiro que recebe não é suficiente para suprir suas necessidades — como contas médicas e despesas diárias. As dores na perna são constantes, mas José relata que trabalha muito por necessidade, para poder arcar com as suas despesas, comer e comprar os remédios que precisa. No último domingo, foram 16 horas sem descanso. O dinheiro da aposentadoria não dá para remédios, contas, comida. Sentar por tantas horas agrava sua condição, mas parar não parece uma opção.

Entre correrias e recibos, José vive o oposto da liberdade que atrai Nicolas e em um “tão tão distante” em relação ao mundo que Valentina imagina estar. A rotina dupla de Nicolas tem aumentado o cansaço.  O jovem revelou que sua rotina anda mais estressante e menos lucrativa, sendo cansativo trabalhar em dois empregos. Apesar de ainda achar que, com as entregas, pode ganhar mais, já que quanto mais produz, mais recebe, hoje ele enxerga no trabalho com carteira assinada uma maior estabilidade, por saber que tem direitos garantidos e um salário fixo. Mesmo gerando certa ansiedade por ser um valor menor do que o que recebia apenas com as entregas, o modelo CLT lhe traz conforto e segurança. Esse foi, inclusive, um dos motivos pelos quais Nicolas decidiu aceitar um emprego de carteira assinada e manter as entregas no restante do dia.

Entre as diferentes gerações, expectativas e necessidades, o trabalho segue se reinventando, para uns por por prazer, para outros por sobrevivência — alguns fazem por liberdade, outros por urgência.

Local de ensino, pesquisa e mobilização social para a conservação do cerrado em Ituiutaba
por
JESSICA AMANDA CASTRO
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17/11/2025 - 12h

Por Jessica Castro

 

A cidade de Ituiutaba - MG guarda, bem ao lado do campus da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), campus Pontal, um tesouro ambiental. O Parque Municipal Doutor Petrônio Rodrigues Chaves, mais conhecido como Parque do Goiabal, é um dos últimos refúgios do cerrado em meio à malha urbana da cidade localizada no Triângulo Mineiro. Criado em 1977 para preservar a fauna, a flora e as nascentes da região, o parque hoje cumpre um papel que vai muito além da recreação: tornou-se um laboratório vivo para o ensino, a pesquisa e a extensão universitária.

Com cerca de 37 hectares, o Goiabal abriga uma rica diversidade de espécies nativas e cumpre um papel essencial na regulação do microclima urbano. O local já viveu dias de intensa movimentação: nos anos 1980 e 1990, era ponto de encontro para famílias e abrigava quadras, lagos e até um pequeno zoológico. Mas o tempo e a falta de manutenção por parte da gestão do município de Ituiutaba transformaram o cenário. O parque, abandonado, enfrenta atualmente diversos desafios como o avanço de moradias para dentro de sua demarcação, queimadas e poluição.  

Foi nesse contexto que a comunidade acadêmica percebeu o potencial científico do espaço. Professores e alunos da UFU, campus Pontal, começaram a utilizar o parque para aulas de campo, levantamentos ambientais e pesquisas científicas sobre o cerrado urbano. Aos poucos, o Goiabal ressurgiu como uma sala de aula a céu aberto.

Essa conexão com o local envolve cada pessoa que resolve estudar seu ambiente. O parque, hoje categorizado como APA pela Prefeitura, tem uma aparência clara de cerradão. Árvores grandes que hora se adensam, hora se esvaem em pequenas clareiras que servem de lar a uma comunidade pequena de macacos-prego, que já são levemente habituados com a presença humana.

A proximidade física entre a UFU e o parque é simbiótica. Separados apenas por uma rua, os dois espaços se complementam. Estudantes de Ciências Biológicas, Geografia e Química realizam ali desde monitoramentos de solo e vegetação até estudos de biodiversidade, erosão, fungos e musgos. Trabalhos de conclusão de curso e iniciações científicas utilizam o parque como base empírica, contribuindo para a produção de dados locais e para o fortalecimento da consciência ambiental na região.

Mais do que um campo de estudos, o Goiabal virou um símbolo de resistência: um espaço onde a ciência se entrelaça à comunidade, e o cerrado, tão ameaçado no Triângulo Mineiro, encontra defensores apaixonados. Em 2018, um grupo de alunos da UFU decidiu transformar o incômodo em ação. Nascia o Coletivo Goiabal Vivo, uma rede de voluntários comprometida em reativar o parque como espaço de educação ambiental e mobilização social.

A bióloga formada pela Universidade Federal de Uberlândia e membro fundadora do coletivo, Karen Evangelista Marques, fez parte do grupo durante 7 anos e neste tempo, lutou com os demais integrantes para chamar atenção à importância do parque para a comunidade. Karen relembra como foi o primeiro momento do coletivo: no início, em 2018, houve uma forte conexão entre as pessoas. Todos ansiavam pela reabertura e reestruturação do Parque do Goiabal e, a partir da iniciativa, surgiu uma aliança de amizade. O grupo passava horas e horas da semana pensando e planejando formas de desenvolver atividades de cunho ambiental que chamassem a atenção do público, ao mesmo tempo em que se reuniam nas casas uns dos outros para momentos de lazer e entrosamento. Era a partir desses encontros que as ideias surgiam.

Entre as atividades, os membros realizam mutirões, trilhas educativas, projetos de extensão e oficinas em escolas. Também produziu o documentário chamado “Um Olhar para o Cerrado” (2021), que retrata a luta pela conservação do bioma e o renascimento do parque.

 

 

 

No mesmo ano da produção do documentário, membros do coletivo descobriram que a prefeitura havia feito a recategorização oficial do parque, que agora era considerado uma Área de Proteção Ambiental (APA), categoria que permite o uso sustentável dos recursos naturais. Na prática, isso significa que atividades humanas podem ocorrer no local, desde que respeitem os critérios de conservação e garantam o equilíbrio entre o meio ambiente e a presença das comunidades.

A mudança, porém, trouxe uma flexibilização significativa nas regras de preservação. Diferente da antiga classificação de Parque, que proibia construções e moradias dentro da área, a categoria de APA admite esses usos sob determinadas condições. Karen e os demais integrantes ficaram bastante preocupados na época, pois não havia sido comunicada à população a nova classificação do Goiabal. A designação como APA abriu brechas para que alterações antrópicas fossem realizadas dentro do espaço.  A maior preocupação foi como essas mudanças poderiam impactar a vida silvestre local, especialmente a fauna e a flora.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, MMA, existem doze classificações de Unidades de conservação, UCs, sendo estas divididas em dois grupos: Proteção integral e Uso sustentável. Essas nomenclaturas são o que determinam sobre qual conjunto legislativo de proteção ambiental aquele ambiente estará sujeito.

 

Pandemia

Anos após a pandemia, algo natural ocorreu: os antigos membros do Coletivo seguiram caminhos diferentes, o grupo se desfez e novas pessoas, com ideias e metodologias distintas, passaram a integrá-lo. A principal diferença para mim foram, de fato, as novas direções metodológicas que surgiram, mas sempre mantendo o mesmo ideal.

O Goiabal Vivo tornou-se, assim, um elo entre poder público, universidade e comunidade mostrando que a defesa do meio ambiente é também um ato de cidadania. Os estudos realizados no parque são múltiplos e contínuos. Pesquisas de diagnóstico socioambiental, levantamento de espécies nativas, análise de solo e água e projetos de educação ambiental já renderam publicações e apresentações em congressos científicos.

Em uma das trilhas, é possível observar o contraste entre as árvores retorcidas do cerrado e os muros da cidade que avançam cada vez mais próximos. Esse cenário faz do Goiabal um espaço perfeito para compreender os impactos da urbanização sobre o bioma e para desenvolver estratégias de manejo sustentável em áreas urbanas. O parque é um grande laboratório de ensino-aprendizagem. Ele permite que o estudante veja, toque e sinta o cerrado, algo que nenhum slide poderia substituir. 

Parque do Goiaba, Ituiutaba - MG
Trilha educativa. Foto: Acervo Coletivo Goiabal Vivo

Palco de projetos de extensão, o local é protagonista em ações que envolvem crianças e adolescentes das escolas de Ituiutaba com o objetivo de apresentar para a geração mais nova o potencial ambiental que ali existe. O objetivo é reconectar a comunidade ao território, resgatando a ideia de que o Goiabal é um bem coletivo. Durante as oficinas, os alunos aprendem a identificar espécies de fauna e flora, a reconhecer o valor das nascentes e a entender como o cerrado regula o equilíbrio climático da cidade. Em algumas atividades, o coletivo leva até as crianças frutos secos, jogos educativos como jogo da memória com as espécies existentes no parque e palestras que aguçam a curiosidade científica.

 

Parque do Goiaba, Ituiutaba - MG
Palestra na escola municipal Maria de Barros, 2025. Foto: Acervo Coletivo Goiabal Vivo

 

Apesar dos avanços, o parque ainda enfrenta desafios: falta de infraestrutura, riscos frequentes de queimadas, lixo acumulado e pressões urbanas ao redor. A gestão pública é um dos gargalos. Sem estrutura formal de administração e com nenhuma verba, o parque sobrevive muito mais pela dedicação dos voluntários e da universidade do que por políticas efetivas. Por isso, o coletivo defende a criação de um conselho gestor participativo e a transformação do parque em uma unidade de conservação municipal reconhecida, com plano de manejo e investimentos contínuos.

Incêndio

Em 2024, uma tragédia atingiu o Goiabal em cheio. Na noite de 27 de outubro, uma quarta-feira, ocorreu um incêndio em parte da vegetação do parque, com fortes suspeitas de intencional. Segundo o Corpo de bombeiros e a polícia militar da região, cerca de 15 mil metros quadrados de vegetação foram devastados no processo. O coletivo verificou os danos causados pelo fogo, quase um ano depois do ocorrido, determinando que a situação continua deplorável. Segundo sua análise, várias partes do parque, se encontram amontoadas de lixo e com permanência de animais de cunho doméstico, como cavalos, prejudicando a vida dos outros animais nativos do cerrado. Além da persistência de outros problemas antigos, como a falta de cerceamento do perímetro e o descarte ilegal de carcaça pela área.

Parque do Goiaba, Ituiutaba - MG
Brigadistas e membros do coletivo apagando o fogo. Foto: Acervo Coletivo Goiabal Vivo.

O bioma cerrado constitui cerca de 23% do território nacional segundo a última análise do IBGE. O bioma que percorre o estado mineiro é constituído, em sua maior parte, pelo cerrado, porém com base no último estudo feito pela SEMAD, Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, a taxa de desmatamento do cerrado segue em queda sendo em 2023 duzentos e quatro mil quilômetros quadrados de desmatamento comparados ao índice de sessenta e sete mil quilômetros em 2024. 

Essa queda vem sendo representada há pelo menos seis anos, porém áreas mais afastadas como Ituiutaba acabam não sendo o centro do radar da Secretaria. Entre os animais que vivem ou frequentam o perímetro do parque, se destacam espécies ameaçadas de extinção como, Lobo Guará.

O Goiabal é considerado um dos últimos redutos de vegetação nativa do Cerrado em Ituiutaba, o que o torna um espaço de relevância ecológica e científica inestimável. Em meio a um território cada vez mais pressionado pelo avanço urbano e pela expansão agropecuária, o parque preserva fragmentos de flora e fauna que já desapareceram em outras áreas do município. Sua cobertura vegetal abriga espécies típicas do Cerrado mineiro, árvores retorcidas, gramíneas adaptadas à seca e uma fauna diversa que inclui aves, insetos polinizadores e pequenos mamíferos, configurando-se como um verdadeiro refúgio biológico em meio ao concreto e às plantações.

A importância do parque, porém, contrasta com o histórico de negligência e omissão institucional. Diversos planos e propostas de manejo ambiental elaborados por estudantes e moradores locais seguem sem implementação efetiva, revelando uma distância preocupante entre o discurso oficial de sustentabilidade e as ações concretas de preservação. O abandono do Goiabal é reflexo de uma lógica regional marcada pelo predomínio do agronegócio e da monocultura, setores que moldam a economia do Triângulo Mineiro e frequentemente impõem uma visão utilitarista da terra, reduzindo o valor ambiental a um obstáculo ao desenvolvimento econômico.

Esse contexto evidencia uma disputa simbólica e política em torno do território: de um lado, a perspectiva produtivista que privilegia a exploração do solo e a expansão de fronteiras agrícolas; de outro, a resistência ambiental que tenta manter viva a memória natural de Ituiutaba. Assim, o Goiabal torna-se não apenas um espaço físico de preservação, mas também um símbolo de resistência contra o apagamento ambiental e o silenciamento das vozes comunitárias que lutam pela sua proteção.

Mais do que uma área verde, o Parque Doutor Petrônio Chaves é um espelho da relação entre sociedade, ciência e natureza. É nele que estudantes aprendem sobre o cerrado e cidadãos redescobrem o valor do ambiente natural dentro da cidade, um lembrete de que o cerrado ainda resiste, e que a gente pode resistir junto com ele.

O CPF se tornou ferramenta de identificação e registros revelam a perda da privacidade nas redes
por
Juliana Salomão
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17/11/2025 - 12h

Entre esmaltes, conversas e o som constante das notificações do celular, a profissional de manicure Maria Conceição percebe como o mundo digital exige das pessoas mais do que apenas tempo. Ela comenta que cada compra, seja no supermercado, no aplicativo da farmácia ou em uma loja virtual, envolve uma troca silenciosa. Ao digitar o CPF, os consumidores oferecem informações que raramente sabem como serão utilizadas, permitindo acesso a dados como e-mail, endereço, histórico de consumo e preferências de compra. Para Maria, cada registro é uma troca invisível: uma oferta aqui, um dado pessoal ali. Ela dizia que muitas pessoas inseriam o CPF quase no automático, sem perceber que aquele pequeno gesto revelava muito mais sobre elas do que imaginavam. Comentava que grande parte dos consumidores nem fazia ideia da quantidade de informações que alimentava diariamente, enquanto acreditava estar apenas concluindo uma compra comum.

Ela reflete sobre como o CPF deixou de ser apenas um registro fiscal e passou a se tornar uma das principais chaves de identificação no universo digital. Informações coletadas, armazenadas e organizadas alimentam um mercado bilionário de dados pessoais. Empresas especializadas, conhecidas como data brokers, compram e vendem perfis segmentados por idade, renda, localização, hábitos de consumo e até opiniões políticas.

Os dados obtidos a partir de ações cotidianas, como uma simples compra, se transformam em ferramentas estratégicas para marketing e publicidade, mas também podem moldar decisões importantes na vida das pessoas. Assim, anúncios se tornam mais precisos, campanhas publicitárias mais eficientes, e empresas conseguem atingir públicos específicos. Maria, no entanto, lembra que essa eficiência tem um lado preocupante. Vazamentos, perfis incorretos ou discriminatórios podem influenciar decisões de crédito, oportunidades de emprego e acesso a serviços. Para ela, cada clique deixa rastros que alimentam um poder silencioso, capaz de moldar trajetórias de vida de forma quase invisível.

Em seus atendimentos, ela também costumava mencionar que, se uma simples compra era capaz de revelar gostos e hábitos, outras ações provavelmente forneciam ainda mais detalhes. Para ela, essa sensação constante de estar sendo observada era silenciosa, mas presente, e quase nunca chegava de forma clara ao conhecimento do público. Acrescentava que, quando algum problema de dados vinha à tona, muitas vezes o dano já estava feito.

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) busca equilibrar essa relação, determinando que empresas coletem apenas o necessário e informem claramente para que os dados serão utilizados. A legislação garante direitos de acesso, correção e exclusão de informações, além de prever sanções que podem chegar a 2% do faturamento da empresa, limitadas a R$ 50 milhões. Mesmo com essas regras, Maria percebe que muitas pessoas desconhecem seus direitos e permanecem vulneráveis. Empresas já foram multadas por vender contatos telefônicos para campanhas eleitorais e por comercializar informações sem consentimento. Vazamentos em larga escala, como o da Netshoes, expuseram milhões de registros, mostrando que a vulnerabilidade digital pode afetar diretamente a vida de cidadãos comuns. Cada notícia desse tipo reforça que o que parece banal, como informar o CPF, carrega consequências invisíveis já previstas em legislação vigente. Ela lembrava de casos amplamente divulgados, comentando que, se empresas gigantes tinham dificuldades para proteger informações, as menores estariam ainda mais vulneráveis. Observava que o consumidor confiava nas plataformas sem saber exatamente onde estava pisando, o que tornava essa relação ainda mais frágil.

O Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) complementa a LGPD ao definir princípios sobre privacidade, neutralidade da rede e guarda de registros online, mas especialistas apontam que a fiscalização ainda enfrenta desafios diante da rapidez das novas tecnologias. Maria observa que a ética na coleta de dados é essencial: o consentimento precisa ser claro e informado, evitando que usuários aceitem termos sem compreender totalmente o que estão autorizando. Apenas o estritamente necessário deve ser coletado e tratado com responsabilidade, sobretudo quando eles podem ser usados para outras finalidades. Ela reconhecia que quase ninguém lia os termos de uso e políticas de privacidade. Dizia que ela mesma raramente parava para analisar aqueles textos extensos, o que a fazia questionar se não estava autorizando mais do que deveria ao aceitar rapidamente as condições impostas pelas plataformas.

O uso de dados não se limita à publicidade e ao comércio. Ele se expande para o campo político, influenciando comportamentos e campanhas eleitorais. Nos Estados Unidos, empresas como Twitter e Meta foram investigadas por falhas na proteção de dados e pelo uso indevido de informações em campanhas de desinformação. No Brasil, a regulação busca evitar que práticas semelhantes comprometam a privacidade e a integridade do debate público. A dimensão desse impacto mostra que ações cotidianas, como digitar um número de CPF, fazem parte de um sistema muito maior, que conecta indivíduos e políticas em uma rede complexa de informação.

Durante o episódio do bloqueio da plataforma X, ela comentava que a situação parecia distante, mas afetava diretamente a rotina das pessoas. Observava como a dependência das redes sociais era profunda e como qualquer instabilidade mostrava a vulnerabilidade de trabalhadores e usuários, que dependiam desses espaços para vender, divulgar serviços e se comunicar. Foi o caso do episódio do bloqueio da plataforma X em 2024 que evidencia essa complexidade. A suspensão determinada pelo Supremo Tribunal Federal afetou o fluxo de dados, o mercado publicitário e levantou questões sobre a proteção de informações pessoais armazenadas em servidores estrangeiros. Durante cerca de 40 dias, a plataforma controlada por Elon Musk permaneceu inacessível, mostrando que a dependência de plataformas internacionais pode colocar em risco tanto dados quanto oportunidades de negócios. Mesmo em decisões legais, cada dado armazenado carrega implicações reais na vida de milhões de pessoas.

Cada CPF digitado, cada clique e cada registro digital deixam um rastro invisível que conecta o cotidiano à estrutura global de informações, já que por trás de números e algoritmos, ainda existem pessoas. A tecnologia sem transparência transforma-se em poder silencioso, e a privacidade se torna uma moeda invisível que circula entre empresas, plataformas digitais e cidadãos, exigindo atenção, consciência e reflexão sobre o valor de nossos próprios dados.

No fim de suas reflexões, ela afirmava que o mundo digital exigia aprendizado constante e que a proteção de dados deveria ser uma preocupação diária. Para ela, se as pessoas não se responsabilizassem pelos próprios dados, ninguém faria isso por elas. Acrescentava que, assim como cuidava das unhas das clientes com precisão e cuidado, acreditava que cada pessoa deveria tratar seus dados com a mesma atenção.

Entre desafios e avanços, escolas brasileiras reinventam o ensino com tecnologia sem abrir mão do papel do professor.
por
Carolina Hernandez
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23/11/2025 - 12h

Por Carolina Hernandez

 

No corredor silencioso de uma escola em São Paulo, ainda ecoam lembranças de um tempo em que o giz era soberano. Antes de 2020, a tecnologia entrava na sala de aula apenas de mansinho, um laboratório de informática esquecido no fim do pátio, algumas plataformas de apoio pedagógico que poucos exploravam, um projetor que funcionava quando queria. Era uma educação ancorada no papel, no toque, na presença. Até que o mundo parou, e a escola precisou se reinventar em velocidade de queda livre.

Quando as portas fecharam, a sala de aula se espraiou pelas cozinhas, quartos, varandas e mesas improvisadas pelo país. Professores descobriram o peso de falar para uma tela vazia, estudantes sentiram o cansaço de aprender sozinhos e pais se viram mediadores do impossível. A educação brasileira, de uma hora para outra, atravessou um portal digital para o qual ninguém estava realmente preparado.

Em meio ao caos, brotaram gestos de tentativa e erro. Professores aprendiam a usar plataformas enquanto davam aula, vasculhando botões, tentando compartilhar telas, improvisando explicações quando a conexão falhava. Entre eles, Ana Paula, do Colégio Santo Agostinho, relembra aqueles dias corridos como quem remexe um caderno antigo. Conta que o período parecia um mergulho no escuro: ao mesmo tempo em que descobria novas ferramentas, tentava não perder alunos que lutavam para acompanhar a aula pelo celular emprestado da mãe, com o sinal oscilando na janela.

Aos poucos, a tecnologia deixou de ser muleta e virou parte da rotina. Mesmo depois do retorno presencial, Ana Paula segue combinando lousa e plataforma digital, e encontra na inteligência artificial um apoio para preparar materiais, adaptar atividades para estudantes neurodivergentes e acompanhar ritmos de aprendizado antes difíceis de perceber. A docente, no entanto, insiste que nada disso elimina o papel do professor: o gesto humano, diz ela, ainda é o que dá sentido à tecnologia.

Mas o salto digital expôs um problema que não cabe numa tela: a desigualdade. A pesquisa TIC Educação 2023 mostrou que mais de um terço das escolas públicas enfrenta sérias limitações de conectividade. Em muitas delas, o único ponto de acesso à internet se resume a um roteador frágil que pouco alcança. Há instituições em que o laboratório de informática virou depósito e estudantes seguem tentando assistir a videoaulas pelo único celular da casa.

Enquanto algumas escolas particulares investem em ambientes de realidade virtual e plataformas capazes de simular experiências históricas, muitas escolas públicas seguem à margem dessa revolução. Apenas 58% das instituições urbanas possuem banda larga de qualidade, e boa parte dos estudantes depende de um pacote de dados limitado para participar da aula. A tecnologia, que poderia democratizar, ainda funciona como um filtro social.

Nas universidades, o movimento também se espalha. Pedro Silva, estudante de pedagogia, vive o modelo híbrido todos os dias e afirma que não há mais caminho de volta: quem nasceu conectado espera que a escola dialogue com esse ritmo. Ele vê nas plataformas digitais a chance de personalizar o ensino, acompanhar com precisão as dificuldades de cada aluno e criar trilhas que avancem no tempo de cada um, algo que, no modelo tradicional, exigia uma atenção quase impossível.

Mas o entusiasmo vem acompanhado de alertas. Especialistas lembram que a tecnologia precisa de regras claras, proteção de dados e políticas que garantam acesso igualitário. Lembram também que ela não substitui a mediação pedagógica, nem cria, sozinha, pensamento crítico. A educação, afinal, não é apenas transmissão de conteúdo: é encontro, é vínculo, é interpretação do mundo.

O mercado global segue acelerando, prevendo mais de 400 bilhões de dólares investidos em soluções educacionais até 2030. Mas a pergunta que ecoa nas salas de aula brasileiras é outra: quem poderá acompanhar esse futuro?

A pandemia forçou a porta. O que era emergência virou estrutura. Hoje, a sala de aula não termina mais na parede; ela se estende pela tela, pelo laboratório de realidade virtual, pelo aplicativo que avisa o desempenho, pelo vídeo que explica o que faltou na explicação anterior. Ainda assim, nenhum algoritmo substitui o olhar que percebe o silêncio de um aluno perdido, nem a mão que redesenha uma explicação até que faça sentido.

A educação brasileira segue nesse entremeio, metade digital, metade analógica, inteiramente humana. O futuro já chegou, dizem. Mas ainda precisa aprender a incluir todos que vivem no presente.