Tradicional cinema de rua sofre despejo e movimento de resistência se inicia nas redes sociais
por
Beatriz Foz
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25/05/2026 - 12h

 

Na quinta-feira, 14 de maio, foi cumprida uma medida de reintegração de posse do anexo Espaço Petrobras de Cinema, estabelecida pela Justiça de São Paulo. Caminhões chegaram no local pela manhã e desativaram as salas 4 e 5 do espaço, e o Café Fellini, anexado ao local, congelou suas atividades. Poltronas e equipamentos foram retirados, além de esvaziado o espaço do café.

O Espaço Petrobras de Cinema é um dos cinemas de rua mais antigos da cidade de São Paulo. O anexo funciona em um casarão da década de 1930 e antes de se tornar um espaço de cinema o imóvel abrigava o Instituto Goethe, que foi um local importante na formação de cineastas brasileiros. Eleito um dos melhores cinemas da cidade, conta com cinco salas de exibição que priorizam produções nacionais, cinema de arte e filmes independentes. O cinema era mantido através de um acordo de patrocínio com a Petrobras, via Lei de Incentivo à Cultura, com o objetivo de fortalecer a exibição do cinema brasileiro e internacional na cidade de São Paulo. 

Anexo ao Espaço Petrobras, o Café Fellini era um dos cafés mais tradicionais da cidade e funcionou por mais de 30 anos junto ao cinema. O café ganhou o prêmio de “Melhor Café e Bomboniere dos Cinemas de São Paulo” pelo Guia Folha por oito anos consecutivos. Na última semana o café fechou as portas. 

A luta pela permanência do local começou em 2022, quando o imóvel foi vendido a uma construtora que tinha a intenção de construir um prédio residencial no local. No mesmo ano, a comunidade de cinéfilos que frequentava o anexo organizou um abaixo assinado defendendo a preservação do cinema. Cerca de 50 mil assinaturas foram conquistadas na primeira campanha e o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo) intitulou o terreno como “Zona Especial de Preservação Cultural”, classificando o anexo como um patrimônio afetivo e cultural da cidade. Tal categorização não impede a demolição, mas obriga a incorporadora a manter o uso cultural do espaço mesmo com a reforma. Na prática, a empresa poderá demolir o espaço, desde que ceda duas salas de cinema e um espaço para o Café Fellini após as obras. 

No entanto, tais mobilizações não foram suficientes para proteger o espaço da batalha judicial. Na última semana, a ordem de reintegração de posse pedida pela Rec Vila 15 Empreendimentos Imobiliários foi cumprida. A incorporadora adquiriu o imóvel da Arteplex, responsável pela operação do cinema.

Um novo abaixo assinado foi criado pelo Café Fellini, reiterando o apelo pela permanência do estabelecimento e do anexo do Espaço Petrobras, já tendo conquistado mais de 90 mil assinaturas. Em um comunicado oficial postado nas redes sociais do café (@cinecafefellini), o estabelecimento agradece o engajamento dos clientes na luta pela permanência e declara que “precisamos defender espaços de convivência abertos para a cidade e para as pessoas”. 

O Espaço Petrobras de Cinema também publicou nas redes uma nota oficial à imprensa, destacando que todas as medidas legais cabíveis para buscar a reversão da situação estão sendo adotadas:  

  • “Seguimos comprometidos com a defesa de uma cidade mais equilibrada, culturalmente rica e voltada às pessoas, às suas formas de convivência e às experiências coletivas que também encontram expressão no cinema de rua.”

Letícia Souza, estudante e ávida frequentadora do Espaço Petrobras de Cinema, lamenta o despejo e o interpreta como uma perda da memória coletiva da cidade de São Paulo: “eu fico muito triste porque cada vez mais a gente vai vendo os cinemas de rua falindo e eu acho que eles fazem parte da memória dos cidadãos de São Paulo”. Letícia destaca que os cinemas de rua encontram dificuldades em se manter ativos com a popularização dos cinemas comerciais. “É difícil competir com algumas redes de cinema que ficam em shoppings como Cinemark, Kinoplex, Cinépolis… quando as pessoas pensam em ir ao cinema elas não pensam mais em ir aos cinemas de rua, mas pensam nesses de shoppings”, acrescenta a estudante. 

A hashtag “#anexofica” foi criada nas redes sociais como forma de protesto contra as medidas jurídicas estabelecidas. Diversos posts destacam a importância cultural do espaço e tratam o despejo como uma forma de descaso com a história da cidade. Outros tradicionais cinemas de rua como o CineSala, localizado em Pinheiros, expressaram seu apoio à luta do anexo através da hashtag. 

 

Publicação da página oficial do CineSala em apoio à permanência do anexo. Reprodução/ (@cinesala).
Publicação da página oficial do CineSala em apoio à permanência do anexo. Reprodução/ (@cinesala). 

As salas 1, 2 e 3 do Espaço Petrobras continuam com a programação usual, porém a direção do espaço ainda tenta a reativação das salas 4 e 5. O café permanece fora de atividade. 

 

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Nova loja de Trading Card Games reúne jogadores e fortalece comunidade geek paulistana
por
Thomas Fernandez
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13/05/2026 - 12h

Prestes a completar um ano de funcionamento, a Akagami se consolidou como uma das novas lojas para praticantes de jogos de cartas colecionáveis (TCG) na região da Avenida Paulista, em São Paulo. A chegada de um espaço acolhedor, aberto e tranquilo aparece em um cenário de oferta limitada de locais dedicados exclusivamente a esse tipo de jogo.

A Akagami surgiu da vontade de quatro amigos, Mayumi Akamine, Natan Lima, Kevin Higutsi e Alexandre Abraão de construir um projeto voltado à sua paixão, os cards games. Inicialmente, a loja seria somente online, mas com a insistência de Kevin e Alexandre, a loja abriu como box na Galeria Imperial localizada na Liberdade. Após o aumento do aluguel na região, a equipe transferiu a loja para rua Antônio Carlos a região próxima à Paulista e, com o novo espaço, passou a atender de uma forma diferente, oferecendo mais estrutura para os clientes e fortalecendo a proposta de comunidade em torno do card game. A experiência dos sócios como clientes e funcionários de outras lojas influenciou a proposta da Akagami, que buscava criar um ambiente diferente dos modelos tradicionais. 

A inauguração de novas lojas TCG’s costuma mobilizar a comunidade nerd, especialmente em São Paulo, onde o mercado reúne diferentes públicos e modalidades de jogos. Além de fatores como estrutura, torneios e localização, a criação de vínculos entre os clientes influencia na recepção desses espaços. A sócia Mayumi Akamine contou uma das histórias mais marcantes que teve na loja; “Dominique, é um adolescente que veio para aprender a jogar Pokémon, ele era muito tímido, não falava com ninguém. Agora, ele está aqui em toda liga semanal. Ele tem amigos na loja, comprimenta todo mundo”.

Entrada da Akagami, com o seu balcão e mesas para jogos.
 Entrada da Akagami, com o seu balcão e mesas para jogos. Foto: Thomas Fernandez/AGEMT
Mural de fotos de clientes, funcionários e momentos preciosos da Akagami
 Mural de fotos de clientes, funcionários e momentos preciosos da Akagami. Foto: Thomas Fernandez/AGEMT
Pasta de cartas para folhear.
Pasta de cartas para folhear. Foto: Thomas Fernandez/AGEMT
 Funcionários da Akagami abrindo pacote de cartas.
Funcionários da Akagami abrindo pacote de cartas. Foto: Thomas Fernandez/AGEMT
Partida de Magic: The Gathering entre jogadores.
Partida de Magic: The Gathering entre jogadores. Foto: Thomas Fernandez/AGEMT
Jogador pensando em qual carta jogar na partida de Magic: The Gathering na Akagami.
Jogador pensando em qual carta jogar na partida de Magic: The Gathering na Akagami. Foto: Thomas Fernandez/AGEMT
Parede estilizada com cartas decorando o salão interno da Akagami.
Parede estilizada com cartas decorando o salão interno da Akagami. Foto: Thomas Fernandez/AGEMT
 Sorteio de brindes durante torneio de Pokémon na Akagami.
Sorteio de brindes durante torneio de Pokémon na Akagami. Foto: Thomas Fernandez/AGEMT

Mais do que um ponto de venda, a Akagami vem se consolidando como um pilar para a comunidade. Entre partidas, trocas de cartas e conversas que se estendem para além dos jogos, o que se constrói na Akagami não cabe somente nas prateleiras. Em uma região onde antes faltava espaço para jogar, agora sobram histórias.

Avanço dos deepfakes transforma a percepção das imagens nas redes sociais e levanta questionamentos sobre verdade e cultura digital
por
Carolina Nader
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28/04/2026 - 12h

Vídeos capazes de simular discursos e expressões que nunca aconteceram deixaram de ser experimentos tecnológicos para se tornarem uma preocupação crescente no ambiente digital. Produzidos com o uso de Inteligência Artificial (IA), os chamados deepfakes ampliam desafios para a informação pública e acendem alertas sobre a disseminação da desinformação, especialmente em períodos eleitorais.

Mais do que uma inovação técnica, esses materiais circulam em um ambiente digital marcado pela velocidade do compartilhamento e pelo peso das emoções na propagação de informações. Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), publicado em 2018 na revista Science, mostrou que informações falsas podem se espalhar até seis vezes mais rápido do que conteúdos verdadeiros nas redes sociais, ampliando desafios para jornalistas, pesquisadores e usuários diante da desinformação online.

Em períodos eleitorais, essa dinâmica torna-se ainda mais relevante. Ao navegar pelas redes, eleitores são expostos a publicações virais que, antes mesmo de serem verificadas ou desmentidas, alcançam grande circulação e passam a influenciar percepções sobre candidatos e acontecimentos políticos. Houve casos como o da deputada Tabata Amaral, que teve suas imagens adulteradas com montagens pornográficas em 2024.

De acordo com João Henrique Martins, advogado especialista em Direito Digital e mestre em IA pela PUC-SP, o principal desafio está na diferença de ritmo entre tecnologia e instituições. “Há um problema diagnosticado de que o processo legislativo não acompanha a mesma velocidade com que a tecnologia evolui. Enquanto a desinformação circula em um ritmo exponencial, a lógica processual possui ritmo muito menor.”

Segundo o especialista, a expansão dos deepfakes também está ligada à democratização das ferramentas de inteligência artificial. O que antes exigia conhecimento técnico avançado passou a estar acessível a qualquer pessoa capaz de utilizar plataformas digitais, ampliando significativamente o potencial de criação e disseminação de materiais manipulados durante campanhas eleitorais.

Martins destaca ainda que a legislação eleitoral brasileira já prevê responsabilização para casos de desinformação. De acordo com ele, a punição pode atingir tanto quem produz quanto quem compartilha conteúdos sabidamente falsos, já que o foco da lei está no ato de divulgar informações inverídicas capazes de influenciar o eleitorado. Ainda assim, a velocidade da circulação digital impõe dificuldades práticas para a aplicação das normas existentes.

A rapidez das redes sociais também contribui para o impacto dos deepfakes ao se conectar diretamente às emoções humanas. As plataformas digitais são estruturadas para priorizar publicações que geram reação imediata nos indivíduos. Para o psicanalista João Bosco, “a racionalidade exige tempo e o ambiente digital valoriza a velocidade.”

Além disso, o especialista afirma que conteúdos extremos rompem a sensação de normalidade. Para ele, o ser humano não está apto a viver em um ambiente onde imagens podem mentir. Durante a maior parte da evolução humana, “ver” era sinônimo de acreditar, e a confiança na percepção visual foi fundamental para a sobrevivência. Agora, com a possibilidade de manipulação total das imagens, esse princípio é abalado, gerando um conflito psicológico. “Esse desalinhamento pode causar ansiedade, insegurança e até uma sensação constante de dúvida em relação à realidade”, afirma.

As consequências ultrapassam o campo individual e passam a afetar diretamente as relações sociais e a confiança coletiva, especialmente em contextos eleitorais. O relatório do World Economic Forum de 2024 apontou a desinformação impulsionada por IA como um dos principais riscos globais de curto prazo, destacando o potencial impacto sobre processos democráticos. Segundo João Bosco, quando as pessoas passam a duvidar sistematicamente do que veem, ocorre uma “erosão da confiança perceptiva”. Isso pode levar a dois extremos: acreditar em tudo pela emoção ou não acreditar em nada pelo ceticismo excessivo. No longo prazo, o impacto atinge não apenas a informação, mas a própria construção de sentidos sobre o mundo.

Diante do avanço dos deepfakes, plataformas digitais e autoridades eleitorais têm ampliado medidas de identificação, por meio da exigência de rotulagem de conteúdos gerados artificialmente, monitoramento, remoção de conteúdo irregular e multas eleitorais. Especialistas alertam, porém, que o desafio não é apenas tecnológico. A dificuldade em distinguir o que é real pode gerar cansaço informacional e afastamento do debate público - fenômeno associado ao aumento da apatia política.

Em um cenário em que imagens já não garantem automaticamente a verdade, o pensamento crítico passa a ocupar papel central na construção da confiança pública e no funcionamento da democracia.

Evento DARUA fomenta arte e cultura periférica independente em São Paulo
por
Evandro Tortolani
João Pedro Amador Pinheiro
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09/04/2026 - 12h

O amplo cenário artístico independente, também conhecido como “cena underground”, possui segmentos diversos em suas expressões e manifestações, com simbologias e modos únicos de comunicação com o público. Dentre as múltiplas camadas, há os movimentos artísticos periféricos, com identidade própria e linguagem característica. Porém, a falta de infraestrutura, a desigualdade social e questões culturais são adversidades enfrentadas por esses coletivos artísticos, sendo fatores antagônicos à realização de movimentos culturais do público periférico.

O Evento de Arte e Cultura DARUA, realizado no dia 22 de março dentro da casa de shows Porta Maldita, localizado no bairro paulistano de Pinheiros, apresentou diversos modos de expressões artísticas periféricas em um lugar só, com interação de variados segmentos de arte independente, como desenhos à mão, exposições, música e agricultura. Essa forma de ação coletiva em um bairro nobre da cidade de São Paulo evidencia a força dos movimentos artísticos independentes, mesmo com empecilhos logísticos e socioeconômicos.

A organizadora do evento e artista visual Luísa Moretti (22) em entrevista, afirmou: “Mesmo com muitos festivais underground sendo feitos em Pinheiros, vem muita galera da periferia, que faz o bagulho acontecer. O intuito do DARUA é esse, tirar essa visão elitizada da arte. Aqui hoje muita gente tá expondo a arte pela primeira vez. Se não fosse o DARUA demoraria para acontecer. Mesmo sem verba, abrimos a porta para nós mesmos e fizemos acontecer. O Porta é um lugar que abraça diversos eventos, então por que não fazer um evento como esse? ”

Público do Evento de Arte e Cultura DARUA
Jovens prestigiando o evento DARUA. Foto: Reprodução/ Matheus Cerullo/@daruafest

A artista independente, além de estar na linha de frente da organização do evento, expôs suas produções artísticas, chamadas de “Psicodelia Marginal” , com desenhos feitos à mão. “Tornou-se uma forma de expressar o que eu sinto. Levou um tempo para eu poder me comunicar com o público por meio da minha arte, que eu chamo de psicodelia marginal. É muito difícil para mim me expressar com palavras, então uso esses meios diferentes para me expressar” , pontuou a artífice.

A cena artística independente nas periferias, apesar de possuir uma vasta riqueza cultural, é, de certo modo, negligenciada e invisibilizada na sociedade. Luísa apontou que muitos artistas vêm de regiões periféricas e possuem dificuldades de integração em bairros de alto padrão. Diante disso, para democratizar o acesso à cultura, diversos movimentos culturais são realizados em áreas menos abastadas. “A cena underground na quebrada é muito unida, mas pouco reconhecida. Tem muita feira de arte, casa de cultura...tem muito mais evento cultural na quebrada do que em Pinheiros, mas quem é de fora não fica sabendo. Se não tem como vir até Pinheiros, você faz seu Pinheiros, monta sua cena. Se a galera não abre a porta pra gente, a gente arromba. O DARUA veio pra isso. ”

O radialista e pesquisador Victor Hugo Valente (27) também teceu comentários sobre a importância da cena independente para a cultura periférica. “Eu acredito que buscamos hoje razões pra gente existir, e isso piora muito quando você tem um contingente de pessoas negras e periféricas, que são colocadas à marginalidade. Na minha visão, eu vejo a cena como uma cena de pessoas pobres, é uma cena de pessoas à margem. Então, a cena cria um ambiente confortável para as pessoas serem o que elas verdadeiramente querem ser, e serem entendidas como elas querem ser. eu, como um homem branco, me dou o prazer de não saber o que eu sou. Mas o Lengue, baixista do Nigéria Futebol Clube, pode ter rótulos muito piores do que simplesmente não existir. Que é existir como periférico, como possível bandido. Então, é muito importante ver os caras do Nigéria tocando o que eles acham justo, o que eles acham que é arte e serem ovacionados por pares de pessoas que moram em Guarulhos, Osasco; que estão todas ali, concentradas e olhando. ”

Movimentos independentes com foco em produções periféricas, como o DARUA, evidenciam a importância do uso da arte para visibilizar grupos socialmente marginalizados, que possuem poucas oportunidades de acesso à cultura e lazer. Além disso, o contato com essas eventos pode ser uma forma de conexão com a identidade e representatividade de jovens negligenciados pela sociedade, por serem manifestações artísticas criadas por indivíduos que enfrentam questões sociais parecidas. Esse evento é um exemplo de como a arte independente pode resultar no fortalecimento do sentimento comunitário em regiões pouco requisitadas pela sociedade paulistana.

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Eventos variados, exposições, shows e festivais movimentam os espaços culturais da cidade
por
Victória da Silva
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09/04/2026 - 12h

Após as águas de março fecharem o verão e o outono começar no país, o mês de abril chega com uma vasta programação cultural para os paulistas e visitantes da cidade curtirem. Confira aqui algumas atrações interessantes para visitar na capital paulista:

SP-Arte

A SP-Arte é a maior feira de arte e design do Brasil. O encontro promove conversas e lançamentos editoriais. Nesta edição, o evento promete ter uma exposição sobre árvores, abordar o mobiliário moderno, mostrar o retrato da cena atual do design brasileiro, além de prêmios para artistas e designers.

Quando: De 8 a 12 de abril.

Onde: Pavilhão da Bienal, Parque Ibirapuera.

Ingressos: Inteira - R$120,00 e Meia Entrada - R$60,00 (+ taxas de conveniência).

Noite das Livrarias

No dia Mundial do Livro, o evento celebra a literatura em várias livrarias espalhadas por São Paulo. A partir das 18h os interessados podem descobrir espaços novos, trocar experiências, fazer oficinas, participar de festas do pijama e ainda, conhecer outros amantes de livros.

Quando: 23 de abril.

Onde: Conferir livrarias participantes no site oficial do evento (https://noitedaslivrarias.com.br/livrarias

Ingressos: Entrada Gratuita.

Cine Minhocão

O festival de cinema ao ar livre no Elevado João Goulart conta com sessões competitivas de 21 curtas-metragens brasileiros e internacionais, com votação do público e premiação.

Quando: De 25 de abril a 3 de maio - Sessões às 18h e 19h.

Onde: Minhocão

Ingressos: Inteira - R$120,00 e Meia Entrada - R$60,00 (+ taxas de conveniência).

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As obras refletem a pluralidade de linguagens que marcaram a arte brasileira na primeira metade do século XX. Foto: Divulgação/Governo de São Paulo

Exposições:

Anita e os Modernistas

Com curadoria de Renata Rocco, a exposição conta com um acervo de 23 obras de Anita Malfatti. A mostra retrata o Modernismo no Brasil e também reúne obras de outros artistas modernistas que participaram da Semana de Arte Moderna de 1922, como Di Cavalcanti, Bruno Giorgi, Paulo Rossi Osir, Ismael Nery, Regina Gomide Graz, Alfredo Volpi e Alberto da Veiga Guignard.

Quando: De 6 de abril até 31 de agosto.

Onde: Palácio dos Bandeirantes.

Ingressos: Entrada Gratuita.

Janis Joplin

A mostra trará mais de 300 itens da lendária cantora, compositora e multi-instrumentista norte-americana Janis Joplin, ícone do rock mundial. Dentre os destaques, estão diversas cartas e bilhetes escritos por Janis, fotos de apresentações, além de peças de roupa e adereços da artista.

Quando: A partir de 16 de abril.

Onde: Museu da Imagem e do Som.

Ingressos: Inteira - R$60,00 e Meia Entrada - R$30,00.

Nova Órbita - Nucle1

O centro integrado de artes de quatro andares e dois subsolos foi pensado para promover uma experiência em cada salão. Com exposições em variados espaços, intervenções e um cinema underground, a “Nova Órbita” propõe não apenas uma visita, mas sim uma imersão.

Quando: Até 28 de maio. Quarta à sexta - 12h às 20h. Sábado e domingo - 10h às 18h.

Onde: Nucleum - Rua Muniz de Souza, 809 - Aclimação.

Ingressos: Entrada gratuita.

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Festival Wine&Jazz encanta com a mistura de música e gastronomia. Foto: Divulgação/Governo de São Paulo

Festivais:

Wine & Jazz Sessions

O festival de música ao ar livre reúne jazz, gastronomia e vinho em uma experiência diferenciada. Serão dois dias de shows de Jazz e Soul, área gastronômica com a participação de chefs e seus restaurantes, empório artesanal, além de vinícolas e importadoras de vinho consagradas.

Quando: 11 e 12 de abril. 

Onde: Parque Villa-Lobos.

Ingressos: Entrada gratuita. Para participar do Wine&Jazz nas alturas (na Roda Rico) os preços variam entre R$60,00 e R$120,00.

Gop Tun Festival 2026

O festival acontece em um final de semana inteiro e celebra a cidade de São Paulo unindo artistas da música eletrônica alternativa. Em sua 5ª edição, o público poderá prestigiar a line-up que conta com Jayda G, Optimo (Espacio), Mount Kimbie Dj, Yu Su, Chaos In The Cbd, Moxie, Omoloko, Brenda & Maria Manuela, Sherelle e Aerobica.

Quando: 11 e 12 de abril 

Programação diurna: 13h às 22h30

Programação noturna: 21h30 às 6h em espaço exclusivo.

Onde: Complexo do Pacaembu

Ingressos: Variam entre R$280,00 e R$550,00.

Shows:

Marina Sena - Coisas Naturais

A artista Marina Sena retorna à São Paulo com um novo capítulo da era "Coisas Naturais”, para um show atualizado e repaginado. Entre o setlist da apresentação, está a faixa "Carnaval" que atravessou a estação e se tornou um dos hits mais tocados de fevereiro.

Quando: 17 de abril.

Onde: Espaço Unimed.

Ingressos: A partir de R$130,00.

Jackson Wang - MAGICMAN 2 WORLD TOUR

Jackson Wang, que é integrante do grupo de kpop Got7, retorna para um show em São Paulo e outro show de estreia no Rio de Janeiro, promovendo a turnê “MAGICMAN 2 WORLD TOUR”. Os shows são aguardados pelos fãs que desejam apreciar pessoalmente o alter ego “Magic Man”, criado para expressar a versão mais autêntica do artista.

Quando: 23 de abril.

Onde: Suhai Music Hall.

Ingressos: Variam entre R$470,00 e R$980,00.

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Entenda o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, sua base ideológica e o futuro das políticas da produção de alimentos orgânicos do País.
por
Laura Melo de Carvalho
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17/11/2022 - 12h

Por Laura Melo

O que parecia mais uma compra de orgânicos no armazém do campo, com aquela movimentação rotineira de uma feira, era na verdade uma concentração histórica de muita luta, democratização dos espaços e garantia dos direitos humanos. O que no momento parecia só uma escolha mais saudável e sustentável do dia a dia era na realidade um posicionamento político camuflado e um apoio a um movimento que nasceu com muito custo, mas com muita força no país. Afinal, a resistência camponesa se manifesta em diversas ações e, nessa marcha, participa do processo de transformação da civilização.

Com o avanço da sociedade, a agricultura e pecuária passam de uma cultura de subsistência para um âmbito comercial e econômico. A modernização do mundo leva o alimento a deixar de ser direito básico para virar monopólio, commodity e até sinônimo de poder aquisitivo, em épocas de crise mundial. O avanço industrial da sociedade e da escala de produção mundial desencadeia a necessidade da aceleração dos processos naturais e a baratear o custo, o que traz à tona o uso de tecnologias não sustentáveis e saudáveis para nossa mesa. 

O uso dos agrotóxicos se inicia como arma química nas grandes guerras mundiais e passa a ser ingerido pela sociedade na revolução verde quando usado como pesticida para as plantações. Atualmente, seu prejuízo na saúde humana e ambiental é comprovado, mas sendo comandado pelo grande poder aquisitivo do país e do mundo, a sociedade está vendida à grande produção agrária. Então, com a revolta do descaso atribuído ao uso dos pesticidas, seja no âmbito político ou dos direitos humanos, as produções de orgânicos têm tomado força no Brasil, através principalmente da agricultura familiar dos pequenos produtores e do MST- Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, baseado na matriz da agro-ecologia.

A agro-ecologia é muito maior do que fazer uma produção sem agro-tóxicos ou um  selo orgânico, pesquisada por Anna Primavesi, é uma alternativa sustentável que enxerga o ser humano como parte da natureza e busca esse equilíbrio entre os dois. Como explica Guto, do coletivo de saúde do MST,  “ nossa pauta política é justamente o Estado ser indutor de uma agro-ecologia e sair dessa matriz do pacote do veneno, do pacote da semente, do controle que vem da produção e da comercialização até o consumo, para uma lógica de produção agro-ecológica, que vai garantir um alimento barato, orgânico e saudável  para  a população brasileira. Nosso projeto de agricultura não é um projeto que pensa em comidas orgânicas para determinados nichos, e sim, queremos que todos os brasileiros tenham acesso a comidas sem transgênicos, agro-tóxicos e agro-ecológicos”. 

Pautado dentro dos movimentos sociais, o Movimento Sem Terra nasce no cenário da ditadura e, diferente do discurso da direita, busca a regulamentarização das distribuições de terras, até então historicamente concentradas nas mãos dos grandes proprietários. Como acrescenta Guto, “se nós pudéssemos dar um rosto para o movimento sem terra, traduzir a cara de um sem terra, ele seria de uma mulher negra, que é negado o acesso à posse e o trabalho na terra do Brasil. A gente consegue falar da ausência de reforma agrária a partir inclusive do movimento da escravidão que ocorreu no Brasil”. 

E reforça, “se pegarmos marcos legais que foram, a lei de terras no Brasil a lei que vai falar como o País  organiza a posse e usa o fruto da terra, ela é anterior a lei de abolição da escravidão no nosso pais. Isso não é por acaso, foi feita anteriormente justamente para dar os benefícios para os grandes produtores, grandes colonizadores, os parceiros das sesmarias”. E assim segue até hoje, com o movimento do agro-negócio não existe uma distribuição de terras, mas sim uma concentração e até a violação das terras dos povos originários. 

Repleta de tecnologia e ciência, a produção de orgânicos do MST, vai além de uma produção sem veneno, “A produção orgânica luta por outro modelo de agricultura, uma agricultura que não seja voltada para a monocultura para exportação, com um degradamento e um sequestro de água enorme, como acontece no agro-negócio. Não há como o agro-negócio ser orgânico,  não degradar, pois a lógica de produção  dele está relacionado a isso, é sua gênese de funcionamento desde a revolução verde”, ressalta Guto.

O MST, independente do cenário político atual e futuro, é uma alternativa consciente e necessária para a manutenção do desmatamento brasileiro,  o agro-negócio tem seu papel importante no PIB brasileiro, mas é degradador e  excludente. Há de existir um equilíbrio agro-ecológico entre as ações do ser humano e do meio ambiente, por isso é um movimento que pode mover o futuro do País, desde o âmbito ecológico até dos direitos humanos, com as legislações trabalhistas e a luta pelo trabalho digno dos camponeses. 


 

 










 

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Ainda resta a dúvida sobre os benefícios da imersão total em ambientes digitais
por
Lucca Andreoli
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13/11/2022 - 12h

Por Lucca Andreoli


Inúmeros estudos são frequentemente realizados para identificar as mudanças que a tecnologia causou na humanidade. Toda a área profissional tem mudado em torno disso, sempre tendo que se adaptar às suas alterações, assim como o meio educacional. Diversos jovens são formados no ambiente tecnológico e, recentemente, tornou-se possível enxergar as consequências das mudanças no quadro da informática no final da década de 90 e início dos anos 2000.

Na vida de Marcelo Oliveira, a tecnologia sempre foi presente. Desde a infância, o hábito de jogar vídeo games está presente. Faça chuva, faça sol, sozinho ou acompanhado, recorria aos consoles, computadores e televisões para passar o tempo. Como morou com os avós por alguns anos, numa rua não tão segura, não tinha muitas oportunidades para sair e brincar fora de casa. Quando suas irmãs estavam muito ocupadas para lhe fazer companhia, aguardava ansiosamente pelo regresso de seu pai, que passava horas incontáveis no trabalho e acabava não tendo tanto tempo para seu filho. Claro que em algum momento, se acomodou a seu isolamento, e mais atividades passaram a ser feitas nas telas. O hobby passou a ser levado mais a sério, e cursos e estudos virtuais se encaixaram mais adequadamente a sua agenda. Não demorou muito para começar a trabalhar nesse meio também. 

Tudo isso o levou onde está hoje, mas não se perguntar a respeito das vantagens e desvantagens disso parece algo inevitável. Não que seja necessário afirmar que passar muito tempo nos computadores fez bem ou mal, mas entender um pouco mais dessa jornada pode acrescentar bastante. Marcelo se lembra desses momentos com certo afeto, uma nostalgia. Entende que talvez tenha perdido algumas experiências de grande importância, mas não há arrependimento em seus olhos simpáticos. Reconhece que tudo o que faz hoje se deve a isso.

O exagero é o que o incomoda. É nítido em sua face que gostaria de ter tido uma infância mais “antiquada” de vez em quando. Alguns problemas já o acometeram, e dificuldade social foi uma preocupação por bastante tempo. Uma preocupação já superada, mas originada do contato excessivo com as máquinas, enquanto o contato humano ficou para segundo plano.

Quando questionado a respeito das futuras gerações e seu contato com novas tecnologias, pareceu bem otimista! Agitado, e com alguma identificação, elogia as crianças dessas últimas gerações. Não parece surpreso, e pouco divaga em seus pensamentos. Tem muito claro para si que as crianças aprendem rápido. Mais rápido do que as gerações anteriores, além de serem extremamente ligeiras. Nota seu interesse extremo em atividades e coisas que as agradam, assim como a velocidade em que se desinteressam (também mais rapidamente do que as gerações anteriores). Cada vez as coisas ficam mais rápidas, as crianças, menos pacientes e mais imediatistas. Isso parece ser perigoso o suficiente para assustá-lo e fazê-lo sugerir mais controle por parte dos pais, pois “tem grande perigo aí.”
 

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A tecnologia ajuda a identificar sinais de doenças que humanos não podem enxergar são detectados com facilidade
por
Rafaela Dionello
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04/10/2022 - 12h

Por Rafaela Dionello

 

A "Inteligência artificial" (IA) se refere amplamente a qualquer comportamento semelhante ao do humano apresentado por uma máquina ou sistema. Na forma mais básica da IA, os computadores são programados para “imitar” o comportamento humano usando dados extensivos de exemplos anteriores de comportamento similar. A inteligência artificial não para de evoluir, se tornando cada vez mais eficiente em potencializar o trabalho das pessoas e na medicina isso não vem sendo diferente. Seu funcionamento se baseia na combinação de grandes volumes de dados digitais e algoritmos inteligentes. Respectivamente, eles permitem ao sistema ler e interpretar padrões e informações para aprender automaticamente, esse sistema precisa ser alimentado com novos dados constantemente e para que esse processo aconteça é necessário  combinar diferentes tecnologias possibilitando à máquina a capacidade de imitar o raciocínio lógico de um humano.

Na medicina, ela tem sido celebrada pela sua alta capacidade de analisar dados e auxiliar no diagnóstico de doenças e na recomendação de tratamentos, com a ajuda da inteligência artificial, os pacientes e os médicos podem ser alertados sobre possíveis mudanças na saúde de pacientes meses ou até anos antes que os sintomas apareçam. Através de seu uso o diagnóstico precoce passa a ser uma realidade, aumentando a chance de cura, evitando tratamentos agressivos e aumentando a qualidade de vida do paciente, isso  também permite a redução do custo do tratamento, aliviando o já sobrecarregado sistema de saúde.

O escritor futurista australiano Ross Dawson presume que conforme a modernização dessa tecnologia a medicina que atualmente foca em tratar a doença passará a ser focada na prevenção de tais para que as mesmas nem se desenvolvam,  "A explosão de novas tecnologias e algoritmos desta década aprofundou o aprendizado sobre a inteligência artificial (IA), tornando-a mais eficiente que os humanos no reconhecimento de padrões", declarou em entrevista à BBC Brasil. Seguindo esse pensamento, pode-se perceber o crescimento de empresas focadas na área da prevenção. Uma dessas é a PreviNeo, uma empresa Brasileira localizada em Curitiba especializada na prevenção, diagnóstico e redução de riscos de incidência dos principais tipos de câncer que ocorrem no Brasil.

Para Rinaldo Luiz Guazzelli, um dos sócios da empresa, o que impulsionou a desenvolver o sistema foi a quantidade de diagnósticos tardios, que causam alta taxa de mortalidade, bem como a falta de acesso a serviços de atenção primária focados na prevenção de doenças. O objetivo é prevenir a mortalidade das doenças mais prevalentes e reduzir o custo do tratamento de saúde, através da prevenção e do diagnóstico precoce, conseguindo melhores desfechos clínicos e otimizando os recursos finitos da saúde no Brasil e no mundo.

 “Utilizamos algoritmos de inteligência artificial para estratificar o risco de desenvolvimento das principais doenças crônicas não transmissíveis (câncer de mama, próstata, cólon, pulmão e colo de útero, doenças cardiovasculares e problemas de saúde mental), através de um sistema web-based (cloud). Após a realização da anamnese online nosso sistema gera estratégias personalizadas para redução de risco (seja através da prevenção primária ou secundária), rigorosamente pautadas por rigor científico e, além disso, através de um sistema de Chatbot, navega o cliente para dentro do sistema de saúde para que se torne efetivamente uma pessoa saudável (com mudanças de hábito, realização de exames personalizados pelo seu risco e realização de consultas específicas quando necessário)”, explica.  

Cada paciente responde a um questionário com perguntas sobre seu histórico médico, hábitos e costumes. O sistema da PreviNeo aplica algoritmos com inteligência artificial para estratificar os riscos associados a este paciente, A empresa conta com dezenas de artigos científicos que embasam nossos resultados. “É importante mencionar que nossa ferramenta não apresenta um diagnóstico médico, mas sim uma forma de estimar probabilidades e atuar de forma preventiva. O resultado é fundamentado nos chamados “fatores de risco conhecidos” e que, uma vez existentes, aumentam a estimativa de risco de desenvolvimento da doença.”, ressalta Rinaldo. 

Ao terminar de utilizar o sistema, o paciente recebe um resumo personalizado que inclui os níveis de riscos, os exames recomendados e outras informações pertinentes, incluindo um plano de ação. Ainda, apresentamos uma escala (de 1 a 10) que indica o nível de atenção que o paciente deve dedicar ao plano de ação apresentado. O que a PreviNeo busca é induzir comportamento, a adoção de hábitos saudáveis, consultas médicas periódicas e a realização de exames preventivos são os passos que devem ser seguidos por todos os pacientes.

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O mercado bilionário e ilegal que sustenta famílias ao redor do Brasil
por
Eshlyn Cañete
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29/09/2022 - 12h

Por Eshlyn Cañete

Entre o Brasil e o Paraguai, há um muambeiro. Por definição, é o indivíduo que, por profissão ou para equilibrar suas finanças, se dedica ao comércio de bens, contrabandeados ou não, sem pagar impostos. Mas, quando perguntam para Rose Luz de 50 anos o que ela ‘’faz da vida’’, ela sempre responde que é vendedora de importados. Já são mais de 25 anos nessa profissão instável e, segundo Luz, ela já foi do luxo ao lixo.

              Tudo começa com contatos. Um muambeiro sempre tem o celular cheio de clientes, geralmente donos de loja de eletrônicos na Santa Ifigênia, procurando por fornecedores. Um depende do outro, o empresário quer mercadoria sem imposto e o muambeiro precisa da comissão, geralmente de 15%, para sobreviver. Uma lista é feita com tudo que o comerciante deseja, celulares, notebooks e pen-drives são os mais pedidos. E, logo, fecham negócio, muitas vezes a compra é enorme e custa milhares de dólares.

               No início, um muambeiro precisa investir. Muitos começam com 2 a 5 mil reais e arranjam contatos com conhecidos. Quando o ‘’vendedor de importados’’ não mora em Foz do Iguaçu, ele tem que viajar até a cidade para poder atravessar a fronteira. No caso de Rose Luz, são 3 horas de viagem de carro. O dinheiro da gasolina é dividido entre outros muambeiros de Ubiratã-PR. A ida é a parte mais tranquila. Sem ansiedade, porém sempre em contato com o cliente para não comprar algo errado.

              Chegando em Foz, eles almoçam em um restaurante barato na Vila Portes, bairro mais perto da fronteira. Nesse tipo de trabalho, não há horário de almoço, muito menos vale-refeição. E, logo depois, já atravessam a Ponte da Amizade a pé. O caminho dura cerca de 20 minutos e já estão no Paraguai. Chegando lá, vão procurar a casa de câmbio mais barata para trocar o real em dólar. A cotação do dólar não preocupa só os investidores da Bolsa de Valores, todos os dias os compradores de eletrônicos no PY monitoram cada centavo e rezam pela queda da moeda estadunidense.

              Há várias lojas de tecnologias, mas umas são mais procuradas que outras. No caso dos muambeiros, a possibilidade de comprar mais barato em atacado chama bastante atenção. É o caso das lojas que ficam no Shopping LaiLai, dominada por donos árabes. Eles compram iPhones, iPads, Notebooks de última geração para seus clientes, coisas que dificilmente conseguem comprar para si mesmos. Depois de completarem todos os pedidos dos clientes, a separação é feita para levarem no máximo 500 dólares de cada vez. E, assim, vão e voltam de Kombi de Ciudad de Leste à Foz do Iguaçu. Separam os eletrônicos, escondem na Kombi em sacolas escuras, atravessam a ponte torcendo para nenhuma fiscalização parar. Na tentativa de esconder objetos pequenos, Jeferson Cabrel, 30, conta que já escondeu cartão de memória dentro da calça.

              Quando toda essa mercadoria chega no Brasil, eles vão guardando uma por uma em carros velhos, porque, caso a polícia pare, o prejuízo do carro não será tão grande. O esconderijo mais famoso é atrás do banco de passageiro e um verdadeiro jogo de quebra-cabeça é feito para tudo caber dentro de um Monza. A viagem é feita cheia de agonia e 3 horas até Ubiratã parecem demorar dias.

              Chegam no interior e já compram a passagem até São Paulo com o motorista camarada para colocar tudo dentro no bagageiro do transporte. São mais de 14 horas de viagem, e muito tempo na estrada é sinal de perigo. O inimigo continua sendo o policial, que ao fazer seu trabalho de acabar com o contrabando, tira o ganha pão de muitas famílias.

              Rose Luz é uma mulher, mãe de dois filhos e ser muambeira é a única coisa que conseguiu fazer. Nascida no interior do Paraná, foi criada no meio rural. Não chegou a terminar o Ensino Fundamental, aprendeu o suficiente para saber ler, escrever e fazer cálculos básicos. ‘’Para ser muambeira, precisa ser boa em matemática, porque os donos de loja são bem espertinhos, estão sempre tentando dar calote na gente’’, afirma ela.

              A família Luz costuma dizer que a muamba está no sangue. Rose é a irmã mais velha de 6 irmãos, e todos, sem exceção, possuem a mesma profissão. E, atualmente, mais da metade dos filhos estão nesse mesmo meio.

              A história de Rose Luz já passou por altos e baixos. Em seus melhores anos, conseguiu construir a casa própria, tinha uma camionete vermelha e se vestia somente com roupas das melhores boutiques. Entretanto, em seu período mais complicado, ela foi presa, perdeu mais de 5 mil dólares e o carro que ela comprou para levar as mercadorias do Paraguay até sua cidade foi confiscado pela polícia. ‘’ Foi difícil ver minha mãe no jornal como uma criminosa’’, conta a filha de Rose, chamada Natália Luz de 24 anos, que na época tinha 14.

              Estampada no jornal impresso junto com bandidos, Rose afirma que se sentiu muito envergonhada. ‘’Me chamaram de contrabandista, não gosto desse termo, disseram que eu podia ficar muito tempo na cadeia. Sempre soube do risco, mas imaginei que isso só acontecia com quem levava cigarro’’, afirma. Porém, logo no dia seguinte, já foi liberada porque a família toda ajudou a pagar a fiança.

              Uma mãe ou um pai que sustenta sua família através do dinheiro que o contrabando permite é, consequentemente, um responsável ausente. Isso porque são horas de viagens por semana e os filhos acabam vendo os pais apenas nos intervalos de cada ida ao Paraguai. ‘’Lembro de passar minha infância com minha irmã mais velha. Quando minha mãe não estava no Paraguai, ela estava em São Paulo. Chorava de saudade e sentia muito medo de ela ser presa ou sofrer algum acidente na estrada’’, diz Natália Luz.

              O contrabando continua sendo um dos mercados mais lucrativos do país, conseguindo faturar bilhões por anos. No primeiro semestre de 2021, foram apreendidas mais de R$ 2,4 bilhões em mercadoria, ou seja, 64% maior que o ano de 2020. As práticas criminosas nocivas estão cada vez mais ganhando espaço no Brasil e um dos principais motivos também é o alto índice de desemprego.

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A tecnologia veio para impactar a produção de alimentos orgânicos
por
João Pedro Lindolfo
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18/10/2022 - 12h

Por João Pedro dos Santos Lindolfo  

“O agricultor é um cientista”. A frase de Luís Barbieri, um dos idealizadores da Folio e cofundador da Raiar nunca fez tanto sentido, especialmente nos dias de hoje, em que, cada vez mais, o mercado de produtos orgânicos cresce e toma o espaço no dia a dia do consumidor brasileiro. O motivo por trás disso é principalmente pelo aumento da produção dos alimentos orgânicos e a facilidade de obtê-los atualmente e isso se deve ao fato de que a produção dos produtos no mercado orgânico e a tecnologia estão andando lado a lado, priorizando a diminuição da distribuição de produtos denominados transgênicos, ou seja, alimentos geneticamente modificados.

 O maior problema dessa inovação tecnológica na agricultura orgânica é a falta de auxílio para o produtor menor. Embora a tecnologia seja um amparo para os produtores, a posse de algo tão novo não é acessível a todos e é aí que quem se beneficia mais desse avanço tecnológico são os grandes produtores, já que possuem condições de arcar com os custos da compra de máquinas e não irão sofrer prejuízos com isso. Até porque, com a lei de oferta e demanda, a produção aumentada sempre irá causar uma diminuição nos preços dos alimentos. Para o produtor menor, que não possui qualquer forma de reduzir o custo da produção com a tecnologia, a diminuição dos preços resultará em um impacto forte em sua receita.

Se for resumir, existe duas lógicas na produção orgânica de alimentos. Primeiro a da produtividade, em que pouco importa qual tipo ou qual tecnologia se usa na produção, o que importa no final é apenas se a tecnologia conseguiu reduzir os custos operacionais e o lucro obtido no final. Ou seja, é como se esses benefícios da tecnologia ficassem apenas para o produtor. Por outro lado, tem a lógica da sustentabilidade, que se ver de um modo geral, é a mais focada em realmente mostrar o lado bom da agricultura orgânica. A tecnologia precisa ser vista como uma forma beneficente ao consumidor também, de um modo em que o consumidor sinta o benefício da tecnologia no alimento. Essa lógica é muito usada por produtores engajados em causas coletivas, em que o consumo de orgânico seja um importante fator e assim mostra ao produtor que a tecnologia já passou de um ponto de vista de sobrevivência e é na verdade um fator estratégico para se diferenciar na mente do consumidor e no mercado de orgânicos.

Para pequenos produtores, a tecnologia ajudou muito mais do que aparenta. Como afirma Ricardo Pedrosa, produtor de 42 anos, um aparelho pequeno como celular já pode ser considerada uma tecnologia de suporte aos produtores de orgânico, de forma que ajuda a divulgar o feirante que vende seus produtos e consequentemente ele recebe seu reconhecimento como o produtor daqueles alimentos. Ricardo diz que já usou sim aparelhos como chips, drones, mas que não se aprofundou muito e prefere ainda o método mais tradicional, que embora seja mais duradouro, para ele, é uma forma mais segura de seguir com seu trabalho. Para Ricardo, entre a roda de agricultores orgânicos, a maioria decidiu seguir pelo caminho da tecnologia e afirma que é inevitável que o mercado geral de orgânicos irá seguir pelo caminho da tecnologia. "No começo, quando comecei a usar o celular não apenas para uso pessoal e sim para o trabalho foi complicado, pois não estava nem um pouco acostumado com a tecnologia. Porém o tempo foi passando e percebi que esse pequeno aparelho não tinha outra função além de ajudar no meu trabalho. Comecei a divulgar nas redes sociais, usar como forma de contato com outros produtores e até questões como anotar pontos importantes do que estava acontecendo na produção", afirma Ricardo.

De um ponto de vista do futuro, a tecnologia possui muitas falhas presentes e visíveis na sociedade atual, porém, para a comunidade orgânica essas falhas não se encaixam, de forma que projeções só mostram como a tecnologia no futuro apenas irá auxiliar o produtor tanto pequeno quanto grande.

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