Em São Paulo, o Dia Internacional da Mulher lembra das que se foram e luta pelas que ainda vivem
por
Carolina Machado
Isabela Sallum
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09/03/2026 - 12h

Neste domingo (8), manifestantes lideradas pelo Levante Mulheres Vivas, ato orgânico criado pelas atrizes Rachel Ripani e Livia La Gatto, concentraram-se na Avenida Paulista e seguiram do Masp até a Praça Roosevelt, na Consolação. O trajeto foi marcado pela presença de representantes de diversas organizações, partidos políticos, coletivos feministas e militantes independentes.

O aumento de crimes brutais lembra à população o que os números indicam há anos: o Brasil não é um lugar seguro para as mulheres. Cartazes denunciavam um estado de emergência por feminicídio, exibiram pedidos por mulheres vivas, o fim do discurso "red pill” (movimento misógino online), liberdade e reafirmam que criança não é mãe. Mulheres recentemente assassinadas foram lembradas por um pequeno cemitério de bonecas e um longo pano vermelho, que reunia sapatos, representando as vítimas. 

Representação de cemitério ilustra o número crescente de feminicídios. Foto: Carolina Machado/AGEMT
Representação de cemitério ilustra o número crescente de feminicídios. Foto: Carolina Machado/AGEMT

Em 2025, o Brasil registrou recorde de feminicídios, foram 1.568 vítimas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Só em janeiro deste ano, 27 mulheres foram mortas no estado paulista. “Em um país que registra milhares de casos de violência doméstica, estupros e uma epidemia de feminicídios, no dia 8 de março é para se estar nas ruas”, publicou o movimento no perfil @levantemulheresvivas, no Instagram.

Um dos casos mais marcantes lembrados no ato é o de Thainara Souza dos Santos, de 31 anos, que foi atropelada e arrastada por um quilômetro, presa ao carro pelo próprio companheiro, na zona norte de São Paulo, em novembro do ano passado. Ela morreu após um ano internada.

Rosana, de 40 anos, manifestava pelas que se foram, pelas que virão e por ela mesma. “Nós nos queremos vivas e livres. Por isso estamos aqui desconstruindo, derrubando e combatendo o que nos impede: a misoginia e a violência.”, diz à AGEMT. “Não é só indignação, é luta”, completa. 

Cartaz “Pela criminalização do discurso red pill” engrossa discurso contra a misoginia. Foto: Carolina Machado/AGEMT.
Cartaz contra a misoginia engrossa discurso pelos direitos das mulheres. Foto: Carolina Machado/AGEMT.

As reivindicações reuniram diferentes movimentos sociais, organizações políticas e militantes independentes que pautavam não apenas o combate à violência contra mulher, mas também o fim da escala 6x1 e do imperialismo, além da defesa da democracia e da soberania nacional. 

A alta nos índices de feminicídio indica que o problema não é apenas estatístico, mas é fruto de uma cultura patriarcal presente desde a formação do Brasil. Essa realidade também se reflete na falta de políticas públicas voltadas à proteção das mulheres. Em dezembro de 2025, o Portal da Transparência publicou o planejamento orçamentário do estado de São Paulo para o enfrentamento da violência contra a mulher, que previa apenas R$0,18 por mulher na faixa de 15 a 59 anos.

Como consequência, o estado lidera os rankings nacionais de feminicídio, registrando um aumento de 96,4%, o segundo maior do país, atrás apenas do Amapá, segundo o Fórum de Segurança Pública de 2025.

“O governo do Estado colocou à frente apenas 15% do orçamento público no combate ao feminicídio. Por isso, é papel do ativismo feminino ir para as ruas pelo combate às violências contra a mulher, à precarização do trabalho e aos ataques do imperialismo contemporâneo. Querendo, ou não, os assuntos se entrelaçam”, afirma Júlia Cardoso, de 23 anos, estudante e militante da Faísca Revolucionária.
 

Manifestação feminista une-se ao fim da escala 6x1. Foto: Isabela Sallum/AGEMT
Manifestação feminista também defende o fim da escala 6x1. Foto: Isabela Sallum/AGEMT

As mulheres enfrentam jornadas duplas ou triplas de trabalho, pois ainda são, em grande parte,  responsáveis pelos afazeres domésticos e cuidados familiares. São elas, também, as principais vítimas da escalada de ataques norte-americanos contra outras nações. “Trump bombardeou uma escola de meninas iranianas, durante a guerra vigente entre Estados Unidos, Israel e Irã”, lembra Júlia.

Em meio a exigências por direitos femininos básicos, Joyce, de 27 anos, militante do Levante Popular da Juventude, lembra o significado histórico do Dia Internacional da Mulher. “Não se trata de homenagem, e sim de mobilização social.”, afirma.
 

Mulheres protestam junto a partidos e grupos militantes na Avenida Paulista. Foto: Isabela Sallum/AGEMT.
Mulheres protestam junto a partidos e grupos militantes na Avenida Paulista. Foto: Isabela Sallum/AGEMT.

A jovem relembra a mobilização das mulheres socialistas russas contra o regime czarista, com a organização de atos e protestos no movimento operário. “Pelo fim do patriarcado, contra o machismo e a violência contra a mulher. Hoje o que me traz aqui nas ruas é contar e fazer história para transformar radicalmente a sociedade", conclui Joyce. 

Entre o palco e a sala de aula, construiu sua trajetória unindo a arte e a transformação social
por
Anna Cândida Xavier
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09/03/2026 - 12h

Isabel Marques, de 61 anos, é artista e pioneira no estudo do ensino de dança no Brasil. É doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Caleidos Cia. de Dança desde 1996. Sua trajetória na dança começou ainda criança, nas clássicas aulas de balé, mas na adolescência começou a questionar as metodologias e práticas de ensino. “A repetição, imitação, controle e a busca do corpo ideal das bailarinas não cabiam mais em mim. Tudo isso estava em oposição à possibilidade de criação”.

Isabel Marques sorrindo em um espetáculo de dança
Isabel Marques no espetáculo “Entrevista”, 2024 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança 

Com 16 anos, ganhou uma bolsa de estudos do United World Colleges (UWC) para estudar no Canadá. Isabel conta que a experiência em um colégio internacional abriu seus horizontes, fez amizades com jovens de todo o mundo e cursou o ensino médio longe da censura da Ditadura Militar. Decidiu fazer pedagogia após ler “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire. “Encontrei o livro em inglês na mesa dos alunos de filosofia, fiquei curiosa por ser um autor brasileiro e me encantei por ele e pela a educação”, conta. 

Ao voltar para o Brasil, ingressou na USP e retomou as aulas de dança – agora com foco na improvisação – onde conheceu os princípios e processos de criação de Rudolf Laban, um dos precursores da dança moderna. Isabel conta que Laban foi crucial para sua trajetória, uma vez que ele foi responsável pelo primeiro currículo escolar que inclui dança, criado em 1958 na Inglaterra.

A carreira de Isabel Marques é permeada pelas interfaces entre dança e educação, entre a vivência acadêmica e o fazer artístico. Em 1991, após terminar seu mestrado em Londres, começou a dar aula na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) como professora convidada. Na universidade, criou um grupo de pesquisa voltado à integração entre arte e educação, que mais tarde se transformou na companhia de dança contemporânea Caleidos.

Isabel Marques, sentada em uma mesa escrevendo.
Isabel Marques em sua defesa de doutorado, 1996 – Foto: Arquivo Caleidos Cia. de Dança 

Na mesma época, foi convidada por Ana Mae Barbosa para fazer parte da equipe de Paulo Freire na Secretaria da Educação da prefeitura de Luiza Erundina em São Paulo. “A ideia era abrir o leque de possibilidades do ensino de arte nas escolas, porque antes só tinham artes visuais e música. Em 1993, nós lançamos um novo currículo, desenhado a muitas mãos, que incluía o teatro e a dança e aprofundava as outras linguagens”, conta Isabel. 

Em 1997, foi responsável por elaborar os currículos nacionais de dança do Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Isabel acredita que a importância da dança na escola em um país que dança é a possibilidade de compreendê-la como linguagem e como arte. “A escola trata a dança como área do conhecimento, não só como entretenimento, lazer, diversão, religião – todas muito importantes e muito significativas e cruciais para o Brasil. Mas, ao estudar a linguagem da dança é possível atribuir significado aos movimentos, você tem a possibilidade de questionar, de perguntar, de recriar e de ser co-criador do mundo mesmo, da arte”. 

Isabel Marques ministrando uma palestra.
Isabel Marques ministrando uma palestra, 2009 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança

Ao longo das últimas décadas, Isabel lecionou diversos cursos de formação de professores para a rede de escolas públicas de São Paulo. “É importante que as professoras entendam que esse corpo delas, que muitas vezes não é o corpo ideal, que não é o corpo da bailarina, esbelto e flexível, também dança. É a volta ao corpo, ao movimento e à vida que as torna professoras diferenciadas”. Isabel destaca o direito à dança e ao movimento nas escolas. “A escola tradicional supervaloriza a mente, o corpo é morto na escola. Quando a gente trabalha com a dança na escola pública, a gente introduz a importância da diversidade corporal”. 

O trabalho com as escolas públicas é central em sua trajetória.“É na escola que a gente trabalha em prol da transformação social, da conscientização e da visão crítica do mundo”. Para ela, é a partir de um diálogo estabelecido com o mundo que é possível transformá-lo. Afirma que as redes de relação que criamos com o mundo podem partir de uma elaboração mental ou da experiência não verbal, de percepção através do movimento. “Você percebe o mundo através do movimento, você conhece as pessoas… Uma coisa é você falar eu te amo, outra coisa é você abraçar e beijar. São complementares”. 

Em seu livro “Ensino de Dança Hoje”, publicado em 1999, Isabel Marques propõe o conceito de “dança no contexto”. Para ela, é preciso relacionar as suas aulas de dança aos contextos sociais, afetivos, culturais e políticos, o objetivo não é simplesmente aprender uma sequência de passos, mas criar dança a partir de um contexto. “Eu conheço praticamente todos os estados do Brasil ensinando dança e dançando, sempre com um cuidado de não impor a cultura paulistana, sempre estabelecendo um diálogo com o local”.

Em suas peregrinações pelo país, Isabel lançou seis livros sobre dança e educação e ministrou cursos de especialização, incluindo aulas inaugurais em faculdades de dança. Ela conta que, no início de sua carreira, havia somente três graduações em dança no Brasil. Hoje, após o programa Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), de 2008, existem mais de 40. 

Este ano, o Caleidos, companhia de dança dirigida por Isabel Marques e Fábio Brazil, completa 30 anos. “A gente brinca que 30 anos de dança no Brasil equivalem a 200 na Europa”, comenta Isabel frente às dificuldades de viver enquanto artista no Brasil. O Caleidos já produziu 35 espetáculos de dança e ganhou 16 prêmios de fomento à dança, em nível municipal, estadual e federal. Uma das marcas da companhia é a interatividade com o público, chamar as pessoas para participar do espetáculo, dançar com os bailarinos. 

Alunos da escola pública participam de um espetáculo de dança do Caleidos
Espetáculo “Coreológicas Ludus” na sede do Caleidos com alunos da Rede Pública de Ensino de São Paulo, 2011 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança 

Os espetáculos do Caleidos nascem de imperativos sociais, explica Isabel, “é quase um chamamento”. Destaca a importância de experienciar o mundo como parte do processo criativo, muitas cenas surgem da experiência do cotidiano, com um olhar artístico apurado. O processo de construção dos espetáculos costuma envolver muita pesquisa, “eu sou pesquisadora então eu valorizo muito as pesquisas acadêmicas, é a partir dessas discussões que conseguimos ir além da experiência pessoal. O artista é um interlocutor da sociedade em que vive, do seu contexto, propõe diálogos que abrangem algo além de si mesmo”. 

Em 2025, Isabel Marques foi homenageada no XI Congresso Internacional SESC de Arte/Educação, produzido em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco. Durante o evento, estreiou seu primeiro solo de dança: ‘Outonos’. Para ela, o espetáculo surgiu da necessidade de falar sobre o envelhecimento, “envelhecer não é uma sensação, você é avisado que está mais velha pelo diálogo com as novas gerações”. “É o comportamento dos outros em relação a você que faz você se sentir mais velha. Eu adoro o assento reservado para idosos no metrô, mas alguém levantar para você sentar causa um estranhamento”. O espetáculo volta em cartaz no segundo semestre de 2026.

Isabel Marques dançando no espetáculo “Outonos”
Isabel Marques dançando no espetáculo “Outonos”, 2025 – Foto: Lino Fly/Arquivo Caleidos Cia. de Dança

 

Especialistas ressaltam que conteúdos misóginos nas redes sociais podem influenciar a escalada da violência contra mulheres
por
Carolina Nader
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03/03/2026 - 12h

O Brasil registrou, em 2025, média de 42 julgamentos de feminicídio por dia, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), aumento de 17% em relação ao ano anterior. O dado reacende o debate sobre a efetividade das políticas públicas de proteção às mulheres e os fatores sociais associados à permanência da violência no país.

Tipificado como crime hediondo desde 2015, o feminicídio é caracterizado pelo assassinato de mulheres em razão do gênero. Especialistas apontam que o crime raramente ocorre de forma repentina, sendo resultado de uma série de agressões ao longo do tempo.

Em entrevista à AGEMT, a delegada da Polícia Civil de Arujá (SP), Fernanda Pastor de Morais, afirmou que casos de feminicídio costumam ser precedidos por ameaças, perseguições e violência psicológica. “O feminicídio é o ápice de um cotidiano de violência”, disse. Segundo ela, comportamentos controladores tendem a se intensificar quando o agressor não aceita a autonomia da vítima ou o fim do relacionamento. “O crime também ocorre em maior escala no âmbito doméstico e familiar, em que o parceiro não “aceita” a autonomia da mulher ou o rompimento da relação”, afirma.

Manifestação reúne pessoas em luta por direitos femininos no dia Internacional da Mulher no Rio de Janeiro, em 2024. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Manifestação reúne pessoas em luta por direitos femininos no dia Internacional da Mulher no Rio de Janeiro, em 2024. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Nos últimos anos, comunidades virtuais associadas à chamada “machosfera”, como o movimento red pill — ideologia online contra mulheres — ganharam visibilidade nas redes sociais, difundindo conteúdos que reforçam estereótipos machistas e discursos de hostilidade. Esse cenário, em alguns casos, aparece associado a episódios de violência ao reforçar e naturalizar a desigualdade de gênero.

Na prática investigativa, o ambiente digital aparece frequentemente como extensão da violência doméstica. De acordo com a delegada, redes sociais são utilizadas por agressores para monitorar, intimidar e expor vítimas, funcionando como instrumento de controle psicológico que pode anteceder agressões físicas. 

A repercussão dos casos nas plataformas digitais também produz efeitos ambíguos. Se, por um lado, amplia a conscientização pública, por outro pode gerar desinformação, pressão sobre investigações e revitimização das mulheres envolvidas. Comentários que culpabilizam as vítimas, segundo Morais, reforçam a cultura de violência ao deslocarem a responsabilidade do agressor.

Apesar do Brasil possuir uma legislação considerada avançada no enfrentamento à violência de gênero, alguns desafios ainda persistem na aplicação das normas e na investigação de crimes digitais, especialmente diante do anonimato online e da rápida disseminação de conteúdos.

Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o feminicídio. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil
Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o feminicídio. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Para a delegada, a prevenção passa pela combinação entre educação para igualdade de gênero, fortalecimento das investigações e maior responsabilidade das plataformas digitais na moderação de conteúdos violentos. “A internet não é uma terra sem lei. O que muda é apenas o meio; a responsabilidade continua existindo”, afirma. O aumento dos registros indica que a violência contra mulheres é resultado de estruturas históricas que seguem sendo reproduzidas e amplificadas no ambiente digital. 

Atriz e cantora cearense afirma que ninguém se torna artista, nasce
por
Carolina Machado
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02/03/2026 - 12h

Desde a infância, Tabatha Almeida, 24 anos, transitou entre diferentes expressões artísticas. Do canto à dança, ou até a mescla dos dois, no teatro musical, a arte sempre esteve ali por e para ela. “Minha casa sempre foi um ambiente muito musical. Meu pai é músico e foi muito importante para mim, cantávamos juntos. Quando descobri os musicais, concluí que aquilo era a salvação da minha vida. Enquanto minhas amigas queriam ser médicas ou advogadas, eu só queria cantar e dançar”, relata em entrevista. A artista já realizou pelo menos cinco grandes produções teatrais, participando como cover da personagem Elphaba recentemente, durante a temporada de 2025 de Wicked Brasil.

Myra Ruiz e Tabatha Almeida nos camarins de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha
Myra Ruiz e Tabatha Almeida nos camarins de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha

Quando pequena, Almeida realizava inúmeras performances, cantando e fazendo acrobacias por todos os cantos. Aos 14 anos, participou da nona edição do The Voice Kids Brasil. “Para mim, é muito louco olhar para trás e pensar: o que eu faço hoje sempre esteve ali, não tinha como seguir outro caminho”, reflete. Em um mundo criado por homens e voltado para seus desejos, a atriz considera corajoso expressar-se por inteiro, como ela faz, e é grata à menina que foi por moldar quem ela é hoje. 

Aos 17 anos, mudou-se de Recife para o Rio de Janeiro, passando por inúmeros imprevistos, desilusões amorosas e muito, muito trabalho. A partir desse processo, Tabatha descobriu que o machismo não é disfarçado no mundo das artes, pelo contrário ele faz parte de uma das indignações do seu dia a dia profissional. Em entrevista à AGEMT, ela afirma que, apesar de se considerar uma pessoa que sempre conseguiu se expressar livremente em sociedade, existe uma disparidade de salários e de holofotes, e declara essa uma questão latente. Ainda assim, acredita que as mulheres encontrarão seu lugar ao se posicionarem, mostrando-se abertas e comprometidas, percorrendo diferentes caminhos e lutando por espaços.

Tabatha Almeida, nos ensaios  de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha
Tabatha Almeida, nos ensaios  de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha

A atriz destaca e entende a importância das amizades e parcerias femininas nesse processo. “Tento me cercar de mulheres fortes. Levo minhas grandes amigas dos trabalhos que realizei para a vida e pretendo estar no topo com elas”, disse. Almeida acrescenta sobre as relações, afirmando ser uma forma de empoderamento e fortalecimento do coletivo feminino, em que se fomentam opiniões e posicionamentos com o objetivo de enfrentar o mundo que é o mesmo para todas: difícil e injusto.
 

Tabatha Almeida e colegas de profissão - Imagem via Instagram @tabatha
Tabatha Almeida e colegas de profissão - Imagem via Instagram @tabatha

Tabatha acredita que ter uma rede de apoio é essencial. Isso porque sua própria família e amigas sempre estiveram por perto, nunca a deixando à mercê de situações que comprometessem seu trabalho e, sobretudo, sua integridade como mulher. “Foi fundamental me rodear de pessoas. Tentei nunca me ‘dobrar e desdobrar’ por ninguém, e sim aprender com as experiências, fortalecer laços e a mim mesma”, conclui.

Influencer brasileira viaja em um celta para o Peru com a sua companheira de quatro patas
por
João Luiz Freitas Souza
Fernanda Dias
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17/06/2025 - 12h

Ana Clara Uchoa, 24 anos, iniciou sua jornada com sua cadela Ísis pelas estradas em novembro de 2023, após sentir-se sufocada pela rotina. “Eu ficava muito frustrada com a minha vida parada. Trabalhar, voltar pra casa, passear com a Ísis na praça por meia hora. Eu queria mais” relata em entrevista via Google Meet. Hoje em dia, a influenciadora está a um mês na nova temporada dessa jornada e novamente o seu destino é o Peru. 

Aos 22 anos, Uchoa iniciou uma mudança de vida em novembro de 2023, deixando seu trabalho para concretizar um sonho. Após algumas viagens de ônibus sozinha, planejou e economizou para adquirir um Celta, nomeado Ozzy, e dar início à sua própria jornada com a sua cadela Ísis. Por mais de um ano, ela percorreu o litoral do país, e em 1 ano e 3 meses de viagem, destacou sua afeição pela Bahia e por Minas Gerais e suas cachoeiras, além da experiência de conhecer novas pessoas e culturas. No Natal, optou por retornar e passar a data com a família, interrompendo o cronograma inicial.

 

Ana Uchoa com sua cachorra Isis na frente de seu carro
Ana Clara e Isis em São José dos Campos, São Paulo - Imagem via Instagram @anaclarauchoa 

A vida no carro, no entanto, não é só paisagem bonita e liberdade, um exemplo disso foi quando ela fundiu o motor em Pernambuco, teve o bagageiro voando na ponte Rio-Niterói e dormiu em lugares improvisados e esses foram alguns dos perrengues enfrentados. Mesmo assim, Uchoa vê cada obstáculo como aprendizado pois apesar dos contratempos ela nunca precisou guinchar o carro. "O Celta nunca andou de guincho, ele sempre quebra do lado da oficina. Está tudo certo”, brinca. 

Além de viajar, Uchoa decidiu documentar tudo nas redes sociais, apesar de ser uma vontade desde sempre, contou que tinha muita vergonha, mas acabou quebrando essa barreira pessoal e postando seu primeiro conteúdo no TikTok, que hoje conta com mais de 330 mil seguidores. Sem filtros ou roteiros, seu conteúdo viralizou mostrando sua simples rotina de viagem com a Ísis, como preparar um café, escovar os dentes ao lado do carro ou improvisar uma refeição. “Eu achava que ninguém ia querer ver isso. Mas hoje, se eu não posto o café, o povo pergunta: ‘cadê o café?’”, conta, entre risos. Sua rotina virou inspiração para muitos e sua presença online, um espaço de empoderamento. 

O machismo ainda marca a rotina de quem se aventura sozinha pelas estradas do país. Ao relatar situações desconfortáveis, ela contou sobre um episódio em que, mesmo repleta de orientações técnicas do próprio mecânico, foi tratada com desdém por outro profissional. “Falei com todo cuidado, mas ele me mandou sentar e disse que quem estava trabalhando era ele. Só depois de ouvir o áudio, resolveu o problema em cinco minutos.” 

Ana Uchoa com sua cachorra Isis na frente de um monumento em Brasília
Ana Clara e Isis em Brasília, Distrito Federal - Imagem via Instagram @anaclarauchoa 

A influenciadora compartilhou que quando o assunto é segurança, o planejamento é indispensável pois dormir em locais desertos nunca é uma opção. “Mesmo se estiver no meio do nada, vou procurar um estacionamento, um posto com movimento. Se alguém percebe que estou sozinha, já sou vista como vulnerável.” Comentou ainda que, em muitos casos, “homem só respeita homem”, o que torna cada decisão na estrada mais estratégica. 

Algumas mulheres adotam medidas como deixar sapatos masculinos ao lado do carro para simular a presença de um homem. Ela prefere não recorrer a isso, mas entende quem o faz. “Ser mulher na estrada exige atenção, inteligência e muita resiliência.” 

Ao mesmo tempo, existe uma rede de apoio não oficial que prova a força da sororidade. “Se eu chego num posto e tem outra mulher sozinha, ela já fala: para aqui do lado.” Esse cuidado mútuo, que surge mesmo entre desconhecidas, mostra como mulheres viajantes criam um laço imediato de proteção e solidariedade. “O homem às vezes até acha legal, mas a mulher age. Ela acolhe, ela cuida.” 

Uchoa relata que viajar sozinha é mais do que uma escolha, é um ato de coragem e autonomia diante de um mundo que ainda questiona a liberdade feminina. 

Giovanna Conti relata os desafios da profissão e o que é ser mulher no automobilismo
por
Olivia Ferreira
Anna Sofia Carsughi
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16/06/2025 - 12h

"Eu acho que é sempre importante frisar a importância feminina no automobilismo" diz a jornalista esportiva Giovanna Conti, que na última quinta-feira (12) discutiu a respeito da importância das mulheres dentro dessa área. A entrevistada detalhou sua trajetória nesse início de carreira, contribuindo para a diversidade dentro da Fórmula 1.

A inclusão no mundo do automobilismo tem ganho cada vez mais espaço e atenção. Nestes ambientes predominantemente de homens, as mulheres, quanto mais enfrentam e lutam para uma maior visibilidade feminina, mais abrem espaço para discussões e debates acerca dessa pauta. Esses locais sempre foram vistos desde sua popularidade como algo especificamente para homens, contribuindo para um afastamento do cenário feminino nos espaços de corrida e até dentro do jornalismo.

Grupo de mulheres que fazem parte da F1 ACADEMY
Foto: https://www.alongtheracingline.com/accelerating-success-f1-academy/ 

Apesar dos avanços, existem diversos desafios como a escassez de patrocínios e a resistência cultural. Iniciativas como a criação da F1 Academy, uma categoria de base exclusivamente feminina criada pela FIA em 2022, foi de extrema importância cultural e histórica, além de buscar promover a inclusão e oferecer oportunidades para que mais mulheres ingressem e se destaquem no automobilismo.

Na Fórmula 1, ainda existem muitos desafios a serem enfrentados, porém o cenário atual mostra progresso significativo em direção à igualdade de gênero. Dentro dessa categoria, existem por exemplo várias mulheres com papéis muito importantes que são necessários tanto dentro das pistas de corrida, como na manutenção dos carros e estratégias de melhoria..

Esse esporte tem demonstrado muito mais interesse por mulheres e não somente por homens. Segundo o site AutoGear, hoje, 41% dos fãs de F1 são mulheres, e o grupo demográfico que mais cresce é o dos 16-24 anos, sinalizando um esforço bem-sucedido para alargar a escala de interesse desse público no esporte automotivo.  Essa crescente presença feminina, é um reflexo de uma sociedade em transformação, que reconhece e valoriza a contribuição delas em todas as esferas.

Giovanna Conti

Giovanna Conti, jornalista e social media formada pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), é especializada na área de esportes, no setor de automobilismo. Ela escreve em seu blog e em matérias avulsas, além de trabalhar como influenciadora digital no Instagram compartilhando tudo sobre Fórmula 1. Já realizou muitos projetos como: Band Primeira Notícia, Live F1 Gen Z Youtube Podcast, F1Mania Webstories, matérias na categoria LIF1 do site F1Mania, Relações Públicas dos Fittipaldi Brothers, colunista da Glamurama, entre outras.

Giovanna Conti, jornalista do automobilismo
Foto: Instagram oficial da Giovanna Conti 


Em entrevista para AGEMT, ela afirma que seu interesse pelo automobilismo começou desde pequena,  com forte influência de seu pai, mas só aos 13 anos que essa paixão a fez ter certeza que amava esse mundo e que gostaria de poder fazer parte dele de outras formas.

Apesar da sua força de vontade, as dificuldades da profissão se manifestam diariamente. “Uma coisa que eu sinto, principalmente vivenciando no dia a dia é que o preconceito muitas vezes vem de fora, de pessoas que assistem, ou até mesmo as que não acompanham mas que sempre estão destilando um “veneninho”, por pura maldade”- diz ela. 

Além disso, ainda há muito a fazer para se alcançar a equidade de gênero no automobilismo. Para Giovanna, a chegada da Liberty Média em 2017 fez a categoria mudar muito,  e se moldou para alcançar um público que não era o da F1. Como consequência, segundo ela,  temos um número cada vez maior de fãs que acompanham e se interessam pela categoria, que gravam vídeos, tik toks e que querem estar a par sobre os assuntos desse meio. 

Essa falta de representatividade também aparece dentro das pistas. Apesar disso, segundo ela, algumas equipes acreditam que em breve teremos uma mulher correndo. “Acredito que com a F1Academy isso fique cada vez mais claro. Seria interessante ver a F1A funcionar como a F3 e a F2, uma categoria de base para a chegada da F1”- contou Giovanna.

“Nunca enfrentei nenhum problema nesse sentido , sempre me impus muito nesse esporte e busquei provar meu valor a partir do meu trabalho, então sempre tive a sorte de ser muito respeitada e bem vista aos olhos de muitos”, conclui Conti.

  

 



 

 

Com um compilado de quatro reportagens, textos trazem diferentes perspectivas sobre o tema
por
Nathalia de Moura
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16/06/2025 - 12h

O site Donas da Bola, idealizado por Nathalia de Moura para a disciplina de Jornalismo Contra-Hegemônico, lecionada pela Professora Doutora Anna Flávia Feldmann, visa, a partir de dados, imagens, entrevistas e diferentes perspectivas, mostrar a desvalorização do futebol feminino, além de impulsionar e dar voz à luta e às atletas.

Com um compilado de quatro reportagens, o primeiro texto contextualiza historicamente o futebol feminino, trazendo o olhar de Renata Beltrão, Mestre em Museologia e Coordenadora de Comunicação do Museu do Futebol. O segundo texto aborda a realidade das categorias de base feminina de clubes brasileiros. Com depoimentos das atletas Laryssa Lourenço e Giovanna Holanda, temos um panorama das equipes jovens e o sentimento das jogadoras perante a realidade enfrentada.

A terceira reportagem foca na cobertura jornalística na modalidade feminina, os desafios enfrentados e o que pode ser feito para melhorar, tudo isso com a ajuda da Jornalista do jornal Lance!, Juliana Yamaoka. Na quarta e última reportagem, uma entrevista com a goleira do Corinthians, Kemelli Trugilho, mostra um panorama do futebol profissional feminino e a situação dos clubes da elite brasileira, além das medidas que podem ser tomadas para alavancar e valorizar o esporte.

Para acessar as reportagens, basta clicar no link a seguir: https://donasdabola.my.canva.site/

O influenciador volta a ter notoriedade nas redes sociais após claras insinuações machistas
por
Wildner Felix Cerqueira dos Santos
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06/05/2025 - 12h

Breno Faria, um influenciador digital voltou a ser alvo de críticas após a divulgação de uma série de vídeos considerados machistas, nos quais reforça estereótipos ultrapassados sobre o papel das mulheres na sociedade. As declarações – como “mulher de verdade sabe o seu lugar” ou “mulheres que trabalham demais se afastam da sua feminilidade” – reacenderam o debate sobre os efeitos do machismo cotidiano e a responsabilidade dos criadores de conteúdo nas redes sociais. Especialistas em psicologia alertam para os danos emocionais causados por esse tipo de discurso. 

 

A repercussão nas plataformas foi imediata. Internautas levantaram hashtags como #MachismoNãoÉOpinião e #BrenoFariaMisógino, enquanto especialistas apontaram os riscos desse tipo de discurso para a saúde mental das mulheres e para o retrocesso nas pautas de igualdade de gênero.

Segundo psicólogos, falas como as de Breno Faria são exemplos do chamado machismo cotidiano — um conjunto de comportamentos e comentários naturalizados que desgastam emocionalmente as mulheres e enfraquecem sua autoconfiança. “A mulher, ao ouvir esse tipo de frase em seu cotidiano, passa a duvidar de sua própria competência, a se calar em espaços de poder e a desenvolver sintomas como ansiedade, insônia e auto sabotagem”, explica o psicólogo Elienay Brandão em entrevista à AGEMT. 

Foto do Psicólogo entrevistado
Elienay Brandão Psicólogo (Reprodução/foto:@psi.elienaybrandao)

Essa forma de violência, tem impactos profundos e duradouros na vida das mulheres. Ao serem constantemente desvalorizadas, muitas desenvolvem comportamentos de auto degradação e hipervigilância: “Elas se policiam para não parecerem ‘sensíveis demais’, evitam dar opiniões ou até abrem mão de cargos e oportunidades por acreditarem, mesmo que inconscientemente, que não merecem”, destaca o psicólogo.

De acordo com a psicóloga Bruna Batista Schneider, o machismo cotidiano se manifesta de formas diversas: desde o questionamento das capacidades femininas em ambientes profissionais até a hipersexualização e o silenciamento. “Mulheres são constantemente interrompidas em reuniões, têm suas ideias apropriadas e sentem-se culpadas por não atender a padrões inatingíveis”, afirma. Esses comportamentos, somados, alimentam o que ela chama de gaslighting internalizado — quando a mulher passa a duvidar da própria percepção da realidade, muitas vezes se culpando ou se calando.

Foto da Psicóloga entrevistada
Bruna Batista Schneider Psicóloga (Reprodução/foto: @psicbrunaschneider)

Diante da repercussão negativa, plataformas como Instagram, TikTok e YouTube foram pressionadas por usuários a tomar medidas contra os conteúdos publicados por Breno Faria. Em resposta, algumas redes iniciaram investigações internas para verificar possíveis violações às diretrizes de uso, mas sem respostas ainda. A mobilização também chegou ao meio acadêmico e a entidades de defesa dos direitos das mulheres. O Instituto Maria da Penha divulgou uma nota de repúdio, não direcionada ao influenciador, mas sim classificando as declarações de Breno Faria como “violência simbólica com potencial de naturalizar a desigualdade”. Já o Observatório de Gênero e Mídia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) anunciou um relatório em elaboração sobre a influência de figuras públicas na perpetuação do machismo nas redes.

Embora os efeitos do machismo sejam devastadores, há formas de enfrentá-lo. Entre as estratégias terapêuticas recomendadas estão o fortalecimento do diálogo interno positivo, a criação de redes de apoio e a prática do autocuidado contínuo. “É fundamental que essas mulheres reconheçam que o problema não está nelas, mas sim em um sistema que as desvaloriza. A psicoterapia ajuda a desconstruir essas crenças internalizadas e a resgatar a autonomia e o prazer de existir”, afirma Schneider. Ela também destaca a importância de estabelecer limites, celebrar conquistas, mesmo que pequenas, e buscar ambientes seguros para compartilhar vivências.

A polêmica em torno das declarações de Breno Faria expõe, mais uma vez, como discursos normalizados nas redes sociais podem alimentar estruturas opressoras e perpetuar padrões nocivos. Mais do que episódios isolados, casos como esse evidenciam o impacto psicológico real que o machismo ainda exerce sobre milhões de mulheres — muitas vezes de forma silenciosa e invisível.

Diante disso, cresce a cobrança por posicionamentos mais firmes das plataformas digitais e pela responsabilização de influenciadores que propagam ideias discriminatórias. Ao mesmo tempo, especialistas reforçam a importância de uma rede de apoio emocional, de espaços seguros para escuta e da promoção de uma cultura que valorize, acolha e respeite as mulheres em sua pluralidade. Enquanto o debate segue nas redes, no meio acadêmico e nos consultórios de terapia, uma certeza se impõe: não se trata de censurar opiniões, mas de reconhecer que palavras têm peso — e, em muitos casos, causam feridas profundas. Combater o machismo cotidiano é, acima de tudo, um compromisso com a saúde mental, a dignidade e a equidade de gênero.  Ouça a reportagem.

 

 

Segundo a ONU em 60% dos casos os crimes são cometidos por parceiros ou membros da família
por
Leticia Alcântara
Sophia Razel
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02/12/2024 - 12h
Escadaria com cruz e flores representando luto
Escadaria marcada por cruzes e girassóis simboliza luto pela morte de mulheres Imagem: Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

Na segunda-feira, 25 de novembro, Dia Internacional Pela Eliminação Da Violência contra as Mulheres,  a Organização das Nações Unidas (ONU)   divulgou os dados de mapeamento de assassinatos de meninas e mulheres ao redor do mundo em 2023. Ao todo, 85 mil mulheres foram assassinadas  no ano passado, o equivalente a 140 vítimas por dia e uma a cada dez minutos, dessas, 64% foram assassinadas em ambiente doméstico por seus próprios parceiros.

 

Gráfico mostra proporção de vitimas mulheres vs homens
O gráfico “Proporção de vítimas de homicídio masculino e feminino mortas por parceiros íntimos ou outros familiares (2023)” compara a porcentagem de homicídios cometidos por parceiros íntimos ou familiares, diferenciando entre homens e mulheres. Ele mostra que apenas  11,8% dos homens assassinados foram mortos por parceiros íntimos ou familiares, enquanto a porcentagem de mulheres é de 60,2%.Fonte: UNODC Homicide Dataset (2023).

 

Segundo o relatório, o continente africano registrou a maior incidência de casos de feminicídio, seguido pelas Américas e pela Oceânia. O feminicídio é o assassinato de mulheres motivado por razões de gênero, ou seja, quando a violência ocorre pelo simples fato de a vítima ser mulher.

 

Feminicidios por região
O gráfico “Taxa estimada de feminicídios por parceiros íntimos ou familiares por 100.000 mulheres, por região (2023)” revela as taxas regionais de feminicídios por parceiros íntimos ou familiares em 2023, destacando a África com a maior taxa, seguida pelas Américas e Oceania, enquanto Europa e Ásia têm os índices mais baixos. Fonte: Estimativas da UNODC com base no UNODC Homicide Dataset (2023).

 

Brasil registra recorde de feminicídios 

O cenário brasileiro é igualmente preocupante. De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, durante o ano passado, o país bateu recorde de casos de feminicídio, ocorrendo um caso a cada 6 horas, totalizando 1.463 registros. O Conselho Nacional de Justiça brasileiro iniciou, no dia 20 de novembro, os 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, campanha que visa debater as questões de violência de gênero no país.

Na ocasião da divulgação do relatório, foi destacado que os números não refletem fielmente o cenário e que a pandemia de COVID-19 reduziu pela metade a quantidade de países que coletam ou divulgam informações sobre mulheres vítimas de violência por parceiros.

Ainda segundo a ONU, os números coletados são alarmantes, evidenciam a gravidade da violência de gênero e a necessidade de ações para enfrentamento do problema, que é global.

Confira o relatório completo AQUI.

 

 

O então piloto de F1 disse a ela que em seu país não se tinha mulheres nessa função e a presenteou com seu próprio boné
por
Vinícus Evangelista
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20/11/2024 - 12h

O GP de Interlagos de 2005 teve em sua equipe de bombeiros civis Patrícia Alves Cardoso, uma das primeiras mulheres nesse ofício no estado de São Paulo. O fato chamou a atenção do alemão Michael Schumacher que fez questão de conversar com a brasileira e, admirado, afirmou que a função de bombeiro em seu país, à época, não era exercida por pessoas do gênero feminino. Ele ainda a presenteou com seu boné oficial, que tem nele chip contendo as informações de Schumacher naquela corrida. “Me ofereceram muitos dólares e eu não aceitei, fora de cogitação. Tenho até hoje, ele (o boné) tem um apego sentimental muito grande”, afirma Patrícia.

 

Foto 1
Patrícia e Cristina, as duas únicas mulheres que trabalharam na equipe de bombeiros do GP, são citadas no “jornal da tarde”, em 22 de setembro de 2005. Foto: arquivo pessoal 

Após alguns anos, foi a vez de Martinho da Vila conhece-la e se ver admirado pela postura da bombeira, que solicitou ao cantor que apagasse seu cigarro devido ao risco de incêndio. Martinho teria dito que em 64 anos de carreira, ninguém nunca tinha feito ele apagar um cigarro e que só fez porque Patrícia tinha “um jeitinho muito maneiro de pedir”.  

“Bati na porta e disse ‘oi, tudo bem com o senhor?’ e ele com um cigarrão na mão, ‘está vendo esse negócio aí em cima? Se chama detector de fumaça, o senhor não pode fumar aqui. Se quiser um outro lugar em que o público não veja o senhor fumar eu arrumo sem problema algum’”, ela conta. “Ele não me respondeu nada, só virou as costas, foi até o banheiro, apagou o cigarro, mostrou o cigarro apagado e jogou fora”, relembra. 

Apesar do reconhecimento de celebridades, Patrícia enfatiza as dificuldades que teve, principalmente no começo de carreira, em que pouco existiam mulheres no ramo. “Comecei há 23 anos, não tinha bombeiro civil feminino em São Paulo, logo quando eu entrei, nos meses seguintes começaram a chegar mulheres que não aguentaram o peso da profissão”, explica. “Hoje é um pouco mais fácil, mas antigamente tinha muita discriminação de você chegar no local de ocorrência e a pessoa falava: ‘você pode chamar seu superior?’, sempre viam você como um sexo frágil”, afirma. 

Ela revela que seu sonho de consumo não era ser bombeira, mas sim, parteira, “não obstetra – parteira!”, como faz questão de enfatizar. O desejo não teria tido nenhuma motivação específica, sendo essa uma paixão do qual se identificava desde pequena, e que a vida a fez realizar de outra forma, sendo ela a responsável pelo parto de sua irmã. “Eu fui até o hospital, já era bombeira, mas não tinha feito parto.

Foram 36 horas, e na hora que o bebê foi nascer ela travou as pernas. Tinha duas enfermeiras bem menores do que eu”, conta. “Não conseguiam destravar as pernas dela e a cabeça dele (do filho) estava sendo espremida. Eu consegui debruçá-la para que o processo de parto fosse feito. A médica falou que foi ali que eu salvei mais uma vida, que foi a do meu sobrinho”, explica. 

Mesmo que o sonho de realizar partos tenha se transformado na realidade de apagar incêndios, é possível dizer que o codinome salva-vidas sempre esteve no DNA de Patrícia que, com apenas 16 anos de idade, socorreu por três vezes um garoto de apenas quatro anos, que morava na casa ao lado. A primeira vez foi quando seu vizinho caiu no topo do telhado da casa em que ela morava. A adolescente prestou os cuidados, porém, ao retirar o menino do telhando, ele teve uma convulsão seguida de parada cardiorrespiratória. “Posso dizer que foi Deus que me ensinou a como fazer massagem cardíaca”, comenta. 

“Alguns meses depois esse moleque estava sentado no meio da rua e um caminhão sem freio desceu a rua da minha casa. Não pensei nas consequências, simplesmente atravessei e joguei ele para o outro lado”, relata Patrícia, sobre o segundo salvamento à mesma criança. No terceiro episódio, ela conta que o mesmo menino estava convulsionando em casa, até que a mãe dele, já sabendo do histórico de salvamentos por parte da vizinha, bateu a sua porta desesperada e conseguiu novamente com que a futura bombeira salvasse seu filho.  

Patrícia diz que a principal inspiração para seguir no ofício que exerce partiu de seu falecido marido, que era bombeiro. Segundo ela, a morte do esposo a motivou em fazer o curso da profissão. Essa, porém, não foi a primeira relação afetiva dela. A bombeira conta que passou por uma relação abusiva em seu primeiro casamento, em que teve um filho, passando por agressões e ofensas pelo fato de ser mulher.  

“Casei com uma pessoa de um jeito e ao longo dos meses ele foi se tornando quem ele é, um cara machista ao último, de bater na minha cara na frente dos outros, de gritar comigo como eu não tinha direito a voz”, revela. Ela conta que durante essa relação ela era proibida de trabalhar ou ter amizades, e fugiu de casa com o filho após seguidos episódios. “Ali foi meu grito de guerra, quando eu decidi que eu não queria mais aquilo. Eu preferia morar num barraco de madeira que não tinha piso do que estar ali”, afirma. 

A maior dificuldade da carreira para uma mulher na função de bombeiro, segundo ela, foi lidar com o ambiente masculino em sua volta, passando por dificuldades estruturais que transmitem a mensagem de “você tem que se virar, a mulher que se vire”, como ela diz, ao explicar que já trabalhou em lugares sem local para se trocar ou um banheiro próprio para mulheres. 

“Você está no alojamento e os bombeiros olham para você perguntando ‘vai se trocar onde? Não tem lugar para você’, parece ser simples, mas não é, isso magoa, ver todos guardando suas roupas e você não ter esse direito mínimo”. Patrícia ainda afirma ter sido assediada moralmente e perseguida durante sete anos em um local em que trabalhou, tendo entrado com fama de “amante do gerente” por parte de outros funcionários que colocavam sua capacidade em xeque diante do fato de ser uma mulher exercendo aquela profissão.

“Acontecia de eu estar na minha sala fazendo o serviço e vir um segurança bem devagarzinho para ver se eu estava com um homem lá dentro”, relata. Segundo seu depoimento, acontecia de pessoas colocarem falsas evidências em seu carro para apontarem ela como amante de outro homem que teria lhe cedido o emprego. Nesse mesmo serviço, ela relembra de alguns outros episódios em que duvidaram de sua capacidade profissional em detrimento de gênero. Em um desses, ela teria alertado o chefe de manutenção do estabelecimento sobre uma árvore que estava prestes a cair, dizendo que era melhor arrancá-la antes que caísse e machucasse alguém.

“Eu escutei a seguinte frase: ‘Patrícia, eu vou pedir para um homem ir lá e ver o serviço, se ele falar que vai cair, daí a gente arranca’, não deu tempo de eu chegar na minha sala e a árvore caiu, graças a Deus não pegou ninguém”, comenta. “Ele podia dizer que ia pedir a um outro funcionário, que era um jeito dele não me ofender, mas enfatizava a palavra homem”, reitera. “Hoje eu não tolero muita coisa que eu tolerava, se uma pessoa falar para mim que vai pedir a opinião de um homem eu levo para a delegacia”, afirma. 

Por fim, ela comenta sobre o movimento feminista no país, elucidando que "tem que ser mais objetivo e sem se perder”, relatando que viu vários movimentos feministas perdendo o foco de sua pauta principal. “Se você se propôs por uma causa, vá até o fim, não importa quantos nãos vão te falar, mas vá em frente! O feminismo não é só para mulher”, opina.