Mulheres enfrentam desigualdades estruturais que alteram sua rotina e sua identidade, de acordo com padrões femininos impostos pela sociedade
por
Carolina Machado
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07/05/2026 - 12h

Segundo relatório do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizado em 2025, as mulheres dedicam cerca de 21 horas semanais aos cuidados da casa e dos filhos, praticamente o dobro do tempo gasto pelos homens. Na escala 6x1, por exemplo, o único dia de folga para essas mães é dedicado à limpeza, alimentação e cuidados com os filhos; são 65 horas semanais, contando trabalho formal e informal invisibilizado. Essa jornada dupla, realizada por mais de 90% das brasileiras, altera a rotina e identidade feminina de acordo com cada realidade, a partir de exigências sociais e construções culturais relacionadas à mulher. 

Mesmo fazendo parte de um recorte privilegiado dessas brasileiras, Estéfi Machado, de 48 anos, não romantiza a rotina como mãe nas redes sociais. Ela trabalha de casa e, com a chegada de seu filho Teo, hoje aos 18 anos, tudo se tornou mais caótico. “Eu fazia meus freelas em um quartinho e, quando ele nasceu, não tinha mais tempo para terminar minhas coisas”, relata em entrevista. 

“Mesmo com o apoio do meu marido e da minha família, as tarefas sempre ficaram para mim. Eu me desdobrei, me sacrifiquei e desejo ser vista. Afinal, tanto eu, quanto outras mulheres criamos novos cidadãos para o mundo”, conta. Ela ressalta que, como qualquer mãe, adora presentes e cartinhas, mas reconhece que isso não é suficiente no Dia das Mães, o reconhecimento precisa vir acompanhado de uma mudança real do comportamento dos filhos e dos maridos dentro de casa. 

Estéfi Machado e seu filho Teo, de 18 anos. Reprodução: vInstagram/@blog.estefi.machado
Estéfi Machado e seu filho Teo, de 18 anos. Reprodução: vInstagram/@blog.estefi.machado

Adriana Machado, psicóloga clínica formada pelo Mackenzie, descreve a maternidade como uma construção subjetiva e sociopolítica profunda, marcada pela reestruturação feminina. “É uma complexa transição de vida que exige escolhas e adaptação aos desafios impostos ao novo papel”, esclarece. Ela acrescenta que, apesar de ser uma vivência individual e única para cada mulher, todas são atravessadas por imposições sociais e culturais, provenientes da estrutura de uma sociedade patriarcal, que acarretam mudanças de rotina e na própria identidade feminina.

No caso de Estéfi, sua formação como designer se fundiu com a maternidade e, assim, começou a dividir com o público suas invenções criativas que mãe e filho projetavam enquanto cuidava de Teo em casa. “Essa é uma realidade que não faz parte da maioria das brasileiras”, reconhece. Mesmo assim, a criação de conteúdo surgiu em sua vida como um desabafo, assim como qualquer outra mãe gostaria: enxergar-se e ser enxergada por outras mulheres que exercem a mesma função. “Não é blogueiragem, não. Ele brincava com tecido, papel e papelão, e criávamos juntos invenções com os meus materiais de design”, explica. 

Colagem com amor de mãe, feito por Estéfi Machado Reprodução: Instagram: @blog.estefi.machado
Colagem "com amor de mãe", feito por Estéfi Machado Reprodução: Instagram: @blog.estefi.machado

A designer completa sobre a importância de desconstruir estereótipos e papéis de gênero sendo mãe de um menino. “Isso é importante para mim, estou toda hora falando para ele prestar atenção no jeito com o qual trata as amigas, as primas, as tias, a avó e, futuramente, a parceira”, relata. Estéfi  acrescenta, dizendo que Teo reconhece o esforço da mãe em orientá-lo ao apontar situações, dentro e fora de sua rotina, que diminuem as mulheres e o trabalho realizado por elas nas jornadas de cuidado.

Já Adriana complementa, declarando que o ato de cuidar não se refere apenas ao aspecto prático: “faz parte da estrutura para a constituição do psiquismo e da identidade de outro ser humano”. A psicóloga complementa, dizendo que a experiência materna é um encontro entre o desejo, as responsabilidades e um novo modo de ser e criar no mundo. Ainda assim, é um trabalho informal que não é reconhecido, independentemente da posição social em que a mãe ocupa.

Estéfi Machado em ensaio fotográfico. Reprodução:Instagram/ @blog.estefi.machado
Estéfi Machado em ensaio fotográfico. Reprodução:Instagram/ @blog.estefi.machado

Estéfi e Adriana concordam que até  mesmo as mães feministas lidam com uma relação desigual dentro de casa, fruto de uma estrutura patriarcal que incentiva mulheres a assumirem todas essas responsabilidades. “Se nem mesmo quem tem voz consegue se libertar dessas estruturas, o que dizer daquelas muitas que sofrem com a sobrecarga caladas e solitárias, sem tempo de questionar e repensar sua própria realidade”, conclui a psicóloga. 
 

Papel da imprensa na consolidação feminina no esporte e a importância dos registros para a construção de uma identidade nacional
por
Carolina Nader
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28/04/2026 - 12h

Localizado no Estádio do Pacaembu, o Museu do Futebol foi inaugurado na capital paulista em setembro de 2008. A experiência é interativa e está repleta de curiosidades, incluindo um extenso acervo histórico e atrações sobre ídolos, como Pelé e Marta. Em 2024, passou por reformas para atender questões contemporâneas, como a naturalização da participação feminina no esporte.

Suas exposições narram para além do mundo esportivo. Algumas são baseadas nos trabalhos da imprensa: manchetes estão por toda parte e as fotografias contam histórias. A popularização dessa prática esportiva se desenvolve no Brasil especialmente pela influência do rádio. Por volta de 1920, os jornais passaram a investir na veiculação das notícias e incentivaram a promoção dos jogos ao perceberem a lucratividade, criando uma dinâmica econômica que passou a se sustentar de maneira circular.

Durante a década de 1940, houve a proibição das mulheres no futebol. Nesse período, existiam impressos, como o “Jornal dos Esportes”, que apoiavam e defendiam a participação feminina e a cobriam positivamente. Em contrapartida, jornais mais conservadores, como o “A Batalha”, se posicionavam de forma contrária e evitavam noticiar sobre as jogadoras.

Segundo Renata Beltrão, guia do Museu do Futebol, “a imprensa não é uma coisa única, cada veículo defende seus pontos de vista.” Para ela o futebol feminino, por muito tempo, foi retratado como algo exótico. “As perguntas nunca fogem do padrão. Querem saber quanto calçam, como se maquiam e se querem casar”, afirma.

Time feminino de futebol do Rio Grande do Norte, década de 1920. Foto: Carolina Nader (@nadercaroll)
Time feminino de futebol do Rio Grande do Norte, década de 1920. Foto: Carolina Nader (@nadercaroll)

A partir da liberação dos jogos femininos, na década de 1980, a primeira seleção feminina foi formada para o Mundial experimental da China em 1988. A cobertura midiática era praticamente inexistente. Uma única repórter, Claudia Jacobs, acompanhou a equipe brasileira, registrando sozinha os acontecimentos. As imagens que existem desse momento são de autoria da própria jornalista e das jogadoras.

Renata conta que houve um período considerável na linha do tempo do Brasil no qual a imprensa silenciou. De acordo com ela, não tratar os arquivos feitos caseiramente e de forma amadora como fontes históricas leva a perda identidária da nação. “Isso é muito importante. Saber de que ponto de vista você conta essa história, que memórias você valoriza, o que você considera como um registro digno de ser guardado, preservado e mostrado,” relata Beltrão.

Após a reforma, algumas salas passaram a enfatizar a ideia da nação brasileira a partir das coberturas jornalísticas e pela fotojornalismo. O museu trata em paralelo os acontecimentos do futebol e os do Brasil, mostrando como o esporte influencia o desenvolvimento da identidade social.

“O que queremos mostrar é o que é o Brasil e como o futebol vem junto, a forma como caminham lado a lado”, a guia finaliza.

Ações de governos como Rússia e França tentam tratar “sintoma” ao invés da causa da queda na natalidade
por
Daniela Cid
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09/04/2026 - 12h

 

Medidas controversas vêm sendo adotadas por países onde a crise demográfica já é um risco para a manutenção do sistema. Vladimir Putin, na Rússia, já vinha se preocupando com a queda da fertilidade desde que chegou ao poder, e recentemente aprovou medida para que mulheres que não queiram engravidar sejam direcionadas a um psicólogo para que mudem de ideiaDesde 2024, o presidente da França Emmanuel Macron, desenvolve política chamada de “rearmamento demográfico” contra a infertilidade. Na época, o anúncio gerou forte controvérsia com a Federação Nacional dos Centros de Informação sobre os Diretos das mulheres e das Famílias, e desde fevereiro de 2026 o governo passou a enviar cartas a todos os jovens franceses de 29 anos com orientações sobre fertilidade e o risco de não congelamento de óvulos.  Na mesma linha, Japão e Coreia do Sul têm adotado outras medidas isoladas devido à queda populacional, como a gratuidade de creches e aumento da licença paternidade.    

Em entrevista para a AGEMT, a antropóloga Mariana Maiara Soares Silva afirma que tais medidas, diante do empoderamento feminino, podem ser vistas como uma tentativa de se tratar um “sintoma” ao invés da causa da queda na gravidez, que reside nas condições sociais nas quais mulheres não se sentem seguras para gerar e criar um filho. “Em certa medida, podemos considerar uma violação de direitos quando, no caso da Rússia, mulheres são coagidas a consultar profissionais de saúde mental por não quererem filhos, como se não fossem conscientes ou capazes de suas escolhas”, argumenta. No caso da França, Mariana comenta ser uma ameaça à autonomia já conquistada, pois instrumentaliza o corpo de mulheres que não querem engravidar e reforça estigma conservador que sofrem devido a essa escolha, tendo seus direitos e sexualidade questionados.  

De acordo com Beatriz Rodriguez Sanchez, doutora em ciência política pela USP e pesquisadora da Rede de Pesquisas em Feminismos, dentre os vários motivos pelos quais cada vez mais mulheres escolhem não engravidar estão: a dificuldade de conciliar trabalho remunerado com ascensão profissional e maternidade, e a divisão desigual do cuidado dos filhos, que sempre recai sobre a mulher.  

A consciência da escolha 

Vitória Lemos Amaro, 37 anos, brasileira autônoma vivendo em Paris há quase 7 anos, tomou a decisão de não ter filhos após compreender que tinha muitos sonhos a realizar. Foi percebendo, com o tempo, que engravidar não era exatamente um desejo, mas sim uma construção social, algo que era esperado dela como mulher: “Eu sempre dizia ‘se eu tiver filhos’ ou ‘quando eu tiver filhos’, mas no momento em que pude olhar com os meus olhos para a minha vida e entender que isso de fato não cabia, foi quando eu parei de falar ‘se eu tiver filho’, ‘quando eu tiver filhos’ e passei a dizer ‘eu não quero ter filhos’, ‘eu não vou ter filhos’, e passei a construir a minha vida a partir dessa escolha”, explica. Ela também comenta que enxerga a ação do governo francês de enviar uma carta aos jovens falando sobre os riscos da infertilidade como uma tentativa de solucionar os motivos errados. “Eu não sei de onde eles tiraram que isso vai fazer com que aumente o número de mulheres grávidas, como se o problema fosse a falta de informação, e não é” 

Beatriz Rodriguez pondera que incentivos aliados a agendas conservadoras podem tensionar os direitos reprodutivos, reforçando expectativas tradicionais sobre a maternidade ao invés de ampliar a autonomia da mulher, mas que os impactos demográficos também servem para pressionar o Estado e o mercado a repensarem políticas de cuidado e de trabalho. “Políticas públicas devem garantir condições para que as mulheres possam escolher livremente se querem ou não ter filhos”declara.  

 

Mulheres participam de uma marcha para marcar o Dia Internacional da Mulher em São Paulo, Brasil, em 8 de março de 2025. Foto: Amanda Perobelli/REUTERS
Mulheres participam de marcha do Dia Internacional da Mulher em São Paulo, Brasil, em 8 de março de 2025. Foto: Amanda Perobelli/REUTERS

 

Escolha individual em sociedade individualista  

Um outro argumento em comum dado pelas entrevistadas para optarem por não terem filhos tem a ver com o aumento do consumo de telas, da violência e de conflitos bélicos e discursos de ódio. Mariana Maiara também traz seu ponto de vista como mulher que repensa a maternidade: “existe o custo físico e psíquico de gerar um filho em uma sociedade que não está minimamente preocupada com questões climáticas e sociais; uma sociedade em que os direitos humanos e o bem-estar social não são vistos como prioridade, mas sim uma política de guerra e armamentista. Isso sem contar os casos alarmantes de violência de gênero”.  

Vitória Lemos comenta que sempre conversa com amigas que também não desejam ter filhos sobre o ideal de uma sociedade mais colaborativa: “Pensar em projetos de como criar uma sociedade que vive como uma comunidade e que se ajuda. Já falei com muitas amigas minhas que se existisse uma comunidade de várias mulheres e elas pudessem se ajudar a cuidar dos filhos e criar de fato uma comunidade. Se a gente visse mais além dessa instituição do casal apenas”, argumenta.  

De acordo com Beatriz Rodrigues, esse tema é cada vez mais relevante considerando que o Brasil também passa por um envelhecimento populacional, e que com a queda da natalidade, haverá cada vez mais mulheres idosas sem filhos, representando uma possível fragilidade em suas redes de apoio. Através da recente aprovação da Política Nacional de Cuidados, existe o reconhecimento do Estado de que o cuidado é uma responsabilidade coletiva, não só para crianças, mas também para idosos. E a partir dela, mais ações públicas deverão ser geradas para que as mulheres se sintam seguras para terem filhos, ou não.  

Grupos misóginos online disseminam ódio contra as mulheres e a violência dispara
por
Pedro Timm
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24/03/2026 - 12h

Nos últimos 10 anos, os casos de feminicídio no Brasil dispararam. Juntamente com o aumento dos crimes, se têm a proliferação de discursos de ódio online. Nas redes sociais, os movimentos misóginos, conhecidos como "manosfera", vão influenciando cada vez mais homens a serem mais másculos, ao mesmo tempo que incita o ódio ao feminino, contribuindo com a violência contra as mulheres. O feminicídio é um conceito criado por Diana Russel, em 1976, com o objetivo de nomear o assassinato de mulher por questões de gênero, assim diferenciando de um homicídio comum. No Brasil, se tornou um crime em 2015 pela Lei 13.104/2015. Mesmo sendo um crime hediondo, e com a maior pena para crimes autônomos no código penal, os casos vem aumentando vertiginosamente.

De acordo com dados disponibilizados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2025 foram registradas 1.568 vítimas de feminicídio, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Estima-se que pelo menos 13 mil mulheres perderam suas vidas em decorrência desse crime desde a criação da lei. É necessário analisar o número e entender motivos de seu crescimento.

Gráfico em linha dos casos de feminicídio no Brasil entre 2015 a 2025
Gráfico disponibilizado pelo Fórum de Segurança Pública sobre os casos de feminicídio. Disponível em https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/03/nota-tecnica-dia-mulher-2026.pdf 

A "manosfera" é uma comunidade online focada no desenvolvimento pessoal masculino com frequentes críticas ao feminismo e incitação ao ódio contra mulheres. Surgiu na década de 1990 na internet, porém ainda estava muito difuso. O movimento ganhou força a partir de 2010. Foi dentro da "manosfera" que surgiu o movimento atualmente chamamos de red pill. Começou com grupos online com ideologias misóginas para disseminar a ideia de que as mulheres estariam tomando o espaço social dos homens, criando uma narrativa de homens contra as mulheres.

Angelita Herrmann, consultora do Instituto ProMundo, explicou a adesão do discurso entre os homens. “Colocar uns contra os outros é muito mais fácil. Então, vai se criando um movimento de que homens são vitimizados. É um terreno fértil para o ódio. É a ideia de estar perdendo as oportunidades por causa de uma mulher", explica Herman e acrescenta: "a sociedade moldada pelo patriarcado está em crise".

As mulheres sempre foram obrigadas a serem submissas aos homens, enquanto o gênero oposto foi ensinado a prover e não sofrer em nenhuma ocasião, só sendo possível canalizar seus sentimentos a partir da raiva.  Ao passo que os coletivos feministas foi reivindicando seus direitos nas últimas décadas, a mudança da ocupação social das mulheres se tornou uma insegurança para homens. Muitos se veem sozinhos, em crise de identificação com o ideal masculino da sociedade. “Nós nunca tivemos uma sociedade tão solitária. Não tem mais esse tecido social, ela é individualista, é solitária, e aí você pega uma pessoa solitária, que não consegue se relacionar e cria-se um ambiente favorável para (se eu não consigo me relacionar) para culpar a mulher. Então, tem essa dificuldade inconsciente, subjetiva, em relação à masculinidade”, explica Herrmann.

O meio de disseminação do ódio começou e continua sendo, principalmente, nas redes sociais, que não regulamentadas permitem a produção desse conteúdo. O ECA Digital, vigente desde março de 2026, é uma tentativa de regulamentá-las. Assim como o PL 6396/2025 proposto por Érika Hilton (PSOL/SP), onde o conteúdo misógino propagado nas redes sociais teria sua monetização proibida. Os influenciadores que participam e disseminam a ideia do red pill têm milhões de seguidores. .

Para combater o movimento red pill, que de forma indireta influencia nos casos de feminicídio, a regulamentação das redes é um caminho possível. A ressignificação de masculinidade na sociedade atual é outro. Pensando e analisando a situação, a ONG ProMundo vem trabalhando com a ressignificação da masculinidade e da paternidade. São 28 anos trabalhando nesse objetivo, transformando homens e famílias.

O jeito com que os homens vivem a sua própria masculinidade tem matado os próprios homens.  A presença no debate sobre o feminicídio e sobre a masculinidade é extremamente necessária. “A melhor forma que os homens têm de se engajar é por si próprio. Se engajar mesmo, dizer, gente, não está dando mais, eu não aguento ser este homem que a sociedade está me impondo que eu seja. Então, de que nova masculinidade nós estamos falando? É importante ressignificar”, diz Herrmann.

Os aumentos de casos de feminicídio não aconteceram de forma isolada. Existe uma sociedade que cria mecanismos que facilitam os crimes e o preconceito contra as mulheres e o debate qualificado e o engajamento de todos é um dos caminhos para uma sociedade mais justa.

Cantora lança seu primeiro disco com single em parceria com Danilo Caymmi
por
Daniela Cid
Manuela Abbate
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24/03/2026 - 12h

Em Embu das Artes, a festa de aniversário da cidade foi também a data em que Elisa Dias viu seu destino traçado pela música.   

Mulher preta e periférica, a cantora nascida na Terra das Artes conta à Agemt sua trajetória de amor e dedicação à música em um contexto de dificuldades financeiras, preconceitos e bullying.  

Nascida em uma família musical onde o pai e, principalmente, o irmão, Elcio Dias, cantor, compositor e instrumentista, passavam horas ouvindo e estudando Elis Regina, Tom Jobim, Chico Buarque e Milton Nascimento, que hoje são suas maiores referências. A partir desses momentos com o irmão, Elisa desenvolveu seu gosto musical e pensamento crítico: “Ele me explicava as mensagens subliminares nas letras das músicas do Chico”, relembra.  

A artista conta que o casamento entre sua vida e a música se deu logo na primeira infância. Graças à figura do irmão músico que logo cedo percebeu o potencial da irmã mais nova, que já “cantava afinadinho”, começaram a ensaiar um repertório de músicas sertanejas, muito tradicional em sua cidade, para cantarem às quintas-feiras em um palco aberto de música folclórica de Embu das Artes.  

Apesar da vergonha de cantar sozinha neste palco, Elisa se esforçava nos ensaios com o irmão para cantar junto com ele, no palco dos adultos. Aos 9 anos, participou da festa de aniversário da cidade, onde cantou “Cuitelinho” de Pena Branca & Xavantinho para mais de 5 mil pessoas. Foi ali que teve certeza de que deveria fazer aquilo pelo resto da vida.

“Eu achava que todo mundo vivia daquele jeito. Que a música era o centro da vida das outras pessoas, como era o centro da vida da minha família”, comenta. 

Cartaz de divulgação de Festival de Inverno de Embu das Artes em que Elisa cantou com grandes nomes da música popular brasileira. Fonte: Instagram @elisadiass
Cartaz de divulgação de Festival de Inverno de Embu das Artes em que Elisa cantou com grandes nomes da música popular brasileira. Fonte: Instagram @elisadiass 

 

Com a sua infância tecida pela arte, Elisa sabia que seguiria o caminho da música, o caminho que sempre foi o seu: “Quando eu era criança, eu não falava que eu ia ser cantora quando crescer. Eu falava ‘eu sou cantora’”.

O PRECONCEITO 

Desde sua infância, Elisa foi atravessada pelo olhar do outro; olhar esse que a desencorajava a seguir cantando. A artista conta que sempre se sentiu fora dos padrões físicos, era rechaçada por colegas e figuras de autoridade, como professores. 

Entretanto, a música era vista por Elisa como uma ferramenta para se conectar com o outro que a recusava, além de ser sua fonte de acolhimento e, principalmente, sua companhia. “Todo artista no fundo só quer ser amado”, ela analisa sua relação com expor seu talento em busca de aceitação e reconhecimento.  

Elisa conta que, ao expor seu talento pela primeira vez no sarau da escola, com seus colegas e professora a plateia, finalmente se sentiu pertencente. 

Elisa em sua primeira apresentação na escola, em que, pela primeira vez, foi recebida com adoração por seus colegas. Reprodução: Acervo pessoal/Elisa Dias
Elisa em sua primeira apresentação na escola, em que, pela primeira vez, foi recebida com adoração por seus colegas. Reprodução: Acervo pessoal/Elisa Dias 

A artista, após cantar “Coração de Estudante” de Milton Nascimento, se deparou com uma nova realidade, “foi a primeira vez na vida que ninguém riu de mim”. Ela relata que mesmo as crianças que faziam bullying com ela a receberam com abraços e que sua professora, que não havia acreditado que ela subiria no palco para cantar, chorou de emoção.   

Ao longo de sua trajetória, Elisa seguiu se encontrando com os efeitos do julgamento do outro quanto às suas habilidades.  

 

Entrou muito nova na faculdade de música, onde as dificuldades se intensificaram por também ser uma das únicas mulheres em um grupo majoritariamente masculino que não a levavam a sério: “Alguns me acolhiam como filha; achavam tudo que eu fazia era fofinho. Outros, nitidamente deixavam bem claro que não entendiam o que eu estava fazendo ali”, declara.  

A cantora menciona, inclusive, um colega específico que a quase fez desistir de sua graduação devido às suas falas: “Me gerou traumas e bloqueios que até pouco tempo atrás eu tinha”, confessa. Ela também diz que, no geral, se sente mais cobrada que os homens dentro da música.  

O fato de ser mulher trouxe muitos desafios à sua carreira. Apesar de hoje  trabalhar com homens mais desconstruídos, que a respeitam mais do que na época da faculdade, Elisa afirma que ainda enfrenta discriminação por ser negra: “Eu também sou professora (...) e por eu ser uma mulher negra, primeiro que tudo o que eu falo soa como agressão, e as pessoas duvidam muito da minha metodologia, do meu conhecimento. Todo semestre eu tenho um aluno que duvida do meu conhecimento, que não aceita que uma mulher negra tenha aquilo o que ele busca”, relata.  

O preconceito que sofre também se intensifica pelo meio musical que a cantora participa: A MPB. 

A MPB 

“Infelizmente a MPB é um estilo de música elitizado”, aponta Elisa ao refletir sobre a falta de espaço que encontra nesse âmbito por sua raça e gênero.   

A cantora direciona sua crítica à indústria que, dentro de um país com uma riqueza grandiosa de gêneros musicais, favorece uns em detrimento de outros: “Eu acho que tem que existir mesmo, música para falar de amor, de relacionamento, de término, de bebida, de balada. A minha grande questão é que a indústria cultural pega um determinado gênero musical e faz ele ser muito popular, e os outros gêneros musicais ficam completamente esquecidos”, explica.  

Dentro de suas maiores referências musicais estão: Tatiana Parra, Lívia Nestrovski, Vanessa Moreno, Mônica Salmaso, Helene Fisher, Nana Caymmi, Zizi Possi, Gal Costa, Milton Nascimento. 

“A primeira vez que eu ouvi uma música do Milton Nascimento, com uns 7,8 anos, eu chorei da hora que eu ouvi a música até eu ir dormir. O nome da música é Fazenda. Eu tenho inclusive a capa desse disco tatuada no meu braço”.

Além da música, Elisa também é atriz e,  menciona Aline Cunha como uma grande referência dentro do Teatro Musical, que inclusive foi sua aluna, e possui uma trajetória semelhante à sua. 

Quando era pequena, Elisa sonhava em ser uma verdadeira popstar. Esse sonho foi sendo moldado conforme foi crescendo e se vendo fora dos padrões que são aceitos na sociedade para alcançar o estrelato.   

Entretanto, no decorrer de sua carreira, foi realizando muitos outros sonhos. Alguns já desejados, como cantar no Raul Gil, participar de um programa musical da TV Cultura e cantar ao lado de Márcio Borges, outros que nunca imaginou ser possível, como lançar um disco. “Eu sou uma mulher negra de periferia. Eu acessei lugares que pessoas como eu jamais acessariam, e eu sei que foi através da música”, declara.  

Hoje, Elisa sonha em ter mais estabilidade em sua carreira, conseguir levar sua banda para tocar fora, trabalhando um pouco menos e ganhando mais. 

NOVO ALBUM 

Elisa confessa que nunca havia sonhado em ter um álbum, pois nunca se viu sendo compositora, apesar de sempre escrever. 

Elisa cantando com Danilo Caymmi no Sarau Brasilis. Fonte: Acervo Pessoal/Elisa Dias
Elisa cantando com Danilo Caymmi no Sarau Brasilis. Fonte: Acervo Pessoal/Elisa Dias

 

A artista diz que seu bloqueio era advindo da pessoalidade e da intimidade do seu trabalho, vinda do quanto ela se coloca em suas músicas, “É um pedaço da minha alma que eu coloco para fora”.  

Ela conta que a transição veio após mostrar seus projetos para sua banda que, então, passou a interpretá-las em seus shows. Assim, a artista ganhou, em 2024, o financiamento de metade de seu álbum pela Lei Aldir Blanc, política de fomento à cultura brasileira, o que a possibilitou embarcar nesse novo sonho.  

Em seu disco, os arranjos e a direção musical são feitos pelo Dino Barioni, os músicos que participam são os que a acompanham há mais de cinco anos. O seu caminho musical se encontrou com o de Danilo Caymmi, instrumentista, cantor e compositor, em o que Dias caracteriza como uma “feliz surpresa”. A partir de uma performance juntos, Elisa recebeu um convite para participar da turnê de Caymmi que ocorrerá ainda neste ano e, posteriormente, o convidou para realizar uma participação em seu disco. Elisa Dias conta sobre o que essa participação significa para sua história: “Eu cresci ouvindo a família Caymmi”. 

A participação acontece no single “Curumim do Mato”, disponível já para pré-save, que retrata a história de migração dos pais de Elisa, enredo universal para os brasileiros do norte e do nordeste que se deparam com a precarização do sudeste. Danilo surge na faixa com seu próprio repertório, também sendo, assim como Elisa, filho de pais que passaram pelo mesmo processo.  

“Esse é um sonho que eu nunca ousei sonhar”, Elisa encerra ao pintar a realidade a sua frente, produto de tantos obstáculos vencidos.  

 

 

 

Giovanna Conti relata os desafios da profissão e o que é ser mulher no automobilismo
por
Olivia Ferreira
Anna Sofia Carsughi
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16/06/2025 - 12h

"Eu acho que é sempre importante frisar a importância feminina no automobilismo" diz a jornalista esportiva Giovanna Conti, que na última quinta-feira (12) discutiu a respeito da importância das mulheres dentro dessa área. A entrevistada detalhou sua trajetória nesse início de carreira, contribuindo para a diversidade dentro da Fórmula 1.

A inclusão no mundo do automobilismo tem ganho cada vez mais espaço e atenção. Nestes ambientes predominantemente de homens, as mulheres, quanto mais enfrentam e lutam para uma maior visibilidade feminina, mais abrem espaço para discussões e debates acerca dessa pauta. Esses locais sempre foram vistos desde sua popularidade como algo especificamente para homens, contribuindo para um afastamento do cenário feminino nos espaços de corrida e até dentro do jornalismo.

Grupo de mulheres que fazem parte da F1 ACADEMY
Foto: https://www.alongtheracingline.com/accelerating-success-f1-academy/ 

Apesar dos avanços, existem diversos desafios como a escassez de patrocínios e a resistência cultural. Iniciativas como a criação da F1 Academy, uma categoria de base exclusivamente feminina criada pela FIA em 2022, foi de extrema importância cultural e histórica, além de buscar promover a inclusão e oferecer oportunidades para que mais mulheres ingressem e se destaquem no automobilismo.

Na Fórmula 1, ainda existem muitos desafios a serem enfrentados, porém o cenário atual mostra progresso significativo em direção à igualdade de gênero. Dentro dessa categoria, existem por exemplo várias mulheres com papéis muito importantes que são necessários tanto dentro das pistas de corrida, como na manutenção dos carros e estratégias de melhoria..

Esse esporte tem demonstrado muito mais interesse por mulheres e não somente por homens. Segundo o site AutoGear, hoje, 41% dos fãs de F1 são mulheres, e o grupo demográfico que mais cresce é o dos 16-24 anos, sinalizando um esforço bem-sucedido para alargar a escala de interesse desse público no esporte automotivo.  Essa crescente presença feminina, é um reflexo de uma sociedade em transformação, que reconhece e valoriza a contribuição delas em todas as esferas.

Giovanna Conti

Giovanna Conti, jornalista e social media formada pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), é especializada na área de esportes, no setor de automobilismo. Ela escreve em seu blog e em matérias avulsas, além de trabalhar como influenciadora digital no Instagram compartilhando tudo sobre Fórmula 1. Já realizou muitos projetos como: Band Primeira Notícia, Live F1 Gen Z Youtube Podcast, F1Mania Webstories, matérias na categoria LIF1 do site F1Mania, Relações Públicas dos Fittipaldi Brothers, colunista da Glamurama, entre outras.

Giovanna Conti, jornalista do automobilismo
Foto: Instagram oficial da Giovanna Conti 


Em entrevista para AGEMT, ela afirma que seu interesse pelo automobilismo começou desde pequena,  com forte influência de seu pai, mas só aos 13 anos que essa paixão a fez ter certeza que amava esse mundo e que gostaria de poder fazer parte dele de outras formas.

Apesar da sua força de vontade, as dificuldades da profissão se manifestam diariamente. “Uma coisa que eu sinto, principalmente vivenciando no dia a dia é que o preconceito muitas vezes vem de fora, de pessoas que assistem, ou até mesmo as que não acompanham mas que sempre estão destilando um “veneninho”, por pura maldade”- diz ela. 

Além disso, ainda há muito a fazer para se alcançar a equidade de gênero no automobilismo. Para Giovanna, a chegada da Liberty Média em 2017 fez a categoria mudar muito,  e se moldou para alcançar um público que não era o da F1. Como consequência, segundo ela,  temos um número cada vez maior de fãs que acompanham e se interessam pela categoria, que gravam vídeos, tik toks e que querem estar a par sobre os assuntos desse meio. 

Essa falta de representatividade também aparece dentro das pistas. Apesar disso, segundo ela, algumas equipes acreditam que em breve teremos uma mulher correndo. “Acredito que com a F1Academy isso fique cada vez mais claro. Seria interessante ver a F1A funcionar como a F3 e a F2, uma categoria de base para a chegada da F1”- contou Giovanna.

“Nunca enfrentei nenhum problema nesse sentido , sempre me impus muito nesse esporte e busquei provar meu valor a partir do meu trabalho, então sempre tive a sorte de ser muito respeitada e bem vista aos olhos de muitos”, conclui Conti.

  

 



 

 

Com um compilado de quatro reportagens, textos trazem diferentes perspectivas sobre o tema
por
Nathalia de Moura
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16/06/2025 - 12h

O site Donas da Bola, idealizado por Nathalia de Moura para a disciplina de Jornalismo Contra-Hegemônico, lecionada pela Professora Doutora Anna Flávia Feldmann, visa, a partir de dados, imagens, entrevistas e diferentes perspectivas, mostrar a desvalorização do futebol feminino, além de impulsionar e dar voz à luta e às atletas.

Com um compilado de quatro reportagens, o primeiro texto contextualiza historicamente o futebol feminino, trazendo o olhar de Renata Beltrão, Mestre em Museologia e Coordenadora de Comunicação do Museu do Futebol. O segundo texto aborda a realidade das categorias de base feminina de clubes brasileiros. Com depoimentos das atletas Laryssa Lourenço e Giovanna Holanda, temos um panorama das equipes jovens e o sentimento das jogadoras perante a realidade enfrentada.

A terceira reportagem foca na cobertura jornalística na modalidade feminina, os desafios enfrentados e o que pode ser feito para melhorar, tudo isso com a ajuda da Jornalista do jornal Lance!, Juliana Yamaoka. Na quarta e última reportagem, uma entrevista com a goleira do Corinthians, Kemelli Trugilho, mostra um panorama do futebol profissional feminino e a situação dos clubes da elite brasileira, além das medidas que podem ser tomadas para alavancar e valorizar o esporte.

Para acessar as reportagens, basta clicar no link a seguir: https://donasdabola.my.canva.site/

O influenciador volta a ter notoriedade nas redes sociais após claras insinuações machistas
por
Wildner Felix Cerqueira dos Santos
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06/05/2025 - 12h

Breno Faria, um influenciador digital voltou a ser alvo de críticas após a divulgação de uma série de vídeos considerados machistas, nos quais reforça estereótipos ultrapassados sobre o papel das mulheres na sociedade. As declarações – como “mulher de verdade sabe o seu lugar” ou “mulheres que trabalham demais se afastam da sua feminilidade” – reacenderam o debate sobre os efeitos do machismo cotidiano e a responsabilidade dos criadores de conteúdo nas redes sociais. Especialistas em psicologia alertam para os danos emocionais causados por esse tipo de discurso. 

 

A repercussão nas plataformas foi imediata. Internautas levantaram hashtags como #MachismoNãoÉOpinião e #BrenoFariaMisógino, enquanto especialistas apontaram os riscos desse tipo de discurso para a saúde mental das mulheres e para o retrocesso nas pautas de igualdade de gênero.

Segundo psicólogos, falas como as de Breno Faria são exemplos do chamado machismo cotidiano — um conjunto de comportamentos e comentários naturalizados que desgastam emocionalmente as mulheres e enfraquecem sua autoconfiança. “A mulher, ao ouvir esse tipo de frase em seu cotidiano, passa a duvidar de sua própria competência, a se calar em espaços de poder e a desenvolver sintomas como ansiedade, insônia e auto sabotagem”, explica o psicólogo Elienay Brandão em entrevista à AGEMT. 

Foto do Psicólogo entrevistado
Elienay Brandão Psicólogo (Reprodução/foto:@psi.elienaybrandao)

Essa forma de violência, tem impactos profundos e duradouros na vida das mulheres. Ao serem constantemente desvalorizadas, muitas desenvolvem comportamentos de auto degradação e hipervigilância: “Elas se policiam para não parecerem ‘sensíveis demais’, evitam dar opiniões ou até abrem mão de cargos e oportunidades por acreditarem, mesmo que inconscientemente, que não merecem”, destaca o psicólogo.

De acordo com a psicóloga Bruna Batista Schneider, o machismo cotidiano se manifesta de formas diversas: desde o questionamento das capacidades femininas em ambientes profissionais até a hipersexualização e o silenciamento. “Mulheres são constantemente interrompidas em reuniões, têm suas ideias apropriadas e sentem-se culpadas por não atender a padrões inatingíveis”, afirma. Esses comportamentos, somados, alimentam o que ela chama de gaslighting internalizado — quando a mulher passa a duvidar da própria percepção da realidade, muitas vezes se culpando ou se calando.

Foto da Psicóloga entrevistada
Bruna Batista Schneider Psicóloga (Reprodução/foto: @psicbrunaschneider)

Diante da repercussão negativa, plataformas como Instagram, TikTok e YouTube foram pressionadas por usuários a tomar medidas contra os conteúdos publicados por Breno Faria. Em resposta, algumas redes iniciaram investigações internas para verificar possíveis violações às diretrizes de uso, mas sem respostas ainda. A mobilização também chegou ao meio acadêmico e a entidades de defesa dos direitos das mulheres. O Instituto Maria da Penha divulgou uma nota de repúdio, não direcionada ao influenciador, mas sim classificando as declarações de Breno Faria como “violência simbólica com potencial de naturalizar a desigualdade”. Já o Observatório de Gênero e Mídia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) anunciou um relatório em elaboração sobre a influência de figuras públicas na perpetuação do machismo nas redes.

Embora os efeitos do machismo sejam devastadores, há formas de enfrentá-lo. Entre as estratégias terapêuticas recomendadas estão o fortalecimento do diálogo interno positivo, a criação de redes de apoio e a prática do autocuidado contínuo. “É fundamental que essas mulheres reconheçam que o problema não está nelas, mas sim em um sistema que as desvaloriza. A psicoterapia ajuda a desconstruir essas crenças internalizadas e a resgatar a autonomia e o prazer de existir”, afirma Schneider. Ela também destaca a importância de estabelecer limites, celebrar conquistas, mesmo que pequenas, e buscar ambientes seguros para compartilhar vivências.

A polêmica em torno das declarações de Breno Faria expõe, mais uma vez, como discursos normalizados nas redes sociais podem alimentar estruturas opressoras e perpetuar padrões nocivos. Mais do que episódios isolados, casos como esse evidenciam o impacto psicológico real que o machismo ainda exerce sobre milhões de mulheres — muitas vezes de forma silenciosa e invisível.

Diante disso, cresce a cobrança por posicionamentos mais firmes das plataformas digitais e pela responsabilização de influenciadores que propagam ideias discriminatórias. Ao mesmo tempo, especialistas reforçam a importância de uma rede de apoio emocional, de espaços seguros para escuta e da promoção de uma cultura que valorize, acolha e respeite as mulheres em sua pluralidade. Enquanto o debate segue nas redes, no meio acadêmico e nos consultórios de terapia, uma certeza se impõe: não se trata de censurar opiniões, mas de reconhecer que palavras têm peso — e, em muitos casos, causam feridas profundas. Combater o machismo cotidiano é, acima de tudo, um compromisso com a saúde mental, a dignidade e a equidade de gênero.  Ouça a reportagem.

 

 

Segundo a ONU em 60% dos casos os crimes são cometidos por parceiros ou membros da família
por
Leticia Alcântara
Sophia Razel
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02/12/2024 - 12h
Escadaria com cruz e flores representando luto
Escadaria marcada por cruzes e girassóis simboliza luto pela morte de mulheres Imagem: Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

Na segunda-feira, 25 de novembro, Dia Internacional Pela Eliminação Da Violência contra as Mulheres,  a Organização das Nações Unidas (ONU)   divulgou os dados de mapeamento de assassinatos de meninas e mulheres ao redor do mundo em 2023. Ao todo, 85 mil mulheres foram assassinadas  no ano passado, o equivalente a 140 vítimas por dia e uma a cada dez minutos, dessas, 64% foram assassinadas em ambiente doméstico por seus próprios parceiros.

 

Gráfico mostra proporção de vitimas mulheres vs homens
O gráfico “Proporção de vítimas de homicídio masculino e feminino mortas por parceiros íntimos ou outros familiares (2023)” compara a porcentagem de homicídios cometidos por parceiros íntimos ou familiares, diferenciando entre homens e mulheres. Ele mostra que apenas  11,8% dos homens assassinados foram mortos por parceiros íntimos ou familiares, enquanto a porcentagem de mulheres é de 60,2%.Fonte: UNODC Homicide Dataset (2023).

 

Segundo o relatório, o continente africano registrou a maior incidência de casos de feminicídio, seguido pelas Américas e pela Oceânia. O feminicídio é o assassinato de mulheres motivado por razões de gênero, ou seja, quando a violência ocorre pelo simples fato de a vítima ser mulher.

 

Feminicidios por região
O gráfico “Taxa estimada de feminicídios por parceiros íntimos ou familiares por 100.000 mulheres, por região (2023)” revela as taxas regionais de feminicídios por parceiros íntimos ou familiares em 2023, destacando a África com a maior taxa, seguida pelas Américas e Oceania, enquanto Europa e Ásia têm os índices mais baixos. Fonte: Estimativas da UNODC com base no UNODC Homicide Dataset (2023).

 

Brasil registra recorde de feminicídios 

O cenário brasileiro é igualmente preocupante. De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, durante o ano passado, o país bateu recorde de casos de feminicídio, ocorrendo um caso a cada 6 horas, totalizando 1.463 registros. O Conselho Nacional de Justiça brasileiro iniciou, no dia 20 de novembro, os 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, campanha que visa debater as questões de violência de gênero no país.

Na ocasião da divulgação do relatório, foi destacado que os números não refletem fielmente o cenário e que a pandemia de COVID-19 reduziu pela metade a quantidade de países que coletam ou divulgam informações sobre mulheres vítimas de violência por parceiros.

Ainda segundo a ONU, os números coletados são alarmantes, evidenciam a gravidade da violência de gênero e a necessidade de ações para enfrentamento do problema, que é global.

Confira o relatório completo AQUI.

 

 

O então piloto de F1 disse a ela que em seu país não se tinha mulheres nessa função e a presenteou com seu próprio boné
por
Vinícus Evangelista
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20/11/2024 - 12h

O GP de Interlagos de 2005 teve em sua equipe de bombeiros civis Patrícia Alves Cardoso, uma das primeiras mulheres nesse ofício no estado de São Paulo. O fato chamou a atenção do alemão Michael Schumacher que fez questão de conversar com a brasileira e, admirado, afirmou que a função de bombeiro em seu país, à época, não era exercida por pessoas do gênero feminino. Ele ainda a presenteou com seu boné oficial, que tem nele chip contendo as informações de Schumacher naquela corrida. “Me ofereceram muitos dólares e eu não aceitei, fora de cogitação. Tenho até hoje, ele (o boné) tem um apego sentimental muito grande”, afirma Patrícia.

 

Foto 1
Patrícia e Cristina, as duas únicas mulheres que trabalharam na equipe de bombeiros do GP, são citadas no “jornal da tarde”, em 22 de setembro de 2005. Foto: arquivo pessoal 

Após alguns anos, foi a vez de Martinho da Vila conhece-la e se ver admirado pela postura da bombeira, que solicitou ao cantor que apagasse seu cigarro devido ao risco de incêndio. Martinho teria dito que em 64 anos de carreira, ninguém nunca tinha feito ele apagar um cigarro e que só fez porque Patrícia tinha “um jeitinho muito maneiro de pedir”.  

“Bati na porta e disse ‘oi, tudo bem com o senhor?’ e ele com um cigarrão na mão, ‘está vendo esse negócio aí em cima? Se chama detector de fumaça, o senhor não pode fumar aqui. Se quiser um outro lugar em que o público não veja o senhor fumar eu arrumo sem problema algum’”, ela conta. “Ele não me respondeu nada, só virou as costas, foi até o banheiro, apagou o cigarro, mostrou o cigarro apagado e jogou fora”, relembra. 

Apesar do reconhecimento de celebridades, Patrícia enfatiza as dificuldades que teve, principalmente no começo de carreira, em que pouco existiam mulheres no ramo. “Comecei há 23 anos, não tinha bombeiro civil feminino em São Paulo, logo quando eu entrei, nos meses seguintes começaram a chegar mulheres que não aguentaram o peso da profissão”, explica. “Hoje é um pouco mais fácil, mas antigamente tinha muita discriminação de você chegar no local de ocorrência e a pessoa falava: ‘você pode chamar seu superior?’, sempre viam você como um sexo frágil”, afirma. 

Ela revela que seu sonho de consumo não era ser bombeira, mas sim, parteira, “não obstetra – parteira!”, como faz questão de enfatizar. O desejo não teria tido nenhuma motivação específica, sendo essa uma paixão do qual se identificava desde pequena, e que a vida a fez realizar de outra forma, sendo ela a responsável pelo parto de sua irmã. “Eu fui até o hospital, já era bombeira, mas não tinha feito parto.

Foram 36 horas, e na hora que o bebê foi nascer ela travou as pernas. Tinha duas enfermeiras bem menores do que eu”, conta. “Não conseguiam destravar as pernas dela e a cabeça dele (do filho) estava sendo espremida. Eu consegui debruçá-la para que o processo de parto fosse feito. A médica falou que foi ali que eu salvei mais uma vida, que foi a do meu sobrinho”, explica. 

Mesmo que o sonho de realizar partos tenha se transformado na realidade de apagar incêndios, é possível dizer que o codinome salva-vidas sempre esteve no DNA de Patrícia que, com apenas 16 anos de idade, socorreu por três vezes um garoto de apenas quatro anos, que morava na casa ao lado. A primeira vez foi quando seu vizinho caiu no topo do telhado da casa em que ela morava. A adolescente prestou os cuidados, porém, ao retirar o menino do telhando, ele teve uma convulsão seguida de parada cardiorrespiratória. “Posso dizer que foi Deus que me ensinou a como fazer massagem cardíaca”, comenta. 

“Alguns meses depois esse moleque estava sentado no meio da rua e um caminhão sem freio desceu a rua da minha casa. Não pensei nas consequências, simplesmente atravessei e joguei ele para o outro lado”, relata Patrícia, sobre o segundo salvamento à mesma criança. No terceiro episódio, ela conta que o mesmo menino estava convulsionando em casa, até que a mãe dele, já sabendo do histórico de salvamentos por parte da vizinha, bateu a sua porta desesperada e conseguiu novamente com que a futura bombeira salvasse seu filho.  

Patrícia diz que a principal inspiração para seguir no ofício que exerce partiu de seu falecido marido, que era bombeiro. Segundo ela, a morte do esposo a motivou em fazer o curso da profissão. Essa, porém, não foi a primeira relação afetiva dela. A bombeira conta que passou por uma relação abusiva em seu primeiro casamento, em que teve um filho, passando por agressões e ofensas pelo fato de ser mulher.  

“Casei com uma pessoa de um jeito e ao longo dos meses ele foi se tornando quem ele é, um cara machista ao último, de bater na minha cara na frente dos outros, de gritar comigo como eu não tinha direito a voz”, revela. Ela conta que durante essa relação ela era proibida de trabalhar ou ter amizades, e fugiu de casa com o filho após seguidos episódios. “Ali foi meu grito de guerra, quando eu decidi que eu não queria mais aquilo. Eu preferia morar num barraco de madeira que não tinha piso do que estar ali”, afirma. 

A maior dificuldade da carreira para uma mulher na função de bombeiro, segundo ela, foi lidar com o ambiente masculino em sua volta, passando por dificuldades estruturais que transmitem a mensagem de “você tem que se virar, a mulher que se vire”, como ela diz, ao explicar que já trabalhou em lugares sem local para se trocar ou um banheiro próprio para mulheres. 

“Você está no alojamento e os bombeiros olham para você perguntando ‘vai se trocar onde? Não tem lugar para você’, parece ser simples, mas não é, isso magoa, ver todos guardando suas roupas e você não ter esse direito mínimo”. Patrícia ainda afirma ter sido assediada moralmente e perseguida durante sete anos em um local em que trabalhou, tendo entrado com fama de “amante do gerente” por parte de outros funcionários que colocavam sua capacidade em xeque diante do fato de ser uma mulher exercendo aquela profissão.

“Acontecia de eu estar na minha sala fazendo o serviço e vir um segurança bem devagarzinho para ver se eu estava com um homem lá dentro”, relata. Segundo seu depoimento, acontecia de pessoas colocarem falsas evidências em seu carro para apontarem ela como amante de outro homem que teria lhe cedido o emprego. Nesse mesmo serviço, ela relembra de alguns outros episódios em que duvidaram de sua capacidade profissional em detrimento de gênero. Em um desses, ela teria alertado o chefe de manutenção do estabelecimento sobre uma árvore que estava prestes a cair, dizendo que era melhor arrancá-la antes que caísse e machucasse alguém.

“Eu escutei a seguinte frase: ‘Patrícia, eu vou pedir para um homem ir lá e ver o serviço, se ele falar que vai cair, daí a gente arranca’, não deu tempo de eu chegar na minha sala e a árvore caiu, graças a Deus não pegou ninguém”, comenta. “Ele podia dizer que ia pedir a um outro funcionário, que era um jeito dele não me ofender, mas enfatizava a palavra homem”, reitera. “Hoje eu não tolero muita coisa que eu tolerava, se uma pessoa falar para mim que vai pedir a opinião de um homem eu levo para a delegacia”, afirma. 

Por fim, ela comenta sobre o movimento feminista no país, elucidando que "tem que ser mais objetivo e sem se perder”, relatando que viu vários movimentos feministas perdendo o foco de sua pauta principal. “Se você se propôs por uma causa, vá até o fim, não importa quantos nãos vão te falar, mas vá em frente! O feminismo não é só para mulher”, opina.