Artista também é terceira mulher a vencer a categoria de Melhor Álbum de Rap no Grammy
por
Beatriz Alencar
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14/03/2025 - 12h

A cantora Doechii foi nomeada a Mulher do Ano de 2025 pela Billboard, com o anúncio feito nesta segunda-feira (10). Com o título, a artista norte-americana tornou-se a segunda rapper a ganhar a honraria no mundo da música, a primeira foi a Cardi B, premiada em 2020.

A revista da Billboard descreveu Doechii como uma das principais artistas da atualidade a “redefinir o que é ser uma precursora na indústria musical”. Ela será homenageada em um evento da Billboard no final deste mês.

Foto: Divulgação álbum “Alligator Nites Never Heal” | Reprodução: Redes sociais | Fotógrafo: John Jay

Foto: Divulgação álbum “Alligator Nites Never Heal” | Reprodução: Redes sociais | Fotógrafo: John Jay

A rapper, de apenas 26 anos, fortaleceu mais a carreira musical em 2024, com o lançamento do álbum “Alligator Bites Never Heal”, uma aposta de mistura entre os gêneros R & B e hip-hop. O mixtape foi indicado para três categorias do Grammy, entre eles o Melhor Álbum de Rap, marcando a primeira vez desse estilo de faixa feito por uma mulher a alcançar essa indicação.

Apesar disso, após a indicação de Melhor Álbum de Rap, Doechii foi convidada para fazer parte da faixa “Baloon” do álbum “Chromakopia”, do rapper Tyler, The Creator. A participação aumentou a visibilidade da artista que começou a fazer apresentações virais em festivais e em programas de rádio e televisão.

As composições de Doechii já viralizavam nas redes sociais desde 2020, com músicas como “What It Is” e "Yucky Blucky Fruitcake", mas as músicas não eram associadas com a imagem da artista. Foi somente após o espaço na mídia tradicional e o convite de Tyler que a rapper foi reconhecida.

Em fevereiro deste ano, Doechii se tornou a terceira mulher a vencer a categoria de Melhor Álbum de Rap no Grammy ao sair vitoriosa na edição de 2025, novamente, seguindo a história de Cardi B.

Foto: sessão de fotos para a revista The Cut - edição de fevereiro | Fotógrafo: Richie Shazam

Foto: sessão de fotos para a revista The Cut - edição de fevereiro | Fotógrafo: Richie Shazam

A apresentação da artista norte-americana na premiação, ocorrida no dia 2 de fevereiro, também foi classificada pela Billboard, como a melhor da noite. A versatilidade, modernidade e o fato de ser uma mulher preta na indústria da música, aparecem tanto nas faixas de Doechii quanto nas roupas e shows, fixando essas características como um dos pontos principais da identidade da artista.

A rapper tem planos de lançar o próximo álbum ainda em 2025, e definiu os últimos meses como um "florescer de um trabalho longo", em declaração a jornalistas na saída do Grammy.

Pesquisa do Datafolha evidencia a complexidade das percepções raciais no país
por
Letícia Alcântara
Sophia Razel
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03/12/2024 - 12h
Garotas negras em pé e sentadas em um corredor
Jovens reunidos em um espaço que reflete a diversidade  Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Na última terça-feira de novembro (25), uma pesquisa conduzida pelo Instituto DataFolha e divulgada na mesma semana revelou dados significativos sobre a percepção racial no Brasil. O levantamento mostrou que 6 em cada 10 pessoas que se autodeclaram pardas não se consideram negras, evidenciando uma desconexão entre a autodeclaração oficial e a forma como essas pessoas percebem sua identidade racial. Por outro lado, entre os brasileiros que se identificam como pretos, 96% se reconhecem como negros, enquanto 4% não compartilham dessa visão.

Em relação a preconceito e racismo, a mesma pesquisa revelou que 59% dos brasileiros consideram que a maioria da população é racista, 30% considera que apenas uma minoria, 5% que toda a população seria, 4% que ninguém seria, enquanto 2% não souberam responder. Entre os gêneros, 74% das mulheres  acreditam que todos ou a maioria dos brasileiros são racistas. Por sua vez, entre os homens, esse percentual cai para 45%.

 

Percepção e Vivências do Racismo no Brasil

Ainda sobre a percepção referente ao racismo no Brasil, para 45% da população o racismo aumentou ao longo dos anos, enquanto 35% acreditam que o cenário  permanece o mesmo. Apenas 20% dos entrevistados enxergam uma redução nos casos de discriminação.

Quando perguntados em relação ao contexto onde o racismo está mais presente, a maioria dos brasileiros, 56%, aponta que as atitudes das pessoas são a principal manifestação do problema. Outros 27% acreditam que ele está mais evidente nas estruturas institucionais, como empresas e governos, enquanto 13% consideram que o racismo está igualmente distribuído entre comportamentos individuais e sistemas institucionais. Por fim, 4% dos participantes não souberam opinar sobre a questão.

A pesquisa também abordou vivências individuais de discriminação. Entre os entrevistados que se identificam como pretos, 56% relataram já ter sofrido preconceito relacionado à cor da pele. Esse percentual é significativamente maior entre os pardos, dos quais 17% relataram ter enfrentado situações semelhantes. Já entre os brancos, o índice cai para 7%.

Realizado em 113 municípios brasileiros, o estudo contou com a participação de aproximadamente 2.004 pessoas e buscou compreender as nuances entre autodeclaração racial e identidade, além de explorar como os brasileiros enxergam o racismo na sociedade. O objetivo do levantamento é fomentar debates mais aprofundados sobre a questão racial no país. 

Homenagens a figuras importantes buscam eternizar legados, mas memórias ainda enfrentam apagamento e negligência
por
Majoí Costa
Nicole Conchon
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22/11/2024 - 12h

 

As ruas, avenidas e praças que cruzamos diariamente não são apenas caminhos, mas também registros históricos. Seus nomes, frequentemente memorando políticos, militares, religiosos ou escritores, carregam a tentativa de manter viva a memória de pessoas importantes. O que poucas pessoas sabem é que as principais ruas da cidade carregam nomes de famílias negras que ajudaram a moldar a história de São Paulo e do Brasil como um todo. 

 

Avenida Rebouças, nome em homenagem à família negra de prestígio / Foto: Mariana Orsi
Avenida Rebouças, nome em homenagem à família negra de prestígio / Foto: Mariana Orsi

Historicamente, figuras negras de renome sofreram um processo de embranquecimento a fim de tentar esconder ao máximo sua conexão com a negritude. Quando essa estratégia não funciona, o apagamento entra. Por conta disso, essas homenagens nem sempre têm a visibilidade ou o reconhecimento merecidos. Portanto, relembrar essas histórias é um convite à memória, resistência e celebração das contribuições históricas de figuras negras que ajudaram a moldar o país.

Confira as principais ruas com nomes de pessoas negras na cidade e onde se localizam:

Rua Luiz Gama (Cambuci)

Luiz Gama foi um intelectual negro do século 19, jornalista e advogado autodidata. Ele conquistou sua própria liberdade e dedicou sua vida à defesa do fim da escravidão. Sua atuação foi essencial para libertar centenas de escravizados por vias legais.

Rua Cruz e Souza (Aclimação)

Inaugurada em 1936, essa rua homenageia o poeta Cruz e Souza, também chamado de Cisne Negro, por criar o movimento simbolista no Brasil do século XIX que que buscava expressar emoções e ideias abstratas por meio de imagens sugestivas e místicas. Filho de pessoas escravizadas, o autor deixou sua marca na literatura brasileira ao lançar obras que desafiaram as convenções de sua época.

Avenida Rebouças (Zona oeste)

O nome homenageia uma família negra de prestígio no século 19. O patriarca, Antônio Pereira Rebouças, foi conselheiro de Dom Pedro II. Seus filhos, André e Antônio Rebouças, se destacaram como engenheiros responsáveis por grandes obras de infraestrutura no país. Seus principais trabalhos foram o novo plano de abastecimento de água do Rio de Janeiro após a seca em 1870 e a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá que liga a capital paranaense ao porto de Paranaguá.

Rua Teodoro Sampaio (Pinheiros)

Teodoro Sampaio foi engenheiro, geógrafo e historiador. Suas contribuições no mapeamento e na construção de obras públicas ajudaram a moldar o território brasileiro.

Avenida Mário de Andrade (Barra Funda)

Inaugurada em 1978, a avenida homenageia o poeta e escritor Mário de Andrade, figura central do modernismo brasileiro e defensor da diversidade cultural e racial do país.

Rua Machado de Assis (Vila Mariana)

Desde 1912, essa rua leva o nome de Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros. Fundador da Academia Brasileira de Letras, ele foi pioneiro ao explorar temas raciais, sociais e psicológicos em suas obras.

 

Entretanto, esses nomes ainda são exceções em uma cidade onde a maioria das homenagens em ruas é destinada a pessoas brancas. Pressionar por mais representatividade nas nomenclaturas urbanas é uma maneira de manter viva a memória de heróis negros e negras, ampliando sua visibilidade e reconhecimento. 

Recentemente, debates sobre questões raciais no espaço público ganharam força, como a polêmica envolvendo as luminárias do bairro da Liberdade, reacendendo discussões sobre a valorização da história afro-brasileira.

Bairro da liberdade em 1998
Bairro da liberdade em 1998 / Foto: Greg Salibian 

A identidade do bairro foi moldada, com forte ênfase na cultura japonesa desde os anos 1970, enquanto sua história negra foi sendo aos poucos ofuscada. O bairro, que já abrigou uma significativa população negra e foi palco de importantes eventos históricos, como por exemplo execuções públicas de escravizados, viu sua memória alterada pela instalação dessas luminárias e apagamento de símbolos de herança afro-brasileira. O debate recente destaca a necessidade de valorizar e lembrar essa parte da história, ao invés de apagá-la ou tentar escondê-la com outras questões.​

Homenagens como essas dadas a pessoas negras em vias e ruas importantes da cidade ajudam a construir uma metrópole mais inclusiva e consciente de sua diversidade histórica.

Torcedores do Valencia são condenados a oito meses de prisão por conta dos ataques racistas contra o jogador.
por
Julia Sena
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01/07/2024 - 12h

 

Atuando pelo Real Madrid e pela Seleção Brasileira, Vinicius Jr. é um exemplo de excelência dentro e fora de campo. O “Caso Vinicius Jr.” ganhou ainda mais destaque no mês de junho devido a condenação de três torcedores do Valencia por ataques racistas cometidos durante uma partida em maio de 2023 no estádio Mestalla. 

Vini Jr. está com um dos braços levantados e punho cerrado em gesto de resistência, a torcida encontra-se atrás em desfoque e um jogador do time adversário tembém em desfoque mais a frente.
Em reencontro com a torcida do Valencia, Vini Jr. comemora gol com gesto de resistência. Foto: Jose Jordan/AFP

 

No dia 21 daquele ano, acontecia a partida que foi o estopim para a mudança de posicionamento da Justiça Espanhola, quando o Valencia enfrentava o Real Madrid pela 35º rodada do Campeonato Espanhol. Durante uma confusão após falta marcada em cima do então camisa 20 do Real, torcedores do time adversário começaram a proferir diversos ataques racistas contra o brasileiro, incluindo gestos e gritos de “mono”  - que se traduz “macaco” em espanhol. Ainda que apontados imediatamente por Vini assim que percebidos, a partida seguiu. 

Após mais de um ano do ocorrido, três torcedores do Valencia foram condenados a oito meses de prisão, além de terem de arcar com multas e estarem impedidos de entrar em estádios de futebol por dois anos. É a primeira condenação desse tipo por parte da Justiça Espanhola. Em suas redes sociais, Vini comenta o caso, comemorando a decisão e salientando a importância de continuar denunciando atos racistas. 

Os ataques contra o jogador existem mesmo antes da sua saída do Flamengo, clube que o revelou, mas foi na Espanha que os insultos se intensificaram. 

O primeiro caso a ser noticiado ocorreu em 2021 em uma partida contra o Barcelona no estádio Camp Nou. Torcedores que não foram identificados também gritaram “macaco” em direção ao jogador. Depois desse ocorrido, a onda de ódio contra Vini nas partidas e fora delas foi crescendo cada vez mais, o arquivamento do caso serviu como uma forma de estímulo a essas práticas, já que os envolvidos acabaram isentos de punição.

 

Após diversos episódios criminosos, pode se constatar que não é de hoje que Vinícius vem se demonstrando um grande agente de mudança na luta anti racista mesmo fora das quatro linhas. Alguns dias depois do anúncio da prisão dos três torcedores, o  Projeto de lei “Vini Jr.” proposto pela deputada Luciana Genro (PSOL) foi aprovado por unanimidade pela Assembleia Legislativa do Rio Grande Do Sul, a fim de combater o racismo nos estádios. 

 

O projeto prevê que a partida seja interrompida até que os atos suspeitos sejam descontinuados. Caso isso não aconteça, os atletas devem se retirar do campo por dez minutos. Por fim, se a situação não for resolvida, a partida deverá ser encerrada. Já no caso dos ataques acontecerem antes do apito inicial, o jogo pode ser cancelado pelo árbitro a depender da gravidade do caso. 

Vinicius Jr. com um sorriso no rosto ergue a taça da Champions League 2024
Vini Jr. ergue a taça da Champions League 2024, da qual foi eleito pela UEFA o melhor em campo. Foto: Glyn Kirk/AFP

Em entrevista à AGEMT, o estudante Tiago Nascimento, 20, relata a importância de Vini para a comunidade negra. “Há muito tempo não se via um jogador ter tanto impacto fora de campo. Para mim é importante ter um representante do que eu e minha família vivemos diariamente e o Vinicius faz isso com excelência.”  

 

Tiago ainda destaca a importância desse tipo de representatividade dentro do futebol, já que o esporte possui um enorme alcance e está enraizado na cultura brasileira. “Todo mundo consome futebol no Brasil, mesmo que indiretamente, tudo o que acontece possui impacto, então é muito interessante esse fator político e social que podemos observar acontecendo”, declara o estudante.  

 

Vinicius Jr - em suas próprias palavras um algoz de racistas, foi duas vezes campeão da Champions League e é favorito à Bola de Ouro 2024. Como se não bastasse, luta por uma causa que vai além do futebol, vindo de um país que tem o esporte em questão amplamente difundido. Vini motiva e enche de esperança milhares de crianças que têm o sonho de ser jogador de futebol, mostrando que independente de onde vieram ou de sua cor, tudo é possível. 

 

Conhecido pela estética e cultura oriental, o bairro renomeado em 2023 para Liberdade África-Japão carrega história ainda desconhecida
por
Vinícus Evangelista
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08/05/2024 - 12h

Famoso por suas icônicas luminárias japonesas e por abrigar a maior comunidade asiática do Brasil, o bairro da Liberdade, em São Paulo, atrai cerca de 20 mil visitantes todos os fins de semana, conforme dados da APECC (Associação Paulista dos Empreendedores do Circuito das Compras). Muitos, cativados pela culinária, produtos e atmosfera oriental que permeia as ruas, desconhecem a origem negra do bairro e pouco têm acesso a essa história quando caminham sob a região próxima ao centro da cidade.

 

Foto 1
Os dias mais movimentados do bairro são sábado e domingo, quando acontece a "Feira de Arte, Artesanato e Cultura da Praça da Liberdade", popularmente conhecida como "feirinha da Liberdade", criada em 1975, que percorre toda a rua Galvão Bueno. Foto: Vinícius Evangelista.
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A estética do bairro tal qual conhecemos hoje começou a se moldar em 1970, quando foram instaladas as primeiras famosas lanternas japonesas. Foto: Vinícius Evangelista

 

Foto 2
Em meio ao movimento da feira na atual Praça da Sé, antes Largo da Forca, está a "igreja de Santa Cruz das Almas dos Enforcados", fundada em 1891, no local onde antes se erguia uma cruz em memória das execuções de Joaquim José Cotindiba e Francisco José das Chagas, militares negros condenados a enforcamento por liderarem um motim que exigia, durante o governo Imperial, igualdade salarial entre soldados brasileiros e portugueses, além do pagamento atrasos remuneratórios. Joaquim foi morto, porém Francisco, conhecido como Chaguinhas. sobreviveu por três vezes à forca e foi morto a paulada. A cruz e a mesa com velas postas no local, foram sendo deslocadas conforme a região foi sendo habitada, até parar onde hoje está a igreja. Foto: Vinícius Evangelista.
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Foto 3
Antes de ser considerado centro, na então Vila de São Paulo, o bairro era denominado de "bairro da pólvora", uma simples periferia afastada o suficiente para ser construída ali, num dos largos, em 1754, a "Casa da Pólvora", um depósito de explosivos projetado para minimizar danos em caso de acidentes. Apesar da demolição do armazém, o local manteve o mesmo nome e foi transformado em um jardim oriental. Foto: Vinícius Evangelista.
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Monumento instalado, em 2018, rememorando os então 110 anos da imigração japonesa ao bairro e saudando a neta mais velha do então imperador japonês, Akihito, "sua alteza imperial Princesa Mako", que em 2021 abriu mão de seu título real para se casar com um plebeu e ir morar em Nova York. Foto: Vinícius Evangelista.

 

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No jardim, rodeado por bustos, estátuas e monumentos que contam a história da ocupação asiática no bairro, esta é a única placa que rememora o que era o largo antes da imigração. Foto: Vinícius Evangelista
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Antes chamado de "Largo do Pelourinho", o Largo de 7 Setembro foi renomeado em 1865, até quando havia um pelourinho no local, um poste de madeira para açoitamento público de escravizados, previstos no “Código Criminal do Império” de 1830, e na famigerada “Lei da Morte” de 1835. Os escravizados condenados a morte eram açoitados no pelourinho e iam caminhando até o Largo da Forca para a execussão. Foto: Vinícius Evangelista.
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Foi apenas em 2019 que uma pequena placa foi instalada na região memorando o fato. Foto: Vinícius Evangelista
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Apesar das poucas lembranças institucionais, os grafites e expressões populares tratam de lembrar a história de Chaguinhas e a resistência negra, em meio aos vislumbres da estética japonesa que compõe o bairro. Foto: Vinícius Evangelista.

 

Promovida pela prefeitura de São Paulo, o encontro aconteceu no museu das Favelas e teve a intenção de promover um pensamento crítico sobre a história da população negra.
por
Beatriz Brascioli
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27/05/2023 - 12h

Uma palestra sobre a abolição da escravatura no Brasil aconteceu no último dia 17, na capital de São Paulo. O evento realizado pela prefeitura, teve a presença de professores e especialistas para a reflexão sobre a população negra no Brasil. Segundo o poder público, um documento chamado ‘orientações pedagógicas: educação antirracista - povos afro-brasileiros’ será criado com a ajuda dos educadores 

O "Farol de combate ao racismo estrutural” é uma política pública realizada em parceria com a Secretaria Municipal de Relações Internacionais (SMRI) e a Secretaria Municipal de Educação (SME). Tem como objetivo conscientizar as futuras gerações, a partir da educação, e combater o racismo estrutural.
 

"[O evento] é uma maneira de mostrar à população que é necessário ensinar a história verdadeira e fazer com que todos reflitam e entendam a importância de programas em prol do tema”, diz Marta Suplicy.

 

ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO

Dia 13 de maio foi assinada pela princesa Isabel a Lei Áurea , na qual determinava a abolição da escravidão, resultado de uma grande luta dos escravos e movimentos abolicionistas da época. Porém, com a libertação dos escravos não foram criadas  políticas públicas para a reintegração da população negra na sociedade brasileira, causando hoje o racismo estrutural.

A abolição foi um processo lento e de muita luta pelo território brasileiro. Muitos nomes não foram devidamente homenageados e sua história esquecida, como Luís Gama, José do Patrocínio, André Rebouças e alguns líderes de movimentos separatistas abolicionistas que é o caso da Conjuração Baiana.  

QUEM SÃO OS HERÓIS?

 

Luís Gama: jornalista e advogado, usou de seus conhecimentos para libertar mais de 500 escravos, além de denunciar atos racistas. Filho de mão preta e pai branco, foi vendido pelo pai quando tinha 10 anos por dívidas. Quando chegou em São Paulo, aprendeu a ler e fugiu da escravidão em busca de reconquistar sua liberdade. Como jornalista, escreveu sobre o fim da escravidão e criticava a aristocracia do Império.

foto: reprodução

André Rebouças: Se formou como engenheiro militar e em 1861 recebeu uma oportunidade de estudar na Europa para se aprofundar em engenharia civil. Com esse conhecimento adquirido, André propõe soluções para a cidade do Rio de Janeiro, como por exemplo uma rede de abastecimento de água para a cidade.

André sofreu com discriminação racial e sempre se posicionou a favor da abolição. Se juntou com Luis Gama em manifestações contra a escravidão, mas sua participação era apenas na organização e administração dos fundos.  Rebouças se preocupou com o destino dos pretos após a abolição, para ele era necessário um projeto de inserção deles na sociedade brasileira. 

André Rebouças | Unifei

foto: reprodução

José do Patrocínio: jornalista e escritor, Patrocínio fez-se presente no movimento abolicionista. 

José do Patrocínio – Wikipédia, a enciclopédia livre

foto: reprodução 

Movimentos Abolicionistas: Cipriano Barata, médico, João Ladislau de Figueiredo, farmacêutico, e Francisco Gomes, professor. Os três revolucionários lideraram a conjuração baiana que foi um movimento abolicionista, com objetivo de separar a Bahia de Portugal e atender às reivindicações das camadas mais pobres. Diferentemente da inconfidência mineira, na qual alguns líderes foram exilados pela coroa, na conjuração baiana, os líderes foram condenados a enforcamento público, e não viraram ‘mito’ ou herói como Tiradentes virou. 

Conjuração Baiana (1798) - Toda Matéria

foto: reprodução

 

No Pátio da Cruz, Coletivo Saravá discute negritude e sua ausência no espaço acadêmico da PUC-SP.
por
João Curi
Nanda Querne
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19/03/2023 - 12h
Integrantes do coletivo Saravá reunidos em frente à cruz, no Pátio da Cruz, no campus Monte Alegre da PUC-SP.
(Foto: Nanda Querne)

 

ÀS 11H30, SARAVÁ

Enquanto uns enrolavam até o almoço e jogavam conversa fora, outros discutiam sobre o racismo. Mas quem são os outros? A conversa começa na presença. Quem se reuniu no Pátio da Cruz na manhã e noite desta quinta-feira, 16, tinha história para contar na primeira pessoa, sabendo que não seria a última.

 

Cartazes de manifestação do coletivo Saravá questionando a ausência de docentes negros na PUC-SP.
Manifestação do coletivo Saravá durante o evento PUC Pela Democracia, sediado no Teatro Tuca, no dia 24 de outubro de 2022 (Reprodução/Roger Barbosa/@coletivosaravá)

As expectativas eram maiores do que o corpo presente. Que fossem cem em vez dos oito que se dispuseram a discutir, dividir, enxergar uns aos outros como iguais, qualquer interação já soma. Se parece pouco, é porque não se compara às salas de aula. “Quantos [pretos] tinham na nossa turma, amigo? Duas, três pessoas?”. 

 

O Coletivo Saravá age nas sombras procurando o sol. A primeira reunião serviu assuntos que a espontaneidade do encontro marcado trouxe à tona, e que os membros sentem na pele: o racismo. É inevitável. Mais do que na sociedade, que é maior do que os portões do campus podem guardar, esse tema estava estampado na razão de cada um estar ali, à sombra da cruz. “Tem professor negro no curso de vocês? Eu nunca vi nenhum”. Lembraram alguns nomes, que não cobrem sequer os dedos da mão.

 

As oito vozes ali reunidas ressoavam como uma. Queixavam-se do mesmo descaso, dos mesmos olhares, da mesma impotência. Estavam perdidos. Nas últimas semanas, foram procurados por supostas vítimas que buscavam justiça e que só encontraram ouvidos porque “não tem o que fazer”. 

 

E os militantes se sentiram impotentes. Levantaram bandeiras, planos, fúrias, tudo para quê? Nada seria suficiente, e o sabiam. Eram minoria, até mesmo no pátio. Estavam cercados de mesas e corredores ocupados por quem não se interessou em saber o que estava acontecendo nos degraus à beira da cruz. A simbologia do lugar pode ser obra da coincidência, mas foi redentora desta edição do Papo Preto.

 

À luz do Pai, somos todos iguais. Mas e quanto aos filhos?

 

ÀS 17H00, ONDE ESTÃO OS BRANCOS? 

Ao lado do coletivo em discussão, outros estudantes conversam sobre outros assuntos, sem interesse na conversa de temas raciais.
Integrantes do coletivo Saravá batendo um Papo Preto, próximo de outros estudantes, no centro do Pátio da Cruz. (Foto: Nanda Querne)

"Gente, essas outras pessoas. Elas estão…de boas?", indagou Dandara (nome fictício). Os alunos ali em volta - que não eram negros, aliás - agiram com indiferença perante o Papo Preto. Talvez por desconhecerem o Saravá e/ou por simplesmente não se importarem. 

 

É fruto do privilégio da branquitude não apoiar ou procurar medidas educacionais afirmativas ao seu redor, pois essas são refutadas como suas prioridades. “O racismo é uma problemática branca”, como provoca a portuguesa Grada Kilomba. Mas o conformismo dos brancos em relação às pautas antirracistas é ainda naturalizado, o que dificulta uma branquitude crítica - aqueles que condenam o racismo ativamente, abrindo mão de seus privilégios. 


Mas onde estão esses puquianos? Bom, os pretinhos da Pontifícia de cada sala, quiçá do curso, são contados nos dedos de uma só mão. Já os alunos brancos são a grande maioria, tanto pelos corredores do prédio velho quanto do novo. Há brancos o suficiente para edificarem a luta antirracista junto com o Saravá - logo, não existe desculpinha. Afinal, não são as vítimas que devem mudar seu comportamento, mas os réus.

 

Nesse âmbito, não cabe o receio com o "lugar de fala”, ainda que, obviamente, nunca compartilharão das vivências de um negro. Portanto, um dos seus papéis é reconhecer as vantagens provenientes da (ausência de) opressão. Como defende a ex-professora da PUC Djamila Ribeiro: "Uma pessoa branca deve pensar seu lugar de modo que entenda os privilégios que acompanham a sua cor".

 

ÀS 18H00, UM PRETO SALVA OS OUTROS 

Coletivo Saravá conversando no Pátio da Cruz, na PUC-SP, durante a reunião da noite.
O coletivo se reuniu também durante à noite, com maior adesão comparado ao período da manhã. (Foto: Nanda Querne)

 

"Eu tava faltando muito. Entrei no surto do curso e faltei. Quando chegou a segunda semana do último semestre, voltei para frequentar a faculdade”, desabafou Anielle (nome fictício), uma futura diplomata, sobre a ausência de diversidade no curso de Relações Internacionais, até que ela encontrou uma igual. “Nos conhecemos e viramos amigas porque olhamos: uma preta, outra preta". Com uma mistura de alívio e salvação, encontrar mais pretos em uma faculdade privada com a maioria branca é um colírio para os olhos.

 

É perceptível nesses vinte anos de exercício das cotas raciais que as faculdades escureceram. Aliás, o black power reinou nas instituições públicas. Contudo, os bolsistas pretos nas particulares lidam com as dificuldades econômicas e raciais. Segundo um formulário respondido pelos integrantes do coletivo no final de 2022, mais da metade dos pretos bolsistas não se sentem representados de jeito nenhum. Chica (nome fictício), aluna pelo programa filantrópico da Fundação São Paulo (FUNDASP), apontou que o bandejão, que estava fechado no começo do ano passado, é uma das únicas iniciativas em prol dos bolsistas. Já Viola (nome fictício), ingressante pelo Programa Universidade Para Todos (Prouni), relembrou benefícios que hoje não passam de uma memória veterana. “Não tenho o que reclamar, a comida é ótima”, comenta. “Porém, antes davam apoio com xerox, agora não”. 
 

Através da pesquisa, estima-se que as pretas puquianas que sentem, com certeza, a solidão da mulher negra somam mais de 70%. Esse sentimento é derivado das situações que as colocaram em segundo plano. Chica enfatiza como o tratamento dos garotos com ela é diferente em comparação às meninas brancas: “Não me chamam para encontro, cinema ou até pra ir na casa deles. Normalmente, ficam comigo nas festas, sem compromisso”. Viola, por sua vez, abordou as impressões de ser uma mulher gorda e preta: “Não me sinto bonita o suficiente. Para mim, ir em festas da PUC, só se for para beber. Se for para conhecer pessoas, no quesito sentimental, nem rola”. 

 

[Confira a pesquisa na íntegra sobre o cenário da comunidade negra na PUC-SP]

  

ÀS 19H00, VAI PELA SOMBRA 

Coletivo Saravá conversando no Pátio da Cruz, na PUC-SP, à sombra do meio-dia.
Início do Papo Preto, no período da manhã, à sombra do meio-dia. (Foto: Ana Beatriz Assis)

 

Não grita. Não corre. Não abre os braços. Não mexe muito nos bolsos. Carrega sempre a identidade, a carteira de trabalho. Não dá motivo para eles. Não reclama, não responde, não reage. Na dúvida, não faça. É perigoso ter coragem quando o medo deles comanda as grades. Você não quer ver a mãe chorando na televisão. 

 

Escuta, engole em seco, segue a vida. Agradece, para garantir. Eles guardam com facilidade o teu rosto - qualquer dúvida morre na cor. Escolha com cuidado as palavras. As pessoas aqui são poderosas. Quem é minoria não pode se dar o luxo de esperar a boa vontade da maioria, e o contrário é irrelevante. Enquanto só os poucos se incomodam, a indiferença dos muitos já os configura cúmplices.

 

Diante de tudo isso, é preciso aquilombar. Buscar os seus, que nunca mais serão deles. Encontrar na luta e na dor do outro a razão para continuar firme onde está. Na soma, encontra-se o sustento de uma reivindicação que vai além da Consciência Negra, que busca no coletivo o que o indivíduo não conquista sozinho. 

 

Enquanto ecoarem os açoites do chicote colonial, que sejam mais altas as vozes da indignação e da reparação. Enquanto existir PUC-SP, que resistam e existam os pretos de sua história. Que gritem, sem medo, aos quatro cantos: Saravá!

De grandes personalidades na história do país à experiência contemporânea de nascer em dois mundos segregados de raça e de gênero
por
João Curi
Marcelo Zanardo Penna
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29/10/2022 - 12h
Obra da série "As filhas de Eva", da artista visual Rosana Paulino.
(Foto: Reprodução/Galeria de Rosana Paulino)

Ao longo da história do Brasil, é inegável a importância das mulheres negras na luta por uma sociedade mais igualitária, ainda que essas presenças passem despercebidas pelo povo brasileiro. Grandes personagens como Dandara, que foi líder do grupo feminino do exército de Palmares e um dos maiores nomes do país na luta contra a escravidão, detêm uma a duas páginas nos livros didáticos, enquanto os colonizadores ocupam a maior parte do conteúdo.

No âmbito da literatura, Maria Firmina dos Reis foi a primeira romancista brasileira a ter sua obra publicada em território nacional. Além disso, foi a primeira mulher aprovada em um concurso público no Maranhão, e fundou a primeira escola pública mista na região. 

Nas telonas, Ruth de Souza foi a primeira indicação brasileira ao prêmio de melhor atriz em um festival internacional de cinema, o Leão de Ouro, em 1954, por sua atuação no filme “Sinhá Moça”. Ruth também foi a primeira mulher negra a atuar no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.  

Yvonne da Silva Lara, também conhecida como Dona Ivone Lara, foi a primeira mulher a compor um enredo de escola de samba: “Os Cincos Bailes Tradicionais da História do Rio”, em 1965, apresentado pela escola Império Serrano. Formada em Enfermagem e Serviço Social, ela se especializou em terapia ocupacional e atuou em conjunto com a médica psiquiátrica Nise da Silveira no Serviço Nacional de Doenças Mentais. Dona Ivone Lara se destacou ao compor sambas, assinando como um de seus primos, uma vez que as obras produzidas pelos homens tinham mais chances de serem aceitas e reconhecidas na época. A sambista escreveu sucessos como “Sonho Meu” e “Alguém Me Avisou”, regravados por grandes nomes da MPB.

Não à toa, a tradicional escola Estação Primeira de Mangueira foi consagrada campeã do carnaval carioca, em 2019, com um samba-enredo que bradava “Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”. Durante o desfile, a Marquês de Sapucaí foi palco da “história que a história não conta”, preenchendo a avenida com as passagens de Dandara, Luiza Mahin e demais personalidades tão relevantes e pouco abordadas nos livros.

Nesse caminho, é necessário compreender os desafios sociais que permeiam a vida de mulheres negras desde a sua ancestralidade, principalmente no Brasil.

Retrato da educadora e escritora Beta Ferreira
Beta Ferreira (Reprodução/Acervo pessoal)

Beta Ferreira é educadora social e empresarial, fundadora do projeto “Uma Deusa Africana” e coautora da antologia “As Áfricas dentro de mim”, lançada este ano na modalidade presencial. “A gente já tem essa questão de não saber de qual país africano vem a nossa família”, compartilha. “Todas as pessoas afrodescendentes têm isso como interrogação, e só conseguem tirar essa dúvida fazendo aqueles testes de DNA supercaros, então quem é de classe social mais baixa não consegue”.

A educadora ainda relata sobre sua busca pela ancestralidade, que se concretizou no ano passado, enquanto morava em Salvador. Sua mãe perdeu os pais ainda muito nova e teve que morar em um orfanato, onde se distanciou de suas raízes baianas. Após pesquisar documentos e endereço, Beta foi a primeira de sua família paulista a visitar a cidade de origem de seus avós, no sertão baiano. “Eu queria muito saber de onde eles vieram, queria muito ouvir o sotaque dos meus avós de alguma forma, saber o que eles faziam”.

 

Retrato da estudante Mare Baptista
Mare Baptista (Reprodução/Acervo pessoal)

 

Por outro lado, Mare Baptista, estudante de Moda e integrante da comunidade “Black in Business” da Ascential pela WGSN, relata que buscou saber mais sobre sua ancestralidade já no período da escola, quando estudava em colégio particular. “A maioria dos meus amigos, majoritariamente brancos, sabiam a nacionalidade de suas descendências e, quando me perguntavam, eu não sabia o que dizer”, expõe. “Então eu perguntei para a minha mãe, que sabia responder com mais precisão porque minha avó é branca”.

Mare relembra o período de seu ensino médio, quando começou a sair mais e viveu, na pele, os reflexos da segregação racial. “Quando eu ia para as festas, os meninos que eu queria beijar preferiam minhas amigas brancas”, desabafa. “Chegou ao ponto em que um menino falou que só me beijaria se minha amiga – branca - beijasse ele primeiro, e foi nesse momento que caiu a ficha”.

Em razão da recorrência dessa prática, a estudante percebia que não era tratada, tampouco enxergada, da mesma forma que suas amigas brancas. Desse modo, conversando com uma amiga de descendência asiática, que também passava pela mesma situação, as duas uniram forças para entender o que estava acontecendo. “Foi quando descobri que existe a solidão da mulher negra, o que ela é e que eu passei por isso a maior parte da minha vida”.

Dentro disso, Beta denota a importância de aquilombar ao se reconhecer na sociedade enquanto mulher preta. “Quando você tira os filtros [coloniais] dos olhos, você enxerga com mais clareza e com mais dor, mas também é mais resistência, mais vontade de lutar e até mais vontade de desistir porque a luta cansa”, explica. “Você vai entendendo que só os nossos - as pessoas que também vivem isso - vão entender essa dor, então é importante aquilombar para também se fortalecer porque você vai ter mais vontade de lutar com os seus”.

Nesse sentido, a educadora compartilha sua experiência de levantar provocações aos seus alunos, adaptando os exercícios de reflexão às faixas etárias de suas turmas. Com as crianças, por exemplo, Beta questionava a partir da pintura, começando pelos lápis de cor atribuídos à “cor-de-pele”. Já com o público adolescente, ela incentiva a quebra de barreiras, a ir além dos muros sociais, a reconhecer os espaços que podem ocupar, além dos que lhes foram apresentados. “Como educadora, essa é a missão: abrir os olhos desses educandos, fortalecendo a autoestima, o autoconhecimento e o reconhecimento no mundo”, reforça.

Para além da educação, as artes também atuam em apoio a essas reflexões, não somente pela ancestralidade, como pela identificação com as letras. Por influência da família, Beta foi naturalmente se aproximando da MPB e do samba-rock, crescendo com esse fortalecimento de sua cultura através da música. “Querendo ou não, mesmo que não saibam, as pessoas estão cantando um pouco da nossa história”, aponta. “A minha escuta, meu olhar e a forma como vejo o mundo mudaram depois que eu comecei a desconstruir esse olhar do racismo estrutural que foi imposto para mim”.

No âmbito da grande mídia, em menção à literatura e ao cinema, Mare discorre sobre uma representação romantizada da cultura afrodescendente, que muitas vezes não mostra toda a violência que as pessoas negras sofrem no Brasil. Ela cita o longa-metragem distópico “Medida Provisória” (2020), de Lázaro Ramos, como o marco inicial de uma onda de produções visuais que possam retratar o que a comunidade negra reivindica. “Os livros e filmes que realmente contam a história da cultura negra só são consumidos pelos negros”, defende a estudante. “Acredito que agora o mercado e a mídia entenderam o que os pretos querem que seja mostrado quando pedem representatividade”.

Mare ainda destaca a artista visual Rosana Paulino como uma de suas maiores referências culturais desde que conheceu a série de obras “As filhas de Eva” (2014), que reforça a imagética de que as mulheres pretas também são filhas de Eva. “Todas as obras [da série] têm uma sombra preta, que é a sombra da mulher tentando se encaixar na sociedade”, analisa a estudante.

A representação nas páginas e nas telas acende a identidade de mulheres negras, principalmente jovens, que começam a se enxergar em suas semelhantes e compreender o que o espelho insiste em refletir. Com o avanço, a passos de formiga, das lutas raciais, a transição capilar se torna um processo mais viável e acessível, ao passo que reacende as raízes e incentiva o mercado a fomentar essas mudanças. “Hoje em dia, tem prateleiras só para cachos e cabelos crespos”, aponta Beta. “Na época da minha mãe e das minhas tias, era só um ou dois tipos de creme, e aí alisavam porque não sabiam o que fazer com o cabelo”.

Por outro lado, essa exposição de um corpo retratado às vontades dos opressores pode aprofundar também as raízes do preconceito, que se sustentam por meio de estereótipos caricatos e da hipersexualização. “Só por ser negra eu automaticamente tenho que ter uma bunda grande, peito grande e uma personalidade que foi criada na grande mídia: a negra cômica, a negra barraqueira, a mãe que não é tão amorosa com os filhos e está sempre gritando”, ressalta Mare.

Não obstante, a opressão também se manifesta redutora nas relações de trabalho, seja de forma velada ou não. Quando Mare se inseriu no mercado de trabalho, foi estagiária de uma pequena empresa, em que trabalhava com colegas de trinta a cinquenta anos mais velhos. “Se apenas ser mulher no Brasil já é difícil, ser mulher negra é três vezes pior porque as pessoas vão te diminuir cada vez mais”, afirma. “Eu era estagiária de e-commerce em uma loja de roupas de luxo e fazia feira para a minha chefe. Eu ia na feira de rua, comprava melancia e tudo mais que ela pedisse, e deixava na casa dela”.

Para Beta, desde criança, o reconhecimento do espaço social que ocupava nestes dois mundos – dos brancos e dos não-brancos – foi esclarecido já no começo de sua criação e se estende até hoje. “Minha mãe não é uma militante extrema, mas ela sempre criou uma filha preta. Criar uma filha preta é conscientizá-la”.

A fundadora do projeto “Uma Deusa Africana” ainda planta uma mensagem às meninas pretas que estão no começo de sua transição capilar, e no início dessa jornada de autoconhecimento e reconhecimento: “É um processo individual. Tem o tempo da pessoa para ela se reconhecer. Mais do que falar, eu daria um abraço e mostraria que tem um quilombo esperando por ela”.

O cenário da comunidade negra na PUC-SP
por
Fernanda Querne
|
29/10/2022 - 12h

 

 

Pelos corredores da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), poucas pessoas andam com suas tranças nagôs. Na nécessaire básica da típica puquiana, não há um pente garfo para o seu crespo. Nem uma esponja nudred para texturizar o seu “short afro”. Tanto que, muitos leitores estão se sentindo perdidos com essas referências da comunidade negra - como se não fossem deste mundo. Esse é o sentimento dos estudantes pretos em ambientes majoritariamente brancos - não pertencimento. 

 

Há uma ausência em relação aos dados oficiais sobre como os negros se sentem na PUC-SP e até sobre a quantidade deles, bolsistas ou pagantes, em certos cursos. Para tentar saber mais sobre esses estudantes, a reportagem criou um formulário de preenchimento opcional que circulou nos grupos de mensagens puquianos. Quinze estudantes responderam a pesquisa. Eles participam do coletivo negro Saravá. As perguntas são de escala linear, indo do número 1 (de jeito nenhum) até o 5 (com certeza). Também é possível ver os gráficos circulares das respostas de múltipla escolha. 


 

REPRESENTAÇÃO

 

 

De acordo com a pesquisa, os alunos pretos que não se sentem representados pela PUC-SP, de jeito nenhum, totalizam 66,7%. Em entrevista à AGEMT, a estudante de Relações Internacionais, Júlia Medeiros, verbalizou as suas emoções: “Eu me sinto meio excluída e às vezes eu não consigo conversar”. A participante do Saravá evidenciou a dificuldade de discutir sobre questões íntimas raciais com os seus colegas: “Meus melhores amigos da PUC são brancos, não tem nenhuma pessoa preta. Às vezes, me sinto nessa solidão”. 

 

Porém, esse sentimento não é exclusivo de Júlia. A aluna de psicologia, Camilla Silva, explica como a falta de “hospitalidade” a sufocou, até perdendo a noção dos sentidos: “Quando eu cheguei, vi tanta gente branca que tive a sensação de tudo ser branco, as paredes e as árvores”. 

 

Já o professor da PUC, Amailton Azevedo, explicou o que é ser um docente negro: “Me sinto uma alma no exílio. A ausência da diversidade humana empobrece as relações, a produção do conhecimento e torna o ambiente acadêmico medíocre”. A quantidade de educadores pretos é muito pequena. Tanto que, ambas as entrevistadas nunca tiveram aulas com professores negros. A estudante de psicologia clama por aulas mais construtivas sobre paridade racial, menos teóricas: “Eu sou a única daquela sala que sofre por ser negra. O racismo não está distante, como falam. Ele está aqui e agora”. 

 

SOLIDÃO DA MULHER NEGRA 

 



 

As pretas sentem com certeza a solidão da mulher negra, e essas são ao todo: 72,7%. Esse sentimento é derivado das situações que as colocaram em segundo plano. Medeiros e Silva compartilham da mesma emoção. Júlia enfatiza o como o tratamento dos garotos com ela é diferente em comparação às meninas brancas: “Não me chamam para encontro, cinema ou até ir na casa deles. Normalmente, ficam comigo nas festas - sem compromisso”. Já Camilla, abordou a parte de ser uma mulher gorda preta: “Não me sinto bonita o suficiente. Para mim, ir em festas da PUC, só se for para beber. Se for para conhecer pessoas, no quesito sentimental, nem rola”.  

 

PRETOS BOLSISTAS


 




 

Segundo o Forms, mais da metade dos pretos bolsistas não se sentem representados de jeito nenhum. Medeiros, aluna pelo programa da Fundação de São Paulo (FUNDASP), denunciou o como o bandejão, aquele que estava fechado no começo do ano, é um das únicas iniciativas em prol dos bolsistas. Já a Camilla, ingressante pelo Programa Universidade Para Todos (Prouni), relembrou algumas políticas de auxílios que já estiveram presentes no campus: "Temos alimentação, não tenho o que reclamar, a comida é ótima. Porém, antes davam apoio com xerox, mas agora não”. 


 



 

Como é visto no gráfico, a maioria dos negros bolsistas (46,7%) são atendidos pelo Prouni. Enquanto a Fundasp totaliza 13,3%. Entretanto, de acordo com o site oficial da PUC-SP, a Fundação concede 30% das suas vagas de graduação para: negros, pardos e indígenas de baixa renda. Ainda é pertinente mencionar que os ingressantes do Fies não possuem a gratuidade do bandejão.

 

Em 2022, a Lei das Cotas fez dez anos. Determinando que as instituições federais de educação e universidades públicas reservassem 50% das vagas dos cursos e turnos para negros, pardos, indígenas e pessoas de baixa renda - estudantes de escolas públicas. Porém, algumas faculdades privadas agregaram esses valores, como é o caso da PUC-SP. 

 

Medeiros argumentou sobre a importância dessa lei para as pessoas pretas: “Agora, a gente tem uma comunidade preta, principalmente, nas faculdades públicas e tudo graças às cotas”. Convergindo com Júlia, a estudante de psicologia explica que essa norma dá um fôlego para os pretos alcançarem aqueles que já estão na frente. 

 

Já o professor Azevedo retratou os avanços dentro da Pontifícia em relação à política da paridade racial: “Implementação das cotas raciais na reserva das bolsas de estudo em toda a pós-graduação da PUC/SP. A determinação do consun, aprovada em maio de 2017, contribuiu para a permanência de alunos negros, indígenas e pobres na pós graduação”. 

 

O docente menciona que, em 2020, a PUC/SP, no âmbito de sua pro-reitoria comunitária e de cultura, aprovou a criação da biblioteca negra, favorecendo, a aquisição de títulos de autores negros/negras e aprovou a criação do selo 'autorias negras' que objetiva fomentar a publicação de suportes pretos. 

 

 A partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - feitos pelo site Quero Bolsa - entre 2010 e 2019, o aumento dos negros no ensino superior foi de 400%. Entretanto, a comunidade preta só totaliza 38, 15%. Portanto, mesmo com esse enorme crescimento, não há paridade racial. Porém, ainda há estudantes que refutam a necessidade de cotas.

 

A Camilla já ouviu dos futuros psicólogos como não é preciso uma política de igualdade entre negros e brancos. Já a aluna de RI lembra que as vagas das cotas não são retiradas de brancos para dar a  negros. Cota não é privilégio, e sim reparação histórica”, diz Medeiros. 


 

LUTA ANTIRRACISTA 


 



As pessoas pretas negam a ideia dos brancos estarem ativos na luta antirracista. Será que postar um #BlackLivesMatter nas redes sociais, é o suficiente? Dizer que o Brasil é um país racista, é o suficiente ou o óbvio? Não existe o esquerdomacho? Então, há o aliado fake - o qual só opina quando é confortável e pertinente para sua imagem. Camilla diz o quanto é necessária a empatia dos brancos em relação às suas posições de privilégio: “Eles poderiam falar por mim, não porque eu não posso falar, mas porque não me escutam”. Júlia afirma que ninguém tomará as dores da comunidade. Logo, a criação do Saravá é para não roubarem as vozes da liberdade.     

 

Fundada no bairro da Penha (zona leste de SP), o local marca o legado da história de luta contra a escravidão
por
Gustavo Oliveira de Souza
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28/10/2022 - 12h

Em 2002, um grupo chamado Comissão do Rosário dos Homens Pretos da Penha resolveu retomar a velha tradição de celebrar Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, celebrando os 200 anos da Igreja Rosário dos Homens Pretos da Penha, uma das únicas obras erguidas por negros que ainda se mantêm em seu local de origem. A importância da Igreja se deve ao fato da junção de duas outras igrejas de São Paulo: o Santuário Eucarístico Nossa Senhora da Penha e a Capela de Nossa Senhora do Rosário e outro fato que evidencia o valor da obra é o fato dela ter sido construída “dando as costas” para o centro da cidade, já que era uma igreja frequentada por escravos. Desde sua reinauguração, uma celebração no primeiro domingo de todos os meses do ano que é a Celebração Inculturada Afro Brasileira é feita com o intuito de resgatar a memória dos antepassados e relembrar a luta deles pela religião de matriz africana em São Paulo. A estrutura chamada de Largo do Rosário fica localizada no bairro da Penha, bairro de grande importância da Zona Leste da cidade e o prédio foi tombado no ano de 1982 depois de ter recebido pequenas reformas, reforçando a importância desse patrimônio para São Paulo. 

Em entrevista com Cristiane Gomes, coordenadora do corpo de dança do bloco Ilú Oba de Min, bloco fundado em 1987 e explora ritmos brasileiros e africanos, juntando toda a diversidade cultural desses locais fala um pouco da importância da Igreja: “Ela surgiu como forma de resistir à Igreja Católica, que era predominante na cidade. Todos os escravos e refugiados iam até o local para terem seu momento de conexão com seus ancestrais e festejarem que ainda estavam vivos, mesmo com toda a tentativa de extermínio dos povos por parte do catolicismo. Esse resgate que está sendo feito é de extrema importância para o Brasil por que fortalece ainda mais a nossa luta pelas religiões de matriz africana”.  

Falando um pouco a respeito do Projeto Ilú Oba de Min, Cristiane fala da pesquisa feita acerca da música afro-brasileira: “O bloco tem como intuito preservar a identidade negra brasileira na música abrindo espaço com outras áreas do conhecimento através de aulas, debates e exposições e é feito de forma independente, sem nenhuma ajuda de uma grande empresa ou ajuda de governo”. 

O Bloco Ilú participa de algumas das festividades da Igreja do Rosário e a última delas aconteceu no mês de setembro, no Festival Musical Agô, exaltando toda a música ancestral, começando pelo circo, passando pelo samba e terminando com a apresentação do bloco.  

Foto de Douglas de Campos

                                                                                                               Foto de Douglas de Campos/Facebook 

O tamanho da importância da Igreja Rosário dos Homens Pretos da Penha para as religiões de matriz africana, para os negros e para a cidade de São Paulo deve sempre ser exposta. Sem ela, os escravos não teriam locais para exaltarem sua fé e a luta dos escravos seria ainda mais difícil e o significativo é tamanho devido o fato da Igreja do Rosário ainda ser um dos únicos locais construídos pelos negros que ainda se mantém de pé, como forma de protesto a Igreja Católica e de luta contra o racismo, e nós devemos sempre exaltá-la.