Por Isadora Verardo Taveira e Laura Melo de Carvalho
"It 's time to Be real”, a notificação que virou febre, principalmente entre os jovens universitários, após o aplicativo chegar a número 1 na App store (Apple) em julho de 2022. O aplicativo francês, criado por Alexis Barreyat e Kevin Perreau, traz uma proposta inovadora e muito diferente do que se vê nas redes sociais atualmente: a exposição da realidade sem filtros e sem montagens.
Com uma notificação diária em horários aleatórios no decorrer dos dias, o aplicativo funciona com uma cronometragem estimada para que o usuário tire uma foto em modelo selfie e na câmera traseira ao mesmo tempo, sem possibilidade de filtros, montagens ou irrealidades. Segundo a estudante universitária Carolina Pioltine, o interesse pelo aplicativo veio após ver alguns amigos aderindo a nova proposta e pela curiosidade de explorar um novo modelo de redes sociais, mais real e sem edições.
Qual o motivo da grande popularidade do Be real?
Durante um período marcado pelo confinamento social, estar mais "próximo" de seus amigos parecia uma ideia interessante. Carência, ansiedade e falta de contato social, a pandemia da Covid-19 trouxe a necessidade do sentimento de relações mais íntimas mesmo em tempos tão distantes. Longe dos filtros e da vida idealizada do Instagram, o Be real cresceu rapidamente e logo se popularizou entre os jovens que sentiam falta de um pertencimento maior nas redes sociais.
As grandes redes, marcadas por um enorme fluxo de marketing e de dinheiro, sempre exigiram um cuidado maior para sua utilização e são vistas atualmente como verdadeiras ferramentas de trabalho. O app francês, distante dessa realidade, oferecia muito mais que os aplicativos como Instagram e Facebook: uma alternativa que prometia mais originalidade e poucas pretensões de lucro. É possível continuar "vivendo" fora do celular depois de usar o aplicativo, trazendo uma ideia interessante aos usuários.
De acordo com estudo da Apptopia, uma plataforma de inteligência de dados, o crescimento de usuários ativos no Be real foi exponencial e subiu em média 315% ao redor do mundo entre dezembro de 2021 e março de 2022. No site oficial do aplicativo, ele é oferecido como algo autêntico “O BeReal desafiará sua criatividade. É sua chance de mostrar aos seus amigos quem você realmente é, pelo menos uma vez” - como uma forma de cutucar seus concorrentes. "Se você quiser se tornar um influenciador, pode ficar no TikTok e no Instagram.”
Seria o Be real o novo Instagram?
Apesar de tamanha repercussão, a ideia contrária às redes sociais que estão na rotina dos usuários trouxe alguns contratempos. Com a influência do Instagram hoje em dia, a realidade sem filtros pode ser um desafio para muitos. A sociedade vive hoje cercada por vidas irreais, cheias de montagens, edições e a propagação de uma realidade muitas vezes inalcançável por muitos.
As redes sociais se tornaram um local para que as pessoas idealizem suas realidades, com isso, uma proposta contrária a essa tende a ter uma queda na adesão, o que têm acontecido atualmente com o Be real. Segundo Carolina, que deixou de usar o Be real recentemente, o aplicativo nunca se tornaria uma rede social como o Instagram, porque as pessoas gostam de mostrar a falsa perfeição da vida, o que não é possível dentro da nova proposta.
Há alguns meses, no período entre agosto e outubro de 2022, o aplicativo ocupava o topo da lista de mais baixados da Apple Store. Dobrando de 10 milhões de usuários para 20 por dia, a febre de se mostrar "real" nas redes sociais teve sua vida curta. Logo em fevereiro de 2023, os usuários voltaram ao patamar dos 10 milhões, e vem decaindo desde então.
A queda do novo estilo de redes sociais
Além do lado pessoal, da desvalorização do real quando se trata de redes sociais, o aplicativo não se adaptou ao meio comercial das mídias. Em uma pesquisa para o Blog Opinion Box, foi relatado que 70% dos usuários do Instagram seguem influenciadores e 44% usam a rede social para conversar com empresas, duas estatísticas que não fazem parte da realidade do Be real, por se tratar de uma rede social difícil para publicidade.
Em entrevista para a revista Glossy, a CMO da marca Peace Out Skincare, de cosméticos, relata que notaram que o aplicativo é limitado, principalmente quando se trata de publicidade, provavelmente por toda proposta anti-social media por trás dele e adiciona que não postam diariamente, mas que veem uma certa dificuldade em aumentar seus seguidores, principalmente pela limitação do aplicativo de 500 seguidores por conta.
Em relação às influenciadoras, Sophia Costa, estudante universitária e usuária do aplicativo, conta não ver adesão pelo lado das blogueiras, mas que entende as limitações da rede social e seu projeto que não condiz com esse nicho da outra rede social.
A necessidade de uma vida ilusória
Com toda discussão acerca da ascensão e queda do Be real e a comparação com os outros aplicativos populares como o Instagram, fica claro que parte da necessidade da geração atual é espetacularizar uma vida inexistente. Falta de filtros, localização em tempo real, inexistência de likes, todos esses pontos são duramente criticados, entretanto fazem parte e são inegociáveis na vida dos jovens atualmente.
Por mais que exista uma série de reprovações e análises negativas, o Instagram e o Tiktok conquistam um espaço cada vez maior entre a geração z por ser justamente como é: um lugar onde as pessoas podem transmitir aquilo que querem, mesmo que isso signifique encher o rosto de filtros e transparecer uma realidade completamente desconexa da verdadeira.
Entender que as pessoas não desejam aparecer de modo completamente real parte do princípio de compreender o lugar complexo que as redes sociais populares tomou na vida das pessoas. O professor e filósofo Luiz Felipe Pondé afirma em participação no Jornal da Cultura que "Praticamente todo que postam que estão bem, estão mentindo. Afinal de contas o Instagram e os semelhantes só servem para mentir."
A 26ª Mostra Tiradentes de cinema ocorreu em janeiro deste ano, na cidade mineira que batiza o festival. Em março, uma seleção dos títulos exibidos no evento chega em São Paulo pela 11ª vez.
Tanto o evento em Tiradentes-MG quanto o em São Paulo-SP são os primeiros presenciais depois da pandemia de Covid-19. Na capital paulista, a Mostra aconteceu entre os dias 23 e 29 de março, no CineSesc.
A AGEMT esteve presente em todo o evento e conferiu a pré-estreia de diversos filmes e curtas. Durante a abertura foi apresentado o filme "As Linhas da Minha Mão", documentário experimental vencedor da categoria Aurora, na 26a Mostra Tiradentes. A noite contou ainda com um coquetel de boas-vindas no famoso bar do cinema na Rua Augusta e, assim como em todas as exibições, com um bate-papo entre a equipe, a curadoria e a plateia após a exibição.
A Mostra Tiradentes foi planejada inicialmente para ser um programa de inauguração do Centro Cultural Yves Alves, mas logo na primeira edição passou a ser uma divulgadora do cinema brasileiro por meio da exibição, reflexões sobre as obras e do debate sobre a sétima arte e é essa experiência que encontramos no centro paulistano.
Abertura
As considerações iniciais tiveram a participação da Gerente de Ações Culturais do SESC, Rosana Paulo da Cunha, e da Coordenadora da Mostra, Raquel Hallak. Ambas citaram o período difícil que o mercado cultural brasileiro passou durante a pandemia, com ênfase na falta de suporte do poder público, mas sem citar episódios específicos contra a categoria. Um deles foi o veto do ex-presidente Jair Bolsonaro contra a Lei Paulo Gustavo (Projeto de Lei Complementar 73/21 à época, atual LC 195/2022), que previa o repasse de R$ 3,86 bilhões ao Fundo Nacional de Cultura.
Contudo, a Lei Aldir Blanc (14.017/2020), aprovada no início da pandemia após passar por algumas lombadas impostas pelo Governo Federal da época, foi a maior contribuidora para a produção dos títulos exibidos na Mostra.
Rosana reafirmou o compromisso do SESC em restaurar as experiências presenciais, além de manter o acesso ao cinema nacional através da plataforma SESC Digital, inaugurada em junho de 2020, no alto da pandemia. "Há muitos filmes, há uma programação diversificada de cinema, pela qual nós conseguimos manter um diálogo permanente durante todo esse período com o público e com, também, todas as áreas do audiovisual."
A temática desta edição é “Cinema Mutirão", um reflexo da necessidade de esforços coletivos para manutenção de espaços como o CINESESC, que apresenta o cinema de forma acessível para a população. A coletividade ainda se refere à produção de filmes, que necessitam de uma equipe para realização, a democratização destes e ao encontro e conexão única, que só as grandes telas podem proporcionar.
As Obras
Durante os sete dias da mostra, foram exibidos audiovisuais brasileiros e contemporâneos com o intuito não apenas de valorizar e promover o cinema nacional, mas também de trazer diálogo sobre o novo, o agora e o futuro. Em um movimento vanguardista de criação de diversidade em todos os âmbitos da produção, somos apresentados a diretores e atores pretos, indígenas e trans. Como exemplo, o curta “Lalabis” de Noá Bonoba, mulher trans, que confronta o binarismo dos corpos em um contexto pós apocalíptico, onde não é definido o gênero da personagem principal.
As temáticas da contemporaneidade se apresentam por meio da experimentação na linguagem, formato e fotografia. Até quando a ideia é formal, como em “Peixe Abissal”, um retrato da vida do artista Luís Capucho, a execução é realizada de forma inovadora: sem linearidade, a partir da imaginação do próprio Luís, com a fotografia passeando pelo rigor cinematográfico até lentes de distorção.
Outro tema que a Mostra poderia ter, se não fosse mutirão, é infinitude. Ao ver tantos filmes aclamados com atrizes protagonistas e personagens que, não apenas rompem com a obsessão hollywoodiana por juventude estética, mas também elevam a preciosidade que é viver e permanecer vivendo, independente da idade.
Entre os títulos que sustentam esse diálogo está o filme de abertura, As Linhas da Minha Mão, documentário experimental sobre a vida da atriz mineira Viviane de Cassia Ferreira, que celebra as histórias bonitas, divertidas e tristes que ilustram como "a arte é amiga da vida", nas palavras da própria protagonista. Também há Cervejas no Escuro, longa-metragem ambientado em Princesa Isabel - PB, que mostra Edna (Edna Maria) realizando seu sonho de fazer um filme enquanto lida com o luto pelo seu recém-falecido marido. Nossa Mãe Era Atriz, curta vencedor do Júri Popular da 26ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que homenageia a atriz Maria José Novais Oliveira, que iniciou sua carreira aos 65 anos, completa a lista.
A curadoria assinada pelo jornalista e cineasta Francis Vogner dos Reis conseguiu garantir espaço para obras experimentais, híbridos de documentários e ficção, comédias, dramas, históricos, futuristas apocalípticos e pós-apocalípticos, sexuais e sensuais, que podem parecer estar a quilômetros de distância um do outro, mas que se encontraram para tomar um café no bistrô do CineSesc. E claro, ver um filme depois.
Assistir e Discutir
Todas as sessões exibidas na Mostra tiveram pelo menos 30 minutos de bate-papo com membros da equipe logo após o término do filme. Diretores, roteiristas, produtores, atrizes e atores se puseram a conversar com o público sobre suas obras, enriquecendo a experiência e, assim, relembrando as mentes da pandemia a singularidade de uma sala de cinema. "Vamos fazer desse encontro pelo cinema a possibilidade de revigorar as nossas competências críticas e o nosso olhar diante das inconstâncias da ordem do real", disse Raquel Hallak em seu discurso de abertura.
Fazer filmes durante o isolamento social foi tema recorrente nos debates pós-sessão. No sábado, a Série 2 da Mostra Foco exibiu filmes que a curadora Tatiana Carvalho Costa valorizou muito pela persistência da produção frente os obstáculos, o que acabou transbordando na tela. "Esses filmes tratam totalmente dos nossos traumas recentes, cada um à sua maneira, com uma vibração de não contornar o problema, a questão, o trauma… Mas de enfrentar com coragem", disse Tatiana.
Um dos curtas dessa sessão que abordou literalmente a pandemia foi O Último Rock, do diretor capixaba Diego de Jesus, sobre um grupo de amigos negros que se reúnem para uma última "resenha" antes do primeiro lockdown, em março de 2020. Eles tratam de seus dilemas e angústias frente às incertezas da pandemia e suas consequências para o futuro de jovens negros periféricos.
Durante esse momento histórico também foram gravados o documentário O Que Nos Espera, dirigido por Bruno Xavier e Chico Bahia, retratando o Padre Júlio Lancelotti; o longa Solange, de Nathália Tereza e Tomás Osten e o curta Os Animais Mais Fofos e Engraçados do Mundo, de Renato Sircilli. Todos eles relataram o desafio para criação e como eles foram atravessados pelo contexto, o que refletiu em suas obras.
O encerramento
Durante a quarta-feira (29) foram exibidos os favoritos do público da Mostra - votação realizada em sua edição de Minas. Além do curta documentário “Nossa Mãe Era Atriz”, o longa ficcional “A Filha do Palhaço”, produção cearense, também foi premiado. O primeiro retrata a história de Maria José Novais por meio de depoimentos de colegas de profissão e imagens de arquivo. Ele traz a reflexão sobre o início tardio no contexto cinematográfico e a potência do talento mesmo com o desafio da idade.
Em uma linha semelhante, o desafio do segundo é a conciliação entre a vida artística não convencional e a relação familiar. Renato e Joana são pai e filha sem contato, mas ao passar uma semana juntos encaram o desafio afetivo de se conhecer enquanto o homem atua como Drag Queen nas noites de Fortaleza.
O fato de duas peças sobre relações parentais terem sido escolhidas pelo júri popular pode nos indicar o anseio do público em viver a sensibilidade no cinema, em querer e gostar de se emocionar diante da tela grande, na privacidade do escuro, mas no conforto de estar acompanhado por desconhecidos passando pela mesma experiência.
Também aconteceu uma sessão para “Alegorias”, longa ficcional dirigido por Leonel Costa. O filme explora encontros e desencontros sobre o carnaval, ser uma mulher preta e a diferença social brasileira que cada vez mais expõe suas estacas racistas.
As histórias feitas pelos nossos compatriotas e contemporâneos têm perdido cada vez mais espaço nas grandes redes de cinema, em detrimento dos blockbusters internacionais. Mais que a retomada das atividades presenciais e a exaltação do esforço que foi manter o setor cultural durante a pandemia, a Mostra de Tiradentes SP também nos convida de volta para as produções nacionais.
Neste sábado (12), ocorreu a primeira edição do festival de música GP WEEK, na cidade de São Paulo. Com shows de Fresno, The Band Camino, Hot Chip, Twenty One Pilots e The Killers.
Em referência ao ‘Grande Prêmio’ de Fórmula 1, o evento trouxe bandas que caminham entre sub estilos do rock e atraíram públicos de todas as idades. Com performance eletrizante de Twenty One Pilots e The Killers, a GP Week conquista espaço no grande calendário de festivais da cidade.
Fresno, a única banda brasileira a participar, abriu a sequências de shows às 14 horas e trouxe aos palcos o emo, juntando clássicos com novidades para conquistar a plateia que timidamente começava a preencher o Allianz Parque. Lucas Silveira, vocalista, finalizou a participação do grupo questionando o fato de ser apenas uma banda com canções em português, mas instigou os ouvintes a valorizarem o som nacional com uma versão de Eva, originalmente da Banda Eva, que foi cantada por todos ali presente.
As homenagens ao Brasil não acabaram por aí, pois The Band Camino não poupou palavras para descrever a emoção de, pela primeira vez, tocarem no Brasil - e na América Latina. Pela formação recente, a presença de um público significativo em outro território pareceu surpreender os musicistas, pois não deixavam de agradecer recorrentemente a presença de todos. Aproveitando a oportunidade, convidaram ao palco Mateus Asato, guitarrista brasileiro, famoso internacionalmente por ter tocado com Bruno Mars e Jessie J. Vestidos com a camisa do Palmeiras, a banda encerrou sua participação com uma energia contagiosa.
A banda The Hot Chip, criou um clima ainda mais animado para as bandas mais esperadas da noite, Twenty One Pilots e The Killers. O primeiro transformou o estádio às 19:00, o uníssono dos ouvintes era eletrizante e a entrega do duo incomparável. Com momentos surpreendentes, como a escalada da torre de apoio pelo Tyler Joseph e a bateria em cima da plateia por Josh Dun, a banda cria mais um show inesquecível em solo brasileiro. A interação com o público foi fundamental para que pudessem ser considerados os protagonistas da festa, sendo ovacionados ao finalizarem com “Heathens”.
O atestado da união de gerações ficou ainda mais claro com o show de The Killers, que encerraram a noite. O Allianz, que à tarde encontrava um público mais jovem, encarava durante o show espectadores maduros, mas com a vitalidade de Brandon Flowers, vocalista da banda. Com as letras na ponta da língua, os 50 mil presentes, entregaram todos os hits da banda de forma excepcional, demonstrando que a pergunta de Brandon “vocês esqueceram da gente?” era apenas ironia. Porém, um destes fãs foi convidado ao palco para tocar “For Reasons Unknown” e o fez perfeitamente em meio a aplausos e gritos. A GP Week conquista através das atrações e do público, o espaço necessário para se consagrar como mais um festival paulista no calendário nacional.