Para Rafael Morales, consumidores e mercado também têm papel importante na cobrança de sustentabilidade
por
Gustavo Song Jun Choi
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03/12/2025 - 12h

A inteligência artificial, também conhecida como IA, tornou-se uma conveniência na vida das pessoas tão importante quanto o smartphone ou a internet. No entanto, também é um grande alvo de polêmica por conta das especulações sobre seu potencial destrutivo contra a humanidade e o meio ambiente.  

Segundo Rafael de Carvalho Morales, profissional de tecnologia, professor e consultor da área de sustentabilidade, um dos impactos mais significativos é o consumo de água, usada pelos data centers para regular o sistema de resfriamento de seus diversos servidores. 

Rafael de Carvalho Morales, consultor de sustentabilidade.
Rafael de Carvalho Morales - Foto: Divulgação


“Tem alguns casos de construção de data centers em áreas de escassez hídrica, ou seja, em locais com pouca água”, diz Morales, alertando para as possíveis consequências de operações desse tipo. “Se você acabar com a água desse lugar, a cidade vai ficar sem água, a população vai ficar sem água e o entorno também vai sofrer com isso.”

O consultor também destaca a degradação ambiental provocada pela mineração de recursos necessários para a fabricação de peças utilizadas nos data centers, como lítio, cobre e silício. Trata-se de minerais escassos e valiosos, cuja extração, se não for gerenciada devidamente, produz o risco de um esgotamento rápido das reservas.

De acordo com o consultor, a falta de compromisso das empresas de tecnologia com a rastreabilidade da cadeia de minérios que fazem parte das unidades de processamento acaba estimulando uma técnica de extração de recursos de altíssimo impacto, que é a mineração artesanal. Mais conhecida como garimpo, esse modelo é mais prejudicial ao meio ambiente do que até mesmo a mineração industrial, pela falta de regulação e código de conduta apropriados. “É um grupo de pessoas, coordenadas ou não, que vão para uma determinada localidade em que se imagina que tenha minério e mineram com práticas de alto impacto, com uso de mercúrio e outros métodos nocivos para a natureza”, explica Morales. 

Sobre possíveis formas de minimizar os impactos, o profissional diz que o Estado tem o papel de exigir, do ponto de vista legal, que as empresas adotem alguns princípios ao construir seus data centers, como a definição de limites para o consumo de água e a utilização de energia renovável. “Os Estados têm essa obrigação”, frisa Morales.

Ele também aponta a responsabilidade do mercado financeiro - que não deveria financiar operações sem compromisso com a sustentabilidade - e o papel dos próprios consumidores, que podem deixar de utilizar plataformas de empresas que não respeitam as normas ambientais.

Quando questionado sobre o futuro da humanidade e o lugar da IA nele, Moraes avalia que essa tecnologia veio para ficar, especialmente no contexto de uma sociedade no modelo capitalista de alta produtividade, que preza a produção de mais resultados com menos esforço e gastos. Neste sentido, diz ele, além de altamente lucrativa, a inteligência artificial se tornou uma “benção”, um acelerador de capital essencial para o atual estágio do capitalismo.  “Já vi pessoas que conheço e respeito falando que a IA vai ajudar muito na produtividade”, afirma, citando a perspectiva de criação de empregos e funções inexistentes hoje.

Ainda assim, o consultor reconhece os malefícios que, para além dos impactos ambientais, a tecnologia pode trazer, como a dependência nos usuários - considerando a relação praticamente inseparável que as pessoas têm com seus smartphones - e as consequências psíquicas do uso abusivo. 

 

A percepção de frequentadores, os impactos da febre amarela e as denúncias de captura clandestina em um dos parques mais antigos de São Paulo
por
Manuela Dias
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29/11/2025 - 12h

Antes conhecido pela presença constante de saguis, macacos prego, capivaras e aves diversas, o Parque Estadual Alberto Löfgren, na Zona Norte de São Paulo, vive um período de silêncio. Frequentadores afirmam que o número de animais diminuiu de forma drástica nos últimos anos, especialmente depois do surto de febre amarela que atingiu o estado entre 2016 e 2018. A mudança é perceptível para quem acompanha a rotina do parque há décadas.

A aposentada Maria Eliane, 78 anos, visita o Horto desde que chegou a São Paulo. “Eu vinha aqui com meus filhos pequenos e era cheio de vida. A gente mal conseguia contar quantos saguis apareciam. Era um atrás do outro. Hoje eu caminho por tudo isso e quase não vejo mais nenhum”, afirma.

Segundo Maria Eliane, a ausência de animais transformou a experiência de visitar o parque. “O Horto sempre foi um lugar vivo. Tinha barulho, tinha movimento dos bichos. Agora parece outro lugar. Não é que acabou, mas está tudo muito reduzido. Dá uma tristeza ver como mudou.”

Os lagartos se alimentam de insetos e pequenos invertebrados, essenciais para o equilíbrio ecológico até nos centros urbanos.
Os lagartos se alimentam de insetos e pequenos invertebrados, essenciais para o equilíbrio ecológico até nos centros urbanos. Foto: Manuela Dias/AGEMT

Capturas clandestinas e violência contra macacos

A diminuição dos animais não é percebida apenas por visitantes antigos. Moradores do entorno também afirmam ter presenciado situações que podem ter contribuído para a redução da fauna.

Um deles, que pediu para não ser identificado, disse que presenciou capturas clandestinas dentro do parque. Ele conta que pessoas entravam por áreas menos movimentadas e montavam armadilhas para capturar pequenos mamíferos. O morador afirma ainda que, durante o período mais crítico da febre amarela, presenciou cenas de violência contra macacos. “Eu vi gente matando macaco. Eles achavam que o macaco transmitia a doença. Era ignorância. Os macacos eram vítimas, como nós. Pegavam o vírus e morriam também. Mas muita gente não entendia e atacava os bichos. Eu vi isso acontecer.”

A Secretaria de Meio Ambiente e órgãos estaduais chegaram a registrar casos de agressão a primatas na época do surto. Especialistas reforçaram, repetidamente, que os macacos não transmitem a febre amarela. Eles funcionam como sentinelas, indicando a circulação do vírus e permitindo que autoridades reforcem a vacinação.

Os animais vistos pelas câmeras

Fotografias recentes mostram que, apesar da diminuição, ainda há vida silvestre no Horto. Aves, patos e tartarugas são os mais comuns de serem vistos.

O mergulhão observa o reflexo da luz e escolhe o ângulo certo para capturar peixes sem perder tempo.
O mergulhão observa o reflexo da luz e escolhe o ângulo certo para capturar peixes sem perder tempo. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Em várias cidades, teiús vivem próximos a parques e córregos e seguem discreta convivência com humanos.
Em várias cidades, teiús vivem próximos a parques e córregos e seguem discreta convivência com humanos. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Coloridas e serenas, as carpas não são só ornamentais. Elas ajudam a controlar algas e pequenos organismos, mantendo o equilíbrio dos lagos artificiais.
Coloridas e serenas, as carpas não são só ornamentais. Elas ajudam a controlar algas e pequenos organismos, mantendo o equilíbrio dos lagos artificiais. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Patinhos aprendem rápido. Nos primeiros dias de vida já conseguem nadar e seguir a mãe em longas caminhadas até encontrar água.
Patinhos aprendem rápido. Nos primeiros dias de vida já conseguem nadar e seguir a mãe em longas caminhadas até encontrar água. Foto: Manuela Dias/AGEMT

 

 

Com 96 anos, parque reúne histórias e grande papel ecológico na cidade que nunca dorme.
por
Isabelle Muniz
Maria Julia Malagutti
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06/11/2025 - 12h

Fundado por Fernando Costa e localizado próximo à Avenida Francisco Matarazzo, o Parque da Água Branca é um dos pontos de encontro mais tradicionais de São Paulo, reunindo famílias, atletas, crianças e até amantes de rodeios. Verdadeiro refúgio verde em meio à cidade de pedra, o parque abriga árvores típicas da Mata Atlântica, como pau-brasil, cedro, grumixama e canela-cheirosa, além de cerca de 190 espécies de flora e mais de 40 espécies de aves catalogadas, segundo pesquisas. Sua área atual ocupa aproximadamente 136 mil metros quadrados, e o espaço carrega consigo um rico valor histórico. 

Em 2025, o parque completa 96 anos de existência. Hoje, oferece diversas atrações, como feiras orgânicas, um aquário, e o Museu Geológico Valdemar Lefèvre (MuGeo), que reúne rochas, minerais e fósseis. No entanto, sua origem é mais antiga: o local foi idealizado por Antônio da Silva Prado para abrigar a Escola Prática de Pomologia e Horticultura, voltada ao ensino de atividades agrícolas. A escola funcionou até 1911, e anos depois o espaço deu lugar ao parque que se tornaria um dos patrimônios mais queridos da cidade de São Paulo. 

Já em 1928, o ex-governador Júlio Prestes, juntamente ao agrônomo Fernando Costa, transformaram a área, que até então era uma escola, na sede da Diretoria de Industria Animal, e um ano depois, com sua inauguração, foi batizado de Parque Doutor Fernando Costa. A arquitetura presente no parque é razão de destaque entre os frequentadores, as características rurais se misturam com os traços normandos das construções. Telhados inclinados e portas em arco com enormes janelas juntamente portões de ferro ornamentais, dão todo o charme do parque. Todos os edifícios permanecem originais desde 1929. 

Em 1996, o local foi tombado como patrimônio histórico, cultural, arquitetônico, turístico, tecnológico e paisagístico pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado). Com o tempo, a ênfase no lazer se aprofundou e o parque passou por uma expansão. A implementação de lagos artificiais, playgrounds, quiosques, espaço para leitura e diversas atrações em datas comemorativas, trouxe uma grande atenção do público, sendo altamente frequentado nos dias de hoje. 

 

Parque da Água Branca na entrada. Foto: Isabelle Muniz / Agemt
Entrada do Parque da Água Branca. Foto: Isabelle Muniz / Agemt

Em entrevista à Agemt, a engenheira ambiental Thamires Lino, pós-graduada em Engenharia de Segurança do Trabalho e com 12 anos de experiência na área ambiental, especialmente em licenciamento, gestão ambiental e gestão de resíduos, destacou a importância dos parques urbanos como verdadeiros refúgios de ar puro nas cidades. Segundo ela, esses espaços promovem bem-estar e saúde à população por meio das áreas de lazer e recreação que oferecem. Thamires ressalta que a preservação dos parques é essencial: “Os parques urbanos favorecem a biodiversidade de plantas e animais. Por meio da conservação, o ambiente se mantém em equilíbrio, contribuindo muito para a continuidade da vida no local”. A engenheira também enfatiza o papel ecológico desses espaços e a relevância de parques como o da Água Branca, em São Paulo. “A vegetação ajuda na regulação térmica, combatendo os efeitos da ilha de calor, além de absorver CO₂ e atuar como um filtro natural”. 

Assim, a presença dos parques vai muito além do entretenimento, trata-se de um elemento fundamental para o equilíbrio ambiental urbano. Thamires ainda reforça a importância da participação da população na conservação desses espaços: “Usar os parques de forma consciente, respeitar as orientações de permanência, o descarte de resíduos e evitar alimentar os animais são atitudes fundamentais para sua preservação”. Por fim, ela destaca que os pilares para a manutenção dos parques estão nas ações conjuntas da gestão pública, com as equipes de zeladoria e manutenção, e no comprometimento dos visitantes em cuidar desses espaços. 

Deve-se ressaltar o grande afeto do público pela área, durante um instante de lazer no parque, Lina, aposentada de 64 anos, informou que o parque é “maravilhoso”, afirma que há diversas memórias marcantes nele e o visita com frequência, “Lembro quando os fazendeiros distribuíam leite para nós, davam brinquedos para as crianças... É um parque bem familiar, meus filhos que hoje já são homens, cresceram aqui.”. A visitante afirma que a característica mais marcante da área é o sossego e a paz que ela transmite “É minha vida isso aqui, aqui é tudo”, informa que sempre que se sente sozinha, costuma frequentar o parque, sente “paixão” pelo verde e pela vasta vegetação. 

Movimentos sociais e ONGs ambientais organizaram uma “COP Paralela” para colocar a sociedade civil no centro do diálogo
por
Anna Cândida Xavier
Camila Bucoff
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12/11/2025 - 12h

A COP é a reunião anual dos países membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), para discutir medidas de combate à crise ambiental. Desde 1992, a Cúpula dos Povos acontece junto à conferência. Um evento autônomo, da sociedade civil, que reúne movimentos sociais, indígenas, quilombolas, camponeses e coletivos. Segundo o site oficial da organização, “a cúpula se ergue como um grito de resistência, um eco das vozes silenciadas pela desigualdade”.

Ela recebe o nome de “COP Paralela” por conta da localização física e temporal em relação à estrutura formal da ONU e por seu caráter crítico e alternativo quanto ao conteúdo e aos participantes. 

A Cúpula dos Povos irá inaugurar uma “Zona da Rua”, aberta para todos. Essa brincadeira com a “Zona Verde” e a “Zona Azul” que compõem a estrutura oficial da COP, também é uma crítica à centralidade do setor privado e das autoridades no debate climático. “A Cúpula é um chamado à ação por uma transição justa e solidária, onde ninguém é deixado para trás”, afirma o site oficial do encontro.

O movimento da “COP Paralela” compreende que a Conferência das Partes na Amazônia representa uma oportunidade de recuperar o diálogo com comunidades indígenas, tradicionais e periféricas – aquelas que menos contribuíram para a crise climática, mas que mais sofrem com seus impactos. O principal intuito desses movimentos sociais e ONGs é que as indústrias que mais poluem o mundo não norteiem mais as negociações.

Contudo, nas últimas três edições, a Conferência das Partes ocorreu em países com restrições à livre manifestação. Em 2022 foi realizada em Sharm el-Sheikh, no Egito; em 2023 em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos e em 2024 em Baku, no Azerbaijão. 

No Brasil, a história é diferente. Os primeiros dias da COP 30 já foram marcados por atos e manifestações pacíficas. Nessa segunda-feira (10), um grupo de manifestantes vindos do México realizou um protesto simbólico em frente à entrada da Zona Azul em Belém. Deitados no chão e cobertos por lençóis, eles buscaram chamar a atenção para a morte, desaparecimento e prisão de defensores do meio ambiente. 

Ações como essas voltam os olhares da população para fora da área restrita a negociadores oficiais. Dentro da Zona Azul, circulam diplomatas, ministros, chefes de delegação e lobistas do petróleo e do agronegócio negociando o futuro do planeta por trás de portas fechadas.

Na última quarta-feira (5), ativistas brasileiros se reuniram para lembrar os 10 anos do desastre de Mariana. Em 5 de novembro de 2015, o maior crime socioambiental da história do Brasil aconteceu: a barragem de Fundão rompeu-se em Mariana, Minas Gerais. A barragem era operada pela Samarco, uma joint venture entre a Vale e a BHP. A lama tóxica varreu o distrito de Bento Rodrigues e seguiu pelo Rio Doce até o litoral do Espírito Santo. O fluxo de lama tóxica matou 19 pessoas, destruiu comunidades e contaminou um dos rios mais importantes do país.

Esse ano, porém, a Vale é uma das maiores patrocinadoras da cobertura jornalística na COP 30. Segundo levantamento do Intercept Brasil, a mineradora está patrocinando a cobertura de oito veículos de comunicação diferentes. Entre eles, estão alguns dos jornais de maior circulação no Brasil, como a Folha de S.Paulo, O Globo e Valor Econômico, o jornal do Pará O Liberal, bem como a rádio CBN, a revista Veja, e os portais de notícias Neofeed e Brazil Journal. 

Por outro lado, a localização da conferência também facilita que alguns movimentos possam participar do evento. A presença de organizações que pressionam e questionam as autoridades é essencial, apresentando uma "declaração dos povos" com demandas por justiça climática, reparação histórica e ações mais contundentes para combater a crise climática. Fora dos espaços oficiais de debate, a “COP Paralela” se torna a maior área de diálogo da sociedade civil, onde os participantes buscam ampliar a participação popular, compartilhar experiências e construir consensos a partir da base, propondo soluções que vêm diretamente dos territórios e das comunidades afetadas.

Encontro reunirá líderes mundiais em Belém, no Pará, para discutir ações globais contra a emergência climática 
por
Anna Cândida Xavier
Camila Bucoff
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06/11/2025 - 12h

A COP (Conferência das Partes) foi criada, em 1995, a fim de promover o diálogo entre os países e estabelecer objetivos globais de combate à crise climática. Devido ao seu alcance multilateral, a conferência é vista por especialistas como um momento decisivo para o país reafirmar sua liderança ambiental, pressionar por financiamento e impulsionar a economia da floresta em pé. Este ano, a cúpula será sediada no Brasil, entre 10 e 21 de novembro. 

Como vai funcionar? 

O evento reúne representantes oficiais de 198 países, empresas privadas e a sociedade civil. Cada nação participante envia delegações de diplomatas, ministros e técnicos para debater compromissos climáticos junto ao secretariado da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (UNFCCC).  

As negociações são divididas em plenárias formais (seções de negociações) e grupos de trabalho temáticos (discussão de temas específicos) e as metas firmadas precisam ser consensuais, nas quais todos os países têm direito a voto. 

O evento também envolve reuniões de órgãos complementares da ONU, como as reuniões das Partes do Protocolo de Quioto (CMP) e do Acordo de Paris (CMA). O Protocolo de Quioto é um acordo internacional, firmado em 1997, que estabelece metas obrigatórias de redução de emissões de gases estufa para países desenvolvidos. Enquanto o Acordo de Paris é um tratado internacional, adotado em 2015, que define metas de redução emitidas pelos países de acordo com o seu contexto nacional.

Para garantir o seu funcionamento, a COP também conta com a atuação de dois apoios permanentes da ONU: o Órgão subsidiário de implementação (SBI) e o Órgão de Aconselhamento Científico e Tecnológico (SBSTA). 

O primeiro é responsável por acompanhar a aplicação prática das decisões e acordos adotados. Já o segundo tem a função de assessorar a COP em assuntos relacionados à ciência, tecnologia e inovação. 

Relevância da COP para o Brasil 

A escolha de Belém, no Pará, como sede do encontro simboliza a urgência da proteção das florestas e coloca o Brasil no centro das negociações climáticas globais. 

Foto: Ricardo Stuckert/PR - Reprodução/Agência Brasil

As discussões realizadas durante a conferência impactam as dinâmicas econômicas, sociais e geopolíticas em nível internacional e nacional. Nesta edição, temas importantes ganham protagonismo, como o financiamento climático, reforma dos bancos multilaterais e mobilização de recursos financeiros para a transição verde.

O governo brasileiro selecionou seis principais eixos para pautar o evento: a redução de emissões de gases de efeito estufa; a adaptação às mudanças climáticas; o financiamento climático para países em desenvolvimento; as tecnologias de energia renovável e soluções de baixo carbono; a preservação de florestas e biodiversidade; e, por fim, a  justiça climática e os impactos sociais das mudanças climáticas. 

Os tópicos selecionados estão intrinsecamente ligados ao contexto brasileiro. O Brasil é o maior detentor de área de florestas tropicais no mundo graças a Amazônia, cuja floresta armazena de 100 bilhões a 120 bilhões de toneladas de carbono em sua biomassa. Mesmo assim, um estudo publicado pela revista Nature em 2024, alerta que a Amazônia pode atingir o ponto de não retorno até 2025, se o ritmo de desmatamento atual se manter. 

Além de sua relevância ambiental, a Floresta Amazônica está no centro de debates sociais. Sua preservação está diretamente ligada à sobrevivência e à cultura dos povos indígenas, que há séculos desempenham um papel essencial na proteção do bioma. A destruição da floresta, portanto, também é uma ameaça à vida, aos direitos e à identidade dessas comunidades. 

Nesse sentido, espera-se que a COP 30 conte com ampla participação da sociedade civil, promovendo a justiça climática e dando voz a povos indígenas, comunidades quilombolas e grupos tradicionais e periféricos, que estão entre os mais afetados pelos impactos da crise climática.

Perto de completar 5 anos da tragédia da barragem de Brumadinho, pouco mudou. Os impactos causados pela tragédia ambiental ainda são sentidos.
por
Gabriela Jacometto
Manuela Mourão
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13/11/2023 - 12h

 

Aproximando-se do doloroso marco de cinco anos desde a tragédia de Brumadinho, a necessidade de preservar a memória torna-se mais crucial do que nunca. 270 vidas foram perdidas naquele trágico dia 25 de Janeiro, três corpos estão desaparecidos até hoje e ninguém foi punido.

Há apenas três anos, o estado de Minas Gerais já havia sido marcado por outra tragédia, desta vez em Mariana, em um episódio que deveria ter servido como alerta para o futuro. Contudo, a negligência persistente em reconhecer a verdadeira situação das barragens resultou em perdas irreparáveis de vidas humanas e em um dos mais devastadores crimes ambientais da história do país.

Brumadinho não poderia ter sido uma repetição trágica após Mariana. Isso levanta questões inquietantes sobre a eficácia das medidas adotadas desde então. O que mudou nos últimos anos? Como estão as vítimas e suas comunidades? Quais foram os passos tomados para evitar que novas catástrofes ocorram? E o meio ambiente, tão severamente afetado, conseguiu se regenerar?

Para entender o presente, é imperativo revisitar os dias em que os mares de lama foram rompidos, mergulhando nas histórias das vítimas e examinando as ações tomadas pelas autoridades e empresas desde então.

BRUMADINHO
25/01/2019 sexta feira 12:28:18

Era fim de manhã da sexta-feira, dia 25 de Janeiro de 2019, quando a Barragem 1, da Mina Córrego do Feijão, da mineradora Vale, se rompeu em Brumadinho. A base do reservatório cedeu, desencadeando uma avalanche de rejeitos de mineração. Em um curto intervalo de 3 minutos, a lama engoliu implacavelmente tudo que se encontrava embaixo da barragem, ao longo de uma distância de quilômetros.

O "tsunami" formado pela ruptura arrasou o centro administrativo e o refeitório da Vale- que por conta do horário, estava povoado- máquinas de mineração, linhas férreas, uma ponte, residências, pousadas e até mesmo currais. A vegetação e os rios, impiedosamente, também foram impactados. 270 pessoas foram mortas pela queda da barragem.

A Barragem I (B1), outrora uma peça fundamental do complexo, passou por uma metamorfose em seus últimos anos, transformando-se em uma espécie de lixão inativo. Desde julho de 2016, já não recebia mais rejeitos de minério de ferro das minas do Feijão e Jangada, marcando um capítulo pós-catastrófico oito meses após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana.

A B1 no Córrego do Feijão, era uma barragem considerada a montante. Uma barragem a montante é um tipo de estrutura de contenção de água utilizada em projetos de represamento. Ela é construída utilizando predominantemente os próprios rejeitos e sedimentos provenientes da mineração ou de outros processos industriais. Este tipo de barragem é caracterizado por ter sua estrutura construída em camadas sucessivas, com os materiais mais recentes sendo depositados na parte superior. O método é conhecido por ser muito mais econômico em comparação com outros tipos de barragens, pois utiliza os próprios rejeitos do processo minerário.

No entanto, barragens a montante têm sido associadas a outros ocorridos de quedas, além de Brumadinho e Mariana. Isso ocorre porque a deposição contínua de materiais na parte superior da barragem pode torná-la mais suscetível a instabilidades, incluindo deslizamentos de terra e rupturas. Além disso, a técnica pode resultar em um aumento do teor de água na parte superior da barragem, tornando-a potencialmente mais propensa a falhas e exige fiscalização e monitoria constante de seu estado. 

A visão da Vale, respaldada pelo governo de Minas Gerais no final de 2018, era "descomissionar" a estrutura. Na prática, esse ambicioso plano envolvia esvaziar o imenso tanque de terra e água por meio de métodos de drenagem. Simultaneamente, seriam realizadas escavações com máquinas pesadas, configurando um novo garimpo de rejeitos, visando extrair o restante do minério presente no resíduo.

A grande diferença para a barragem de Brumadinho, era que a barragem era instável, e tanto a Vale, quanto a Tuv Sud (empresa Alemã que emitiu o laudo falso de estabilidade da B1) sabiam da realidade. As investigações revelaram que a execução de perfurações verticais foi o catalisador para a liquefação, desencadeando o colapso da estrutura já fragilizada em 25 de janeiro de 2019. Apesar de estar ciente dos problemas enfrentados pela barragem, a consultora Tüv Süd emitiu Declarações de Condição de Estabilidade, permitindo que a estrutura continuasse operando, mesmo com um fator de segurança abaixo das recomendações internacionais. A mineradora estava ciente da situação e apresentou os documentos correspondentes às autoridades competentes.
Em entrevista com o jornalista Murilo Rocha, co-autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”, ele explica: 

"A Vale desenvolve um sistema super tecnológico de monitoramento de barragens e algumas medidas na tentativa de evitar. Mas o que a gente percebe, e eu estou falando do intervalo primeiro de Mariana a Brumadinho, é que, mesmo com essas medidas, a questão da produção, de não parar a produção, sendo bem claro, de manutenção do lucro, da atividade, da mineração, se sobrepôs a todos esses processos. No momento que se constatou que a barragem tinha um risco de ruptura, se constatou isso mais ou menos um ano e dois meses antes dela romper, esses padrões de segurança foram ignorados. Todo padrão foi desenvolvido. Na hora que falou assim, olha, ela opera com um fator de segurança abaixo do permitido. Aí, de repente, quando eles viram isso, eles preferiram maquiar isso. Falaram, não, porque se tivesse que fazer alguma coisa, ia ter que parar a produção. Iam ter que parar a produção da mina lá, do complexo. Então, eles preferiram, apesar de toda a tecnologia da legislação, das normas internas, eles preferiram ignorar, omitir, negligenciar, continuar com a operação, para não ter que parar a atividade de uma barragem."

Três anos antes, Minas Gerais havia sofrido os efeitos da queda da barragem de Mariana. Em Mariana, mesmo com uma barragem cinco vezes maior que a B1, o grande alvo da tragédia foi o meio ambiente, que sofre até hoje, e 19 pessoas foram declaradas mortas. O contrário pode se dizer sobre Brumadinho, em que o maior alvo foi a vida humana.

As vítimas

Murilo, foi questionado sobre a interação que teve com a família das vítimas durante o período de escrita. O autor revelou que se surpreendeu com as respostas, inicialmente, pois percebeu o sentimento dúbio dessas vítimas. “Se orgulhavam muito, gostavam muito de trabalhar para a Vale, porque a Vale pagava nem, era uma empresa considerada séria, e que tinha uma série de benefícios, né, eles gostavam de trabalhar para a Vale.” 

Mas logo em seguida, Murilo conta que a parte mais tocante eram as histórias, e a tristeza dos familiares de terem encontrado os corpos dos parentes incompletos. 

“Os bombeiros falavam em segmentos corpóreos. Eles localizavam segmentos corpóreos. Nem dá para falar em pedaços, às vezes eram só segmentos de corpo. Então, esse processo, para as famílias das vítimas, foi muito doloroso. Esse par de reconhecimento, ter que achar fragmentos de corpo para reconhecer… tem gente que enterrou o braço, tem gente que enterrou a perna. E depois que enterrava, o IML ligava de novo e achava outro segmento. Então, é uma morte que não acaba nunca.”
 

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Avalanche de lama que vazou da barragem da Vale em Brumadinho arrastou corpos por até 10 quilômetros — Foto: Alex de Jesus / O Tempo/ Arquivo

 

Os últimos anos

Após Brumadinho, a realidade que ficou a se enfrentar era a enorme autonomia que as mineradoras tinham no país, o setor minerário no Brasil era autorregulado, sem uma fiscalização genuína por parte do Estado. Uma vez que as mineradoras diziam que suas barragens eram seguras, elas eram. Sem questionamentos. Sem provas concretas.

Por isso, foi surgindo um grande terror após o dia 25 de janeiro de 2019. No rescaldo de uma trágica calamidade, veio à tona a revelação de que várias barragens apresentavam possíveis problemas, gerando um clima de insegurança. Imediatamente após o incidente, as empresas responsáveis pelas barragens optaram por declarar estado de emergência. Em uma reação surpreendente, começaram a realocar comunidades que residiam nas proximidades, indicando uma desconfiança em relação à segurança das estruturas.


A revelação trouxe à luz a falta de confiança nas garantias de segurança das mineradoras. O temor generalizado provocado pela tragédia instigou as próprias empresas a admitirem a possibilidade de problemas em suas barragens. O resultado foi uma ação de autorregulação, com as mineradoras assumindo um papel proativo na evacuação de áreas de risco. Este comportamento aponta para um cenário em que, na ausência de uma fiscalização rigorosa por parte do Estado, as empresas do setor se auto gerenciavam, transformando o papel do Estado em uma mera formalidade burocrática. Apenas um carimbador de papéis.
Mas depois de Brumadinho, iniciou-se um movimento de desativar as barragens a montante no Brasil. Hoje em dia, 65 barragens deste tipo ainda existem no Brasil. 44 delas em Minas Gerais. Mas é um processo lento e caro.


“Eu não colocarei minha mão no fogo se ocorresse outra tragédia. Eu acho que nem eles colocam a mão no fogo, ninguém nessa... Eu acho que o que eles passaram a fazer, eles, as mineradoras, não necessariamente o governo, eles melhoraram esses métodos de fiscalização deles, monitoramentos. Muito porque isso causou um impacto muito ruim para o setor. Eu digo impacto financeiro. Então, assim, para não perder dinheiro, eles estão realmente, talvez, eles próprios, monitorando melhor essas atividades.” Disse o jornalista, Murilo Rocha, quando questionado sobre o descomissionamento das barragens.
O acordo de reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem em Brumadinho, no valor de R$ 37,6 bilhões, celebrado entre o governo do estado, a Vale e as instituições de Justiça, completará dois anos.


Até o momento, a empresa desembolsou aproximadamente R$ 23,6 bilhões, corrigidos pela inflação, o que representa 58% do montante total. A Vale comunicou que "mais de 13,5 mil pessoas já formalizaram acordos de indenização para reparação dos danos decorrentes do rompimento da barragem B1 em Brumadinho, e em virtude das evacuações em outras regiões". A empresa revelou que, no período de janeiro de 2019 a dezembro de 2022, destinou um montante total de R$ 37,2 bilhões para indenizações individuais e iniciativas de reparação.


Outras ações em andamento incluem:

  • Pagamento de auxílio financeiro a 109 mil pessoas impactadas;
  • Fortalecimento dos serviços públicos em Brumadinho e outros 25 municípios afetados;
  • Investimento de R$ 248 milhões na modernização do complexo de saúde de Brumadinho, abrangendo UPA, hospital e centro de especialidades;
  • Distribuição de máquinas pesadas para manutenção de estradas rurais nos municípios da bacia do Rio Paraopeba;
  • Recuperação da MG-060, no trecho entre Esmeraldas e São José da Varginha;
  • Obras e reformas em hospitais da Rede Fhemig;
  • Construção de bacias de contenção de água da chuva no Córrego Ferrugem, em Belo Horizonte;
  • Recuperação ambiental de cerca de 42 hectares com o plantio de aproximadamente 55 mil mudas.

O meio ambiente

Perto de completar 5 anos, o rompimento da barragem de Brumadinho deixou marcas e um impacto na fauna e flora imensuráveis. A recomendação de não utilização da água bruta do Rio Paraopeba para qualquer fim, entre Brumadinho e Pompéu permanece. 
 
De acordo com o relatório divulgado ainda em 2019, após alguns dias da tragédia, cerca de 125 hectares de florestas foram perdidos, sendo o equivalente a mais de um milhão de metros quadrados ou 125 campos de futebol.  A lama percorreu mais de 300km, e afetou 18 municípios, entre essas regiões afetadas se localiza a aldeia indígena Naô Xohã, que fica a 22km de Brumadinho e foi extremamente afetada pela poluição da água. A população da aldeia, dependia do rio para a pesca e demais tarefas, segundo o cacique Háyó Pataxó Hã-Hã-hãe um odor

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Devastação provocada pela lama na natureza. Foto: Cavex\ Divulgação

A Vale possui projetos ambientais em andamento como forma de reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem. Mas ainda assim, o impacto da tragédia na natureza “será sentido por anos” advertiu a ONG WWF- BRASIL.


O desenvolvimento judiciário 

Foi só em janeiro de 2023, dois dias antes do rompimento da barragem completar quatro anos, que a Justiça Federal acatou a denúncia feita pelo Ministério Público Federal (MPF) contra 16 pessoas e as empresas responsáveis pela barragem do Córrego do Feijão, a Vale e a Tüv Süd.  Os envolvidos foram acusados por crimes contra o meio-ambiente, e também de homicídio qualificado. 

Segundo a investigação, a realização de perfurações verticais foi o estopim para a liquefação que levou ao rompimento da estrutura, que já estava frágil. A investigação também mostra que a consultora Tüv Süd emitiu Declarações de Condição de Estabilidade falsas, que permitiram que a estrutura continuasse funcionando normalmente mesmo com o nível de segurança abaixo do recomendado pelos padrões internacionais. A Vale também sabia da situação e apresentou as declarações às autoridades. 

Em uma entrevista ao G1, a vice-presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo rompimento da barragem (Avabrum), Andressa Rocha, fala sobre a impunidade dos denunciados nesse processo:  “"É impressionante como os réus estão escolhendo por quem querem ser julgados. Esse não agir da Justiça e essa paralisação fazem com que nosso sofrimento só aumenta. Quem são os responsáveis pelo crime da Vale em Brumadinho? Essa ausência de resposta deixa a gente em uma situação de prisão", afirmou Andressa. O único filho de Andressa, Bruno Rocha, que trabalhava na Vale, foi uma das 270 vítimas da tragédia. 

Até o final desta matéria, ninguém tinha sido responsabilizado pelos crimes cometidos.


Ao ser questionado se ainda há alguma coisa que deve ser feita, Murilo Rocha finalizou a entrevista assim: 

"Eu acho que do ponto de vista social, cabe a nós, da imprensa, continuar dando visibilidade para o que está acontecendo lá. Acho que é fundamental dar visibilidade para as famílias das vítimas, acompanhar o processo judicial, o processo criminal, ambiental e o drama das pessoas. Acho que a gente tem que mostrar, tem que, todo ano, fazer o aniversário, os protestos, porque essas pessoas sentem-se desamparadas. No fim, elas têm, claro, advogados e tal, mas a gente sabe que a imprensa é fundamental para dar essa visibilidade. Então, acho que cabe a nós mostrar essa morosidade da justiça, essa injustiça da justiça. Cabe a nós continuar apontando o dedo no que está errado ali. Acho que esse é o nosso papel enquanto imprensa, ouvir, dar voz a eles, dar protagonismo para eles, porque muitas vezes, realmente, eles são atropelados no processo. São fechadas as indenizações com o Estado e tal, com o governo federal, e, às vezes, eles ficam de fora, eles não são ouvidos. Então, acho que passa muito... Ainda há alguns corpos a serem achados, não sei se ainda é possível, porque já são cinco anos passados. Mas, enfim, os bombeiros continuam lá, até para dar uma satisfação para as pessoas que não tiveram os corpos localizados. Mas acho que o mais importante é continuar cobrindo essa luta, os dramas."

Esta reportagem foi produzida como atividade extensionista do curso de jornalismo da PUC-SP.

Alguns de seus efeitos já são sentidos pelos brasileiros, como o aumento dos termômetros nas cidades em pleno inverno
por
Davi Alves Pinto
João Paulo Di Bella Soma
Pedro Premero
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13/11/2023 - 12h
Floresta em chamas

 

Antigamente, algumas tribos indígenas utilizavam o fogo para fertilizar o solo, realizando  queimadas controladas, sem o risco de se alastrar para o restante da floresta. No entanto, nos dias de hoje, as queimadas são utilizadas para a expansão da agricultura e agropecuária, principalmente nas regiões do cerrado e da floresta amazônica. Esta prática tornou-se uma opção atrativa devido à sua rapidez e baixo custo para limpar áreas desmatadas. As consequências dessa abordagem podem ser desastrosas, tornando extremamente difícil a recuperação das áreas afetadas. Os impactos não se limitam apenas ao Brasil, mas reverberam globalmente, representando uma ameaça irreparável para o meio ambiente.

No primeiro semestre de 2023 foram queimados 2,15 milhões de hectares, evidenciou o levantamento da MapBiomas. A pesquisa ainda mostra que 68% de todas as queimadas no Brasil aconteceram na Amazônia, 1,45 milhão de hectares queimados. O cerrado teve 639 mil hectares destruídos, representando 30% das queimadas no país, sendo o segundo bioma mais afetado. Segundo Ane Alencar, coordenadora do MapBiomas Fogo e diretora de Ciência do IPAM, a poluição do ar decorrente das queimadas é um dos maiores problemas na floresta amazônica. "É mais um indicativo da necessidade de reduzir o uso do fogo na região, principalmente em anos como esse com ondas de calor frequentes e período de seca mais intenso decorrente do El Niño, fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico na sua porção equatorial" completa Alencar.

 

Queimadas por estado de 1º de janeiro até 22 de fevereiro de 2023
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)

 


Mas, quais são as causas das queimadas no Brasil? e as consequências? Nossa equipe de reportagem decidiu ir a fundo e investigar no que as mudanças climáticas recentes têm a ver com este dano ambiental majoritariamente causado pelo homem.

 

Apocalipse?

Em São Paulo, maior cidade do país, faz 5 anos que, ao menos uma vez ao ano, o céu fica escuro e faz o dia virar noite. Mas não por um eclipse solar ou tempestade, ou até praga bíblica, e sim por conta dos incêndios que ocorrem por toda a flora brasileira, a maioria esmagadora dessas queimas tem origem justamente na ação humana.

Mas é verdade que as nuvens que escurecem parte do país não eram apenas “fumaça”, trata-se de dois fenômenos, um meteorológico e outro antrópico, que se juntaram. é o que afirma o professor Ricardo Marcílio em seu canal no YouTube “Trata-se de um fenômeno natural nessa época do ano. a MPA (Massa Polar do atlântico) vem do sul erguendo vapor quente e úmido onde passa e formando nuvens densas que não permitem a passagem de luz (...) junto com outro fenômeno natural e antrópico das queimadas no centro-oeste, que acaba condensando a fumaça que vinha do continente e torna tudo ainda mais ‘escuro’”

 

Foto tirada no dia 19/8/2019 por Bruno Ulivieri/Ofotográfico

 

É fato que as queimadas não são apenas causadas pela ação humana, mas as atividades mais  custosas ao meio ambiente são as atividades da agropecuária. Segundo o monitoramento do MapBiomas sobre a Evolução Anual da Cobertura e Uso da Terra (1985-2022), 50% da área de mata nativa do Cerrado, o bioma brasileiro mais afetado pelo fogo nos últimos 5 anos, hoje está dedicada ao agronegócio, sendo a maior parte dedicada à criação de gado.

No pantanal, uma das regiões onde ocorreram as queimadas que escureceram o céu da capital paulista, o cenário se repete: 99% do território onde se pratica a agropecuária é atribuído a pastagem de boi. O cultivo de gado, inclusive, está totalmente atrelado a este movimento expansivo-agressivo no Brasil. Pois justamente é o boi que necessita de espaço e uma vegetação campestre para poder ser criado em massa.

 

Solo empobrecido

Na agricultura a técnica da queimada é usada, mas não é benéfica, visto que a queimada tem consequências praticamente irreversíveis no solo, segundo estudo publicado pela Embrapa: o incêndio altera, direta ou indiretamente, as características físicas, químicas, morfológicas e biológicas dos solos, como o pH, teor de nutrientes e carbono, biodiversidade da fauna, temperatura, porosidade e densidade.

 

Foto/Reprodução: Jacto

 

Este processo torna o campo extremamente pobre para qualquer cultivo que não seja a monocultura geneticamente modificada. Isso empobrece não somente o chão, mas também a própria qualidade do alimento, além de secar lençóis freáticos, podendo, literalmente, criar um deserto a longo prazo.

As consequências imediatas das queimadas nos últimos anos no Brasil representam um desafio complexo, envolvendo não apenas impactos ambientais, mas também sociais e econômicos. O aumento significativo dos focos de incêndio, intensificado pelo desmatamento, coloca em risco a diversidade biológica, compromete a qualidade do ar e representa uma ameaça para as comunidades locais. A relação entre as queimadas e o desmatamento, como indicado por especialistas, ressalta a necessidade urgente de estratégias integradas de preservação e conscientização. O alarmante aumento no número de incêndios na Amazônia, superando registros anteriores, requer medidas imediatas para mitigar os danos e preservar um patrimônio natural essencial não apenas para o Brasil, mas também para o equilíbrio ambiental global.

 

Impactos das queimadas

As queimadas têm um impacto direto na natureza brasileiro, várias espécies, tanto de planta quanto de animal, acabam sofrendo. Uma pesquisa feita entre 2001 e 2019 pela  Universidade do Arizona (EUA), com participação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) analisou 11.514 espécies de plantas e 3.079 espécies de animais vertebrados, entre aves e mamíferos. Dos que já estavam ameaçados de extinção, entre 70% e 85% perderam grande parte de seus habitats naturais pelo fogo. Na Amazônia, há uma grande quantidade de plantas que têm propriedades medicinais, de alimentação, são mais de 2.000 mil registradas, de mais de 30.000 mil que participam do ecossistema, e grande parte pode ser perdida pelas queimadas.

Outros que são afetados com as queimadas são as tribos nativas, muitas de suas terras são invadidas e tomadas pelos agricultores para expandir as suas plantações. Esse número de invasões vêm aumentando nos últimos anos por conta da má fiscalização e medidas ineficientes do governo.

As queimadas também influenciam no aumento do efeito estufa, por conta da alta emissão de gás carbônico para a atmosfera e o aumento do aquecimento global. Esse calor intenso provoca queimadas naturais, principalmente no cerrado, onde é muito seco, e são muito difíceis de serem controladas, por ser em alta escala.

                      

 

Redução de danos

Vários dos dados que constam nesta reportagem foram retirados do site MapBiomas, organização que monitora mensalmente as atividades benéficas e maléficas ao meio ambiente Brasileiro e mundial, lá você pode acompanhar os acontecimentos e dados atualizados do desmatamento no Brasil.

Além do MapBiomas, há também organizações sérias que ajudam no combate ao fogo nas matas brasileiras, como o instituto SOS Pantanal, uma das organizações não governamentais mais ativas e confiáveis no combate a queimadas no centro-oeste, que inclusive aceita doações, que serão convertidas de forma confiável e prestativa nesta batalha pelo meio ambiente.

A luta pelo meio ambiente próspero é de todos, inclusive dos que moram em meio urbanos, vamos cuidar para que o futuro continue a ser verde e a natureza resista.

 

Esta reportagem foi produzida como atividade extensionista do curso de Jornalismo da PUC-SP

A “selva de pedra” vai além de concreto e dias cinzentos
por
Isabelli Albuquerque
|
12/11/2023 - 12h

A maioria das pessoas ao pensar na cidade de São Paulo imaginam um lugar caótico e lotado de prédios – o que não deixa de ser verdade, mas a cidade tem muito mais a oferecer além de edifícios e mais edifícios. Mesmo sendo uma grande metrópole, a capital paulista é a sexta cidade mais arborizada do país, contando com 113 parques e áreas verdes espalhadas por seu território.

O ensaio fotográfico a seguir mostra apenas uma pequena parcela da natureza encontrada em São Paulo, focando no centro da cidade, onde é possível encontrar diversas árvores dobrando uma esquina.

Largo do Paissandú visto da Galeria do Rock. Foto: Isabelli Albuquerque 
Praça da República. Foto: Isabelli Albuquerque 
Esquina da Avenida Ipiranga com a Avenida São Luís. Foto: Isabelli Albuquerque 
Jardim da Prefeitura de São Paulo e Viaduto do Chá. Foto: Isabelli Albuquerque 

 

Shopping Light. Foto: Isabelli Albuquerque 

 

Vale do Anhangabáu. Foto: Isabelli Albuquerque 
Edifícios no Vale do Anhangabau. Foto: Isabelli Albuquerque 

 

Funcionários de cooperativas de reciclagem não têm reconhecimento dos governos e seus trabalhos são desvalorizados
por
Laura Paro
Yasmin Solon
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21/11/2023 - 12h

Por Laura Paro (texto) e Yasmin Solon (audiovisual)

 

Montanhas e montanhas de lixo, mais especificamente de materiais recicláveis. Pessoas trabalhando incessantemente, separando cada reciclável com suas próprias mãos e colocando em sacos grandes. Mais oito toneladas de lixo chegam para continuar o trabalho do dia. Essa é a rotina da Associação Vinte e Oito, uma das quase trinta cooperativas de reciclagem habilitadas em São Paulo.  Localizada em um galpão atrás de uma viela na Avenida Sapopemba do bairro Jardim Adutora, no extremo da zona leste da capital paulista, a cooperativa surgiu há cerca de 10 anos. O caminho até lá, partindo do centro da capital, é longo: um ônibus, um trajeto de metrô, um trajeto de monotrilho e depois uma viagem de 20 minutos de carro, totalizando aproximadamente uma hora e meia até o destino final. Ao chegar lá, o que se vê primeiro são pilhas de lixo reciclável em um local amplo, quase todo a céu aberto, e pessoas separando manualmente, em sacos grandes, cada variedade de material.

 

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Montanha de lixo reciclável, vista logo na entrada da Associação Vinte e Oito. / Imagem: Yasmin Solon

 

Marlene, a presidente da entidade, lida diariamente com essas montanhas de lixo. Ela conta que a organização surgiu não só para promover melhorias no meio ambiente, mas também para ajudar pessoas necessitadas: a maioria dos funcionários é composta por mulheres que antes estavam desempregadas, com filhos e em situações difíceis. Ela conta que o trabalho na cooperativa funciona a partir da reciclagem e os funcionários, ao receberem mais de oito toneladas de lixo por dia, separam os materiais por categoria (plástico, papel, papelão, metal, entre outros). Depois de passar por muitos outros processos, o material é vendido a várias empresas, que compram por quilo e por um preço absurdamente barato comparado ao trabalho árduo, pesado e braçal que é realizado ali, por pouco mais de 70 pessoas. Quando fundou a cooperativa, o que ela mais queria era ajudar a situação do bairro e empregar as pessoas que necessitavam de ajuda, e foi exatamente isso o que foi feito – essa é a principal função da associação por trás de “somente” separar o lixo. É no sentido de que, por trás de toneladas de papelões e plásticos das mais diversas especificidades e estados, pessoas vulneráveis encontram uma forma de renda para sustentar a família e ainda de poder manter o forte compromisso com o meio ambiente.

A questão é que a invisibilidade de uma atividade importante como essa é a realidade atual da cooperativa e das pessoas que trabalham lá. Ao passarem horas embaixo de um sol escaldante ou na chuva intensa para analisar o que de fato é material reciclável e o que é lixo, dão alguma dignidade merecida para o meio ambiente – uma ação que deveria ser feita juntamente com todos os habitantes do Planeta, mas que na verdade preocupa apenas alguns cidadãos que são os que se propõem a fazer. E mesmo assim, essas pessoas não têm o reconhecimento merecido e digno, algo que faz parte do mínimo para viver bem.

Uma dessas pessoas é Patrícia, de 31 anos, que tem duas filhas pequenas e começou a trabalhar na entidade depois de se sentir na necessidade de ter uma renda mínima para sustentar suas filhas. Ela conta que, em lugares como este, as pessoas não têm valor e são tratadas como lixo; mas que mesmo assim, ela aprecia o que faz. Patrícia encontrou não só uma forma de ajudar financeiramente a família, mas também de ajudar a natureza em que ela e toda a sociedade vivem.

 

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Patrícia, à esquerda, e Marlene, à direita. / Imagem: Yasmin Solon

Além disso, ao reforçar ser possuidora de um trabalho digno como qualquer outra pessoa, Patrícia conta que não sabe como seria a vida e o ambiente caso não existissem as cooperativas. Uma atividade que deveria ser feita por todos dentro de suas próprias casas, na realidade, é um trabalho considerado invisível pela sociedade. E é com esse descuido das pessoas que vivem os catadores, com uma vida difícil e muitas vezes mínima. Patrícia diz que eles cuidam de algo que, na verdade, deveria ter sido cuidado por todas as pessoas em todos esses anos de vida; não é somente sobre as oito toneladas que a associação recebe por dia, mas sim, sobre o acúmulo de lixo e descuido que tem transformado o ambiente em um lugar quase que inabitável.

Na verdade, aqueles que lidam com o que a maioria pensa ser um problema do governo, sequer são assistidos por este. Marlene contou e Patrícia criticou o corte na distribuição das cestas básicas que contribuem para a renda e subsistência de famílias que eram fornecidas pela prefeitura. Além disso, a presidente relata que o problema principal reside nas condições que os recicladores se encontram, devido ao baixo retorno financeiro da associação, que até final do ano passado era melhor. Este ano, o preço dos materiais baixou muito e, consequentemente, a renda mensal dos trabalhadores sofreu uma grande queda. Isso tudo porque a cooperativa se mantém de forma independente, não possuindo nenhum auxílio do governo ou qualquer patrocínio, sendo o dinheiro escasso até para comprar materiais de trabalho (como luvas que seriam usadas no manuseio do lixo) ou para comprar as cestas básicas aos trabalhadores, que atualmente estão suspensas.

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Trabalhadores separando uma parte do material já reciclado, pronto para ser vendido. / Imagem: Yasmin Solon

Marlene conta que, mesmo sendo difícil e mesmo sem o amparo necessário do governo, a entidade se mantém funcionando. De acordo com a presidente e a Patrícia, a atividade de reciclagem é feita por amor e força de vontade, pois financeiramente a entidade não obtém muito retorno. A associação tem dificuldades em manter os seus compromissos financeiros e, segundo Marlene, a situação fica ainda mais complicada com os funcionários, que precisam desse dinheiro para sobreviver.

A reciclagem deveria ser reconhecida por todas as pessoas de uma sociedade e praticada individualmente e diariamente por todos. As cooperativas, que se envolvem na pauta ambiental e executam esse trabalho indispensável ao ecossistema, não possuem o apoio e o reconhecimento que deveriam ter. É um trabalho árduo em prol de um ambiente mais saudável, mas os envolvidos não possuem sequer uma vida digna. É nesse sentido em que, infelizmente, com uma pauta tão importante e necessária como essa, se perpetua a negligência por parte do governo, o que é também uma forma de desprezar os trabalhadores envolvidos que são considerados invisíveis.

 

 

Nova vegetação é alternativa para a desertificação causada pelo desmatamento no local
por
Ana Julia Bertolaccini
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30/10/2023 - 12h

O reflorestamento feito por um dos vizinhos da Avenida Paulo Azzini em Mairinque (cidade do interior de São Paulo) é exemplo bem sucedido de uma alternativa para reverter a desertificação causada pelo desmatamento. Neste local, a duplicação da via e a retirada dos eucaliptos para venda causaram a degradação da vegetação local. O desmatamento e a perda de solo fértil e produtivo intensificam os efeitos da crise climática que o planeta enfrenta, recentemente classificada como fase de “ebulição global” pelo secretário-geral da ONU (União das Nações Unidas), pois a redução do número de árvores é uma das causas do efeito estufa. Iniciativas de reflorestamento como essa servem de inspiração para a construção de uma consciência ambiental, necessária para a desaceleração de um dos maiores problemas ambientais da atualidade.

foto 1
Espécie de planta com textura aveludada, encontrada na Avenida Paulo Azzini// Autor: Ana Julia Bertolaccini
foto 2
Espécie plantada recentemente// Autor: Ana Julia Bertolaccini
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Folhas de pé de manga//Autor:Ana Julia Bertolaccini
foto 4
Espécie de planta com folha grande e brilhosa// Autor: Ana Julia Bertolaccini
foto 5
Espécie de planta popularmente conhecida como Espada-de-São-Jorge// Autor: Ana Julia Bertolaccini
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 Avenida Paulo Azzini, Mairinque- SP// autor: Ana Julia Bertolaccini