Para Rafael Morales, consumidores e mercado também têm papel importante na cobrança de sustentabilidade
por
Gustavo Song Jun Choi
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03/12/2025 - 12h

A inteligência artificial, também conhecida como IA, tornou-se uma conveniência na vida das pessoas tão importante quanto o smartphone ou a internet. No entanto, também é um grande alvo de polêmica por conta das especulações sobre seu potencial destrutivo contra a humanidade e o meio ambiente.  

Segundo Rafael de Carvalho Morales, profissional de tecnologia, professor e consultor da área de sustentabilidade, um dos impactos mais significativos é o consumo de água, usada pelos data centers para regular o sistema de resfriamento de seus diversos servidores. 

Rafael de Carvalho Morales, consultor de sustentabilidade.
Rafael de Carvalho Morales - Foto: Divulgação


“Tem alguns casos de construção de data centers em áreas de escassez hídrica, ou seja, em locais com pouca água”, diz Morales, alertando para as possíveis consequências de operações desse tipo. “Se você acabar com a água desse lugar, a cidade vai ficar sem água, a população vai ficar sem água e o entorno também vai sofrer com isso.”

O consultor também destaca a degradação ambiental provocada pela mineração de recursos necessários para a fabricação de peças utilizadas nos data centers, como lítio, cobre e silício. Trata-se de minerais escassos e valiosos, cuja extração, se não for gerenciada devidamente, produz o risco de um esgotamento rápido das reservas.

De acordo com o consultor, a falta de compromisso das empresas de tecnologia com a rastreabilidade da cadeia de minérios que fazem parte das unidades de processamento acaba estimulando uma técnica de extração de recursos de altíssimo impacto, que é a mineração artesanal. Mais conhecida como garimpo, esse modelo é mais prejudicial ao meio ambiente do que até mesmo a mineração industrial, pela falta de regulação e código de conduta apropriados. “É um grupo de pessoas, coordenadas ou não, que vão para uma determinada localidade em que se imagina que tenha minério e mineram com práticas de alto impacto, com uso de mercúrio e outros métodos nocivos para a natureza”, explica Morales. 

Sobre possíveis formas de minimizar os impactos, o profissional diz que o Estado tem o papel de exigir, do ponto de vista legal, que as empresas adotem alguns princípios ao construir seus data centers, como a definição de limites para o consumo de água e a utilização de energia renovável. “Os Estados têm essa obrigação”, frisa Morales.

Ele também aponta a responsabilidade do mercado financeiro - que não deveria financiar operações sem compromisso com a sustentabilidade - e o papel dos próprios consumidores, que podem deixar de utilizar plataformas de empresas que não respeitam as normas ambientais.

Quando questionado sobre o futuro da humanidade e o lugar da IA nele, Moraes avalia que essa tecnologia veio para ficar, especialmente no contexto de uma sociedade no modelo capitalista de alta produtividade, que preza a produção de mais resultados com menos esforço e gastos. Neste sentido, diz ele, além de altamente lucrativa, a inteligência artificial se tornou uma “benção”, um acelerador de capital essencial para o atual estágio do capitalismo.  “Já vi pessoas que conheço e respeito falando que a IA vai ajudar muito na produtividade”, afirma, citando a perspectiva de criação de empregos e funções inexistentes hoje.

Ainda assim, o consultor reconhece os malefícios que, para além dos impactos ambientais, a tecnologia pode trazer, como a dependência nos usuários - considerando a relação praticamente inseparável que as pessoas têm com seus smartphones - e as consequências psíquicas do uso abusivo. 

 

A percepção de frequentadores, os impactos da febre amarela e as denúncias de captura clandestina em um dos parques mais antigos de São Paulo
por
Manuela Dias
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29/11/2025 - 12h

Antes conhecido pela presença constante de saguis, macacos prego, capivaras e aves diversas, o Parque Estadual Alberto Löfgren, na Zona Norte de São Paulo, vive um período de silêncio. Frequentadores afirmam que o número de animais diminuiu de forma drástica nos últimos anos, especialmente depois do surto de febre amarela que atingiu o estado entre 2016 e 2018. A mudança é perceptível para quem acompanha a rotina do parque há décadas.

A aposentada Maria Eliane, 78 anos, visita o Horto desde que chegou a São Paulo. “Eu vinha aqui com meus filhos pequenos e era cheio de vida. A gente mal conseguia contar quantos saguis apareciam. Era um atrás do outro. Hoje eu caminho por tudo isso e quase não vejo mais nenhum”, afirma.

Segundo Maria Eliane, a ausência de animais transformou a experiência de visitar o parque. “O Horto sempre foi um lugar vivo. Tinha barulho, tinha movimento dos bichos. Agora parece outro lugar. Não é que acabou, mas está tudo muito reduzido. Dá uma tristeza ver como mudou.”

Os lagartos se alimentam de insetos e pequenos invertebrados, essenciais para o equilíbrio ecológico até nos centros urbanos.
Os lagartos se alimentam de insetos e pequenos invertebrados, essenciais para o equilíbrio ecológico até nos centros urbanos. Foto: Manuela Dias/AGEMT

Capturas clandestinas e violência contra macacos

A diminuição dos animais não é percebida apenas por visitantes antigos. Moradores do entorno também afirmam ter presenciado situações que podem ter contribuído para a redução da fauna.

Um deles, que pediu para não ser identificado, disse que presenciou capturas clandestinas dentro do parque. Ele conta que pessoas entravam por áreas menos movimentadas e montavam armadilhas para capturar pequenos mamíferos. O morador afirma ainda que, durante o período mais crítico da febre amarela, presenciou cenas de violência contra macacos. “Eu vi gente matando macaco. Eles achavam que o macaco transmitia a doença. Era ignorância. Os macacos eram vítimas, como nós. Pegavam o vírus e morriam também. Mas muita gente não entendia e atacava os bichos. Eu vi isso acontecer.”

A Secretaria de Meio Ambiente e órgãos estaduais chegaram a registrar casos de agressão a primatas na época do surto. Especialistas reforçaram, repetidamente, que os macacos não transmitem a febre amarela. Eles funcionam como sentinelas, indicando a circulação do vírus e permitindo que autoridades reforcem a vacinação.

Os animais vistos pelas câmeras

Fotografias recentes mostram que, apesar da diminuição, ainda há vida silvestre no Horto. Aves, patos e tartarugas são os mais comuns de serem vistos.

O mergulhão observa o reflexo da luz e escolhe o ângulo certo para capturar peixes sem perder tempo.
O mergulhão observa o reflexo da luz e escolhe o ângulo certo para capturar peixes sem perder tempo. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Em várias cidades, teiús vivem próximos a parques e córregos e seguem discreta convivência com humanos.
Em várias cidades, teiús vivem próximos a parques e córregos e seguem discreta convivência com humanos. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Coloridas e serenas, as carpas não são só ornamentais. Elas ajudam a controlar algas e pequenos organismos, mantendo o equilíbrio dos lagos artificiais.
Coloridas e serenas, as carpas não são só ornamentais. Elas ajudam a controlar algas e pequenos organismos, mantendo o equilíbrio dos lagos artificiais. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Patinhos aprendem rápido. Nos primeiros dias de vida já conseguem nadar e seguir a mãe em longas caminhadas até encontrar água.
Patinhos aprendem rápido. Nos primeiros dias de vida já conseguem nadar e seguir a mãe em longas caminhadas até encontrar água. Foto: Manuela Dias/AGEMT

 

 

Com 96 anos, parque reúne histórias e grande papel ecológico na cidade que nunca dorme.
por
Isabelle Muniz
Maria Julia Malagutti
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06/11/2025 - 12h

Fundado por Fernando Costa e localizado próximo à Avenida Francisco Matarazzo, o Parque da Água Branca é um dos pontos de encontro mais tradicionais de São Paulo, reunindo famílias, atletas, crianças e até amantes de rodeios. Verdadeiro refúgio verde em meio à cidade de pedra, o parque abriga árvores típicas da Mata Atlântica, como pau-brasil, cedro, grumixama e canela-cheirosa, além de cerca de 190 espécies de flora e mais de 40 espécies de aves catalogadas, segundo pesquisas. Sua área atual ocupa aproximadamente 136 mil metros quadrados, e o espaço carrega consigo um rico valor histórico. 

Em 2025, o parque completa 96 anos de existência. Hoje, oferece diversas atrações, como feiras orgânicas, um aquário, e o Museu Geológico Valdemar Lefèvre (MuGeo), que reúne rochas, minerais e fósseis. No entanto, sua origem é mais antiga: o local foi idealizado por Antônio da Silva Prado para abrigar a Escola Prática de Pomologia e Horticultura, voltada ao ensino de atividades agrícolas. A escola funcionou até 1911, e anos depois o espaço deu lugar ao parque que se tornaria um dos patrimônios mais queridos da cidade de São Paulo. 

Já em 1928, o ex-governador Júlio Prestes, juntamente ao agrônomo Fernando Costa, transformaram a área, que até então era uma escola, na sede da Diretoria de Industria Animal, e um ano depois, com sua inauguração, foi batizado de Parque Doutor Fernando Costa. A arquitetura presente no parque é razão de destaque entre os frequentadores, as características rurais se misturam com os traços normandos das construções. Telhados inclinados e portas em arco com enormes janelas juntamente portões de ferro ornamentais, dão todo o charme do parque. Todos os edifícios permanecem originais desde 1929. 

Em 1996, o local foi tombado como patrimônio histórico, cultural, arquitetônico, turístico, tecnológico e paisagístico pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado). Com o tempo, a ênfase no lazer se aprofundou e o parque passou por uma expansão. A implementação de lagos artificiais, playgrounds, quiosques, espaço para leitura e diversas atrações em datas comemorativas, trouxe uma grande atenção do público, sendo altamente frequentado nos dias de hoje. 

 

Parque da Água Branca na entrada. Foto: Isabelle Muniz / Agemt
Entrada do Parque da Água Branca. Foto: Isabelle Muniz / Agemt

Em entrevista à Agemt, a engenheira ambiental Thamires Lino, pós-graduada em Engenharia de Segurança do Trabalho e com 12 anos de experiência na área ambiental, especialmente em licenciamento, gestão ambiental e gestão de resíduos, destacou a importância dos parques urbanos como verdadeiros refúgios de ar puro nas cidades. Segundo ela, esses espaços promovem bem-estar e saúde à população por meio das áreas de lazer e recreação que oferecem. Thamires ressalta que a preservação dos parques é essencial: “Os parques urbanos favorecem a biodiversidade de plantas e animais. Por meio da conservação, o ambiente se mantém em equilíbrio, contribuindo muito para a continuidade da vida no local”. A engenheira também enfatiza o papel ecológico desses espaços e a relevância de parques como o da Água Branca, em São Paulo. “A vegetação ajuda na regulação térmica, combatendo os efeitos da ilha de calor, além de absorver CO₂ e atuar como um filtro natural”. 

Assim, a presença dos parques vai muito além do entretenimento, trata-se de um elemento fundamental para o equilíbrio ambiental urbano. Thamires ainda reforça a importância da participação da população na conservação desses espaços: “Usar os parques de forma consciente, respeitar as orientações de permanência, o descarte de resíduos e evitar alimentar os animais são atitudes fundamentais para sua preservação”. Por fim, ela destaca que os pilares para a manutenção dos parques estão nas ações conjuntas da gestão pública, com as equipes de zeladoria e manutenção, e no comprometimento dos visitantes em cuidar desses espaços. 

Deve-se ressaltar o grande afeto do público pela área, durante um instante de lazer no parque, Lina, aposentada de 64 anos, informou que o parque é “maravilhoso”, afirma que há diversas memórias marcantes nele e o visita com frequência, “Lembro quando os fazendeiros distribuíam leite para nós, davam brinquedos para as crianças... É um parque bem familiar, meus filhos que hoje já são homens, cresceram aqui.”. A visitante afirma que a característica mais marcante da área é o sossego e a paz que ela transmite “É minha vida isso aqui, aqui é tudo”, informa que sempre que se sente sozinha, costuma frequentar o parque, sente “paixão” pelo verde e pela vasta vegetação. 

Movimentos sociais e ONGs ambientais organizaram uma “COP Paralela” para colocar a sociedade civil no centro do diálogo
por
Anna Cândida Xavier
Camila Bucoff
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12/11/2025 - 12h

A COP é a reunião anual dos países membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), para discutir medidas de combate à crise ambiental. Desde 1992, a Cúpula dos Povos acontece junto à conferência. Um evento autônomo, da sociedade civil, que reúne movimentos sociais, indígenas, quilombolas, camponeses e coletivos. Segundo o site oficial da organização, “a cúpula se ergue como um grito de resistência, um eco das vozes silenciadas pela desigualdade”.

Ela recebe o nome de “COP Paralela” por conta da localização física e temporal em relação à estrutura formal da ONU e por seu caráter crítico e alternativo quanto ao conteúdo e aos participantes. 

A Cúpula dos Povos irá inaugurar uma “Zona da Rua”, aberta para todos. Essa brincadeira com a “Zona Verde” e a “Zona Azul” que compõem a estrutura oficial da COP, também é uma crítica à centralidade do setor privado e das autoridades no debate climático. “A Cúpula é um chamado à ação por uma transição justa e solidária, onde ninguém é deixado para trás”, afirma o site oficial do encontro.

O movimento da “COP Paralela” compreende que a Conferência das Partes na Amazônia representa uma oportunidade de recuperar o diálogo com comunidades indígenas, tradicionais e periféricas – aquelas que menos contribuíram para a crise climática, mas que mais sofrem com seus impactos. O principal intuito desses movimentos sociais e ONGs é que as indústrias que mais poluem o mundo não norteiem mais as negociações.

Contudo, nas últimas três edições, a Conferência das Partes ocorreu em países com restrições à livre manifestação. Em 2022 foi realizada em Sharm el-Sheikh, no Egito; em 2023 em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos e em 2024 em Baku, no Azerbaijão. 

No Brasil, a história é diferente. Os primeiros dias da COP 30 já foram marcados por atos e manifestações pacíficas. Nessa segunda-feira (10), um grupo de manifestantes vindos do México realizou um protesto simbólico em frente à entrada da Zona Azul em Belém. Deitados no chão e cobertos por lençóis, eles buscaram chamar a atenção para a morte, desaparecimento e prisão de defensores do meio ambiente. 

Ações como essas voltam os olhares da população para fora da área restrita a negociadores oficiais. Dentro da Zona Azul, circulam diplomatas, ministros, chefes de delegação e lobistas do petróleo e do agronegócio negociando o futuro do planeta por trás de portas fechadas.

Na última quarta-feira (5), ativistas brasileiros se reuniram para lembrar os 10 anos do desastre de Mariana. Em 5 de novembro de 2015, o maior crime socioambiental da história do Brasil aconteceu: a barragem de Fundão rompeu-se em Mariana, Minas Gerais. A barragem era operada pela Samarco, uma joint venture entre a Vale e a BHP. A lama tóxica varreu o distrito de Bento Rodrigues e seguiu pelo Rio Doce até o litoral do Espírito Santo. O fluxo de lama tóxica matou 19 pessoas, destruiu comunidades e contaminou um dos rios mais importantes do país.

Esse ano, porém, a Vale é uma das maiores patrocinadoras da cobertura jornalística na COP 30. Segundo levantamento do Intercept Brasil, a mineradora está patrocinando a cobertura de oito veículos de comunicação diferentes. Entre eles, estão alguns dos jornais de maior circulação no Brasil, como a Folha de S.Paulo, O Globo e Valor Econômico, o jornal do Pará O Liberal, bem como a rádio CBN, a revista Veja, e os portais de notícias Neofeed e Brazil Journal. 

Por outro lado, a localização da conferência também facilita que alguns movimentos possam participar do evento. A presença de organizações que pressionam e questionam as autoridades é essencial, apresentando uma "declaração dos povos" com demandas por justiça climática, reparação histórica e ações mais contundentes para combater a crise climática. Fora dos espaços oficiais de debate, a “COP Paralela” se torna a maior área de diálogo da sociedade civil, onde os participantes buscam ampliar a participação popular, compartilhar experiências e construir consensos a partir da base, propondo soluções que vêm diretamente dos territórios e das comunidades afetadas.

Encontro reunirá líderes mundiais em Belém, no Pará, para discutir ações globais contra a emergência climática 
por
Anna Cândida Xavier
Camila Bucoff
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06/11/2025 - 12h

A COP (Conferência das Partes) foi criada, em 1995, a fim de promover o diálogo entre os países e estabelecer objetivos globais de combate à crise climática. Devido ao seu alcance multilateral, a conferência é vista por especialistas como um momento decisivo para o país reafirmar sua liderança ambiental, pressionar por financiamento e impulsionar a economia da floresta em pé. Este ano, a cúpula será sediada no Brasil, entre 10 e 21 de novembro. 

Como vai funcionar? 

O evento reúne representantes oficiais de 198 países, empresas privadas e a sociedade civil. Cada nação participante envia delegações de diplomatas, ministros e técnicos para debater compromissos climáticos junto ao secretariado da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (UNFCCC).  

As negociações são divididas em plenárias formais (seções de negociações) e grupos de trabalho temáticos (discussão de temas específicos) e as metas firmadas precisam ser consensuais, nas quais todos os países têm direito a voto. 

O evento também envolve reuniões de órgãos complementares da ONU, como as reuniões das Partes do Protocolo de Quioto (CMP) e do Acordo de Paris (CMA). O Protocolo de Quioto é um acordo internacional, firmado em 1997, que estabelece metas obrigatórias de redução de emissões de gases estufa para países desenvolvidos. Enquanto o Acordo de Paris é um tratado internacional, adotado em 2015, que define metas de redução emitidas pelos países de acordo com o seu contexto nacional.

Para garantir o seu funcionamento, a COP também conta com a atuação de dois apoios permanentes da ONU: o Órgão subsidiário de implementação (SBI) e o Órgão de Aconselhamento Científico e Tecnológico (SBSTA). 

O primeiro é responsável por acompanhar a aplicação prática das decisões e acordos adotados. Já o segundo tem a função de assessorar a COP em assuntos relacionados à ciência, tecnologia e inovação. 

Relevância da COP para o Brasil 

A escolha de Belém, no Pará, como sede do encontro simboliza a urgência da proteção das florestas e coloca o Brasil no centro das negociações climáticas globais. 

Foto: Ricardo Stuckert/PR - Reprodução/Agência Brasil

As discussões realizadas durante a conferência impactam as dinâmicas econômicas, sociais e geopolíticas em nível internacional e nacional. Nesta edição, temas importantes ganham protagonismo, como o financiamento climático, reforma dos bancos multilaterais e mobilização de recursos financeiros para a transição verde.

O governo brasileiro selecionou seis principais eixos para pautar o evento: a redução de emissões de gases de efeito estufa; a adaptação às mudanças climáticas; o financiamento climático para países em desenvolvimento; as tecnologias de energia renovável e soluções de baixo carbono; a preservação de florestas e biodiversidade; e, por fim, a  justiça climática e os impactos sociais das mudanças climáticas. 

Os tópicos selecionados estão intrinsecamente ligados ao contexto brasileiro. O Brasil é o maior detentor de área de florestas tropicais no mundo graças a Amazônia, cuja floresta armazena de 100 bilhões a 120 bilhões de toneladas de carbono em sua biomassa. Mesmo assim, um estudo publicado pela revista Nature em 2024, alerta que a Amazônia pode atingir o ponto de não retorno até 2025, se o ritmo de desmatamento atual se manter. 

Além de sua relevância ambiental, a Floresta Amazônica está no centro de debates sociais. Sua preservação está diretamente ligada à sobrevivência e à cultura dos povos indígenas, que há séculos desempenham um papel essencial na proteção do bioma. A destruição da floresta, portanto, também é uma ameaça à vida, aos direitos e à identidade dessas comunidades. 

Nesse sentido, espera-se que a COP 30 conte com ampla participação da sociedade civil, promovendo a justiça climática e dando voz a povos indígenas, comunidades quilombolas e grupos tradicionais e periféricos, que estão entre os mais afetados pelos impactos da crise climática.

Alunos da PUC-SP pertencentes ao coletivo 'Eco Luta' colaram cartazes no pátio de entrada da universidade
por
Vinícus Evangelista
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23/09/2023 - 12h

Nesta sexta-feira (15), alunos do curso de Ciências Socioambientais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), se reuniram para colar cartazes em forma de manifestação a respeito de temas diversos que envolve o ambientalismo. Os ativistas fazem parte do coletivo 'Eco Luta', que em 2023 celebra a '3ª semana do curso de Ciências Socioambientais'. "O evento tem por objetivo promover o debate acadêmico a respeito dos temas atuais do curso de Ciências Socioambientais, com destaque para as questões climáticas, movimentos sociais, povos indígenas e Amazônia.", explica o site do evento.

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Movimento reuniu mais de dez pessoas na entrada da universidade // Foto: Vinícius Evangelista

 

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Cartazes fazem oposição ao Marco Temporal e chama a atenção para as crises climáticas existentes no país // Foto: Vinícius Evangelista

 

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Jovens são estudantes de "Ciências Socioambientais" e fazem parte do coletivo "Eco Luta" // Foto: Vinícius Evangelista
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A Semana de socioambientais é um evento anual que reúne estudantes, professores e especialistas para discutir temas atuais e relevantes relacionados à área. // Foto: Vinícius Evangelista
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A 3ª semana de Ciências Socioambientais ocorreu nos dias 11 e 15 de Setembro no auditório 117-A da PUC-SP // Foto: Vinícius Evangelista
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Dentre as principais pautas de debate do coletivo estão os direitos dos Povos Indígenas, o desmatamento e as ações governamentais a respeito do tema // Foto: Vinícius Evangelista

 

País recorreu ao uso de água insalubre após decreto de emergência nacional
por
Lucas de Paula Allabi
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31/08/2023 - 12h

Desde maio deste ano, o Uruguai registrou níveis de água entre 1,7 e 6% na represa Paso Severino, principal reservatório que abastece a região sul do país. Com a iminente crise hídrica, o presidente de centro-direita, Luis Lacalle Pou, autorizou a mistura da água do rio da Prata, com maior concentração de substâncias impróprias, ao resto do reservatório para complementar o estoque.

O acúmulo de sal e cloreto no rio é três vezes maior que o recomendado pela OSE (Obras Sanitarias del Estado), empresa estatal responsável pela manutenção dos sistemas hídricos. Várias famílias, sem dinheiro para comprar água engarrafada, ficaram impossibilitadas de consumir o líquido no país que foi o primeiro a reconhecer o direito à água como universal.

O estado uruguaio, em meio a insatisfação popular, afirmou que a crise hídrica foi agravada pela seca dos últimos três anos, causada pelo fenômeno oceânico La Ninã. O vice-ministro do meio ambiente, Gerardo Amarilla, em entrevista a rede local Canal 12, disse esperar as chuvas futuras para resolver o problema. Nós atuamos pensando que era uma questão temporal e que as chuvas iriam chegar”, comentou o ministro.

	Em imagens da NASA capturadas por satélite, é possível ver o leito reservatório Paso Severino completamente seco e envolto por fazendas, que prejudicam a retenção de água no local.
Em imagens da NASA capturadas por satélite, é possível ver o leito reservatório Paso Severino completamente seco e envolto por fazendas, que prejudicam a retenção de água no local.

A população, que se mobilizou em manifestações desde o final de maio, reclama, também, que os últimos governos fizeram mau uso dos recursos hídricos, dando a sua maior destinação à indústria e à agropecuária. A organização ambiental Redes-Amigos de La Tierra expôs que 80% da água do país é destinada a fábricas de celulose e cultivos de arroz e soja.

As acusações de descaso com o abastecimento se agravaram ainda mais com a tentativa da Google de instalar uma data base no país. De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente, o centro usaria 7,6 milhões de litros de água por dia para resfriar seus servidores, o equivalente ao uso doméstico diário de 55 mil pessoas.

A frase “não é seca, é roubo”, em protesto contra a empresa, foi vista em vários cartazes em Montevidéu. O Ministério do Meio Ambiente rebateu dizendo que os dados estavam desatualizados e que a instalação do Google será menor.

A BNamericas, consultora e analista de mercados para empresas que querem firmar negócios em países latino-americanos e que presta serviços ao Google, declarou que a empresa está buscando soluções: Esperamos que as cifras preliminares, como o consumo de água projetado, sofram alterações. No Google a sustentabilidade está no centro de tudo o que fazemos, e a forma em que desenhamos e administramos nossos centros de dados não é uma exceção".

Manifestantes seguram cartazes contra a política da seca em Montevidéu
Manifestantes em Montevidéu reinvindicam o direito à água. Foto: Redes-Amigos de la Tierra

 

Célia Xakriabá, líder da Frente Indígena, irá coordenar os trabalhos da Comissão para Amazônia e Povos Originários.
por
Vitor Simas
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18/03/2023 - 12h
A deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG) durante sessão na Câmara; Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados.
A deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG) durante sessão na Câmara; Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados.
 

A deputada federal, Célia Xakriabá, se tornou na quarta-feira (15) a primeira liderança indígena a presidir uma comissão no Congresso Nacional. Ela irá assumir o papel de presidenta da Comissão Amazônia e Povos Originários Câmara dos Deputados (CPOVOS).  Um marco histórico para a política brasileira.

A comissão foi criada a partir do desmembramento da Comissão de Integração Nacional e Desenvolvimento Regional. O colegiado terá como papel discutir e votar propostas relativas ao desenvolvimento da região amazônica e a defesa dos mais de 300 povos indígenas que vivem no Brasil.

 Já na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMADS) da Câmara, algumas organizações ambientalistas manifestaram preocupação com a escolha, para a presidência, deputado José Priante (MDB-PA) que defende o garimpo em Terras Indígenas.

“No momento em que a crise climática exige do Congresso Nacional a promoção de avanços na proteção socioambiental, causa preocupação que a presidência da comissão não esteja com um parlamentar com histórico de atuação no tema”, afirmou Maurício Guetta, do Instituto Socioambiental (ISA), ao Metrópoles. “Esperamos que sua gestão seja marcada pela prevalência dos consensos e pela contenção dos graves retrocessos em tramitação”.

Em seu primeiro mandato, Célia ressaltou que  pretende fazer do colegiado um espaço de debates que esteja além das fronteiras da Amazônia. "Pautaremos a importância de todos os biomas brasileiros, de povos originários, de povos e comunidades tradicionais. Nós não precisamos ser da Amazônia para defender a Amazônia. Não precisamos ser do cerrado para defender o cerrado. E, neste momento, esta comissão tem um caráter muito importante porque ela vai dar contorno a outras comissões – de Meio Ambiente, de Direitos Humanos", citou, ao mencionar o percurso legislativo de propostas que afetam diferentes áreas.

Célia informou que a luta contra o Projeto de Lei (PL) 490, que pretende barrar as demarcações de TIs; a implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de TIs (PNGAT); o combate ao racismo; e a defesa dos direitos das mulheres indígenas serão prioridades da frente parlamentar.

Em conversa com o Brasil de Fato, a deputada ressaltou seu compromisso na promoção de diferentes interlocuções no âmbito das tarefas do colegiado. "Entender a presença indígena aqui é também entender que precisamos criar diálogos. Esta casa se tornou uma casa árida, onde se tem pouco diálogo. Quero dizer ainda que nós, povos originários, que não somos nem 1% da população brasileira, protegemos mais de 80% da biodiversidade. Isso significa que nem sempre quem é maioria está fazendo melhoria. Estamos aqui convocando os parlamentares a fazerem parte dessa melhoria."

 

Terras indígenas combatem a crise climática.

 

A proteção das Terras Indígenas demonstra ser essencial para frear o desmatamento  fomentado pelas grandes corporações, madeireiros e garimpeiros. Hoje, as TIs  e Unidades de Conservação cobrem mais de 42% da Amazônia Brasileira.  Enquanto 20% da floresta amazônica foi desmatada nos últimos 40 anos, as Terras Indígenas na Amazônia Legal perderam apenas 2% de suas florestas originais – Instituto Socioambiental (ISA).


Outro ponto importante é que por meio dos chamados rios voadores, em que árvores amazônicas possuem participação fundamental, elas reciclam a umidade que recebem do Atlântico e "disparam" para a atmosfera grande carga de umidade, que viaja milhares de quilômetros até cair em forma de chuva em diversas regiões do país, abastecendo importantes bacias hidrelétricas. "A do Paraná principalmente, que tem um monte de hidrelétricas, uma depois da outra. Se não tiver essa quantidade de água transportada pelos rios voadores, não vai encher reservatórios e não vai produzir energia", analisa Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

. . .

A frente indígena tem importância estratégica no governo Lula, que nos primeiros dias de seu governo, sinalizou com a demarcação de 13 novas terras indígenas. O Congresso também tem a maior representação de indígenas na atual legislatura, tornando-se um espaço de relevante discussão para o desenvolvimento de uma política comprometida na defesa dos povos da floresta e desenvolvimento econômico sustentável.

O assessor político da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Paulino Montejo, diz enxergar a chegada de Xakriabá à presidência da comissão como a descoberta de mais um espaço para demonstrar que as lideranças do segmento podem exercer protagonismo naquilo que diz respeito à sua própria agenda. 

A criação da CPOVOS - Comissão Amazônia e Povos Originários Câmara dos Deputados e a escolha de Célia Xakriabá para presidir o colegiado conta com o apoio também de servidores da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) que atuam no movimento organizado em prol de políticas públicas consistentes para o órgão. 

"Não serei somente uma pessoa indígena a presidir a comissão: serão 900 mil cocares que assumem a comissão comigo", disse a parlamentar, em um discurso que agitou dezenas de apoiadores que compareceram à sessão para prestigiá-la. Célia Xakriabá (CPOVOS).

 

 

Referências:

Instituto Socioambiental - socioambiental.org

Brasil De Fato - brasildefato.com.br

Made For Minds  - dw.com

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Aumento dos casos de varíola estimulou ataque a animais silvestres.
por
Vitor Simas
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09/08/2022 - 12h

O aumento de casos da “varíola dos macacos” tem provocado uma onda de perseguição aos animais silvestres. As pessoas, por medo, começaram a agredir os animais, em especial os macacos, por acharem que estes são os transmissores da nova doença. Agência Brasil.

Muitos estão sendo apedrejados e envenenados. Informações duvidosas e preconceituosas emitidas por mídias imprudentes para com a vida dos animais não humanos estão estimulando essa perseguição. 11 macacos da espécie dos Saguis (Callithrix jacchus) e Prego (Cebus apella), em risco de extinção, foram encontrados intoxicados, agredidos e mortos no interior de São Paulo, em São José do Rio Preto.

Sobreviventes foram levados para tratamento no zoológico Municipal. Apesar do nome, a transmissão da “varíola dos macacos” não está associada aos primatas não-humanos. Em comunicado divulgado pela Sociedade Brasileira de Primatologia (SBP) todas as transmissões identificadas, que já ultrapassam 2 mil casos no Brasil, foram passadas de humanos para humanos. Essa forma de contágio é o fator relevante para o estabelecimento de medidas de controle.

Mas por que a “varíola dos macacos’’ tem esse nome?

A nova varíola foi erroneamente nomeada em pesquisas feitas por cientistas na década de 50, em que o vírus da atual varíola foi registrado em primatas-não-humanos em laboratório dinamarques e então nomeado de (Monkeypox).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) está colaborando com especialistas para adotar um novo nome para a varíola dos macacos. A iniciativa ocorreu depois que mais de 30 cientistas escreveram na semana passada sobre a “necessidade urgente de um (nome para a doença e para o vírus) que não seja discriminatório nem estigmatizante”.

Vale ressaltar que os macacos, os primatas não humanos são vítimas da zoonose assim como os humanos e portanto não devem sofrer nenhum tipo de retaliação, a população de macacos atua como sentinelas da doença, costuma adoecer antes que os humanos alertando sobre a presença da doença no local.

Transbordamento de novas infecções.

Antes mesmo da emergência do coronavírus no final de 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem alertado sobre os riscos do surgimento de doenças relacionadas com a interação entre animais humanos e não humanos com potencial de se espalhar pelo mundo e afetar grandes populações em todos os países.

Segundo o Instituto Oswaldo Cruz, o desmatamento e a caça de animais silvestres são fatores determinantes para a propagação de novas e antigas zoonoses, pois aumentam o risco de exposição entre animais adoecidos e saudáveis. O estudo aponta, ainda, que todo o território brasileiro está suscetível a emergências ocasionadas por zoonoses, a expansão das atividades extrativistas em diversos biomas do país favorece um fenômeno conhecido como “spillover” em tradução literal, é quando os agentes causadores de doença que circulavam restritamente em um grupo animal “saltam” e passam a infectar outras espécies, incluindo humanos.

Relembrando, o receio de contágio por transmissão desta e de outras doenças, como a febre amarela, pela proximidade com os macacos nao justifica a violência para com esses e outros animais silvestres. Os primatas fazem parte da nossa biodiversidade, têm importante papel na manutenção das florestas e auxiliam nos serviços ecossistêmicos — serviços reguladores que a natureza nos presta, como na polinização, dispersão de sementes nativas, controle de pragas, etc. Com isso, os primatas contribuem com a manutenção da saúde ambiental e humana e portanto não são os vilões do novo contagio da doença.

Relatório na integra: https://drive.google.com/file/d/1DmVaIFrvfRJt8ccDBeHrB7UXpNzq6Hc0/view

Amazônia de Pé, Projeto de Lei de Iniciativa Popular, propõe que florestas públicas não destinadas sejam destinadas a comunidades indígenas, quilombolas e unidades de preservação.
por
Maria Ferreira dos Santos
Malu Araújo
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29/06/2022 - 12h

Sem dúvida, o debate acerca da preservação da Floresta Amazônica ganha cada vez mais notoriedade. Entretanto, ao se tratar de políticas públicas é fundamental que a discussão leve à alguma medida, isto é, que a teoria vire prática. O que nem sempre acontece, uma vez que é necessário que diversos agentes atuem em prol daquilo, entre esses advogados, parlamentares, vereadores, juízes e mais. Mas, e se a mudança viesse de pessoas “comuns”? Pessoas que juntas poderiam ter tanto peso quanto a decisão de um político? 

Essa é a ideia dos Projetos de Lei de Iniciativa Popular (PLIP), previstos pela Constituição Federal. Um exemplo é o Amazônia de Pé. Em seu próprio site, a equipe da campanha declara que acredita “que só um movimento massivo, construído de baixo pra cima, pode dar à Amazônia o cuidado que ela merece”. A proposta da iniciativa é destinar os quase 50 milhões de hectares de florestas públicas na Amazônia para  proteção dos povos indígenas, quilombolas, pequenos produtores extrativistas e Unidades de Conservação, como explicou a socioambientalista e coordenadora de parcerias da iniciativa, Renata Ilha.

Para que o projeto seja aprovado no Congresso é crucial a coleta de um milhão e meio de assinaturas físicas, resultando num processo muito grande visto que esse número representa 1% do eleitorado brasileiro. Todavia, tamanha dimensão não assusta a organização, Karina Penha, coordenadora de mobilização do Amazônia de Pé, reforça que a questão ambiental deve ser preocupação de todos. “O projeto visa exatamente isso: descentralizar para que o Brasil inteiro entenda que a pauta amazônica é importante e fundamental onde quer que você viva, sendo dentro ou fora da região amazônica’’, declarou a ambientalista.

Captura de tela do site do projeto Amazônia de Pé. Reprodução: https://amazoniadepe.org.br/
Captura de tela do site do projeto Amazônia de Pé. Reprodução: https://amazoniadepe.org.br/

Para compreender a importância do projeto na preservação ambiental, Renata explica que "esse território é público, mas não é destinado. E é justamente essa a área de interesse de grilagem”. Grilagem, como citou Ilha, é o termo utilizado para se referir à prática criminosa de se obter ilicitamente a propriedade de terras, normalmente tal ato é feito através do desmatamento e da violência contra os povos ali habitantes.

Esse exercício não é novidade, isso porque há mais de quinhentos anos a história de terras no Brasil vem seguindo esse curso marcado por invasões, exploração de recursos naturais e inanição para uma distribuição igualitária e consciente ambientalmente. Soma-se a isso a implementação de leis que visam, senão outra coisa, a perpetuação dos grandes latifundiários e de um modo de produção insustentável para a terra. Com isso, vem se tornando cada vez mais evidente a ligação que os grandes latifúndios possuem com  os conflitos no campo, com a abertura política para o desmatamento e com a devastação dos povos originários e seus territórios. 

A princípio, é necessário compreender que a concentração de terras e o modo de produção agrícola estão intimamente ligados. O censo Agropecuário em 2017, mostrou que o índice de Gini atingiu a marca de 0,867 pontos, esse índice aponta o nível de desigualdade existente no campo, sendo que quanto mais próximo do 1, maior é a concentração fundiária no país. Atrelado a essa produção, o Censo revela que existem hoje mais de 5 milhões de propriedades agrícolas, das quais 51 mil propriedades, 47,6% são voltadas para produção agropecuária. 

 Com efeito, a expansão do agronegócio tem cobrado cada vez mais caro dos povos tradicionais da terra e das regiões que deveriam ser ambientalmente preservadas. O relatório “Na Fronteira da (I)legalidade: desmatamento e grilagem no Matopiba”, revelou que o Cerrado perdeu mais vegetação nativa nos últimos 20 anos do que nos 500 anos anteriores. Essa devastação ocorre por uma conjuntura diversa, mas que vem se agravando desde 2018, a começar pelo aumento exponencial das ocorrências de violência no campo, o desmatamento crescente no país e o desmonte dos órgãos que deveriam promover a defesa das áreas de preservação e dos povos. Vale dizer, pelas palavras da jornalista Eliane Brum,  não é incompetência e nem descaso, é método.

O relatório anual da Comissão Pastoral da Terra 2021, registrou que o número de ocorrências da violência no campo aumentou quase em cerca de 1 milhão. Em consonância com essa violência, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) apontou que o desmatamento anual de 2019 a 2021 foi 56,6% maior que entre 2016 e 2018 na Amazônia. Além disso, um novo estudo feito pelo IPAM revelou que a invasão de florestas públicas não destinadas impulsiona o desmatamento ilegal e o roubo de terras, pratica conhecida como Grilagem. Um dos indícios da grilagem nas terras públicas é o aumento dos cadastros ambiental rural, conforme o boletim do Serviço Florestal Brasileiro(SFB), nos últimos cinco anos houve um aumento de 232% dos CAR.

 

O desmonte da Funai

 

“Pode usar? Não pode. Mas hoje em dia estamos vivendo uma espécie de estado exceção, onde as normas pouco significam. O ilegal vira legal”. Essas são as palavras da jurista Deborah Duprat, no Dossiê Fundação Anti-indígena: um retrato sob o governo Bolsonaro, ao se referir sobre os mecanismos de corrosão ao órgão da Funai atualmente. O Dossiê faz denúncias aos instrumentos e medidas adotadas pelo governo Bolsonaro desde 2019, para fragilizar e desmontar a Funai.

Um dos primeiros passos para a ruptura das questões indígenas e seu elo com a Justiça foi a passagem do Ministério da Justiça para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH). Ainda nessa linha,  a identificação e delimitação das terras indígenas ficou a cargo da Secretaria Especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Outrossim, também houve um corte orçamentário em torno de 40% dos recursos da Funai, limitando ainda mais a atuação dos funcionários.

Como se isso já não fosse o bastante, hoje a Funai já tem nomeado 17 militares, três policiais militares, dois policiais federais e seis profissionais sem vínculo anterior com a administração pública. Além da perseguição aos indigenistas e funcionários, há também a substituição desses servidores, que possuem qualificação e experiência, por profissionais sem experiência alguma com a política indígena. Atualmente, o presidente da Funai, Marcelo Augusto Xavier, é um delegado da Polícia Federal que age em conformidade com os caprichos e vontades do presidente Bolsonaro.

 É preciso dizer: quando o agro vende commodity, ele também vende bioma, quando a Funai começa a ser desmontada, ela também mata os índios e todos aqueles que buscam defender a floresta e seus direitos.