Para Rafael Morales, consumidores e mercado também têm papel importante na cobrança de sustentabilidade
por
Gustavo Song Jun Choi
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03/12/2025 - 12h

A inteligência artificial, também conhecida como IA, tornou-se uma conveniência na vida das pessoas tão importante quanto o smartphone ou a internet. No entanto, também é um grande alvo de polêmica por conta das especulações sobre seu potencial destrutivo contra a humanidade e o meio ambiente.  

Segundo Rafael de Carvalho Morales, profissional de tecnologia, professor e consultor da área de sustentabilidade, um dos impactos mais significativos é o consumo de água, usada pelos data centers para regular o sistema de resfriamento de seus diversos servidores. 

Rafael de Carvalho Morales, consultor de sustentabilidade.
Rafael de Carvalho Morales - Foto: Divulgação


“Tem alguns casos de construção de data centers em áreas de escassez hídrica, ou seja, em locais com pouca água”, diz Morales, alertando para as possíveis consequências de operações desse tipo. “Se você acabar com a água desse lugar, a cidade vai ficar sem água, a população vai ficar sem água e o entorno também vai sofrer com isso.”

O consultor também destaca a degradação ambiental provocada pela mineração de recursos necessários para a fabricação de peças utilizadas nos data centers, como lítio, cobre e silício. Trata-se de minerais escassos e valiosos, cuja extração, se não for gerenciada devidamente, produz o risco de um esgotamento rápido das reservas.

De acordo com o consultor, a falta de compromisso das empresas de tecnologia com a rastreabilidade da cadeia de minérios que fazem parte das unidades de processamento acaba estimulando uma técnica de extração de recursos de altíssimo impacto, que é a mineração artesanal. Mais conhecida como garimpo, esse modelo é mais prejudicial ao meio ambiente do que até mesmo a mineração industrial, pela falta de regulação e código de conduta apropriados. “É um grupo de pessoas, coordenadas ou não, que vão para uma determinada localidade em que se imagina que tenha minério e mineram com práticas de alto impacto, com uso de mercúrio e outros métodos nocivos para a natureza”, explica Morales. 

Sobre possíveis formas de minimizar os impactos, o profissional diz que o Estado tem o papel de exigir, do ponto de vista legal, que as empresas adotem alguns princípios ao construir seus data centers, como a definição de limites para o consumo de água e a utilização de energia renovável. “Os Estados têm essa obrigação”, frisa Morales.

Ele também aponta a responsabilidade do mercado financeiro - que não deveria financiar operações sem compromisso com a sustentabilidade - e o papel dos próprios consumidores, que podem deixar de utilizar plataformas de empresas que não respeitam as normas ambientais.

Quando questionado sobre o futuro da humanidade e o lugar da IA nele, Moraes avalia que essa tecnologia veio para ficar, especialmente no contexto de uma sociedade no modelo capitalista de alta produtividade, que preza a produção de mais resultados com menos esforço e gastos. Neste sentido, diz ele, além de altamente lucrativa, a inteligência artificial se tornou uma “benção”, um acelerador de capital essencial para o atual estágio do capitalismo.  “Já vi pessoas que conheço e respeito falando que a IA vai ajudar muito na produtividade”, afirma, citando a perspectiva de criação de empregos e funções inexistentes hoje.

Ainda assim, o consultor reconhece os malefícios que, para além dos impactos ambientais, a tecnologia pode trazer, como a dependência nos usuários - considerando a relação praticamente inseparável que as pessoas têm com seus smartphones - e as consequências psíquicas do uso abusivo. 

 

A percepção de frequentadores, os impactos da febre amarela e as denúncias de captura clandestina em um dos parques mais antigos de São Paulo
por
Manuela Dias
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29/11/2025 - 12h

Antes conhecido pela presença constante de saguis, macacos prego, capivaras e aves diversas, o Parque Estadual Alberto Löfgren, na Zona Norte de São Paulo, vive um período de silêncio. Frequentadores afirmam que o número de animais diminuiu de forma drástica nos últimos anos, especialmente depois do surto de febre amarela que atingiu o estado entre 2016 e 2018. A mudança é perceptível para quem acompanha a rotina do parque há décadas.

A aposentada Maria Eliane, 78 anos, visita o Horto desde que chegou a São Paulo. “Eu vinha aqui com meus filhos pequenos e era cheio de vida. A gente mal conseguia contar quantos saguis apareciam. Era um atrás do outro. Hoje eu caminho por tudo isso e quase não vejo mais nenhum”, afirma.

Segundo Maria Eliane, a ausência de animais transformou a experiência de visitar o parque. “O Horto sempre foi um lugar vivo. Tinha barulho, tinha movimento dos bichos. Agora parece outro lugar. Não é que acabou, mas está tudo muito reduzido. Dá uma tristeza ver como mudou.”

Os lagartos se alimentam de insetos e pequenos invertebrados, essenciais para o equilíbrio ecológico até nos centros urbanos.
Os lagartos se alimentam de insetos e pequenos invertebrados, essenciais para o equilíbrio ecológico até nos centros urbanos. Foto: Manuela Dias/AGEMT

Capturas clandestinas e violência contra macacos

A diminuição dos animais não é percebida apenas por visitantes antigos. Moradores do entorno também afirmam ter presenciado situações que podem ter contribuído para a redução da fauna.

Um deles, que pediu para não ser identificado, disse que presenciou capturas clandestinas dentro do parque. Ele conta que pessoas entravam por áreas menos movimentadas e montavam armadilhas para capturar pequenos mamíferos. O morador afirma ainda que, durante o período mais crítico da febre amarela, presenciou cenas de violência contra macacos. “Eu vi gente matando macaco. Eles achavam que o macaco transmitia a doença. Era ignorância. Os macacos eram vítimas, como nós. Pegavam o vírus e morriam também. Mas muita gente não entendia e atacava os bichos. Eu vi isso acontecer.”

A Secretaria de Meio Ambiente e órgãos estaduais chegaram a registrar casos de agressão a primatas na época do surto. Especialistas reforçaram, repetidamente, que os macacos não transmitem a febre amarela. Eles funcionam como sentinelas, indicando a circulação do vírus e permitindo que autoridades reforcem a vacinação.

Os animais vistos pelas câmeras

Fotografias recentes mostram que, apesar da diminuição, ainda há vida silvestre no Horto. Aves, patos e tartarugas são os mais comuns de serem vistos.

O mergulhão observa o reflexo da luz e escolhe o ângulo certo para capturar peixes sem perder tempo.
O mergulhão observa o reflexo da luz e escolhe o ângulo certo para capturar peixes sem perder tempo. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Em várias cidades, teiús vivem próximos a parques e córregos e seguem discreta convivência com humanos.
Em várias cidades, teiús vivem próximos a parques e córregos e seguem discreta convivência com humanos. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Coloridas e serenas, as carpas não são só ornamentais. Elas ajudam a controlar algas e pequenos organismos, mantendo o equilíbrio dos lagos artificiais.
Coloridas e serenas, as carpas não são só ornamentais. Elas ajudam a controlar algas e pequenos organismos, mantendo o equilíbrio dos lagos artificiais. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Patinhos aprendem rápido. Nos primeiros dias de vida já conseguem nadar e seguir a mãe em longas caminhadas até encontrar água.
Patinhos aprendem rápido. Nos primeiros dias de vida já conseguem nadar e seguir a mãe em longas caminhadas até encontrar água. Foto: Manuela Dias/AGEMT

 

 

Com 96 anos, parque reúne histórias e grande papel ecológico na cidade que nunca dorme.
por
Isabelle Muniz
Maria Julia Malagutti
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06/11/2025 - 12h

Fundado por Fernando Costa e localizado próximo à Avenida Francisco Matarazzo, o Parque da Água Branca é um dos pontos de encontro mais tradicionais de São Paulo, reunindo famílias, atletas, crianças e até amantes de rodeios. Verdadeiro refúgio verde em meio à cidade de pedra, o parque abriga árvores típicas da Mata Atlântica, como pau-brasil, cedro, grumixama e canela-cheirosa, além de cerca de 190 espécies de flora e mais de 40 espécies de aves catalogadas, segundo pesquisas. Sua área atual ocupa aproximadamente 136 mil metros quadrados, e o espaço carrega consigo um rico valor histórico. 

Em 2025, o parque completa 96 anos de existência. Hoje, oferece diversas atrações, como feiras orgânicas, um aquário, e o Museu Geológico Valdemar Lefèvre (MuGeo), que reúne rochas, minerais e fósseis. No entanto, sua origem é mais antiga: o local foi idealizado por Antônio da Silva Prado para abrigar a Escola Prática de Pomologia e Horticultura, voltada ao ensino de atividades agrícolas. A escola funcionou até 1911, e anos depois o espaço deu lugar ao parque que se tornaria um dos patrimônios mais queridos da cidade de São Paulo. 

Já em 1928, o ex-governador Júlio Prestes, juntamente ao agrônomo Fernando Costa, transformaram a área, que até então era uma escola, na sede da Diretoria de Industria Animal, e um ano depois, com sua inauguração, foi batizado de Parque Doutor Fernando Costa. A arquitetura presente no parque é razão de destaque entre os frequentadores, as características rurais se misturam com os traços normandos das construções. Telhados inclinados e portas em arco com enormes janelas juntamente portões de ferro ornamentais, dão todo o charme do parque. Todos os edifícios permanecem originais desde 1929. 

Em 1996, o local foi tombado como patrimônio histórico, cultural, arquitetônico, turístico, tecnológico e paisagístico pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado). Com o tempo, a ênfase no lazer se aprofundou e o parque passou por uma expansão. A implementação de lagos artificiais, playgrounds, quiosques, espaço para leitura e diversas atrações em datas comemorativas, trouxe uma grande atenção do público, sendo altamente frequentado nos dias de hoje. 

 

Parque da Água Branca na entrada. Foto: Isabelle Muniz / Agemt
Entrada do Parque da Água Branca. Foto: Isabelle Muniz / Agemt

Em entrevista à Agemt, a engenheira ambiental Thamires Lino, pós-graduada em Engenharia de Segurança do Trabalho e com 12 anos de experiência na área ambiental, especialmente em licenciamento, gestão ambiental e gestão de resíduos, destacou a importância dos parques urbanos como verdadeiros refúgios de ar puro nas cidades. Segundo ela, esses espaços promovem bem-estar e saúde à população por meio das áreas de lazer e recreação que oferecem. Thamires ressalta que a preservação dos parques é essencial: “Os parques urbanos favorecem a biodiversidade de plantas e animais. Por meio da conservação, o ambiente se mantém em equilíbrio, contribuindo muito para a continuidade da vida no local”. A engenheira também enfatiza o papel ecológico desses espaços e a relevância de parques como o da Água Branca, em São Paulo. “A vegetação ajuda na regulação térmica, combatendo os efeitos da ilha de calor, além de absorver CO₂ e atuar como um filtro natural”. 

Assim, a presença dos parques vai muito além do entretenimento, trata-se de um elemento fundamental para o equilíbrio ambiental urbano. Thamires ainda reforça a importância da participação da população na conservação desses espaços: “Usar os parques de forma consciente, respeitar as orientações de permanência, o descarte de resíduos e evitar alimentar os animais são atitudes fundamentais para sua preservação”. Por fim, ela destaca que os pilares para a manutenção dos parques estão nas ações conjuntas da gestão pública, com as equipes de zeladoria e manutenção, e no comprometimento dos visitantes em cuidar desses espaços. 

Deve-se ressaltar o grande afeto do público pela área, durante um instante de lazer no parque, Lina, aposentada de 64 anos, informou que o parque é “maravilhoso”, afirma que há diversas memórias marcantes nele e o visita com frequência, “Lembro quando os fazendeiros distribuíam leite para nós, davam brinquedos para as crianças... É um parque bem familiar, meus filhos que hoje já são homens, cresceram aqui.”. A visitante afirma que a característica mais marcante da área é o sossego e a paz que ela transmite “É minha vida isso aqui, aqui é tudo”, informa que sempre que se sente sozinha, costuma frequentar o parque, sente “paixão” pelo verde e pela vasta vegetação. 

Movimentos sociais e ONGs ambientais organizaram uma “COP Paralela” para colocar a sociedade civil no centro do diálogo
por
Anna Cândida Xavier
Camila Bucoff
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12/11/2025 - 12h

A COP é a reunião anual dos países membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), para discutir medidas de combate à crise ambiental. Desde 1992, a Cúpula dos Povos acontece junto à conferência. Um evento autônomo, da sociedade civil, que reúne movimentos sociais, indígenas, quilombolas, camponeses e coletivos. Segundo o site oficial da organização, “a cúpula se ergue como um grito de resistência, um eco das vozes silenciadas pela desigualdade”.

Ela recebe o nome de “COP Paralela” por conta da localização física e temporal em relação à estrutura formal da ONU e por seu caráter crítico e alternativo quanto ao conteúdo e aos participantes. 

A Cúpula dos Povos irá inaugurar uma “Zona da Rua”, aberta para todos. Essa brincadeira com a “Zona Verde” e a “Zona Azul” que compõem a estrutura oficial da COP, também é uma crítica à centralidade do setor privado e das autoridades no debate climático. “A Cúpula é um chamado à ação por uma transição justa e solidária, onde ninguém é deixado para trás”, afirma o site oficial do encontro.

O movimento da “COP Paralela” compreende que a Conferência das Partes na Amazônia representa uma oportunidade de recuperar o diálogo com comunidades indígenas, tradicionais e periféricas – aquelas que menos contribuíram para a crise climática, mas que mais sofrem com seus impactos. O principal intuito desses movimentos sociais e ONGs é que as indústrias que mais poluem o mundo não norteiem mais as negociações.

Contudo, nas últimas três edições, a Conferência das Partes ocorreu em países com restrições à livre manifestação. Em 2022 foi realizada em Sharm el-Sheikh, no Egito; em 2023 em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos e em 2024 em Baku, no Azerbaijão. 

No Brasil, a história é diferente. Os primeiros dias da COP 30 já foram marcados por atos e manifestações pacíficas. Nessa segunda-feira (10), um grupo de manifestantes vindos do México realizou um protesto simbólico em frente à entrada da Zona Azul em Belém. Deitados no chão e cobertos por lençóis, eles buscaram chamar a atenção para a morte, desaparecimento e prisão de defensores do meio ambiente. 

Ações como essas voltam os olhares da população para fora da área restrita a negociadores oficiais. Dentro da Zona Azul, circulam diplomatas, ministros, chefes de delegação e lobistas do petróleo e do agronegócio negociando o futuro do planeta por trás de portas fechadas.

Na última quarta-feira (5), ativistas brasileiros se reuniram para lembrar os 10 anos do desastre de Mariana. Em 5 de novembro de 2015, o maior crime socioambiental da história do Brasil aconteceu: a barragem de Fundão rompeu-se em Mariana, Minas Gerais. A barragem era operada pela Samarco, uma joint venture entre a Vale e a BHP. A lama tóxica varreu o distrito de Bento Rodrigues e seguiu pelo Rio Doce até o litoral do Espírito Santo. O fluxo de lama tóxica matou 19 pessoas, destruiu comunidades e contaminou um dos rios mais importantes do país.

Esse ano, porém, a Vale é uma das maiores patrocinadoras da cobertura jornalística na COP 30. Segundo levantamento do Intercept Brasil, a mineradora está patrocinando a cobertura de oito veículos de comunicação diferentes. Entre eles, estão alguns dos jornais de maior circulação no Brasil, como a Folha de S.Paulo, O Globo e Valor Econômico, o jornal do Pará O Liberal, bem como a rádio CBN, a revista Veja, e os portais de notícias Neofeed e Brazil Journal. 

Por outro lado, a localização da conferência também facilita que alguns movimentos possam participar do evento. A presença de organizações que pressionam e questionam as autoridades é essencial, apresentando uma "declaração dos povos" com demandas por justiça climática, reparação histórica e ações mais contundentes para combater a crise climática. Fora dos espaços oficiais de debate, a “COP Paralela” se torna a maior área de diálogo da sociedade civil, onde os participantes buscam ampliar a participação popular, compartilhar experiências e construir consensos a partir da base, propondo soluções que vêm diretamente dos territórios e das comunidades afetadas.

Encontro reunirá líderes mundiais em Belém, no Pará, para discutir ações globais contra a emergência climática 
por
Anna Cândida Xavier
Camila Bucoff
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06/11/2025 - 12h

A COP (Conferência das Partes) foi criada, em 1995, a fim de promover o diálogo entre os países e estabelecer objetivos globais de combate à crise climática. Devido ao seu alcance multilateral, a conferência é vista por especialistas como um momento decisivo para o país reafirmar sua liderança ambiental, pressionar por financiamento e impulsionar a economia da floresta em pé. Este ano, a cúpula será sediada no Brasil, entre 10 e 21 de novembro. 

Como vai funcionar? 

O evento reúne representantes oficiais de 198 países, empresas privadas e a sociedade civil. Cada nação participante envia delegações de diplomatas, ministros e técnicos para debater compromissos climáticos junto ao secretariado da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (UNFCCC).  

As negociações são divididas em plenárias formais (seções de negociações) e grupos de trabalho temáticos (discussão de temas específicos) e as metas firmadas precisam ser consensuais, nas quais todos os países têm direito a voto. 

O evento também envolve reuniões de órgãos complementares da ONU, como as reuniões das Partes do Protocolo de Quioto (CMP) e do Acordo de Paris (CMA). O Protocolo de Quioto é um acordo internacional, firmado em 1997, que estabelece metas obrigatórias de redução de emissões de gases estufa para países desenvolvidos. Enquanto o Acordo de Paris é um tratado internacional, adotado em 2015, que define metas de redução emitidas pelos países de acordo com o seu contexto nacional.

Para garantir o seu funcionamento, a COP também conta com a atuação de dois apoios permanentes da ONU: o Órgão subsidiário de implementação (SBI) e o Órgão de Aconselhamento Científico e Tecnológico (SBSTA). 

O primeiro é responsável por acompanhar a aplicação prática das decisões e acordos adotados. Já o segundo tem a função de assessorar a COP em assuntos relacionados à ciência, tecnologia e inovação. 

Relevância da COP para o Brasil 

A escolha de Belém, no Pará, como sede do encontro simboliza a urgência da proteção das florestas e coloca o Brasil no centro das negociações climáticas globais. 

Foto: Ricardo Stuckert/PR - Reprodução/Agência Brasil

As discussões realizadas durante a conferência impactam as dinâmicas econômicas, sociais e geopolíticas em nível internacional e nacional. Nesta edição, temas importantes ganham protagonismo, como o financiamento climático, reforma dos bancos multilaterais e mobilização de recursos financeiros para a transição verde.

O governo brasileiro selecionou seis principais eixos para pautar o evento: a redução de emissões de gases de efeito estufa; a adaptação às mudanças climáticas; o financiamento climático para países em desenvolvimento; as tecnologias de energia renovável e soluções de baixo carbono; a preservação de florestas e biodiversidade; e, por fim, a  justiça climática e os impactos sociais das mudanças climáticas. 

Os tópicos selecionados estão intrinsecamente ligados ao contexto brasileiro. O Brasil é o maior detentor de área de florestas tropicais no mundo graças a Amazônia, cuja floresta armazena de 100 bilhões a 120 bilhões de toneladas de carbono em sua biomassa. Mesmo assim, um estudo publicado pela revista Nature em 2024, alerta que a Amazônia pode atingir o ponto de não retorno até 2025, se o ritmo de desmatamento atual se manter. 

Além de sua relevância ambiental, a Floresta Amazônica está no centro de debates sociais. Sua preservação está diretamente ligada à sobrevivência e à cultura dos povos indígenas, que há séculos desempenham um papel essencial na proteção do bioma. A destruição da floresta, portanto, também é uma ameaça à vida, aos direitos e à identidade dessas comunidades. 

Nesse sentido, espera-se que a COP 30 conte com ampla participação da sociedade civil, promovendo a justiça climática e dando voz a povos indígenas, comunidades quilombolas e grupos tradicionais e periféricos, que estão entre os mais afetados pelos impactos da crise climática.

Esposa de Dom Phillips diz ter sido avisada pela PF de que corpos do jornalista e do indigenista Bruno foram encontrado, instituição não confirma as informações.
por
Letícia Coimbra
Luan Leão
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13/06/2022 - 12h

 

Na manhã desta segunda-feira (13) a mulher do jornalista britânico Dom Phillips, Alessandra Sampaio, disse ter sido informada de que os corpos de seu marido e do indigenista Bruno Pereira, que estão desaparecidos há mais de uma semana na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, haviam sido encontrados.

Segundo Alessandra, a Polícia Federal telefonou informando a localização de dois corpos, afirmando ainda a necessidade de serem periciados para a confirmação da identidade.

Indiigenista Bruno Pereira, à esquerda, e jornalista inglês Dom Phillips, à direita, estão desaparecidos desde o dia 5 - Foto: Reprodução
Indigenista Bruno Pereira, à esquerda, e jornalista inglês Dom Phillips, à direita, estão desaparecidos desde o dia 5 - Foto: Reprodução

 

Em nota, a PF informou a Agência Maurício Tragtenberg que não procedem as informações divulgadas pela imprensa de que os corpos foram encontrados. A instituição afirmou que foram encontrados materiais biológicos que serão periciados e que, assim que forem encontrados os corpos, a família e a imprensa serão comunicados.

No final de semana, o Comitê de crise, coordenado pela PF do Amazonas, disse que foram percorridos 25 quilômetros pela selva em trilhas existentes na região, áreas de igapós, e furos do Rio Itaquaí. Nessas buscas foram encontrados objetos pessoais dos desaparecidos, sendo um cartão de saúde e roupas pertencentes ao indigenista, e botas, roupas e uma mochila com roupas de Dom. De acordo com as autoridades, os objetos estavam próximos da casa de Amarildo Costa de Oliveira, suspeito de envolvimento no desaparecimento.

Projeção para 2030 se baseia no uso de fontes de energia renovável em todo o mundo; Brasil desperdiça oportunidades
por
Daniel Dias, Iris de Freitas e Leonardo Nunez
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10/06/2022 - 12h

O modo de produção capitalista que domina o mundo nos dias de hoje valoriza o consumo excessivo e a produção em massa, almejando sempre o lucro máximo acima de tudo. Com isso, este sistema se autoprejudica, uma vez que acaba por findar com todos os recursos necessários para sua manutenção. O capitalismo acaba por ser um modo autodestrutivo, como uma bomba-relógio, fato que chega a ser irônico, tendo em vista que seus maiores participantes, consequentemente, perdem dinheiro.

Em contraposição, a economia verde aparece na tentativa de reverter o cenário previamente criado pelo capitalismo. Ela consiste num modelo que visa o bem-estar humano ao passo que também preza a diminuição dos riscos ambientais e da escassez ecológica. Os três pilares desta economia são: baixa emissão de carbono, inclusão social e eficiência no uso de recursos.

Em entrevista concedida à AGEMT, a economista Luiza Karpavicius, que integra a equipe da coluna "Por quê? Economês em bom português", da Folha de S. Paulo, explica mais sobre esta forma de economia. “No centro da economia verde está o uso de políticas públicas e privadas que combinam crescimento econômico com justiça social e a manutenção dos recursos e serviços ecossistêmicos”, diz.

No Brasil, a economia verde vem ganhando palco com o passar dos anos. Em 2021, o governo federal lançou o “Plano de Crescimento Verde”. O projeto conta com apoio do Banco dos Brics (bloco de países com economias emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) para iniciativas de conservação florestal, uso consciente de recursos naturais e geração de empregos verdes. Estima-se que cerca de 30 milhões de empregos podem ser gerados até 2030 somente com a adoção de fontes de  energia renovável ao redor do mundo, segundo pesquisa da Irena (Agência Internacional de Energia Renovável). O Brasil planeja contar com um comitê com dez ministérios para organizar ações para atingir a neutralidade de carbono até 2050.

A degradação ambiental intensificada pelo capitalismo, além dos danos a todo o ecossistema, impacta de maneira negativa a economia brasileira. O professor da USP de São Carlos e membro titular da Academia Brasileira de Ciências José Galizia Tundisi relata os impactos negativos que a falta de políticas públicas efetivas de conservação ambiental causa na economia brasileira. Ele ilustra com o exemplo da água:  o custo para a produção de água potável chega a R$ 300, enquanto para tratar águas não contaminadas é de R$ 10, uma economia de aproximadamente 96%.

Além disso, a economia verde seria capaz de fazer muito mais do que se pode imaginar para o cenário econômico brasileiro. Karpavicius ressalta as consequências positivas de sua implementação: “A expectativa é que isso, se feito corretamente, possibilitaria a geração de empregos, reduziria as desigualdades (já que as pessoas que preservam o meio ambiente seriam remuneradas por isso) e colocaria o Brasil estrategicamente nas relações com outros países”.

Entretanto, Karpavicius explica que, no resto do mundo, essa economia visando uma melhoria ambiental já vem se desenvolvendo de forma mais concreta e real, enquanto em solo brasileiro é algo que precisa evoluir muito. “No resto do mundo, vemos mais claramente um alinhamento entre política e meio ambiente. No Brasil, hoje, estamos indo na contramão e ignorando uma grande oportunidade para o país se colocar como um dos pioneiros na implementação de uma economia verde”, afirma.

A colunista ainda relembra que o país tem o que é preciso para fazer parte dessa economia, sendo necessário somente dar o primeiro passo. “Deve existir a criação de políticas públicas que estimulem empregos verdes, que introduzam direitos sobre poluição e abram as portas para o mercado de créditos de carbono, que visem minar as desigualdades e alinhar desenvolvimento e sustentabilidade, que introduzam um monitoramento mais forte do desmatamento ilegal etc.”

A Organização das Nações Unidas (ONU) criou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável como forma de apelo à população para acabar com problemas graves como a fome, zelar pela proteção do meio ambiente e clima, entre vários outros, formando 17 no total. O objetivo número 12  se relaciona diretamente à economia verde, pois diz respeito ao consumo e produção responsáveis. Uma das metas assumidas por ele  é a de “até 2030, alcançar a gestão sustentável e o uso eficiente dos recursos naturais”.

Para alcançar esses objetivos, os países, em conjunto com os órgãos responsáveis pelo meio ambiente, devem, de maneira organizada, usar de forma correta os recursos naturais. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que estimula o progresso econômico mundial, tem uma área especificamente voltada ao crescimento verde.

No âmbito das empresas, elas demonstram estar mais preocupadas com o impacto ambiental causado por suas operações. Um estudo feito em 2020 pela KPMG mostrou que 80% das empresas analisadas ao redor do mundo emitem relatórios de sustentabilidade. O relatório de é uma iniciativa  voluntária, onde uma empresa presta uma espécie de satisfação para a sociedade sobre suas  atividades no cenário da sustentabilidade.

Esses boletins são de extrema importância para um planejamento futuro da instituição, pois assim ela tem noção de onde deve melhorar ou evoluir, além de servir como uma forma de diálogo entre as pessoas na empresa. Um outro benefício é que isso também mantém a população e o governo atualizados no assunto, promovendo a transparência e mantendo a credibilidade da empresa.

Mateus Peçanha, engenheiro ambiental e técnico de meio ambiente, é diretor da Academia Lixo Zero em Florianópolis. O instituto busca cooperar com empresas, guiá-las para um posicionamento e ações mais sustentáveis, apresentando questões práticas que gerem eficiência, economia e engajamento através da gestão de resíduos, usando o conceito de lixo zero como uma ferramenta de gestão e qualidade total

Peçanha afirma que existe um número reduzido de empresas que já estão trabalhando questões ambientais e de governança. E que, além disso, há um despreparo profissional para levar uma empresa a alcançar a sustentabilidade e a ESG (governança ambiental, social e corporativa).

No entanto, outra prática que vem crescendo é o chamado greenwashing, o ato de divulgar informações sobre ações positivas em relação ao meio ambiente que não passam de  propaganda enganosa.

Um exemplo foi a empresa automobilística Fiat, que anunciou em 2007 um novo pneu denominado Superverde, que supostamente teria maior durabilidade e menor consumo de combustível. Contudo, o Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária) considerou propaganda enganosa, já que a produção, o uso e o descarte do produto não condiziam com a proposta sustentável.

“O greenwashing acontece muitas vezes por falta de conhecimento e não por vontade dos profissionais. Porém, em muitas situações é visível a falta de conexão de certas atividades de empresas com o seu estilo de trabalho e políticas internas”, avalia Peçanha. A prática, a princípio, pode trazer pontos positivos para a empresa, tanto na questão financeira quanto publicitária, entretanto, quando descoberta, acaba afetando a reputação e o valor de mercado.

Afinal, o país só tem a ganhar com um modo de economia verdadeiramente sustentável, como diz Karpavicius. “Há muitos estudos que mostram que o incentivo a uma economia verde pode ser fundamental, por exemplo, para a recuperação da crise econômica que o Brasil vive hoje. Esta seria a chamada ‘retomada verde’, onde daríamos um grande empurrão para a sustentabilidade”, afirma a economista.

 

O indigenista acompanhava o correspondente do The Guardian, Dom Phillip, em visita a comunidades indígenas no município de Atalaia do Norte, quando ambos sumiram.
por
Ana Carolina Coelho
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06/06/2022 - 12h

Estão desaparecidos há mais de 24 horas, o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips, correspondente do The Guardian no Brasil. O desaparecimento de Bruno e Dom já foi oficializado na Polícia Federal, junto ao Conselho Nacional de Direitos Humanos e ao Indigenous Peoples Rights International.

Segundo informações da Coordenação da Organização Indígena UNIJAVA, os dois se deslocaram com o finalidade de visitar a equipe de Vigilância Indígena que se encontra próxima à localidade chamada Lagoa do Jaburu, para que o jornalista realizasse algumas entrevistas com os indígenas na região próxima às fronteiras com o Peru e a Colômbia. Além disso, a UNIJAVA também afirma que eles e membros da entidade foram alvos de ameaças nos últimos tempos.

 

O JORNALISTA, DOM PHILLIPS

 

Do Reino Unido, o jornalista Dom Phillips atua no Brasil desde 2007. Atualmente reside na cidade de Salvador, na Bahia.

O jornalista é correspondente de diferentes jornais, como o Financial Times, New York Times, The Intercept, The Observer, entre outros. Mas nos últimos tempos, vem trabalhando de forma recorrente para o inglês The Guardian.

Por sua proximidade com as pautas ambientais, Phillips está trabalhando na escrita de um livro sobre o meio ambiente com colaboração da Fundação Alicia Patterson.

O jornal The Guardian já manifestou preocupação com o desaparecimento do jornalista. “O The Guardian está preocupado e buscando urgentemente informações sobre a localização e condição do Sr. Phillips”, disse em nota. 

 

O INDIGENISTA, BRUNO PEREIRA

 

Ex-servidor de carreira da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Bruno Pereira é reconhecido como defensor das causas indígenas. Nos últimos anos, Bruno foi coordenador regional da Funai de Atalaia do Norte, o servidor deixou o cargo em 2016, durante um violento conflito registrado entre os povos isolados da região.

Em 2018, ocupou o cargo de coordenador-geral dos índios isolados e de Recém Contatados da Funai, quando dirigiu a maior expedição para contato com índios isolados dos últimos 20 anos. Porém, foi exonerado do cargo no final de 2019, após pressão dos setores ruralistas próximos ao presidente Jair Bolsonaro. 


 

A TRADIÇÃO DE DESAPARECIMENTOS E ATENTADOS CONTRA ATIVISTAS AMBIENTAIS NO BRASIL

 

Diversas entidades apontam que o Brasil é, hoje, um dos países mais perigosos para ativistas de direitos humanos e ambientalistas. O relatório “Defender o amanhã: A crise climática e as ameaças contra os defensores do meio ambiente e da terra”, feito pela ONG Global Witness, aponta um recorde no número de ativistas assassinados no ano de 2019 em todo mundo. Mais de dois terços dos assassinatos aconteceram na América Latina, tendo o Brasil com 24 vítimas de 212 contabilizadas ao todo.

De acordo com o relatório, quase nove em cada 10 assassinatos no Brasil ocorreram na Amazônia e tem os indígenas como a população mais exposta a violência.




 

Uma análise do agronegócio e o mito do projeto progressista moderno
por
Catharina Moriais
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29/06/2022 - 12h

Por Catharina Faria de Moraes

Durante muitos séculos no território demarcado atualmente como brasileiro, predominava uma visão espiritual sobre a conexão entre a natureza e o ser humano. Contudo, a partir de um processo de dominação territorial houveram imposições de novas crenças sobre o manuseio do solo do País.  Para compreendermos as atuais conjunturas do agronegócio brasileiro e as consequências que a agro-exportação, como uma das principais fontes econômicas, têm sob as circunstâncias brasileiras é necessário voltar no tempo para analisar como se chegou até a realidade enfrentada no momento. 

O pensamento social brasileiro já no século XVIII, em diversas produções textuais de autores desde José Bonifácio à Frei Vicente de Salvador e Joaquim Nabuco, demonstram uma percepção alarmante quanto ao problema ambiental no Brasil. O país foi fundado por um regime colonizador agrícola, monocultor e latifundiário, que estava inicialmente focado na exploração do pau Brasil. Em 1823, José Bonifácio escreveu um artigo em que atesta que caso o país não tomasse providências para preservação de suas florestas em menos de dois séculos, iria se transformar nos áridos desertos da Líbia. 

É importante observar que os problemas ambientais tiveram diferentes problemas ao longo dos diversos planos de governo que tivemos, já que com eles, tinham projetos de desenvolvimento econômico distintos. Porém, os conflitos quase sempre se estabelecem em torno da preservação ambiental e projetos desenvolvimentistas. 

Os problemas ambientais não são simplesmente dados. Os pensamentos ambientalistas críticos que surgiram desde cedo, ajudaram a construir nossas instituições políticas como órgãos, leis, etc. Elas não foram somente construções casuísticas de determinados governos, mas foram construídas e moldadas conforme foi se desenvolvendo uma percepção social dos impactos ambientais que existiam em ações cometidas por um setor agrícola desenfreado. 


Políticas públicas para “controle da situação”

Existem diversas maneiras de conceituar e formar o que se caracteriza como problema ambiental. Dois principais tipos de legislações ambientais tem como característica: as que dizem respeito aos princípios de proteção ambiental, definindo o que é a proteção; e aquelas que definem como será estruturado o sistema para controle e implementação dessa proteção. Dentro da nossa política ambiental existe uma concepção marcada, desde a década de 1930, de responsabilidade entre o Estado e a sociedade na proteção da natureza. 

Um dos marcos iniciais foi o código ambiental de 1934 (Decreto 23.793/34), feito no período do Governo Provisório de Getúlio Vargas, que obrigava os donos de terras a manterem 25% da área de suas propriedades com a cobertura de mata original. Essa necessidade de proteção florestal além de ser traçada para as “demandas econômicas”, se transformou depois nas áreas de preservação permanente - APPs. O projeto de modernização da agricultura do país iniciou na década de 1950, com a agricultura intensiva. A Revolução Verde acompanhou um novo processo de práticas de cultivo que dependiam de produtos químicos agrícolas, agrotóxicos e fertilizantes. 

Mas foi a partir da década de 1960, principalmente no início do período ditatorial do governo militar em 1964, que foram elaborados planos de “modernização do campo”, moldando a produção de bens primários ao capital financeiro, diante dos interesses do mercado internacional. Essa reestruturação do campo foi por meio do plano Complexo Agroindustrial no Brasil (CAI) que incorporou tecnologias e mecanização industrial para a agricultura, criando assim uma interdependência entre elas. 

Esse modelo agroindustrial trouxe mudanças sociopolíticas para diversos grupos que dependiam do meio, além de econômicos. A ausência de políticas públicas em relação às reformas da estrutura fundiária e da regulamentação das condições de vida dos trabalhadores do campo, ajudam a compreender o impacto do efeito da modernização conservadora que aconteceu. A concentração de terras nas mãos de poucos latifundiários foi mantida,criando assim uma grande quantidade de terras improdutivas, algo que pode se observar ainda hoje, e a disparidade de renda no campo aumentou. Essas foram as consequências de suprir as necessidades industriais e do aumento da exportação monocultural. 

Existiam políticas governamentais que ajudaram a formar a estrutura agrária. O Estado na ditadura militar foi o pilar para toda essa reforma, que priorizou os interesses dos grandes grupos econômicos e empresariais. É possível ver isso com as estratégias de incentivos fiscais, créditos subsidiados e programas como o Serviço Social Rural e o Estatuto da Terra. Deixando de lado planejamentos de uma reforma agrária, não houve auxílio com os problemas enfrentados pelos trabalhadores e pequenos e médios produtores do campo, fortalecendo então a desigualdade social. 

Durante todo o período da década de 1980 até os anos 2000, é possível observar que, marcado por duas crises cambiais, não houve medidas do governo de modificação fundiária. O agronegócio se consolida então, atualmente, como um modelo de acumulação de capital no campo, com um caráter predador e excludente. As exportações em pouco mais de uma década, de 1999 a 2012, quintuplicaram na produção de commodities. Destacando o aumento da produção, riqueza e novas tecnologias, o agronegócio se consolida a partir de um caráter produtivista. 

Esse fenômeno é considerado como uma “reprimarização” ou especialização primária. É um processo de desnacionalização do meio agrário onde o próprio meio rural está submetido a interesses de empresas transnacionais. Cada vez mais, tendo em vista que sua própria economia é baseada substancialmente na produção agroexportadora, o país depende da economia globalizada. 

Alan Azevedo, um ex-jornalista do Greenpeace Brasil que cobriu pautas socioambientais no Executivo, Judiciário, Congresso Nacional e realizou consultoria de comunicação para o Instituto Socioambiental junto ao povo indígena Yanomami, comentou sobre a organização da política para lidarem com as pautas ambientais afirmando que

 


Fertilizante e a guerra internacional

Uma das principais estratégias utilizadas para a superprodução de monoculturas é o uso intensivo de fertilizantes. Isso também criou uma dependência da produção nacional no mercado internacional. Tratando de fertilizantes, o Brasil é o quarto maior consumidor global, importando mais de 40 milhões de toneladas por ano, que corresponde a 85% do total utilizado no setor agrícola. Portanto, ao ano, segundo o relatório de outubro de 2021 na consultoria do COGO Inteligência em Agronegócio, o País gastou cerca de R$56 bilhões. No ano de 2021 o país bateu um novo recorde histórico, comprando 13% a mais do ano anterior e com um expressivo crescimento de quase 16 milhões de toneladas em apenas 6 anos. 

Mas para a desfortuna brasileira, um de seus principais fornecedores em 2022 entrou em guerra. O conflito da Rússia e da Ucrânia desestabilizou o mercado agrícola do país, já que, segundo a última edição do Boletim Logístico da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a Rússia é responsável por 28% das importações brasileiras. Por conta disso, em meio também à crise global de fertilizantes, os preços dos alimentos podem ficar ainda mais altos, causando um desabastecimento e um crescimento na taxa da fome.

Surgiu então, diante disso, um plano, o Programa Nacional de Fertilizantes (PNF). Essa tentativa de desenvolver alternativas de fertilizantes, além do estrangeiro,  é um processo gradativo, contudo, ainda existem desafios com essa adaptação. Uma dos substitutos seriam os fertilizantes naturais, que geram um impacto menor para o meio ambiente e que são utilizados para a produção de alimentos orgânicos. Porém, o setor resiste a novas propostas que possam substituir os fertilizantes químicos. A fim de manter a estrutura fundiária ligada a projetos de capital internacional, o agronegócio prejudica também a imersão de substitutos naturais. Como um efeito dominó, a baixa na demanda por esses produtos aumentam seus preços e dificultam sua produção.

De acordo com Marcos Araújo, diretor comercial de uma empresa brasileira de fertilizante natural chamada PrimaSea, os fertilizantes naturais são fontes que precisam de pouco processamento, quando comparados aos complexos industriais das fontes minerais clássicas, para a sua exploração. A empresa que extrai algas mortas presente no litoral baiano chamada lithothamnium, compreende que existe uma vantagem na maior sustentabilidade aos sistemas de solo/planta, quando são utilizados produtos naturais, já que esses têm base em resíduos orgânicos e são ricos em minerais. Contudo, mesmo num processo simples de coleta, moeção e distribuição eles enfrentam um mercado tradicionalista com

“pouco apetite para inovação ou mudanças de hábitos.”

Considerando que há certo preconceito com produtos de origem natural, Araújo também reflete na dominação de grandes empresas de insumos que mantêm uma pressão no mercado e formam uma opinião contrária ao uso de produtos naturais.


 

Aprovação de agrotóxicos

O uso de agrotóxicos em alta escala, e dos mais variados tipos é fruto do agronegócio contemporâneo. Ao contrário dos fertilizantes, que servem para nutrir os solos, os agrotóxicos atuam como pesticidas agrícolas que afetam diretamente a saúde humana, além do meio ambiente. O Brasil é o terceiro maior consumidor de agrotóxicos no mundo que, segundo a Embrapa, tem gastos que superam US$2,7 bilhões por ano. 

O mais assustador é que, mesmo tendo pesquisas como a da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz, órgão do Ministério da Saúde), que relata casos de óbitos de intoxicação humana por agrotóxico a cada ano ou projetos como Programa de Vigilância da Saúde das Populações Expostas a Agrotóxicos da Unicamp que apresenta pesquisas de que cerca de 1,5 milhão de trabalhadores do campo que com contato prolongado com os agrotóxicos estão contaminados, o governo atual continua, em ritmo acelerado, aprovando diferentes tipos de veneno. Em 2019, foram liberados 239 tipos de agrotóxicos, sendo que 31% deles não são permitidos na União Européia. 


Conclusão

 

A reflexão da Suzana Pádua, que é doutora em educação ambiental e presidente do IPÊ- Instituto de Pesquisas Ecológicas, mapeia o que vivemos atualmente. O Estado brasileiro, contra seu próprio bem estar, está se submetendo às demandas do mercado do agronegócio para assegurar as condições de crescimento econômico em escala global. Porém, de forma com que o meio ambiente fique totalmente negligenciado em prol do “desenvolvimento” e permaneça em constante risco. Não só pelo uso de toxinas ao plantar, que poluem as áreas superficiais e internas do solo, mas pela própria estrutura latifundiária  monocultural. 

A ideologia dominante é o modo de produção intensivo. Milton Santos mapeou o período atual como sendo um onde as mudanças econômicas podem ser atingidas a partir de manipulações ideológicas, antes mesmo que uma presença mais maciça do capital de produção ou comercial seja necessária. A super utilização dos recursos naturais e a distorção na destinação desses recursos são resultados de um desenvolvimento histórico do país em relação ao mundo.  

O agronegócio atingiu uma escala de produção tão grande que se tornou o principal regente da economia do país. Os problemas enfrentados no meio rural demonstram a necessidade de uma reorganização do seu próprio modelo, a partir de políticas públicas que ajudem a enfrentar os desafios ambientais que surgem nesse plano. O que não precisamos é de um órgão submisso às demandas de um negócio, que estimula esse sistema fadado à devastação.