Requerimento da Câmara Municipal de Londrina tentou impedir a atleta transexual de participar da competição
por
Guilbert Inácio
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03/03/2026 - 12h

Na última quinta-feira (26), a Câmara Municipal de Londrina (PR), em regime de urgência, aprovou um requerimento que vetou a jogadora trans Tiffany Abreu, do Osasco Cristóvão Saúde, na fase final da Copa Brasil de Vôlei Feminino, que ocorreu no município. A medida foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, com os dois braços levantados. Atrás, há a presença de outras jogadoras e da arquibancada.
Em 2017, Tiffany se tornou a primeira mulher trans a atuar na elite do vôlei feminino brasileiro. Foto: Carolina Oliveira/Osasco Cristóvão Saúde

O requerimento 102/2026, protocolado na Câmara pela vereadora Jéssica Ramos Moreno (PP), conhecida como “Jessicão”, foi aprovado por 12 votos favoráveis e quatro contrários. No texto da solicitação, a vereadora cita nominalmente Tiffany e alega que o Osasco inscreveu “o atleta” de forma indevida.

Lei contraditória

A ação foi encaminhada por ofício para a prefeitura, que exige o cumprimento da Lei Municipal nº 13.770/24. Essa norma municipal proibe, em Londrina, a participação de “atleta identificado em contrariedade ao sexo biológico de seu nascimento” em times, competições, eventos e disputas esportivas.

A lei é de autoria de Jessicão e não chegou a ser sancionada pelo então prefeito de Londrina, Marcelo Belinati, mas foi promulgada pelo presidente da Câmara, Emanoel Gomes (Republicanos). Caso a medida seja descumprida, o segundo parágrafo do Art. 2º prevê revogação do alvará da competição e multa administrativa de R$10.000 ao Osasco.

Contudo, a norma tem trechos confusos no campo da ciência, pois ao definir quem está impedido de jogar por "contrariedade ao sexo biológico" o texto mistura identidade de gênero e orientação sexual. “Gay, lésbica, bissexual, pansexual, intersexual, assexual, transexual, agênero, não binário de gênero, cisgênero, transgênero, travesti, entre outros”, diz o segundo parágrafo do Art. 1.

A palavra cisgênero, termo referente às pessoas que se identificam com o sexo biológico atribuído no nascimento, também é mencionada. Em resumo, a lei, como está redigida, abre precedentes para proibir qualquer pessoa de praticar esportes de alto rendimento no município. Isso pode interferir na autonomia das federações de regular as práticas esportivas, além de entrar em conflito com a seção III da Lei Geral do Esporte, que garante o direito fundamental de todas as pessoas à prática esportiva em suas múltiplas e variadas manifestações.

Manifestações e decisões da justiça

Após a aprovação do requerimento, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) e o Osasco recorreram à justiça para garantir a presença da atleta na semifinal da competição contra o Sesc RJ Flamengo, na sexta-feira (27), no Ginásio Moringão.

Em nota no Instagram, o clube paulista se manifestou:

 “Tifanny Abreu atua profissionalmente no voleibol nacional há mais de oito anos. É uma atleta exemplar, dedicada e que cumpre rigorosamente todos os requisitos técnicos, médicos e de elegibilidade exigidos pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), órgão máximo que regula a modalidade no país. Ela está, portanto, regularmente inscrita e apta a disputar qualquer competição sob a chancela da CBV.

Osasco São Cristóvão Saúde entende que as competições esportivas de nível nacional devem ser regidas pelas normas das confederações esportivas nacionais, que possuem a competência técnica e recursos para análise científica para definir os critérios de elegibilidade. A interferência de legislações municipais sobre regras de competições federadas cria um precedente perigoso que ameaça a isonomia e a integridade das disputas esportivas no país.

Nosso clube se pauta pelos valores do esporte, que agregam a inclusão, a diversidade e o respeito a todos os indivíduos. Apoiamos integralmente a nossa atleta e defendemos seu direito constitucional ao trabalho e ao exercício de sua profissão, livre de qualquer forma de discriminação.”
 

Na tarde de sexta-feira (27), o juiz Marcus Renato Nogueira Garcia, da segunda Vara da Fazenda Pública de Londrina, apontou inconstitucionalidade e concedeu liminar que impediu a prefeitura de vetar a ponteira do jogo. A prefeitura atendeu o pedido.

Horas antes do jogo, em liminar, a ministra Cármen Lúcia, do STF e responsável pela relatoria do caso, suspendeu a eficácia da lei até que a ação passe por exame de mérito. Segundo a ministra, a lei geraria: "grande perplexidade e insegurança jurídica e social, por materializar um retrocesso nas políticas de inclusão social, de igualdade de gênero e de promoção da dignidade humana".

A vereadora Paula Vicente (PT), uma das quatro pessoas que votaram contra o requerimento, alegou que vai entrar com ação nos órgãos competentes para revogar a lei.

Tiffany fica

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, recebendo o troféu Viva Vôlei.
Tiffany atuou na semifinal e final da Copa Brasil de Vôlei. Foto: Rafael de Paula/Usina de Ideias/CBV

Na final, no sábado (28), a equipe paulista foi campeã sobre o Minas por 3 sets a 1. Tiffany foi ovacionada pelo público presente no Ginásio Moringão.

Por voto popular, a jogadora do Osasco foi eleita a melhor jogadora da final e recebeu o troféu Viva Vôlei, mas entregou o mérito a Jenna Gray, levantadora e aniversariante do dia, que foi dispensada do Minas no fim da última temporada.

Em entrevista à Sportv, Tiffany mandou um recado para a vereadora Jessicão pedindo para ela se preocupar mais com o esporte da cidade. “Vai buscar incentivo para dar suporte, em vez de excluir, porque o seu trabalho é dar inclusão e não exclusão.”
 

Ataque com xingamentos homofóbicos aconteceu durante as comemorações do 7 de Setembro, por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro; Brasil registra uma morte por homofobia a cada 30 horas
por
Maria Clara Palmeira
Maria Mielli
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10/09/2025 - 12h

Neste domingo (07), o vendedor Bruno Barros, 34, foi agredido por um dos manifestantes presentes no ato pró-Bolsonaro, na Avenida Paulista. A agressão ocorreu na banca em que Bruno e seu marido, Lucas Vinicius, vendem seus artesanatos. Os produtos são voltados à comunidade LGBTQIA +; bandeiras lésbicas, gays, trans, canecas e itens decorativos. 

Em entrevista à AGEMT, Bruno relatou que eles estavam cientes da manifestação, mas que isso não seria um empecilho para cumprir mais um dia de trabalho. Segundo o vendedor, ele tentou inclusive encarar o dia com bom humor: “Eu estava com um leque da comunidade, brincando, porque você percebe quem passa ali e não é bolsonarista. Aquela pessoa te olha, dá um sorriso meio tímido; e aí eu brincava: limpa, limpa, limpa!"

A biomédica Letícia Serafim, que passeava pela avenida com um amigo, contou que não se lembrava da manifestação: “Nunca tinha visto aquilo de perto. As pessoas esbarravam de propósito, como se fossem donas da Paulista. O mais absurdo foi ver bandeiras dos EUA sendo erguidas, no Dia da Independência do Brasil.”

Letícia relatou que foi até um shopping nas proximidades e foi atraída pela banca de Bruno e Lucas: “Foi como entrar numa bolha. Ali tinha música, conversa, acolhimento. Eles eram a verdadeira resistência no meio do caos.”

Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Reprodução/Letícia Serafim
Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Letícia Serafim

Segundo Bruno, alguns dos manifestantes gritavam coisas aleatórias direcionada a ele, de “petista safado” a “Lula ladrão”. Até que um grupo de meninos se aproximou para gravar uma entrevista com ele. “Eu estava falando como eu estava incrédulo, como [o protesto] estava cheio. Foi bem assustador ver o tanto de pessoas que estavam passando. Pessoas que não tem conhecimento nenhum de história, pedindo anistia de pessoas que depredaram o Brasil. É ridículo”, declarou. Mas enquanto conversava com os entrevistadores, um manifestante começou a proferir comentários homofóbicos na direção de Bruno, que interrompeu a entrevista e foi pedir ajuda a policiais que estavam próximos.

Bruno foi então agredido com um soco no maxilar, na frente dos policiais. “Foi do nada. Na hora que ele virou o soco, o policial veio, separou e eu falei ‘agora que eu quero mesmo abrir um BO de agressão e um de homofobia' ”. De acordo com o relato do vendedor, após os policiais conterem o agressor e afastá-lo, eles o soltaram. 

A situação revoltou Bruno que começou a gritar acusando não só o agressor, mas os demais manifestantes de "homofóbicos, racistas, transfóbicos e misóginos”. Em resposta, o grupo inverteu a situação e afirmou que era Bruno quem estava atacando os manifestantes. Lucas, marido de Bruno, tentou acalmá-lo diante aquela situação. “Acho que foi a primeira vez que a gente ficou com medo, eu, meu marido e uma amiga nossa que estava ali”, desabafou à Agemt.

Segundo o Atlas da Violência, produzido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de 2014 a 2023 o registro de violências contra pessoas da comunidade cresceu 1.227%. Em relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), só em 2024 o Brasil registrou 91 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+, o equivalente a uma morte a cada 30 horas. Desde 2019, após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), a homofobia e a transfobia foram equiparadas ao crime de racismo, previsto na Lei n.º 7.716/1989, sendo, portanto, passíveis de punição criminal.

Temáticas são abordadas desde os anos 60 no Japão e continuam exploradas até hoje
por
LUCCA CANTARIM DOS SANTOS
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16/06/2025 - 12h

“O sonífero”, projeto criado por Lucca Cantarim, estudante de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) , tem por objetivo combater a visão reacionária a respeito de temas de gênero no entretenimento.

Trazendo a história da presença de personagens de diversas sexualidades e gêneros nos mangás e animes dentro da mídia japonesa, o autor trás uma reflexão leve, descontraída, porém importante a respeito de uma representatividade tão importante.

Os sete artigos que compõem o projeto estão disponíveis para serem lidos no site “Medium”, no perfil autoral de Lucca. Os textos contém entrevistas com pesquisadores, fãs e até mesmo leitores de dentro da comunidade LGBT que se identificam e se abrem sobre a importância da representatividade para eles.

Disponível em: https://medium.com/@luccacantarim/list/o-sonifero-d19af775653e

 

Um lugar onde a leitura também é um gesto de resistência
por
Nicole Domingos
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16/06/2025 - 12h

A literatura sempre foi um território de disputa simbólica, um espaço onde narrativas dominantes se impõem, mas também onde vozes dissidentes encontram brechas para existir. No caso da literatura LGBTQIAPN+, essas brechas são preciosas. O site palavras em trânsito, feito por Nicole Domingos, trata exatamente disso, desses pequenos espaços que já existiram e que existem hoje. É um lugar dedicado ao estudo, à crítica e à celebração da literatura LGBTQIAPN+.

Ao longo do site, vamos tratar especialmente sobre os corajosos que escrivam e gritavam dentro de deus próprios livros, ainda que estivessem dentro dos períodos de repressão, como a ditadura militar brasileira — esses autores utilizaram a palavra como forma de resistência.

A literatura não apenas narra experiências — ela reescreve a história a partir de corpos e afetos antes excluídos. Ela cura feridas simbólicas, questiona heranças opressoras e cria novos imaginários de existência. Ao nos colocar diante de personagens que amam, sofrem, resistem e sonham fora da norma, ela nos lembra de algo fundamental: toda existência merece ser narrada. E lida.

Para acessar esse mundo, basta clicar no link abaixo:

https://literatura-lgbt.my.canva.site/

 

 

Alunas da UFABC e USP compartilharam suas vivências e desafios na luta por inclusão e equidade no meio acadêmico
por
Pedro da Silva Menezes
Maria Dantas Macedo
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09/06/2025 - 12h

No mês do Orgulho, podcast investiga as cotas trans nas universidades brasileiras a partir de relatos de duas estudantes trans: a Gabriela, aluna de Letras na USP,  e a Ellie, gestora do Centro acadêmico de Humanidades da UFABC, faculdade que aderiu as cotas trans em 2019. Elas expõem dificuldades, lutas e avanços, revelando por que essa política de cotas é urgente para garantir inclusão e respeito.

Mesmo com diferentes experiências, entrevistas mostram que a conexão é comum em grande parte dessa comunidade.
por
Lorrane de Santana Cruz
Marina Gonçalez de Figueiredo
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01/09/2022 - 12h

Pessoas trans que se identificam fora do espectro binário relatam como sua atração por todos os gêneros foi importante durante seu processo de descoberta da não-binariedade. Em entrevista para a Agência de Notícias Maurício Tragtenberg, a Agemt, três pessoas desse grupo contam sobre suas vivências. 

A. T., de 21 anos, foi designado para o gênero feminino quando nasceu, e sempre teve problemas para expressar feminilidade: “Sempre acharam que eu era lésbica, e como isso nunca me incomodou, eu achei que era mesmo”. Foi só quando descobriu que não era uma mulher que T. desatrelou sua sexualidade da forma como se portava, e começou a reparar na sua atração por pessoas do gênero masculino.

Já E. F., também de 21 anos, já se identificava como bissexual antes de se assumir pessoa não-binária. A reflexão em relação ao seu gênero só começou anos depois de se assumir bissexual, e, segundo ela, sua experiência prévia em relação à sexualidade lhe proporcionou um olhar mais atento às identidades de gênero que fogem do apenas masculino ou feminino. 

Por fim, M. L., de mesma idade, disse que sua percepção de gênero não mudou por quem ela se sentia atraída, mas sim como essa atração funcionava. Por mais que M. L. se sinta mais próxima do feminino do que do masculino, ela se considera uma pessoa não-binária, o que fez com que ela se sentisse mais confortável com a pansexualidade, e não com a bissexualidade, como antes pensava. 

Dados mostram como a população LGBTQIA + em geral representa uma parcela significativa da população. Em 2019, o IBGE divulgou que 1,1 milhão de pessoas, cerca de 0,7% da população, se afirmaram bissexuais. A FMB (Faculdade de Medicina Botucatu), divulgou um levantamento onde 2%, cerca de 3 milhões de da população adulta, são transgênero, binárias ou não. 

 

 

Após se assumir no podcast No Armário dos Vestiários, ex-jogador de futebol e atual comentarista se torna o primeiro não hétero na seleção brasileira
por
José Pedro M. dos Santos
Lucas Tomaz Lopes
Francisco Vecchia
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07/09/2022 - 12h

 
Fonte: Reprodução instagram/Richarlyson  Richarlyson jogando com a camisa da seleção
Fonte: Reprodução instagram/Richarlyson   Richarlyson jogando com a camisa da seleção brasileira

Richarlyson, ex-jogador, que jogou na série A do Brasileiro pelo São Paulo, Atlético Mineiro e na seleção brasileira, declarou no segundo episódio do podcast Nos Armários dos Vestiários, que é bissexual, se tornando o primeiro jogador masculino não hétero a atuar na primeira divisão do campeonato brasileiro e na seleção.

Além dele outros jogadores de outras ligas e do futebol feminino já se assumiram, como Jake Daniels, jogador do Blackpool, time que atualmente joga pela segunda divisão inglesa, que assumiu ser homossexual aos 17 anos em 1990, Marta, que já conquistou seis vezes o título de melhor futebolista do mundo seis vezes, sendo cinco consecutivas, Justin Fashanu, jogador inglês que é considerado o primeiro jogador a se assumir dentro do futebol, sendo capa do jornal The Sun após sua declaração. Fashanu jogou em diversos clubes da primeira divisão inglesa como West Ham e Manchester City, o jogador de futebol americano, Carl Nassib, que o primeiro atleta da NFL abertamente homossexual, além do ex-jogador da NBB (Novo Basquete Brasil), principal liga de basquete no país, Jefferson Campos, que falou sobre seu relacionamento com o humorista Joaquim Chicó em suas redes.

Um tempo depois Walter Casagrande, ex-jogador do Corinthians e comentarista esportivo para a Folha e UOL, comentou no podcast Café da Manhã, da Folha, sobre o caso, afirmando que Richarlyson é único e se assumiu por conta de não conseguir mais sem ser verdadeiro consigo mesmo e por isso se assumiu, mas que ele desacredita que outros jogadores farão o mesmo a curto prazo, pois o ambiente do futebol é muito conservador, machista, homofóbico e racista e que na opinião dele um jogador que se entende como membro da comunidade LGBTQIA+ será constrangido, dentro e fora de campo, além de esses jogadores não quererem ser “vidraças para levarem pedradas”.

Segundo Gabriel Cordeiro, de 17 anos, estudante de jornalismo e corintiano, a importância do ato do comentarista está em inspirar outros jogadores e pessoas a também conseguirem se abrir sobre si mesmas e mostrar para o torcedor que o esporte é para todos e que outros jogadores possam se sentir a vontade de se abrirem neste meio machista. Giulia Cicirelli, também de 17 anos estudante de jornalismo e torcedora do Palmeiras, comentou que acredita que “o meio do esporte é um ambiente hostil para atletas que possuem opiniões, características ou posicionamentos que são considerados fora dos "padrões tradicionais”. Para ela, o medo e a insegurança do que pode acontecer após se assumirem cria um paralelo com a ideia de Casagrande sobre os atletas não querem se colocar como vidraças, visto que o ambiente fora do campo, tanto dentro do time como a torcida fazem os jogadores se retraíram e não se abrirem sobre o assunto. 

Apesar do padrão conservador, homofóbico, machista e racista no cenário do futebol brasileiro apresentado por Walter Casagrande, tanto Cordeiro como Cicirelli acreditam que a representação de figuras do esporte na comunidade LGBTQIA+ são de extrema importância para quebrar os preconceitos e avançar a luta pelos direitos desses grupos, pois sem essa representação tanto os jogadores quanto os torcedores são prejudicados, os primeiros por não poderem ser verdadeiros consigo mesmo, por medo de se prejudicarem e aos torcedores destas comunidades, que sentem que não pertencem aquele espaço e acabam cedendo para quem mantem essa estrutura conservadora dentro do esporte.

Com maior aparição de figuras do grupo, cresce o debate sobre a necessidade da presença nos desenhos animados e filmes
por
Davi Garcia
Pedro Lima
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07/09/2022 - 12h

A inclusão de personagens LGBTQIA+ nos desenhos animados é cada vez mais presente nas telas. Animações como She-Ra e as Princesas do Poder e Steven Universe fazem questão de abordar a situação de escolha de gênero com naturalidade e respeito, possibilitando que jovens se identifiquem com situações não heteronormativas. No primeiro exemplo, a Netflix, produtora do desenho, fez questão de modernizar na animação, roteiro, e, principalmente, na inclusão de personagens LGBTQIA+, incluindo a She-Ra, protagonizando um romance com a vilã do desenho. 

Além disso, a animação da Netflix é um reboot do desenho dos anos 80, em que She-Ra é a irmã gêmea de He-Man, e foi feita para ampliar o universo dos brinquedos da Mattel para as meninas.  

Por ser de fácil acesso e ter um visual atrativo, comparado aos desenhos da atualidade, o seriado teve altos índices de audiência, além de boas notas em sites de reviews, como a de Camila Sousa, do site Omelete, em que avaliou She-Ra e as Princesas do Poder como uma “uma encantadora história de amadurecimento, cheia de lições importantes e que combina muito bem com as novas gerações.” Com isso, jovens conseguiram se identificar com a representatividade racial, além da questão de gênero, caso de Mell Mengui (18), estudante de Relações Internacionais na FURG. 

Mengui comenta a importância do seriado para a escolha de gênero: “She-Ra para mim foi o primeiro desenho que eu assisti que eu realmente me vi representada em questão de sexualidade nos personagens, o desenho trata com a naturalidade que o assunto deve ser tratado, e não como um tabu”. Além disso, a universitária reafirma a necessidade do tratamento do assunto, “São personagens assim que colaboram para a criação de outros e assim vai ganhando mais espaço nas telas e ajuda que as próximas gerações não sejam tomadas por um preconceito que muitas pessoas se sintam representadas ao ponto de verem que sua sexualidade ou gênero não é algo errado” 

Porém, a abordagem nem sempre foi a mais adequada para a situação. Alguns desenhos estereotipavam os personagens de maneira que, sua única característica fosse sua sexualidade e nada mais, além de usar roupas completamente diferentes e ter uma voz na maioria das vezes engraçada e chamativa de maneira negativa, além de não terem relevância o suficiente e serem tratados como o alívio cômico da animação, esse tipo de "representatividade" na verdade apenas desfavorecia e prejudicava aquilo que deveria ser a verdadeira mensagem, felizmente, é algo que não acontece mais hoje em dia ou pelo menos acontece com baixa frequência. 

É curioso perceber a reação de algumas pessoas e usuários na internet em relação a representatividade LGBTQIA+ em desenhos e filmes animados. Apesar de ser algo que ajuda e influência as crianças e adolescentes de maneira positiva, muitas pessoas repudiam as cenas e personagens que fazem parte da comunidade.   Além do mais, qualquer demonstração de inclusão por parte de Hollywood é repudiada por aqueles que preferem o mais próximo à definição estereotipada do que é certo e moral. Como o filho de Clark Kent, o Superman, ser bissexual, um alarme na comunidade que se diz fã da empresa. Contudo, o cenário vem permitindo cada vez menos esses discursos, e abraçando a presença de todos, com cada vez menos intolerância e mais respeito. 

Para Gabriel Lodi, o "transfake" e o imaginário social cis são os principais desafios enfrentados pela comunidade
por
Beatriz Yamamoto
Marina Jonas
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07/09/2022 - 12h

"Precisamos representar personagens contando nossas histórias através de nossos próprios corpos”, afirma Gabriel Lodi, ator e dublador trans. Existem muitos desafios se tratando da identidade de gênero dissidente em um país transfóbico como o Brasil. E, ao contrário do que muitos pensam, o mundo das artes não é diferente. “O cinema não é só transfóbico, ele é misógino, branco, racista, elitista; ser transfóbico é só mais uma questão dentro do universo hierárquico que é o universo do cinema.” Desse modo, não só Lodi, mas todos os atores e atrizes trans encontram diversas questões relacionadas aos seus corpos e suas identidades durante suas trajetórias como artistas. 

A representatividade trans no mundo artístico ainda é bastante escassa e, muitas vezes, mesmo que existente, é realizada por pessoas cisgêneras. Em diversas narrativas trans, ocorre o que se conhece como transfake, termo usado para se referir à prática de pessoas cis representando pessoas trans no audiovisual. Essa é uma prática bastante utilizada e gera um apagamento sistemático da comunidade trans, explica Lodi, afinal há representatividade trans se não são essas próprias pessoas representando suas histórias? 

O transfake é reflexo do imaginário social que a cisgeneridade tem sobre a vivência da transgeneridade, trazendo uma falsa representatividade nas produções. São ideias muitas vezes deturpadas ou até mesmo distorcidas sobre a realidade trans, que costuma ser representada como miserável, baseada em situações de vulnerabilidade emocional, social e econômica, sempre às margens da sociedade. Assim, o ponto de vista cis sobre o tema reforça estigmas que já se tem sobre a comunidade trans, sendo limitante quanto às suas vivências que, na verdade, são diversas e pertencentes à múltiplas realidades.  

A perspectiva cisgênera sobre narrativas trans também inibe a possibilidade que muitas pessoas teriam de se identificar e ganhar potência através da arte. Além disso, impede com que a própria comunidade se expresse através dela e exponha seu desejo de avanço em relação à sua qualidade de vida e à sua integração na sociedade. O uso de narrativas que envolvem positivamente a transgeneridade pode dar mais força às vozes do movimento. 

Surge então a importância da interpretação de papéis trans por parte de pessoas que tenham, de fato, vivências identitárias em sua bagagem. A interpretação de outros tipos de papéis por parte de atores e atrizes trans também se faz importante no cinema, pois é uma forma de inclusão desses artistas, que permite com que falem de suas experiências como parte de uma minoria, mas não sendo o único contexto em que personagens trans apareçam nas produções. E, a inclusão envolve os próprios conteúdos cinematográficos e a participação na direção da construção de narrativas e execução de filmes, inclusive em cargos importantes e proeminentes. 

No cenário atual, avanço não seria a palavra mais adequada para definir a realidade dos artistas trans. Gabriel explica: "Tivemos pequenas conquistas e eu comemoro cada uma delas. De tanto a gente lutar, dar nossa cara a tapa e fazer manifestações para falar da nossa existência, surgiram mais oportunidades de trabalho, mas ainda não pertencemos a esse espaço”. Para o ator não há um avanço social ainda e, ele completa, “Acredito que quando a gente avançar socialmente tudo vem junto.” Discutir o tema é essencial para gerar conscientização e mobilização por parte da sociedade como um todo.

A utilização do termo não-binário no mundo digital causa divergências de opinião
por
Rodolfo Soares Dias
Ian Valente
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01/09/2022 - 12h

O uso do pronome Neutro vem sendo disseminado pela comunidade LGBTQIA+ e se popularizando, porém, seu uso nas mídias sociais acaba causando polêmicas sobre a necessidade e importância da norma verbal culta. "A reinvindicação é importante e certa, é o direito das pessoas, ela sente a necessidade de se expressar dessa forma através da linguagem", comenta Bruno Sangiorgio professor de línguas formado pela universidade de São Paulo (USP). 

De modo geral, os pronomes são um conjunto de palavras que tem a função de substituir ou nomear um substantivo ou adjetivo, então, esse conjunto é classificado por gênero masculino ou feminino. O neutro surge como uma categoria gramatical que incluí diferentes gêneros que não se identificam nem com o masculino, nem com o feminino.  

Os embates ocorrem a partir do momento em que o uso do pronome neutro começa a se difundir e se torna uma base de mudanças. Para o professor, o problema começa na falta de informação: “As pessoas têm muito preciosismo com a língua portuguesa, mesmo sem estudá-la, é um assunto muito complexo”, e complementa “a língua é viva e acontecem mudanças nela conforme a sociedade a utiliza”. 

No ano passado, o Museu da Língua Portuguesa fez uma postagem de boas vindas pós pandemia em suas redes sociais, utilizando além de "todas" e "todos" o "todes" como representação do pronome neutro, gerando uma repercussão tanto negativa como positiva, sobre o questionamento de uma possível inserção na norma ortográfica padrão.

Os apoiadores da utilização do pronome acreditam que ele possa ser necessário para uma mudança positiva de inclusão de minorias na sociedade e já o utilizam, porém em muitos casos a “transformação” na forma de fala e escrita, incomoda conservadores e estudiosos. No Latim o artigo neutro existia, porém sua terminação coincidia com as terminações masculinas e com o passar do tempo elas foram se unindo e se formou uma só. Por isso, a inexistência de um pronome neutro nos dias atuais é possível, mas para Sangiorgio isso não se justifica: “Usar o masculino plural como neutro só por ser uma herança do patriarcalismo é errôneo, existem sociedades que o neutro é o feminino plural e não significa que a sociedade seja matriarcal”. 

“Mas apesar do preciosismo que eu disse anteriormente, vemos uma presença forte da cultura norte-americana na nossa língua que é tratada com normalidade, palavras como ‘Break’ ou ‘brainstorming’ já estão inseridas na nossa sociedade” cita o professor, como um processo de afastamento e marginalização da sociedade LGBTQIA+, sendo um dos fatores que mais contribui para desvalidar este discurso. 

Ainda assim, seus adeptos lutam para uma maior aderência ao discurso, porém em um ambiente pouco propicio, a internet. Em média, o brasileiro passa quatro dias inteiros por semana conectado na internet, mas ainda sim, existe uma falta de aprofundamento de questões tão importantes como a do pronome neutro, um assunto recente e profundo que é tratado de maneira vaga e acelerada. 

Sangiorgio porém, acredita que a implementação do pronome neutro como norma ortográfica é possível, mesmo em um processo lento e gradual “A partir do momento que a palavra é colocada no dicionário quem é mais afetado é a criança que está na escola, não o adulto que tenta combater seu uso. A mudança só é positiva a partir do momento que se consolide a ponto de ser ensinada nos níveis mais básicos da educação”. Ele finaliza: “A mudança na língua é apenas uma parte do necessário para ter um convívio social saudável para todos.”