Evento reuniu 36,8 mil pessoas na Avenida Paulista e teve o voto como tema central em ano eleitoral
por
Daniela Martinho
Isabella Damião
Lara Manasseh
|
10/06/2026 - 12h

No domingo (7), a maior Parada do Orgulho LGBT+ do mundo realizou sua 30ª edição na cidade de São Paulo com o tema “A rua convoca, a urna confirma”. A escolha destacou a importância da participação política e celebrou os 30 anos da urna eletrônica no Brasil. O evento reuniu cerca de 36,8 mil  pessoas na Avenida Paulista, segundo estimativa do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e da ONG More in Common. O pico da manifestação ocorreu às 14h37, com margem de erro de 12%. 

A edição de 2026 foi marcada pela queda de patrocínio, que alcançou seu ápice com cerca de 60% a menos de incentivo em comparação com anos anteriores. . Um dos principais efeitos dessas medidas é a diminuição da quantidade de participantes ao longo dos últimos anos: em 2024, foram 73,6 mil pessoas no evento; já em 2025, o número foi para 48 mil.

Com shows de Pabllo Vittar e Gloria Groove, além da presença dos deputados do PSOL Erika Hilton e Guilherme Cortez, os 14 trios elétricos reforçaram a importância do exercício da cidadania consciente em ano eleitoral.Na avenida, artistas, ativistas e representantes da sociedade civil defenderam pautas ligadas aos direitos da população LGBTQIA+, ao combate a projetos discriminatórios e à ampliação da representatividade política.

 Os discursos destacaram a relevância da participação eleitoral como instrumento de manutenção de conquistas e direitos, enfrentamento de possíveis regressões. “A grande questão talvez seja a gente não perder o que já se tem, porque a possibilidade de retrocesso está muito grande com os políticos que, infelizmente, querem que a gente suma do mapa”, afirmou o professor de biologia Alexandre Fagundes Cesar, de 51 anos, que veio do Mato Grosso especialmente para a Parada. 

Em maio, o vereador Rubinho Nunes (União Brasil) apresentou o projeto de lei 50/2025, que busca impedir a presença de menores de idade em eventos LGBT+ e restringir sua realização em vias públicas. A proposta foi aprovada em primeiro turno na Câmara Municipal e aguarda votação final e decisão do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Para o advogado pernambucano Johnes Barbosa, de 30 anos, que também veio para São Paulo participar do evento, este é um ano ímpar para a Parada do Orgulho LGBT+. “A gente sabe que é uma celebração, mas acima de tudo é um manifesto”, afirmou.

 

A manifestação que deu origem à Parada aconteceu em 1996, na Praça Roosevelt, em São Paulo, e reuniu cerca de 500 pessoas. No ano seguinte, a primeira edição oficial aconteceu na Avenida Paulista, com cerca de 2 mil pessoas. Em 2006, a 10ª edição do evento bateu recordes internacionais ao reunir mais de 2,5 milhões de pessoas - marco que consolidou a edição paulista da Parada do Orgulho como a maior do mundo.   “Eu apanhei na Paulista quando ainda tinha ditadura porque eu beijei um homem. Eu apanhei da polícia na cara. Hoje isso não acontece. Hoje é lindo ver casais LGBT com um filho. Essas conquistas maravilhosas me emocionam”, declarou Edson, de 63 anos.  Ainda que as políticas públicas em prol da segurança da comunidade tenham avançado nos últimos anos, a violência contra pessoas homossexuais e bissexuais aumentou em 1.110,99% de 2014 até 2023, segundo o Atlas da Violência de 2025. Para pessoas transexuais, o aumento é ainda mais substancial: 1.607,69% de aumento de violência contra homens trans e um aumento de 2.340,74% contra pessoas travestis.   Para Louis, estudante de 15 anos, a transfobia é um dos assuntos mais urgentes dentro da pauta LGBT+. “Muitas travestis são espancadas no meio da rua e ninguém fala nada, não chega no jornal. Eu acho isso um pecado. Eles ficam falando que a gente é pecado, mas vão lá e cometem pior”, argumenta.
“Votinho”, boneco que representou a urna eletrônica na 30ª edição da Parada LGBTQIAPN+ em 2026.Foto: Lara Manasseh/AGEMT

 

A manifestação que deu origem à Parada aconteceu em 1996, na Praça Roosevelt, em São Paulo, e reuniu cerca de 500 pessoas. No ano seguinte, a primeira edição oficial aconteceu na Avenida Paulista, com cerca de 2 mil pessoas. Em 2006, a 10ª edição do evento bateu recordes internacionais ao reunir mais de 2,5 milhões de pessoas - marco que consolidou a edição paulista da Parada do Orgulho como a maior do mundo. 

“Eu apanhei na Paulista quando ainda tinha ditadura porque eu beijei um homem. Eu apanhei da polícia na cara. Hoje isso não acontece. Hoje é lindo ver casais LGBT com um filho. Essas conquistas maravilhosas me emocionam”, declarou Edson, de 63 anos. 

Ainda que as políticas públicas em prol da segurança da comunidade tenham avançado nos últimos anos, a violência contra pessoas homossexuais e bissexuais aumentou em 1.110,99% de 2014 até 2023, segundo o Atlas da Violência de 2025. Para pessoas transexuais, o aumento é ainda mais substancial: 1.607,69% de aumento de violência contra homens trans e um aumento de 2.340,74% contra pessoas travestis. 

Para Louis, estudante de 15 anos, a transfobia é um dos assuntos mais urgentes dentro da pauta LGBT+. “Muitas travestis são espancadas no meio da rua e ninguém fala nada, não chega no jornal. Eu acho isso um pecado. Eles ficam falando que a gente é pecado, mas vão lá e cometem pior”, argumenta. 

 

Do Lampião ao Unicorns: projetos ao longo da história promovem a autoaceitação da identidade gay
por
Elisa Almeida
João Calegari
Mariana Araujo
|
21/05/2026 - 12h

Em abril de 1978, foi publicada a edição número 0 de Lampião da Esquina. O primeiro jornal ativista pelos direitos civis gays do Brasil. O editorial da primeira edição clamava pela saída da comunidade LGBTQIAN+ dos guetos. O Lampião durou até 1981 e foi o primeiro a abordar a homossexualidade, desafiando censura e preconceitos vigentes no país durante a Ditadura Militar. O jornal caminhava contra a mídia hegemônica e protestava pela forma como a comunidade era retratada em veículos tradicionais. 

Capa do livro-reportagem, Imprensa Gay no Brasil. Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Capa do livro-reportagem Imprensa Gay no Brasil. Foto: Elisa Almeida/AGEMT


Em entrevista à Flávia Péret, autora de “Imprensa Gay no Brasil”, Celso Cury, redator e editor do jornal, conta que em veículos tradicionais, até os glossários não eram adequados aos públicos minoritários. Na Folha de S. Paulo, por exemplo, a palavra “lésbica” era substituída por “feminista”.

A mídia contra-hegemônica surge para representar as necessidades de grupos minoritários, que tentam alertar o grande público sobre o rumo que a sociedade está tomando. Para Rosane Borges, doutora em Comunicação e Linguagem pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e autora de “Imaginários emergentes e mulheres negras”, “ouvir essas vozes não é apenas uma questão de empatia, mas de reconhecer que a desumanização desses grupos apequena toda a sociedade”.

Hoje, veículos da grande mídia apresentam colunas e editoriais dedicados à comunidade queer. Mas, apesar dos avanços, os grupos minoritários continuam sendo perseguidos e violentados por movimentos de fanatismo religioso, preconceitos e ideologias retrógradas.

Além da representação nas mídias, surge a necessidade de espaços de segurança para os membros dessa comunidade. O Unicorns Brazil, projeto multiesportivo voltado ao convívio de pessoas LGBT+, é um desses espaços.

Goleiro Maurício treinando na "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida
Goleiro Maurício treinando na "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT​​​​​​


Filipe Manetta Marquezin, advogado e fundador do projeto, afirma: “O Unicorns acaba sendo um lugar seguro fisicamente, mas também mentalmente, livre de preconceito. Ninguém vai se preocupar se você é gay aqui”.
Quando as vozes contra-hegemônicas se unem, surge uma identificação coletiva, transformando indivíduos isolados em grupos sociais conscientes. Essa união mostra que o “padrão universal” de outrora é, na verdade, uma visão limitada do mundo, argumenta Borges. Segundo a professora do curso de jornalismo da PUC-SP, “a união funciona como uma frente ampla que gera força de pressão sobre os governos. Esse movimento promove a autonomia, a emancipação e serve como uma ferramenta de educação para o conjunto da sociedade.”

Os membros do Unicorns enxergam o grupo como um espaço de pertencimento. Luiz Fernando Cornacioni de Sousa, Gestor de Diversidade e Eventos e administrador do time-escola de futebol, afirma que a ocupação vai além dos campos. “Jogar aqui é assumir um espaço, não só na quadra. Quando saímos juntos para tomar cerveja, as pessoas veem gente diferente, dos mais afeminados aos mais padrões”, conta. 

Reunião pós treino da "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Reunião pós-treino da "Escolinha Unicorns", com os técnicos Alessandro Cadenazi e Wellington Meneses/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT



João Victor Freire, influencer e jogador do time de futebol do Unicorns, relata: “É um processo um pouco mais complexo, não é só do futebol. No meu caso, acho que é um processo de autoaceitação também”. 
“Fui procurando caminhos para achar gente que também é gay, um grupo que me acolhesse melhor, entrar para o Unicorns também é encontrar pessoas com vivências parecidas com a sua”, completa.
Sobre essa busca aos seus semelhantes, Borges explica, “a representação hegemônica estabelece uma normatividade baseada em um padrão cis-hétero, é isso que deslegitima vozes heterogêneas que estão fora desse padrão”. A masculinidade hegemônica transforma o espaço e o convívio fora dele. Para a pesquisadora, Grupos como o Unicorns Brazil reivindicam o direito de voz e de ocupar espaços sem precisar se adequar a padrões tradicionais de comportamento.

Disputa pela bola durante treino da "escolinha Unicorns". Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Disputa pela bola durante treino da "escolinha Unicorns". Foto: Elisa Almeida/AGEMT


Marcelo Douglas Costa, consultor de Costumer Experience, esperava começar o “rachão do Unicorns” quando conversou com a AGEMT, “Eu já sabia que era gay, mas o futebol era uma fuga para mim”. A segurança foi um fator determinante para procurar pelo grupo, “futebol é uma paixão nacional e não era justo sermos excluídos pelo desconforto de outros”.

Os símbolos do Unicorns representam orgulho e aceitação. Paulo Octávio Hueso Andersen, advogado e atleta de futebol do projeto, relata: “a primeira vez que pude representar o time pertencendo a um grupo, foi um momento de orgulho. Quando coloquei a camisa com meu nome e saí na rua ou fui à academia com ela, foi uma reafirmação.”

“Em uma sociedade democrática real, a voz de uma pessoa LGBT, indígena e branca deve ter o mesmo valor e peso político. Sem essa escuta, não há democracia, nem espaço público qualificado”, afirma Borges. Fora das quadras, o projeto Unicorns Zine é um braço de lifestyle do grupo. A revista retrata o dia a dia LGBT em SP. A escritora explica que esse tipo de proposta é um jeito formal de organizar as vozes de uma comunidade. “A mídia contra-hegemônica é fundamental porque funciona como a voz silenciada que irradia os bloqueios da mídia tradicional”, pontua a professora.

Time-escola do Unicorns Brazil/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Time-escola do Unicorns Brazil/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT

 

Requerimento da Câmara Municipal de Londrina tentou impedir a atleta transexual de participar da competição
por
Guilbert Inácio
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03/03/2026 - 12h

Na última quinta-feira (26), a Câmara Municipal de Londrina (PR), em regime de urgência, aprovou um requerimento que vetou a jogadora trans Tiffany Abreu, do Osasco Cristóvão Saúde, na fase final da Copa Brasil de Vôlei Feminino, que ocorreu no município. A medida foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, com os dois braços levantados. Atrás, há a presença de outras jogadoras e da arquibancada.
Em 2017, Tiffany se tornou a primeira mulher trans a atuar na elite do vôlei feminino brasileiro. Foto: Carolina Oliveira/Osasco Cristóvão Saúde

O requerimento 102/2026, protocolado na Câmara pela vereadora Jéssica Ramos Moreno (PP), conhecida como “Jessicão”, foi aprovado por 12 votos favoráveis e quatro contrários. No texto da solicitação, a vereadora cita nominalmente Tiffany e alega que o Osasco inscreveu “o atleta” de forma indevida.

Lei contraditória

A ação foi encaminhada por ofício para a prefeitura, que exige o cumprimento da Lei Municipal nº 13.770/24. Essa norma municipal proibe, em Londrina, a participação de “atleta identificado em contrariedade ao sexo biológico de seu nascimento” em times, competições, eventos e disputas esportivas.

A lei é de autoria de Jessicão e não chegou a ser sancionada pelo então prefeito de Londrina, Marcelo Belinati, mas foi promulgada pelo presidente da Câmara, Emanoel Gomes (Republicanos). Caso a medida seja descumprida, o segundo parágrafo do Art. 2º prevê revogação do alvará da competição e multa administrativa de R$10.000 ao Osasco.

Contudo, a norma tem trechos confusos no campo da ciência, pois ao definir quem está impedido de jogar por "contrariedade ao sexo biológico" o texto mistura identidade de gênero e orientação sexual. “Gay, lésbica, bissexual, pansexual, intersexual, assexual, transexual, agênero, não binário de gênero, cisgênero, transgênero, travesti, entre outros”, diz o segundo parágrafo do Art. 1.

A palavra cisgênero, termo referente às pessoas que se identificam com o sexo biológico atribuído no nascimento, também é mencionada. Em resumo, a lei, como está redigida, abre precedentes para proibir qualquer pessoa de praticar esportes de alto rendimento no município. Isso pode interferir na autonomia das federações de regular as práticas esportivas, além de entrar em conflito com a seção III da Lei Geral do Esporte, que garante o direito fundamental de todas as pessoas à prática esportiva em suas múltiplas e variadas manifestações.

Manifestações e decisões da justiça

Após a aprovação do requerimento, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) e o Osasco recorreram à justiça para garantir a presença da atleta na semifinal da competição contra o Sesc RJ Flamengo, na sexta-feira (27), no Ginásio Moringão.

Em nota no Instagram, o clube paulista se manifestou:

 “Tifanny Abreu atua profissionalmente no voleibol nacional há mais de oito anos. É uma atleta exemplar, dedicada e que cumpre rigorosamente todos os requisitos técnicos, médicos e de elegibilidade exigidos pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), órgão máximo que regula a modalidade no país. Ela está, portanto, regularmente inscrita e apta a disputar qualquer competição sob a chancela da CBV.

Osasco São Cristóvão Saúde entende que as competições esportivas de nível nacional devem ser regidas pelas normas das confederações esportivas nacionais, que possuem a competência técnica e recursos para análise científica para definir os critérios de elegibilidade. A interferência de legislações municipais sobre regras de competições federadas cria um precedente perigoso que ameaça a isonomia e a integridade das disputas esportivas no país.

Nosso clube se pauta pelos valores do esporte, que agregam a inclusão, a diversidade e o respeito a todos os indivíduos. Apoiamos integralmente a nossa atleta e defendemos seu direito constitucional ao trabalho e ao exercício de sua profissão, livre de qualquer forma de discriminação.”
 

Na tarde de sexta-feira (27), o juiz Marcus Renato Nogueira Garcia, da segunda Vara da Fazenda Pública de Londrina, apontou inconstitucionalidade e concedeu liminar que impediu a prefeitura de vetar a ponteira do jogo. A prefeitura atendeu o pedido.

Horas antes do jogo, em liminar, a ministra Cármen Lúcia, do STF e responsável pela relatoria do caso, suspendeu a eficácia da lei até que a ação passe por exame de mérito. Segundo a ministra, a lei geraria: "grande perplexidade e insegurança jurídica e social, por materializar um retrocesso nas políticas de inclusão social, de igualdade de gênero e de promoção da dignidade humana".

A vereadora Paula Vicente (PT), uma das quatro pessoas que votaram contra o requerimento, alegou que vai entrar com ação nos órgãos competentes para revogar a lei.

Tiffany fica

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, recebendo o troféu Viva Vôlei.
Tiffany atuou na semifinal e final da Copa Brasil de Vôlei. Foto: Rafael de Paula/Usina de Ideias/CBV

Na final, no sábado (28), a equipe paulista foi campeã sobre o Minas por 3 sets a 1. Tiffany foi ovacionada pelo público presente no Ginásio Moringão.

Por voto popular, a jogadora do Osasco foi eleita a melhor jogadora da final e recebeu o troféu Viva Vôlei, mas entregou o mérito a Jenna Gray, levantadora e aniversariante do dia, que foi dispensada do Minas no fim da última temporada.

Em entrevista à Sportv, Tiffany mandou um recado para a vereadora Jessicão pedindo para ela se preocupar mais com o esporte da cidade. “Vai buscar incentivo para dar suporte, em vez de excluir, porque o seu trabalho é dar inclusão e não exclusão.”
 

Ataque com xingamentos homofóbicos aconteceu durante as comemorações do 7 de Setembro, por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro; Brasil registra uma morte por homofobia a cada 30 horas
por
Maria Clara Palmeira
Maria Mielli
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10/09/2025 - 12h

Neste domingo (07), o vendedor Bruno Barros, 34, foi agredido por um dos manifestantes presentes no ato pró-Bolsonaro, na Avenida Paulista. A agressão ocorreu na banca em que Bruno e seu marido, Lucas Vinicius, vendem seus artesanatos. Os produtos são voltados à comunidade LGBTQIA +; bandeiras lésbicas, gays, trans, canecas e itens decorativos. 

Em entrevista à AGEMT, Bruno relatou que eles estavam cientes da manifestação, mas que isso não seria um empecilho para cumprir mais um dia de trabalho. Segundo o vendedor, ele tentou inclusive encarar o dia com bom humor: “Eu estava com um leque da comunidade, brincando, porque você percebe quem passa ali e não é bolsonarista. Aquela pessoa te olha, dá um sorriso meio tímido; e aí eu brincava: limpa, limpa, limpa!"

A biomédica Letícia Serafim, que passeava pela avenida com um amigo, contou que não se lembrava da manifestação: “Nunca tinha visto aquilo de perto. As pessoas esbarravam de propósito, como se fossem donas da Paulista. O mais absurdo foi ver bandeiras dos EUA sendo erguidas, no Dia da Independência do Brasil.”

Letícia relatou que foi até um shopping nas proximidades e foi atraída pela banca de Bruno e Lucas: “Foi como entrar numa bolha. Ali tinha música, conversa, acolhimento. Eles eram a verdadeira resistência no meio do caos.”

Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Reprodução/Letícia Serafim
Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Letícia Serafim

Segundo Bruno, alguns dos manifestantes gritavam coisas aleatórias direcionada a ele, de “petista safado” a “Lula ladrão”. Até que um grupo de meninos se aproximou para gravar uma entrevista com ele. “Eu estava falando como eu estava incrédulo, como [o protesto] estava cheio. Foi bem assustador ver o tanto de pessoas que estavam passando. Pessoas que não tem conhecimento nenhum de história, pedindo anistia de pessoas que depredaram o Brasil. É ridículo”, declarou. Mas enquanto conversava com os entrevistadores, um manifestante começou a proferir comentários homofóbicos na direção de Bruno, que interrompeu a entrevista e foi pedir ajuda a policiais que estavam próximos.

Bruno foi então agredido com um soco no maxilar, na frente dos policiais. “Foi do nada. Na hora que ele virou o soco, o policial veio, separou e eu falei ‘agora que eu quero mesmo abrir um BO de agressão e um de homofobia' ”. De acordo com o relato do vendedor, após os policiais conterem o agressor e afastá-lo, eles o soltaram. 

A situação revoltou Bruno que começou a gritar acusando não só o agressor, mas os demais manifestantes de "homofóbicos, racistas, transfóbicos e misóginos”. Em resposta, o grupo inverteu a situação e afirmou que era Bruno quem estava atacando os manifestantes. Lucas, marido de Bruno, tentou acalmá-lo diante aquela situação. “Acho que foi a primeira vez que a gente ficou com medo, eu, meu marido e uma amiga nossa que estava ali”, desabafou à Agemt.

Segundo o Atlas da Violência, produzido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de 2014 a 2023 o registro de violências contra pessoas da comunidade cresceu 1.227%. Em relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), só em 2024 o Brasil registrou 91 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+, o equivalente a uma morte a cada 30 horas. Desde 2019, após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), a homofobia e a transfobia foram equiparadas ao crime de racismo, previsto na Lei n.º 7.716/1989, sendo, portanto, passíveis de punição criminal.

Temáticas são abordadas desde os anos 60 no Japão e continuam exploradas até hoje
por
LUCCA CANTARIM DOS SANTOS
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16/06/2025 - 12h

“O sonífero”, projeto criado por Lucca Cantarim, estudante de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) , tem por objetivo combater a visão reacionária a respeito de temas de gênero no entretenimento.

Trazendo a história da presença de personagens de diversas sexualidades e gêneros nos mangás e animes dentro da mídia japonesa, o autor trás uma reflexão leve, descontraída, porém importante a respeito de uma representatividade tão importante.

Os sete artigos que compõem o projeto estão disponíveis para serem lidos no site “Medium”, no perfil autoral de Lucca. Os textos contém entrevistas com pesquisadores, fãs e até mesmo leitores de dentro da comunidade LGBT que se identificam e se abrem sobre a importância da representatividade para eles.

Disponível em: https://medium.com/@luccacantarim/list/o-sonifero-d19af775653e

 

O campus Perdizes, da PUC-SP, disponibilizou um acervo de 56 obras curadas por docente de Gênero e Sexualidade
por
João Curi
Luísa Ayres
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26/03/2024 - 12h

O Núcleo Diversas T e o Coletivo Glamour anunciaram a inauguração da Biblioteca LGBTQIAPN+ da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), idealizada em parceria com a Comissão da Diversidade da Associação de Pós-Graduandos (APG PUC-SP) da universidade.

A partir da divulgação do catálogo oficial pelo Núcleo Diversas T, os estudantes puderam conhecer melhor os 56 livros já disponíveis no campus Perdizes, que podem ser transferidos conforme necessidade de empréstimo para os outros polos puquianos. Além dos títulos, é possível acessar breves resumos acerca do conteúdo de cada obra, debruçando-se também sobre seus autores.

A curadoria do projeto foi assinada por Lucas Dantas, doutorande em Educação que também atua como professore de Gênero e Sexualidade no Instituto Singularidades. Já a docente Carla Cristina Garcia, mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP e especialista em estudos de gênero e feminismo, também pôde colaborar com a sugestão das obras. 

De acordo com Lucas, a curadoria do acervo buscou mesclar obras teóricas, de ficção e poesia; bem como resgatar autorias trans e travestis, e selecionar produções contemporâneas para tratar dos temas de gênero e sexualidade de forma mais atualizada. 
 

capa de livro
"A centralização de pesquisas LGBTQIPA+ enriquece o debate acadêmico (...)", diz a docente. / Reprodução: Amazon

Títulos como “Transfeminismo”, da autora Letícia Nascimento; “Crianças Trans: Infâncias Possíveis”, de Sofia Favero; e “Ética bixa: proclamações libertárias para uma militância LGBTQ”, de Paco Vidarte; compõem a lista. As temáticas dos textos abordam diversas camadas da comunidade, em diferentes críticas, épocas e realidades, enriquecendo o repertório dedicado ao movimento. 

 

Carla ainda acredita que disponibilizar esse tipo de conteúdo à população é uma grande ferramenta no combate à desinformação e ao preconceito, incentivando a produção de novas pesquisas, o empoderamento e a autoafirmação da comunidade LGBTQIAPN+. “Um acervo dedicado à pesquisa LGBTQIPA+ torna essa comunidade mais visível no ambiente universitário, combatendo a invisibilidade histórica e promovendo o reconhecimento da sua importância e contribuições para a sociedade”, explica a mestra.

 

Vale lembrar que, desde 2021, a PUC-SP já abarcava bibliotecas temáticas negra e indígena, e que o processo de criar uma coleção que reunisse temas da comunidade LGBTQIAPN+ começou no ano passado. Segundo a analista de biblioteca Lúcia Maria dos Santos Araújo, o acervo especializado é de suma importância justamente por registrar a atualização “de todo o contexto social, tudo que envolve pessoas e as diferenças, de como é visto ou de quem se esconde atrás do preconceito”, descreve.

 

Para Mandy Candy, influenciadora digital, plataformas proporcionam "voz global", mas provocam cyberbullying
por
Pedro José de Oliveira Zolési
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22/11/2023 - 12h

A comunidade LGBTQIA+ sofre com graves preconceitos no mundo online. Mesmo com uma sociedade em constante evolução, ataques cibernéticos homofóbicos continuam frequentes e cada vez mais perigosos afetando muito o psicológico das vítimas. Esses atentados online ocorrem muita das vezes por uma parte da sociedade que não aceita a ascensão dessas organizações, ou até mesmo por uma medo embutido no agressor.

As redes sociais e plataformas digitais tornaram-se essenciais para  expressão e conexão da comunidade LGBTQIA+. Centenas de influenciadores partilham as suas experiências sobre como o mundo online pode ser um terreno fértil para  visibilidade e capacitação. As comunidades utilizam estas ferramentas para desafiar estereótipos, disseminar informações e construir redes de apoio.

Amanda Guimarães, mais conhecida como Mandy Candy, influenciadora digital e membro ativo da comunidade LGBTQIA+, compartilha suas experiências sobre como as redes sociais desempenham um papel fundamental na promoção da visibilidade: "As plataformas digitais nos proporcionam uma voz global. Podemos compartilhar nossas histórias, enfrentar estigmas e conectar pessoas de todos os cantos do mundo."

O ambiente aparentemente livre das mídias sociais também é permeado por preconceitos e discriminação. Casos de cyberbullying e discurso de ódio online afetam membros da comunidade LGBTQIA+, criando um ambiente hostil em plataformas que deveriam ser espaços de expressão segura.  

O impacto do cyberbullying vai além da esfera digital, deixando cicatrizes psicológicas e emocionais. A constante exposição a mensagens negativas e discriminatórias contribui para altos índices de ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental entre os membros da comunidade LGBTQIA+.

"Lidar com ataques homofóbicos não é fácil. No começo, eu ficava muito abalada, mas ao longo do tempo aprendi a focar nas mensagens positivas e no apoio da comunidade. No entanto, é difícil negar que esses ataques têm um impacto emocional e mental." expressou Amanda.

Apesar destes desafios, a comunidade LGBTQIA+ está a demonstrar resiliência online. Movimentos de resistência, hashtags e campanhas como #LoveIsLove e #Pride amplificaram as vozes LGBTQIA+, promoveram mensagens positivas e criaram comunidades virtuais de apoio.

Por fim Amanda disse que os ataques não devem apagar o brilho de ninguém e que membros da comunidade LGBTQIA+ sempre se apoiaram: "Quero dizer aos meus seguidores e à comunidade LGBTQ+ que não estão sozinhos. Juntos, somos mais fortes. Não deixem que o ódio alheio apague a luz da autenticidade de vocês. Continuem sendo quem são, porque cada um de nós contribui para a diversidade que enriquece o mundo.".

Medida adotada nos últimos anos ganha força e muda cara da cena da música eletrônica paulistana
por
Danilo Belluzzo
Rodrigo Lozano
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09/11/2023 - 12h

As festas paulistas de música eletrônica, que por vezes atingem um público de 8 mil pessoas em uma noite, têm se empenhado em tornar o público de seus eventos mais diverso, disponibilizando entrada gratuita para pessoas transsexuais e não binárias. A medida, que funciona através de uma lista, tem servido como ferramenta de inclusão e de afirmação política nas noites.

A idealizadora da lista trans foi a artista e produtora musical pernambucana Ana Gisele, conhecida como Transälien, que já a tinha implementado nas festas de Recife, através do coletivo de artistas negros da cena eletrônica Coletividade Namíbia, criado por Misael Franco. A iniciativa foi bem recebida pelo público e logo foi adotada por outras festas.

A Mamba Negra, que comemorou seu aniversário de 10 anos em maio de 2023, através de um festival, bateu recordes tanto de público, quanto de ingressos gratuitos distribuídos. A festa recebeu 8 mil pessoas, das quais aproximadamente 800 não pagaram pelo ingresso. Ela também foi uma das primeiras a implementar a lista trans em São Paulo, em 2017.

A medida surtiu efeito e o público nas pistas mudou. A presença de pessoas trans aumentou significativamente com a lista, o que no início não passavam de 200 pedidos, hoje ultrapassam mil. A lista também atraiu um público periférico que não pode arcar com os ingressos, como também um público LGBTQIAPN+ que pode pagar e agora encontra um espaço de acolhimento, afastando da cena os preconceitos, que é reiteradamente advertido que não será tolerado. O cenário está mudando e a cena eletrônica em São Paulo, hoje, tem maior representatividade.

Os movimentos de inclusão não se restringem apenas à entrada gratuita. Hoje, as festas e o público colhem frutos da diversidade, com maior número de vagas para pessoas trans trabalharem nos bastidores, contratadas para administrar a lista nos eventos, como também mais DJ’s trans espalhando sua música e performers dançando nos palcos.

Esta é outra maneira que as festas encontram de se afirmar politicamente. Através da criação de personas, que normalmente possuem um aspecto bizarro e de gênero fluído, diversas artistas trans e travestis utilizam figurinos altamente elaborados para se apresentarem em pequenos palcos no meio da pista de dança, mudando o clima da festa e tornando um ambiente de culto não apenas à música, mas também às artes plásticas e cênicas.

As festas que possuem tais atrações, a lista trans/nb e as performances, normalmente são aquelas de música tech e house como a ODD, a festa Batekoo, criada em 2014 e destinada desde sempre ao público negro e LGBTQIAPN+, Pista Quente, Blum, Versa, Zig, Gop Tun e a CAPSLOCK, porém a inciativa tem ganho as noites e muitas outras festas tem adotado a medida.

Escritora Giovana de Souza Carvalho percebe que histórias já consideradas tabu hoje são aceitas
por
Raissa Santos Cerqueira
Ana Clara Farias
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24/08/2023 - 12h

"Sinto que finalmente as histórias estão podendo ser contadas de diversas maneiras, fugindo um pouco do que antes era estereotipado ou tratado com desprezo" ressalta Giovana de Souza Carvalho (23) autora da duologia “Código 121”  sobre a crescente no consumo de livros com temáticas LGBTQIAP+, nos últimos anos. As histórias que um dia foram tabu e que hoje são abraçadas pelo público e aclamadas pela crítica, ganharam notória visibilidade durante o período da pandemia do COVID-19. Quando forçados a ficar em casa, os jovens leitores se viram com pouco mais a fazer além de assistir vídeos de indicação de livros no recém-criado BookTok. “As pessoas começaram a ficar mais tempo em casa e precisavam encontrar novas formas de se entreter.” Afirma a escritora.

O número de vendas de exemplares em março de 2021 foi 38,38% maior do que em março de 2020, de acordo com dados do Painel do Varejo de Livro, divulgados pelo Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel). Ultimamente, tem havido uma crescente no consumo de livros cujos protagonistas fossem personagens abertamente LGBT’s. Títulos como Heartstopper de Alice Oseman (2019), Os Sete Maridos de Evelyn Hugo de Taylor Jenkins (2017) e Vermelho Branco e Sangue Azul de Casey McQuiston (2019) se tornaram cada vez mais presentes em estantes por todo o mundo, principalmente o Brasil. Em meio a esse mercado emergente, editoras que buscavam seu lucro, sempre se adequando ao interesse de seu público, foram em busca de autores que já escreviam histórias desse nicho a muito tempo. Ao mesmo tempo, autores independentes, que se limitavam a escrever apenas em plataformas digitais como Wattpad ou Spirit Fanfics, viram nesse novo mercado a chance de publicar seus livros sem precisar do apoio de uma grande editora. 

Durante anos, o mundo das fanfics foi refúgio de muitos autores quando a temática LGBT+ ainda era evitada pelas grandes editoras. O conteúdo que era consumido em pequenas quantidades no mundo literário tomado por livros com representatividade nula era abertamente consumido nas plataformas onde os fãs faziam o que queriam das histórias e davam a elas o seu “toque especial". “As fanfics tornaram-se uma forma de remodelar a mídia tradicional. Pois através delas nós fãs encontramos uma maneira de ter representatividade em universos que tanto gostávamos” Afirmou Deborah de Castro Soares (28) mestra em economia e escritora de romances LGBT+ nas horas vagas. 

Foram as fanfics que levaram Deborah, ou Debs como ela é chamada por seus leitores no X e no Wattpad, às histórias com temáticas LGBT+, e, impulsionada pelas pessoas que acompanhavam suas histórias na plataforma, publicou em 2022 o romance aquiliano Servante: Fogo & Obediência de forma independente. Servante foi um dos diversos livros com relacionamentos homoafetivos publicados entre 2020 e 2022 no Brasil. Durante esse período, a demanda para que as histórias que estavam nas plataformas digitais se tornassem livros físicos foi tanta que foram fundadas editoras especializadas no assunto, como as editoras Violeta e Euphoria, que publicaram apenas livros com casais LGBT+ desde que foram fundadas. 

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Foto: Layza Kawany de Oliveira 

Com o crescimento do consumo dessas obras, muitos jovens passaram a se identificar com as histórias narradas por esses autores e a encontrar conforto nelas. Giovana relata que suas histórias trouxeram leitores que se espelharam nos personagens e na trama, e fala sobre o fato dessas histórias terem a chance de serem contadas livres de preconceito: “A recepção tem sido calorosa e acolhedora, o que permite que muitos autores se sintam mais confortáveis para falar sobre temas que antes não eram bem recebidos no mercado.” Seus livros foram todos publicados de forma independente, financiados por ela mesma e sem a ajuda de grandes editoras. A escritora buscou inspirações por meio de conversas com pessoas que fazem parte da comunidade LGBT, além de consumir conteúdos com esse tema para conseguir se aprofundar mais no assunto.  

Sabendo que a questão LGBT+ no Brasil é muito sensível devido ao pensamento que foi difundido durante anos no país, os autores de livros que abordam tal assunto reconhecem que precisam tomar um cuidado especial ao publicarem histórias com personagens desse grupo. “É importante estudar e se manter atualizado quanto ao movimento político e social, mas acima de tudo ter uma escuta empática e um olhar observador para as singularidades de cada indivíduo”, diz Deborah. Unido ao cuidado com a história, os autores também precisam ter cautela ao pensar na estética do livro, pois grande parte dos consumidores são adolescentes vivendo sob o teto de pais conservadores. “Muitos leitores meus tinham receio que seus pais ou familiares soubessem que estavam consumindo uma história com conteúdo LGBTQIA+ e me pediam para que a capa e a sinopse fossem discretas.” conta Giovana sobre uma das dificuldades que enfrentou ao publicar os seus livros.

 

Estudantes da PUC-SP organizaram roda de conversa sobre a presença da comunidade trans na universidade, no mercado de trabalho e nas políticas públicas
por
Beatriz Barboza
Giuliana Zanin
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15/11/2023 - 12h

No final de outubro, a XXIII Semana Acadêmica de Ciências Sociais da  PUC-SP apresentou a palestra “Transvivências: a relação das identidades de gênero no meio social”. O evento foi mediado por estudantes do curso, que receberam a jornalista Dani Avelar, o escritor Jonas Maria e o multiartista Dante Olivier. As pautas discutidas perpassaram a presença da comunidade trans nas instituições de ensino, a adoção de banheiros sem a marcação de gênero e a vivência trans no ambiente digital.

Dani Avelar, formada em Relações Internacionais pela USP e mestre em Jornalismo pelo programa Erasmus Mundus, é a primeira jornalista trans da Folha de S. Paulo. Dani se sente solitária no jornalismo em razão da ausência de pessoas trans e travestis dentro das redações. “Reviso trabalhos para apontar incoerências porque não existe um preparo, dentro das faculdades de jornalismo e das redações, de como os repórteres devem se referir às pessoas trans”, relata.  

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“Precisamos de um jornalismo que fale sobre a realidade das pessoas trans com dignidade", declarou Dani Avelar, a primeira jornalista trans da Folha de S. Paulo. (Foto: Giuliana Zanin)

A jornalista cobre especialmente guerras e conflitos, mas também se dedica às pautas que corroboram para a construção de um “jornalismo trans e travesti”. Quanto à presença da comunidade no mercado de trabalho, Dani ressalta que “nenhuma mudança acontece porque as instituições estão interessadas, mas porque existe uma pressão organizada por pessoas do movimento que reivindicam que pessoas trans também sejam contempladas nas políticas de ações afirmativas”.

Jonas Maria, formado em letras pela UFSJ (Universidade Federal de São João Del-Rei), é criador de conteúdo na internet e se dedica a um curso de pós-graduação em Mídia, Informação e Cultura pela USP.  Há cerca de dez anos, criou um blog para documentar sua transição e relatar a dificuldade de conseguir suporte médico. Hoje, Jonas apresenta o podcast “Degenerados” e faz análises, em seu canal no YouTube, sobre a transexualidade representada na mídia.

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“Fazemos parte da vida social. O que atravessa a comunidade trans também atravessa outras pessoas”, ressalta Jonas Maria, escritor e criador de conteúdo na internet. (Foto: Giuliana Zanin)

Sobre sua experiência na internet, Jonas desabafou: “Eu recebo trabalhos por ser trans. Se você tem um conteúdo extremamente militante, as suas chances de conseguir um job diminuem. É comum que comunicadores trans falem sobre a transsexualidade com vídeos de humor, não com um conteúdo extremamente político. Caso contrário, você só consegue trabalho em janeiro [mês da visibilidade trans] ou em junho [mês da visibilidade LGBTQIAPN+]".

Dante Olivier é natural de Recife, mas reside em São Paulo. Atualmente, trabalha na produção de conteúdo para a internet, mas já exerceu outras atividades. Ele se define como “multiartista” e faz vídeos de humor sobre assuntos cotidianos da comunidade LGBTQIAPN+. Dante relembrou o momento histórico de ver a primeira travesti na Ordem dos Advogados do Brasil, Márcia Rocha, em 2017.  “É muito louco pensar que estamos em 2023 e, somente em 2017, eu vi uma pessoa trans ocupando esse espaço. Por que a gente não existe nesses lugares? Estamos evoluindo a passos pequenos”, afirma.

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“Quero existir, quero que saibam que eu existo e, quem sabe, ajudar outras pessoas”, afirmou Dante Olivier, criador de conteúdo na internet. (Foto: Giuliana Zanin)

 

PRESENÇA TRANS NA UNIVERSIDADE

"Qual o motivo da ausência de pessoas trans na universidade?”, questionou Flora, uma das organizadoras e mediadora do evento. A pergunta introduziu a discussão sobre o acesso da comunidade trans à educação. 

Segundo dados da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), 56% das pessoas trans não possuem o ensino fundamental completo, 28% completaram o ensino médio e apenas 0,02% estão no ensino superior.

Jonas Maria destacou que existem poucos dados sobre as pessoas trans no Brasil. Apenas ONGs têm se organizado para coletar números sobre a comunidade. O escritor ressaltou que, no último censo (2022), foi a primeira vez que o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE) perguntou sobre identidade de gênero e sexualidade.

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Palestra “Transvivências: a relação das identidades de gênero no meio social” (Foto: Giuliana Zanin)

 

Dani acrescenta a importância de incentivar a pesquisa dos índices sociais sobre pessoas transsexuais e travestis. “As ações afirmativas voltadas à comunidade trans não podem ser um copia e cola das soluções propostas pelo movimento negro. Existem particularidades na nossa comunidade, justamente por isso, é fundamental que exista a produção de dados sobre nós”.

Estudantes do curso aproveitaram o momento para alavancar reivindicações sobre banheiros unissex e cotas trans na PUC-SP. “Nome social, adoção de banheiro sem marcação de gênero e programa de cotas são elementos que incentivam pessoas trans a seguirem na educação, acessarem o ensino superior e se firmarem no mercado de trabalho", demarca Jonas. "São estímulos para que as suas vivências não sejam determinadas pela falta de acesso à educação, que ainda é uma forma de ascensão social no Brasil”, conclui.

 

ADOÇÃO DE BANHEIROS SEM MARCAÇÃO DE GÊNERO

Os estudantes manifestaram suas reivindicações a favor da adoção de banheiros sem a marcação de gênero pela instituição. Jonas Maria afirmou que a presença mais ou menos expressiva da comunidade trans dentro de um espaço não deve ser critério para a implementação. “Não se trata de números. Se tem poucas pessoas trans, o problema não é banheiro, mas sim a ausência da comunidade”, ressalta o escritor. 

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Jonas Maria, localizado à direita da imagem, conta o seu relato de ser um homem trans na internet   (Foto: Giuliana Zanin)

Os convidados se posicionaram contrários ao discurso que coloca os possíveis casos de violência como objeção à ação afirmativa. “Pessoas trans são vistas como uma ameaça, como as geradoras da violência dentro dos banheiros e a realidade, na prática, é que a comunidade trans é o alvo desses ataques”, alerta Dani Avelar. 

A jornalista ainda relata que, em uma balada, já foi agredida e expulsa por um segurança por usar o banheiro feminino. “Ele alegou que ‘aquele toilet não era para mim’, sob o pretexto de impedir que um ‘homem’ acessasse um espaço exclusivo para mulheres e cometesse alguma agressão. Isso foi, justamente, o que aconteceu: um homem agrediu uma mulher”. 

"Eu sempre faço um cálculo de segurança para acessar os lugares, sobretudo os banheiros", revela Dani Avelar. "Em qual local eu corro menos risco de sofrer uma agressão? Se eu usar um banheiro feminino, posso sofrer uma agressão verbal, se eu usar um banheiro masculino, posso sofrer uma agressão física”. 

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Alunes do curso de Ciências Sociais reivindicam cotas trans e banheiros unissex. (Foto: Natália Perez)

Os relatos são carregados de dúvidas. “Eu entendo a importância de reivindicar esses espaços para que pessoas trans se sintam seguras, mas prefiro lutar para ocuparmos um espaço que é deles e que é nosso também, sem que fomente essa ‘separação’, e sem que eu precise usar um toilet distante e isolado", declara Dante Olivier. "Estamos falando sobre usar um banheiro com dignidade”. 

LUTA COMPARTILHADA 

A roda de conversa contribuiu para explicitar que as vivências trans tangenciam as demais no meio social, portanto, merecem a atenção não só do Estado, como garantidor de acessos e políticas públicas, mas também dos simpatizantes à comunidade LGBTQIAPN+. Dante destacou que as pessoas cis aliadas devem manifestar seu apoio a partir da utilização de suas vozes e seus espaços para reivindicarem a presença de pessoas trans, seja na universidade, no mercado de trabalho, nas pautas jornalísticas ou nas ações afirmativas.

"Transfobia não se dirige apenas às pessoas trans. Pessoas cis também têm sua identidade de gênero moldada a partir de uma violência transfóbica. É essencial que essas pessoas também se engajem na luta contra a transfobia porque ela delimita o que é aceitável, em termos de expressão de gênero, não só para pessoas trans, mas também para pessoas cis, dentro ou fora da comunidade LGBT”, finalizou a jornalista. 

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A roda de conversa promoveu as reivindicações da comunidade de estudantes trans da universidade. (Foto: Rômulo Santana)