O espaço da torcida LGBTQIAPN+ dentro dos estádios de futebol no Brasil
por
Gustavo Tonini
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20/10/2026 - 12h

 

“O futebol é uma manifestação cultural. É um elemento central para entender o comportamento da sociedade brasileira” começa o jornalista João Abel em seu livro Bicha! Homofobia estrutural no futebol. A pauta LGBTQIAPN+ vem ganhando mais visibilidade nos últimos anos no Brasil e no seu futebol. Alguns movimentos ajudaram a facilitar a entrada desse tipo de torcedor no estádio, como foi o caso do enquadramento da transfobia e homofobia na Lei de Racismo ou as ondas recentes de organização de coletivos da comunidade nos grandes clubes do país. Ao mesmo tempo, o último Anuário do Observatório da LGBTFOBIA no futebol feito pelo coletivo Canarinhos LGBT registrou que os casos desse tipo de preconceito vem crescendo nos últimos anos. 

Para entender como se dá os movimentos de torcida LGBTQIAPN+ no futebol, é primeiro necessário entender como um torcedor comum da comunidade atua no esporte. Para isso, foram escutados três torcedores de clubes entre as maiores torcidas do Brasil, Corinthians, São Paulo e Palmeiras. 

Para a torcedora do Corinthians, que se apresentou como uma mulher cisgênero lésbica e não quis se identificar, ela começou a torcer pelo Timão por conta do seu primo, que sempre mostrou muito de futebol para ela e isso acabou a influenciando. Ela também relata que raramente vai ao estádio ver os jogos da equipe, mesmo considerando que sempre se sentiu segura dentro dele.  

Já para Lucca Cassetari, torcedor do São Paulo, que se apresentou como homem trans e bissexual, sua torcida pelo Tricolor vem de toda sua família. Ele relata que, apesar de ir pouco ao estádio, sente uma forte atração pelo clima de união e de torcida que envolve ele. Porém, mesmo que nunca tenha se sentido atacado no estádio, reitera que “em estádio eu participo das convenções sociais e eu também não tenho nada que me revela ultimamente, então, acabo sempre passando despercebido”. Além disso, também pontua que não se sentiria confortável em ir ao estádio com sua namorada, que se apresenta como uma mulher trans, já que sente que esse espaço não é o mais acolhedor para as diferenças de sexualidade e de gênero. 

A entrada de pessoas trans no meio do futebol é particularmente mais difícil. Como explica João Abel, assim como a maioria das modalidades esportivas, ele funciona numa lógica binária de gênero, já havendo um impeditivo estrutural do esporte para que alguém que fuja dessa lógica. No esporte bretão essa situação se agrava justamente pelo fato de se caracterizar especificamente no gênero masculino. 

 

Foto meninos bom de bola
O instituto Meninos Bons de Bola possui o primeiro time de futebol formado somente por homens trans/ Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/ @institutombb

 

Além disso, para o jornalista, a homofobia no futebol seria uma ramificação do sexismo que envolveu seu início masculino. Ele afirma que desde o princípio a prática do futebol era um ambiente masculino e masculinizante, feito por homens e consumidos por homens. Por isso, reitera “a ausência do feminino, do que se considera como feminino, que no caso é a presença da mulher, foi gerando uma aversão a qualquer coisa que fosse relacionada ao universo feminino” e, a partir disso, a homofobia. Com isso, esse preconceito a pessoas LGBTQIAPN+ no futebol, principalmente à homens gays, é encarado como um pretexto para acirrar rivalidades. “Você parte de um pressuposto de que o seu adversário é menos masculino de alguma forma e que isso seria algo ruim” reitera João Abel, e justamente por isso começa-se a atentar a qualquer aspecto que dê margem a esse pressuposto.  

Para Caíque Apolinário, torcedore do Palmeiras, que se apresentou como não-binário e bissexual, sua paixão pelo Verdão surgiu pelo pai e também pela conquista da Libertadores de 1999. Elu aponta que o ambiente em volta do estádio do time tem bares que são mais abertos à pessoas LGBTQIAPN+ e que sente mais segurança quando está com alguém conhecido. Mesmo assim, ainda há um receio de fazer demonstrações públicas de homoafetividade, já que é muito frequente que torcedores do mesmo time responsabilizam torcedores que as fazem como culpados de eventuais derrotas. 

Além disso, Caíque conta ainda que quando começou a acompanhar futebol, no final dos anos 90, em uma época de constantes brigas entre torcidas organizadas, que eram em grande parte televisionadas. Essa agressividade na torcida transbordava para seu ambiente escolar, que se tornava um espaço de comentários racistas e homofóbicos. Elu conta ainda que viu esse espaço se transportar para as redes sociais. Justamente procurando espaços de conversa sobre futebol sem essa toxicidade, que, em 2024, chegou ao coletivo da Porcoíris, onde atua hoje como parte da diretoria, ajudando na produção de conteúdo e gerenciamento da comunidade. 

A Porcoíris surgiu no início de 2019, por iniciativa do engenheiro João Victor. O coletivo surgiu como uma resposta à aparição do então presidente Jair Bolsonaro na comemoração do título brasileiro de 2018 da equipe alviverde, para impedir com que houvesse o risco de associar a imagem do clube à extrema-direita. Nos sete anos de atuação do coletivo, ele conta com estruturas organizadas na área jurídica e financeira, que servem para impedir que se associem a imagem do Palmeiras com movimentos extremistas de direita, principalmente o facismo ou à imagem de Mussolini.

De acordo com João Abel, a Porcoíris faz parte da terceira onda de torcidas ou coletivos LGBTQIAPN+ no Brasil. O jornalista conta que as ondas são separadas em três momentos de guinada conservadora no país. 

A primeira onda seria no final da década de 70 e início da década de 80, nos anos finais da Ditadura Militar no Brasil, quando surgiu a primeira e, a que talvez seja a maior, torcida gay da história do país, a Coligay. Torcida criada pelo produtor cultural e dono da boate Coliseu em Porto Alegre, Volmar Santos, para apoiar o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Ela não só foi o primeiro coletivo LGBTQIAPN+ no Brasil, como foi também uma das primeiras torcidas organizada da equipe, sendo que João Abel a considera como embrião da futura Geral do Grêmio, principal torcida do time de hoje.

  

foto coligay
Coligay se tornou um talismã da equipe do Grêmio nos anos 70, sendo que no seu primeiro ano viu a equipe encerrar uma fila de 9 anos no campeonato gaúcho. Foto: DIVULGAÇÃO/ Coletivo Canarinhos Lgbt

 

A segunda onda seria em 2013, ano em que, de acordo com o jornalista, ocorreu o início da guinada conservadora nos últimos anos no Brasil. Época em que as redes sociais começaram a ganhar o poder para iniciar mobilizações presenciais. Justamente nesse período, foram criadas muitas páginas de coletivos LGBTQIAPN+ de times de futebol no Brasil, principalmente no Facebook e no Twitter. Um dos precursores desse movimento foi a página Galo Queer, do Atlético Mineiro, criada por Nathália Duarte, que, muito por conta de constantes ameaças, se restringia somente ao espaço das redes sociais.

A terceira onda, em 2019, seria quando houve de fato a virada conservadora iniciada em 2013, de acordo com João Abel, na eleição de Jair Bolsonaro à presidência. Além disso, esse período também marcou um episódio de grande repercussão na época, em que um torcedor gay do Palmeiras respondeu com ironia em suas redes sociais em relação aos cânticos homofóbicos da sua torcida à equipe do São Paulo. E também nesse período, a homofobia e a transfobia começaram a se enquadrar na Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989). Com isso, o número de coletivos LGBTQIAPN+ nas redes cresceu, como é o caso da Porcoíris, além de também surgir, no início de 2020 a LGBtricolor, torcida do Esporte Clube Bahia, que tem o costume de frequentar a Fonte Nova.

 

imagem lgbtricolor
Torcida LGBTricolor foi fundada em 2019 e possui mais de 600 membros, sendo hoje a maior torcida organizada LGBTQIAPN+ do Brasil – Foto: Reprodução/Floripa.LGBT

 

Além disso, em 2019 também surgiu o coletivo Canarinhos LGBTQ com o intuito de unir os coletivos da comunidade nas torcidas brasileiras. Essa união permite combate à LGBTfobia com ações, campanhas, iniciativas e sugestões de inclusão e diversidade. Além disso, como ressalta Caíque Apolinário, essa união é importante para aumentar a pressão sobre os clubes, principalmente para aqueles nos quais o coletivo ou a torcida LGBTQIAPN+ não possui força nem contato direto com o time e sua diretoria.

É justamente nessa terceira onda que surge a Porcoíris. Caíque afirma que o coletivo atua muito mais nas redes sociais, priorizando a produção de conteúdos educativos e a criação de ambientes saudáveis para discussão sobre futebol. Sendo que essa atuação digital permite que o coletivo quebre barreiras para conseguir o contato mais amplo com torcedores, além de permitir que vozes mais plurais sejam ouvidas. Ainda mais que o coletivo não tem conexão direta alguma com o clube ou a diretoria do Palmeiras, sendo que a bandeira do coletivo só apareceu uma vez exposta no estádio da equipe, em 2020, num duelo sem torcida contra o Atlético Mineiro.

 

imagem bandeira da porcoiris
Bandeira da Porcoíris exposta no jogo/ Foto: Divulgação/ Porcoíris

 

Além disso, a Porcoíris é hoje o maior coletivo LGBTQIAPN+ no mundo, contando com 36 mil seguidores nas redes sociais. Ele reúne pessoas que vão diretamente ao estádio, pessoas que não possuem condições de ir neles e até pessoas que moram fora do Brasil. Cria-se então um ambiente de fato para torcedores de diversas realidades, mesmo que, de acordo com Caíque Apolinário, em um censo demográfico dentro do grupo de Whatsapp do coletivo, foi descoberto que a maioria dos integrantes sejam homens e mulheres cisgêneros e gays.

João Abel concorda com a importância das redes para esses coletivos, ainda reiterando que a presença de torcidas LGBTQIAPN+ no estádio ainda é um cenário em construção. De acordo com ele, isso ocorre pois a questão da homofobia é algo que ainda está muito atrasado no futebol. As punições para atos homofóbicos no futebol ainda não se de fato efetivas, “o máximo que você já teve foi um jogo com portões fechados”, reitera, nos principais times brasileiros, nenhum jogador se declarar homossexual, se isso ocorre é somente após sua aposentadoria, essa pauta nos esportes ainda é algo que possui momentos de protagonismo e de maior visibilidade, entre outros fatores.

O jornalista ainda faz uma comparação com a questão racial no futebol. Ele reitera “vai fazer 100 anos e só agora a gente entendeu que o racismo não é parte estrutural e cultural do futebol”, afirmando que desde a profissionalização do futebol no Brasil haviam jogadores negros atuando e somente em anos mais recentes a cultura no racismo foi adotado como algo inaceitável nos estádios. O futebol está muito intrincado na estrutural social do Brasil, com ainda o agravante de ser um esporte que nasceu da elite branca, cisgênero e heteronormativa, portanto é natural que as mudanças para sua abertura sejam gradativas. 

Além disso, João Abel ainda relata que alguns movimentos importantes já vêm ocorrendo para facilitar a entrada da pauta LGBTQIAPN+ no futebol fora de campo. Primeiro, nas redes sociais vêm crescendo o número de pessoas da comunidade que falam sobre futebol, incentivando uma naturalização da relação entre os dois. Segundo, sendo a homofobia uma ramificação do sexismo no futebol, ações como a do Atlético Mineiro, que relata quantas torcedoras mulheres têm no estádio, que abrem o mundo do futebol para além do masculino também contribuem para essa entrada.

Evento reuniu 36,8 mil pessoas na Avenida Paulista e teve o voto como tema central em ano eleitoral
por
Daniela Martinho
Isabella Damião
Lara Manasseh
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10/06/2026 - 12h

No domingo (7), a maior Parada do Orgulho LGBT+ do mundo realizou sua 30ª edição na cidade de São Paulo com o tema “A rua convoca, a urna confirma”. A escolha destacou a importância da participação política e celebrou os 30 anos da urna eletrônica no Brasil. O evento reuniu cerca de 36,8 mil  pessoas na Avenida Paulista, segundo estimativa do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e da ONG More in Common. O pico da manifestação ocorreu às 14h37, com margem de erro de 12%. 

A edição de 2026 foi marcada pela queda de patrocínio, que alcançou seu ápice com cerca de 60% a menos de incentivo em comparação com anos anteriores. . Um dos principais efeitos dessas medidas é a diminuição da quantidade de participantes ao longo dos últimos anos: em 2024, foram 73,6 mil pessoas no evento; já em 2025, o número foi para 48 mil.

Com shows de Pabllo Vittar e Gloria Groove, além da presença dos deputados do PSOL Erika Hilton e Guilherme Cortez, os 14 trios elétricos reforçaram a importância do exercício da cidadania consciente em ano eleitoral.Na avenida, artistas, ativistas e representantes da sociedade civil defenderam pautas ligadas aos direitos da população LGBTQIA+, ao combate a projetos discriminatórios e à ampliação da representatividade política.

 Os discursos destacaram a relevância da participação eleitoral como instrumento de manutenção de conquistas e direitos, enfrentamento de possíveis regressões. “A grande questão talvez seja a gente não perder o que já se tem, porque a possibilidade de retrocesso está muito grande com os políticos que, infelizmente, querem que a gente suma do mapa”, afirmou o professor de biologia Alexandre Fagundes Cesar, de 51 anos, que veio do Mato Grosso especialmente para a Parada. 

Em maio, o vereador Rubinho Nunes (União Brasil) apresentou o projeto de lei 50/2025, que busca impedir a presença de menores de idade em eventos LGBT+ e restringir sua realização em vias públicas. A proposta foi aprovada em primeiro turno na Câmara Municipal e aguarda votação final e decisão do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Para o advogado pernambucano Johnes Barbosa, de 30 anos, que também veio para São Paulo participar do evento, este é um ano ímpar para a Parada do Orgulho LGBT+. “A gente sabe que é uma celebração, mas acima de tudo é um manifesto”, afirmou.

 

A manifestação que deu origem à Parada aconteceu em 1996, na Praça Roosevelt, em São Paulo, e reuniu cerca de 500 pessoas. No ano seguinte, a primeira edição oficial aconteceu na Avenida Paulista, com cerca de 2 mil pessoas. Em 2006, a 10ª edição do evento bateu recordes internacionais ao reunir mais de 2,5 milhões de pessoas - marco que consolidou a edição paulista da Parada do Orgulho como a maior do mundo.   “Eu apanhei na Paulista quando ainda tinha ditadura porque eu beijei um homem. Eu apanhei da polícia na cara. Hoje isso não acontece. Hoje é lindo ver casais LGBT com um filho. Essas conquistas maravilhosas me emocionam”, declarou Edson, de 63 anos.  Ainda que as políticas públicas em prol da segurança da comunidade tenham avançado nos últimos anos, a violência contra pessoas homossexuais e bissexuais aumentou em 1.110,99% de 2014 até 2023, segundo o Atlas da Violência de 2025. Para pessoas transexuais, o aumento é ainda mais substancial: 1.607,69% de aumento de violência contra homens trans e um aumento de 2.340,74% contra pessoas travestis.   Para Louis, estudante de 15 anos, a transfobia é um dos assuntos mais urgentes dentro da pauta LGBT+. “Muitas travestis são espancadas no meio da rua e ninguém fala nada, não chega no jornal. Eu acho isso um pecado. Eles ficam falando que a gente é pecado, mas vão lá e cometem pior”, argumenta.
“Votinho”, boneco que representou a urna eletrônica na 30ª edição da Parada LGBTQIAPN+ em 2026.Foto: Lara Manasseh/AGEMT

 

A manifestação que deu origem à Parada aconteceu em 1996, na Praça Roosevelt, em São Paulo, e reuniu cerca de 500 pessoas. No ano seguinte, a primeira edição oficial aconteceu na Avenida Paulista, com cerca de 2 mil pessoas. Em 2006, a 10ª edição do evento bateu recordes internacionais ao reunir mais de 2,5 milhões de pessoas - marco que consolidou a edição paulista da Parada do Orgulho como a maior do mundo. 

“Eu apanhei na Paulista quando ainda tinha ditadura porque eu beijei um homem. Eu apanhei da polícia na cara. Hoje isso não acontece. Hoje é lindo ver casais LGBT com um filho. Essas conquistas maravilhosas me emocionam”, declarou Edson, de 63 anos. 

Ainda que as políticas públicas em prol da segurança da comunidade tenham avançado nos últimos anos, a violência contra pessoas homossexuais e bissexuais aumentou em 1.110,99% de 2014 até 2023, segundo o Atlas da Violência de 2025. Para pessoas transexuais, o aumento é ainda mais substancial: 1.607,69% de aumento de violência contra homens trans e um aumento de 2.340,74% contra pessoas travestis. 

Para Louis, estudante de 15 anos, a transfobia é um dos assuntos mais urgentes dentro da pauta LGBT+. “Muitas travestis são espancadas no meio da rua e ninguém fala nada, não chega no jornal. Eu acho isso um pecado. Eles ficam falando que a gente é pecado, mas vão lá e cometem pior”, argumenta. 

 

Do Lampião ao Unicorns: projetos ao longo da história promovem a autoaceitação da identidade gay
por
Elisa Almeida
João Calegari
Mariana Araujo
|
21/05/2026 - 12h

Em abril de 1978, foi publicada a edição número 0 de Lampião da Esquina. O primeiro jornal ativista pelos direitos civis gays do Brasil. O editorial da primeira edição clamava pela saída da comunidade LGBTQIAN+ dos guetos. O Lampião durou até 1981 e foi o primeiro a abordar a homossexualidade, desafiando censura e preconceitos vigentes no país durante a Ditadura Militar. O jornal caminhava contra a mídia hegemônica e protestava pela forma como a comunidade era retratada em veículos tradicionais. 

Capa do livro-reportagem, Imprensa Gay no Brasil. Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Capa do livro-reportagem Imprensa Gay no Brasil. Foto: Elisa Almeida/AGEMT


Em entrevista à Flávia Péret, autora de “Imprensa Gay no Brasil”, Celso Cury, redator e editor do jornal, conta que em veículos tradicionais, até os glossários não eram adequados aos públicos minoritários. Na Folha de S. Paulo, por exemplo, a palavra “lésbica” era substituída por “feminista”.

A mídia contra-hegemônica surge para representar as necessidades de grupos minoritários, que tentam alertar o grande público sobre o rumo que a sociedade está tomando. Para Rosane Borges, doutora em Comunicação e Linguagem pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e autora de “Imaginários emergentes e mulheres negras”, “ouvir essas vozes não é apenas uma questão de empatia, mas de reconhecer que a desumanização desses grupos apequena toda a sociedade”.

Hoje, veículos da grande mídia apresentam colunas e editoriais dedicados à comunidade queer. Mas, apesar dos avanços, os grupos minoritários continuam sendo perseguidos e violentados por movimentos de fanatismo religioso, preconceitos e ideologias retrógradas.

Além da representação nas mídias, surge a necessidade de espaços de segurança para os membros dessa comunidade. O Unicorns Brazil, projeto multiesportivo voltado ao convívio de pessoas LGBT+, é um desses espaços.

Goleiro Maurício treinando na "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida
Goleiro Maurício treinando na "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT​​​​​​


Filipe Manetta Marquezin, advogado e fundador do projeto, afirma: “O Unicorns acaba sendo um lugar seguro fisicamente, mas também mentalmente, livre de preconceito. Ninguém vai se preocupar se você é gay aqui”.
Quando as vozes contra-hegemônicas se unem, surge uma identificação coletiva, transformando indivíduos isolados em grupos sociais conscientes. Essa união mostra que o “padrão universal” de outrora é, na verdade, uma visão limitada do mundo, argumenta Borges. Segundo a professora do curso de jornalismo da PUC-SP, “a união funciona como uma frente ampla que gera força de pressão sobre os governos. Esse movimento promove a autonomia, a emancipação e serve como uma ferramenta de educação para o conjunto da sociedade.”

Os membros do Unicorns enxergam o grupo como um espaço de pertencimento. Luiz Fernando Cornacioni de Sousa, Gestor de Diversidade e Eventos e administrador do time-escola de futebol, afirma que a ocupação vai além dos campos. “Jogar aqui é assumir um espaço, não só na quadra. Quando saímos juntos para tomar cerveja, as pessoas veem gente diferente, dos mais afeminados aos mais padrões”, conta. 

Reunião pós treino da "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Reunião pós-treino da "Escolinha Unicorns", com os técnicos Alessandro Cadenazi e Wellington Meneses/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT



João Victor Freire, influencer e jogador do time de futebol do Unicorns, relata: “É um processo um pouco mais complexo, não é só do futebol. No meu caso, acho que é um processo de autoaceitação também”. 
“Fui procurando caminhos para achar gente que também é gay, um grupo que me acolhesse melhor, entrar para o Unicorns também é encontrar pessoas com vivências parecidas com a sua”, completa.
Sobre essa busca aos seus semelhantes, Borges explica, “a representação hegemônica estabelece uma normatividade baseada em um padrão cis-hétero, é isso que deslegitima vozes heterogêneas que estão fora desse padrão”. A masculinidade hegemônica transforma o espaço e o convívio fora dele. Para a pesquisadora, Grupos como o Unicorns Brazil reivindicam o direito de voz e de ocupar espaços sem precisar se adequar a padrões tradicionais de comportamento.

Disputa pela bola durante treino da "escolinha Unicorns". Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Disputa pela bola durante treino da "escolinha Unicorns". Foto: Elisa Almeida/AGEMT


Marcelo Douglas Costa, consultor de Costumer Experience, esperava começar o “rachão do Unicorns” quando conversou com a AGEMT, “Eu já sabia que era gay, mas o futebol era uma fuga para mim”. A segurança foi um fator determinante para procurar pelo grupo, “futebol é uma paixão nacional e não era justo sermos excluídos pelo desconforto de outros”.

Os símbolos do Unicorns representam orgulho e aceitação. Paulo Octávio Hueso Andersen, advogado e atleta de futebol do projeto, relata: “a primeira vez que pude representar o time pertencendo a um grupo, foi um momento de orgulho. Quando coloquei a camisa com meu nome e saí na rua ou fui à academia com ela, foi uma reafirmação.”

“Em uma sociedade democrática real, a voz de uma pessoa LGBT, indígena e branca deve ter o mesmo valor e peso político. Sem essa escuta, não há democracia, nem espaço público qualificado”, afirma Borges. Fora das quadras, o projeto Unicorns Zine é um braço de lifestyle do grupo. A revista retrata o dia a dia LGBT em SP. A escritora explica que esse tipo de proposta é um jeito formal de organizar as vozes de uma comunidade. “A mídia contra-hegemônica é fundamental porque funciona como a voz silenciada que irradia os bloqueios da mídia tradicional”, pontua a professora.

Time-escola do Unicorns Brazil/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Time-escola do Unicorns Brazil/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT

 

Requerimento da Câmara Municipal de Londrina tentou impedir a atleta transexual de participar da competição
por
Guilbert Inácio
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03/03/2026 - 12h

Na última quinta-feira (26), a Câmara Municipal de Londrina (PR), em regime de urgência, aprovou um requerimento que vetou a jogadora trans Tiffany Abreu, do Osasco Cristóvão Saúde, na fase final da Copa Brasil de Vôlei Feminino, que ocorreu no município. A medida foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, com os dois braços levantados. Atrás, há a presença de outras jogadoras e da arquibancada.
Em 2017, Tiffany se tornou a primeira mulher trans a atuar na elite do vôlei feminino brasileiro. Foto: Carolina Oliveira/Osasco Cristóvão Saúde

O requerimento 102/2026, protocolado na Câmara pela vereadora Jéssica Ramos Moreno (PP), conhecida como “Jessicão”, foi aprovado por 12 votos favoráveis e quatro contrários. No texto da solicitação, a vereadora cita nominalmente Tiffany e alega que o Osasco inscreveu “o atleta” de forma indevida.

Lei contraditória

A ação foi encaminhada por ofício para a prefeitura, que exige o cumprimento da Lei Municipal nº 13.770/24. Essa norma municipal proibe, em Londrina, a participação de “atleta identificado em contrariedade ao sexo biológico de seu nascimento” em times, competições, eventos e disputas esportivas.

A lei é de autoria de Jessicão e não chegou a ser sancionada pelo então prefeito de Londrina, Marcelo Belinati, mas foi promulgada pelo presidente da Câmara, Emanoel Gomes (Republicanos). Caso a medida seja descumprida, o segundo parágrafo do Art. 2º prevê revogação do alvará da competição e multa administrativa de R$10.000 ao Osasco.

Contudo, a norma tem trechos confusos no campo da ciência, pois ao definir quem está impedido de jogar por "contrariedade ao sexo biológico" o texto mistura identidade de gênero e orientação sexual. “Gay, lésbica, bissexual, pansexual, intersexual, assexual, transexual, agênero, não binário de gênero, cisgênero, transgênero, travesti, entre outros”, diz o segundo parágrafo do Art. 1.

A palavra cisgênero, termo referente às pessoas que se identificam com o sexo biológico atribuído no nascimento, também é mencionada. Em resumo, a lei, como está redigida, abre precedentes para proibir qualquer pessoa de praticar esportes de alto rendimento no município. Isso pode interferir na autonomia das federações de regular as práticas esportivas, além de entrar em conflito com a seção III da Lei Geral do Esporte, que garante o direito fundamental de todas as pessoas à prática esportiva em suas múltiplas e variadas manifestações.

Manifestações e decisões da justiça

Após a aprovação do requerimento, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) e o Osasco recorreram à justiça para garantir a presença da atleta na semifinal da competição contra o Sesc RJ Flamengo, na sexta-feira (27), no Ginásio Moringão.

Em nota no Instagram, o clube paulista se manifestou:

 “Tifanny Abreu atua profissionalmente no voleibol nacional há mais de oito anos. É uma atleta exemplar, dedicada e que cumpre rigorosamente todos os requisitos técnicos, médicos e de elegibilidade exigidos pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), órgão máximo que regula a modalidade no país. Ela está, portanto, regularmente inscrita e apta a disputar qualquer competição sob a chancela da CBV.

Osasco São Cristóvão Saúde entende que as competições esportivas de nível nacional devem ser regidas pelas normas das confederações esportivas nacionais, que possuem a competência técnica e recursos para análise científica para definir os critérios de elegibilidade. A interferência de legislações municipais sobre regras de competições federadas cria um precedente perigoso que ameaça a isonomia e a integridade das disputas esportivas no país.

Nosso clube se pauta pelos valores do esporte, que agregam a inclusão, a diversidade e o respeito a todos os indivíduos. Apoiamos integralmente a nossa atleta e defendemos seu direito constitucional ao trabalho e ao exercício de sua profissão, livre de qualquer forma de discriminação.”
 

Na tarde de sexta-feira (27), o juiz Marcus Renato Nogueira Garcia, da segunda Vara da Fazenda Pública de Londrina, apontou inconstitucionalidade e concedeu liminar que impediu a prefeitura de vetar a ponteira do jogo. A prefeitura atendeu o pedido.

Horas antes do jogo, em liminar, a ministra Cármen Lúcia, do STF e responsável pela relatoria do caso, suspendeu a eficácia da lei até que a ação passe por exame de mérito. Segundo a ministra, a lei geraria: "grande perplexidade e insegurança jurídica e social, por materializar um retrocesso nas políticas de inclusão social, de igualdade de gênero e de promoção da dignidade humana".

A vereadora Paula Vicente (PT), uma das quatro pessoas que votaram contra o requerimento, alegou que vai entrar com ação nos órgãos competentes para revogar a lei.

Tiffany fica

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, recebendo o troféu Viva Vôlei.
Tiffany atuou na semifinal e final da Copa Brasil de Vôlei. Foto: Rafael de Paula/Usina de Ideias/CBV

Na final, no sábado (28), a equipe paulista foi campeã sobre o Minas por 3 sets a 1. Tiffany foi ovacionada pelo público presente no Ginásio Moringão.

Por voto popular, a jogadora do Osasco foi eleita a melhor jogadora da final e recebeu o troféu Viva Vôlei, mas entregou o mérito a Jenna Gray, levantadora e aniversariante do dia, que foi dispensada do Minas no fim da última temporada.

Em entrevista à Sportv, Tiffany mandou um recado para a vereadora Jessicão pedindo para ela se preocupar mais com o esporte da cidade. “Vai buscar incentivo para dar suporte, em vez de excluir, porque o seu trabalho é dar inclusão e não exclusão.”
 

Ataque com xingamentos homofóbicos aconteceu durante as comemorações do 7 de Setembro, por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro; Brasil registra uma morte por homofobia a cada 30 horas
por
Maria Clara Palmeira
Maria Mielli
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10/09/2025 - 12h

Neste domingo (07), o vendedor Bruno Barros, 34, foi agredido por um dos manifestantes presentes no ato pró-Bolsonaro, na Avenida Paulista. A agressão ocorreu na banca em que Bruno e seu marido, Lucas Vinicius, vendem seus artesanatos. Os produtos são voltados à comunidade LGBTQIA +; bandeiras lésbicas, gays, trans, canecas e itens decorativos. 

Em entrevista à AGEMT, Bruno relatou que eles estavam cientes da manifestação, mas que isso não seria um empecilho para cumprir mais um dia de trabalho. Segundo o vendedor, ele tentou inclusive encarar o dia com bom humor: “Eu estava com um leque da comunidade, brincando, porque você percebe quem passa ali e não é bolsonarista. Aquela pessoa te olha, dá um sorriso meio tímido; e aí eu brincava: limpa, limpa, limpa!"

A biomédica Letícia Serafim, que passeava pela avenida com um amigo, contou que não se lembrava da manifestação: “Nunca tinha visto aquilo de perto. As pessoas esbarravam de propósito, como se fossem donas da Paulista. O mais absurdo foi ver bandeiras dos EUA sendo erguidas, no Dia da Independência do Brasil.”

Letícia relatou que foi até um shopping nas proximidades e foi atraída pela banca de Bruno e Lucas: “Foi como entrar numa bolha. Ali tinha música, conversa, acolhimento. Eles eram a verdadeira resistência no meio do caos.”

Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Reprodução/Letícia Serafim
Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Letícia Serafim

Segundo Bruno, alguns dos manifestantes gritavam coisas aleatórias direcionada a ele, de “petista safado” a “Lula ladrão”. Até que um grupo de meninos se aproximou para gravar uma entrevista com ele. “Eu estava falando como eu estava incrédulo, como [o protesto] estava cheio. Foi bem assustador ver o tanto de pessoas que estavam passando. Pessoas que não tem conhecimento nenhum de história, pedindo anistia de pessoas que depredaram o Brasil. É ridículo”, declarou. Mas enquanto conversava com os entrevistadores, um manifestante começou a proferir comentários homofóbicos na direção de Bruno, que interrompeu a entrevista e foi pedir ajuda a policiais que estavam próximos.

Bruno foi então agredido com um soco no maxilar, na frente dos policiais. “Foi do nada. Na hora que ele virou o soco, o policial veio, separou e eu falei ‘agora que eu quero mesmo abrir um BO de agressão e um de homofobia' ”. De acordo com o relato do vendedor, após os policiais conterem o agressor e afastá-lo, eles o soltaram. 

A situação revoltou Bruno que começou a gritar acusando não só o agressor, mas os demais manifestantes de "homofóbicos, racistas, transfóbicos e misóginos”. Em resposta, o grupo inverteu a situação e afirmou que era Bruno quem estava atacando os manifestantes. Lucas, marido de Bruno, tentou acalmá-lo diante aquela situação. “Acho que foi a primeira vez que a gente ficou com medo, eu, meu marido e uma amiga nossa que estava ali”, desabafou à Agemt.

Segundo o Atlas da Violência, produzido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de 2014 a 2023 o registro de violências contra pessoas da comunidade cresceu 1.227%. Em relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), só em 2024 o Brasil registrou 91 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+, o equivalente a uma morte a cada 30 horas. Desde 2019, após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), a homofobia e a transfobia foram equiparadas ao crime de racismo, previsto na Lei n.º 7.716/1989, sendo, portanto, passíveis de punição criminal.

Estudantes da PUC-SP organizaram roda de conversa sobre a presença da comunidade trans na universidade, no mercado de trabalho e nas políticas públicas
por
Beatriz Barboza
Giuliana Zanin
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15/11/2023 - 12h

No final de outubro, a XXIII Semana Acadêmica de Ciências Sociais da  PUC-SP apresentou a palestra “Transvivências: a relação das identidades de gênero no meio social”. O evento foi mediado por estudantes do curso, que receberam a jornalista Dani Avelar, o escritor Jonas Maria e o multiartista Dante Olivier. As pautas discutidas perpassaram a presença da comunidade trans nas instituições de ensino, a adoção de banheiros sem a marcação de gênero e a vivência trans no ambiente digital.

Dani Avelar, formada em Relações Internacionais pela USP e mestre em Jornalismo pelo programa Erasmus Mundus, é a primeira jornalista trans da Folha de S. Paulo. Dani se sente solitária no jornalismo em razão da ausência de pessoas trans e travestis dentro das redações. “Reviso trabalhos para apontar incoerências porque não existe um preparo, dentro das faculdades de jornalismo e das redações, de como os repórteres devem se referir às pessoas trans”, relata.  

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“Precisamos de um jornalismo que fale sobre a realidade das pessoas trans com dignidade", declarou Dani Avelar, a primeira jornalista trans da Folha de S. Paulo. (Foto: Giuliana Zanin)

A jornalista cobre especialmente guerras e conflitos, mas também se dedica às pautas que corroboram para a construção de um “jornalismo trans e travesti”. Quanto à presença da comunidade no mercado de trabalho, Dani ressalta que “nenhuma mudança acontece porque as instituições estão interessadas, mas porque existe uma pressão organizada por pessoas do movimento que reivindicam que pessoas trans também sejam contempladas nas políticas de ações afirmativas”.

Jonas Maria, formado em letras pela UFSJ (Universidade Federal de São João Del-Rei), é criador de conteúdo na internet e se dedica a um curso de pós-graduação em Mídia, Informação e Cultura pela USP.  Há cerca de dez anos, criou um blog para documentar sua transição e relatar a dificuldade de conseguir suporte médico. Hoje, Jonas apresenta o podcast “Degenerados” e faz análises, em seu canal no YouTube, sobre a transexualidade representada na mídia.

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“Fazemos parte da vida social. O que atravessa a comunidade trans também atravessa outras pessoas”, ressalta Jonas Maria, escritor e criador de conteúdo na internet. (Foto: Giuliana Zanin)

Sobre sua experiência na internet, Jonas desabafou: “Eu recebo trabalhos por ser trans. Se você tem um conteúdo extremamente militante, as suas chances de conseguir um job diminuem. É comum que comunicadores trans falem sobre a transsexualidade com vídeos de humor, não com um conteúdo extremamente político. Caso contrário, você só consegue trabalho em janeiro [mês da visibilidade trans] ou em junho [mês da visibilidade LGBTQIAPN+]".

Dante Olivier é natural de Recife, mas reside em São Paulo. Atualmente, trabalha na produção de conteúdo para a internet, mas já exerceu outras atividades. Ele se define como “multiartista” e faz vídeos de humor sobre assuntos cotidianos da comunidade LGBTQIAPN+. Dante relembrou o momento histórico de ver a primeira travesti na Ordem dos Advogados do Brasil, Márcia Rocha, em 2017.  “É muito louco pensar que estamos em 2023 e, somente em 2017, eu vi uma pessoa trans ocupando esse espaço. Por que a gente não existe nesses lugares? Estamos evoluindo a passos pequenos”, afirma.

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“Quero existir, quero que saibam que eu existo e, quem sabe, ajudar outras pessoas”, afirmou Dante Olivier, criador de conteúdo na internet. (Foto: Giuliana Zanin)

 

PRESENÇA TRANS NA UNIVERSIDADE

"Qual o motivo da ausência de pessoas trans na universidade?”, questionou Flora, uma das organizadoras e mediadora do evento. A pergunta introduziu a discussão sobre o acesso da comunidade trans à educação. 

Segundo dados da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), 56% das pessoas trans não possuem o ensino fundamental completo, 28% completaram o ensino médio e apenas 0,02% estão no ensino superior.

Jonas Maria destacou que existem poucos dados sobre as pessoas trans no Brasil. Apenas ONGs têm se organizado para coletar números sobre a comunidade. O escritor ressaltou que, no último censo (2022), foi a primeira vez que o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE) perguntou sobre identidade de gênero e sexualidade.

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Palestra “Transvivências: a relação das identidades de gênero no meio social” (Foto: Giuliana Zanin)

 

Dani acrescenta a importância de incentivar a pesquisa dos índices sociais sobre pessoas transsexuais e travestis. “As ações afirmativas voltadas à comunidade trans não podem ser um copia e cola das soluções propostas pelo movimento negro. Existem particularidades na nossa comunidade, justamente por isso, é fundamental que exista a produção de dados sobre nós”.

Estudantes do curso aproveitaram o momento para alavancar reivindicações sobre banheiros unissex e cotas trans na PUC-SP. “Nome social, adoção de banheiro sem marcação de gênero e programa de cotas são elementos que incentivam pessoas trans a seguirem na educação, acessarem o ensino superior e se firmarem no mercado de trabalho", demarca Jonas. "São estímulos para que as suas vivências não sejam determinadas pela falta de acesso à educação, que ainda é uma forma de ascensão social no Brasil”, conclui.

 

ADOÇÃO DE BANHEIROS SEM MARCAÇÃO DE GÊNERO

Os estudantes manifestaram suas reivindicações a favor da adoção de banheiros sem a marcação de gênero pela instituição. Jonas Maria afirmou que a presença mais ou menos expressiva da comunidade trans dentro de um espaço não deve ser critério para a implementação. “Não se trata de números. Se tem poucas pessoas trans, o problema não é banheiro, mas sim a ausência da comunidade”, ressalta o escritor. 

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Jonas Maria, localizado à direita da imagem, conta o seu relato de ser um homem trans na internet   (Foto: Giuliana Zanin)

Os convidados se posicionaram contrários ao discurso que coloca os possíveis casos de violência como objeção à ação afirmativa. “Pessoas trans são vistas como uma ameaça, como as geradoras da violência dentro dos banheiros e a realidade, na prática, é que a comunidade trans é o alvo desses ataques”, alerta Dani Avelar. 

A jornalista ainda relata que, em uma balada, já foi agredida e expulsa por um segurança por usar o banheiro feminino. “Ele alegou que ‘aquele toilet não era para mim’, sob o pretexto de impedir que um ‘homem’ acessasse um espaço exclusivo para mulheres e cometesse alguma agressão. Isso foi, justamente, o que aconteceu: um homem agrediu uma mulher”. 

"Eu sempre faço um cálculo de segurança para acessar os lugares, sobretudo os banheiros", revela Dani Avelar. "Em qual local eu corro menos risco de sofrer uma agressão? Se eu usar um banheiro feminino, posso sofrer uma agressão verbal, se eu usar um banheiro masculino, posso sofrer uma agressão física”. 

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Alunes do curso de Ciências Sociais reivindicam cotas trans e banheiros unissex. (Foto: Natália Perez)

Os relatos são carregados de dúvidas. “Eu entendo a importância de reivindicar esses espaços para que pessoas trans se sintam seguras, mas prefiro lutar para ocuparmos um espaço que é deles e que é nosso também, sem que fomente essa ‘separação’, e sem que eu precise usar um toilet distante e isolado", declara Dante Olivier. "Estamos falando sobre usar um banheiro com dignidade”. 

LUTA COMPARTILHADA 

A roda de conversa contribuiu para explicitar que as vivências trans tangenciam as demais no meio social, portanto, merecem a atenção não só do Estado, como garantidor de acessos e políticas públicas, mas também dos simpatizantes à comunidade LGBTQIAPN+. Dante destacou que as pessoas cis aliadas devem manifestar seu apoio a partir da utilização de suas vozes e seus espaços para reivindicarem a presença de pessoas trans, seja na universidade, no mercado de trabalho, nas pautas jornalísticas ou nas ações afirmativas.

"Transfobia não se dirige apenas às pessoas trans. Pessoas cis também têm sua identidade de gênero moldada a partir de uma violência transfóbica. É essencial que essas pessoas também se engajem na luta contra a transfobia porque ela delimita o que é aceitável, em termos de expressão de gênero, não só para pessoas trans, mas também para pessoas cis, dentro ou fora da comunidade LGBT”, finalizou a jornalista. 

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A roda de conversa promoveu as reivindicações da comunidade de estudantes trans da universidade. (Foto: Rômulo Santana)

 

Mesmo com boa repercussão, séries centradas em mulheres "Queer" seguem sendo descontinuadas pelos streamings
por
Natália Perez
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29/09/2023 - 12h

As produções audiovisuais que abordam a temática LGBTQIAPN+ vêm crescendo nos grandes streamings, porém, em contramão, observa-se um cancelamento em massa de séries focadas em mulheres lésbicas ou bissexuais. “Não temos protagonismo, não temos final feliz, não temos mais temporadas e mesmo que cada vez mais filmes exaltando o romance entre dois homens cis padrões ganhem espaço na mídia, isso não está abrindo espaço para que outras histórias queer possam ser contadas”, relatou Kelly Cassiano, representante do portal Les Bi Honest focado em compartilhar informações sobre produções com representatividade sáfica.

Um exemplo famoso foi o caso da série “Warrior Nun”, cujo casal principal é composto por duas mulheres, Ava (Alba Baptista) e Beatrice (Kristina Tonteri-Young). Mesmo a série sendo bem recebida pelo público, ela foi cancelada na segunda temporada pela Netflix. Devido a uma grande mobilização dos fãs, a série irá voltar em forma de trilogia de filmes. Entretanto, esse caso se provou uma exceção, já que outras diversas produções com representatividade sáfica continuam sendo descontinuadas.

 

Casal protagonista da série Warrior Nun
Casal protagonista da série Warrior Nun. (Reprodução/Netflix)

 

Ao ser cancelada pouco tempo após sua estreia, First Kill (2022), uma série original Netflix, levantou questionamentos sobre quais seriam os fatores que ocasionaram o abandono de sua produção. Isso porque, mesmo com pouca divulgação, foram registradas mais de 97 milhões de horas assistidas, segundo o What´s on Netflix, durante o período em que se manteve entre as top 10 séries mais vistas da plataforma.

A indignação do público foi ainda maior ao descobrir que esse número foi quase o dobro do registrado por Heartstopper, produção centrada em um casal de homens, que foi renovada para mais três temporadas pouco depois de estrear. Apesar de toda a polêmica, a plataforma ainda não revelou o motivo pelo qual First Kill foi cancelada, deixando os fãs revoltados e entristecidos.

 

Poster de First Kill e Heartstopper, lado a lado, mostrando suas horas assistidas em uma semana
Horas assistidas de First Kill e Heartstopper em postagem oficial da Netflix nas redes sociais. (Divulgação/Netflix)

 

Um levantamento do site Autostraddle descobriu que 48 shows protagonizados por mulheres queer foram cancelados após uma única temporada, mesmo com altas taxas de aprovação em diferentes streamings. Isso representa cerca de 20% das séries inclusivas que, pensadas para mais de uma temporada, acabam por deixar a história em aberto, ou seja, sem conclusão ou final algum.

Para o Les Bi Honest, por sua vez, a razão é simples: “Lesbofobia ou simplesmente a aversão em ver duas mulheres tendo algo que não esteja ligado direta ou indiretamente a nenhum homem", aponta. "Se duas mulheres estão juntas como forma de fetiche para o olhar masculino, elas são exaltadas, mas se é voltado para o público feminino, é visto como errado.”

Pesquisa realizada pelo instituto GLAAD revela que representatividade LGBTQIAPN+ alcançou 21% no audiovisual em 2022, mas maioria é sobre homens gays
por
Natália Perez
Vitória Nascimento
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05/09/2023 - 12h

Nos últimos anos a presença de histórias LGBTQIA+ vem se tornando mais expressiva nas produções cinematográficas de mainstream. Antes o que conseguia ser mostrado quase que somente em filmes independentes, agora chega ao alcance do público geral, principalmente por meio das plataformas de streaming. No Índice Anual de Responsabilidade realizado pelo GLAAD (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation) de 2021, que mapeia a quantidade de personagens LGBTQIAPN+ nos filmes lançados pelos maiores estúdios de Hollywood, como Disney e Warner Bros, mostrou que dos 77 filmes que estrearam naquele ano, 16 continham personagens queers, o que representa 21% do total.

“Com relação à representatividade, eu acho que nos últimos anos demos passos significativos. A indústria está entendendo a importância da luta por representatividade e vem abraçando isso cada vez mais. Hoje em dia, principalmente no streaming, vemos mais diversidade não apenas nas narrativas, mas também nas escalações. Mas acredito que esses avanços ainda estão acontecendo a passos de formiga.” comentou, para o Queer IG, o ator e roteirista Lucas Drummond.

O filme Vermelho, Branco e Sangue Azul estreou sexta (11/08) no Prime Vídeo e vem se mantendo em primeiro em primeiro lugar das produções mais vistas da plataforma em vários países desde então. Na Netflix, a série Heartstopper, que saiu no dia 07/08, se tornou a primeira série queer a alcançar o TOP 1 mundial de acordo com medidor de audiência FlixPatrol.

Entretanto mesmo entre essas produções cheias de diversidade há uma desigualdade de representação. As duas obras mencionadas anteriormente, tem algo em comum: foco em um casal de homens. Essa visibilidade é importante, porém não deve ser a única. A disparidade entre a quantidade de obras de romance entre homens comparada com a entre mulheres é outra questão comumente discutida. Séries como Primeira Morte e Warrior Nun, cujo casal principal é lésbico além de menor visibilidade foram rapidamente canceladas como tantas outras produções com presença de relacionamento homoafetivo feminino. Segundo a Glaad dos 16 filmes inclusivos de 2021, 11 incluíam personagens masculinos gays ao passo que somente quatro incluíam personagens lésbicas, mostrando uma queda na porcentagem delas comparado a anos anteriores.

Alba Baptista e Kristina Tonteri-Young, respectivamente em Warrior Nun.
Alba Baptista e Kristina Tonteri-Young, em cena de Warrior Nun. Foto: Reprodução/Netflix

Essa não é a única diferença, mesmo entre as series delas, outra questão é a ainda menor existência de personagens transgêneros. Em todas as produções citadas até agora, somente Heartstopper conta com uma personagem trans com grande relevância ao plot. Assim, o índice relatou que a primeira vez em cinco anos que um personagem transgênero esteve presente em uma grande produção foi em Amor, Sublime Amor de 2021.

Sobre isso, em entrevista para o jornal Observer, a cineasta brasileira Eliane Caffé afirmou que as produções realizadas para o streaming são um reflexo do que é aceito socialmente: “Há um alinhamento ideológico para aquilo que é mais palatável, de certa forma, por exemplo, os gays brancos de classe alta representados em um drama familiar são totalmente diferentes de você assistir os gays negros da periferia ou países africanos. É muito mais chocante você ver dois homens trepando do que duas mulheres. A mulher trans ou o homem trans, se têm passibilidade, é mais palatável para o consumo. Os filmes e séries que passam pelos filtros dos streamings, é um jeito também de medir como um lado da sociedade que se identifica com a classe dominante, mesmo sendo pobres, estão assimilando esses novos valores, refletindo em quais produções estouram ou não.”

Ainda com espaço para evoluir, e mesmo que com passos desiguais entre as letras da sigla, é fundamental a presença queer no mainstreaming. Esses grupos se fazem cada vez mais presentes no audiovisual popular, normalizando sua existência e trazendo representatividade à próxima geração e conforto as anteriores que cresceram se sentindo invisíveis nas telas.

Esta reportagem foi produzida como atividade extensionista do curso de Jornalismo

Para Silvia Henz, em seu ”perfil LGBTQIAPN+ o L não é de linda, faz parte da minha identidade e faz parte do meu orgulho de resistência”
por
Livia Vilela
Giulia Dadamo
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28/08/2023 - 12h

Silvia Henz, jornalista e influenciadora que fala de moda sustentável nas redes sociais, foi vítima de uma chuva de comentários lesbofóbicos depois de postar foto de ano novo beijando a esposa. 

A influenciadora acumulou mais de 300 mil seguidores no Instagram e no TikTok dando dicas de styling, moda consciente e atemporal para mulheres. Apesar de nunca ter escondido sua orientação sexual ou seu relacionamento de seis anos com a jornalista Nadia Bochi, em janeiro de 2023, foi surpreendida com o que chamou de “limpa de homofóbicos”, perdendo mais de 30 mil seguidores e recebendo uma onda de comentários preconceituosos a respeito do seu casamento. 

“Sempre que eu posto foto com a minha esposa eu sou ‘punida’ por isso em forma de perda de seguidores, mas dessa vez foi diferente. Eu achei que a minha orientação sexual estivesse clara, já que a Nadia sempre aparece nos meus stories, e postei uma foto no primeiro dia do ano. Eu não achei que fosse ter uma debandada tão grande”, afirmou em entrevista para a revista IstoÉ .“Eu demorei muito para chegar onde eu cheguei e parece que toda vez que eu bato um número grande de seguidores, eu sou cancelada por causa da minha orientação sexual. Será que 130 mil seguidores é o máximo que uma lésbica pode chegar?”, continuou. 

A reação de Silvia foi imediata: deletou as mensagens homofóbicas da sua postagem e bloqueou os usuários que realizavam os ataques. Além disso, fixou postagens com a esposa, incluindo uma foto posando com a bandeira LGBTQIAP+, para deixar claro este aspecto da sua vida pessoal e evitar outros possíveis ataques.

Silvia levantando uma bandeira LGBT
Silvia Henz em postagem do Instagram

Para o casal o mais inesperado foi a reação das seguidoras mulheres, com total falta de sororiedade.  “Ela é criadora de conteúdo e ajuda milhares de mulheres a aprender a se vestir, nunca imaginou que as próprias mulheres que a seguem pudessem ter uma reação homofóbica a um simples beijo.”, afirmou Nadia, que já foi repórter do programa Mais Você, da Rede Globo. 

Além disso, Silvia comentou sobre a dificuldade de garantir espaço de mulheres lésbicas no seu eixo. “Não tem grandes lésbicas da moda. Moda é minha área e eu não cresci vendo exemplos de sucesso. Sou a primeira influencer lésbica da [empresa] FHits e várias vezes sou a primeira lésbica dos espaços.” 

O diretor artístico de eventos e produtor, Ivan Oliveira, afirma em entrevista para a AGEMT, porém, que não vê tanta limitação, já que cada vez mais estão presentes todas as variáveis da representatividade LGBT.  

Como um homem gay, ele reconhece que a homofobia ainda é presente no dia a dia da população, visto que, o Brasil - pais de terceiro mundo, latino e patriarcal - possui padrões e paradigmas difíceis de quebrar. “Mas eu vejo cada vez mais a participação de pessoas da comunidade trabalhando em editoriais. As marcas têm tido políticas de inclusão e há uma aceitação muito maior do que antigamente.” 

Após trabalhar por quase 10 anos fazendo desfiles de moda para grandes marcas, incluindo a L´Oréal, percebeu que no caso de influencers, abre-se uma comporta para ‘haters’. “No meio digital existem pessoas que se escondem para comentar atrocidades anonimamente, muitas vezes a fim de conseguir visibilidade.”

“A violência existe, mas como uma consequência da educação do nosso país. Estamos longe de acabar com a homofobia, mas é um trabalho que precisa ser feito arduamente. Ninguém escolhe ser LGBTQIAP+, elas nascem desta forma. Elas são o que são.” 

Esta reportagem foi produzida como atividade extensionista do curso de Jornalismo

Surgindo para a diversão da elite, o futebol faz do preconceito uma de suas trágicas consequências
por
Vinícus Evangelista
Leonardo Gomes
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28/08/2023 - 12h

Foram 74 casos de LGBTfobia registrados no futebol brasileiro apenas no ano de 2022, um aumento de 76% em relação aos anos anteriores. Esse foi o dado levantado em relatório feito pelo coletivo de torcidas “Canarinhos LGBTQ+”, em parceria com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF): “O trabalho mostra uma triste realidade, que estamos lutando para acabar no futebol. A CBF vai sempre combater os preconceitos e trabalhar para que o futebol seja um lugar de inclusão”, afirmou Ednaldo Rodrigues, Presidente da CBF, que é o primeiro negro e nordestino a comandar a entidade. 

 
Apesar da luta travada, a discriminação por orientação sexual no futebol é algo visto na prática a anos, com casos vindo à tona em todo momento. Os mais memoráveis têm a torcida do São Paulo como alvo, sendo, de forma pejorativa, estereotipada com características referentes a pessoas LGBT’s. A situação mais recente aconteceu em maio desse ano, quando em um clássico contra o Corinthians, na casa do rival, ouvia-se o canto: “Vamos, vamos Corinthians, dessas bichas teremos que ganhar”.  
 
Não foi a primeira vez que se foi usado de homofobia para provocar torcedores são paulinos. O hábito ganhou força em 2003, quando o então jogador do Corinthians, Vampeta, falou em entrevista coletiva como é o clima as vésperas de um clássico contra o rival: “semana de clássico não tenho nenhum amigo são paulino, tudo inimigo. Eles do lado de lá defendendo os ‘bambis’, e eu do lado de cá”, afirmou o ex-jogador. 
 
Recém completados 83 anos de história, Bambi é considerada uma das animações mais clássicas da história da Disney, contando a história de um pequeno filhote de cervo que tem características consideradas “feminizadas”. Porém, aquilo que era para ser apenas o nome de um protagonista animal em uma fábula infantil, no futebol se tornou adjetivo para inferiorizar seres humanos a partir de sua sexualidade. 

 
PRECONCEITO CULTURAL E LEGITIMADO 
 

 

Foto: Felipe Siqueira / ge 

 

Segundo artigo publicado por Otávio Nogueira Balzano e João Alberto Steffen Munsberg no Portal da Câmara dos Deputados, o futebol tem, em sua estrutura, marcas de uma sociedade patriarcal ao surgir como esporte para a diversão da elite e ser costurado em torno da hegemonia masculina. Com isso, se tornou natural que os estádios fossem espaços para que a masculinidade fosse exaltada, e assim, ser comum ouvir das arquibancadas manifestações de caráter preconceituoso, mascarando-as como simples forma de “provocação” a torcedores rivais. 

 

Tal prática foi tão legitimada, inclusive por órgãos públicos, que foi apenas em 2019 que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) passou a recomendar que os árbitros relatassem em súmula e documentos oficiais casos de LGBTfobia que acontecessem durante as partidas. Não demorou muito para que, em uma partida entre Vasco e São Paulo, o árbitro Anderson Daronco tivesse que paralisar a partida após um cântico uníssono ecoar nas arquibancadas do Estádio São Januário: “Veado... Time de veado!”. 

 

“24 AQUI NÃO!” 
 
 

Foto: LUIS ROBAYO / AFP via Getty Images 

 

Outra polêmica institucional relacionada da LGBTfobia no futebol envolve o número 24 que, no Brasil, é associado a homossexualidade devido à forte influência do jogo do bicho, onde tal simboliza o animal veado. Nas camisas, foi só na Copa do Mundo de 2022 que o número foi utilizado oficialmente pela seleção brasileira masculina quando, na ocasião, o zagueiro Bremer o vestiu pela primeira vez. 

 

O tabu existente no Brasil acerca do número bateu na porta do volante colombiano Victor Cantillo. O atleta que sempre usou a camisa 24 por todos os clubes que passou em seu país, foi anunciado com a “8” ao ser contratado pelo Corinthians em 2020. Durante sua apresentação, o diretor do clube ao seu lado, hoje presidente, Duílio Monteiro Alves, explicou em tom de piada o porquê da camisa: “24 aqui não!”, comentou o dirigente. 

 

Após a repercussão negativa da fala, Duílio se desculpou, explicando que o motivo do Cantillo usar a “8” é por ter sido usada pelo histórico, também volante colombiano com passagem pela equipe, Freddy Rincón, e que não tem nenhum problema com o número 24. “O Corinthians é o time do povo, time das minorias, time de todos, que sempre usa sua marca a favor de campanhas contra qualquer tipo de preconceito”, explica Duílio.  

Alguns dias após a polêmica, a camisa 24 foi cedida para o jogador, que ainda atua no clube usando a numeração. 
 
 
A RESISTÊNCIA 

 

Foto: Reprodução / Facebook / Bambi Tricolor 

 

Após a fundação da “Canarinhos LGBTQ+”, novos coletivos foram formados, somando um total de 16 grupos de torcidas LGBTQIA+ representando diferentes clubes pelo país, aliando forças e resistindo ao preconceito estruturado ao longo dos séculos pela cultura elitista do esporte, que até hoje deixa suas marcas por todo o país. “As torcidas LGBT’s são muito importantes porque pressionam os clubes a adotar práticas mais efetivas em relação ao assunto. Elas são as grandes responsáveis pelo fato dos times terem aberto os olhos para a homofobia”, comenta o jornalista João Abel, em seu livro denominado “Bicha! Homofobia estrutural no futebol”.